Miranda, Moniz, Motta, Moura.
=N=
Nogueira, Noronha.
=P=
Paçanha, Pacheco, Pereira, Pimentel, Pinto.
=Q=
Queirós.
=R=
Ribafria, Ribeiro.
=S=
Sà, Sampayos, Sequeira, Serpa, Serveira, Sylva, Sylveira, Souto-Mayor,
Sousa.
=T=
Tavares, Tavora, Teixeira.
=V=
Valente, Vasconcellos, Vieira.
Por baixo ao longo da aba do forro deste tecto estaõ escritos estes
quatro versos nos quatro lados das paredes da Casa com letras palmares
de ouro.
_Pois com esforço, e leaes
Serviços foraõ ganhados
Com estes, e outros taes
Devem de ser conservados._
Desta casa faz mençaõ Damiaõ de Goes na Chronica delRey D. Manoel,
quarta parte cap. 86. fol. 112. com estas palavras: _Mandou ver todalas
sepulturas do Regno, para dellas se notarem as armas, e insignias, e
letreiros, que nellas havia, das quaes armas mandou no Paço de Sintra
pintar todolos Escudos com suas cores, e Timbres em huma fermosa Salla,
que para isso mandou fazer: àlem do que mandou fazer hum livro muito
bem luminado, em que estaõ pintados os mesmos Escudos da linhagem da
Nobreza destes Regnos, &c_.
Succederaõ estes Reys de Armas modernos aos Antigos Feciales
Romanos,[135] que eraõ os que publicavaõ as pazes, e guerras nos
Exercitos, de que faz mençaõ muitas vezes Livio, e outros Autores
Latinos. Este cargo tinhaõ entre os Gregos os Caduceatores, e entre
Carthagineses os Trombetas, e outros em outras Provincias, segundo
o uso de cada Naçaõ. Diogo do Monte citado por D. Sebastiaõ de
Covarruvias[136] affirma, que Julio Cesar instituhio certas dignidades,
que se davaõ a doze Cavalleiros antigos depois de jubilados na Milicia;
os quaes levavaõ nas vestiduras as insignias do Principe, e nenhumas
armas offensivas; porque estes naõ pelejavaõ, mas advertiaõ, e notavaõ
sómente os feitos valerosos dos Soldados; para que depois se desse o
premio aos benemeritos, e esforçados, e lhes deu nome de Heroes, e diz
que Carlos Magno renovou estes cargos com as mais cousas do Imperio
Latino; e do nome Heroes se disseraõ Heraldos, e Heraos, como os chamaõ
em França. E assim tiveraõ antigamente grande authoridade, e delles
usaraõ os Principes de Alemanha, Inglaterra, Castella, e Portugal.
Ha tres especies delles, os primeiros, e menores saõ chamados
Passavantes, os quaes tem o nome da principal Villa da sua Provincia.
Estes antigamente tinhaõ por officio andar por varias Provincias vendo
os usos, e costumes dellas. Os segundos se chamaõ Arautos, e eraõ
ordinariamente os interpretes dos Reys, e os que levavaõ seus recados
na guerra, de que ha assaz de exemplos na historia delRey D. Afonso V.
e na de D. Carlos V. Emperador, e Rey de Castella: para o que quasi
de todas as gentes tiveraõ salvo conduto. Tomaraõ o nome da principal
Cidade do Reyno. Ultimamẽnte saõ os Reys de Armas, que se intitulaõ do
nome da Provincia.
Neste Reyno ha tres Officiaes de cada Provincia, cada hum de sua
especie. Os nomes de que usaõ, saõ Rey de Armas Portugal, Arauto,
Lisboa, Passavante, Santarèm, Rey de Armas Algarve, Arauto Sylves,
Passavante Lagos, Rey de Armas India, Arauto Goa, Passavante Cochim.
Os Reys de Armas tem obrigaçaõ neste Reyno, segundo o Regimento, que
lhes deu ElRey D. Manoel, de cada hum em sua Provincia fazer hum livro,
em que se escrevaõ todas as Familias dos Nobres, e Fidalgos, que nella
vivem, apontando os casamentos, e filhos, que cada hum ha; e fazendo
disso arvores certas, e distintas com seus nomes; e por este trabalho
manda ElRey lhe dem os Fidalgos suas gajas. Tem mais obrigaçaõ de
fazer, que cada hum traga as armas, que lhe pertencem de direito, e
de visitar cada qual sua Provincia de dous em dous annos. Manda-lhes
assim mesmo ElRey se appliquem ao estudo da Armaria, de maneira que
entendaõ as causas, porque se deraõ as armas a cada Familia; e as
possaõ explicar, quando lhe pedirem as declaraçoens, assentando tudo
em seus livros. Obrigados a por em lembrança todos os feitos de armas,
que em suas Provincias passarem; e assim mesmo as mesagens, recados,
torneos, justos, retos, e desafios, especificando os actos de cada
cousa, como na verdade passaraõ. Manda que elles sós possaõ passar as
Cartas de Armas, que se pedirem de novo, appresentando as petiçoens
aos Desembargadores do Paço; hum dos quaes farà exame de testemunhas,
porque conste, que o que pede a Carta de armas, he daquella linhagem, e
lhe pertence, e que só o Rey de Armas as assinarà.
Tem tambem obrigaçaõ de assistirem nos levantamentos dos Reys, nos
actos das Cortes, nas entradas solennes das Cidades, e nos Exercitos,
quando os Principes se achaõ nelles. Acompanhaõ nos actos publicos aos
Fidalgos, a quem os Reys daõ novos Titulos, assistem nas mesas ao comer
dos Reys, e quando vaõ fóra pela Cidade, e finalmente nos enterros,
e exequias. Estas saõ as obrigaçoens dos Reys de Armas, muitas das
quaes naõ sey se se cumprem, e se he por descuido, ou pelos poucos
premios, que recebem de seu trabalho; porque tirando a assistencia,
que fazem aos Principes nos actos publicos, e acompanhamentos, e o
passar as cartas ordinarias de Armas, no apontar as geraçoens, naõ vi
memoria alguma. Porèm acudiraõ a esta obrigaçaõ alguns particulares,
movidos do zelo do bem commum, por naõ se acabar a memoria da Nobreza
de todo. E deixando o primeiro, que isto fez em Portugal, que parece
foy conhecidamente o Conde D. Pedro, filho delRey D. Diniz (a quem
deve a Nobreza de Espanha isso, que se della sabe, como confessaõ os
Historiadores Castelhanos.) Depois delle seguio esta empresa no que
toca a este Reyno sómente Xisto Tavares Quartanario da Sè de Lisboa
continuando algumas Familias, de que tratou o Conde. Porèm ainda que
o fez com diligencia, escreveo de poucas. Imitou-o Damiaõ de Goes
Chronista Mór, e fez o livro de Geraçoens, que hoje està na Torre do
Tombo imperfeito, por lhe naõ dar a vida lugar ao acabar de todo, e
assim tratou sómente de poucas Familias. O Cardeal D. Henrique, como
Principe taõ zeloso, encommendou esta empreza a Gaspar Barreiros Conego
de Evora, na qual elle confessa, que trabalhou muito, porèm naõ lhe deu
fim: e por sua morte encarregou o Cardeal o livro ao Bispo Jeronymo
Osorio, que o acrescentou de algumas cousas; e por seu fallecimento o
recolheo o Bispo Capellaõ Mòr D. Jorge de Ataide. D. Antonio de Lima
fez tambem hum Nobiliario collegido dos livros dos Registos dos Reys
muy apurado, e bom. Outro livro compoz tambem de Geraçoens Diogo de
Mello Pereira Prior de Tentugal, parte do qual chegou a se imprimir;
mas por justos respeitos, e defeitos, que tinha na composiçaõ, foy
mandado tirar da imprensa. Destes livros, e doutros, que nesta materia
fizeraõ muitos Fidalgos, se tem tirado muitas arvores de Geraçoens; as
quaes para serem perfeitas, costumaõ os Italianos fazer com os retratos
naturaes de cada pessoa dentro no seu circulo, e à roda delle lhe
escrevem o nome, e em cima lhe poem a insignia da dignidade, que teve,
como o Coronel, sendo Titulado, a Mitra, ou Chapeo, sendo Cardeal, ou
Pontifice: aos Santos cercaõ os circulos de resplandores; aos Generaes
dos Exercitos poem por insignia o Bastaõ; aos Capitaens da Cavalleria,
o Elmo; e aos Cavalleiros das Ordens Militares assentaõ os circulos
sobre as mesmas Cruzes; e do tronco da arvore penduraõ o Escudo das
Armas da tal Familia.
Na explicaçaõ das Armas fizeraõ os Officiaes da Nobreza pouca mais
diligencia; porque usando sómente de certos livrinhos estrangeiros,
que trataõ das cores, e metaes dos Escudos, todo seu intento poseraõ
em explicar estas cores; dizendo, que o vermelho significa sangue, o
branco pureza, e assim outras cousas vulgares, que de cada cor, e metal
ordinariamente se dizem, e por aqui explicaõ com regras geraes todos
os Brazoens. O mesmo quasi fazem das peças dos Escudos, dizendo que
os animaes saõ mais nobres, que as plantas, e estas, que os metaes, e
os metaes, que os edificios, e outras cousas semelhantes contra toda
a boa razaõ. Porque deste modo ficavaõ sendo mais nobres as Armas de
hum particular, que tivesse no Escudo hum Lobo, ou hum Leaõ, que naõ
as de hum Rey, que tivesse hum Castello, ou huma Cadeya; como saõ os
de Castella, e de Navarra, ou huns Escudos, como os de Portugal. Pelo
que com razaõ reprovaõ esta opiniaõ Thomaz Garsone[137] na sua Praça
universal, e Gregor. Lopez Madeira[138] nas Excellencias da Monarquia
de Espanha; os quaes resolvem, que a Nobreza das Armas naõ se hà de
regular pelas cores, ou materiaes, de que constaõ; mas pela dignidade
de quem as traz, ou pela bondade do acto, em que foraõ ganhadas. Sò na
ordem de trazer as Armas poseraõ mayor cuidado, ordenando que sò os
Chefes tragaõ as Armas direitas, que he o mesmo, que sem differença; e
a todos os outros filhos segundos se lhes poem alguma peça no Escudo
para differença. Esta peça se toma ordinariamente das Armas dos Avòs.
E sendo muitos irmaõs, o primeiro tem a escolha para tomar a melhor
differença, Ve-se isto muy distinctamente na Casa das Armas de Cintra,
onde mandou ElRey D. Manoel pòr as suas no meyo, e à roda as de todos
os seus filhos; dos quaes hum tomou por differença as de Castella,
outro as de Aragaõ, outro as de França, Inglaterra, &c. cada hum por
sua precedencia. Quando pintaõ os Escudos, os poem sempre inclinados
para a parte direita; posto que os Chefes os trazem hoje direitos com
os elmos fronteiros, havendo algum animal no Escudo, ou outra peça,
se poem tambem por Timbre: ninguem sendo Chefe pòde trazer as Armas
com outra mistura, tirando se o for de muitas geraçoens; porque entaõ
as poderà trazer juntas. Os outros podem usar das dos quatro Avòs,
quarteadas, ou das de sua mãy sómente. As mulheres trazem as Armas em
Escudos quadrados postos com a ponta para cima, partindo o campo em
palla, e deixando a parte direita delle para as Armas do marido.
§. XIX.
_Do modo, com que saõ postos os nomes aos Officiaes da Armaria._
ElRey D. Manoel depois, que mandou fazer o Regimento dos Officiaes da
Armaria, diz Damiaõ de Goes no cap. 80. da 4. p. da sua Chronica, que
em Lisboa nos Paços da Ribeira fez hum acto publico muito solemne,
em que deu nome a todos os Reys de Armas, e Arautos, e Passavantes
destes Reynos, a cada hum delles separadamente da sua Provincia.
Pelo que me pareceo bem pòr aqui as ceremonias, com que estes actos
se fazem; porque alèm de pertencerem a este lugar, atègora as naõ vî
escritas em outra parte. Estando ElRey sentado debaixo do Docel em
Sala publica, vem o novo Passavante, e o Rey de Armas o appresenta sem
cotta, nem Brazaõ diante delRey, e posto o Passavante de joelhos faz
o juramento seguinte. Foaõ Passavante juro a estes Santos Evangelhos
nas maõs de Foaõ Rey de Armas, que bem, e verdadeiramente, e com todo
o cuidado, e diligencia aprenda todo o que necessario for ao nobre
officio das Armas, para que dignamente possa passar, e ser acrescentado
ao officio de Arauto, e de Rey de Armas, quando ElRey Nosso Senhor
disso houver por seu serviço de me prover. E assim juro em todo o que
pelo dito Senhor, e por aquelles, que para elle seu lugar tiverem,
me for mandado, que de meu officio de Passavante faça, e farey toda
a fidelidade, cuidado, e diligencia, assim como devo, e saõ obrigado
fazer ao serviço de meu Rey natural, e Senhor.
Acabado o juramento, o Copeiro Mòr traz huma taça de prata branca com
agua, e sem cobertura, e o Veador huma toalha, e dando o Copeiro Mòr
a taça a ElRey, lhe lança por cima da cabeça huma pouca, e lhe poem o
nome da Villa, que quer, e o principal Senhor, que està na Sala, toma
a toalha da maõ ao Veador, e a dà a ElRey para alimpar as maõs. Feito
isto, o Rey de Armas lhe poem o Brazaõ no peito à parte esquerda,
e veste a cotta de Armas atravessada, como he costume trazerem os
Passavantes, e depois de vestidos, assim elles, como os mais Officiaes
de Nobreza, e o Rey de Armas bejaõ a maõ a ElRey, e o Copeiro Mòr dà
ao Passavante a taça de prata, em que esteve a agua, a qual leva na
maõ, porque de direito lhe pertence.
O Arauto vem a este acto vestido, ainda como Passavante, e
acompanhando-o diante todos os Officiaes da Nobreza, leva-o pela mão
o principal Rey de Armas, o qual o appresenta diante delRey: o Arauto
entaõ posto de joelhos com a mão em hum Missal, que o Rey de Armas tem
aberto, faz o juramento seguinte.
Juro aos Santos Evangelhos nas maõs do Rey de Armas Foaõ, que bem, e
fiel, e lealmente servirey a ElRey Nosso Senhor toda a minha vida, e
me naõ mudarey, nem passarey para nenhum outro Rey, nem Principe, nem
mudarey o nome, que pelo dito Senhor me he posto, resalvando, se para
elle o dito Senhor me der licença.
Juro assim mesmo, que em qualquer maneira, e em qualquer tempo, que
sentir danno, ou proveito do dito Rey Nosso Senhor, que a meu officio
toque, e pertença, o revelarey, e direy a sua propria pessoa, ou a quem
por elle me for mandado, resalvando em guerra, se o dito Rey nosso
Senhor com algum Rey, ou Principe a tivesse, ou com qualquer outra
pessoa, a que por meu officio saõ obrigado guardar segredo, assim a meu
Senhor, como à parte contraria.
Juro assim mesmo, que em todas as mesagens, recados, embaixadas, de
que for encarregado, assim pelo dito Rey Nosso Senhor, como pelos que
seu lugar, e mandado para elle tiverem, como de qualquer outro Rey, ou
Principe; posto q́ estè em imizade com o dito Rey nosso Senhor, farey
verdadeiras, e fieis relaçoens: inteiramente direy, e fallarey o que
me for dito, e mandado, e naõ acrescentarey, nem minguarey disso cousa
alguma por odio, dadivas, nem prometimento, nem por outro respeito
algum, e em tudo farey verdade, servirey fielmente, &c.
Juro assim mesmo, que quando me achar em algumas justas, ou torneos,
ou em guerras, escaramuças, desafios, assaltos, ou em quaesquer outros
actos de guerra de qualquer sorte, e qualidade que sejaõ, sempre diga
fiel, e verdadeiramente tudo aquillo, que vir por meus olhos à boa fé,
e sem engano, nem malicia, e sem acrescentar, nem diminuir alguma cousa
em nenhum modo que seja; e de tudo farey verdadeiro, e fiel testimunho,
sem tirar, nem minguar, nem acrescentar a honra, e louvor, e fama de
nenhuma pessoa por nenhum respeito que seja.
Juro assim mesmo, que serey verdadeiro, e leal, fiel, secreto a todo o
Estado de Nobreza; e tudo o que for dito em segredo, naõ sómente nestes
Reynos, e seus Senhorios, mas em qualquer outro Reyno, em que me achar,
ou Senhorio.
Juro assim mesmo, que naõ farey desafio, nem entrevirey nelle entre
nenhumas pessoas de qualquer qualidade, e condiçaõ que sejaõ, sem
mandado Especial delRey nosso Senhor.
Juro assim mesmo, que qualquer dadiva, bem, ou honra, que receber de
qualquer Rey, Principe, ou Senhor, a que por ElRey Nosso Senhor for
enviado, ou por quem seu lugar, e mandado para elle tiver, o direy
a ElRey Nosso Senhor: e assim a quaesquer outros Reys, e Principes,
se por elles por isso for perguntado, naõ direy mais, nem menos, do
que receber, nem me for feito por tal, que verdadeira, e fielmente
notifique a Nobreza de cada hum.
Acabado o juramento traz o Copeiro Mòr huma copa dourada sem cobertura
com agoa, e o Veador a toalha; e ElRey na fórma ja dita lança a agoa
pela cabeça ao Arauto, e lhe poem o nome da principal Cidade, que ha
por bem, e tomando ElRey a toalha na fórma jà dita, o Rey de Armas vira
a cota ao novo Arauto, e lhe poem o Brazaõ à maõ direita, publicando
todos os Officiaes da Armaria em voz alta por tres vezes o nome do
mesmo Arauto. O que feito bejaõ a maõ a ElRey, e o Copeiro dà a Copa ao
novo Arauto, que a leva na maõ por ser de direito sua.
Quando ao Rey de Armas se lhe poem o nome, vay tambem ao Paço
acompanhado de todos os Officiaes da Nobreza vestidos com suas còtas,
e postos de joelhos diante delRey, faz o juramento seguinte em hum
Missal, que o principal Rey de Armas tem na maõ, dizendo.
Juro a estes Santos Evangelhos nas maõs de Foaõ Rey de Armas, que
bem, e verdadeiramente darey do livro de meu Regimento das Armas aos
Nobres as armas, que direitamente se lhes pertencem, segundo a ordem, e
Regimento, que para elle me he dado por ElRey Nosso Senhor, que em tudo
guardarey, cumprirey: e que por temor, nem por amor, nem por dadiva,
nem por prometimento; nem por outro nenhum respeito, naõ farey nisso
cousa, que naõ deva; e finalmente guardarey nisso a justiça, e direito
da parte a que tocar.
Juro assim mesmo, que quando for enviado com algum Embaixador, que
ElRey Nosso Senhor enviar, serey com todo o cuidado diligente a seu
serviço, e fielmente farey, cumprirey tudo o que me for mandado, e com
minha cota de armas vestida entrarey onde quer que me for mandado por
ElRey Nosso Senhor, ou por seus Embaixadores.
Juro de em todo cumprir, e guardar o juramento, que feito tenho, quando
fuy feito Arauto, e todas as cousas, obrigaçoens do dito juramento, e
cada huma dellas cumprirey, e sarey fiel, e verdadeiramente, como no
dito juramento he conteudo.
Feito o juramento, o Copeiro Mòr traz outra copa dourada com sua
cobertura, e o Veador huma toalha, e tomando ElRey a copa, lança ao
novo Rey de Armas a agoa pela cabeça, e lhe poem o nome da Provincia,
que ha por bem. E depois de lhe darem a toalha na fórma referida, os
Officiaes da Nobreza publicaõ logo o nome do novo Rey de Armas, e
recebe a copa, que teve a agoa, da maõ do Copeiro Mòr, e a leva por ser
gaja sua.
§. XX.
_Dos Titulos, que antigamente se davaõ aos Grandes do Reyno; e
particularmente dos Ricos Homens._
Os Titulos, que os Reys concederaõ à Nobreza, foraõ varios, e que o
tempo tem mudado muito. Porèm começando dos mais antigos, trataremos
somente de tres, por serem os mais communs, e que duraraõ até quasi
nossos tempos, a que succederaõ os Duques, Marqueses, Condes,
Viscondes, e Baroens, que de presente se usaõ.
O nome de Ricos Homens, diz ElRey D. Afonso, se lhes deu porque àlem
da riqueza temporal, foraõ tambem ricos de partes naturaes. Porèm isto
he moralizar; e assim me parece mais certo o que diz Fr. Hieronymo
Roman,[139] o qual affirma, que no tempo daquelles primeiros Reys, que
succederaõ a D. Pelayo pelas miserias em que todos estavaõ, naõ havia
Titulos, e a cada hum se dava o nome das cousas, com que servia aos
Principes, e ajudava na guerra contra os Mouros, chamando Escudeiros
aos que pelejavaõ com Espadas, e Escudos; e Cavalleiros aos que serviaõ
a cavallo. E aquelles, que pelas riquezas de bens se avantajavaõ aos
outros, mantendo à sua custa gente de guerra, os intitulavaõ Ricos
Homens. Estes depois foraõ os Mestres de Campo, e Generaes na guerra,
que só podiaõ fazer gente, e trazella a seu cargo, e naõ reconheciaõ
outro Capitaõ, senaõ o mesmo Rey. Era este nome de Rico Homem, segundo
se collige dos Foros de Sobrarve, pelos quaes em seu principio se
governaraõ os Navarros, e Aragoneses, generico, e o dava o povo a quem
lhe parecia. Porèm depois que os Reys vieraõ a mayor crescimento, e
magestade, tomaraõ para si o concedello. E assim vemos no livro das
Linhagens do Conde D. Pedro,[140] como ElRey D. Afonso fez Rico Homem a
D. Ruy Gomes de Briteiros, e lhe deu Pendaõ, e Caldeira. E na Chronica
delRey D. Afonso IV. se faz mençaõ de como concedeo este titulo, e
insignias a Lopo Fernandes Pacheco. E nas de Castella se le, que D.
Afonso Fernandes Coronel, com ser senhor de muitas Villas, desejava o
titulo de Rico Homem, e o alcançou delRey D. Pedro.
Faziaõ os Reys este acto com grande solennidade; porque o que havia
de receber tal titulo, velava primeiro as armas com as ceremonias da
Cavallaria para ser armado Cavalleiro, que era o fundamento sobre que
todas as dignidades militares antigamente assentavaõ. Depois o levavaõ
com grande acompanhamento aonde ElRey estava, e posto de joelhos
diante delle, lhe entregava hum pendaõ, ou bandeira em sinal, que o
fazia General, e lhe dava poder para capitanear, e governar a gente
na guerra. No pendaõ hiaõ pintadas humas Caldeiras; pelas quaes se
demonstrava, que podia trazer gente na guerra, e sustentalla. Destes
Ricos Homens ficou, parece, o costume de darem aos Condes, e Titulos,
que depois aos Ricos Homens succederaõ (como quer ElRey D. Afonso o
Sabio) as bandeiras, quando com solennidade se lhes dà a investidura
de suas dignidades, como o sente Garibay.[141] As Caldeiras, que o
pendaõ levava por divisa, tiveraõ sua origem do pouco dinheiro, que
entaõ havia em Hespanha; por cuja causa senaõ dava aos Soldados soldo
de dinheiro, mas mantimento. E como para o poder guisar a tanta gente
eraõ necessarios grandes vasos, usavaõ destas Caldeiras de notavel
grandeza, como ainda hoje se vem nos Conventos da Batalha, e Alcobaça,
onde ficaraõ algumas da vitoria de Aljubarrota. Continuou-se o Titulo
de Ricos Homens neste Reyno por muitos annos, e ainda ElRey D. Manoel
faz mençaõ delles, e das Ricas Donas, que eraõ suas mulheres. Porèm
nas Ordenaçoens[142] he mais nome generico, que naõ particular Titulo;
e com tudo hoje està jà de todo exincto, succedendo em seu lugar os
outros Titulos modernos.
§. XXI.
_Dos Vassallos._
Este nome Vassallo, confórme diz Scipiaõ Amirato,[143] se derivou de
_Vasso_, que significa inferior; e mostra com varias authoridades,
que os Vassallos se diziaõ antigamente Vassos por estarem sogeitos a
alguns Senhores. Daqui podemos entender, que se introduzio esta palavra
em Hespanha com o Imperio Gotico, pois a Italia, e França o trouxeraõ
as Naçoens do Norte. Debaixo deste nome se comprehenderaõ antigamente
neste Reyno muy differentes generos de pessoas; o que naõ advertindo
alguns Authores, se enganaraõ grandemente, cuidando que só os Grandes,
e Senhores de terras tinhaõ tal Titulo, como affirma Fr. Hieronymo
Roman,[144] e em parte o Doutor Jorge de Cabedo,[145] dizendo, que o
nome de _Vassallo_ atè o tempo delRey D. Afonso V. era só de grandes
Senhores; mas que de entaõ para cà se deu a homens de grande qualidade,
chamados Vassallos acontiàdos; sendo assim, que de todos estes generos
de Vassallos se faz mençaõ nas Chronicas antigas, muitos annos antes
delRey D. Afonso V. Para o que he de saber, que debaixo deste nome
se comprendiaõ tres generos de gente, os primeiros eraõ Senhores de
terras, e Alcaides Mòres, os segundos Fidalgos, e os ultimos gente
rica popular. De todos elles faz mençaõ ElRey D. Afonso Sabio[146]
nas Partidas, com estas palavras: _Vassalos son aquellos, que reciben
honra, e buen echo de los Señores; assi como Cavalleria, o tierras,
o dineros, por servicio señalado, que le ayan de fazer_. Do primeiro
genero de Vassallos falla o mesmo Rey em outra Partida, especialmente
ordenando, que elles só confirmem as Doaçoens dos Reys; com tudo neste
Reyno os Grandes, e Senhores de terras, e Alcaides Mòres tinhaõ este
titulo, como mostra largamente o Padre Fr. Jeronymo Roman; onde vemos,
que a D. Afonso de Meneses Conde de Barcellos, ao Condestable D. Nuno
Alvares Pereira, a Vasque Annes de Castello Branco, a Joaõ Cesar, e
outros semelhantes deraõ os Reys este nome. Pelo que parece claro,
que todos os Senhores, que hoje chamamos de terras, se diziaõ entaõ
Vassallos delRey absolutamente.