As Dobras de Sevilha se diziaõ Sevilhantes[218] por ElRey D. Afonso o

Sabio as mandar lavrar em Sevilha, nas quaes estava esculpido ElRey

armado a cavallo com a espada na mão com huma letra à roda, que dizia:

_Dominus mihi adjutor_; e da outra as Armas de Castella, e Leaõ; e à

roda: _Alphonsus Dei gratia Rex Cas_. Esta pesava quasi tanto como a

Dobra da Banda, segundo consta de huma, que tenho em meu poder.

As de Leaõ, ou Maravidis Leoneses pesaõ hoje 600. reis, como se vé de

dous de ouro, que tenho de huma parte com hum Leaõ esculpido, e as

letras, que dizem: _Petrus Dei gratia Rex Legionis_; e da outra hum

Castello com as mesmas letras, e parece que ou pela esculptura, ou por

serem batidos em Leaõ, se chamaraõ Leoneses.

As Dobras da Banda eraõ Castelhanas, e chamavaõ-lhes assim, porque de

huma parte tinhaõ as Armas Reaes de Castella, e Leaõ quarteadas em

Cruz, e da outra hum Escudo com huma Banda, que o atravessava do canto

direito para o esquerdo, que foy a empresa delRey D. Afonso Undecimo

de Castella, chamado das Algeziras, como jà dissemos nos Andradas,

que trazem a mesma Banda por Armas. Esta Moeda valia entaõ 120. reis

brancos dos primeiros, que confórme à nossa Moeda, fazem 216. porèm

o ouro da Moeda, segundo o valor que tem o marco, pesa mais de 600.

como se vè por experiencia em duas destas Dobras, que tenho em meu

poder, huma, que se achou na Villa de Alhandra no anno de 621. e outra

junto a S. Manços em huma herdade, que chamaõ a Mesquita, as quaes tem

as insignias jà ditas, e de huma parte diz: _Joannes Dei gratia Rex

Castellæ_, e da banda do Escudo: _Joannes Dei gratia Rex Legionis_.

As Dobras de Dona Branca se batiaõ em Sevilha, e se chamavaõ Dobras

Cruzadas de Dona Branca, porèm dizem se fizeraõ com o dote da Rainha

Dona Branca de Borbon, que ElRey D. Pedro engeitou. Destas Dobras se

faz mençaõ no C. 11. da Chronica delRey D. Pedro, e valiaõ tanto como

as Dobras inteiras, e que o mesmo Rey D. Pedro mandou lavrar, que como

dissemos, pesaõ 600. reis.

Outras mandou bater o mesmo Rey, que pesavaõ ametade menos, como se

vé de huma, que se achou em Evora, que eu tenho esculpida de huma

parte com o rosto do mesmo Rey com Coroa sem barra, e da outra com hum

Castello, as letras do primeiro circulo saõ: _Petrus Dei gratia Rex

Legionis;_ e da outra: _Petrus Dei gratia Rex Castelæ._

NOTAS DE RODAPÉ:

[187] _Tacit. l. de Morib. Germ._

[188] _Matth 13. 52._

[189] _Moral. t. 2. l. 18. c. 71._

[190] _Moral. tom. 2. l. II. c. 65._

[191] _Moral. t. 2. l. 12. c. 2. & 4._

[192] _Moral. l. 12. c. 9._

[193] _Moral. l. 12. c. 10._

[194] _Moral. l. 12. c. II._

[195] _Moral. l. 12. c. 14._

[196] _Dialogo 8._

[197] _Moral, l. 12. c. 16._

[198] _Dialogo 8._

[199] _Moral. l. 12. c. 30._

[200] _Moral. l. 12. c. 14._

[201] _Dialogo 8._

[202] _Moral. l. 12. c. 53._

[203] _Moral. l. 12. c. 57. & 63._

[204] _Moral. l. 12. c. 65._

[205] _Moral. l. 12. c. 67._

[206] _Ausenij Catalogus Urbium nobilium._

[207] _Chron. delRey D. Ped. c. 11._

[208] _Chron. do Conde D. Pedro de Meneses 1. p. c. 81._

[209] _Moral. p. 3. t. 13. no principio averiguaçaõ do Maravedi._

[210] _3. p. da Monarq. Lusit. l. 10. c. 7._

[211] _Estas comparaçoens do marco de outro em 30U. reis era o valor,

que tinhaõ quando se fez este Discurso, e o mesmo se entenda dos 2U600.

reis ao marco de prata._

[212] _Chron. delRey D. Joaõ I. 1. p. c. 49._

[213] _Chron. delRey D. Fern. c. 56. e Chron. delRey D. Joaõ I. p. 2.

c. 50_

[214] _Ord. Antig. t. 1. l. 4._

[215] Fr. Hier. Romano Republ. Christ. l.c.

[216] _Chron. de D. Joaõ 2. c. 56._

[217] _Todas as Computaçoens que neste Tratado se fazem das moedas

antigas com as que agora correm, se entendem a respeito da valia do

marco de prata de 2U600. e do ouro 60U. que tinhaõ quando este Tratado

se compoz antes da felice acclamaçaõ de Sua Magestade._

[218] _Chron. delRey D. P.c. 11._

DISCURSO V

_SOBRE AS UNIVERSIDADES de Espanha._

§. I.

Refere-se na Sagrada Escriptura,[219] que era proverbio em Palestina.

_Qui interrogant, interrogent in Abellà_, com que se dava a entender,

que quem quisesse ter verdadeira sciencia, e conhecimento das cousas, a

fosse aprender a Abellà, porque esta era a Cidade daquella Provincia,

onde havia escholas publicas de todas as Artes. O mesmo podemos dizer

das nossas Universidades de Espanha; pois a ellas reconhecem todas as

sciencias grande parte de suas perfeitas noticias, e nestas Academias

se exercitaõ os engenhos Espanhoes de tal maneira, que naõ fizeraõ no

mundo menos famosos pelas letras, que pelas armas. Alguns Authores

procuraraõ escrever destas Universidades particulares Tratados, entre

os quaes foraõ mais largos o Licenciado Afonso Garcia Mata-Moros, cuja

obra anda no segundo tomo da _Hispania Illustrata_, e o Padre Andre

Escoto no principio da _Bibliotbeca Hispana_, Estevaõ de Garibai no seu

Compendio Historico lib. 16. cap. 10. e o Mestre Eugenio de Robles na

vida do Arcebispo Cardeal D. Francisco Ximenes cap. 11. Porém occupados

estes Authores com referir alguns Varoens doutos, que nas Universidades

floreceraõ; dellas quasi naõ dizem mais, que os nomes, e ainda nestes

faltaõ. Pelo que em graça dos estudiosos das boas letras apontarey

neste Cathalogo as Universidades, que hà em cada Provincia de Espanha;

quem foraõ os Fundadores, quãdo começarão, que Faculdades nellas

se ensinaõ, e os Authores, que de cada huma mais particularmente

escreveraõ.

§. II.

_Principio das sciencias na Lusitania._

Elysa Neto de Noè, que he o mesmo Luso (porque o Ypsilon pronunciavaõ os

Gregos por V.) foy o primeiro que povoou Espanha[220] dando principio

à fundaçaõ de Lisboa, que delle tomou o nome _Elysea_, e os seus

campos: _Elyseos_; e a Provincia _Lysitania_, & _Lusitania_ como o

provaõ Joaõ Goropio. Chamaraõ-se depois estes habitadores de Lisboa

Turdolos, e multiplicando-se pelo tempo adiante, povoaraõ toda a terra

de Andaluzia, onde retiveraõ o mesmo nome de Turdolos, e depois de

Turdetanos; quasi Turdoletanos, ou Bolitanos, como os chama Apiano

Alexandrino, ficando sempre aos de Lisboa o nome de Turdolos Veteres,

ou antigos, por delles procederem os de mais. Por onde, confórme aos

Antigos Geographos, naõ sómente se chamou Lusitania, e pertencia a esta

Provincia toda a terra, que estava entre Douro, e Guadiana; mas do

Oceano Setentrional, até o Mediterraneo de Valença: e por isso chama

Estrabo[221] aos Lusitanos: _Gens amplissima_, suas palavras saõ:

_Tagi verò regio ad Aquilonem spectans Lusitania est, inter Hispanos

gens amplissima, & annis plurimis Romonorum armis oppugnata, hujus

regionis latus Australe Tagus cingit; ab Occasu verò, & Septentrione

Occeanus; ab Aurora Carpetani._ Da outra parte da Turdetania o confesa

o mesmo Plinio,[222] affirmando que os Celticos de Espanha eraõ

Colonias dos Celtiberos da Lusitania, como se vé destas palavras: _Quæ

autem regio à Beti ad fluvium Anam tendit, extra prædicta, Beturia

appellatur, in duas divisa partes, totidemque gentes, Celticos, qui

Lusitaniam attingunt Hispalensis Conventus, Turdulos, qui Lusitaniam,

& Tarraconensem accolunt, jura Cordubam petunt. Celticos à Celtiberis

ex Lusitania advenisse, manifestum est, sacris, linguis, oppidorum

vocabulis_. Quasi dizendo: A regiaõ, que se estende des de Betis ao Rio

Guadiana, se chama Beturia, dividida em duas partes, e em outras tantas

gentes, Celticos com a Lusitania do termo de Sevilha, e os Turdolos,

que habitaõ a Lusitania, e a Tarraconense, e pedem sua justiça em

Cordova. Cousa certa he, terem vindo os Celticos dos Celtiberos da

Lusitania; prova-se, pela religiaõ, pela lingua, e pelos vocabulos

dos povos. Isto mesmo confessa o doutissimo Rodrigo Cato[223] nas

Antiguidades do Principado de Sevilha, dizendo: _Beturia por ventura,

tomò el nombre del rio Betis, llamose assi mismo Vetonia, y con nombre

mas general Lusitania, en ella fue ilustrissima la ciudad de Merida,

que fue convento juridico, y tuvo jurdicion, y finalmente fue cabeça,

de la Lusitania_. E Ortelio no seu Thesouro fallando de Olitingi, diz

que estava na Lusitania entre as fozes de Gualdalquibir, e Guadiana:

_Olitingi Hispaniæ oppidum Pomponio in Lusitania intra Betis ostia,

& Anæ fluminum videtur_. Destas authoridades se mostra claro, que os

Lusitanos povoaraõ tambem toda a Turdetania; porèm que a Vetonia, como

mais vizinha, reteve mais o nome de Lusitania; e assim na Vetonia

ficou sendo cabeça da Lusitania Merida, e dentro da mesma Provincia

Cordova, Italica, Hispalis, ou Sevilha. Os Principes que governaõ pòdem

estender, e diminuir os limites das Provincias para mòr commodidade;

mas nem por isso deixa de ser a gente a que era dantes.

Turdetanos, diz Estrabo, como logo vetemos, que em seu tempo tinhaõ

leys escritas em verso de seis mil annos; donde se vè, que os Lusitanos

foraõ os primeiros professores das letras, que houve em Espanha, e

taõ antigos no exercicio dellas, que Santo Agostinho na Cidade de

Deos[224] os poem entre os primeiros, que ensinaraõ no mundo, como

refere Luiz Vives nos seus Commentarios. Estes Turdetanos foraõ sempre

continuando com a doutrina, e crescendo nas sciencias de maneira, que

havia entre elles Universidades, e grandes volumes de antiguidades.

Pelo que foraõ estimados pelos mais polidos povos de Espanha; como diz

o mesmo Estrabo neste lugar: _Hi inter Hispaniæ populos_ (diz elle)

_sapientia putantur excellere, & literarum studijs utuntur, & memorandæ

vetustatis volumina habent poemata, leges quoque versibus conscriptas è

sex annorum millibus, ut aiunt_. Estes annos se haõ de entender de tres

meses, segundo o antigo computo dos Espanhoes, que referem[225] varios

Authores; e assim vem a fazer estes seis mil annos, os que havia depois

da pouoaçaõ de Espanha, atè o tempo de Augusto, em que Estrabo escreveo.

Nestes estudos de Turdetania floreceo, e ensinou Asclypiades Merliano,

que escreveo a Navegaçaõ, e naufragios de Olyses, de quem o mesmo

Estrabo faz particular mençaõ.

Vendo pois Sertorio nos Lusitanos este antigo amor das Sciencias,

quiz usar delle para utilidade sua como excellente Politico, e sendo

chamado pelos Lusitanos por seu Capitaõ, e Governador, lhes mandou

vir novos Mestres das Artes, que entaõ se professavaõ: instituhio

huma Universidade em Guesca Cidade de Aragaõ, onde foraõ logo estudar

os filhos dos principaes Lusitanos, que lhe ficaraõ servindo de

refens para senaõ poderem levantar contra elle, como conta, e nota

particularmente Plutarco na sua vida; mas sendo depois morto, e

senhoreando-se de tudo Metello, levou estes Lusitanos, como por trofeos

a Roma, por serem excellentes Poetas, segundo refere Tullio,[226] ainda

que diz delles, que eraõ _Pingue quiddam sonantibus_: porque parece naõ

pronunciavaõ bem a lingua latina; e com tudo pouco depois foy Mestre

da mesma Roma Antonio Juliano, de quem faz mençaõ Aulo Gelio,[227] e

Quintiliano. E pois o nome de Lusitania alcançava a Cordova, como os

Authores allegados confessaõ, bem podemos chamar nossos Lucano, Seneca,

e Silio Italico, que tanto floreceraõ em tempo dos Romanos.

Aqui nesta Provincia dos Turdolos antigos se devia conservar mais

a Sciencia, pois a tinhão taõ antiga, principalmente em Beja, e

Santarèm, onde pelos tribunaes das Chancellarias, que os Romanos nellas

instituiraõ, se deviaõ praticar mais as letras, como parece bem pelos

Authores, que destes Conventos juridicos da Lusitania sahiraõ, ainda em

tempo dos Godos, como de Santarém João Abbade de Valclara, e Bispo de

Girona; e de Beja Isidoro, Aprigio, Pacenses, e outros muitos, que no

Cathalogo dos Authores Portugueses sahiraõ à luz com grandissima honra

de suas Patrias, e de toda Lusitania.

Depois dos Godos sobrevieraõ as inundaçoens dos barbaros Arabes, que

confundiraõ, e desfizeraõ as memorias de todas; mas tornando com

grande trabalho a restaurar o perdido, os Reys de Oviedo, e Leão, foy

a Provincia de Portugal huma das primeiras, que conseguio a liberdade.

Deu-se Portugal por ElRey D. Afonso VI. (que ganhou Toledo) em dote

ao Conde D. Henrique com sua filha Dona Tharesa; donde começou a

clarissima successaõ dos nossos Reys Portugueses, de cuja virtude,

e esforço tiveramos grandes memorias, se as continuas guerras dos

primeiros D. Afonso, e D. Sancho na conquista do Reyno naõ tirassem o

lugar à curiosidade, e dos outros dous, suas particulares discordias

os naõ tiveraõ inquietos quasi todo o tempo, que reynaraõ, e por

juntamente se prezarem mais naquelle tempo as armas, que as sciencias,

temos delles taõ poucas memorias.

Porèm vindo o Infante D. Afonso Conde de Bolonha de França para

governar este Reyno de Portugal em lugar de seu irmão, trouxe consigo

alguma mais policîa, com a pratica, que em França tivera, que entaõ era

o mais florente Reyno de toda Europa, e assim mandou crear os Infantes

seus filhos D. Diniz, e D. Affonso na boa disciplina de todas as Artes,

em que sahiraõ taõ excellentes, que nenhuns Principes do seu tempo se

lhe avantajaraõ, principalmente ElRey D. Diniz, o qual teve grande

conhecimento das boas letras, em que pelo tempo adiante fez varias

obras, e ferveo nelle tanto o desejo de ver as sciencias em Portugal,

que foy o primeiro, que fez Universidade neste Reyno, para se lerem

nella todas as disciplinas, e artes liberaes, da qual, e das outras de

Espanha o Catalogo he o seguinte.

§. III.

Catalogo das Universidades de Espanha.

_Universidades de Portugal._

_Universidade de Coimbra._

A Universidade de Coimbra foy a primeira Universidade, que em Espanha

foy creada com privilegios Apostolicos, a qual se instituhio à

instancia de muitos Prelados do Reyno, que offereceraõ para os salarios

dos Mestres os rendimentos de algumas Igrejas, e ElRey D. Diniz em seu

nome, e de todos fez supplica para sua creaçaõ em Roma anno 1288. e

o Papa Nicolao IV. passou as Bullas no anno 1290. que saõ 44. annos

primeiro que o Papa Joaõ XXII. passasse as Bullas para a de Salamanca.

Foy esta Universidade fundada em Lisboa por ElRey D. Diniz, e depois

passada por elle a Coimbra, donde em tempo de seu filho D. Affonso

IV. se tornou para Lisboa, e nella esteve muitos annos, e foy muy

accrescentada por o Infante D. Henrique, Mestre de Christo, filho

delRey D. Joaõ I. o qual lhe deu as suas casas, que agora chamaõ

Escolas Geraes para Aulas das Sciencias: porèm ElRey D. Joaõ III. a

amplificou mais que todos, e a tornou a Coimbra, trazendo para Mestres

os mais eminentes sojeitos, que entaõ havia em Europa.

Lem-se nestas Universidades todas as faculdades. De Theologia ha

seis Cadeiras, de Canones sete, de Leys outo, de Medicina seis, de

Mathematica huma, outra de Musica, de Artes quatro Cursos; de linguas,

huma de Hebraico, outra de Grego, onze de Latim, e duas de ler, e

escrever, e contar. A Filosofia, e linguas se ensinaõ no Collegio dos

Padres da Companhia, e elles saõ os Lentes.

A Universidade se governa por hum Reytor, o qual preside aos Conselhos,

que saõ quatro, hum de Conselheiros, outro de Deputados, o terceiro

dos Conselheiros, e Deputados, que se chama Claustro; o quarto, que

se chama Claustro pleno, consta de todos os Lentes, Conselheiros, e

Deputados; e aqui se provem muitos prazos, e beneficios rendosos, todas

as Conesias Doutoraes do Reyno, algumas das quaes chegaõ a dous, e tres

mil cruzados de renda.

Desta Universidade foraõ Mestres, e tem sahido doutissimos Varoens,

como entre outros na Theologia o Padre Francisco Soares da Companhia, o

Padre Frey Egido da Fonseca Religioso de Santo Agostinho.

Na Sagrada Escritura o Padre Frey Hieronymo de Azambuja, chamado

Oleastro, Frey Heytor Pinto da Ordem de S. Hieronymo, Frey Luiz de

Sotto Mayor, o Padre Sebastiaõ Barradas da Companhia, cujos livros

correm com grande applauso por toda Europa.

Nos Canones o Doutor Martim de Aspilcueta Navarro, e o Arcebispo

Primàs D. Rodrigo da Cunha, D. Sebastiaõ Cesar de Meneses; os D. D.

Christovaõ Joaõ, Luiz Correa, Diogo de Brito, Francisco Vaz de Gouvea,

Joaõ de Carvalho, o Bispo Ugentino Agostinho Barbosa, e outros. Nas

leys o grande Pedro Barbosa, o Subtilissimo Manoel da Costa, Miguel de

Cabedo, o Doutor Ayres Pinhel, Alvaro Vaz, Luiz Pereira, e outros.

Na Medicina o grande Thomaz Rodrigues, o Doutor Garcia d’Horta, e

Christovaõ da Costa Escritores das Drogas do Oriente.

Na Filosofia o Padre Manoel de Goes, Author dos Cursos Conimbricenses,

e o Padre Pedro da Fonseca clarissimo interprete de Aristoteles, e seu

Commentador, e que foy Mestre na Filosofia, e Mathematica do Padre

Christovaõ Clavio, que tanto tem illustrado com os seus numerosos, e

excellentes escritos estas Sciencias, que aprendeo em Coimbra, lendo o

Padre Pedro da Fonseca os Cursos.

O numero de Authores, que em todas estas profissoens escreveraõ, he

taõ grande, que só os que se poderaõ colligir com noticia particular,

passaõ de 1500. como se verà do Catalogo dos Escritores Portugueses,

que està cada hora para sahir a luz. Mas naõ saõ menos de ponderar as

acçoens estudiosas dos Oppositores ordinarios desta Universidade, os

quaes naõ contentes com as liçoens de ponto, para que se daõ nas mais

Universidades 24. horas, todos elles ostentaõ, que vem a ser lerem

quasi de repente, naõ se detendo mais, que em quanto lhes mostraõ o

ponto, e se vaõ subir à Cadeira: e outros por mostrar mais a flor de

seus engenhos, repetiraõ, e leraõ o ponto em versos latinos, cousa

naõ vista nunca em nenhuma Universidade do Mundo atè aquelle tempo.

Desta Universidade de Coimbra trataõ particularmente Pedro de Mariz

nos Dialogos de Varia historia Dialog. 5. cap. 3. fol. 553. e Afonso

Garcia Mata-Moros, no seu Tratado de Academiis, que anda na Hispania

illustrada fol. 815. o Padre André Escoto na Biblioteca Hispana tit. 1.

cap. 2. fol. 28. Frey Hieronymo Roman na Republica Christã l. 5. cap.

21. fol. 299. o Doutor Francisco de Monçaõ no seu Espelho de Principes

l. 1. c. 36. fol. 85.

§. IV.

_Universidade de Evora._

A Universidade de Evora foy fundada pelo Cardeal, e Rey D. Henrique

a 20. de Setembro de 1558. annos, como se ve no Anacephaleose 21. do

Padre Antonio de Vasconcellos fol. 331. faz della mençaõ o Padre Andre

Escoto tom. 1. cap. 2, fol. 29. Lese nella Theologia, Philosophia, e

Latinidade.

Da Theologia Escholastica hà tres liçoens, e huma da Escritura; duas da

Theologia Moral; hà quatro Cadeiras de Cursos de Philosophia: ensina-se

a Rhetorica, Humanidades, e lingua latina em outo Classes, e duas mais

de ler, e escrever. Floreceraõ nesta Universidade grandes Theologos,

Philosophos, e Humanistas: aqui ensinou muitos annos o Padre Molina,

e compoz os seus livros de Justitia, o Padre Fernaõ Rebello sobre os

contratos, o Padre Braz Viegas, que escreveo sobre o Apocalypse, o

Padre Bento Fernandes, que escreveo sobre o Genesis, o Padre Sebastiaõ

do Couto insigne Philosopho, e Autor dos Cõmentarios da Logica, o Padre

Manoel Pimenta eruditissimo nas letras sagradas, e humanas, e o Padre

Francisco de Mendoça, cujos livros sobre os Reys saõ em toda a parte

muito celebrados.

§. V.

Leaõ, e Castella.

_Salamanca._

Os estudos de Palencia foraõ fundados[228] por ElRey D. Afonso de Leaõ;

mas esta fundaçaõ foy só dar privilegios aos Mestres, que quisessem

ensinar os Estudantes, no anno de 1200. O mesmo fez ElRey D.Fernando

II. de Leaõ em Salamanca, de modo que nenhuma destas Universidades

teve sallarios, nem liçoens certas, senaõ voluntarias; e por isso

se extinguiraõ de todo as liçoens de Palença, e naõ se mudaraõ para

Salamanca, como alguns querem dizer.

A segunda fundaçaõ de Salamanca foy feita por ElRey D. Afonso o Sabio

no anno de 1254. assinalando sallarios para os Mestres; porèm naõ teve

Universidade por authoridade Apostolica atè o anno de 1334. em que o

Papa Joaõ XXII. deu sua authoridade ao Mestre Eschola para o governo

de Universidade, e dar os gràos nas sciencias; por onde de entaõ

para cà começou a antiguidade da Universidade. E por quanto a nossa

Universidade de Coimbra foy instituida pelo Papa Nicolào IV. anno 1290.

ficaõ sendo as Bulas de Salamanca mais modernas, que as de Coimbra 44.

annos. Esta opiniaõ porém da antiguidade da Universidade de Salamanca

naõ he taõ certa, que senaõ diga della na Biblioteca Hispana do Padre

Andre Escoto que antes do anno 1404 naõ hà cousa certa nesta materia,

como se vé destas palavras: _Salmanticensis in Regno Castellæ, de cujus

institutionis tempore parum constare affirmat Sabarellus Card. Clem.

I. de Magistris; alij tamen anno Domini 1404. erectam asserunt_.[229]

Esta Universidade floreceo em mayor numero de Estudantes, que nenhuma

outra de Espanha, e pòde ser que fóra della: porque chegaraõ a passar

de 15U000. e como eraõ tantos, foy necessario multiplicarem-se as

liçoens, porque naõ havia Aula, em que coubessem todos os ouvintes de

huma profissaõ; e assim acrescentaraõ duas liçoens de Prima, e Vespera,

e chegou o numero dos Lentes a 60. Os homens eminentes, que desta

Universidade tem sahido, e Authores insignes, podemos dizer, que saõ

sem numero, por sua grande multidaõ; o mais se pòde ver largamente na

historia de Salamanca de Gil Gonçalves de Avila l. 2. c. 17.

§. VI

_Toledo._

A Universidade de Toledo foy fundaçaõ do Mestre Eschola D. Francisco

Alvares de Toledo[230] anno 1490. segundo o Padre Fr. Barnabè de

Montalvo na Chronica de Cister 1. p. l. 5. c. 43. Rodrigo Mendez

Sylva no seu livro da Povoaçaõ geral de Espanha l. 1. c. 6. diz que a

fundaçaõ desta Universidade foy feita no Collegio de Santa Catharina no

anno 1485. e que se fez com authoridade do Summo Pontifice Innocencio

VIII. e depois com Bulas de Leaõ X. e Paulo III. approvando tudo o

Emperador Carlos V. o qual a ampliou, e no anno de 1520. lhe concedeo

os privilegios da Universidade de Salamanca.

§. VII.

_Siguença._

Fundou a Universidade de Siguença o Arcediago de Almazan D. Joaõ Lopes

de Medina no Collegio de Santo Antonio de Porta cæli de Religiosos

Hieronymos da mesma Cidade; e ainda que a dotaçaõ se fez no anno de

1471. acabou-se de ordenar o Collegio no anno de 1501. Lese aqui

Theologia, e Philosophia, e se daõ os mais gràos por privilegio. Trata

desta Universidade o Padre Fr. Jozè de Siguença na historia de S. Hier.

l. 3. c. 6. fol. 27.

§. VIII.

_Alcalà de Henares._

A Universidade de Alcalà de Henares foy fundaçaõ do Arcebispo de Toledo

D. Francisco Ximenes anno de 1508. Lem-se nella todas as sciencias, e

letras humanas, e as linguas Grega, e Hebraica, como refere largamente

o Mestre Eugenio de Roble na vida do Arcebispo fundador cap. 16. pag.

127.

O governo da Universidade està no Reytor do Collegio de Santo

Illefonso, a quem o Arcebispo nomeou por Advogado della; pela devaçaõ,

que tinha a este Santo, por haver sido Arcebispo de Toledo, e muy douto

em todas as sciencias.

Saõ as Cadeiras da Universidade 42. seis de Theologia, seis de Canones,

quatro de Medicina, huma de Anatomia, outra de Cirurgia, outo de Artes,

huma de Moral, outra de Mathematica, quatro de Grego, e Hebraico,

quatro de Rhetorica, e seis de Grammatica latina.

He esta Universidade de Alcalà illustrissima, por muitas prerogativas;

porque nella se compoz, e publicou primeiro a Biblia, que de seu

nome se chama Complutense com os Textos das quatro linguas Hebraica,

Syriaca, Grega, e Latina. Tem o Collegio trilingue com 36. Collegiaes,

para que estudem Hebraico, Grego, e Latim. A Igreja da Villa tem o

titulo de S. Justo, e Pastor, por estarem nella seus sagrados corpos,

e he Collegiada de sete Dignidades, 30. Conegos, e 19. Beneficiados,

que todos saõ providos, e graduados pela Universidade, as Dignidades, e

Conesias em Doutores, e os Beneficios em Mestres em Artes; fazem-se os

provimentos nos Graduados assistentes, que se achaõ na Universidade a

tempo das vacantes, entrando nas prebendas por suas antiguidades; o que

he occasiaõ para se graduarem muitos, e residirem nella continuamente

grande numero delles; e sobre tudo para estar aquella Igreja ornada com

tantos Varoens doutos.

§. IX.

_Osma._

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