[27] _Prolom. Tab. de Hisp. H._
[28] _Plin. l. 18. c. 18._
[29] _Apianus l. 1._
[30] _Amparo dos pobres de Herrera._
[31] _Hist. de Sevilha de Morgado._
DISCURSO II.
_Sobre a ordem da milicia, que antigamente havia em Portugal, e das
forças militares, que hoje tem para se conservar, e ficar superior a
seus contrarios._
§. I.
He taõ necessaria a conservaçaõ das cousas, que igualmente as produsio
a natureza com os meyos convenientes para sua defensaõ. Isto vemos naõ
só na contrariedade, com que os Elementos repugnaõ huns aos outros para
se conservarem; e nas plantas, muitas das quaes a natureza defendeo,
armando as de espinhos nos troncos, nos ramos, nas folhas, e nos pomos;
mas mais manifestamente nos animaes, aos quaes naõ só a natureza deo
armas, com que se defendessem, mas ainda lhes communicou conhecimento
para se unirem os de cada especie, e particulares astucias, com que se
defendessem melhor de seus inimigos. Desta militar industria, com que a
mesma natureza creou aos brutos animaes, se vè claro, quaõ necessarios
saõ os soldados na Republica, pois sem a força da Milicia naõ pòdem
permanecer as leys, nem professar-se as sciencias, ou exercitarem-se
as artes, nem finalmente conserva-se a paz, e liberdade. Por tanto hum
dos mayores castigos, com que Deos ameaçava antigamente seu povo, era
dizendo-lhe, que deixaria aquella Republica sem Capitaens, e Soldados.
Inclue em si o exercicio das armas trez maravilhosas virtudes, que
saõ Caridade, Fortaleza, e Prudencia. Com a Caridade offerecem os
particulares a vida propria pelo bem commum de todos, que he o mayor
acto desta virtude, como testificou Nosso Senhor no Evangelho, dizendo:
_Maiorem dilectionem nemo habet, ut animam suam ponat quis pro amicis
suis_.[32] E assim atè os Gentios tiveraõ o morrer pela patria, e
defensaõ della pela mais gloriosa acçaõ da vida, donde pelas leys de
Licurgo se mandava, que em nenhum sepulchro se posesse epitaphio,
ou nome se naõ daquelles, que morressem pela patria.[33] Com a
Fortaleza se desprezaõ os perigos, e se vencem as injurias do tempo,
as incommodidades dos alojamentos, as fomes, sedes, e finalmente as
forças, e armas dos contrarios. Com a Prudencia se usa destas virtudes
a seu tempo, aproveitando-se das occasioens, e escolhendo sitios
aventejados, e providos para alojar, e combater, ou fortificando-os
para se defender. Por estas, e outras razoens tendo os homens todos hum
só principio, aquelles, em quem estas virtudes mais resplandeceraõ,
ficaraõ superiores aos outros: e o mesmo era antigamente ser Rey, que
defensor da Republica, o que ainda hoje significa o Cetro, que os Reys
trazem, o qual teve seu principio da lança, a que chamavaõ Hastapura.
E em Espanha confórme eraõ as armas, com que os soldados serviaõ, se
lhes dava o grào da Nobreza. Daqui nasceraõ os titulos dos Escudeiros,
de Cavalleiros, de Fidalgos, de Ricos Homens, Condes, Marquezes, e
Duques; e vieraõ a ser os mais nobres cargos da Republica aquelles, que
pertenciaõ à Milicia, principalmente neste Reyno. Porque como os nossos
Reys alcançaraõ pelas armas o Senhorio delle, libertando quasi toda a
Provincia das mãos dos Mouros, que a senhoreavaõ, e defendendo-o dos
Reys vizinhos para confirmarem mais seu Estado, pozeraõ toda a honra
na gloria Militar, dando nova Nobreza aos do povo, que faziaõ feitos
assinalados nella, e os nobres acrescentando-os a mayores estados,
de maneira, que raros saõ os Senhores de Vassallos, que hoje hà em
Portugal, que naõ tivessem este heroico principio. E para sahirem
insignes nas armas creavaõ todos seus filhos com grande parsimonia nos
vestidos, e manjares; dando os mesmos Reys aos outros exemplo nesta
materia. De modo, que na virtude da Temperança se poderà comparar
esta nossa Republica atè o tempo de nossos Avòs com a taõ celebrada
dos Lacedemonios. Por esta causa usavaõ ainda na paz dos Exercitos
Militares, posto que fingidos; para que quando lhes fossem necessarios
senaõ acharem bizonhos, mas destros nelles. Sendo os seus jogos, e
passatempos tirar a tabolado, ou bordear, justas, torneos, touros de
cavallo, montarias, exercicios todos, em que se mostra tanto esforço, e
galhardia, como nas verdadeiras batalhas, e recontros da guerra.
A Milicia, que os nossos Reys antigos procuravaõ ter prestes para
defensaõ, e segurança do danno, que podiaõ receber dos outros Principes
confinantes, era hum Exercito com todos os Capitaens, Officiaes, e
soldados necessarios, com que pudessem acudir em continente a todas
as occasioens, que se offerecessem, onde fosse necessario. E porque
o fundamento da guerra saõ as forças dos naturaes da Provincia,
assim da gente de pè, como de cavallo; e a ordem, com que a Milicia
se exercita, me pareceo conveniente apontar o modo, que os nossos
Reys tiveraõ assim na defensaõ dos lugares, como nos Exercitos, com
que andaraõ em campanha, e o numero de gente, de que nelles usavaõ.
Porque ainda que se mudou o estilo da Milicia com as novas armas, e
instrumentos de polvora, com tudo as forças, e a ordem, e meyos para
alcançallas sempre saõ os mesmos: e por estes principios se ha de
dispor o que na nova Milicia se ha de ordenar. Nem se me pòde estranhar
este argumento por alheyo da profissaõ Ecclesiastica, por quanto a
Milicia he parte da Politica, e como tal trata della Santo Thomaz em
muitos lugares de suas obras; por onde a theorica he commua à todos;
e assim a estaõ lendo muitos Religiosos nas Escolas publicas, naõ só
fóra deste Reyno, mas ainda nelle. Quanto mais, que estando as forças
de Portugal na occasiaõ presente todas occupadas neste exercicio,
obrigação nos fica tambem a todos de trabalhar nesta materia cada hum
no que lhe toca em conservaçaõ do bem publico. Mas porque a guerra
se divide em terrestre, e maritima, fallaremos primeiro da terra,
como mais principal, discorrendo pelos mayores officios do exercito,
dando particular noticia de cada hum, com tudo o que pertence à Milicia
antiga, atè o presente, seguindo nesta materia os nossos historiadores,
e particularmente o Regimento da guerra, que fez ElRey D. Afonso V.
conformando-se com os estilos antigos deste Reyno.
§. II.
_Do officio, que fazia ElRey no Exercito, e dos Ministros, que serviaõ
à Pessoa Real na guerra, e da dignidade de Condestable._
Os exercitos deste Reyno foraõ sempre governados pelos Reys delle.
Porque como os mesmos Principes faziaõ profissaõ de guerreiros, não
queriaõ dar a outrem esta honra.[34] E assim houve poucos Reys, que não
se achassem por suas pessoas nas empresas mais importantes, que em seu
tempo se fizeraõ, como lemos do primeiro Rey D. Afonso Henriques, e de
seu Filho D. Sancho, D. Afonso III. D. Diniz, D. Afonso IV. D. João I.
D. Afonso V. D. João II. e D. Sabastiaõ. O officio, que no Exercito
faziaõ, era o supremo; e delles recebiaõ as ordens os Condestables.
Para o serviço, e guarda de sua pessoa tinha ElRey hum Guarda Mòr,
que era dos Fidalgos principaes do Reyno, o qual trazia consigo 20.
Cavalleiros Nobres para guarda da Pessoa delRey. Estes na guerra o
acompanhavaõ em toda a parte, e na paz assistiaõ no Paço, e dormiaõ
juntos à Camara Real.[35] Porèm depois usaraõ os Reys de Fidalgos
em lugar destes Cavalleiros, e tinhaõ as entradas livres, como os
Gentis homens da Camara na Casa de Borgonha. Naõ havia delles numero
certo, mas em tempo delRey D. Sebastiaõ o foraõ sómente doze. Estes
Cavalleiros da guarda no tempo da guerra andavaõ no Exercito com o seu
Guarda Mor armados, e a cavallo, seguindo a Pessoa delRey, segurando-o;
alèm do qual teve tambem depois o Capitão dos Ginetes parte deste
cuidado, como adiante veremos.[36] Tinhaõ os Reys hum Armador Mòr, cujo
principal cargo era guardar as armas da Pessoa Real: tambem alguns
Moços Fidalgos serviaõ de Pagens da lança.[37]
A mayor dignidade do Exercito depois da Pessoa Real, era o
Condestable, cuja origem, por ser pouco conhecida, tocaremos
brevemente.[38] Os Emperadores Romanos, e à sua imitaçaõ os antigos
Reys de Espanha, e França introduziraõ nos seus Officiaes do Paço o
titulo de _Comites_, ou _Condes_; aos quaes confórme o ministerio,
a que presidiaõ, se lhes dava o nome, com que se differençavaõ huns
dos outros, chamando _Comes rei privatæ_ ao Veador da Casa; _Comes
domesticorum_, ao Mordomo Mòr, e assim aos mais. Por esta razaõ
chamaraõ ao Estribeiro Mòr _Comes stabuli_. O mais antigo Author onde
se acha este nome, he em S. Gregorio Turonense: e assim se entende,
que teve esta dignidade principio em França, e que aquelles Reys foraõ
usando destes seus Estribeiros Mores, ou Condestables nas cousas de
guerra.[39] No principio, sendo o Condestable Capitaõ de Cavallos, e
depois General da Cavalleria, atè o virem a fazer General da Milicia
de todo o Reyno, e proveraõ este cargo nas pessoas mais illustres
delle. De França parece que veyo este officio a Italia, e a Inglaterra;
a cuja imitaçaõ ElRey D. Fernando de Portugal o creou de novo neste
Reyno, quando o Conde de Cambris com os seus Ingleses o veyo a ajudar a
fazer guerra a Castella. O primeiro, que este cargo teve em Portugal,
foy D. Alvaro Pires de Castro Conde de Arrayolos, e atè entaõ fazia
neste Reyno o officio de Condestable o Alferes Mòr; e de entaõ atègora
tiveraõ sempre o titulo de Condestables, ou Infantes, ou os mais
principaes Senhores do Reyno.
He o Condestable em Portugal o General da Milicia, seu lugar no
Exercito he o da vanguarda; e confórme ao seu titulo, que està no
Regimento da guerra; a elle dà ElRey as ordens do que se deve fazer
no Exercito, e elle as cõmette ao Marichal, para que as execute, e a
elle pertence fazer os Coudeis dos Bèsteiros, e dos homens de pè, cada
hum com 30. soldados. Assinaõ os Quadrilheiros, que haõ de repartir
os despojos das batalhas, e sacos dos lugares. Antes de partir o
Exercito, manda os Descobridores do campo, e Almocadens a segurar os
caminhos, e dà as guias para a vanguarda, e Capitaens para cavalgadas,
Aposentandor para alojar o campo e guardas, e roldas e escutas para de
noite, e lhes dà o nome. Por sua ordem se reconhecem os lugares, que
se haõ de cercar. Em todos os casos, que succedem no exercito, assim
civeis, como crimes, he suprema Justiça, para o que nomea Ouvidor, e
Meirinho; e a elle vem por appellaçaõ os feitos do Marichal: em os
civeis naõ hà do Condestable appellaçaõ. Estas, e outras cousas dispoem
o Regimento antigo, e lhe concede gajes no Exercito de cada mercador,
ou regataõ doze reaes brancos cada somana, e dos que servirem a estes,
trez reaes: e todas as penas de Direito, ou Condenaçoens, que se no
Exercito fizessem, eraõ para elle, e a carceragem dos que fossem presos
na prisaõ do seu Ouvidor, das presas das cavalgadas eraõ todas as
cavalgaduras, que naõ andassem em bandos.
Este officio de Condestable exercitaraõ com estas leis, e costumes
o Conde de Arrayolos D. Alvaro Pires de Castro servindo a ElRey D.
Fernando, e depois a ElRey D. Joaõ I. sendo ainda Defensor do Reyno;
o qual por morte de D. Alvaro Pires deu este ao Grande D. Nunalves
Pereira, que o servio com grande valor, e boa fortuna. E quando ElRey
passou a Castella em ajuda do Duque de Lancastro, nunca o Condestable
quiz dar a vanguarda ao Duque: mas sempre usou de sua preminencia.
Succedeo-lhe no officio o Infante D. Joaõ, e por sua morte o Senhor
D. Pedro Mestre de Aviz filho do Infante D. Pedro; depois o Infante
D. Fernando filho delRey D. Duarte, D. Joaõ Marquez de Monte-Mòr
filho do Duque D. Fernando de Bargança o primeiro, o qual exercitou o
officio acompanhando ElRey D. Afonso V. nas guerras de Castella, no
que tocava às vèlas, e causas judiciaes, que nas mais preminencias
do cargo corriaõ com o Duque de Guimaraens seu Irmaõ. Por morte do
Marquez foy Condestable ElRey D. Manoel, sendo ainda Duque de Beja,
e depois que entrou na successaõ do Reyno, deu este officio a D.
Afonso filho natural do Duque de Viseu seu Irmaõ. Succedeo-lhe o
Infante D.Luiz, depois o Senhor D. Duarte, e por sua morte os Duques
D. Joaõ, e o Serenissimo D. Theodosio II. seu filho. He agora esta
dignidade mais exercitada com titulo honorario, que com exercicio.
Porque des do tempo delRey D. Joaõ II. para cà se foy mudando a ordem
da Milicia, de maneira, que tirando as preminencias das Cortes, em que
hà Levantamentos dos Reys, ou Juramentos dos Principes, nos quaes os
Condestables tem o estoque diante dos Reys, e em outras prerogativas
semelhantes de honra naõ se deu caso em que exercitassem a jurdiçaõ dos
Exercitos. Nas Cortes de 1641. fez o officio de Condestable o Marquez
de Ferreira D. Francisco de Mello; nos Autos de Levantamentos de Reys,
que se seguiraõ, foy Condestavel o Infante D. Pedro, depois Rey, o
Duque D. Nuno Alvares Pereira de Mello, e o Infante D. Francisco.
§. III.
_Do Marichal._
A segunda dignidade da Hoste (que assim se chamava antigamente em
Portugal o Exercito) he Marichal.[40] Seu nome affirmaõ ser Tudesco,
e que se corrompeo de Marigal, que significa Justiça da Corte, e Casa
Imperial. Pontano diz, que na lingua Francesa quer dizer Mestre de
Campo, e ambas estas significaçoens cahem bem ao officio, que neste
Reyno faz. Esta dignidade creou ElRey D.Fernando de novo em Portugal
juntamente com a de Condestable, à imitaçaõ dos Reys de Inglaterra,
quando cà andava o Conde de Cambris. E foy o primeiro Marichal Gonçalo
Vaz de Azevedo. Ao Marichal pertence pelo Regimento da guerra repartir
os alojamentos de seu exercito; depois que pelo Aposentador do
Condestable for assinado o lugar, onde se houver de assentar; e para
isso tem tambem o Marichal seu Aposentador, e provè de outros para as
cavalgadas; manda ter cuidado das vèlas ao tempo de comer, assim de
dia, como de noite.
Tem o Marichal Ouvidor, diante do qual se pòdem pòr todas as acçoens
civeis, e crimes no exercito; tem assim mesmo Meirinho, Carcereiro,
prizoens, Aguazîs, para exercitarem justiça: a alçada he nos feitos
civeis atè trez mil reaes brancos: daqui para cima hà appellaçaõ para o
Condestable. Nos crimes naõ pòde executar penas de sangue, ou açoutes:
todas as execuçoens de justiça se mandaõ fazer por seus Ministros, e
os pregoens se daõ em nome seu, e do Condestable. As gajes, que tinha,
eraõ das presas das cavalgadas, que se faziaõ, todas as cavalgaduras
mezeladas, e castradas. De cada tenda, ou logea de Mercador, regataõ,
barbeiro, assacalador doze reaes brancos cada somana. Todas as
penas, que por via de graça, ou merce mandar ElRey pagar no exercito
aos condenados, perdoando-se-lhe a pena principal; assim mesmo a
carceragem, e armas, que se tomarem aos que forem presos na cadea do
seu Ouvidor, e as decimas dos prisioneiros do Exercito, que sendo
fugidos depois de huma noite, e dia, saõ tornados ao campo. Os que
atégora tiveraõ esta dignidade, foraõ Gonçalo Vasques de Azevedo, seu
genro Gonçalo Vaz Coutinho Senhor de Leomil, Vasco Fernandes Coutinho
primeiro Conde de Marialva, D. Fernando Coutinho, seu segundo filho,
D. Alvaro Coutinho, D. Fernando Coutinho, o que morreo em Calecut, D.
Alvaro Coutinho, D. Fernando Coutinho, D. Fernando Mascarenhas filho de
D. Jorge Mascarenhas Marquez de Montalvaõ.
§. IV.
_Do Alferes Mòr, Capitaõ dos Ginetes, e Capitaõ da Guarda._
Atè o tempo del Rey D. Fernando, o Alferes Mòr del Rey era o General
do Exercito, como jà apontamos, e fazia o officio de Condestable, e
Marichal, como consta do seu titulo no Regimento da guerra. Entre os
Ricos Homens era dos primeiros, que confirmavaõ as Escrituras com o
titulo de _Signifer Regis_; e o mesmo se usou em Castella. O nome de
Alferes he Arabigo, que quer dizer tanto como Cavalleiro. Seu officio
he ao presente ter a Bandeira Real no acto de Levantamento dos Reys, e
levalla nos exercitos com a Pessoa Real; mas naõ estende a bandeira,
senaõ em batalha campal. Costumaõ os Alferes Mòres ter outro Alferes,
que chamaõ pequeno, a quem entregaõ a bandeira, quando estaõ impedidos
para o poder levar, como se le,[41] que succedeo na batalha de Touro,
em que a Duarte de Almeida Alferes pequeno cortaraõ as mãos, para lhe
tomarem a bandeira. O primeiro Alferes Mòr, que houve em Portugal, foy
D. Fafez Luz, que viera de França com o Conde D. Henrique. Os mais
que este cargo serviraõ, segundo tenho alcançado, foraõ D. Pedro Paez
da Silva, Fidalgo illustre, e grande cavalleiro. Em tempo del Rey D.
Afonso II. confirmaõ com titulo de Alferes Mór Martim Annes, e D.
Sueiro Reymondo: no delRey D. Afonso III. D. Joaõ Pirez de Aboim, e D.
Gonçalo: no delRey D. Afonso IV. servio este cargo na batalha do Salado
D. Pedro Paes neto do Mestre de Santiago D. Payo Correa: na batalha de
Aljubarrota levava a bandeira Real Lopo Vaz da Cunha por seu irmão Gil
Vaz da Cunha: e nas mais empresas delRey D. João I. exercitou o officio
Joaõ Gomes da Silva; e por sua morte, o deu ElRey ao Conde de Viana D.
Pedro de Menezes, que o teve em todo o tempo delRey D. Duarte, cujo
Alferes Mòr era sendo Infante: e na jornada de Africa com os Infantes
fez o officio em seu lugar D. Duarte de Menezes pelo Conde seu pay,
por cuja morte lhe fez elRey D. Duarte merce delle: daqui se continuou
sempre na Familia dos Menezes. Hoje anda na Caza do Conde de Sabugosa.
Ainda que o officio de Capitaõ dos Ginetes parece deve ser mais antigo
neste Reyno, todavia naõ se faz delle mençaõ nas historias, senaõ
de pouco tempo a esta parte; e a primeira vez, que achey nomeados
Ginetes descobridores de campo nos Exercitos de Portugal, foy em tempo
delRey D. Duarte;[42] quando os Infantes D. Henrique, e D. Fernando
passaraõ a Tangere, onde o Chronista diz, que Ruy de Sousa, e seu
filho Gonçalo Rodrigues de Sousa, hiaõ diante do Exercito com 300.
Ginetes a descobrir o campo, e que este Gonçalo Rodrigues foy depois
Capitaõ dos Ginetes. Pelo que parece; que o primeiro que introduzio
este cargo na Milicia do Reyno, foy ElRey D. Afonso V. por haver na
sua historia muita mençaõ delle. Seu proprio officio he ser Capitaõ
dos Ginetes da Guarda delRey, a que dizem se annexou ser General da
Cavallaria do Reyno, e como tal exercitou este officio Vasco Martins
de Sousa Chichorro, acompanhando a ElRey D. Afonso V. em as guerras
de Castella; depois entrou esta dignidade na Casa dos Mascarenhas por
D. Fernando Martins, que servio de Capitaõ dos Ginetes aos Reys D.
Joaõ II. e D. Manoel. Os Cavalleiros desta Guarda dos Ginetes eraõ da
qualidade dos mesmos Cavalleiros da Camara, e Guarda delRey: o numero
era de 200. e usavaõ os Reys della naõ só na guerra, mas tambem na paz,
principalmente quando faziaõ caminho, como se ve das historias delRey
D. Joaõ II. e D Manoel. A Guarda dos Alabardeiros introduzio ElRey D.
Sebastiaõ, assim para respeito da Pessoa Real, como para segurança
della, pelos muitos Estrangeiros Hereges, que havia em Lisboa, mas
naõ eraõ de Tudescos, senaõ de Portuguezes, e foy seu Capitaõ da
Guarda Francisco de Sà Camareiro Mór delRey D. Henrique, e Conde de
Matozinhos: depois ElRey D. Felippe Prudente, deixando por Governador
deste Reyno ao Archiduque Alberto, lhe deixou Guarda Tudesca, e por
Capitaõ della D. Francisco de Sousa, a qual se foy continuando com os
Governadores, e VisoReys, que lhe succederaõ, atè Sua Magestade, que
Deos guarde, que admittio os Tudescos, que ainda achou com os outros
Alabardeiros da sua Guarda, que dantes tinha.
§. V.
_Dos Anadeis, e Coudeis Mòres._
Nas historias destes Reynos ha muita mençaõ de Anadeis, ainda que naõ
excedem o tempo delRey D. Fernando. Pelo que parece entraraõ estes
officios no Reyno juntamente com os de Condestable, e Marichal; ao que
ajuda o mesmo nome, que dizem ser Inglez. O mais antigo, que se acha
com este titulo, he Afonso Furtado de Mendoça, e em tempo delRey D.
Joaõ I. seu filho Afonso Furtado. Aos Anadeis pertencia ser Capitão de
Bèsteiros, assim de cavallo, como da Garrucha do Conto, e do Monte,
que chamavaõ de Fraldilha, e tambem dos Espingardeiros, os quais
cargos duraraõ atè o tempo delRey D. Manoel[43] que só deixou os dos
Espingardeiros, e os de Fraldilha, e extinguio os mais à petição do
Reyno estando em Cortes.
Ordenou ElRey D. Afonso V. que os homens de armas Escudeiros, que
serviaõ a cavallo nos Exercitos, fossem reduzidos à Capitanîa de hum
Capitaõ, que os repartisse por Coudeis, dando a cada Coudel vinte: pelo
que chamaraõ ao Capitaõ desta gente, e Coudeis, Coudel Mòr.
Derivou-se o nome de Coudel do nome antigo _Caudilho_ derivado de
_Caput_, palavra latina, que significa Cabeça; donde se disse tambem
o nome de Capitaõ. E dos Caudilhos trata o livro 4. tit. 23. das
Partidas de Castella, onde se apontaõ as qualidades, que para os
Caudilhos se requerem. Como o Coudel Mòr por o Regimento da guerra
ficava capitaneando a gente de cavallo; depois se veyo a encarregar ao
Coudel Mòr a execuçaõ das leys, que se fizeraõ para conservar as boas
raças dos cavallos do Reyno, como adiante veremos.
§. VI.
_Do Adail Mòr, Almocadens, e ceremonias com que eraõ creados._
Adail he palavra Arabiga, segundo D. Sebastiam de Covarruvias[44] e
significa Guia de caminho encuberto. Deriva-se de _Delid_, que he
Mostrador. Em Castella ha muitos annos se usou este nome à imitaçaõ dos
Mouros: e no tit. 22. da 2. Partida se trata largamente deste officio.
Em Portugal se costumou depois da tomada de Ceita, e nas outras
fronteiras de Berberia, e no Algarve ainda hoje os Adaiz saõ Capitaẽs
do campo, que he o seu proprio officio. No Regimento da guerra se
referem as ceremonias com que antigamente eraõ creados os Adaiz; o que
tudo he tirado das Partidas de Castella, e saõ as seguintes.
Havia de ser eleito para Adail hum homem, que tivesse grande pratica
de guerra, esforço, prudencia, e lealdade: e depois de escolhido tal,
mandava ElRey por doze Adaiz tirar informaçoens com juramento do Adail,
que estava para se fazer, e affirmando elles, que tinha as quatro
qualidades requisitas, lhe dava ElRey espada, cavallo, e armas, e
mandava a hum Rico Homem, que lhe cingisse a espada sem pescoçada; e
posto entaõ o escudo no chaõ com o concavo para cima, se punha sobre
elle o que havia de ser feito Adail, e ElRey lhe tirava a espada da
cinta, e lha dava nua na maõ; e entaõ os doze Adaiz alevantavaõ o
escudo no ar o mais alto que podiaõ, e olhando para o Oriente dava
com a espada dous golpes em cruz dizendo: Eu foaõ desafio todos os
inimigos da Fé, e de meu Senhor ElRey, e da terra, e o mesmo fazia
para as outras tres partes do Mundo. Depois metia a espada na bainha,
e ElRey lhe metia na maõ huma Bandeira dizendo, que lhe outorgava, que
fosse Adail, dalli em diante. E com isto ficava novamente creado nesta
dignidade, e podia trazer armas, e cavallo, e assentarse a comer com os
Cavalleiros delRey, e podia capitanear os Almocadens, e Almogavares,
e qualquer outra gente de pè, e de cavallo, que lhe fosse assinada.
Eraõ Juizes das cavalgadas, para as dividirem, e julgarem tudo o que
nellas acontecesse. Nos Exercitos do Reyno havia tambem Adail Mòr, que
hia com alguns ginetes diante do arrayal descobrindo o campo, como se
vè da historia delRey D. Afonso V. o qual parece, que foy o primeiro,
que introdusio este officio, trazendo-o de Africa, onde, como dissemos,
se usava delles desde o tempo da tomada de Ceita. O primeiro, que teve
o officio de Adail Mòr, foy Pedro de Bairros, e servio este cargo nas
guerras de Castella: de presente anda este officio na familia dos
Peixotos Senhores de Penafiel.