vay adiante. _Al_, que o articulo, _mo_, particular formativa do nome,
_Cadem_, he do verbo _Quedem_, que significa Adiantar-se; por quanto o
officio dos Almocadens he serem guias, e encaminhadores dos exercitos:
em Castella trata delles a l. 5. t. 22. da 2. partida, donde parece
se tomou o titulo, que delles faz o Regimento da guerra deste Reyno;
e diz que os Almocadens eraõ antigamente os Coudeis dos piaens: e o
modo, com que diz se elegiaõ, era desta maneira. O que queria ser feito
Almocadem, requiria ao Adail, e o fazia certo das qualidades, que para
isso tinha, que havia de ser pratica da guerra, e noticia da terra, e
esforço, ligeireza, e lealdade: e entaõ vestido de festa se lhe dava
huma lança com hum pendaõ pequeno; e chamando outros doze Almocadens,
punhaõ duas lanças no chaõ ao comprimento, e elle se punha em pé sobre
ellas, e o levantavaõ os outros, quatro vezes da terra para as quatro
partes do mundo, dizendo as palavras, que jà referimos do Adail, tendo
a lança feita na maõ. Destes officios se usa ainda hoje nas Fronteiras
de África.
§. VII.
_Das gentes, de que constava o Exercito._
Depois de ditos os officios dos Capitaens, segue-se tratar da
qualidade, e numero dos soldados. Constava o Exercito de gente de
cavallo, e de pè. Os de cavallo, ou eraõ Fidalgos Vassallos delRey, ou
Lanças, que os Senhores da terra traziaõ, ou Cavalleiros da Ordenança
dos povos do Reyno. Os homens de armas eraõ principalmente os Fidalgos
delRey, a que tambem chamavaõ Vassallos, os quaes eraõ obrigados a
servir com certas lanças, por cada huma das quaes lhes pagava ElRey
certa contia de livras confórme às lanças, com que haviaõ de servir,
e eraõ obrigados a estar prestes com ellas, cada vez, que fossem
chamados. E se na occasiaõ da guerra levavaõ mais lanças das que
eraõ obrigados, nem por isso lhes davaõ mais. O soldo destas lanças,
ou se dava a dinheiro cada anno das rendas delRey, ou o recebiaõ os
Fidalgos Vassallos em terras, que lhes os Reys tinhaõ dado, como se vè
dos Registros delRey D. Fernando, nos quaes està huma doaçaõ, porque
ElRey deu a Martim Vasques da Cunha as terras de Tarouca, e Valdigem
com condiçaõ, que servisse com tantas lanças armadas de todo ponto ao
modo de França, e Inglaterra, quantas se montassem nas rendas destes
lugares, a razão de 150. livras por lança. Porèm aos Fidalgos, que naõ
serviaõ mais que com sua propria lança, lhes dava ElRey por ella 75.
livras, que era a contia ordinaria: e ElRey D. Pedro os acrescentou a
cento.[45] Destes Vassallos, que ElRey assim pagava, levava, quando
morriaõ, o cavallo, e loriga de luctuosa para ter sempre os Cavalleiros
armados, e providos: e a todo o filho de Fidalgo Vassallo, que nascia,
se mandava logo huma carta da contia de seu pay, com que cresceo este
numero de Vassallos acontiàdos em grande maneira atè o tempo delRey
D. Fernando: o qual querendo evitar huma tamanha despesa, mandou que
senaõ dèsse a carta de contia, senaõ ao filho mais velho do Fidalgo
Vassallo, e que em caso, que morresse o primeiro, entaõ succedesse o
mais chegado. Vindo depois ElRey D. João I. por as alteraçoens, que em
tantos annos teve no Reyno, naõ deu contia aos Fidalgos, mas sómente
soldo; atè que depois seguindo a usança antiga, pòs de contia a cada
Fidalgo mil livras para a lança de sua pessoa; e por cada huma dos que
o seguiaõ 700. e que o filho não ouvesse contia, senaõ como pudesse
servir.
A outra gente de cavallo se fazia de todos os povos do Reyno, mandando
cada lugar o numero de moradores, que confórme à fazenda, que tinhaõ,
eraõ obrigados a ter cavallo, e armas. E para que pudesse haver mayor
numero de lanças, mandou ElRey D. Fernando, que nenhum Fidalgo, que
houvesse de servir com certas lanças, levasse desta gente de cavallo
do Concelho. E para haver mais cavallos, naõ podiaõ ter officios da
governança dos povos, os que naõ sustentavaõ cavallo. O numero da gente
de cavallo, que houve no Reyno, naõ consta qual fosse atè o tempo
delRey D. Fernando:[46] mas no delRey D. Joaõ se ordenou em Cortes, que
houvesse 3500. prestes; convèm a saber de Vassallos, ou Cavalleiros de
huma lança 2360. e pelas Ordens Militares 300. A saber a de Christo
100. pela de S. Tiago outras 100; pela de Aviz 80. e pela do Hospital
de S. Joaõ 20. e pelos Capitaens, ou Senhores 500. afóra os de cavallo
dos Concelhos. E assim quando ElRey D. Joaõ I. entrou em Castella,
levou 4U600. de cavallo. ElRey D. Afonso V. passou tambem a Castella
sobre a pretençaõ da Excellente Senhora com 5U700. de cavallo, e 14U.
de pè. ElRey D. Joaõ II. teve em seu tempo 7U000. lanças. ElRey D.
Manoel teve 6U000. cavallos prestes para passar a Africa como logo
veremos;[47] afóra os que estavaõ nos lugares das fronteiras daquella
Provincia, que consta passavaõ de 2U000. como se refere em muitas
partes da Chronica delRey D. Joaõ III.[48] e o repete Francisco Pereira
Pestana em hum Discurso sobre a guerra de Africa, em que mostra ao
mesmo Rey quanto contra seu Estado era sustentar nos lugares de Africa
2U000. lanças que naõ faziaõ força mais que de 100. Porèm alèm destas
2U000. lanças, offereceo ElRey a sustentar em Arzilla a ElRey de Bèlles
com outras 2U000. lanças; com tanto, que de Castella o ajudassem com
outras 1U000. o que o Emperador, que entaõ reinava, disse que naõ
podia fazer. Por estes exemplos se póde ver, que passou o numero de
cavallos, que houve neste Reyno de 8. ou 9U000. e que pondo-se agora
nesta materia a diligencia, que convèm, se poderà chegar, e passar de
semelhante numero; pois pelas listas das Coudelarias, que Sua Magestade
mandou fazer, consta que hà nas Comarcas do Reyno mais de 13U000.
eguas, e com os cavallos, que estaõ nas fronteiras, se vè claro, que
naõ he menor o numero de Cavalleria, que hoje temos no Reyno, do que
houve antigamente.
Da gente de Infanteria naõ havia numero certo, mas era mayor, ou
menor o numero, segundo as occasioens do tempo, ou vontade dos Reys o
ordenavaõ. Porèm conhecidamente foy crescendo com a multiplicaçaõ, e
mayor Senhorio des do tempo delRey D. Afonso I. atè D. Joaõ I. Porque
na batalha do Campo de Ourique teve o nosso primeiro Rey doze mil
homens, e ElRey D. Joaõ I. passou à tomada Ceita com 20U000. e seu neto
D. Afonso V levou 30U000. quando foy à Conquista de Arzilla.
Este numero de gente cuidaõ alguns, que foy diminuindo, porque
crescendo grandemente as nossas Conquistas, foy necessario dividir-se a
gente Portuguesa por ellas: de maneira, que em tempo de Damiaõ de Goes
pagava ElRey 20U000. soldados fóra da Barra;[49] e assim naõ he muito,
que fizessem estes no Reyno falta. Por onde ElRey D. Sebastiaõ naõ
levou mais de 11U000. Portugueses, quando ultimamente passou à empresa
de Africa.
§. VIII.
_Das Leys Militares, que se guardavaõ no Exercito_.
As Leys Militares, que antigamente se guardavaõ nos Exercitos, estaõ
ao largo referidas no Regimento da guerra: e para que naõ fiquem de
todo em esquecimento, apontaremos aqui algumas brevemente. Antes de
partir para a empreza, no dia, em que havia de marchar o Exercito, se
mandava dizer huma Missa solemne no lugar mais accõmodado, presente o
Principe, ou General, e se benzia a Bandeira para com este religioso
principio poder ter a empreza ditoso fim, o qual costume ainda agora
se guarda. Depois disto se dividia o Exercito, para poder marchar,
em vanguarda, retaguarda, e alas; os quaes nomes se introduziraõ
neste Reyno em tempo delRey D. Fernando, e se tomaraõ dos Ingleses,
que cà vieraõ com o Conde de Cambris;[50] porque antes se chamavaõ
Dianteira, Saga, e Costaneiras. Mandava assim mesmo o Regimento, que
os Capitaens dessem memorias da gente, que cada hum levava, e armas,
que tinha, para saber o General, como se delles havia de servir: e
que houvesse no arrayal Officiaes de todos os Misteres. Ordenava,
que o Aposentador do Exercito fosse diante escolher o sitio com
certo numero de pendoens; com os quaes dividia os quarteis, em que
as Companhias, e Senhores do Exercito se haviaõ de alojar. E para os
caminhos ordenava, que houvesse guias, com os quaes se determinasse o
dia dantes para onde se havia de caminhar; e que se escolhesse sitio
para se assentar o arrayal, onde ficasse fortalecido, e provido de
agua, herva, lenha, e outras cousas necessarias. Assentando o arrayal,
mandava se posessem escutas, e que marchando fossem sempre as batalhas
humas à vista das outras; e que as Bandeiras dos Fidalgos senaõ
estendessem, salvo quando se soltasse a Real; que ninguem podesse ir
na carruagem; e que antes, que o arrayal se abalasse, sahissem 20. de
cavallo a descobrir o campo. Ordenava, que os que naõ quizessem fazer
guarda, ou vèla, fossem condennados no cavallo, armas, e prisaõ: e os
que appelidassem outro nome, mais que delRey, na vida: e que o que
derrubasse o inimigo, e o naõ prendesse, partiria ametade do preço,
com o que de novo o prendesse, e o que sobreviesse a hum soldado, que
tinha outro preso, e matasse o prisioneiro sobre a partilha, perdia
armas, e cavallo, para o Condestable; e era preso atè satisfazer ao
primeiro prendedor, e de toda a preza, que os soldados tomassem,
pagassem o terço a seu Senhor, ou Capitaõ: e que os prisioneiros fossem
trasidos diante do Condestable, ou Marichal sobpena de os perder. E os
prisioneiros naõ podiaõ sahir do arrayal, nem a buscar seu resgate,
sem licença do Condestable, o qual só podia dar os salvos condutos,
que se haviaõ de dar sobpena da vida, e que os que fossem à forragem,
ou se alojassem fóra da ordem sem licença, perdessem as armas, e
cavallos. E sendo achado algum prisioneiro fugido, havendo mais de hum
dia, e noite desapparecido a seu Senhor, seria de quem o achasse; e
haveria o Marichal a dizima delle: e sendo achado dentro no primeiro
dia, e noite, seria tornado a seu primeiro amo. O mesmo se ordena de
quaesquer cousas, que do arrayal tomassem os inimigos, porque sendo
pelos nossos no primeiro dia, e noite recuperadas, seriaõ dadas a
seus primeiros Senhores, mas passado deste termo, ou recuperando as
depois dos inimigos as terem postas em salvo, ficariaõ dos que as
tomassem. Esta era a ordem da antiga Milicia Portuguesa; e com ella,
e com seu natural valor, alcançaraõ os Portugueses grandes vitorias, e
desbarataraõ muitos exercitos de poderosissimos Principes, sendo sempre
os nossos muito inferiores em numero como se vio em tempo delRey D.
Afonso Henriques nas batalhas do Campo de Ourique contra ElRey Ismael;
na de Santarèm contra o Miramolim de Marrocos; na de Xarrate contra
ElRey de Sevilha; na tomada de Alcacere do Sal contra os quatro Reys
Mouros, que a vinhaõ descercar. Do mesmo modo ElRey D. Afonso IV.
venceo ElRey de Granada na baralha de Tarifa; e em Africa se alcançaraõ
muitas vitorias contra o poder dos Reys de Marrocos, Xarifes, e Reys de
Fèz em tempo delRey D. Manoel, sendo todas estas naçoens bellicosas, e
praticas na guerra.
§.IX.
_Da Guerra de Castella._
A Guerra de Portugal com Castella he taõ antiga, que começou juntamente
com o mesmo Reyno, e seus primeiros Principes, e ha mais de 500. annos,
que dura. Pelo que nem esta guerra se deve ter por cousa nova, nem se
deve de fazer da nossa parte por modo novo; mas termos por certo, que
seguindose os meyos, por onde se conservaraõ os nossos Reys, terèmos na
occasiaõ presente a mesma segurança, e bons successos contra Castella,
que por tantos seculos tivemos.
Nesta guerra se haõ de considerar duas cousas. A primeira o poder da
gente, com que se fez de cada huma das partes. A segunda o modo, que
foy, humas vezes com exercitos, e outras com entradas. No numero da
gente nos levaraõ antigamente os Castelhanos muita ventagem, porque
como os Reys de Castella senhoreavaõ mais Provincias, e mayores
que Portugal, tinhaõ muita mais gente. Por onde se diz na Chronica
delRey D. Joaõ I.[51] que sempre os exercitos de Castella tiveraõ
dobrada gente, que os nossos, porèm agora experimentamos o contrario;
porque com a povoaçaõ do novo Mundo, que os Castelhanos tem feita com
tantas Colonias, e com os presidios de Sicilia, Napoles, e Milaõ, e
Estados de Flandes, foy tanta a gente, que se tirou das Provincias,
que tem em Hespanha, que se achaõ os Reynos de Castella quasi todos
despovoados. He isto cousa taõ manifesta, que consta pelo livro
intitulado: _Poblacion de Hespaña_[52] impresso no anno de 1645. por
hum Historiador de Castella, o qual no titulo de Medina del Campo, diz
que antigamente era habitada de 14U000. vizinhos; e que agora naõ tem
mais de 1200. E de Salamanca refere, que havia na Universidade mais de
15U000. Estudantes; e agora naõ chegaõ a 2U. E sobre tudo, que a Cidade
de Toledo, cabeça de Castella, e de toda a sua Monarquia taõ rica, e
populosa, que àlem da grande multidaõ da Nobreza, Clero, Mercadores, e
Povo, só de Officiaes de Seda, e Laã tinha em tempo dos Reys Catholicos
mais de 10U. Teceloens; agora confessa o dito Chronista, que naõ passaõ
de 5U. todos seus moradores. De semelhantes exemplos poderamos trazer
muitos, mas esses bastaõ, por serem dos principaes lugares de Castella.
Por onde se vè, que naõ tem hoje aquelles Reynos a decima parte da
gente, que antigamente tinhaõ. E sobre esta materia se tem impressos
muitos livros modernamente, como saõ: _Las sinquo qualidades de los
Hespañoles, que despueblan a Hespaña_. O Doutor Navarrete intitulado:
_Conservaçaõ das Monarquias_; e o que mais he o mesmo Rey D. Filippe
nas Pregmaticas, que fez para a reformaçaõ deste danno, em que chegou
a dizer, que estavaõ os seus Reynos de Castella despovoados, e a
Monarquia boqueando, termo que se censurou ao Conde Duque, nos cargos,
que contra elle deraõ; naõ por ser falso, senaõ pelo manifestar ao
Mundo todo. Pelo que naõ sómente naõ poderàõ hoje os Castelhanos pòr
contra nòs os numerosos exercitos, que antigamente poseraõ, mas muito
menores. E pelo contrario, ainda que tambem neste Reyno se tem sentido
a falta da gente, pela que vay para fóra da Barra para as nossas
Conquistas; com tudo vemos, que em sua proporçaõ està o Reyno muito
mais povoado, que o de Castella. E assim com muita facilidade fez
ElRey Nosso Senhor hum Exercito no anno de 1643. que sahio de Elvas
com 12U000. Infantes, e 2U. cavallos: e no anno de 45. fez outro na
mesma Fronteira de 7U000. Infantes, e 1500. cavallos, e que no Trem
da Artelharia, e bagagem levava 13U000. E na Batalha de Montijo houve
quasi a mesma gente: e com tudo nestas occasioens naõ juntaraõ os
Castelhanos mais gente, que a nossa em numero consideravel, e o mesmo
succedeo na batalha das Linhas de Elvas, em que os Castelhanos tinhaõ
14U. Infantes, e 5U. Cavallos, e nòs 8U. Infantes, e 2U500. cavallos,
na do Amexial, ou Canal, nos excediaõ em mais trez mil cavallos, ainda
que a Infantaria era pouco menos que a nossa. Na de CastelRodrigo era
mayor o numero da sua gente do que o nosso, e na de Montes Claros se
era inferior em mil Infantes, era superior em mais de mil, e seis
centos cavallos. O mesmo vemos agora nas guerras de Catalunha[53]
que só o primeiro Exercito foy de 26U000. homens; dos quaes mais de
ametade naõ eraõ Castelhanos, e os outros Exercitos, que depois là
foraõ, naõ passaraõ no numero de ametade deste primeiro. Pelo que se
quando Castella tinha dobrada gente da nossa, se conservou Portugal, e
ficou superior, agora que o poder de Castella he tanto menor, com mais
razaõ podemos ter esta confiança. Donde podemos entender, que o seu
poder he hoje muito menor do que antigamente experimentavamos; e que
o nosso valor naõ he hoje menor, que aquelle, com que antigamente nos
conservavamos; pois nos recontros, que muitas vezes tivemos com a sua
gente de cavallo, ficaraõ os nossos vencedores, sendo os contrarios
quasi dobrados em numero; e que àlem disso o que mais importa, he,
que temos por nòs a causa justa, defendendo a legitima successaõ dos
nossos Reys Portuguezes, e a liberdade da Patria, que Nosso Senhor com
tantos favores do Ceo tem patrocinado. Pois vemos, que nesta guerra lhe
temos arrazado, e tomado muitas Praças, que estaõ em nosso poder, o
que elles naõ poderaõ fazer em tantos annos dos nossos lugares, ainda
que abertos; porque se alguns entraraõ, logo foraõ recuperados, e
fortificados melhor do que estavaõ. Donde se ve claro o favor de Deos,
que temos da nossa parte; pois naõ sómente nos conserva, mas ainda nos
faz superiores a estes contrarios, dando-nos delles gloriosas vitorias.
No modo desta guerra se ha de ser por exercitos, ou por entradas, e
entrepresas, he muito para considerar, que havendo Rey em Portugal,
todos os Exercitos Castelhanos, que entraraõ neste Reyno, e vieraõ a
batalha, foraõ desbaratados. Exemplo saõ disto a batalha de Agua de
Mayas junto a Coimbra, que venceo o nosso Rey D. Garcia, que reynou
antes do Conde D. Henrique, e depois a de Santarem, em que o mesmo Rey
D. Garcia prendeo a seu irmaõ D. Sancho Rey de Castella; e se depois
se mudou a sorte das prisoens, foy por culpa delRey D. Garcia, que naõ
poz a seu irmaõ a bom recado, e se foy só seguindo o alcance. ElRey
D.Afonso Henriques desbaratou a ElRey D.Afonso seu primo nos Arcos de
Valdevès. Entrando ElRey D.Fernando o II. de Leaõ com seu Exercito
atè Cerolico, foy desbaratado pelos Portugueses; de que ainda hoje hà
memoria dos vòtos de Nossa Senhora dos Assores. Os Fidalgos da Beira
alcançaraõ a vitoria de Trancoso contra outro Exercito Castelhano. O
mesmo fez o Condestable D. Nuno Alvares na batalha de Fronteira, e
ultimamente ElRey D. Joaõ I. na de Aljubarrota.
O mesmo podemos quasi dizer dos Exercitos Portugueses, que foraõ a
Castella. Pelo que mais se fez esta guerra entre ambos os Reynos por
entradas, e entrepresas, que por batalhas. ElRey D. Afonso Henriques,
e seus successores tomaraõ a Tuy tantas vezes, e a retiveraõ tantos
annos, que des do nosso primeiro Rey atè D. Sancho o II. esteve por
ElRey de Portugal. ElRey D. Joaõ I. a tornou a tomar, e o mesmo fez a
Badajoz; e tantas entradas fizeraõ os nossos por a terra de Coria atè
Salamanca, que por isso fortificaraõ os Castelhanos tanto a Ciudad
Rodrigo, temendo-se das nossas entrepresas, e correrias. E por este
territorio, e pelo de Galliza foraõ sempre as nossas entradas de mòr
effeito, que por outras Fronteiras. Pelo que parece, que este estilo
he o mais facil, e mais seguro; porque estando huma praça com bom
presidio, naõ pòde ser entrada por hum grande Exercito, se tiver outro
em seu favor, ainda que seja de muito menor numero, como se tem visto
nas guerras dos Turcos com os Polacos, e nas de Jorge Castrioto, e nas
modernas de Flandres, e Italia.
Segundo estes exemplos, podemos ter por certo, que havendo Rey em
Portugal, tinhaõ conhecido os Castelhanos claramente, que naõ podiaõ
sahir com esta empresa, como se refere na Chronica delRey D. Filippe o
Prudente de Castella l. 12. cap. 9. Porque dizendo-lhe o Duque de Alva
(quando lhe mandou fazer as exequias por ElRey D. Sebastiaõ em Madrid)
que melhor fora vilas fazer a Belèm, respondeo ElRey: _El tiempo os
mostrarà, quan errados fueramos_: e segue logo o Chronista com estas
palavras: _Y con razon, porque entrando con Exercito contra el Cardenal
su tio, que juraron brevemente como a escondidas, el Reyno todo se
avia de emplear en su defensa, nombrando por General para la guerra
el Duque de Bargança, o a Don Antonio Prior de Ocrato interessados en
la sussession, y se hallàr a nen ser, y con Exercito en la muerte del
Cardenal, que luego vino, con que mejoraran su partido, como lo hizo en
Francia despues Henrique de Borbon_.
Este juizo delRey D. Filippe foy taõ acertado, que só com elle alcançou
a sua pretençaõ sem difficuldade, estando dantes desconfiado della.
Porque deixando ElRey D. Henrique o Reyno sem Rey, e os Governadores
para Juizes da successaõ, faltou no Reyno a cabeça; porque os
Governadores naõ fizeraõ officio de defensores, senaõ de intercessores.
Os Serenissimos Senhores da Casa de Bragança, como tinhaõ a justiça
clara, naõ se quiseraõ mover, por naõ prejudicarem a seu Direito. E
ElRey de Castella por lhe dar competidores, e prolongar o litigio,
escreveo ao Duque de Saboya, e Principe de Parma, que se oppussessem
à causa da successaõ, e entre tanto comprou as vontades dos Nobres
do Reyno com dadivas, e promessas; e assim sem resistencia meteo em
Portugal o seu Exercito, que desde a morte delRey D. Sebastiaõ tinha
junto da mais pratica Milicia de toda Europa; contra o qual Exercito
naõ houve mais, que huma sombra de resistencia do Prior do Crato: o
qual vendo, que tinha huma sentença contra si sobre a successaõ; e
que naõ tinha por si, senaõ alguns amigos, e seus criados, se fez
levantar tumultuariamente em Santarem, ao tempo, que jà o Duque de
Alva marchava por Alentejo. Pelo que faltando ao Prior do Crato a
authoridade publica, Capitaens, Soldados, e dinheiro, e sobre tudo o
tempo, naõ pode na brevidade de taõ poucos dias fazer mais resistencia,
que com alguma pouca gente popular, que entaõ havia em Lisboa, por
estar a Cidade quasi despejada por causa da peste: e assim naõ merece
nome de batalha a pequena briga, que tiveraõ em Alcantara, como diz
Justo Lypsio na sua Política cap. 3, _Sì prælium dixerim veterani
Exercitus cum seminermi, & urbana, turba congressionem_. Pelo que
bem notoriamente se vè, que hum Rey taõ prudente, como D. Filippe
de Castella, naõ teve confiança de sahir com a empresa de Portugal,
havendo nelle Rey, como temos dito, senaõ vendo-o sem cabeça, e
dividido.