Segundo parece do cap. 56. da Chronica delRey D. Fernando, naõ ouve

mudança na Moeda deste Reyno, atè o tempo delRey D. Afonso IV. o qual

com consentimento do Clero, e povo, fez os Dinheiros Alfonsis, mandando

valessem doze dos outros, no que ganhou muito; porque vinha a fazer em

cada marco de ganho quatro livras, e quatro soldos; e estas livras saõ

as que parece temos agora com nome delRey D. Afonso humas batidas em

Lisboa, porque tem hum L. ao pè do nome delRey, e outras lavradas no

Porto; porque tem hum P. em lugar de L. Destas Moedas tenho muitas, e

para exemplo fiz aqui esculpir huma.

[Illustração]

O peso, que hoje tem esta Moeda de prata pela valia presente, he 40.

reis; e esta he a mais antiga Moeda de prata dos nossos Reys, que tenho

visto.

§. XXV.

_Moedas delRey D. Pedro._

No cap. 11. da historia delRey D. Pedro se diz, que este Rey mandou

fazer Dobras de ouro fino, que 50. dellas faziaõ hum marco, e cada

Dobra destas tinha quatro livras, e dous soldos. Este marco era de

ouro, e valia entaõ 7380. porque tanto vem a montar as 50. Dobras, que

diz o Chronista faziaõ hum marco, contando a 82. soldos cada Dobra,

que tanto saõ as quatro livras, e dous soldos, que valia cada Dobra,

contando a 20. soldos cada livra.[211] E assim se tomarmos estas

Dobras conforme o que entaõ valia o marco de ouro, eraõ agora da nossa

moeda 147. reis, e tres quintos de Real; porque valia cada dobra 82.

soldos dos primeiros, os quaes a dez seitijs, e quatro quintos de

seitil cada hum, vem a fazer os ditos 147. reis, e tres quintos de

real, porèm se fizermos a conta conforme a valia do marco de ouro, que

saõ 30U000. reis, tinha cada huma destas Dobras 600. reis de peso; pois

50. dellas pesavaõ hum marco, e tanto pesaõ as Dobras daquelle tempo,

que ainda hoje se conservaõ, de que eu tenho huma.

Fez o mesmo Rey D. Pedro outra moeda, que chamou meyas Dobras, e tinha

41. soldos, que conforme à computaçaõ acima dita, valiaõ 73. e meyo, e

tres decimos de real, das quaes meyas Dobras 100. faziaõ hum marco de

ouro, assim teraõ hoje de peso 300. reis.

No mesmo cap. II. se diz, que lavrou este Rey huma moeda de prata, a

que chamavaõ Torneses, que 65. faziaõ hum marco de liga, e peso dos

reaes delRey D. Pedro de Castella.

Outros Torneses fez mais pequenos, que entravaõ num marco 130. e de

huma banda tinhaõ as Quinas, e da outra o rosto delRey com Coroa; e as

letras de huma parte diziaõ: _Petrus Rex Portugalie, & Algarbi_: e da

outra: _Deus adjuva me_; que eraõ os mesmos cunhos, e letras, que tinha

nas suas Dobras. Valia o Tornès grande sete soldos, e o pequeno tres

soldos, e meyo. Este nome de Torneses parece que deu ElRey D. Pedro a

estas moedas à semelhança de huma moeda Francesa, que entaõ corria por

toda Europa, e se lavrava em Tours, Cidade de França, e por isso se

chamavaõ soldos Turonenses.

Outra moeda mandou bater ElRey D. Pedro, que chamavaõ Dinheiros

Alfonsis de liga, e eraõ do valor, que fizera ElRey D. Afonso seu Pay.

§. XXVI.

_Dos Gentis, Barbudas, Graves, Pilartes, e Fortes delRey D. Fernando._

ElRey D. Fernando fez huma moeda, que chamou Gentil,[212] que mandou

valesse quatro livras, e meya, e depois outra que valia tres, e meya,

e depois outros Gentis, que valiaõ tres livras, e cinco soldos. Pelo

que contando as livras a 36. reis; porque eraõ das antigas, valiaõ os

primeiros Gentis 162. reis, e os segundos 144. reis, e os terceiros

126. reis, e os quartos 116. reis; e isto porèm a respeito do pouco que

valia entaõ o marco de prata.

Quando ElRey D. Fernando fez a guerra a Castella serviraõ a ElRey

D. Henrique o Nobre muitos Soldados Franceses, que vinhaõ armados

de celadas, a que elles chamavaõ _Barbudas_; e traziaõ lanças com

pendoens, que chamavaõ _Graves_; e traziaõ consigo Pagens para as

celadas, a que chamavaõ _Pilares_; e querendo ElRey D. Fernando deixar

memoria desta sua empreza, poz estes nomes, e insignias nas moedas, que

mandou lavrar de novo[213]

A Barbuda era moeda do tamanho de quatro vintens, ainda que mais

delgada; de huma parte tem huma celada com huma Coroa em cima, e o

peito de malha, e à roda este letreiro: _Si Dominus mihi adjutor,

non timebo_; e da outra parte huma Cruz das da Ordem de Christo, que

toma todo o vaõ; nos quatro cantos da Cruz quatro Castellos, e no

meyo da Cruz hum escudinho com as Quinas, e a letra: _Fernandus Rex

Portugaliæ_; como se vè em algumas destas moedas, que tenho em meu

poder.

[Illustração]

Era a Barbuda moeda de prata muito ligada de ley de tres Dinheiros, e

ElRey lhe poz preço de 20. soldos, que eraõ huma livra de 36. reis dos

nossos.

Dos Graves 120. faziaõ hum marco, e valiaõ 15. soldos, que vem a ser

21. real dos nossos, e tinhaõ por divisa huma lança sobre os cunhos. Os

Pilares eraõ tambem de prata de ley de dous Dinheiros, e valiaõ cinco

soldos, que saõ da nossa moeda 13 reis, e dous seitijs.

Fez ElRey D. Fernando outra moeda, que chamou Fortes, que valiaõ 20.

soldos, que saõ 29. reis, e dous seitijs, e meyos Fortes, que valiaõ

14. reis, e meyo, e hum seitil: assim mesmo mandou bater outros

Torneses, a que chamaraõ Petites, palavra Francesa, que significa

pequeno; donde se vè, que de França tomaraõ o nome, como tudo consta

do cap. 56. da Chronica do mesmo Rey. E assim lavrou outras moedas

antigas, das quaes se conservaraõ algumas, que eu tenho jà referidas

com valores sobidos; e queixando-se os povos do grande preço, que

estas moedas tinhaõ, e do pouco que pesavaõ, lhe abateo a valia a

mais accommodados preços, como se diz no cap. 57. da mesma Chronica,

convem a saber, que os Graves de 15. soldos dos Dinheiros Alfonsis, naõ

valessem mais de 7. e a Barbuda de 20. soldos valesse 14. e os Pilares

de 5. valessem tres, e meyo, e os Reaes de prata de 10. soldos valessem

8. E porque ainda estes preços eraõ grandes, tornou ElRey a fazer outra

baixa, e mandou que a Barbuda, que jà estava em 14. soldos, valesse só

dous, e 4. Dinheiros, que vem a ser quatro reis dos nossos, e o Grave

14. Dinheiros, que saõ dous, e dous seitijs; e o Pilarte 7. que he hum

real, e hum seitil, e os Fortes 10. soldos, que saõ 16. reis, e 4.

seitijs, e os Dinheiros, que de novo lavrara, que valessem como Mealhas.

§. XXVII

_Das moedas delRey D. Joaõ o I._

ElRey D. Joaõ I. sendo Defensor do Reyno, como se vè no cap. 49. e

50, da I. p. de sua Chronica, mandou lavrar Reaes de prata de ley de

9. Dinheiros, que 72. delles faziaõ hum marco; e depois mandou lavrar

outros de ley de 6. Dinheiros, e depois outros de 5. ficando sempre

na mesma valia, e ganhando o mais. E com tudo isso o povo, pelo amor,

que tinha a ElRey respeitou tanto esta moeda, ainda que cheya de tanta

liga, que diz o Chronista, que muitos traziaõ depois estes Reaes de

prata ao pescoço, como cousa santa, affirmando que lhe valia contra as

enfirmidades.

Depois mandou o mesmo Rey, sendo ainda Defensor, lavrar Reaes de ley

de hum Dinheiro, que valia cada hum dez soldos, e depois destes mandou

fazer outros Reaes de tres livras, e meya, e de dez Dinheiros, e meyo,

e o mesmo se vè do cap. 5. da 2. p. de sua Chronica.

Quando depois ElRey quiz tomar Ceita, mandou lavrar os primeiros Reaes

brancos, que cada hum delles valia dez Reaes de tres livras, e meya, e

eraõ de ley de dez Dinheiros, e 62. faziaõ hum marco.

Depois que veyo de tomar Ceita, dizem alguns mandou lavrar os

seitijs, a quem deu este nome, em memoria do nome de Ceita, que entaõ

conquistàra, ainda que outros dizem, que por valerem a sexta parte do

Real, se chamaraõ seitijs, e corruptamente seitijs.

§. XXVIII.

_Moedas delRey D. Duarte_.

Depois que as Livras chegaraõ a grande diminuiçaõ, como adiante

veremos, mandou ElRey D. Duarte lavrar outra moeda mais grossa, que

chegaraõ _Reaes brancos_; os quaes eraõ de cobre com liga doutro metal,

que os fazia mais brancos, do que os nossos Reaes de cobre, tal, e

por isso se chamaraõ _brancos_, como se collige da Ord.[214] §. 16.

Mandou ElRey D. Duarte, que cada Real branco destes valessem hum Soldo

dos antigos, e assim cada hum delles valia 35. Livrinhas, e 20. Reaes

brancos faziaõ huma Livra antiga das 700. a este respeito valia cada

Real destes da nossa moeda dez seitijs, e quatro quintos de seitil pois

20. delles valiaõ 36. que he huma Livra das mayores.

Quando o mesmo Rey mandou bater estes _Reaes brancos_, parece que

mandou juntamente bater outra moeda, a que chamou _Pretos_; dez dos

quaes valiaõ hum Real branco; porque jà que se mudavaõ os soldos em

Reaes brancos, pareceo conveniente, que se mudassem os Dinheiros em

Preto; e este nome de _Preto_, parece que foy posto por diferença dos

_Brancos_, e deviaõ tambem ser mais pretos, porque naõ teriaõ a liga

do metal, ou de estanho, como tinhaõ os brancos. A valia, que estes

primeiros Pretos tinhaõ, confórme à nossa Moeda, he a mesma de hum

Seitil, e quatro cincoentavos de Seitil. Porque a mesma Ordenaçaõ

diz, que hum Real destes brancos valia dez Seitis, e quatro quintos

de Seitil; e como dez Pretos valiaõ hum Real branco, bem se infere,

que hum Preto destes primeiros tinha hum Seitil; e o que lhe cabia dos

quatro quintos do Seitil, que saõ quatro cincoentavos de Seitil. Tambem

este Rey mandou lavrar escudos de ouro baixo.

§. XXIX.

_Das Moedas delRey D.Afonso V._

Na Chronica delRey D, Afonso V. cap. 138. se diz, que em tempo delRey

Duarte se lavraraõ escudos de ouro baixo, que nos Reynos estranhos se

tomavaõ com muita difficuldade. E ElRey D. Afonso quando aceitou a

Cruzada, para ir à Terra Santa, mandou lavrar de ouro sobido de toda

a perfeiçaõ a Moeda dos Cruzados, a qual mandou sobir em peso, e naõ

em preço dous graõs sobre todos os Ducados da Christandade, para assim

poderem correr em todas as partes onde elle fosse. Destes cruzados ha

ainda hoje muitos, e saõ buscados para dourar com elles pela sua muita

fineza; e alguns, que me vieraõ à maõ, tem de huma parte huma Cruz,

como a de S. Jorge com letras, que dizem: _Adjutorium nostrum in nomine

Domini_; e da outra o escudo Real coroado, metido ainda na Cruz de Aviz

com estas letras: _Cruzatus Alfonsi Quinti R_. O nome de Cruzado parece

lhe deu por ser feito para a empreza da Cruzada, que aceitàra.

Hum Real tenho deste Rey com a figura de sua empreza, que era hum

rodizio de hum moinho correndo com o impeto da agoa, a qual empreza

usou em muitas partes, e principalmente no Mosteiro de S. Francisco de

Varatojo junto a Torres Vedras, onde se elle retirou, por ser sitio muy

aprazivel com a vista do mar, e muita caça da Coutada de Cintra, aonde

esta empreza se ve pintada em muitos lugares da Igreja, e das officinas

da casa; as letras da empreza dizem o que estava na mesma figura: _He

rodizio_; porque se prezava este Principe de taõ comedido, que queria

ser advertido dos erros para se emendar delles.

Fez ElRey D. Afonso V. humas Moedas do cobre chamadas Espadins do

tamanho de Real, que de huma parte tem no meyo huma maõ com huma espada

com a ponta para baixo, e pela roda este letreiro: _Alphonsus Dei

gratia, Rex P._ e da outra parte o escudo Real sobre a Cruz de Aviz, e

as letras dizem: _Adjutorium nostrum in nomine Domini_.

Esta Moeda mandou lavrar ElRey D. Afonso V. em memoria da Ordem da

Espada, que instituio para a Conquista de Fez;[215] na mais alta torre

da qual se dizia, que estava huma espada engastada por hum antigo

Astrologo dos Mouros, com pronostico, que quem pelo valor das armas

dalli a tirasse, avia de ser Senhor do Mundo. Destas Moedas tenho

muitas, assim de prata, como de cobre, como se ve na presente.

[Illustração]

Outra Moeda ha deste Rey de prata do tamanho de hum vintem, que de huma

parte tem as Quinas sómente, e o letreiro à roda diz: _Alphonsi Quinti

Regis Por._ e da outra hum A. grande Gotico, que he a primeira letra

do nome delRey, e em cima huma Coroa, e à roda: _Adjutorium nostrum in

nomine Domini_.

Outra Moeda de prata se acha sua do tamanho de quatro vinteis, mas naõ

de tanto peso, a qual de huma parte tem o escudo Real sobre a Cruz

de Aviz, e o letreiro à roda diz: _Alphonsis Dei gratia Rex Por._ Da

outra banda estaõ as armas quarteadas de Castella, e Leaõ; e o letreiro

à roda diz: _Alphonsus Dei Gratia Rex Por._ Esta Moeda se lavrou no

tempo, que ElRey D. Afonso pretendia o Reyno de Castella pelo casamento

da Excellente Senhora; e por isso usava das armas de Castella, e do

titulo do mesmo Reyno.

Outra Moeda tenho sua de cobre da grossura de hum vintem pouco mayor,

de huma parte tem hum A. Gotico grande debaixo de huma Coroa, e o

letreiro: _Alphonsus Rex Portuguliæ_; da outra as Quinas sómente com as

letras gastadas.

Outra Moeda se acha de cobre do tamanho de meyo vintem, mas de mayor

grossura com outro A. Gotico, e huma Coroa por cima, e da outra banda

as cinco Quinas em Cruz, e ambos os letreiros dizem: _Alphonsus Rex

Portugalliæ_.

Outra fórma de Moeda ha, que de huma parte tem huma Cruz da maneira

das Commendas de Christo, com o letreiro: _Alphonsus_; e da outra os

cinco escudetes em Cruz atravessados, e taõ largos, que os quatro fazem

entrar os braços da Cruz pelo lugar do letreiro da borda atè o fim, e

o letreiro, qua vay entre os quatro escudetes, diz: _Rex Portugal_.

Outras Moedas se bateraõ em tempo do mesmo Rey, de que adiante com as

Livras se faz particular mençaõ.

§. XXX.

_Moedas delRey D. Joaõ o II._

ElRey D. Joaõ II. mandou lavrar Moedas novas no anno de 1485.[216] a

primeira foy huma de ouro, que chamaraõ _Justo_ de ley de 22. quilates,

e peso de 600. reis, que eu tenho, e de huma parte tem nella o escudo

Real jà com as Quinas direitas sem a Cruz de Aviz; e foy esta a

primeira vez, em que assim appareceo o escudo Real, depois delRey D.

Joaõ I. o qual como foy Mestre de Aviz, poz o escudo Real no meyo da

Cruz daquella Ordem, e as letras dizem: _Joannes Secundus R. Portugal.

Algar. Dominus Guinè_; que he: Joaõ II. Rey de Portugal, e Algarve,

Senhor de Guinè; o qual titulo tomou tambem no mesmo anno: da outra

parte estava ElRey armado, assentado em cadeira Real com huma espada

na maõ, e as letras à roda diziaõ: _Justus ut palma florebit_: o justo

fllorecerà como a palma, deste letreiro parece lhe deraõ a esta Moeda o

nome de _Justo_.

Mandou lavrar tambem _Espadim_ douro da ley dos Justos, e da ametade

da valia, que eraõ 300. reis, e tinha de huma parte as mesmas armas,

e titulos, que os Justos, e da outra huma maõ com huma espada nûa com

a ponta para cima; e por letra: _Dominus protector vitæ meæ, à quo

trepidabo?_

Fez tambem meyos Reaes de prata de ley de onze Dinheiros, a que

depois chamaraõ Vinteis, por valerem 20. reis, e fez meyos Vinteis,

e Cinquinhos, que valiaõ cinco reis: tambem lavrou Reaes de cobre

da valia dos que agora correm. Destes Reaes ha alguns, em que està

esculpido o Pelicano dando a beber aos filhos o sangue de seu peito,

que foy a empresa deste Rey com a letra: _Pela ley, e pela grey_:

dando a entender, que derramaria o sangue em defensaõ da Fè, e de seus

vassallos.

Os Pelicanos saõ Aves quasi nunca vistas em Europa; com tudo eu vi hum

em Evora em casa do Senhor D. Duarte tio de ElRey Dom Joaõ o quarto,

que lhe viera de Angola; e ainda que estava morto, tinha todas as

pennas, e só lhe faltavaõ os intestinos, que para o conservarem, lhe

tiraraõ, era mayor que huma Cegonha, e quasi com as mesmas pennas

brancas, e negras; no peito tinha hum callo, tamanho como hum Cruzado,

dos que agora correm, vermelho, e naõ muito duro; por onde parece

que por alli rompe algumas veyas com o bico, que he muito grande,

para naturalmente sustentar seus filhos; como dizem os Escritores, de

maneira, que naõ lhe deve de causar esta acçaõ morte, porque parece

cousa natural.

Outros _Espadins_ fez bater prateados, que valiaõ quatro reis. Mandou

lavrar Cruzados, que valiaõ 390. e ElRey D. Manoel os acrescentou a

400. no valor anno de 1517.

§. XXXI.

_Das Moedas delRey D. Manoel._

Damiaõ de Goes aponta no cap. ult. da Chronica delRey D. Manoel as

Moedas que fez, que saõ as seguintes.

No anno de 1499. mandou tambem bater os Portugueses de ouro de 24.

quilates, que era a mesma ley dos Cruzados desdo tempo delRey D. Afonso

V. e cada hum delles tinha dez Cruzados de valor; e de huma parte

tinhaõ a Cruz da Ordem de Christo com letras, que diziaõ: _In hoc

signo vinces_; e da outra o escudo Real coroado, e dous letreiros; o

do circulo mayor dizia: _Primus Emanuel Rex Portugalliæ; Algarbiorum,

citra, & ultra in Africa, & Dominus Guinè_. O do circulo menor:

_Æthyopiæ, Arabiæ, Persiæ, Indiæ_.

No mesmo anno mandou lavrar huma moeda de prata de ley de 15.

Dinheiros, que 70. faziaõ hum marco, e valia 33. cada huma. Esta moeda

chamaraõ _Indios_; e tinha de huma parte a mesma Cruz, e letreiro, que

os Portugueses, e da outra as armas do Reyno com o letreiro: _Primus

Emmanuel_.

No anno de 1504. fez os Portugueses de prata de valor de 400. reis cada

hum com os mesmos letreiros, e cunhos, que os Portugueses de ouro: e

destes mandou fazer meyos, e quartos, que saõ os Tostoens com o mesmo

escudo, e letreiro, que os Portugueses douro. Chamaraõ-se Tostoens à

imitaçaõ doutra semelhante moeda de França, a qual por ter por divisa

huma cabeça, que os Franceses chamaõ _Teste_, se lhe deu o nome de

_Testaõ_, e corruptamente _Tostaõ_.

Depois no anno 1517. fez meyos Tostoens, que de huma parte tem os

cinco escudos das Quinas sem Castellos, e da outra huma Cruz, e de

ambas as bandas diz o letreiro: _Primus Emmanuel R.P. & A. D. G._

Manoel primeiro Rey de Portugal, e Algarve, Senhor de Guinè.

Continuou os Cruzados do mesmo peso, e ley delRey D. Afonso V. e delRey

D. Joaõ II. e nos vintens, e seitijs.

Fez Reaes de cobre de seis seitijs cada Real, que de huma parte tinhaõ

hum R. debaixo de huma Coroa, e da outra o escudo das armas do Reyno

com estas letras: _Emmanuel Rex Portugaliæ, & A. Dominus Guinè_.

Teve ElRey D. Manoel por empresa a Esphera, que vulgarmente se chamava

entaõ _Espera_, e lha deu ElRey D. Joaõ II. como em pronostico da

Coroa. Pelo que depois de ser Rey, mandou lavrar huma moeda de ouro,

que de huma parte tem esculpida huma Esphera, e da outra huma Coroa

com huma letra, que diz: _Mea_; com que parece quiz denotar, que a

Esphera que ElRey D. Joaõ lhe dera por empresa, alcançou elle por

obra, descobrindo, e conquistando a India, e o Brasil, de maneira, que

ficaraõ sendo sua Coroa as quatro partes do mundo, que comprehende a

Esphera. Pelo que alludindo a este Senhorio, usando da palavra _Mea_,

segundo parece, por ser de S. Paulo, que chama aos Philippenses, a quem

converteo: _Gaudium meum, & Corona mea_: meu contentamento; e noutra

parte 1. aos Philippenses 2. _Quæ enim est nostra spes, aut Gaudium,

aut Corona gloriæ, nonne vos, &c_. Donde parece que quiz dizer, que a

sua gloria, e coroa, foy o novo descobrimento, e conversaõ do mundo. Na

India depois de tomada Goa, mandou o Governador Afonso de Albuquerque

fazer algumas moedas com o nome delRey D. Manoel, assim de ouro, como

de prata, e cobre, às quaes poz o nome _Espheras_; que de huma tinhaõ a

Cruz da Ordem de Christo, e da outra a Esphera, que era empresa delRey,

como jà dissemos; pesava a Esphera de prata dous vintens, e outra

ametade, a que chamavaõ _Mea Esphera_, nesta conformidade.

[Illustração]

As moedas de cobre poz nome _Leaes_, e outras Dinheiros, tres dos

quaes valiaõ hum Leal; e de ouro mandou lavrar Cruzados, como se vè nos

Comentarios de Afonso de Albuquerque p. 2 cap. 26.

§. XXXII.

_Das Moedas delRey D. Joaõ III._

Posto que na Chronica delRey D. Joaõ III. se naõ faz mençaõ mais, que

das moedas de cobre, que elle mandou lavrar, com tudo consta de outras

muitas, que fez bater de todos os metaes, e particularmente a moeda

de ouro chamada S. Vicente, que era de peso de 1U000. reis, e de huma

parte tem a figura de S. Vicente com huma nào na maõ esquerda, e huma

palma na direita com letras à roda: _Zelator usque ad mortem_; e he

Zelador da Fè atè a morte; e da outra o escudo Real coroado com as

letras: _Joannes Tertius Rex Portu. & Al._ Desta moeda se lavrou outra

de ametade da sua valia, e com as mesmas insignias, que por isso lhe

chamaõ Meyos S. Vicentes, como se vè da seguinte.

[Illustração]

O titulo de Zelador da Fè, que teve nesta moeda, usou ElRey, por lho

dar o Papa Paulo III. por o grande zelo, e instancia, com que pedio o

Tribunal do Santo Officio da Inquisiçaõ para este Reyno, e como titulo

hereditario usou tambem delle ElRey D. Sebastiaõ nas mesmas moedas, que

em seu tempo mandou lavrar.

Fez outra moeda de ouro do peso dos Cruzados, a que chamaraõ

_Calvarios_, por terem de huma parte huma Cruz comprida posta sobre

hum monte, como ordinariamente a pintaõ no Calvario com estas letras:

_In hoc signo vinces_; e da outra parte o escudo Real com Coroa, e o

letreiro: _Joannes Tertius Port. & Al. R D. Guinè_.

Tambem na India se bateo outra moeda no anno 1548. governando Garcia de

Sà, era de ouro de 20. quilates, e hum quarto; entravaõ num marco 67.

de huma parte tinhaõ as armas de Portugal com a letra: _Joannes III.

Portug. & Al. Rex_; da outra parte a imagem de S. Thomè com a letra:

_India tibi cessit_; della se faz mençaõ na 6. Dec. l. 7. c. 2.

Tambem anno 1555. governando D. Pedro Mascarenhas, se lavrou em Goa

outra moeda de prata, chamada _Patacaõ_, que foy a mayor deste metal,

que houve naquelle Estado, como se refere na 7. Dec. cap. 6. col 6.

Fez tambem de prata, a que vulgarmente chamamos moedas de dous vintens,

que de huma parte tinhaõ huma Coroa, e debaixo o nome delRey nesta

cifra: _Io. III._ e por baixo _XXXX._ e à roda estas letras: _Rex

Portugaliæ Al_. e da outra huma Cruz de S. Jorge com as letras: _In hoc

signo vinces_.

Fez tambem outra moeda destes Reaes de prata dobrados, a que

ordinariamente chamamos quatro vintens, e tem as mesmas insignias, que

os outros; só debaixo do nome delRey tem hum numero de 80. que he a

valia dos 80. reis, e na cercadura diz: _Rex Portugaliæ, Al. D. G._

No cap. 58. da 4. p. da Chronica delRey D. Joaõ III. se diz, que mandou

continuar em Lisboa no lavramento dos Seitijs, que cada hum delles

tinhaõ 18. graõs, e com os mesmos cunhos, que atè entaõ corriaõ. E

assim mesmo mandou fazer Reaes, que valessem seis seitijs, e tinhaõ

meya oitava de peso cada hum; e de huma parte tinhaõ no meyo letreiros,

que em breve diziaõ: _Joannes Tertius Portugaliæ, & Algarbiorum Rex_; e

da outra parte hum _R._ com huma Coroa em cima, que he a primeira letra

do nome da mesma moeda, que he _Real_.

Outra moeda mandou fazer de peso de oitava, e meya, e tem huma Coroa

por cima, e humas letras no circuito, que dizem: _Portugaliaæ, &

Algarbiorum Rex Africæ_; e da outra hum escudo de Armas Reaes.

Fez _Patacoens_ de cobre de cinco outavas, que valia dez reis: e de

huma parte tinha o escudo Real coroado com letras, que em breve diziaõ:

_Joannes Tertius Portugaliæ, & Algarbiorum_; e da outra parte hum _X._

e ao redor: _Rex Quintus Decimus_.

§. XXXIII.

_Moedas delRey D. Sebastiaõ_.

DelRey D. Sebastiaõ hà varias moedas de ouro, como saõ as de 500. reis,

que tem de huma parte huma Cruz da Ordem de Christo com as letras:

_In hoc signo vinces_; e da outra o escudo com Coroa, e na cercadura:

_Sebastianus I. Rex Portugaliæ_. Fez tambem a moeda dos Portugueses de

dez Cruzados.

De cobre mandou lavrar os meyos reaes, os quaes tem hum R. de huma

parte com huma Coroa em cima, e da outra estas letras: _Sebastianus_.

Outros meyos reaes tem de huma parte hum S. grande debaixo de huma

Coroa, e da outra estas letras: _R. Sebastianus I_. Mandou o mesmo

Rey por huma Provisaõ sua de 27. de Junho de 1558. e por outra de 22.

de Abril de 157O. que se lavrassem de prata sómente Tostoens, Meyos

tostoens, Vintens, e Meyos vintem, e que 24. Tostoens fizessem hum

marco de prata, valendo cada Tostaõ 100. reis de seis seitijs o Real, e

que tivessem as ditas moedas os mesmos cunhos, e letras, que atè entaõ

costumavaõ ter as semelhantes; e do lavramento de cada marco de prata

em moeda se tirassem 80. reis para os custos.

Tambem mandou abater as moedas de cobre, que ElRey D. Joaõ seu Avò

lavràra; de maneira, que a moeda de dez reis, que chamamos Patacaõ,

valesse sómente tres, e a moeda de cinco reis, q́ tem hum V. valesse

real, e meyo.

§. XXXIV.

_Moedas delRey D. Joaõ IV._

ElRey D. Joaõ IV. quando tomou posse do Reyno, mandou lavrar os

Cruzados de prata, que tem 400. reis; e os meyos Cruzados, Tostoens, e

meyos tostoens com o mesmo preço antigo, mas de menos peso: porque como

a prata tinha em todas as Provincias do Norte muito mayor valia, que

neste Reyno, levavaõ os Estrangeiros toda a prata de Portugal. E assim

para se remediar este danno foy necessario levantar o preço do marco de

prata, e diminuir o peso das moedas.

Noticias de Portugal · 第 16 / 43 段