do mesmo Appellido, como confessa Argòte de Molina l. 1. 42. & 43.
aonde diz, que os Reys de Leaõ tomaraõ por armas hum Leaõ, como cifra
do titulo de seu Reyno de Leaõ, e os de Castella hum Castello. E assim
vemos em quasi todos os Appellidos, que significaõ algum sinal, ou
instrumento, os daquella linhagem tomarem por armas a mesma figura
do Appellido. Os que trazem em Portugal nos Escudos por armas as
peças, que significaõ os Appellidos, por cifra, saõ as seguintes. Os
de Abreu, ou Avreu, os Cotos de aves; Alvernazes, ramos de Carapeto,
alludindo ao verde perpetuo de Veraõ; os de Arco, o arco; os de
Agumias, gumiz; os de Aguiar, aguias; os Aranhas, huma aranha; os de
Azinhal, azinheira; os Azambujas, hum azambujeiro; os Bacellares,
huns bacellos verdes; os do Appellido de Badajoz, a Imagem de S.
Joaõ Bautista com a mesma Cidade na maõ, que tomaraõ, por a Sè de
Badajoz ser do orago de S. Joaõ Bautista, e ser o Castello a Cidade;
Bayaõ, cabras, por haverem sido Senhores de Cabriz; os de Belliagua,
as aguas; Bicudo derivado de pecudum, que he gado, hum carneiro;
Biscaya, as armas de Biscaya; Biveiro, Caldeiras de Ricos homens;
Borreco, borregos; Botilher, humas botelhas; Brandoens, brandões;
os Caceres trazem huma palmeira, que he insignia de vitoria; porque
ainda que a parte delRey D. Pedro, que seguiraõ, ficou vencida, e
elles foraõ desterrados de Castella, ficaraõ com a vitoria de se naõ
sogeitarem à parte contraria, e conservando sua lealdade. Tambem se
trazem as folhas de Golfaõ, por sinal da vitoria do campo, onde se
deu a batalha, como se vè nos Furtados, Montoyos, e Taveiras; Cabral,
cabras; Caldeiras; Camoens a serpente, que Cadmo matou, por se prezarem
de descenderem delle; Çapatas, humas çapatas; os Cardosos, cardos;
os Carneiros, carneiros; Carrascos, hum carrasco; Carvalhaes, hum
carvalho, Carvoeiro, matta para carvaõ; Carvalhos, carvalho; Cerveiras,
cervas, Chacins, os arminhos por antiphrasi; Chaves, chaves; Cirnes,
hum cirne; Coelho, coelhos; Cordovil, oliveira cordovil; Cordeiros,
cordeiros; Corvachos, corvos; Costa, costas; Correa, correas, Cotas,
huma cota de armas; Couros, a serpe assim chamada, Cogominhos, Chaves,
por terem por solar esta Villa, e haverem sido seus Alcaides Mòres;
Cunha, cunhas; os Delgados, hum limoeiro com huns limoens de ouro,
alludindo à celebre Albergaria de Payo Delgado, que fundaraõ em Lisboa
no sitio do Limoeiro; Dragos, dragos; Evangelhos, as figuras dos
quatro Evangelistas; Fagundes pelo solar de Chaves, trazem chaves;
Farinha, bolos de farinha; Fialhos, tres mundos, alludindo à palavra:
_Fiat lux_; Figueira, humas figueiras; Figueiredo, folhas de figueira;
Fogaças, duas fogaças; Fragosos, que; em latim se chamaõ: _Fulgosos_,
tres Soes resplandecentes; Galvaõ, hum gaviaõ. Gaviaõ, huns gavioens;
Garcez, garça, Gatachos, e Gatos, huns gatos, os Guantes trazem
manoplas (que saõ guantes) de prata; Lagartos, lagartos; Lagos, huma
torre com huma ribeira ao pè; Lançoens, Lançoens: Laras, caldeiras
de Ricos homens: e do mesmo modo os Manriques: Lobatos, lobos,
Lobeira, lobos: Lobia, cordeiros, por ser a relè dos lobos: Lobos,
lobos: Lousadas, as lousas dos lagartos: Lucenas trazem hum Sol,
alludindo ao nome da luz, da qual he o Sol a fonte: Lucio, o peixe
lucio: Lunas, humas luas, Machados: Mattos, matta com leoens: Moraes,
amoreira, Monteiros, cornetas de montaria: Nabaes, e Novaes, novellos.
Oliveiras, oliveira: os de Ortiz trazem hum Sol, pela equivocaçaõ de
_Ortus_, que por antonomasia, quer dizer o nascimento do Sol, e pela
allusaõ do verso do Psalmo: _Ortus est sol_: Pachecos, caldeiras de
Ricos homens: Padilhas, humas paz, Paçanhas, huma banda vermelha com
dentes de Serra pelo solar em Genova se chamar Penha, ou Serra roxa,
que em nossa linguagem he vermelha: os Pedrosos, cinco pedras em aspa:
Perdigão, perdigoens: Perestrellos, estrellas: Pinheiros, pinheiros:
os Porras, humas cachaporras: os Puges, humas espòras quasi pungentes,
ou picantes: Rego, rego: Ribafria, Castello sobre ribeira: Ribeiros,
ondas, Sardinhas, hum ribeiro de sardinhas: Rio, e Rios, faxas de
agua: Sarmento, huns sarmentos: Seixos, Pombas seixas: Serniches,
humas serras: Serpas, Serpe: os Sylvas, a sylva: Tavora, o rio Tavora:
Torquemadas, huma torre abrazada: Tourinhos, touros, Sodres, _quasi
sobrij_, e temperados, tres gomiz: Trigueiros, espigas: Vasconcellos,
as ondas dos ribeiros, por descenderem delles: Segurados, cinco
machadinhas; que os latinos dizem _Securis_: Torres, torres: os Correas
da Sylva trazem huma pelle de Leaõ, alludindo ser propria morada de
Leaõ a sylva, confórme aquillo da Escritura.[122] _Hereditas mea, quasi
leo in sylva_: e que de pelles de Leoens saõ as suas correas.
§. XV.
_Descendencia._
Muitas Familias tomaraõ as armas daquella Casa, e Familia donde tiveraõ
seu tronco, de que podem ser exemplo as que descendem dos Reys.
Os de Sousa trazem as Quinas Reaes, por casar D. Gonçalo de Sousa com
Dona Urraca Sanches, que era sobrinha delRey D. Afonso Henriques; e
assim mesmo o Leão, por descenderem de hum filho bastardo delRey D.
Fernando o Grande de Leaõ, que foy o primeiro de Castella.
Os Sylvas trazem o Leaõ por armas, por serem descendentes delRey D.
Afonso de Leaõ, pay que foy de D. Rodrigo Afonso da Sylva, cuja mãy era
Dona Aldonça Martins da Sylva, como refere o Conde D. Pedro tit. 58. §.
2. das suas Linhagens.
O mesmo Leaõ trazem tambem os Telles, por serem descendentes de huma
filha delRey D. Ordonho de Leaõ.
Os Limas trazem o mesmo Leaõ, por serem descendentes de huma irmãa
delRey D. Afonso Henriques, filha da Rainha Dona Theresa, e neta
delRey D. Afonso VI. de Leaõ, e Castella, como se refere na 3. p. da
Monar. Lusit. l. 9. c. 23.
Pela mesma causa trazem os Albuquerques as Armas Reaes, por descenderem
de hum filho bastardo delRey D. Diniz.
Os de Eça como descendentes delRey D. Pedro de Portugal trazem as Armas
antigas Reaes com os cordoens, como as trouxeraõ os primeiros Reys
deste Reyno.
Assim mesmo os Noronhas, e Henriques por serem descendentes de D.
Afonso, filho natural delRey D. Henrique o Nobre Rey de Castella, e
Dona Isabel filha natural delRey D. Fernando de Portugal, trazem o
Escudo quarteado das Armas de Portugal, e Castella.
Os Senhores da Casa de Bragança atè o Duque D. Gemes, e os que delles
descendem, que saõ os Duques de Cadaval, os Condes de Vimioso, de
Odemira, os de Fàro, e os do Vimieiro trazem as Armas de Portugal em
Aspa, por descenderem delRey D. Joaõ I.
Os Lancastres trazem as Armas de Portugal, por descenderem delRey D.
Joaõ II.
Os Manoeis, ou de Vilhena, como descendentes do Infante D. Manoel,
filho delRey D. Fernando o Santo de Castella trazem as Armas, que o
mesmo Infante tomou, que foraõ hum Escudo quarteado, numa parte hum
Leaõ, que significa o brazaõ dos Reys de Leaõ, e noutra hum braço
com huma aza, e na maõ huma Espada, que vem a ser a maõ de hum Anjo,
alludindo a sua mãy, que era descendente de Isacio Angelo Emperador de
Constantinopla.
Os Lacerdas vem do filho mais velho delRey D. Afonso o Sabio de
Castella, e por isso trazem as Armas de Castella, e Leaõ misturadas com
as de França, que por sua mãy lhe pertenciaõ.
Os de Mendoça trazem o Escudo dividido em campo verde, e banda
vermelha, em cada parte hum S. negro; o Escudo verde tomaraõ do Cid
Ruy Dias, de que muitos Authores affirmaõ, que os desta Familia saõ
descendentes; o qual como consta do Conde D. Pedro, quando falla da
batalha delRey D. Garcia, e D. Sancho sobre Santarem, refere que vendo
ElRey de Castella hum pendaõ verde, disse, que tinha em sua ajuda o
Cid, por ser muy conhecida esta divisa por sua, e os S. S. trazem por
fuziz de cadea, como descendentes dos Furtados de Mendoça, que em
Castella trazem sobre o Escudo as cadeas, que tomaraõ no rompimento da
batalha das Navas de Tolosa, e as folhas de golfaõ por outra grande
vitoria, que alcançaraõ, tomando por armas estas hervas do campo, como
refere Argòte de Molina l. 2. c. 110. da Nobreza de Andaluzia.
Os Vasconcellos descendem dos de Ribeira, os quaes tomaraõ por armas
as ondas, alludindo à Ribeira. E como os Vasconcellos succederaõ no
Senhorio grande dos Ribeiros, e seu illustre sangue, trouxeraõ tambem
suas armas.
Os de Alvarenga trazem as mesmas, por serem descendentes dos
Vasconcellos.
Os Barbudos pela mesma razaõ.
Os Barretos tomaraõ as armas dos Arminhos, por serem descendentes dos
Senhores de Chacim, que foraõ Fidalgos muito principaes deste Reyno;
os quaes por contraposiçaõ do nome do solar, que tinhaõ de Chacim, que
quer dizer porco, por denotarem sua pureza em toda a materia contra a
immundicia do porco, usaraõ de arminhos no Escudo, que saõ os animaes,
de quem faz mençaõ Plinio l. 8. cap. 37. que saõ brancos como neve; e
delles se diz, que estimaõ tanto a brancura de seu pello, que se lhe
cercaõ o lugar, onde se recolhem, de lodo, ou cousa, com que se possaõ
manchar, se deixaõ antes prender do caçador, que ficarem sujos. Donde
nasceo a celebre empresa: _Malo mori, quam fædari_. Tomaraõ os Barretos
estas armas dos Chacins, por descenderem de Nuno Martins de Chacim,
e de Dona Maria Rodrigues Chacim sua filha, com quem casou Martim
Fernandes de Barreto, como consta do Conde D. Pedro tit. 39. §. ult.
Os Arminhos dos Castanhedas, Botetos, Gayos, e Goyos procedem da mesma
descendencia.
Os Fonsecas trazem por timbre hum Bezerro, por descenderem dos Bezerras
de Castella, como consta do Conde D. Pedro tit. 66. §. 3.
Os Peixotos trazem por timbre hum Corvo por descenderem de Mem Corvo
Alcaide Mòr de Lanhoso, Fidalgo muy conhecido nos tempos antigos; por
quanto Joaõ Vaz Peixoto casou com D. Guiomar Annes neta de Mem Corvo.
Os Resendes trazem duas Cabras por armas, por descenderem dos Senhores
de Cabriz.
Os Palhas trazem as armas dos Almeidas, por descenderem delles.
§. XVI.
_Armas tomadas por casos particulares._
Pertenderaõ os Emperadores de Alemanha, que todos os Reys de Europa
se reconhecessem por seus vassallos; e havendo em Roma hum Cavalleiro
Alemaõ, que pelas armas defendia este Direito, segundo o Conde D. Pedro
conta,[123] D. Sueiro Mendes da Maya o Bom entrou com este Alemaõ em
desafio, e vencendo-o libertou o Direito de Hespanha do feudo, que
pertendia o Imperio. E dizem os de Amaya seus descendentes, que por
este caso tomàra D. Sueiro por armas a Aguia negra do Imperio, que era
a que o Cavalleiro Alemaõ defendia.
Conta o Conde D. Pedro no tit. 64. em que falla na Familia dos Valles,
que Martim do Valle, chamado da Espada, servindo a certo Conde, outro
Conde seu inimigo o matou; e Martim do Valle tomando a espada do Conde
seu amo, lidou com o matador, e o matou, donde dizem seus descendentes,
que trazem por armas as tres espadas, que saõ a sua, a do Conde seu
amo, e a que tomou ao Conde, a quem elle venceo; e por isso foy chamado
o da Espada.
Os do Appellido Corte Real trazem sobre as armas dos Costas huma Cruz
branca, que dizem ganhàra Vasque Annes Corte Real a hum Cavalleiro,
que viera pedir desafio à Corte delRey D. Duarte; e porque o venceo
com grande valor, dizem, que disse ElRey, que a sua Corte era Real,
quando Vasque Annes estava nella; e daqui tomou elle o Appelido, e o
accrescentamento da Cruz nas armas.
Quando ElRey D. Afonso V, passou a Africa a tomar Arzilla, o
acompanharaõ cinco Irmãos da Familia dos Pimenteis naturaes de Villa
Real; e como sendo entrada a Cidade, os Mouros se fizessem fortes na
Mesquita, donde faziaõ grande resistencia, sem poderem ser entrados:
estes irmaõs, tirando os cintos, e atados huns nos outros, os lançaraõ
a huma ameya, e sobindo por elles acima, levantaraõ huma bandeira, e
por alli foy entrada a Mesquita, e mortos os Mouros. Por este feito
taõ honrado, lhe deu ElRey D. Afonso V. por armas em campo de ouro
cinco cintos vermelhos com fivellas de prata, e tachoens, e huma
bordadura azul com sete Flores de Liz, por timbre hum meyo Mouro com
huma azagaya na maõ, e huma bandeira de prata, e por Appellido o mesmo
nome de Mesquita.
Estando o nosso Exercito sobre Tangere, veyo hum Mouro a fazer grandes
algazares, e pedir desafio, ao qual sahio logo Gabriel Gonçalves
Themudo, e correndo com a lança, o derrubou do cavallo abaixo, e lhe
cortou a cabeça, e appresentando-se com ella diante delRey D. Afonso,
lhe deu em memoria por armas huma Aguia de duas cabeças, com huma
cabeça de Mouro aos pès, e cercado o Escudo com hum cordaõ de S.
Francisco; por haver acontecido em seu dia este valeroso successo.
Gonçalo Pires Bandeira, naõ só se houve na batalha do Touro com
grande valor, mas vendo, que hum Cavalleiro Castelhano levava presa a
bandeira Real de Portugal, investio com elle, e lha tomou das maõs, e a
libertou;[124] e por este feito insigne ElRey D. Joaõ II. lhe deu por
armas huma bandeira branca com hum Leaõ nella de prata, denotando na
bandeira a Real, que libertàra, e no Leaõ o valor, e esforço, que neste
caso mostràra. E assim lhe deu tambem o appellido de Bandeira, com que
hoje seus descendentes se nomeaõ.
Fernaõ Gomes natural de Lisboa, se obrigou a ElRey D. Afonso V. a
continuar o descobrimento da Costa de Africa, que tinha começado o
Infante D. Henrique.[125] E porque comprio este intento com grande
diligencia, e descobrio a Mina, donde veyo tanta copia de ouro a
Portugal, lhe deu ElRey D. Joaõ II. o Appellido de Mina, e por armas
hum Escudo em campo de prata, e nelle tres meyos Ethyopes de preto dos
braços para cima em roquete, com colares de ouro ao pescoço, arrecadas
nas orelhas, e nos narizes.
Diogo Caõ Capitaõ de valor hindo por mandado delRey D. Joaõ II.
descobrir a Costa de Ethyopia, foy o primeiro, que deu noticia do Rio
Zaire, em cuja boca poz hum padraõ; em razaõ do qual se chamou tambem
Rio do Padraõ, e foy o primeiro, que descobrio o Reyno de Congo, e deu
noticia de nossa Santa Fè àquelle Rey.[36.] Em memoria deste feito lhe
deu ElRey por armas duas Colunnas, ou Padroens de prata com duas Cruzes
em cima pelas que poz neste descobrimento, em que chegou atè o Cabo da
Boa Esperança.
Depois que o grande Vasco da Gama veyo do descobrimento da India,
entre outras merces, que ElRey D. Manoel lhe fez em remuneraçaõ de
taõ heroico feito, foy huma, que elle podesse trazer no meyo de suas
armas as Quinas Reaes de Portugal;[126] porque assim como com este
descobrimento se accrescentava o Reyno de Portugal por aquella parte
do Mundo de Asia, assim era razaõ, que quem abrira caminho a este novo
senhorio de Portugal, participasse das Reaes insignias delle.
Vasco Fernandes Cesar andando guardando o Estreito com huma Caravella,
lhe sahiraõ seis Galeòtas de Mouros, que apartadas em duas alas o
investiraõ, porèm elle com incrivel valor as venceo todas.[127] Pelo
que ElRey D. Joaõ lhe mandou accrescentar ao Escudo de suas armas as
seis Galeòtas, e a sua, com que elle venceo, por Timbre do Escudo.
Em hum socorro, que ElRey D. Manoel mandou a Arzilla, foy Christovaõ
Leitaõ por Capitaõ de Infantaria, onde por seu esforço, e industria
defendeo huma Torre, que quasi os Mouros tinhaõ entrada. Pelo que ElRey
D. Manoel lhe concedeo, que sobre as armas dos Leitoens posesse a Torre
de Arzilla encravada de settas em campo vermelho, e em outro quarto
duas bombardas, que tomàra aos Mouros.
Nicolao Coelho foy hum Fidalgo de grande valor,[128] a quem ElRey D.
Manoel deu a Capitanîa dum Navio, para hir em companhia do Grande Vasco
da Gama a descobrir a India, no que elle se houve com grande esforço,
e prudencia; e quando voltou, chegou primeiro a Cascaes, que Vasco da
Gama. E por elle soube ElRey todo o succedido naquelle descobrimento.
Pelo que entre outras mercès, que ElRey D. Manoel lhe fez, lhe deu por
armas em campo vermelho hum Leaõ rompente entre duas colunnas de prata,
que estaõ sobre huns montes verdes, e em cima de cada huma, hum Escudo
com cinco dinheiros, e ao pé o mar; no que significou os padroens, que
deixou postos no novo descobrimento do mar, e terra do Oriente; e no
Leaõ o valor, com que neste heroico feito se houve.
Levantando-se o Rey de Barem contra ElRey de Ormuz, cujo tributario
era, foy mandado Antonio Correa por Capitaõ da nossa gente, para que
reduzisse o Mouro à obediencia delRey de Ormuz.[129] Antonio Correa se
houve nesta empreza com tanto valor, que tendo o Rey de Barem muita
mais gente, elle o desbaratou, e matou, e senhoreando-se da Ilha, a
restituhio a ElRey de Ormuz. Por este heroico feito lhe deu ElRey o
Appellido de Barem, e lhe acrescentou nas armas huma cabeça de hum Rey
Mouro coroada, cortada em vermelho com a Coroa de ouro.
Duarte Coelho foy hum Fidalgo de grande esforço na India, e hum dos
primeiros nossos Capitaens, que chegou à China.[130] Pelo que ElRey D.
Joaõ III. lhe deu a Capitanîa de Pernambuco para a povoar, e pacificar;
o que elle fez com grande valor, e trabalho, e com tanto fruto, que
ficou sendo Pernambuco a mais rica, e populosa Capitanîa do Brasil.
E assim ElRey D. Joaõ III. no anno de 1536. entre outras mercès, que
lhe fez; lhe deu novas Armas, que foraõ em campo de ouro huma Cruz
chãa affirmada em hum pè de verde, e hum Leaõ de purpura passante,
e hum chefe de prata com cinco estrellas de ouro, e huma bordadura
de azul com cinco castellos de prata. A Cruz denòta seu solar, e
senhorio de Pernambuco na terra de Santa Cruz, que este nome lhe deu
seu descobridor; e as cinco estrellas significaõ o Cruzeiro do Polo
Antartico, por o Brasil ficar no outro Emispherio; o Leaõ, o valor,
com que se houve na Conquista daquella Capitanîa, e por serem proprios
dos Coelhos os cinco castellos por outras tantas povoaçoens, que na
Capitanîa fizera.
Luiz Loureiro foy hum Fidalgo muy celebrado neste Reyno por seu grande
esforço, o qual sendo Capitaõ de Mazagaõ, foy sobre a Cidade de Azamor,
e lhe deu o assalto sobindo elle primeiro pela escada ao muro, e
levantando a sua bandeira, foy a Cidade entrada, e saqueada. Pelo que
ElRey D. Joaõ III. no anno de 1551, entre outras mercès lhe deu por
Armas o campo esquartelado; ao primeiro em campo vermelho hum castello
de prata, e elle arrimado a huma escada de ouro, e ao contrario huma
bandeira branca com a haste de ouro, como trazem seus descendentes
juntamente com as Armas dos Figueiredos, de quem elle descendia.
Lopo Rodrigues Camello foy muy aceito a ElRey D. Sebastiaõ, pelas boas
partes, que nelle havia de erudiçaõ, e cortesia, e haver visto muitas
Provincias de Europa. E quando ElRey foy a Coimbra, vindo de S. Marcos
por Tentugal, achou a ponte do Mondego quebrada; e querendo passar a
valla, Lopo Rodrigues, que hia só com ElRey, lhe disse, que aquelle
passo era perigoso. Ao que ElRey tornou: Ora passay primeiro. Respondeo
Lopo Rodrigues: Se Vossa Alteza me engana, ditoso engano he esse. Entaõ
se deitou na valla, e ficou cravado só com o pescoço, e hum braço fóra.
Quando ElRey o vio em taõ grande perigo, lhe pedio a maõ, e tomando-o
ElRey por ella, em pouco espaço o poz em terra. Lopo Rodrigues, porque
deste caso ficasse a seus descendentes memoria, lhe pedio, que lho
desse por Armas, ElRey lhas concedeo, e as mandou debuxar no escudo
desta fórma: em campo de agua com hum braço vestido de ouro, e outro
braço; como que sae da agua, de cor azul, e o braço do Rey o tem
apertado pela maõ, como se vè esculpido sobre o seu sepulchro na Igreja
de Nossa Senhora da Luz.
§. XVII.
_Origem dos Timbres._
Saõ parte das Armas os Timbres, que hoje se trazem sobre os Elmos,
o qual uso he antiquissimo, assim entre os Gregos, e Romanos,
como nos Alemaens, segundo se vè de muitos lugares de Virgilio na
guerra Troyana, e no Catalago da gente, que veyo em favor de Turno
contra Eneas. E Plutarco escrevendo a vida de Mario, diz[131] que a
cavallaria, dos Cymbros fazia terrivel apparencia tanto pelo resplandor
das Armas, que traziaõ vestidas, como pela variedade das cimeiras,
ou timbres, que cahiaõ sobre as celadas, que representavaõ diversas
figuras de feras: _Galeas_, diz elle, _ornatas horrendis hiantium
animalium formis ferebant, &c_. Teve este costume principio das gàleas,
ou capacetes, que era armadura da cabeça feita antigamente de couro; a
qual para mayor bravosidade, e fortaleza ornavaõ por cima com a cabeça
do animal, cujo elle fora: e depois vindo-se a usar a mesma gàlea de
ferro, naõ perdeo com tudo a forma antiga, ainda que mudou a materia,
como se vè em Alexandre ab Alexandro;[132] e parece ainda das medalhas,
e estatuas antigas dos Romanos, e Gregos. Os paquifes ou folhagens, que
acompanhaõ os timbres, tiveraõ principio dos penachos dos elmos, como
parece do mesmo Author.
Tambem os Principes, e Senhores Titulados trazem Coroneis em cima dos
elmos, o qual costume, segundo se vè de Plinio, era ja introdusido
em seu tempo. Porque tendo as Familias Nobres de Roma nos pateos das
casas por insignias as imagens de seus antepassados de pào, ou cera,
com as cores, e proporçoens de cada huma a mais natural, que podia
ser; diz Plinio, que em seus tempos usavaõ jà em lugar destas imagens,
huns escudos de bronze, no meyo dos quaes entalhavaõ de meyo relevo
em prata os rostos de seus mayores, ornando-lhes as cabeças com as
insignias triumphaes, ou quaesquer outras Coroas, que lhes competiaõ,
como costumavaõ às imagens de vulto. Porèm vindo-se depois a perder
as artes com a entrada das Naçoens barbaras do Norte; se contentaraõ
de pòr em cima dos escudos pintados os elmos sómente em memoria dos
rostos, com as coroas, cristas, ou cimeiras, que he o mesmo, que os
Franceses chamaõ Timbre, que lhes competiaõ. Do elmo descem penduradas
duas correas, que parece tiveraõ principio do Baltheo, ou tiracollo,
insignia propria da Milicia Romana.
§. XVIII.
_Dos Officiaes que os Reys de Portugal crearaõ para conservaçaõ das
insignias dos Nobres, e da Casa das Armas de Cintra._
Na conservaçaõ das Armas da Nobreza poseraõ os Reys muito cuidado,[133]
entendendo, que foraõ ganhadas pelo valor dos Fidalgos deste Reyno,
na recuperaçaõ delle. E como a grandeza, e segurança de seus Estados
consistia no valor dos Nobres, por galardaõ, e agradecimento de tantos
serviços, procuraraõ conservar as Armas de cada Familia. Foy este
intento taõ antigo nos Reys de Portugal, que se conta na Chronica
delRey D. Fernando cap. 30. que mandou fazer hum rico paramento todo
bordado de aljofares com as Armas dos Fidalgos de Portugal, de modo,
que naõ tiveraõ menos cuidado da conservaçaõ dos seus brazoens, que
dos Appellidos; querendo, que só aquelles, a quem de direito tocavaõ,
fossem honrados com ellas. Para isto ordenaraõ os Reys de Armas, em
cujos livros mandaraõ pintar as insignias de todas as Linhagens do
Reyno.
Começaraõ estes Officios em tempo delRey D. Joaõ I. porque atè entaõ,
pelas poucas mudanças, que houve em Portugal, eraõ todos os Nobres
conhecidos; e pacificamente possuhia cada hum as heranças, e honras,
que de seus passados alcançàra. Porèm como por morte delRey D. Fernando
se seguiraõ taõ largas, e continuadas guerras sobre a successaõ desta
Coroa, sustentando huns as partes da Rainha Dona Brites filha do morto
Rey D. Fernando, e mulher delRey D. Joaõ de Castella, e outros, as do
Mestre de Aviz, e Rey D. Joaõ I. de Portugal, foy tanta a variedade, e
alteraçaõ das cousas, que com razaõ diz o Chronista,[134] que começou
entaõ neste Reyno, em certo modo, a setima idade do mundo; porque graõ
parte das Familias Nobres, que seguiraõ a opiniaõ de Castella, ficaraõ
extinctas, e acabadas de todo, e algumas, que sustentaraõ as partes
delRey D. Joaõ I. foraõ de novo levantadas a grande lugar. Estes, como
naõ eraõ dantes conhecidos, para se acreditarem com o povo, tomaraõ em
muitas partes os Appellidos, e Armas de outras Familias antigas, que
lhes naõ pertenciaõ. E assim diz o mesmo Author, que no dia da batalha
de Aljubarrota estavaõ as Bandeiras dos Aventureiros cheyas de varias
Armas, e insignias, que a muitos naõ competiaõ. Pelo que considerando
ElRey D. Joaõ I. depois de ter o Reyno pacifico, como a confusaõ desta
materia era de graõ prejuizo à Nobreza, movido do exemplo dos Reys de
Inglaterra, com quem estava aparentado, introdusio o Officio dos Reys
de Armas: e de entaõ para cà os hà em Portugal. Prova-se isto, porque
Fernaõ Lopes na 2. p. cap. 39. da Chronica deste Rey dà a entender
claramente, que atè o tempo da batalha de Aljubarrota os naõ houve;
e o mesmo parece das historias dos outros Reys atè entaõ, nas quaes
senaõ acha feita mençaõ alguma de Reys de Armas; e com tudo de entaõ
para cà se trata delles nas Chronicas dos Reys ordinariamente nos
lugares, que lhes cabe. Pelo que he evidente; que ElRey D. Joaõ foy o
primeiro, que os mandou vir a Portugal. Porém vendo ElRey D. Manoel,
como ainda esta materia naõ estava em sua perfeiçaõ, mandou Antonio
Rodrigues seu Rey de Armas às Cortes dos mais dos Principes Christaõs a
saber em particular as obrigaçoens, e usos, que os Officiaes da Nobreza
tinhaõ: e depois que assentou a ordem, que se havia de guardar, poz o
nome, ou (como se diz nos livros de Armaria) bautizou de novo fallando
equivocamente, com grande solennidade nos Paços da Ribeira tres Reys
de Armas com seus Arautos, e Passavantes; e mandou ver as Sepulturas
do Reyno para dellas se notarem as armas, e insignias dos Fidalgos; de
muitas das quaes fez pintar os Escudos com suas cores, e Timbres em
huma fermosa sala, que para isso mandou edificar nos Paços de Cintra; e
deu comprido Regimento aos Officiaes da Armaria para a conservaçaõ da
Nobreza, e armas das Familias, de modo que naõ houvesse mais a confusaõ
antiga.
Na Casa de Cintra naõ estaõ todos os Brazoens, porque naõ cabiaõ, e só
se pintaraõ os das Familias, que entaõ parece andavaõ na Corte, e no
serviço do Paço.
No meyo do tecto da Sala estaõ as Armas Reaes de Portugal, ao redor as
do Principe, Infantes D. Luiz, D. Fernando, D. Afonso, D. Henrique, D.
Duarte, Dona Isabel, Dona Brites.
Em baixo se vem 74. Brazoens, com o que està sobre a porta, de diversos
Appellidos, pendurados cada hum do collo de hum Veado, que nos cornos
tem o Timbre; estaõ em dous circulos, que por o serem, naõ ha nelles
precedencia; e por isso vaõ aqui pela ordem das letras.
=A=
Abreu, Aboim, Aguiar, Albergaria, Albuquerque, Almada, Almeida,
Andrada, Arca, Azevedo, Ataide.
=B=
Barreto, Betancor, Borges, Britto.
=C=
Cabral, Carvalho, Castelbranco, Castro, de seis Arruelas, Castro de
treze, Coelho, Corte Real, Costa, Coutinho, Cunha.
=E=
Eça
=F=
Faria, Ferreira
=G=
Gama, Goes, Gouvea, Goyos.
=H=
Henriques.
=L=
Lemos, Lima, Lobatos, Lobeiras, Lobo.
=M=