O Bispo D. Pedro da Costa, sobrinho do nosso Cardeal D. Jorge da Costa,

fundou a Universidade de Osma, e segundo parece de sua vida, que anda

escrita por Fr. Bartholomeu Ponce, pag. 73. ordenou a Universidade

no Collegio de Santa Catharina, que edificou na mesma Cidade, o anno

naõ explica, mas sendo a entrada do Bispo de Osma pelos de 1539. e

fallecendo no anno de 1563. neste meyo tempo devia ser a sua fundação,

a qual refere o Arcebispo D. Rodrigo da Cunha nos Bispos do Porto p.

2, addiçaõ ao cap. 34. fol. 449. A Universidade parece que goza de

privilegios de poder dar gràos. Rodrigo Mendes Sylva na sua Poblacion

general de España c. 15. diz que a fundação da Universidade foy no anno

de 1550.

§. X.

_Avila._

No Convento de Religiosos Dominicos de Avila està instituhida a

Universidade por Bullas do Papa Gregorio XIII. anno 1576. Lese neste

Collegio Theologia, e Artes; e pelo privilegio Apostolico se dão tambem

gràos em ambos os Dereitos, e Medicina. O Convento foy fundado por Fr.

Thomaz de Torquemada Inquisidor Mòr de Castella, e com as esmolas do

Fisco, que os Reys Catholicos applicaraõ. Trata desta Universidade o

Bispo de Monopoli D. Fr. Joaõ Lopes na 3. p. da Historia de S. Domingos

l. 3. c. 35. fol. 274.

§. XI.

_Valhadolid._

Da Universidade de Valhadolid faz mençaõ o Licenciado Afonso Garcia

Mata-Moros,[231] mas naõ diz della mais que nomealla por Pinciana. O

Licenciado Medina na Descripçaõ de Espanha escreve della largamente,

mas naõ diz o Fundador, nem o anno, em que foy fundada. Rodrigo Mendes

Sylva no livro, que intitulou Poblacion de España, diz que esta

Universidade foy instituhida pelo Papa Clemente VI. à instancia de

D. Affonso XII. Rey de Castella anno 1346. e ampliada no anno 1483.

e 84. e 1505. mas naõ allega Author. Lem-se nesta Universidade todas

as Faculdades, e tem o mesmo estylo no governo, que a de Salamanca. O

Collegio de S. Gregorio Dominicano na mesma Cidade florece grandemente

em letras: e nelle se pòdem tambem dar gràos por particular privilegio

Apostolico, porque foy feito Universidade no anno de 1608. como se ve

do Bispo de Monopoli 4. p. da Hist. de S. Domingos l. 3. c. 38.

§. XII.

_Oropesa._

Nesta Villa se diz no livro intitulado Poblacion de España, que ha

Universidade com outo Cadeiras, instituhida por D. Francisco de Toledo,

Viso-Rey das Indias, e naõ aponta o anno, nem dà mais razaõ della.

§. XIII.

Andaluzia.

_Ossuna._

A Universidade de Ossuna foy fundada pelo quarto Conde de Urenha D.

Joaõ Telles Giron, no anno 1449. consiste delle o he da Universidade,

da qual trata o Doutor Hieronymo Gudiel na historia dos Girones cap.

34. fol. 118. em hum Collegio, onde se lem todas as sciencias, e o

Reytor

§. XIV.

_Sevilha._

A Universidade de Sevilha se chama Collegio de Maestro Rodrigo,[232]

cujo nome era Rodrigo Fernandes de Santa Ella Arcediago de Reyna, e

Conego de Sevilha, que ordenou se lesse Theologia, e Canones; ao qual

Collegio se juntaraõ depois outras doaçoens, com que se lem tambem

Leys, e Medicina. Seu principio foy pelos annos de 1509. em que morreo

o fundador, como se ve da historia de Sevilha de Alonso Morgado l. 2.

c. 7. fol. 45. No Collegio de Santo Thomaz dos Pregadores da mesma

Cidade, que he fundaçaõ do Cardeal de Essa, se pòdem dar gràos, como os

de Universidade, por particular privilegio, assim se refere na 4. p. da

historia de S. Domingos do Bispo de Monopoli, l. 1. c. 43.

§. XV.

_Granada._

Foy fundaçaõ de Carlos V. anno 1531. ainda que naõ teve effeito, senaõ

depois no anno de 537. Lem-se nella todas as Sciencias, e trata della

D. Francisco Bermudes de Pedraça na Hist. Eccl. de Granada 4. p. c. 55.

§. XVI.

_Baeça._

Na Universidade de Baeça se le Theologia, Filosofia, e letras humanas,

ordenou-se anno 1564. della se trata na historia de Jaem cap. 20. foy

seu Author o Doutor Rodrigo Lopes, e o Veneravel Padre Joaõ de Avila a

deu à execução.

§. XVII.

_Murcia._

Murcia tem dous Collegios, e em cada hum delles se le Theologia,

Filosofia, e letras humanas. O mais antigo he dos Dominicos, que

começou pelos annos de 1310. e ultimamente se reformou por Frey

Fernando de Castilho Author da Historia Dominicana, como se ve da

Historia de Murcia Discur. 16. c. 1. fol. 268. vers. O segundo he da

Companhia, ordenado por D. Estevaõ de Almeida Bispo de Carthagena

Portugues anno 1563. Porèm, nem hum, nem outro parece Universidade,

senaõ Collegio particular, ainda que as liçoens saõ publicas, como

se ve do mesmo Discurso fol. 271. posto que o Padre Andrè Escoto se

persuade, que he Universidade, e por isso a referimos aqui.

§. XVIII.

Galiza.

_Compostella._

Da Universidade de Compostella faz mençaõ o Padre Andrè Escoto na

Biblioteca Hispana, naõ apontando mais que o nome. O Licenciado Molina

no livro das Grandezas de Galiza l. 2. cap. 127. diz que ha nella todas

as Sciencias, mas naõ refere o anno, em que se fundou, nem o Author

della. Porém o Padre Frey Fernando de Oxea na Historia de Santiago, diz

que D. Alonso da Fonseca Arcebispo de Santiago fundou dous Collegios

em Compostella, hum mayor de doze Collegiaes, outro menor de outros

doze, a quem dotou magnificamente, para que nelles se lessem todas

as Faculdades, o que parece foy pelos annos 1462. atè 1504. em que

governou aquella Igreja, e ainda que elle imagina a este estudo mayor

antiguidade, por dizer o Bispo Pelagio no anno de 1073. que nascera

em Compostella, e nella aprendera Theologia, parece que se deve de

entender do estudo particularmente dos Monges, e naõ de Universidade

formada, como a instituhio o Arcebispo D. Affonso. Rodrigo Mendes da

Sylva na sua Poblacion de España cap. 2. do Reyno de Galiza, diz que

a Universidade começou no anno de 1532. em que havia muitos annos que

D. Affonso da Fonseca naõ era Arcebispo; mas podersehia fazer por sua

ordem.

§. XIX.

Biscaya.

_Onhate._

Foy fundada a Universidade de Onhate com o Collegio do Espirito Santo

pelo Bispo de Avila D. Rodrigo de Mercado anno 1543. como refere o

Padre Frey Luiz Ariz Monge Bento na Historia de Avila §. 15. fol. 54.

Nesta Universidade parece naõ ha mais liçoens, que de Filosofia, e

lingua Latina, como se collige do Licenciado Affonso Garcia Mata Mouros

no seu Tratado de Academijs, que anda no segundo Tomo da Hispania

Illustrada, fol. 817. Nesta Universidade aprendeo Estevaõ de Garibay

Author de 40. livros, que intitulou: Compendio historial de Espanha,

que por conter toda a historia della he obra de muita estimaçaõ; por a

qual todos os Reynos de Espanha devem muito a esta Universidade, della

faz particular mençaõ este Author l. 16. c. 10. fol. 442.

§. XX.

Asturias.

_Oviedo._

A Universidade de Oviedo foy fundaçaõ de D. Fernando de Valdés

Arcebispo de Sevilha, Inquisidor Geral, e Presidente de Castella, de

que se faz mençaõ na historia dos Arcebispos de Granada de D. Francisco

Bermudes de Pedraza 4. p. c. 160. Rodrigo Mendes da Sylva na sua

Poblacion general de España c. 9. do Reyno de Leaõ, diz que a fundaçaõ

da Universidade foy no anno de 1580. e que se lem nella todas as

Sciencias. Porèm na vida do Bispo de Oviedo D. Fernando de Valdès, que

anda no Theatro Ecclesiastico da Igreja de Oviedo se diz, que nesta

Universidade se começou a ler no anno de 1608. e que tem 17. Cadeiras,

4. de Theologia, 3. de Artes, 5. de Canones, e 5. de Leys, com renda

de hum conto, e sessenta, e outo mil reis; e se apontaõ os primeiros

Cathedraticos, que nella começaraõ a ler.

§. XXI.

Aragaõ.

_Huesca._

A Universidade de Huesca foy fundada pelo Bispo da mesma Cidade D.

Pedro III. do nome com privilegio delRey de Aragaõ, de estudo geral de

todas as sciencias anno 1354. como se refere no Catalogo dos Prelados

de Aragaõ do Doutor Martim Carrilho, no Catalogo dos Bispos de Huesca

fol. 318. onde se diz, que desta Universidade escreveo hum particular

livro o Doutor Monter. Nesta Cidade fundou Sertorio a primeira

Universidade, que houve em Espanha, como refere Plutarco na sua vida;

mas os Mestres, que nella ensinavaõ, eraõ da lingua Grega, e Latina,

como se vè do mesmo Plutarco, e o nota Aldrete lib. 1. da origem da

lingua Castelhana cap. 20.

§. XXII.

_Çaragoça._

Foy fundada a Universidade de Çaragoça por D. Pedro Cerbuna Prior da

Igreja de Çaragoça, e depois Bispo de Tarragona anno 1583. Lem-se nella

todas as sciencias, como consta da Historia de Nossa Senhora do Pilar

de Çaragoça de Fr. Diogo Morilho tt. 2. c. 24.

§. XXIII.

Catalunha.

_Lerida._

Fundou a Universidade de Lerida ElRey D. Jaime II. de Aragaõ pelos

annos de 1300. com confirmaçaõ Apostolica; e prohibio, que naõ houvesse

outra Universidade em seus Reynos, como refere Hier. de Çurita lib. 5.

dos Annaes de Aragaõ cap. 44.

§. XXIV.

_Perpinhaõ._

Em Perpinhaõ hà Universidade, em que se lem todas as Faculdades, ainda

que nenhum Author dos referidos faz mençaõ della; só Rodrigo Mendes

Sylva, diz que ElRey D. Pedro de Aragaõ a fundou anno de 1349. e assim

naõ podemos saber mais della com certeza.

§. XXV.

_Barcellona._

A Camara de Barcellona, e o Sabio Concelho de Centro saõ fundadores, e

padroeiros desta Universidade, e do erario publico pagaõ estipendios

aos Lentes. Em tempo de Carlos V. se lançou a primeira pedra no

edificio a 18. de Outubro de 1536. debaixo da invocaçaõ de Santa Cruz,

e Santa Eulalia. Lem-se nella todas as Faculdades, e a lingua latina.

ElRey D. Fillipe II. de Castella a reformou com novos privilegios no

anno de 1561. como refere Rodrigo Mendes Sylva na sua Poblacion de

Hespanã, cap. 2. do Principado de Catalunha.

§. XXVI.

_Tarragona._

Foy fundaçaõ a Universidade de Tarragona do Cardeal Gaspar de Cervantes

pelos annos de 1570. Lem-se nella todas as Faculdades, como refere

Andrè Escoto na Bibliotheca Hispana tom. 1. cap. 2. fol. 38.

§. XXVII.

_Gyrona._

No livro intitulado Poblaciones de España se diz, que nesta Cidade de

Gyrona hà Universidade fundada por ElRey D. Fillipe o Prudente anno

1561.

§. XXVIII.

Reyno de Valença.

_Valença._

A Universidade de Valença foy fundada pelo Magistrado da mesma Cidade,

e confirmada com privilegio delRey D. Fernando o Catholico, e do Papa

Alexandre Sexto anno 1449. Lem-se nella todas as Faculdades. Desta

Universidade trata o Licenciado Gaspar Escolano na 1. Decad. da Hist.

de Valen. l. 5. c. 22. & Robl. na vid. do Arceb. Franc. de Sisn. cap.

11.

§. XXIX.

_Luchente._

O Mosteiro dos Padres Prègadores da Villa de Luchente està fundado

no lugar, em que se disse a Missa, e donde se esconderaõ as formas

Consagradas milagrosas, que se guardaõ com os Corporaes de Daroca. Foy

fundado o Mosteiro no anno de 1423. E o Papa Xisto IV. à instancia

de D. Nicolào de Proxita, filho do Fundador, fez a este Convento

Universidade, donde se podessem graduar os Frades da Ordem, como refere

o Bispo de Monopoli Cent. 5. da Historia de S. Domingos c. 24.

§. XXX.

_Origuela._

O Arcebispo de Valença D. Fernando de Loases fundou hum Collegio

de Religiosos de S. Domingos, com mais de dez mil livras de renda,

e alcançou privilegios dos Summos Pontifices para se poderem nelle

graduar. Diz o Licenciado Gaspar Escolano na 3. p. da Historia de

Valença cap. 7. l. 6. que isto foy em seus dias, sem nomear anno, e

como elle imprimio pelos de 611. seria poucos antes. Tambem o Bispo

de Monopoli na 3. p. da Historia de S. Domingos faz mençaõ desta

Universidade. l. 3. cap. 91. e diz que foraõ seus Estatutos tirados

do Collegio de S. Gregorio de Valhadolid. O mesmo Author diz, que no

anno de 1552. confirmou o Papa Julio III. tudo o que o Arcebispo tinha

dado, e concertado com a Ordem sobre este Collegio, e concedeo aos que

nelle estudassem, que podessem ser graduados nas Faculdades, que nelle

aprendessem; porèm que o Papa Pio V. no anno de 1568. deu licença para

que todas as pessoas, assim Ecclesiasticas, como seculares, ainda que

estudassem em qualquer outra parte, podessem ser nelle graduadas em

Artes, Medicina, e em ambos os Dereitos, e Theologia; e concede aos

taes graduados os privilegios, que tem as Universidades de Salamanca,

Valhadolid, e Lerida. Vivem neste Collegio mais de 100. Religiosos,

dos quaes ao menos 60. haõ de ser do corpo da Universidade, Regentes,

Leitores, e Estudantes, como tudo refere o Bispo de Monopoli na

Historia de S. Domingos 5. p. l. 2. c. 25. Rodrigo Mendes Sylva na sua

Poblacion de España, diz que sua fundaçaõ foy anno 1555.

§. XXXI.

_Gandia._

Foy fundada a Universidade de Gandia pelo Santo Francisco de

Borja, sendo Duque daquella Cidade, no anno de 1546. Lem-se nella

Theologia, Philosophia, e Latinidade. Deraõ-lhe os Summos Pontifices,

e o Emperador Carlos V. privilegios de Universidade para graduar

nestas duas sciencias, como refere particularmente o Padre Pedro de

Ribadaneira na vida do Santo Francisco de Borja l. 11. c. 13.

§. XXXII.

Navarra.

_Hirache._

A Universidade de Hirache està fundada no mesmo Mosteiro de Monges

Bentos, intitulado Santa Maria a Real de Hirache, que he Abbadia

celeberrima em Navarra. Le-se nella Theologia, e Filosofia, e por

privilegio se daõ nella os gràos em todas as Sciencias. O Padre Frey

Antonio de Yepes escreve a historia deste Convento no 3. tomo da

historia Geral de S. Bento cent. 4. anno Christi 815. cap. 1. e ainda

que refere largamente o dito privilegio fol. 338. com tudo naõ diz o

anno, em que se lhe concedeo, nem por quem foy concedido, mas em comum

diz, que o privilegio he de Summos Pontifices, e Reys.

§. XXXIII.

_Estella._

No livro das Povoaçoens de Espanha se diz, que nesta Cidade ha

Universidade em hum Collegio fundado anno de 1565. por D. Alonso de

Cordova, e Vellasco, Conde de Alcaudete, e Viso-Rey de Navarra.

§. XXXIV.

_Pamplona._

No dito livro intitulado Poblaciones de Espanha, no titulo desta Cidade

se diz, que tem Universidade instituhida anno 1608. e naõ dà mais razaõ

della.

Do que està dito consta, que as letras em España tiveraõ seu principio

nos Lusitanos, e que se as outras Provincias de Europa levaraõ ventagem

à nossa Espanha em fundarem primeiro Universidades, por estarem os

Espanhoes occupados com as guerras domesticas dos Mouros, nem por

isso se tem mostrado os Espanhoes menos amadores da Sabedoria; pois

em taõ poucos annos tem ornado a toda Espanha com mayor numero de

Universidades, e mais celebres, que nenhuma outra Provincia.

NOTAS DE RODAPÉ:

[219] _Reg. 2. 20. 18._

[220] _Arte Grega do Bracense._

[221] _Estrab. lib. 3._

[222] _Pli. l. 3. c. 1._

[223] _Rodrigo Caro l. 3. c. 68. & l. 3. c._

[224] _Cidade de Deos de S. Agost. l. 8. c. 9._

[225] _Aldrete na lingua Castelhana l. 1. c. 22. f. 148. Plin. l. 7. c.

48. Macr. l. 1. Satur. c. 12._

[226] _Pro Arch. Poet._

[227] _Gelius l. 1. c. 4. & l. 15 c. 15._

[228] _Garib. 1. 5. c. 10._

[229] _Es oto Bibliot. Hispan. tom. 1. c. 2. fol. 30._

[230] _Garib. sup. Robl. na vida do Arceb. Cisner. c. 1._

[231] _Garib. sup._

[232] _Robles na vida do Arceb. Cisner. c. 11._

DISCURSO VI.

_SOBRE A PROPAGAÇAM DO Evangelho nas Provincias de Guiné._

§. I.

_Das condiçoens, com que os Summos Pontifices deraõ aos Reys de

Portugal o Senhorio de Guiné._

Sendo a prègaçaõ do Evangelho na Provincia de Guinè, a primeira que

os Portugueses fizeraõ, e a mais vizinha a este Reyno, he muito para

sentir ser esta a que tem dado menor fruito. Pelo que me pareceo

necessario apontar as causas que impediraõ naõ se reduzir esta obra

à sua perfeiçaõ, para que remediados os impedimentos produza a

seara Evangelica nestas regioens os grandes augmentos, que se della

pódem esperar; pois este he o intento, com que os Reys Portugueses

emprenderaõ as suas Conquistas, e consentem que seus naturaes se

desterrem da propria Patria, e occupem suas forças em habitar, e

cultivar as alheyas.

O Senhorio, que os Reys de Portugal tem em Guinè, em que se incluem os

Estados do Caboverde, Mina, S. Thomè, Angola, e parte de Congo, foy

primeiramente concedido[233] aos Reys de Portugal por huma Bulla do

Papa Martinho V. e depois por outras de Eugenio IV. Nicolao V. Xisto

IV. e Leão X. nas quaes dizem os Summos Pontifices, que daõ o dominio

daquelas terras a esta Coroa com condiçaõ, que os Reys della provejaõ

de Sacerdotes, e Ministros do Evangelho, que bautizem, e ensinem

nossa Santa Fè aos naturaes da terra, encarregando-lhes sobre isso

suas consciencias, como se ve do theor de todas ellas, e por o mesmo

respeito deraõ tambem aos Reys o Padroado de todas as Igrejas daquellas

Provincias, e os dizimos dellas applicaraõ a Commenda Mestral da Ordem

de Christo, para mais largamente acudirem os Reys a estas despezas; o

que por ser nonotorio, e largo de referir, senaõ aponta com as mesmas

palavras das Bullas Apostolicas.

Foraõ os Reys deste Reyno taõ pios, e zelosos da honra de Deos,

que o principal intento, com que emprenderaõ estas conquistas, foy

a propagaçaõ da Fè Catholica, e conversaõ daquella Gentilidade; e

acrescentando-se de novo a este seu desejo a obrigaçaõ de que se

encarregaraõ aos Summos Pontifices acima referidos, procuraraõ com

muito cuidado desencarregar-se desta promessa; e por isso erigiraõ

Igrejas Cathedraes na Ilha de Santiago, de Cabo-Verde, e na Ilha de S.

Thomè, e na Cidade do Salvador de Congo, e em outras partes levantaraõ

Igrejas, e poseraõ Vigarios para administrar os Sacramentos, e ensinar

a Doutrina Christãa; e mandaraõ muitas vezes Religiosos àquellas

partes, particularmente ao Reyno de Congo a fazer esta conversaõ, e

para haver mayor copia de Ministros, fez ElRey D. Joaõ III. o Collegio

da Companhia de Coimbra, e ElRey D. Henrique a Universidade de Evora,

donde sahiraõ, e saem muitos Religiosos, e Varoens doutos nas Letras

Sagradas, que empregaõ as vidas nesta gloriosa empresa. O primeiro

lugar, que os Portugueses povoaraõ na Costa de Guinè, foy a Mina no

anno de 1482. nelle se fez a primeira prégaçaõ, como o dà a entender

Joaõ de Barros Dec. 1. l. 3. c. 2. e com haver mais de 150. annos ao

tempo que se perdeo, naõ havia mais naturaes Christãos, que os de tres,

ou quatro aldeas junto das fortalezas de S. Jorge, e Axem, sendo o

districto deste governo taõ grande, que passa de 200. legoas.

A segunda prégaçaõ se fez em Congo,[234] e começou no anno de 1491.

em que ElRey D. Joaõ II. mandou os Religiosos de S. Francisco, que

bautizaraõ os Reys, e principaes Senhores daquelle Reyno: e por estes

Religiosos morrerem em poucos annos, enviou depois ElRey D. Manoel à

mesma empresa doze Padres dos Azues, a que neste Reyno chamaõ de S.

João Evangelista. E ElRey D. Joaõ III. quatro Sacerdotes da Companhia,

que huns, e outros acabaraõ em breves dias nesta empresa; a qual

continuaraõ depois os Bispos, Conegos, e Clerigos, que o mesmo Rey D.

Joaõ III. mandou, fazendo huma Igreja Cathedral na Cidade do Salvador.

Porém de todas estas prégaçoens se tirou pouco fruito, ainda que foraõ

feitas com grande zelo da salvaçaõ das almas, e concorrendo Deos nellas

com obras maravilhosas, e sem haver resistencia nos naturaes da terra

para receber o Bautismo; porque como a Provincia he muito grande; e os

Ministros muito poucos, a mayor parte dos naturaes do Reyno naõ tem

mais que o nome de Christãos, e os mais delles nunca viraõ Sacerdote; e

tirando o Bautismo, e os nomes, que dos Santos tomaraõ, nos ritos, nos

costumes, e na doutrina, saõ como de antes, quando eraõ Pagaõs. E assim

nascem sem haver Sacerdote, que ensine os filhos, nem quem encaminhe

os pays, nem quem leve por diante a obra de Deos naquella terra. De

modo que sendo esta huma das grandes Christandades de que se podèra

colher copioso fruito, està toda bravîa, por falta de quem a cultive,

sem valer a seus Principes pedirem por tantas vezes ao Papa, e a Sua

Magestade o remedio deste mal.

A Ilha de S. Thomè se povoou no anno de 1493.[235] que hà 159. annos;

e em todo este tempo se doutrinaraõ sómente os Negros Cativos dos

moradores da Ilha; e na terra Firme, só em Oere, porto onde residem

Portugueses, hà alguns Christãos da terra.

Em Angolla des do anno de 1575. em que começou a conquista, atégora

tudo foraõ guerras,[236] e da conversaõ dos naturaes se tratou pouco,

ainda que tem em Loanda hum Collegio da Companhia, e outro Convento

dos Padres Terceiros; porque o Evangelho de Christo he de paz, e naõ

se ha de prègar com as armas nas mãos. E assim tirando os Negros de

Loanda, e Massangano, naõ hà na terra outros Christaõs, senaõ os

escravos, que saem daquelle porto de resgate para Europa, e Novo mundo;

aos quaes bautizaõ, sem os cathequizarem, de maneira, que morrem nas

mesmas embarcaçoens como brutos. Os outros moradores daquella grande

Provincia, assim estaõ como quando nella entramos, antes escandalizados

de nossas armas, que edificados da nossa doutrina.

O Cabo Verde, e suas Ilhas se descobriraõ no anno de 1440.[237] que hà

mais de 200. annos; e a conversaõ, que se fez em todo este tempo, foy

sómente nos escravos das Ilhas de Santiago, e do Fogo, onde estaõ as

nossas povoaçoens, e na terra firme nos portos do Rio de S. Domingos,

Guinalla, Biguba, Rio das Pedras, Bissao, Cacheu, e Joala, em que os

nossos Portugueses residem. Fazem do mesmo modo bautizar os Negros, que

compraõ, ou de que se servem, e nunca se prégou o Evangelho geralmente

a nenhuma daquellas Provincias, até que no anno de 1605. por ordem do

Concelho de Portugal se mandaraõ àquellas partes alguns Religiosos da

Companhia, de que foy por Superior o Padre Balthesar Barreira Varaõ

Apostolico, que nellas fez grande fruito, convertendo alguns Reys da

Serra Leoa, e doutros districtos com muitos dos seus principaes; porém

morrendo-lhe logo os seus companheiros, e elle pouco depois, ficaraõ

outra vez os novamente convertidos desamparados de todo o socorro

espiritual, para continuarem no conhecimento de Deos, e aproveitamento

de suas almas.

§. II.

_Das causas porque em tantos annos se tem feito taõ pouco fruito na

conversaõ dos povos de Guinè._

Do que està dito se tem visto bastantemente o zelo, com que continuaraõ

os Reys deste Reyno na conversaõ dos povos de Guiné, e o pouco fruito,

que deste trabalho se tem colhido; as razoens, que para isso hà, saõ

tres, a primeira nasce dos Ministros Ecclesiasticos, a segunda dos

Portugueses, que trataõ naquellas partes, e a terceira da malignidade

dos clymas daquella terra.

Os Ecclesiasticos, que alli vaõ ter, ou saõ Bispos, ou Religiosos,

ou Clerigos: dos Bispos, ainda que houve alguns zelosos do bem de

suas ovelhas; com tudo os mais delles as desampararaõ, vindo-se dos

seus Bispados pouco tempo depois de là chegarem: de maneira que os

mais delles vieraõ, e morreraõ neste Reyno, e naõ nas suas Igrejas; e

ainda houve alguns que depois de as aceitarem, foy necessario usar com

elles do rigor de justiça, para os fazerem embarcar para hirem residir

nellas (que com taõ pouco animo de residir se aceitaõ às vezes estas

Prelazias) a causa disto he por a terra pela mayor parte ser muito

doentia, habitada de Negros barbaros, e sem policia alguma, de modo que

naõ querem viver nella, senaõ aquelles, que pretendem tirar disso,

ou grande interesse para a alma, ou para o corpo. Os Religiosos, que

foraõ àquellas partes, eraõ poucos, e como naõ tiveraõ successores

(porque as suas Religioens naõ aceitaraõ a empreza) acabaraõ em breve

tempo, depois de gastarem a mòr parte delle em aprender a lingua dos

naturaes: e assim hà muitos annos, que tirando-os das duas casas

de Loanda, senaõ vem naquellas terras Religiosos, senaõ he a caso,

e mais a buscar remedio temporal para seu bem proprio, que naõ o

espiritual da gente della. Por tanto os Ecclesiasticos, que mais

continuaõ nestas Provincias, saõ Clerigos; destes recebem os naturaes

pouca doutrina, porque muitos delles saõ degradados deste Reyno; ou

quando naõ, saõ os que naõ pòdem ter cà outro remedio de vida. De

modo que sendo estes os que lhes haõ de dar exemplo, e doutrina, saõ

impedimento para a salvaçaõ dos naturaes; porque alguns delles com seus

costumes escandalizaõ aquelles povos, que com sua virtude, e doutrina

houveraõ edificar, e converter. E assim, diz destes o Padre Balthesar

Barreira,[238] que só se occupaõ em comprar, e vender, e que nunca

dizem Missa, nem fazem officio algum de Sacerdote, tendo o intento

principal em se tornarem logo para o Reyno, como se vém ricos, ou como

algum remedio para o fazerem.

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