Porèm na conquista da India naõ succedeo assim; porque estando tantas

mil leguas distante de Portugal, e com navegaçaõ taõ perigosa, foy

necessario tirar-se do Reyno muita gente tornando pouca, ou nenhuma

della; porque se intentaraõ povoar muitas Cidades postas nas

fronteiras dos mais poderosos Principes do Oriente, como foy Ormuz

na Persia, Dio, e outros pòrtos na Cambaya, Goa junto ao Idalcaõ,

Columbo, e outras forças em Ceilaõ, Malaca defronte de Samàtra, as

Malucas no estremo do Emispherio, e Macào às portas da China; alèm

de outras muitas Fortalezas, que se naõ referem, para as quaes se

requeria grande numero de soldados, e huma despeza infinita.[13]

Pelo que foy de opiniaõ D. Francisco de Almeida primeiro Viso-Rey

da India, que naquelle[14] Estado naõ nos convinha ter mais que

huma, ou duas Fortalezas nos pòrtos, em que haviaõ de invernar as

nossas Nàos, e Armadas para poder continuar livremente o comercio:

e que fóra disto, quantas mais Fortalezas sustentassemos, tanto

mais fracos ficariamos.[15] Deste parecer foraõ muitos Conselheiros

delRey D. Manoel, demaneira, que chegou a dizer o Governador Afonso

de Albuquerque, que mais merecia a ElRey, por lhe defender Goa dos

Portuguezes, que pela tomar duas vezes aos Mouros. Com tudo o contrario

se seguio, povoando-se pelos nossos tantas terras, e Ilhas em Asia,

como se fosse huma Provincia confinante com Portugal; sendo cousa

notoria, que a navegação da India se intentou para comercio, e naõ para

conquistas. Porque a conquista só convèm, quando he para segurança do

Estado proprio. Mas sendo a India taõ longe de Portugal, e as forças

taõ espalhadas, e divididas, naõ podia servir para conservaçaõ deste

Reyno, se naõ para diminuiçaõ delle.

Porèm estas razoens politicas forão vencidas da Providencia Divina,

que obra suas acçoens contra as causas naturaes, para mostrar, que

naõ necessita de nossos meyos para produzir seus effeitos; e assim

querendo, que se promulgasse a Fè naquellas Provincias, ordenou, que

os nossos Reys, e seus Conselheiros approvassem esta Conquista, e com

milagres evidentes ficaraõ os Portuguezes quasi senhores de todos os

mares do Oriente, e dos principaes pòrtos de suas Costas, ganhando

fama immortal com o soberano esforço, que nestas heroicas empresas

mostraraõ, e prègando-se o Sagrado Evangelho por este meyo a todas

aquellas Gentes com grande gloria de Deos, e proveito de innumeraveis

almas, que se bautizaraõ.[16] Mas andando o tempo, ou por algumas

daquellas naçoens se fazerem indignas daquella doutrina por sua

contumacia, ou por culpa dos nossos, a quem a cobiça fez faltar na

boa administraçaõ dos seus governos, se foraõ perdendo as praças mais

distantes; porque por estarem muito apartadas de Goa, naõ poderaõ ser a

tempo socorridas: e assim se senhorearaõ nossos inimigos das Malucas,

Ormuz, Malaca, e Mascate. Deste modo ficou o Estado mais proporcionado

tendo menos Fortalezas, e naõ taõ desmembrado; pois as principaes se

reduzem agora a Moçambique, Goa, Cochim, Columbo, e Dio. Pelo que està

hoje a India naõ peyor para o trato das especiarias, que he o principal

cõmercio; e juntamente està mais defensavel, se houver nella milicia

paga; porque tirando o tempo do Veraõ, em que os soldados andaõ nas

Armadas, os Invernos ficaõ na terra, sem terem quem lhes dè de comer,

chegando muitos a pedir esmola pelas ruas, e Portarias dos Conventos.

Pelo que obrigados huns da necessidade, e outros da cobiça, se passaraõ

muitos os annos atrazados à terra firme a servir os Reys Gentios

daquellas Provincias; os quaes dando-lhes soldos aventejados, vieraõ a

ter muito mayor numero de Portuguezes em seu serviço, do que ElRey de

Portugal tinha nas suas Armadas, ou Fortalezas. Com este mào exemplo se

foraõ muitos viver nas mesmas povoaçoens dos Gentios acrescentando-as

em opulencia, como foy a de Meliapòr, e outras;[17] de modo, que

podemos dizer, que muitos pòrtos das Costas da India se povoaraõ de

Portuguezes casados na terra em tanto numero, e poder, que muitos

delles se intitularaõ Reys, e Senhores dos mesmos lugares, como foy na

Ilha de Sundiva, nos Bandeis de Bengalla, em Siriaõ, e em Camboja, e

outras partes; posto que todos elles acabaraõ as vidas miseravelmente,

castigando-os Deos com grande rigor, por deixarem as terras dos

Christaõs, e irem-se viver entre os Gentios. Esta he a causa porque

affirma Diogo de Couto,[18] que em tempo de ElRey D. Sebastiaõ avia na

India 16U. Portuguezes, e com tudo naõ se poderaõ mandar 800. a Malaca,

para a ir governar Antonio Moniz Barreto, nem D. Leoniz Pereira.

Este desamparo dos soldados na India, posto, que sempre se

experimentou, atègora se naõ tem remediado, e em quanto se naõ atalhar,

havendo naquelle Estado huma milicia com numero certo de Companhias

com seus Capitaens, e pagas assinaladas, naõ pòde deixar de se seguir

este danno gravissimo: que he pedir-nos a India sempre gente, e naõ

se valer o Estado della. Porque no principio os Governadores mandavaõ

dar mesa aos soldados no Inverno, porèm de muitos annos a esta parte

naõ hà mesas, se naõ em quanto se curaõ no Hospital. Para o que he de

saber, que de dous mil soldados, que vaõ ordinariamente em trez Nàos

para a India cada anno, morre grande parte delles na viagem; porque

como vaõ sete centos, e oito centos, e inda mais numa Nào, naturalmente

adoece, e fallece graõ numero delles, por se corromper o ar dentro das

cubertas com os bafos, e immundicias; de maneira, que o mesmo he descer

a ellas, que entrar em hum lugar pestilente. E o pobre do soldado,

que adoece, naõ tem cama, nem limpeza, nem regalo, nem consolaçaõ

alguma.[19] Diogo de Couto na 9. Decada cap. 11. diz que na Nào, em

que o Viso-Rey D. Antonio de Noronha passou à India, em que o mesmo

Diogo de Couto hia embarcado, partiraõ de Lisboa 900. pessoas, de que

na viagem morreraõ as quatro centas, e cincoenta; e que quasi o mesmo

foy pelas outras Nàos; porque de 4U. soldados, que o Viso-Rey nellas

levava, falleceraõ na viagem os 2U. e Duarte Gomes[20] nas Informaçoens

sobre a Companhia Oriental, diz, que na Nào S. Valentim morreraõ quatro

centas pessoas, e isto tem acontecido muitas vezes. Pelo que chegando

esta soldadesca jà taõ disimada à India, e naõ achando provimento

algum, com que se sustente, huns inficionados do mal da viagem, outros

do grande desamparo, pobreza, e miseria, e apalpados da terra caem em

mayores infirmidades; e assim vaõ quasi todos parar ao Hospital, onde

se diz, que muitas vezes fallecem mais de 600. e 700. homens destes: de

maneira, que desta soldadesca, que tanto custa à Fazenda Real a pòr na

India, se perde a mayor parte, sendo a causa o desamparo, com que se

trataõ os soldados naquelle Estado. Pelo que sem haver na India gente

paga, e pratica para andar nas Armadas, e presidiar as Fortalezas,

naõ se pòde esperar nenhum bom effeito da nossa milicia, pois alèm do

que temos dito, toda ella he feita cada anno em Goa tumultuariamente,

e de soldados armados com toda a desigualdade, assim no numero, como

nas Armas, porque cada hum traz as que quer: de maneira, que em hum

Navio os mais levaõ espadas, e rodellas, e vaõ poucos tiros de fogo,

e nenhuns mosquetes. Alèm disso os mesmos soldados saõ de ordinario

bizonhos, e naõ quaes convèm à milicia; porque os soldados, que em

Lisboa se assentaõ nas nossas Náos, saõ os mais delles moços de quinze,

e dezeseis annos que vem a ser huma infantaria pueril: e por isso vindo

a pelejar com os inimigos de Europa, ficamos quasi sempre na India

inferiores nos successos pela grande ventagem, que nos levaõ na escolha

dos soldados, nas armas, e na ordem da milicia: o que nos naõ tem

acontecido na Ethiopia, e Brasil, onde muitas vezes vencemos a estes

mesmos contrarios, por termos milicia ordenada.

Contra esta nossa desordem nos pòdem servir de exemplo os mesmos

Holandeses; pois em cada embarcaçaõ naõ levaõ de ordinario mais de 300.

homens; nem sustentaõ na India mais pòrtos, que o de Jacatrà, e Malaca,

e os que lhe convem em Ceilaõ para o trato da Canella: de maneira, que

naõ tem em toda a India commummente mais de mil homens pagos pouco

mais, ou menos, e estes andaõ divididos, comerceando, e militando.

Do mesmo modo os Castelhanos sustentaõ as Philippinas com hum terço

de 400. homens pagos com seus Officiaes; e naõ assentaõ governo em

Provincia alguma, sem primeiro ordenarem nella milicia certa.[21] Pelo

que he impossivel defendermos na India taõ grande numero de Cidades,

e Fortalezas, que necessitaõ de muitos mil soldados; sendo os nossos

sempre poucos, e bizonhos, e sem nenhuma ordem. Nem se pòde responder,

que sempre na India se militou desta maneira, porque antigamente naõ

havia nella inimigos de Europa, se naõ de ordinario piratas Malavares.

E se houve na India Armadas de fóra, como as do Soldaõ, e do Turco, foy

nos primeiros annos, em que as nossas Armadas eraõ taõ numerosas, que

excediaõ as destes contrarios, o que agora totalmente naõ hà. E assim

havendo milicia certa, e escolhida, poderà o Estado da India tornar a

florecer, se as Nàos forem menores, e da grandeza, com que se começou

o comercio, como adiante se mostrarà porque deste modo chegaràõ os

soldados com saude, e elles voltaràõ com especiarias a salvamento, e

naõ se levarà tanta gente todos os annos infructuosamente deste Reyno.

§. IV.

_Como se remediarà a segunda causa da falta da gente com a introducçaõ

de algumas artes mechanicas._

O remedio para a segunda causa, porque falta a gente neste Reyno, serà

exercitarem-se nelle as artes mechanicas, de que carece. Affirmaõ os

Politicos, que naõ há cousa, que importe mais para fazer huma Provincia

numerosa de habitadores, e rica de todos os bens, que a multidaõ das

artes; das quaes humas saõ necessarias, outras commodas à vida civil;

porque dellas se segue o grande concurso de gente, que ou trabalha, ou

menea o trabalho, ou administra a materia aos trabalhadores, compra,

vende, e leva as obras de hum lugar a outro. De maneira, que importa

muito mais a industria do homem para fazer hum lugar populoso, que naõ

a fertilidade do terreno; porque as cousas produsidas da industria

humana saõ muitas mais, e de muito mayor preço, que as cousas geradas

pela natureza. O exemplo, que disto trazem os Politicos, he a laã,

a qual he fruto simples, e grosseiro da natureza, mas a arte, quaõ

excellentes pannos, quaõ varios, e de quanta diversidade fabrîca

desta materia? Sustentando-se della, naõ só o que a cria, mas os que

a cardaõ, fiaõ, urdem, tecem, tingem, cortaõ, cozem, e a formaõ em

mil materias, e a levaõ de hum lugar a outro. O mesmo se diz da seda,

que he fruto simples; e com tudo quanta variedade forma della a arte?

Bem se vè em Florença, Genova, e Veneza, onde com a arte da seda, e

da laã se mantem quasi dous terços dos habitadores. O mesmo acontece

em toda a outra materia. Italia he Provincia, na qual naõ hà mineral

de importancia de ouro, ou prata, como tambem o naõ hà em França; e

com tudo huma, e outra he abundantissima de dinheiro, e de thesouros

pela industria das artes, e mercancia. Flandes também naõ tem veas

destes metaes; e por sua muita industria, naõ hà Provincia em Europa

mais habitada, nem onde haja tantas Cidades, e taõ grandes, e taõ

frequentadas de Estrangeiros, e taõ florentes em riquezas. Por tanto

o Principe, que quizer fazer populoso o seu Reyno, deve introdusir

nelle toda a sorte de industria, e de officios; o que farà com trazer

Officiaes excellentes de outras Provincias, e dar-lhes salarios, e

commodidades convenientes, e com favorecer os bons engenhos, e estimar

as invençoens, e as obras, que participaõ do singular, e do raro, e com

sinalar premios à perfeiçaõ, e excellencia.

Mas sobre tudo he necessario, que naõ permita, que se levem para fóra

de seus Estados os materiaes crùs, como saõ as laãs, seda, madeira,

metaes, nem outras semelhantes cousas; porque com os materiaes vaõ

tambem os Officiaes, que os lavraõ. E alèm de viver muita mais gente do

trato da materia lavrada, que da materia simples, como apontamos, as

rendas do Principe saõ com excesso mayores pelas sacas das obras, que

dos materiaes. Mais tira dos veludos, damascos, e semelhantes teas, que

da simples seda, mais dos pannos, que da laã tosca; mais das teas de

linho, que do linho; mais da cordoalha, que do canamo. O que vendo hà

annos os Reys de França, e Inglaterra, prohibiraõ levar a laã para fóra

de seus Estados. O mesmo fez tambem depois ElRey Catholico; ainda que

estas ordens naõ se observaraõ com o effeito, que convinha.

Neste Reyno tambem houve esta prohibiçaõ; mas estava taõ esquecido o

cuidado do bem publico pela falta dos Principes naturaes, que toda a

laã se levava para fóra; de maneira, que no anno de 1645. só em Evora

em poucos dias se compraraõ com dinheiro de Mercadores Estrangeiros

9U. arrobas. Pelo que S. Magestade, que Deos guarde, mandou de novo

prohibir estas compras; porèm naõ basta sómente esta prohibiçaõ; mas o

que importa, e o para que trazemos estes exemplos, he que se introduzaõ

no Reyno estas mechanicas, e teares, fazendo, que destas nossas laãs se

teçaõ no Reyno os mesmos pannos, que os Estrangeiros tecem dellas nos

seus, e nos trazem depois a vender. Porque disto se nos seguiràõ duas

grandes utilidades, a primeira, que ficarà no Reyno todo o dinheiro,

que ouvera de ir para fóra por razaõ destes pannos, a segunda, que naõ

dependerà da vontade dos Estrangeiros trazerem nos esta mercadoria, de

que totalmente necessitamos, e por-lhe os preços à sua vontade tendo-a

nòs em nossa casa. Isto se pòde ordenar fazendo, que se lavrem neste

Reyno as baetas, que vem de Inglaterra, pois saõ tecidas com as nossas

mesmas laãs. Agora no principio se poderà fazer conduzindo com premios

alguns Officiaes, mandando-os vir de Londres, ou de outras partes; e

fazendo assentar este trato nos lugares, que parecem mais convenientes,

como em Estremòs, Borba, Portalegre, Covilhãa, e com isto se daria

principio a hum trato de grandissimo proveito, assim para as rendas

Reaes, porque com estes direitos cresceriaõ muito, como para o bem

cõmum, porque teria o Reyno as baetas muito mais baratas, e em mayor

abundancia, e para a sustentaçaõ do povo; porque muita parte delle se

manteria com esta occupaçaõ.

O mesmo que digo da baeta se pòde fazer com as sarjas; por quanto estes

saõ os dous generos de mercancias, de que mais necessitamos. Da seda

tambem se poderiaõ introdusir neste Reyno teares de veludos lavrados,

damascos, sitins, e tafetaz dobrados; pois em nenhuma parte de Europa

se dà a seda com tanta perfeiçaõ, como em Portugal; como notaõ os

Authores Italianos, e só falta occuparem-se mais neste arteficio. Diz

o Escolano na historia de Valença,[22] que naõ havendo em Espanha atè

o tempo dos Godos seda, nem assucar, nem arroz, os Mouros depois, que

nella entraraõ, trouxeraõ cà estas sementes, as quaes se cultivaõ hoje

em Valença com tanta utilidade, que affirmaõ importar cada huma destas

cousas hum milhaõ cada anno. Em Murcia, e Cordova todas as mulheres se

occupaõ com a creaçaõ da seda. E a seda, que o Marquez Fernaõ Cortez

introdusio no Mexico, tem crescido de maneira, que agora he a mayor

mechanica, que hà naquella Provincia, como se vè da arte, que escreveo

da sua creança Gonçallo de las Casas, que anda no fim da Agricultura de

Herrera. O mesmo se pòde fazer em outras artes, que nos saõ necessarias

para a milicia, e navegaçaõ. ElRey D. Joaõ o V. nosso Senhor fez

instituir no Sitio da Cotovia extra muros desta Corte huma nova Fabrica

de sedas de todas as qualidades no anno de 1735. a qual tinha antes

principiado no Sitio da Fonte Santa.

He o ferro de Portugal o melhor do mundo, delle se lavraraõ as mais

prezadas escopetas pedidas pelos Principes, e que se lhe offereciaõ por

peças de muita estima, sendo-nos taõ necessarias estas armas, he erro

grande mandarmolas buscar de outras Provincias, sendo as Estrangeiras

muito inferiores às nossas, como se vè nas muitas, que arrebentaõ cada

dia nas Fronteiras, o que as nossas naõ fazem.

Naõ he menos importante o lavor do linho canamo, de que se fazem as

amarras, cordoalhas, e enxarceas, excedendo o nosso a todos os de

Alemanha, de maneira, que huma amarra de Portugal sustenta mais, que

duas, e trez de Flandes. E sendo estas cousas taõ necessarias para a

navegaçaõ, que sem ellas senaõ pòde fazer; he lastima, que seja tal

o nosso descuido, que vamos buscar estas cousas às terras de nossos

inimigos, dandonolas Deos em nossa casa. E o peor he, que confessa

hum Contratador dos nossos[23] num livro, que apresentou ao Conselho,

que todas as amarras, e cordoalhas, que nos mandaraõ de Flandes, naõ

somente eraõ as peores, mas de proposito, e por industria falsificadas,

e fallidas, para que naõ pudessem servir, se naõ com a apparencia.

ElRey D. Manoel, e D. Joaõ III. tiveraõ feitorias deste lavor do

Canamo nos lugares do Reyno, em que se dà com mòr abundancia. O mesmo

se poderà tornar agora a fazer dando privilegios, e commodos aos

Officiaes, que nisto se occupassem.

O lavor dos pannos de algodaõ se poderà introdusir neste Reyno

com muita facilidade: pois somos senhores do algodaõ do Brasil, e

Cabo-Verde, que he infinito, e finissimo. E para Mestres se poderàõ

mandar buscar os Teceloens da India, que saõ os melhores do mundo, e

fazer em Lisboa os canequins, e bofetàs, que là himos buscar com tanto

trabalho, e perigo.

O papel tambem he cousa de muito uso, e que todo nos vèm de fóra. No

Reynado delRey D. Joaõ V. que Deos guarde se introdusio esta Fabrica no

Reyno na Villa da Lousaã junto à Cidade de Coimbra, em que se faz papel

ordinario, florete, e imperial, e em Paramos junto à Cidade de Braga hà

outra Fabrica, em que se faz papel pardo, como o de França. ElRey D.

Joaõ o IV. quiz jà introdusir esta arte no Reyno, e mandou para isso

fazer huma Officina em Villa-Viçosa, que com as occasioens presentes

naõ teve effeito.

Diz o Doutor Laguna no seu Commento de Dioscorides,[24] quando falla da

graã, que a graã, que nasce em Portugal, he a melhor, que se conhece em

Europa, e como tal he buscada dos Estrangeiros com grande culpa nossa;

pois dando-nos Deos esta tinta taõ excellente neste Reyno, naõ se tece

nelle hum covado de graã; e os Estrangeiros nos tornaõ a vender o que

he proprio nosso, a mais subido preço, podendo nós vendello a elles.

O mesmo se pode dizer do pào do Brasil, e pastel das Ilhas, que sendo

quasi mercadorias estanques, nòs as damos em materia simples a todas

as Naçoens da Europa para com ellas tingirem os seus pannos, podendo

nòs usar dos mesmos tratos, e ser os vendedores dos pannos, e naõ os

compradores. Estas, e outras mechanicas se poderàõ obrar com grande

utilidade do bem publico, assim para as rendas Reaes, como para a

multiplicaçaõ, e sustentaçaõ do povo. E naõ hà, que reparar em parecer,

que serà isto cousa difficultosa, ou muito custosa, se naõ ordinaria,

e facil; pois o grande trato das sedas de Sicilia teve principio

em ElRey Rogerio trazer de Corintho, e Athenas, quando as entrou,

alguns Officiaes de seda para Sicilia: e estes bastaraõ para fazerem

naquella Ilha hum trato de seda, que a tem tanto enriquecido.[25] Da

mesma Sicilia mandou vir o nosso Infante D. Henrique os Mestres para

ensinarem a plantar, e beneficiar o assucar na Ilha da Madeira.[26]

Este principio bastou para fazer aquella Ilha a mais rica do mar

Oceano; e para della sahirem depois os Mestres, que introdusiraõ este

trato na Ilha de S. Thomè, e em todo o Brasil, que se naõ sustenta

de outra causa, e he o mayor rendimento, que agora tem a Coroa de

Portugal. Pelo que pois temos jà em casa o exemplo, e experiencia, naõ

nos pòde parecer este arbitrio novo, ou de pequeno effeito.

Poucos annos há, que hum Oleiro, que veyo de Talaveira a Lisboa,

vendo a bondade do barro da terra, começou a lavrar louça vidrada

branca, naõ só como a de Talaveira; mas como a da China; porque na

formosura, e perfeiçaõ pòdem competir as perçolanas de Lisboa com as

do Oriente; e imitando-o outros Officiaes, cresceo a mercadoria de

maneira, q́ naõ sómente està o Reyno cheyo desta louça; mas vay muita

de carregaçaõ para fóra da Barra. Do mesmo modo quasi por este tempo

começaraõ pelo districto de Coimbra a fazer searas de milho grosso de

maçaroca, que vem de Guinè; e aos primeiros seguiraõ outros em tanto

numero, que he hoje o mantimento mais ordinario para a gente vulgar,

quasi em toda a Beira, e entre Douro, e Minho; de que se seguio grande

beneficio a estas Provincias; porque como as searas saõ de regadio,

nunca faltaõ; e fundindo muito, vem a ser o mantimento muito barato,

com que o povo fica de todo abastado. Pelo que se estas mercadorias se

introdusiraõ em nosso tempo só pela industria dos particulares; com

quanto mòr facilidade, e felicidade se poderaõ introdusir as outras,

que apontamos, pelo poder, e authoridade dos Principes?

§. V.

_Do remedio da terceira causa da falta da gente com se fazerem novas

Colonias no Reyno_.

Notaõ os Politicos, que os Romanos antigos, assim para cultivarem toda

Italia, como para conseguirem a multiplicaçaõ da gente, que sempre

pretenderaõ, usaraõ muito desse remedio das Colonias; porque só de Alba

Julia sahiraõ trinta, e de Roma se tiraraõ quasi infinitas, com o que o

povo Romano se foy multiplicando em grande maneira, porque assim como

as abelhas crescem com se lhe tirarem das colmeyas os novos enxames

cada anno; da mesma maneira acontece tirando-se de hum povo grande

huma Colonia; porque se dá occasiaõ para crescer muita mais gente, do

que crescera, se senaõ tirara; porque muitas daquellas pessoas por naõ

terem terras, nem commodidade para viver, se naõ casariaõ; e assim se

perderia toda a geraçaõ dellas; o que naõ acontece, quando se tira a

Colonia; porque entaõ o Rey, ou o Senhor, que a Colonia funda, lhe

concede na terra, para onde a manda habitar, campos, e herdades, de

que se possa sustentar. Deste remedio das Colonias se tem tambem usado

neste Reyno de seu principio. Porque desde o Conde D. Henrique atè

ElRey D. Diniz, naõ sómente os Reys fundaraõ muitas Villas, mas os

Prelados, Camaras, e Fidalgos particulares, repartindo as herdades, que

tinhaõ, aos moradores, que queriaõ ir para ellas, dando a cada huma

terras para cultivar com a pensaõ dos quartos, ou oitavos na fórma,

que se concertavaõ. De modo que muita parte do Reyno se povoou por

este meyo, e principalmente Alentejo, que ainda que por ser a ultima

Provincia de Portugal, que se conquistou, ficou menos povoada; com

tudo quasi todos os Lugares, que nella hà, foraõ fundados pelo Bispo,

e Cabido de Evora, e pelos Mestres de Aviz, e S. Tiago, e outros

Fidalgos. Pelo que pois por este meyo das Colonias teve a povoaçaõ do

Reyno principio, naõ se lhe pòde buscar outro mais proprio, nem mais

facil, para se povoar, principalmente Alentejo; que com ser quasi tanta

terra, como o restante de Portugal, està quasi deserta, e com muy

poucas Villas, e Lugares. A razaõ he por estar todo Alentejo dividido

em herdades, das quaes os Lavradores naõ saõ senhores; mas sómente

arrendadores; e ainda, que muitos homens dezejaõ fazer casas novas nas

mesmas herdades, naõ lhe podem os Lavradores dar pera isso licença; mas

antes quando os Senhorios o querem, elles o naõ consentem, pelo danno,

que temem, que os taes moradores lhes haõ de fazer nas suas searas, e

nem huma arvore de fruto, ou parreira ouzaõ plantar na terra; porque

logo o visinho lança sobre elle no novo arrendamento para ficar melhor

accõmodado. Donde vem estar agora esta Provincia taõ despovoada; sendo

assim, que em tempo dos Romanos tinha mais Lugares, que as outras da

Lusitania:[27] Pelo que para a povoarem, naõ serà necessario haver

força; porque se derem aos homens terras, e algum modo de commodo para

o principio, de sua vontade haverà muitos, que folguem de se vir viver

a estes novos Lugares.

Noticias de Portugal · 第 2 / 43 段