Depois que entrou o governo dos Cesares, e foy necessario

accrescentarem-se os Exercitos, e havellos sempre nos confins do

Imperio, multiplicando-se as Legioens, foy necessario dar-lhes

tambem novos nomes, e insignias. E como os Romanos estavaõ ja mais

polidos, naõ escolheraõ estes nomes, e sinaes a caso, mas com muita

consideraçaõ, denotando em cada hum delles algum bom pensamento. E

porque cada Soldado fosse conhecido de que Cohorte era, mandavaõ,

que logo nas officinas de armas, quando se faziaõ os escudos,

lhe pintassem, ou esculpissem no meyo a mesma imagem da mesma

Cohorte, e pela parte de dentro escreviaõ o nome do Soldado, e a

Cohorte, e Centuria, de que era. Tudo isto diz claramente Vigecio

nestas palavras:[97] _Ne milites aliunde in prælii tumultu à suis

contubernalibus aberrarent, diversis cohortibus diversa in scuto signa

pingebant, quæ ipsi nominant pegmata; sicut etiam mori est fieri.

Præaterea in averso uniuscujusque militis erat nomen adscriptum,

addito, ex qua essent cohorte, & ex qua centuria._ E Claudiano[98]

allude ao mesmo, dizendo da Legiaõ invicta.

_------Nomenque probantes

Invicti, clypeoque animosi teste leonis._

Deste costume diz Guido Pancirolo[99] se introduziraõ as armas,

que agora temos. Porque vindo depois a professarem a Milicia os

filhos, e netos dos mesmos Capitaens, e Soldados, usavaõ sempre das

proprias insignias, e depois que se perdeo o Imperio Romano, se ficou

continuando o mesmo uso, pondo segundo aquella imitaçaõ cada hum no

Escudo o animal, ou figura que melhor lhe parecia, denotando sempre com

estes hieroglylphicos alguma cousa de valor, constancia, ou virtude,

por onde se alcança a honra militar. E assim daqui nasceraõ os Leoens,

as Aguias, os Touros, Serpentes, que trazem as Familias de Europa, e

particularmente as deste Reyno. As que usaõ de Leoẽs nos Escudos, saõ

as seguintes.

Achiolis illustres Florentinos, que vieraõ povoar a Ilha da Madeira,

e dahi passaraõ a este Reyno, Alvos, Arnaos, ou Ernaos, Barrosos,

Betancor, Britos, Cayados, Campos, Castelobranco, Cerqueira, Chanoca,

Conestagio, Esmeraldos, Frótas, Galhardos, Gamboa, Giraldes, Gondim,

Gramaxo, Gravas, Groymis, Morel, Neto, Ossem, Pains, Pò, Ribeira,

Rolaõ, Salvagos, Santarèm, Serraõ, Simoens, Toscanos, Valladares,

Valentes, Unhas, Vogados.

As que trazem aguias saõ: Abul, Abreu, Azevedos, Botados, Bovadilha,

Carregueiro, Serrabodes, Coroneis, Correaõ, Dagraã, Guivar, Jacome,

Lemes (Marletas sem pès) Maciel, Medeiros, Montarroyos, Ourem, Penha,

Proença, Rodrigues, Sampayo, Tinoco, Villanova.

As que trazem Serpes, saõ, Alfaros, Brandoens de Inglaterra, Covas,

Dragos, Mendaos, Moutinhos, Rebaldos, Roboredos, Regras, Serpes,

Villasboas.

As que trazem Lobos, saõ, Ayalas, Haros, Lobos, Villalobos.

As que trazem outros animaes, saõ: os Carreiros hum Gatto caçando, os

Garros huma Onça, os Leoens entre sete Estrellas dous libreos negros

armados de prata, alludindo à fidelidade destes animaes, os Osorios

dous Touros, os de Valdés hum Elefante.

§. V.

_Da origem das Faxas, Bandas, Barras, e Escaques, que se trazem nos

Escudos._

As Barras, Faxas, Bandas, e escaques, tiveraõ origem dos Alemaens,

que como affirmaõ alguns Authores, costumavaõ trazer listrados os

Escudos de cores, e se prezavaõ muito disto. E senhoreando-se estes

das Provincias do Imperio, introduziraõ seus costumes nos povos, que

sojeitaraõ; e como com elles se acabaraõ as boas artes, foy facil por

falta de Pintores, usarem os Soldados nos Escudos daquellas bandas, e

pinturas simplicissimas. Donde vem, segundo diz Scipiaõ Amirato, que

as mais das Familias antigas tem em Europa estas insignias, como se

vè nos Escudos das Faxas da casa de Austria, das Bandas de Borgonha,

Barras de Aragaõ, e Escaques dos Duques de Nivers. Isto se confirma

com a authoridade de Cornelio Tacito no segundo dos Annaes,[100]

que diz dos Escudos dos Alemaens, que eraõ humas taboas de pintura

simples: _Tenues, & sucatas colore tabulas_. E no livro de Moribus[101]

Germanorum refere, que pintavaõ os escudos com varias cores: _Scuta

tantum lectissimis coloribus distinguunt_. Pelo que conclue Scipiaõ

Amirato,[102] dizendo que destas simples pinturas argue a antiguidade

das armas: _Onde io_, diz elle, _sono indotto a credere quello che

etiamdio volgarmente vego dalcune a ser tenuto, che quanto le arme

sono piu simpleci, piu sieno antiche, &c_. Destes principios se pòde

conjeturar, que tenhaõ origem as armas de muitas Familias de Portugal,

que trazem Faxas, Bandas, Barras, e Escaques.

Faxa he hum listaõ entre duas linhas, que atravessa o Escudo ao largo.

As Familias, que trazem Faxas, saõ: Almas, Avelar, Austria, Cio,

Durmaõ, Escrocios, Ferreiras, Landins, Leitaõ, Mascarenhas, Matela,

Mexia, Pamplonas, Pedrosos, Pestanas, Rebellos, Sylveiras, Vargas.

Banda he hum listaõ entre duas linhas, que atravessa o Escudo de canto

a canto.

As que trazem Bandas, saõ Almadas, Albernoses, Ataides, Azambujas,

Azeredos, Barbato, Barbosas, Bardes, Bairros por Bandas tres troncos,

Barreiros, Barros, Belchiras, Bembos, Beringes, Bivares, Botelhos,

Bracamonte, Calados, Caminha tres bastoens de prata em Banda, Canto,

Carvalhaes, Castanhedas, Çuniga, Feijòs, Feyos, Frazaõ, Freyres de

Andrade a Banda da Ordem Militar da Banda de Castella, de que foraõ

Cavalleiros, Leys, Limpos, Lyra, Lordello, Mendanhas trazem huma cotta

de armas passada com settas, Mouzinhos, Nogueiras, Ornellas, Pegados,

Pegas, Privados, Quintal, Sandovaes, Tovar a Banda da Cavallaria da

Banda, Varellas.

Barra he hum listaõ, que toma o Escudo de alto a baixo. As que

trazem Barras, saõ: Aragaõ, Barrayola, Contreiras, França, Godinho,

Guimaraens, Nobregas, Patalins, Patto, Refoyos.

Escaques he hum Escudo pintado com as casas do taboleiro do Xadrès, ou

em parte, ou em todo.

As que trazem Escaques, saõ: Aboins, Alcaforado, Altro, Areas, Avinhal,

Barbança, Barbuda, Bermudes, Buzios, Cotrim Dante, Espindola, Fafes,

Folgueiro, Fuzeiro, Gamas, Godins, Magalhaens, Maracote, Negreiros,

Pavia, Peixoto, Porto Carreiro, Pretto, Quadros, Raposos, Sà, Sandes,

Severim, Souto Mayor, Toledo, Velasques, Utre, Xarce de Valença.

§. VI.

_Da origem das Cruzes Floreteadas, Cruzes da Cruzada, e de S. Jorge,

que se trazem nos Escudos._

Depois da entrada dos Arabes em Hespanha, se começou a usar das

insignias nos Escudos mais ordinariamente em tempo do nosso

primeiro Rey D. Afonso Henriques, e de seu primo ElRey D. Afonso

VII de Castella, como o mostra doutamente o Chronista Ambrosio de

Morales,[103] e o Arcebispo D. Antonio Agostinho;[104] e por isso se

pòde dar com razaõ principio às de Portugal des do tempo delRey D.

Afonso Henriques para cà. E sendo certo, que em Castella, e em outras

partes de Espanha se tomaraõ as Cruzes, Aspas, Luas, e Estrellas pelas

occasiaõ da guerra, que naquellas Provincias ouve com os Mouros,

podemos ter por conjectura provavel, e quasi certa, que nas que se

offereceraõ neste Reyno semelhantes, se deu principio às que cà se

trazem.

O primeiro, que pintou Cruz nos escudos, foy o Emperador Constantino,

o qual depois, que lhe appareceo este divino sinal no Ceo, o mandou

pintar nas bandeiras, e dahi nos escudos. E porque os Capitaens antigos

eraõ muito pios, traziaõ os mais delles ordinariamente Cruzes por

divisas. Disto temos em Espanha assás de exemplos; porque a primeira

insignia, que tiveraõ os Reys de Aragaõ, foy a Cruz, e os primeiros

Reys de Leaõ, que succederaõ a ElRey D. Afonso o Casto, a trouxeraõ

tambem por armas; e do mesmo modo o Conde D. Henrique, que trouxe huma

Cruz chaã. Daqui tiveraõ origem as Armas de Portugal, porque trazendo

a mesma Cruz seu filho D. Afonso, depois que ganhou a batalha do

Campo de Ourique, em memoria das cinco Chagas, com que Nosso Senhor

lhe appareceo Crucificado, partio a Cruz em cinco Escudos, pondo

dentro de cada hum trinta circulos, que denotaõ os dinheiros, porque

Christo nosso Senhor foy vendido. Alèm disto para ficar lembrança da

grande vitoria, que alcançara dos Mouros, atravessou quatro cordoens

no escudo, dous em Cruz de meyo a meyo; e dous em aspa de canto a

canto, fazendo de outro cercadura, e por todos elles pendurou muitos

escudos; posto que quatro, que ficaõ dentro no escudo, e o do chefe da

bordadura, saõ notavelmente mayores; e feitos a modo de adargas; estes

parecem dos cincos Reys, que alli foraõ vencidos, e os mais seriaõ de

outras pessoas principaes, ou dos que ElRey por sua maõ alcançasse.

Esta me parece a origem, que tem estes escudinhos, e cordoens delRey D.

Afonso, os quaes se vem nesta fórma, assim na sua sepultura em Santa

Cruz de Coimbra, como em todos os seus privilegios, depois da batalha,

dos quaes estaõ alguns no Cartorio do Cabido de Evora. Porèm D. Sancho

I. despejou logo o escudo destes escudetes, como parece entre outros

exemplos pelos cunhos dos seus maravidîs; hum dos quaes tenho de ouro

do tamanho de hum tostaõ, no qual elle està esculpido de huma parte

armado a cavallo com espada na maõ, e da outra os cinco escudos em

Cruz, que nòs chamamos Quinas, e dentro em cada hum cinco dinheiros naõ

mais.

Hà com tudo nas mesmas Cruzes, que se trazem por mais, varias

differenças; porque humas saõ chaãs, como as de S. Jorge, outras

floreteadas, como as de Aviz, outras com as pontas quadradas, como as

da Cruzada, e finalmente outras feitas em aspa. As armas de Morimundo

Convento Cisterciense eraõ huma Cruz floreteada;[105] quero dizer,

era huma Cruz, cujos braços, e haste rematavaõ em flores de liz. E

porque Calatrava foy de sua jurisdicçaõ, ficou à sua Ordem huma Cruz

semelhante por armas; e depois a Alcantara, e a Aviz, por serem Ordens

Militares, que lhe estiveraõ sojeitas.

Mas sem embargo disto dizem muitos Authores, que as Cruzes floreteadas,

que se trazem nas armas em Espanha, tiveraõ principio da batalha das

Navas de Tolosa, por huma semelhante, que appareceo no Ceo o dia da

peleja, como diz largamente Gonçalo Argòte:[106] e posto que elle

mostra isto mais propriamente dos Castelhanos, e Navarros, como seja

certo, que de Portugal mandou ElRey D. Afonso II. grande socorro a

ElRey seu primo D. Afonso IX. de Castella, consta que muitos Fidalgos

Portugueses se acharaõ nella, assim por acudirem ao urgente perigo,

que toda Espanha corria pelo grande poder dos Mouros, que contra os

Christaõs vinha, como por mostrarem o valor de suas pessoas, para o que

sahiaõ da patria a buscar semelhantes empresas, quando cà havia paz,

e particularmente a Castella, como o testifica o Conde D. Pedro,[107]

dizendo, quando trata da tomada de Sevilha: _Em aquel tempo os Fidalgos

Portugueses hiaõ a Castella muitas vezes, por se provarem pelos corpos,

quando em Portugal mesteres naõ havia, &c_. Destes foy hum o Conde D.

Rodrigo Frojaz Pereira; e assim tomou por armas esta Cruz;[108] e o

mesmo se pode entender dos Almadas, Albergarias, e Farinhas, que trazem

estas armas, que provavelmente se deviaõ là achar, florecendo entaõ

nestas Familias Cavalleiros de muito nome, como em suas linhagens se

refere; o mesmo se pòde dizer das outras, que hà no Reyno.

As Cruzes da Cruzada tomavaõ por insignias os que hiaõ à Conquista

da Terra Santa, e saõ como as de Christo; como se vè nos Cavalleiros

Gaitanes de Castella, e cà as trazem os Pimenteis, e Teixeiras.

Outras Cruzes hà, como as de S. Jorge, que tomaõ os escudos de alto a

baixo, e de ilharga.[109] Estas se introdusiraõ por devaçaõ do Santo,

por ser advogado da Milicia, e particularmente o invocavaõ os Ingleses,

e Portugueses nas pelejas. As que hà em Portugal desta fórma, parece se

deviaõ tomar na batalha, que se deu em Alcacere do Sal aos quatro Reys

Mouros, que o vinhaõ descercar;[110] porque antes da peleja viraõ os

nossos no Ceo hum homem muy resplandecente com huma Cruz vermelha nos

peitos; em memoria do qual he de crer, que os que presentes se acharaõ,

tomaraõ por insignia este divino sinal na mesma fórma, em que lhes

appareceo.

As Familias, que trazem Cruzes floreteadas, saõ: Alarcaõ, Albergaria,

Leaõ, Meira, Meireles, Moreiras, Pereiras, Soares de Albergaria,

Sisneiros.

As que trazem Cruzes da Cruzada, saõ Bulhoens, Gançoso, Pimenteis,

Teixeira.

As que trazem Cruzes de S. Jorge, saõ Almeidas, Atouguia, Beja, Frades,

Loja, Mello, Pào, Sarzildes, Veigas.

§. VII.

_Aspas._

As Cruzes em Aspa se trazem nas armas por devoçaõ de Santo Andre, como

mostra Argòte[111] na Conquista de Baeça, a qual Cidade tomou no dia

deste Santo Apostolo o Conde D. Lopo Dias de Haro com 500. Cavalleiros,

que foraõ ao socorro do Castello, que os Mouros tinhaõ cercado, e

em memoria do favor, que de Santo Andre receberaõ nesta taõ grande

vitoria, pintaraõ todos as Aspas nos escudos, alèm das divisas, ou

armas, que cada hum jà trazia. Os Navarros daõ esta mesma origem às

Aspas, que muitas Familias daquelle Reyno trazem, posto que naõ conste

pro historias, que elles se achassem neste feito. Pelo que com razaõ

podemos entender, que as Aspas, que muitos Fidalgos deste Reyno trazem

por armas, se tomaraõ por outro semelhante caso, que aconteceo na

tomada de Beja, a qual foy recuperada pelos Christaõs vespera de Santo

Andre com notavel esforço, por ser este hum dos mayores lugares, e mais

fortes da Lusitania.

As Familias, que trazem Aspas, saõ: Araujos, Azevedos, Filippes, Gago,

Guariços, Miranda, Palameque, Oroscos, Rochas. A Aspa dos Mirandas pòde

ser pela razaõ jà dita, se naõ he em memoria do seu solar de Miranda,

que està em Asturias, junto a Santo Andre.

§. VIII.

_Vieiras._

Conta D. Mauro Ferrer[112] na vida do Apostolo Santiago que trazendo

os Discipulos do Santo seu Apostolico Corpo em hum Navio, quando hia

para Galliza, se estavaõ fazendo na praya humas grandes festas pela

celebraçaõ do casamento de hum principal Senhor da terra de Maya, e

que o cavallo, em que andava, se meteo pelo mar atè chegar ao Navio;

deixando suspensos a quantos o viaõ, e muito mais o Cavalleiro, por

se achar todo cuberto de Vieiras a si, e ao cavallo; e dizendo aos

Discipulos o que lhe tinha acontecido, elles lhe declararaõ, que com

aquelle milagre quisera Nosso Senhor honrar o Corpo do seu Apostolo, e

depois de o bautizarem, soou huma voz do Ceo, que disse como aquellas

Vieiras haviaõ de ser a insignia do Santo: e tornando o Cavalleiro a

terra com taõ grande milagre, foy occasiaõ da conversaõ de todos. O

qual caso alèm de se contar no Santoral de Alcobaça, se confirma pelos

versos de hum Hymno, que canta a Igreja de Oviedo a 25. de Julho, que

diz assim.

_Cunctis mare cernentibus,

Sed à profundo ducitur,

Natus Regis submergitur.

Totus plenas conchilibus._

Diz o Author, que daqui vem muitas Familias nobres de Hespanha trazerem

por este caso Vieiras nas armas.

Por razaõ deste principio os Cavalleiros da Espada, que se dedicaraõ

a Santiago, logo depois da grande vitoria de Clavijo, trouxeraõ nas

bandeiras por sua devoçaõ as Vieiras, e ornaraõ com ellas os Templos,

que ao Santo dedicaraõ. Pelo que como este glorioso Patraõ de Hespanha

fosse o principal advogado dos Soldados, por devoçaõ sua tomaraõ muitos

esta insignia. E assim tenho por muy provavel, que as Vieiras, que se

trazem em Portugal, se tomaraõ da batalha do Campo de Ourique, por se

alcançar esta vitoria vespera de Santiago, que por ser em tal dia, a

deraõ os nossos com certa confiança de vencimento, e vendo que ElRey

tomava armas novas por memoria deste feito, faria cada hum o mesmo.

As Familias, que trazem as Vieiras nos Escudos, saõ os Barbosos,

Barrosos, Barradas, Calças, Calvos, Calheiros, Camelos, Màrizes,

Pimenteis, Rochas, Seraiva, Sequeira, Velhos, Vieyras. Pela mesma

devoçaõ de Santiago tomaraõ os Falcoens os Bordoens, que costumaõ

trazer os Peregrinos do mesmo Santo.

§. IX.

_Meyas Luas._

As Meyas Luas saõ insignias proprias dos Mahometanos, como mostra Joaõ

Botero,[113] e o Padre Frey Marcos de Guadalajara na sua Expulsaõ dos

Mouriscos,[114] onde dà largamente as razoens, que para isso tem;

e assim as trouxeraõ sempre por sinaes em suas bandeiras todos os

Principes daquella Seita, como he notorio, e se vè de Argòte,[115] Pelo

que os Cavalleiros, que nas batalhas tomavaõ algumas bandeiras aos

Mouros, pintavaõ nos Escudos para memoria, e tropheo as mesmas meyas

Luas, como se vè em muitas Familias de Castella. Neste Reyno se tomaraõ

muitas nas batalhas com os Mouros, e principalmente na de Sevilha.

Exemplo seja Gonçalo Mendes de Sousa, que acompanhou ao Infante D.

Sancho, quando foy sobre Sevilha, e na batalha de Guadalquibir, tomou

aos Mouros quatro bandeiras, e porque cada huma dellas tinha huma meya

Lua, tomou por armas no Escudo huma quaderna feita das quatro meyas

Luas, e as bandeiras mandou ao Mosteiro de Pombeiro, onde ainda hoje se

conservaõ.

De semelhantes casos podemos dizer tiveraõ origem as meyas Luas, que

trazem nos Escudos as Familias nobres deste Reyno, que saõ Alardos,

Alpoem, Amaral, Bessa, Cassena, Carvalho, Froes, Goes, Homem, Lemos,

Pessoas, Pintos, Queiròs, Sousa, Taborda, Valentes, Zagallos.[116]

§. X.

_Estrellas._

A mesma occasiaõ tiveraõ as Estrellas; porque ordinariamente usaõ os

Mouros, àlem das Luas de cinco Estrellas nas bandeiras, por denotaçaõ

dos cinco Planetas, que tem Estrellas, a que chamaõ Errantes, como se

vè nas armas do Miramolim Rey de Cordova, Granada, e Baeça, que traz

Argòte.[117] Exemplo seja disto Memmonis, que acompanhou ao Infante D.

Sancho, quando foy na batalha de Sevilha, do qual se conta na Chronica

delRey D. Afonso Henriques, e o refere Duarte Nunes na mesma, fol. 51.

vers. que este Fidalgo tomou a bandeira delRey de Sevilha, na qual

tinha pintado cinco Estrellas, como refere Gonçalo Argóte de Molina

lib. I. c. 44. da Nobreza de Andaluzia, e assim tomou por armas as

mesmas cinco Estrellas. Por semelhante occasiaõ trazem os Fonsecas

outras cinco Estrellas por armas, por as trazer nas bandeiras ElRey

de Lamego, a quem os primeiros desta geraçaõ cativaraõ, e tomaraõ a

Cidade. E dahi as tomarão tambem os Coutinhos, que delles descendem. As

Familias, que as trazem, saõ Alvellos, Avelares, Barbedos, Barbudos,

Çacoto, Coutinhos, Freytas, Macedo, Perestrellos, Rojas, Salazares,

Tavares, Leaes.

§. XI.

_Arruelas._

Arruelas saõ circulos redondos, que muitos tem para si significarem

Escudos; por quanto foy costume entre os antigos tomarem por sinal do

inimigo vencido o Escudo, ou Elmo. Porèm Gonçalo Argòte de Molina[118]

no liv. da Nobreza de Andaluzia cap. 103. diz que ElRey Artur de

Inglaterra, quando instituhio os Cavalleiros da Tabola redonda, que

he o mesmo, que mesa redonda, deu por armas a Janazio o Forte (que

era hum dos mais valerosos) treze Arruelas, significando na figura de

Arruela a mesa redonda; e o numero de treze serem outros tantos os

Cavalleiros; porque doze foraõ escolhidos à honra dos doze Apostolos,

e o decimo tercio era o mesmo Rey Artur. Depois o Emperador Carlos

Magno fez outra companhia de doze Cavalleiros, a que chamou Pares,

que quer dizer iguaes; e por isso tambem comiaõ em mesa redonda, onde

naõ ha cabeceira.[119] Pelo que muitos Fidalgos, ou por descenderem

destes Cavalleiros, ou por se mostrarem semelhantes a elles no valor, e

merecimento, tomaraõ por armas as mesmas Arruelas, variando no numero:

mas de ordinario eraõ seis, porque parece, que usando do vocabulo,

_Par_, que naõ somente significa igual, mas tambem dous, sendo as

Arruelas de pares, as seis montavaõ por doze. Daqui parece, que tiveraõ

principio as treze Arruelas, e as seis dos Castros, e as seis Arruelas

dos Mellos, e Almeidas, as quaes estaõ metidas entre duas Cruzes

dobradas, que tambem denotaõ o mesmo nome de _Par_. As Familias, que

trazem Arruelas, saõ Almeidas, Castros, Doutiz, Ferraz, Gouvea com Cruz

dobrada, Mellos, Taveira, Teives.

§. XII.

_Flores de Liz._

A origem dos Lirios nos Escudos, parece que se tomou do successo delRey

de França Clodoveo,[120] o qual antes que se bautizasse, dizem que

trazia no Escudo huns Sapos, depois que se bautizou, lhe appareceo

hum Anjo com huns Lirios de Açucena na maõ, a que os Franceses chamaõ

Flor de Liz; e lhe mandou, que tirados os Sapos, puzessem por insignias

aquellas Flores. Saõ os Lirios hieroglyphicos da perfeiçaõ, da pureza,

e da esperança do bem publico, como mostra largamente Pierio Valeriano

nos seus Hieroglyphicos;[121] e por ser a mais fermosa Flor de todas,

he Nosso Senhor nos Cantares comparado a ella. E no Evangelho disse

Christo, que nem Salamaõ em toda sua gloria se vestira taõ ricamente,

que chegasse à belleza de hum Lirio. Por estas razoens tomaraõ

muitos Cavalleiros as Flores de Liz por armas, e as deixaraõ a seus

descendentes, como foraõ os Albuquerques, os Gouveas, &c. Os de Faria

trazem as Flores de Liz sobre o Castello, por quanto em cima do monte,

donde o Castello de Faria està, permanece ainda hoje huma Igreja antiga

de grande devoçaõ, e romagem, que chamaõ Nossa Senhora da Branqueira, a

qual fundaraõ alli huns Monges Bentos, que foraõ os primeiros, que de

França vieraõ a Portugal; e alli tiveraõ hum celebre Mosteiro, e por

serem estes Monges Francos, e de França, puzeraõ nas armas Flores de

Liz Francesas. Os de Miranda tambem trazem Flores de Liz Francesas no

vaõ da Aspa, a razaõ he, porque se prezaõ de virem de huma Senhora da

Casa de França, cuja figura trazem por timbre do Brazaõ numa imagem de

Donzella, e em sua memoria puzeraõ tambem os Lizes Franceses no Escudo.

As mais Familias, que trazem Flores de Liz, saõ: Aldana, Atouguia,

Borges, Carrilhos, Casal, Frasoens, Guedes, Leytes, Toronhas,

Madureira, Maldonado, Marinhos, Martines, Matta, Motas, Moitinhos,

Pavias, Rangeis, Reymondo, Rodrigues, Soares de Toledo, Travaços,

Varejola.

§. XIII.

_Castellos._

Os Castellos saõ antigas divisas das mesmas terras, como se pòde ver

largamente na Noticia dos Imperios. Pelo que os mais dos Alcaides,

e Senhores, que os tiveraõ por solares, ou os tinhaõ a seu cargo,

os tomaraõ por armas. As Familias, que os trazem em Portugal, saõ

Alcacevas, Asturias, Barrigas, Benambia, Berredos, Botos, Cameras,

Carvalhosa, Castilhos, Celemas, Correlhas, Cotifer, Coutos,

Esparragosa, Farias, Frias, Flores, Giroes, e huns Guzmaens com

arminhos, por virem dos Duques de Bretanha, que os trazem por armas;

ainda que outros trazem Caldeiras de Ricos homens, Horta, Larzedos,

Malafaya, Menagem, Mouras, Pinas, Rolins, Saldanhas, Sobrinhos,

Tangere, Ternate, Vellez, Vellosos, Zusarte.

§. XIV.

_Cifras dos Appellidos._

Noticias de Portugal · 第 9 / 43 段