que chamaraõ o Bom, mandou lavrar neste Reyno, fez recolher no anno
de 1642. e batellas de novo com o seu nome: _Joannes IV. D. G. Rex
Portugaliæ, & Algarb._ e da outra parte a Cruz de S. Jorge; e nos
quatro vaõs o anno de 1642. e à roda: _In hoc signo vinces_; e mandou
que valessem tres mil reis.
Outras se lavraraõ, que tem ametade deste peso, e valor com as mesmas
letras, e outras de quarto. E porque quando levantou o preço do marco
de prata, senaõ pode recolher todo o dinheiro que entaõ corria, e
trocallo por Moedas novas, se mandou cunhar com o algarismo do novo
valor, esculpindo no Tostaõ 120. reis, e nos quatro vinteis 100. e no
Meyo. tostaõ 60. e nos Reaes singelos, que chamavaõ de dous Vinteis
50. De novo se lavraraõ Vinteis com hum I. no meyo, que he a primeira
letra do nome de ElRey por cifra: e tambem se lavraraõ dous Vinteis
com o mesmo nome, e huma Coroa em cima, e da outra parte a Cruz de S.
Jorge. Estas Moedas se bateraõ naõ sómente em Lisboa, mas em Evora, e
no Porto, nas quaes Cidades se mandou de novo levantar casa de Moeda.
Demos felice remate a esta materia com a insigne Moeda, que o mesmo Rey
mandou lavrar, depois que fez tributario o Reyno de Portugal à Igreja
da Conceiçaõ de N. Senhora de Villaviçosa. Mandou lavrar huma Moeda
grande de prata de mayor circumferencia, que os Cruzados de prata,
que de huma parte tem a imagem de N. Senhora da Conceiçaõ com os pés
na meya Lua sobre o globo, e de huma, e outra parte o Sol, e outras
metaphoras, porque he invocada da Igreja, como saõ o Sol, o Espelho, o
Horto concluso, a Casa de ouro, a Fonte selada, a Arca do Santuario,
e as letras: _Tutelaris Regni_; e da outra as armas Reaes com a Coroa
cerrada postas no meyo da Cruz da Ordem de Christo; e as letras:
_Joannes Quartus D. G. Portugaliæ, & Algarbiæ Rex_. Pesa esta Moeda
450. reis; outra mandou lavrar de ouro com a mesma escultura, e letra,
de valor de 12U000. reis.
[Illustração]
§. XXXV.
_Moedas delRey D. Afonso VI._
ElRey D. Afonso VI. mandou lavrar moedas de ouro de quatro mil reis,
de dous mil reis, e de dez tostoens. Mandou lavrar moedas de prata de
valor de dous tostoens, de tostaõ, de quatro vintens, de meyo tostaõ,
de vintem, e de dez reis tambem de prata. Marcouse depois a moeda de
crusado em cinco tostões, a de dous tostoens em dusentos, e cincoenta
reis, o tostaõ em cento, e vinte reis, e os quatro vintens em tostaõ.
Tambem mandou lavrar cobre na forma cõmua.
§. XXXVI.
_Moedas delRey D. Pedro II._
ElRey D. Pedro II. mandou lavrar moedas de ouro de quatro mil reis,
de dous mil reis, e de mil reis. Mandou lavrar outras moedas de ouro
de quatro mil, e quatro centos, de dous mil, e duzentos, e de mil, e
cem reis. Mandou lavrar moedas de prata chamadas Cruzados, que valiaõ
quatro centos reis, de dusentos reis, de tostaõ, de oitenta reis, de
cincoenta reis, de quarenta reis, de vintem, e de dez reis de prata.
Com o levantamento da moeda sobiraõ as moedas de ouro a quatro mil, e
oito centos, as de dous mil, e dusentos a dous mil, e quatro centos,
e as de mil, e cem reis, a mil, e dusentos reis. Os Cruzados de prata
a quatro centos, e oitenta, os duzentos reis a duzentos, e quarenta
reis, o tostaõ a cento, e vinte reis, os oitenta reis a cem reis, os
cincoenta reis a sessenta reis, os quarenta reis a cincoenta reis, e as
moedas marcadas de duzentos, e cincoenta reis sobiraõ a trezentos reis,
e as de cinco tostoens a seis centos reis.
Alèm do cobre na forma antiga, mandou lavrar outro sendo Regente do
Reyno (pelo impedimento politico de seu Irmaõ ElRey D. Afonso VI.) que
foraõ moedas de dez, de cinco, de tres reis, e de real, e meyo: eraõ
estas moedas primorosamente cunhadas, tinhaõ de huma parte as Armas
Reaes com estas letras: _Petrus D. G. P. Portugaliæ_, e no reverso o
valor da moeda, e ao redor _Anno Regens. decimo quinto 1682_. No anno
seguinte mandou lavrar outro cobre ainda mais primoroso, e do mesmo
valor, com as letras: _Petrus D. G. P. Portugaliæ_, e no reverso _Anno
sexto decimus regim. sui 1683_. Mas de humas, e outras moedas pela sua
raridade naõ se devia bater grande copia.
Mandou lavrar outro cobre do mesmo valor, q́ tem de huma parte _P.
II._ com huma Coroa em cima, e a redor _D. G. Port. & Alg. Rex_; e no
reverso o valor da moeda com estas letras _Utilitati publica_.
Para a America mandou lavrar como moeda provincial moedas de ouro de
quatro mil reis, de dous mil reis, e de mil reis, de huma parte tem as
Armas Reaes com estas letras _Petrus II. D.G. Portugaliæ Rex_, e da
outra a Cruz de S. Jorge, e ao redor, _Et Brasiliæ Dominus Anno 1700_.
Mandou lavrar moeda de prata de duas patacas, que valem 640. reis,
patacas de 320. reis, como se vè da estampa seguinte.
[Illustração]
Meyas patacas de 160. reis, quarto de pataca de 80. reis, e vintem.
Tem todas de huma parte, _Petrus II. D. G. Rex, & Bras. D._ e da outra
parte huma Esphera sobre huma Cruz de Christo com estas letras entre os
braços da Cruz, _Subq signo nata stab._ que dizem que debaixo do sinal
da Cruz naceo, e se estabeleceo a America, porque o primeiro nome,
que se deo àquella terra, quando se descobrio, foy o de Santa Cruz, e
depois se chamou Brasil por causa desta madeira. Mandou lavrar moedas
de cobre de vinte reis, e de dez reis, que tem de huma parte estas
letras _Petrus II. D. G. Portug. R. D. Æthiop._ e na outra dous XX.
entre huma especie de quatro crecentes, em cujos vaõs hà quatro P. e ao
redor, _Moderato splendeat usu. 1697_.
§. XXXVII.
_Moedas delRey D. Joaõ V._
Sua Magestade, que Deos guarde, alèm das moedas de ouro, como as delRey
D. Pedro II. mandou lavrar Cruzados novos de ouro, que tem de huma
parte duas palmas, e huma Coroa, e debaixo della _Joan. V._ e da outra
a Cruz de Christo com as letras, _in hoc signo vinces_, se cunharaõ
nas Minas moedas de vinte, e quatro mil reis, como mostra a seguinte
estampa.
[Illustração]
E, de doze mil reis, a qual moeda ordenou o dito Senhor, que senaõ
lavrasse mais. Mandou lavrar moedas de doze mil, e oito centos reis,
como se vè da estampa seguinte.
[Illustração]
De seis mil, e quatro centos reis, de tres mil, e duzentos reis, de
mil, e seis centos reis, de oito centos reis, e de quatro centos reis;
todas com a sua Imagem, e ao redor _Joannes V. D. G. Port. & Alg. Rex_,
e no reverso as Armas Reaes com as palavras, _in hoc signo vinces_:
agora naõ costumaõ trazer as ditas letras.
Mandou lavrar duas sortes de cobre: a primeira de dez reis, de cinco
reis, de tres reis, e de real, e meyo: tem de huma parte a Coroa Real,
e debaixo della estas letras _J. V._ e ao redor _D. & Port. & Alg.
Rex_, e da outra o valor da moeda com as letras, _Utilitati publicæ_.
A segunda tem o Escudo das Armas Reaes com estas letras ao redor,
_Joannes V. Dei gratia_, e da outra o valor da moeda, e as letras
_Portugaliæ & Algarbiorum Rex_.
Tambem mandou lavrar cobre para o Brasil de vinte reis, e de dez reis.
Tem de huma parte dous XX. com a Coroa Real em cima, e as letras ao
redor, que dizem, _Joannes V. D. G. P. & Bras. Rex_, e da outra tem
huma Esphera com estas letras, _Pecunia totum circuit orbem_. Mandou
fazer outra sorte de cobre de dous vintens, e de vintem, que tem o
Escudo das Armas Reaes, sem a cercadura dos Castellos com as letras
_Joannes V. D.G.P. & Bras. Rex_, e no reverso tem XL. com estas letras
_Æs usibus aptius anno. 1722_.
De todas as moedas dos nossos Reys, e de muitas Medalhas, que mandaraõ
abrir veraõ os Curiosos hum completo Tratado em laminas de buril no
Tomo IV. da Historia Genealogica da Casa Real de Portugal, composto
pelo P. D. Antonio Caetano de Souza Clerigo Regular, Qualificador do
Santo Officio, e Academico Real do numero, que jà està impresso, e
brevemente sahirà à luz.
§. XXXVIII.
_Das Livras_
Livra he a Moeda, de que se acha mais antiga relaçaõ, como se ve da
Ordenaçaõ Velha liv. 4. t. 1. Esta Moeda parece, que era de prata,
como ainda hoje o he em França, e Alemanha, donde os Officiaes da
Moeda parece vieraõ a este Reyno; e à sua imitaçaõ a deviaõ introduzir
cà os nossos Reys, como fizeraõ outras muitas cousas à semelhança
de Inglaterra, e França, àlem de trazer de là principio o Conde D.
Henrique, e muitos dos seus com elle: e assim nos ficaraõ muitas cousas
da lingua, e costumes dos Franceses. O nome de Libra he latino, e
significa peso de doze onças; desta quantidade lavraraõ os Romanos a
primeira Moeda, como diz Plinio lib. 33. cap. 3. e o tem Covarruvias de
Numismate, Gregor. Agricola, Budeu, e Leto. Donde parece que do _livra_
latino se derivou o nome às Livras das outras Provincias, e a estas de
Portugal.[217]
Todas as Livras, que se lavraraõ atè o anno de 1395. em que reynava
ElRey D. Joaõ I. foraõ da mesma valia. Por tanto mandou ElRey D.
Duarte por Ordenaçaõ, que pelas Livras atè este anno se pagassem 20.
Reaes brancos dos primeiros, os quaes Reaes brancos, como diz a dita
Ordenaçaõ liv. 4. t. 1. §. 17. valia cada hum dez Seitis, e quatro
quintos de Seitil: e assim 20. Reaes destes brancos vem a montar 216.
Seitis, que a seis Seitis o Real tornaõ agora 36. Reaes dos nossos; e
tanto valia cada Livra atè este tempo.
Porèm vendo-se ElRey D. Joaõ I. apertado pelos muitos gastos das
guerras, fez lavrar as Livras de menor peso; e com tudo lhes deu a
mesma valia, como tambem fizeraõ antigamente os Romanos, segundo Plinio
no lugar referido; porque sendo a sua primeira Livra de doze onças de
peso, e valor; depois pelas necessidades da Republica, as mandaraõ
lavrar de duas onças de peso, e depois de huma onça sómente, mas todas
com a valia de 12. onças. E assim ficou a Republica ganhando tanto
dinheiro, que se desempenhou. O mesmo se conta delRey D. Henrique de
Castella o Nobre no 4. livro da sua Historia cap. 10. Pelo que deste
meyo se quiz valer o nosso Rey D. Joaõ; porque valendo as Livras,
como dissemos 20. Reaes brancos dos primeiros, que fazem dos nossos
36. Reaes, estas segundas Livras, que mandou bater, naõ tinhaõ de
verdadeiro peso mais que 25. reis, e 3. Seitis.
A estes dous generos de Livras chamaõ nas Escrituras do tempo delRey D.
Duarte para cà, antigas, à diferença das outras, que depois se lavraraõ
de muito menor valia. De maneira, que vieraõ a tanta diminuiçaõ, que
pelas primeiras Livras antigas se mandaraõ pagar 700. das Livrinhas
pequenas atè o anno de 1395. e deste anno por diante se mandaraõ pagar
por estas segundas Livras antigas 500. Livras das pequenas.
§. XXXIX.
_Das Livras de dez Soldos_.
Para se entenderem bem as especies das Livras, de que tratamos, avemos
de presuppor, que assim como ElRey D. Duarte mandou pagar pelas duas
diferenças de Livras mais notaveis, e antigas a 700. Livrinhas por
huma, a 500. Livrinhas por outra; assim para entenderem bem, e evitarem
embaraços, redusiraõ outras quaesquer especies de Livras a este genero
de Livrinhas.
Depois das Livras antigas jà ditas se lavrou huma moeda, que chamaraõ
Livra de dez Soldos, a qual era de cobre, e tinha a decima parte da
Livra mayor, e mais grande de 700. E assim valiaõ dez Livras de dez
Soldos 700. Livrinhas. Chamavase de dez Soldos, porque quando se bateo,
se lavraraõ huns Soldos, dez dos quaes faziaõ essa Livra. Prova-se
isto por muitas Escrituras antigas; e em particular pelo livro dos
Anniversarios velho da Sè de Evora, que começou no anno de 1442. em que
està huma verba em 15. de Agosto, que diz: Neste dia fazem Aniversarios
por N. e saõ para este Anniversario 50. Soldos antigos, e outo Livras
de moeda de dez Soldos; e diz o Contador em baixo, como costuma, que
por este Dinheiro recebe 1810. Livrinhas. Pela qual conta se mostra o
que temos dito; porque os 50. Soldos antigos valiaõ a 25. Livrinhas
cada hum, como diremos em seu lugar. E assim formaraõ 1250. Livrinhas;
e as outo Livras de dez Soldos, contadas a 70. Livrinhas cada huma, vem
a fazer 560. Livrinhas, que com as 1250. dos Soldos antigos jà ditos,
vem a somar as 1810. Livrinhas, que o Contador diz, que recebeo.
Resta averiguar quanto valia esta Livrinha de dez Soldos a respeito da
nossa moeda hora corrente, que facilmente se mostra da valia, que temos
provado acima na Livra grande de 700. Porque se a Livra grande valia
36. reis; esta, que he a sua decima parte, valeria a tres, e meyo, e
tres quintos de Real.
§. XXXX.
_Das outras Livras, que valiaõ dez Livrinhas sómente_.
Consta tambem por Escrituras antigas, que havia outras Livras, cada
huma das quaes valia sómente dez Livrinhas das pequenas. O que se vè
claramente do livro das contas dos Anniversarios da Sè de Evora, que
servia no anno de 1464. na addiçaõ de 9. de Setembro, e assim ficavaõ
valendo estas Livras, confórme a nossa moeda, cada huma meyo real, e
seis setimos de seitil.
Outra moeda havia de cobre chamada de tres Livras, e meya, porque
valia tres Livras, e meya destes de dez Livrinhas, que agora dissemos.
E assim valia esta moeda 35. Livrinhas das pequenas. Nesta moeda
fallaõ muitas escrituras antigas; e em particular o livro das contas
dos Anniversarios do Cabido de Evora no lugar acima referido de 9.
de Setembro de 1464. e outro em 17. de Dezembro, em que diz se davaõ
para aquelle Anniversario 80. Livras de tres Livras, e meya; e diz o
Contador abaixo, que recebeo por estas 80. Livras 2800. Livrinhas. Pelo
que consta que valia cada huma destas 35. Livrinhas, como fica dito. E
assim ficavaõ valendo da nossa moeda hum Real, e meyo, e hum seitil, e
quatro quintos de seitil.
As ultimas, e mais pequenas Livras, foraõ estas, a que chamamos
Livrinhas. Estas foraõ taõ diminuidas, e de taõ pouco valor, que como
fica dito, mandou ElRey D. Duarte, que se pagassem 700. dellas por huma
das mais antigas atè o anno de 1395. e 500. por cada huma das Livras
antigas do dito anno por diante. O que cada huma destas Livrinhas valia
a respeito do nosso Real, se pode provar desta maneira. Setecentas
destas valiaõ huma Livra antiga, que dissemos tinha 36. reis da nossa
moeda, logo he necessario, que repartamos 36. reis por 700. partes,
e o que vier a cada parte, isso serà o que valia cada Livrinha. Para
esta repartiçaõ se fazer mais cõmoda, faremos primeiramente cada Real
dos 36. em 20. partes, que montaõ 720. partes. Estas partidas por 700.
Livrinhas, vem a cada huma 20. partes de Real, e dous setentavos de
20. partes de Real. Esta he a valia, que tinhaõ, nem he de espantar
haver moeda taõ meuda, pois havia Mealhas, como adiante veremos, que
valiaõ meyo seitil; e assim hum Real valia doze Mealhas. E alèm disso
pòde bem ser, que no peso fossem tamanhas como seitil, ou Mealhas, e
a valia fosse esta sómente, ou o que mais he de crer, estas moedas
modernas foraõ as que cresceraõ na valia, sendo de pequeno peso. Estas
Livrinhas parece que jà as não havia em tempo delRey D. Duarte; porèm
para mòr commodidade reduziaõ a ellas todas as contas, como hoje
fazemos dos Reaes, não havendo jà quasi nenhuns entre nòs. E assim
durou contar-se por ellas muitos annos adiante.
§. XXXXI.
_Dos Soldos_.
Havia antigamente, antes do anno de 1395. outra moeda mais meuda, a
que chamavraõ Soldos, 20. dos quaes valiaõ huma Livra antiga de 36.
reis; o que se collige da dita Ordenação §. 1. em que se diz, que ElRey
D. Duarte mandou pagar 20. Reaes brancos por esta Livra mais antiga, e
mandou que cada Real branco valesse hum Soldo. Bem se infere logo que
20. Soldos, era huma Livra. O mesmo consta do livro primeiro das Sisas,
em que ElRey diz, que lhe pagaraõ de Sisa dous Soldos por Livra. E na
Addiçaõ delRey D. Afonso V. se explica logo, que esta conta vem a ser
a decima parte: por quanto huma Livra tinha vinte Soldos. Valia este
Soldo da nossa moeda hum Real, e quatro seitijs, e quatro quintos de
seitil.
Tambem havemos de presuppor, que as outras Livras, que se foraõ
lavrando, como foy a Livra antiga de 500. e a Livra de 10. Soldos,
tiveraõ tambem seu Soldos ao mesmo respeito. E assim quando se lavrou a
Livra de 500. se lavrarão os segundos Soldos, que tambem eraõ 20. por
Livra. O que se prova por muitas Escrituras antigas, particularmenre da
Sè de Evora do anno de 1442. e do de 1462. nos quaes se contaõ todas as
Livras antigas a razaõ de 500. Livrinhas, e os Soldos a razão de 25.
Livrinhas; e assim 20. delles fazem as 500. Livrinhas, e valiaõ estes
Soldos da nossa moeda hum Real, e dous setimos de Real.
Este nome Soldo se tomou dos Latinos, os quaes chamavaõ: _Solidum_,
àquillo que era totalmente perfeito; e por isso deraõ este nome a
certo genero de Moeda, que tinha na valia aquillo, que verdadeiramente
pesava. Esta Moeda correo por todo o Imperio, como as outras de Roma.
E assim Santo Isidoro nas Ethymologias mostra, que corria em Espanha
no seu tempo. Em França ainda hoje ha Moeda deste nome, posto que de
diferente metal, e peso; e deste principio nos devia de ficar o nome
_Soldo_.
§. XXXXII.
_Dos Dinheiros_.
O Nome, _Dinheiro_, se corrompeo de _Denarius_, Moeda Romana, a quem
se deo este nome, por valer dez _Assis_. E ainda hoje em Espanha ha em
Valença certa Moeda, que chamaõ _Dinheiro_, 23. dos quaes valem hum
Real de prata Castelhano. Estes nossos de Portugal antigos valiaõ atè
o tempo delRey D. João I. doze delles hum Soldo daquelles, que 20.
faziaõ a Livra mais antiga, como consta da Chronica delRey D. Fernando
cap. 55. Nem obsta o que diz a Ordenação já dita §. 17. em que affirma,
que o Soldo valia dez Dinheiros, e 4. quintos de Dinheiro, porque a
Ordenaçaõ falla pouco mais, ou menos; e naõ avia que se fizesse Moeda
miuda, que ao justo naõ viesse a montar o Soldo em 11. ou 12. ou 14.
Pelo que se ve claramente, que mais aviaõ de ser os Dinheiros, que dez:
e pela Chronica jà dita consta que eraõ doze, e assim mesmo dos livros
das contas dos Anniverssarios do Cabido de Evora a 20. de Novembro de
1464. De modo que o justo preço deste Dinheiro era hum Seitil menos hum
decimo.
Ouve outros Dinheiros, doze dos quaes valiaõ hum Soldo de 25.
Livrinhas, como se prova pelas Escrituras antigas, e cada Dinheiro
destes valia duas Livrinhas, e hum duodecimo de Livrinha: e assim doze
Dinheiros destes valiaõ hum Soldo de 25. Livrinhas, e na nossa moeda
valia este segundo Dinheiro meyo Seitil, e hum quadrigesimo segundavo
de Real.
Ouve outra Moeda chamada Dinheiro Alfonsim, pela mandar bater EIRey
D. Afonso o IV. como se ve da Chronica delRey D. Fernando cap. 55. e
referese no mesmo lugar, que EIRey D. Afonso mandou, que nove destes
Dinheiros valessem hum Soldo, e 20. Soldos huma Livra das mais antigas
de 36. Estes Dinheiros eraõ do mesmo peso, que os velhos, mas na
valia lhe levavaõ os velhos ventagem, pois 9. delles mandou ElRey
que valessem hum Soldo; e dos velhos 12. valiaõ hum Soldo. Supposto
isto, podemos dizer, que estes Dinheiros Alfonsis se os considerarmos,
segundo o peso, valeraõ da nossa Moeda hum Real menos hum Decimo; porèm
se os tomarmos segundo a valia que lhe ElRey deu, valeriaõ da nossa
Moeda hum Real, e hum quinto de Real; porque todo o Soldo antigo, val,
como fica dito, dez Seitis, e quatro quintos de Real, que saõ 54.
quintos; os quaes repartidos por 9. vem a cada hum seis quintos, que he
hum Real, e hum quinto de Real; e tanto he a sua justa valia, confórme
à nossa Moeda. Esta Moeda parece que naõ correo mais, que em tempo
delRey D. Afonso IV. e que tornaraõ logo a valer doze destes Dinheiros
hum Soldo; porque a este preço os mandou pagar ElRey D. Duarte atè seu
tempo.
Depois disto no anno de 1446. se bateraõ outros Reaes brancos, àlem dos
que temos dito, que bateo ElRey D. Duarte, os quaes ainda que tinhaõ a
mesma valia, eraõ de menor peso, e quantidade de metal.
E no de 1453. se bateraõ outros Reaes brancos de menor peso, que os
primeiros, e segundos, mas da mesma valia.
E finalmente no anno de 1462. se fizeraõ outros Reaes brancos, que
tinhaõ a mesma valia, que os acima ditos, sendo de muito menor peso,
que os primeiros, segundos, e terceiros. Desta diversidade de Reaes
nasceraõ grandes queixumes; porque as pessoas, que tinhaõ contratado
antes do anno de 1446. diziaõ que se lhes naõ satisfaziaõ os Reaes
brancos, que lhes deviaõ por quaesquer outros Reaes brancos modernos
dos segundos, ou terceiros, ou quartos; porque sempre se lhes ficava
defraudando a divida. De maneira que se hum homem tinha aforado no anno
de 1440. humas casas por 20. Reaes brancos, naõ queria aceitar no anno
de 1463. 20. Reaes brancos dos ultimos; dizendo que quando elle aforàra
por 20. Reaes, eraõ outros, que pesavaõ mais. Querendo ElRey D. Afonso
V. acudir a estas duvidas, ordenou em Evora no anno de 1473. que pelos
primeiros Reaes brancos se pagassem a razaõ de 18. pretos, que entaõ
corriaõ, os quaes Pretos valiaõ tres quintos de Seitil; e assim vinha a
ter cada Real destes brancos dez Seitis, e tres quartos de Seitil, como
temos dito.
Pelos segundos Reaes brancos mandou ElRey pagar 14. dos ultimos, com
que vinha a ter cada hum destes dous Reaes brancos, a valia de hum
Real, e dous Seitis, e dous quintos de Seitil.
Pelos terceiros Reaes brancos mandou ElRey se pagassem doze pretos dos
ultimos; e assim valia da nossa Moeda cada hum delles hum Real, e hum
Seitil, e hum quinto de Seitil; o que se acharà multiplicando os tres
quintos de Seitil, que dizemos val cada preto, pelos doze pretos, que
val cada Real, viraõ a montar 36. quintos, os quaes feitos em Seitis,
vem a somar 7. Seitis, e hum quinto de Seitil, que he o que temos dito.
Pelos quartos, e ultimos Reaes brancos mandou ElRey pagar sómente dez
pretos, que vem a montar seis Seitis, e assim tinhaõ a mesma valia,
que hoje tem hum Real dos nossos; porque multiplicando dez vezes tres
quintos de Seitil, que valiaõ aquelles Pretos, saõ trinta quintos de
Seitil, os quaes feitos em Seitis, fazem seis Seitis; que he o que val
o nosso Real, que agora corre.
Passados alguns annos, mandou ElRey D. Joaõ o II. lavrar outros Reaes
de cobre sem liga alguma; e assim perderaõ o nome de brancos, e se
chamaraõ Reaes correntes; e estes saõ os que ao presente correm neste
Reyno, que cada hum delles vale seis Seitis.
Com os segundos Reaes brancos se bateraõ tambem segundos pretos; dez
dos quaes valiaõ hum dos Reaes brancos segundos.
Provase isto, porque ElRey D. Afonso V. mandou pagar 18. pretos por hum
Real branco primeiro, e se durassem os primeiros pretos não se podia
ordenar esta ley; pois o seu primeiro preço foy valerem dez delles
hum Real branco primeiro. Por esta razaõ se collige, que houve outros
pretos de segundos, e terceiros Reaes brancos; porèm estes, confórme
o que fica dito, naõ eraõ Reaes taõ bons, como os primeiros. E assim
os dez pretos dos primeiros valeriaõ mais, que hum Real branco destes
segundos, e terceiros; e dez pretos destes quartos, e ultimos naõ
chegavaõ a valia destes segundos, e terceiros Reaes brancos, e por
isso mandou ElRey pagar estes Reaes a razaõ de 14. e 12. pretos destes
ultimos. Logo de força havemos de dizer, que assim como se batiaõ novos
Reaes brancos, se batiaõ logo novos pretos. Resta agora resolver que
valia cada preto destes, confórme à nossa Moeda. Isto fica claro pelo
que dissemos, que cada Real destes tinha. Os primeiros Reaes valiaõ dez
Seitis, e quatro quintos de Seitil, os segundos Reaes brancos valiaõ 8.
Seitis, e dous quintos de Seitil, por onde o seu preto valia quatro
quintos de Seitil, e dous cincoentavos de Seitil, os terceiros Reaes
brancos valiaõ 7. Seitis, e hum quinto de Seitil, por essa razaõ valia
o seu preto tres quintos de Seitil, e seis cincoentavos de Seitil. Os
quartos, e ultimos Reaes brancos valiaõ seis Seitis, pela qual razaõ
valia o seu preto tres quintos de Seitil, como atraz dissemos.
§. XXXX.
_Das Mealhas_.
Consta do cap. 56. da Chronica delRey D. Fernando, em que se falla de
muitas Moedas, que dos Dinheiros ultimos, em que jà temos fallado, se
faziaõ as Mealhas, de modo que quem queria fazer Moeda mais pequena,
que estes Dinheiros, partia hum Dinheiro pela ametade com huma
thesoura, ou com qualquer outro instrumento, e ametade deste Dinheiro
chamavaõ Mealha, ou Pogeja, e compravaõ com ella alguma cousa meuda.
E assim que Mealha naõ era Moeda cunhada per si, mas ametade do dito
Dinheiro, e com tudo a dita Ordenaçaõ falla nella, dizendo que valia
meyo Seitil, o que he confórme temos dito, porque se hum Dinheiro
daquelles valia Seitil, e a Mealha, que era ametade do Dinheiro, bem se
infere, que teria ametade de hum Seitil, posto que a Ordenaçaõ falla,
pouco mais, ou menos, por quanto o seu verdadeiro he dous quintos, e
hum vigesimo de Seitil, que he ametade do que dissemos, que valia o
dito Dinheiro.
§. XXXXI.
_De outras Moedas Estrangeiras, que corriaõ no Reyno conforme á
Ordenaçaõ_.
Alèm das Moedas Portuguesas, que temos referido, diz a Ordenaçaõ velha,
que tambem corriaõ outras, ainda que Estrangeiras, pela bondade de
ouro, e peso, que tinhaõ, e nomea, àlem das Mouriscas, que dissemos,
as Dobras de Sevilha, as de Leaõ, ou Maravidis Leoneses, as Dobras da
Banda, as de Dona Branca.