O segundo genero de Vassallos se chamavaõ Acontiàdos; porque estavaõ

prestes para servir a ElRey com certas lanças na guerra por certa

quantia de dinheiro, que dos Reys aviaõ, e por isso se chamavaõ

Acontiàdos. Delles, e do modo, com que eraõ aceitados por Vassallos,

se faz mençaõ nas Chronicas do Reyno, e particularmente no primeiro

Capitulo da Chronica delRey D. Pedro, fallando das condiçoens do mesmo

Rey, diz:[147] _Elle foy graõ creador de Fidalgos de linhagem, porque

naquelle tempo naõ se costumava ser Vassallo, senaõ filho, e neto,

e bisneto de Fidalgos de linhagem; e por usança, haviaõ os taes a

contia, que agora chamaõ maravidis, dar-se no berço logo, que o Fidalgo

nascia, e a outro nenhum naõ. Este Rey acrescentou muito nas contas

dos Fidalgos depois da morte delRey seu padre, que naõ embargante,

que ElRey seu padre D. Afonso fosse cumprido no dar de muitas, e boas

bondades, tachavaõ-no porèm de ser escasso muito em grandeza, &c_. Pelo

dito se mostra a qualidade destes Vassallos, os quaes ainda, que eraõ

Fidalgos, differiaõ dos outros Senhores de terras, que temos dito.

Este costume, como ja dissemos no Discurso da Milicia, mostra depois

o Chronista,[148] que innovou ElRey D. Joaõ, mandando dar à lança do

Fidalgo 1U000. livras, e à do que o acompanhava 700. e que os filhos

naõ vencessem contia, senaõ depois de terem idade para poderem servir;

e entaõ lha assentavaõ nos livros, a respeito da que o pay havia, porèm

sempre mais pequena, para dar lugar aos acrescentamentos ordinarios.

O terceiro genero de Vassallo eraõ tirados de cada povo, confórme à

contia das fazendas,[149] por razaõ das quaes eraõ obrigados a ter

cavallos, e Armas; e tiveraõ origem das listas, que os Reys mandaraõ

fazer de toda a gente do Reyno, confórme se costumou em todos os

grandes Estados, e o usaraõ os Romanos, elegendo para isso os seus

Censores. Nestas listas se assentavaõ os nomes dos moradores de

cada povo, e a fazenda, e renda de cada hum, e a respeito dellas se

mandava pòr ley, que os que tivessem tanta contia de fazendas, fossem

obrigados a ter cavallos, e certas Armas. O tempo, em que este genero

de Vassallos teve origem, naõ consta das historias, porèm jà na

Chronica delRey D. Fernando se faz mençaõ delles. Pelo que se enganou

o Doutor Jorge de Cabedo,[150] cuidando que no tempo delRey D. Afonso

V. começaraõ. Fizeraõ-se estas listas no Reyno por muitas vezes, e

particularmente em tempo delRey D. Fernando, D. Joaõ I. D. Afonso V. D.

Manoel, e de entaõ para cà ficaraõ por ley expressa. O Doutor Antonio

Francisco[151] diz, que estes Vassallos tem o primeiro grào da Nobreza;

fazendo a Ordenaçaõ sempre esta distincçaõ: _Se for Vassallo, e dahi

para cima, ou se for piaõ, &c_. Com tudo o nome de _Vassallo_, parece

que nesta particular significaçaõ està extincto, de especial se fez

geral, e comprehende hoje todos os subditos do Reyno, assim grandes,

como pequenos.

§. XXII.

_Dos Infançoens._

Sobre o nome, e qualidade de Infançoens naõ hà menor alteraçaõ entre

os Authores,[152] afirmando muitos, que se dava sómente este titulo

àquelles, que dos Infantes descendiaõ, e que por isso eraõ assim

chamados. E disto hà sentenças em favor dos Cidadaõs de Lisboa, e do

Porto, que todos tem privilegios de Infançoens, concedidos pelos

Reys passados. Porèm o contrario desta opiniaõ consta claramente das

historias, dos privilegios, e das mesmas Provisoens Reaes. Porque

sabido he, que o nome de Infante naõ passa aos filhos dos Infantes; mas

acaba juntamente com elles; e se passara, e se chamaraõ Infançoens,

como estes Authores querem, sem duvida mayor honra fora a de Infançaõ,

que a de Rico Homem. Porèm consta, que sendo os Ricos Homens Senhores

particulares, em quem naõ havia sangue Real, precediaõ em tudo aos

Infançoens, logo naõ podiaõ ser filhos de Infantes. Ve-se isto em

muitos lugares do Conde D. Pedro,[153] o qual refere nos livros das

Linhagens de Espanha, que sendo Ruy Gomez de Britteiros Infançaõ, o

fizera ElRey D. Afonso Rico Homem, como atraz deixamos Escrito. E

tratando de D. Diogo Lopez o Bom Senhor, de Biscaya, quando veyo de

vencer hum graõ torneo, que se fez entaõ em Castella, diz[154] que

desarmando-o sua Mulher Dona Toda com as Donas, e Donzellas de sua

Casa, lhe acharaõ hum ferro de setta em huma perna; e espantando-se

Dona Toda de como o podèra sofrer tanto tempo, lhe disse elle:

_Honrada està agora a filha, do Infançom_. Ao que ella respondeo:

_Este Infançom, que vòs dizedes, por Rico Homem era tido em sua

terra_. Por onde se vè claro; que mòr dignidade era a de Rico Homem,

que a de Infançaõ. O mesmo consta dos privilegios, e em particular

do delRey D. Afonso IV. que traz o Doutor Jorge de Cabedo; porque

nas aposentadorias, que entaõ era costume dar-se nos Mosteiros aos

Fidalgos, manda que se dem aos Ricos Homens 30. reis, e aos Infançoens

15. e aos Cavalleiros 10. E disto hà outros muitos exemplos, que naõ

refiro por escusar molestia. E assim tornando à origem deste nome,

deixadas as opinioens, a mim me parece muy provavel o que escreve

Vidal Canhelas Bispo de Huesca Author antigo de Aragaõ,[155] de quem

Jeronymo Çurita faz muita conta, o qual affirma, que assim como os

filhos de Reys, que naõ herdavaõ, se chamavaõ Infantes; assim aos

filhos dos Fidalgos, que naõ herdavaõ as Casas, e Morgados de seus

pays, lhes chamava o vulgo à sua imitaçaõ, Infançoens, e o mesmo a seus

descendentes; o que tambem affirma Gonçalo Argote de Molina, dizendo

na Nobreza de Andalusia. 1. c. 77. que os Infançoens eraõ filhos dos

Ricos homens. E assim mesmo Escolano[156] na Historia de Valença. Pelo

que ainda, que lhes faltavaõ as riquezas, e grandeza, por naõ serem

os principaes de sua Casa, naõ deixavaõ de ser muito privilegiados,

e honrados. A esta opiniaõ favorece muito ElRey D. Afonso, quando

fallando dos Infançoens nas suas Partidas,[157] diz: _E como quer que

estos vengan antigamente de buen liñage, & hayan grandes heredamientos,

peró nó son en cuenta destos grandes Señores, que de suso diximos_. E

bem se vè serem de boa linhagem, pois casavaõ suas filhas com Ricos

Homens, e os Reys lhes davaõ com facilidade o mesmo titulo, e os

avantajavaõ aos Cavalleiros ordinarios. Pelo que muitos impetravaõ dos

Reys os privilegios, e titulo de Infançoens, como foraõ as Cidades jà

nomeadas; o que os Reys concediaõ sem mais ceremonias, que passarlhes

disso suas cartas.

§. XXIII.

_Da antiguidade dos Duques em Portugal, e do que à sua dignidade

pertence._

Duque se derivou da palavra _Dux_, que em latim significa guia, e

Capitaõ.[158] Sendo este nome generico, se foy fazendo especial em

tempo dos Emperadores Romanos. Porque Augusto Cesar depois de se

ver Senhor do Imperio, dividio as Provincias delle entre si, e o

Senado; e dando à Republica as pacificas, tomou para si aquellas, que

confinavaõ com os inimigos, e tinhaõ necessidade de presidios; e assim

fez nove fronteiras nos confins do Imperio, onde constituhio outros

tantos Exercitos. Estas foraõ Espanha, Alemanha Baixa, Alemanha Alta,

Dalmacia, Panonia, Syria, Egypto, Africa, Misia. A cada Exercito destes

nomeou hum General, que chamou Capitaõ, ou Dux, que he o mesmo. Estes

Exercitos se multiplicaraõ depois pelos Emperadores successivos. Mas

daqui foy a primeira origem de tomarem os Duques o nome das Provincias,

e terem o governo dellas; com tudo este cargo naõ durava entaõ sempre,

mas era por tempo limitado. Porèm entendendo depois os Emperadores,

que os Capitaens, e Soldados fariaõ melhor officio de defender os

limites do Imperio, se tivessem dahi particular proveito, concederaõ

assim aos Duques, como aos Soldados dos Exercitos todas as terras, e

campos, que tomassem aos inimigos, para os poderem possuir em sua vida

sómente, ou de seus filhos, quando lhes succedessem na Milicia. Com

esta[159] occasiaõ se ficaraõ aproveitando os Duques, e principaes

Capitaens de muitas terras nos confins do Imperio, logrando o Senhorio

dellas, e os governos por toda a vida. Pelo que de officios se ficaraõ

fazendo dignidades, como aconteceo quasi aos Capitaens deste Reyno

nas Ilhas, e no Brasil, que de cargo ordinario se lhes deu em vidas,

e fez hereditario, de modo que tanto monta agora chamar a hum homem

Capitaõ de huma Capitanîa do Brasil, ou de huma Ilha, como Senhor,

e Governador della. Passado o Imperio a Grecia, ainda que os maes

deste Capitaens ficaraõ com nomes de Condes, pelas razoens, que logo

diremos; com tudo em muitas Provincias se conservou o nome de Duques,

os quaes tinhaõ particulares insignias, com que andavaõ, porque os

vestidos eraõ vermelhos, o baltheo, ou cinto Militar de prata, ou

ouro, no dedo traziaõ hũ anel com duas pedras, e hum colar lançado a

tiracollo, capacete, e escudo dourado, e só elles podiaõ trazer gente

armada consigo, e diante hum estendarte, cousa que a outrem senaõ

concedia. Algũs dos Governadores, que os Emperadores Gregos mandaraõ

a Italia, Duques se chamaraõ; posto que depois tomaraõ o nome de

Exarcos. Hum destes, que foy Longino (segundo Sigonio)[160] introduzio

o nome de Duques mais comummente em Italia; porque tirando os Varoens

Consulares, ou Rectores, que havia nas Cidades, poz em cada huma seu

Presidente com nome de Duque, e lhe deu grande jurisdicçaõ para cobrar

os tributos Imperiaes, e administrar justiça. Neste tempo entraraõ

em Italia os Longobardos trazidos por Narzetes, Exarco que fora de

Ravena, os quaes achando este modo de governo, o seguiraõ, e poseraõ

em lugar destes Duques, Capitaens seus, com o mesmo nome, fazendo este

officio dignidade, durante a vida de cada hum; e principalmente fizeraõ

naquella Provincia quatro Ducados mayores, que foraõ o Espoletano,

Forojuliense, Benaventano, e Taurinense; a que depois se seguiraõ os

de Perusia, Romano, Toscano, e Campano. O mesmo estylo tiveraõ os

Godos em Hespanha,[161] porque imitando em muitas cousas os Emperadores

Romanos, poseraõ em suas fronteiras Capitaens geraes com o nome Latino

de _Duces_, ou Duques; os quaes governavaõ os seus territorios, e

Provincias, como agora fazem os Viso-Reys, e delles fallaõ muitas leys

do Fuero juzgo. Vindo depois Carlos Magno a Italia, e vencendo o ultimo

Rey dos Longobardos, tomou para si a mayor parte da Provincia, e deu

os Ducados della àquelles principaes, que o ajudaraõ a ganhar a terra;

porèm com mais liberdade, que os Reys Longobardos, porque naõ sómente

lhes deu estes Senhorios em sua vida, como entaõ muitos tinhaõ; mas

para seus descendentes, com condiçaõ que lhe guardassem fidelidade, e

reconhecessem vassalagem. Daqui tiveraõ nascimento os Duques nà fórma,

em que hoje os vemos; porque como muitos Senhores Grandes de Italia

ficaraõ com este Titulo, se estimou mais, que o dos Condes, posto

que mais antigo. A isto se ajuntou dar o Papa Nicolào II. a Roberto

Guiscardo titulo de Duque de Apulha, e Calabria com ceremonias quasi

Reaes,[162] dando-lhe cetro, estoque, e barrete vermelho cuberto de

pedraria, com licença para fazer moeda; do que fizeraõ tanto caso

outros Senhores, que largando os antigos titulos, que tinhaõ de Condes,

e Marqueses, se chamaraõ Duques, como foraõ os Condes de Saboya,

Borgonha, Moravia, Bavaria, Saxonia, e outros muitos; dando assim os

Emperadores, que succederaõ a Carlos Magno, com os Reys de França, e

Inglaterra à sua imitaçaõ em seus Reynos este Titulo a muitos. E de

Inglaterra veyo esta dignidade a Hespanha muitos annos adiante em tempo

delRey D. Joaõ I. quando D. Joaõ Duque de Lencastre, filho segundo

delRey D. Duarte, passou a Hespanha a pretender o Reyno de Castella,

por sua mulher, que era filha delRey D. Pedro de Castella o Cruel.

Pelo que o nosso Rey D. Joaõ I. seu genro à sua imitaçaõ deu a mesma

dignidade de Duque aos Infantes D. Pedro, e D. Henrique seus filhos,

quando veyo de tomar Ceita;[163] e foraõ os primeiros, que houve neste

Reyno, e quasi no mesmo tempo ElRey D. Joaõ I. de Castella fez Duque a

seu segundo filho D. Fernando, que depois foy Rey de Aragaõ.

As ceremonias com que se esta dignidade dava em Portugal, naõ achamos

nas nossas Historias. Porèm segundo Scipiaõ Amirato,[164] e se

collige do Regimento dos Reys de Armas deste Reyno. Vem o novo Duque

acompanhado dos principaes Senhores da Corte, seus amigos, e parentes,

precedendo diante os Reys de Armas, e musica de Ministreis, e levaõ-lhe

huma bandeira, e Coronel os mayores Fidalgos, que o acompanhaõ;

chegando assim ao Paço, entraõ na Sala Real, onde ElRey està em seu

Trono, e lhe fazem huma pratica em seu louvor; dando as razoens porque

ElRey lhe concede aquella dignidade: depois pondo-se o novo Duque de

juelhos diante delRey, lhe mete a bandeira na maõ, e lhe poem o Coronel

na cabeça: feito isto, se torna outra vez a cavallo com as insignias

postas na cabeça atè sua casa. O livro chamado Ceremonial de Principes,

diz que os Duques pòdem trazer estoques diante de si com a ponta para

baixo à differença dos Reys, que o trazem com a ponta para cima, e usar

Coronel na cabeça, e vestir huma oppa vermelha forrada de arminhos

aberta pela ilharga, e que em suas Casas tem doceis, e nas Igrejas

Sitiaes, e se lhe dà a beijar o Evangelho na Missa; diante dos Reys se

assentaõ em Cadeiras razas com Coxins em cima: tem Arautos, e Maceiros

para os acompanharem. Em Italia, e Alemanha usaõ[165] os Duques livres,

em lugar de Coronel, de hum barrete vermelho redondo forrado de

arminhos, que parece significa a liberdade, por ser o barrete antigo

hieroglyphico della.

Neste Reyno se teve sempre esta dignidade em muito, e senaõ deu senaõ

a filhos, e netos dos Reys, ou a parentes chegados à Casa Real. E os

que os Reys atégora fizeraõ sem repetir os Titulos mais, que huma só

vez, ainda que depois se reformasse a mercé, saõ os seguintes: os

primeiros, como vimos, foraõ o Infante D. Pedro, a quem ElRey D. Joaõ

I. seo pay deu Titulo de Duque de Coimbra, e ao Infante D. Henrique

de Viseu; ElRey D. Afonso V. fez Duque de Bragança a D. Afonso Conde

de Barcellos, filho natural delRey D.Joaõ I. e ao Infante D. Fernando

seu irmaõ, de Viseu; e de Guimaraens ao filho mais velho do Duque de

Bragança, ElRey D. Joaõ II. fez Duque de Beja ao Senhor D. Manoel, que

depois foy Rey; o qual deu Titulo de Duque de Coimbra ao Senhor D.

Jorge filho bastardo do mesmo Rey D. João II. e ao Infante D. Luiz seu

filho, o fez Duque de Beja; e ao Infante D. Fernando, da Guarda; ElRey

D. João III. concedeo aos primogenitos da casa de Bragança Titulo de

Duques de Barcellos, e mudou o Titulo de Duque de Coimbra em Aveiro

ao successor do Senhor D. Jorge; e deu à Senhora Infanta Dona Maria

o Titulo de Duquesa de Viseu; ElRey D. Felippe I. deu ao Marquez de

Villa-Real D. Manoel de Meneses Titulo de Duque da mesma Villa, que

depois seu filho teve com Titulo de Caminha; ElRey D. Felippe III.

concedeo aos primos genitos dos Duques de Aveiro se chamassem Duques

de Torres Novas, donde tinhaõ Titulos de Marqueses; ElRey D.João IV.

fez a D.Nuno Alvares de Mello, que era Marquez de Ferreira, Duque do

Cadaval. ElRey D. João V. fez Duqueza de Lafoens a Dona Luiza Casimira

de Sousa herdeira da Casa de Arronches, e mulher do Senhor D. Miguel, e

este Titulo tem seu filho D. Pedro de Sousa. A esta dignidade aconteceo

o que a nenhuma outra, que foy accrescentamento de grào no mesmo nome,

como fizeraõ os Duques de Austria, chamando-se Archiduques, e outros

se accrescentaraõ com o nome de Grandes, como o de Lituania, e o de

Toscana.

§. XXIV.

_Dos Marqueses, que ha no Reyno, e das ceremonias, com que eraõ creados

antigamente._

Marquez se disse de _Marca_, que em lingua Alemã significa termo, e

limite. Naõ foy este nome dignidade conhecida dos Romanos,[166] mas

entrou com os Principes do Norte, os quaes destruindo o Imperio, e

dividindo-o em muitos Reynos, punhaõ nos limites, e marcas de seus

Estados Fronteiros, que as defendessem; e porque a estas fronteiras

chamavaõ Marcas, intitularaõ aos Capitaens _Marchiones_; e depois

corruptamente Marqueses. Deste tempo ficaraõ em Italia os Marquesados

de Mantua, e Ferrara, e as Provincias ditas Marca de Ancona, e

Trivizana. Em Espanha usaraõ tambem os Godos dos mesmos nomes, como

se vè das historias dos Reys Godos, e os aponta Morales,[167] e

particularmente neste Reyno, onde nos deixaraõ a palavra _Comarca_, que

ainda hoje conservamos.

Sendo esta dignidade de Marquez officio, se foy tambem depois naõ

sómente fazendo Senhorio das mesmas Marcas, mas ainda Dignidade, e

Titulo. O primeiro, que houve neste Reyno, foy D. Afonso filho do

primeiro Duque de Bragança, a quem ElRey D. Afonso V. deu este Titulo.

Foy este Senhor, sendo ainda Conde de Ourem, ao Concilio de Basilea

por Embaixador de Portugal com grande acompanhamento, e dahi, antes de

tornar para o Reyno, correo grande parte de Europa, e Asia; e assim

em remuneraçaõ de seus serviços o fez ElRey D. Afonso V. Marquez de

Valença.

As ceremonias, com que esta dignidade se dà, conta largamente Garcia

de Resende[168] na Chronica delRey D. Joaõ II. quando ElRey fez ao

Conde de Villa Real D. Pedro de Meneses Marquez da dita Villa, e foy

nesta forma. ElRey citava em seu estrado Real vestido ricamente, em pè

com a mão na cadeira, debaixo de hum docel de brocado, acompanhado do

Principe, e Grandes da Corte, vestidos todos de festa. O Conde veyo

de sua Casa acompanhado de muitos Fidalgos, precedendo trombetas,

charamellas, sacabuxas, e os Reys de Armas, e hum dos principaes

Fidalgos, que o acompanhavaõ, levava diante hum Estendarte das Armas

do Conde na mão com pontas, e outro huma espada rica embainhada, e o

terceiro huma carapuça de seda vermelha forrada de arminhos, posta em

hum prato de prata ricamente lavrado; com esta ordem entrou na sala, e

chegou ao estrado, em que ElRey estava; e o Chanceler Mór por mandado

delRey fez huma pratica, em que contou os muitos serviços do Conde, e

como em gratificaçaõ delles, o queria ElRey acrescentar à dignidade de

Marquez. Acabada a pratica, se chegou o Conde diante delRey, o qual

tirou a carapuça do prato, e lha poz na cabeça, e tomou a espada, e

lha cingio por cima dos vestidos, e da cinta lha tirou nua, e com ella

lhe cortou as pontas do Estendarte, e ficou em Bandeira quadrada; e

tomou hum anel de diamante, e lho meteo no dedo annular da maõ direita.

Feito isto, o Marquez se poz de joelhos, e lhe beijou a maõ, e o mesmo

fizeraõ logo o Principe, e os mais Grandes, e Fidalgos, que ahi estavaõ

presentes. Convidou ElRey o Marquez, e jantou com elle aquelle dia à

mesma mesa, estando ElRey debaixo do docel no lugar do meyo, e à sua

maõ direita o Principe, e logo o Marquez, e à maõ esquerda ElRey D.

Manoel Duque de Viseu, que depois lhe succedeo no Reyno. Acabado de

comer, se recolheo ElRey, e o Marquez com o mesmo acompanhamento tornou

para casa. Neste Reyno, e no de Italia costumaõ trazer Coroneis de

perolas sobre as Armas; posto que como vimos, ElRey D. Joaõ lhe deu o

barrete Ducal.

Os Senhores, a que os Reys deste Reyno deraõ titulo de Marquez, sem

repetir duas vezes numa Familia o mesmo Titulo, saõ os seguintes. ElRey

D. Afonso V. fez Marquez de Valença a D. Afonso, como jà vimos, e a seu

Irmaõ D. Fernando Marquez de Villa-Viçosa. ElRey D. Joaõ II. a D. Pedro

Meneses Conde de Villa Real fez Marquez da mesma Villa. ElRey D. Manoel

concedeo aos primogenitos dos Duques de Aveiro o Titulo de Marquez de

Torres Novas; e D.Joaõ III. fez Marquez de Ferreira a D. Rodrigo de

Mello, Conde de Tentugal; e ElRey D. Filippe III. deu o mesmo Titulo

a D. Christovaõ de Moura, fazendo o de Conde de Castello Rodrigo,

Marquez da mesma Villa; e a D. Diogo da Sylva o de Marquez de Alanquer;

ao Conde de Portalegre D. Filippe da Sylva fez ElRey D. Filippe o IV.

Marquez de Gouvea; e ao Conde de Castelbom D. Jorge Mascarenhas Marquez

de Montalvaõ; e ElRey D. Joaõ IV. ao Conde de Vimioso D. Afonso fez

Marquez de Aguiar; e ao Conde de Monsanto D. Alvaro Pirez de Castro

fez Marquez de Cascaes, e ao Conde de Vidigueira D. Vasco da Gama

fez Marquez de Niza. ElRey D. Afonso VI. fez Marquez de Fontes a D.

Francisco de Sà, e Menezes Conde de Penaguiaõ: Marquez de Sande a D.

Francisco de Mello, e Torres Conde da Ponte, e Marquez de Marialva a

D. Antonio Luiz de Menezes Conde de Cantanhede. ElRey D. Pedro II.

fez Marquez de Alegrete a Manoel Telles da Sylva: de Fronteira a D.

Joaõ Mascarenhas Conde da Torre: das Minas a D. Francisco de Sousa

Conde Prado: de Tavora a Luiz Alvares de Tavora Conde de S. Joaõ de

Pesqueira. ElRey D.Joaõ o V. fez Marquez de Angeja a D. Pedro Antonio

de Noronha Conde de Villa-Verde: de Gouvea a D. Martinho Mascarenhas

Conde de Santa Cruz: de Marialva a D. Diogo de Noronha: de Valença a

D. Francisco de Portugal Conde de Vimioso, e ao Marquez de Fontes D.

Rodrigo de Sà, e Menezes mudou este Titulo no de Abrantes, ficando o

outro em seu primogenito D. Joaquim Francisco de Sà, e Menezes Conde de

Penaguiaõ.

§. XXV.

_Da origem dos Condes, e sua antiguidade, e preeminencia em Portugal._

Conde se dirivou de _Comes_, palavra latina, que significa companheiro,

e _comitatus_, companhia. Sendo este nome generico, se fez tambem

especial,[169] quando os Emperadores Romanos começaraõ de usar dos

Nobres da Republica para os officios do Paço. Introduzio-se este

costume em tempo de Valeriano;[170] o qual como se tratasse jà mais

como Rey, que naõ seus antecessores, transferio o Senado para o Paço; e

escolheo dos principaes Senadores hum Conselho, com o qual determinava

tudo. E porque elle de sua condiçaõ naõ estava nunca em hum lugar,

e caminhando sempre, e trazendo fempre consigo estes Senadores, lhe

chamaraõ _Comites_, ou Companheiros de Cesar, e aos Continuos da Corte,

e à Casa Imperial, _Comitatus Cæsaris_; foy logo de grande estima este

Titulo de Companheiro do Emperador; e concedia se aos Conselheiros;

e àquelles, que no Paço tinhaõ superintendencia em algum particular

ministerio; e precediaõ a outros Ministros inferiores, chamando-os

Condes daquelle officio. De maneira, que ao que agora dizem o Veador

da Casa, chamavaõ elles: _Comes rei privatæ_: ao Guarda roupa: _Comes

sacræ vestis_: ao Veador da fazenda: _Comes largitionum_; e assim aos

de mais, como se pòde ver largamente[171] pelo livro da Noticia de

ambos os Imperios. Depois estenderaõ os Emperadores Marco Aurelio, e

Lucio Comodo Uro este nome de _Comites_, ou Condes, aos Governadores

das Provincias, aos quaes deraõ Titulo de Condes dellas. E no Imperio

Occidental se governaraõ por Condes, Italia, Africa, o destrito de

Argentina em Alemanha, Inglaterra, o Illyrico, e as Espanhas. Pelo

que vindo os Godos, e Naçoens do Norte a apoderar-se das Provincias

Romanas, usaraõ do mesmo estilo; e seus Reys querendo imitar o

fausto dos Emperadores, deraõ tambem nomes de Condes aos Senhores,

e Illustres, que os serviaõ nos officios do Paço: e particularmente

vemos isto nos Reys Godos de Espanha, cujas Historias,[172] e

Concilios de seus tempos estaõ cheyos destes nomes de Condes, como era

o que chamavaõ; _Comes escanciarum_, que servia de Copeiro: _Comes

cubiculi_, de Camareiro: _Comes patrimonij_, de Veador da fazenda:

_Comes spathariorum_, de Capitão da Guarda: _Comes stabuli_, de

Estribeiro Mòr: _Comes Notariorum_, o Secretario: _Comes Thesaurorum_,

o Thesoureiro Mòr, e assim outros muitos.

Noticias de Portugal · 第 12 / 43 段