NOTICIAS
DE
PORTUGAL
ESCRITAS POR
MANOEL SEVERIM
DE FARIA
CHANTRE, E CONEGO DA SÉ DE EVORA.
Em que se declaram as grandes commodidades, que tem para crescer em
gente, industria, commercio, riquezas, e forças militares por mar, e
terra, as Origens de todos os appellidos, e Armas das Familias Nobres
do Reyno, as Moedas, que correraõ nesta Provincia do tempo dos Romanos
atè o presente, e se referem varios Elogios de Principes, e Varoens
Illustres Portuguezes.
_Nesta Segunda Impressão acrescentadas,_
PELO PADRE
D. JOZÉ BARBOSA
CLERIGO REGULAR, ACADEMICO DO
Numero da Academia Real.
_OFERECIDAS_
AO MUITO REVERENDO DOUTOR
JOZÉ CALDEIRA
Presbitero do habito de S. Pedro, Prothonotario Apostolico de
S. Santidade, Beneficiado na Paroquial Igreja de N. Senhora da
Purificaçaõ no Lugar de Sacavem.
LISBOA OCCIDENTAL,
NA OFFICINA DE ANTONIO ISIDORO DA FONSECA.
Anno M. DCC.XL.
_Com todas as Licenças necessarias._
Á custa de Manoel da Conceiçaõ Livreiro, vendese na sua Logea na rua
direita do Loreto.
[Illustração].
AO MUITO REVERENDO SENHOR DOUTOR
JOZÉ CALDEIRA
PRESBITERO DO HABITO DE S. PEDRO, PROTHONOTARIO Apostolico de S.
Santidade, Beneficiado na Paroquial Igreja de N. S. da Purificaçaõ no
Lugar de Sacavem, &c.
M. R. SENHOR:
_Fora acerto a naõ ser eleiçaõ dedicar a V. m. as Noticias de Portugal,
que escreveo Manoel Severim de Faria, porque alèm de naõ poderem
buscar mais seguro asylo contra a malevolencia dos Criticos modernos,
tem nelle tambem manifesto o motivo para o patrocinio. Porque sendo
esta Obra escrita pela elegante penna de hum homem consagrado ao
Culto Divino, e a quem todo o genero de erudiçaõ, e doutrina fez
conhecidamente grande, com bem fundada razaõ devia apparecer novamente
no theatro do Mundo debaixo da protecçaõ de quem lhe fosse semelhante
no Estado, e na Sciencia._
_Desta fizera agora o paralello, senão conhecera ser pequeno o campo
de huma Dedicatoria para tão largo assumpto. Alem de que he escusado
persuadir huma verdade, que facilmente confessaraõ os que attenderem
ao profundo dos conceitos, ao elevado da discriçaõ, á eloquencia
das vozes, e a utilidade dos argumentos, que V. m. diz, ou propoem
para a admiraçaõ universal nos Pulpitos, em que discorre, merecendo
sigularmente o applauso commum dos ouvintes, por unir com rara
felicidade partes difficeis de encontrar em qualquer Orador. Poderaõ
fingir os Poetas, que Mercurio com a suavidade do Caduceo atrahia
as Almas daquelle lugar, a que negou fatal passagem o Principe de
todos elles: e eu naõ duvida-rey affirmar, que V. m. com a vara de
ouro da sua eloquencia, arrebata os affectos, e move os animos dos
que tem a fortuna de o ouvirem. Mas naõ me admira, que V. m. como
se fallara desde a cortina de Apollo, pronuncie em harmoniosa frase
graves sentenças, e Sabios Oraculos, por conhecer, que a dilatada
Esfera da sua comprehensaõ chegou venturosamente a alcançar o perfeito
conhecimento daquella nobre Rainha das artes, para cuja excellente
noticia pedia o Principe da Eloquencia Romana hum entendimento Divino:
donde posso eu dizer com acertada razaõ, ser o seu a todos os mais
superior. Finalmente o mesmo Tullio para formar a idea adequada de hum
Orador, diz se requer nelle o ornato de quasi todas as Sciencias, e
Artes Liberaes, e como em V. m. admiramos esta notavel grandeza, por
isso o busco para Protector de Manoel Severim. Confesso, que sim me
ocorreo procurar o patrocinio de algum Grande, mas arrependido logo da
ignorancia, e da temeridade deste pensamento, tomey a firme resoluçaõ
de implorar o de V. m. por que só hum Sabio pode tomar debaixo do seu
amparo outro Sabio, pois só na semelhança se encontra o amor, sem o
qual se faz muitas vezes desagradavel este obsequio. No trato ordinario
dos homens cada dia se experimenta, que os que padecem a irremediavel
falta de juizo zombaõ dos discretos, e não era justo ficasse a memoria
de Manoel Severim exposta aos perigos que podia achar na grossaria, de
quem naõ conhecesse a estimaçaõ, que lhe he devida. E jà que a minha
eleição foy taõ venturosa, que ainda sem a liberdade do arbitrio logra
os creditos de muy acertada, parece fica V. m. obrigado a receber este
meu, se tenue, reverente obsequio, que affectuosamente lhe dedico, para
immortal gloria do nome do Author, e para eterna memoria da honra, que
costuma fazer aos seus criados. Deos guarde a V. m. pelos annos que
desejo,_
_Seu obrigadissimo criado_
_Manoel da Conceiçaõ._
AOS LEITORES
No anno de 1625, dey à estampa alguns Discursos; e Elogios para
instrucçaõ das Artes, em que haõ de ser doutrinados os mancebos nobres
da Republica, conforme os preceitos do Filosofo: e tendo eu naquelle
tempo huma obra grande, que intitulava: _Noticias de Portugal, e
suas conquistas_ jà quasi em estado para se poder imprimir, como
testificaõ os Doutores F. Antonio Brandaõ, Geral que foy de Alcobaça,
e Antonio de Sousa de Macedo, que entaõ a viraõ; com tudo como as
cousas daquelles annos para cà tiveraõ taõ grande mudança, recresceraõ
taes inconvenientes, que sobreestive na execuçaõ deste intento. Porèm
entendendo eu, que naõ seriaõ de menor serviço do bem publico alguns
Discursos dos muitos, que nesta obra se continhaõ sobre diversas
materias, assim politicas, como de varia liçaõ, me pareceo cõmunicallos
a todos, e pelo que participaõ de seu primeiro original, dar-lhes o
titulo de _Noticias de Portugal_. E ainda que pòde haver sogeitos, que
façaõ mayor estimaçaõ dos livros pela quantidade, que pela qualidade
delles; com tudo para os que saõ versados na liçaõ das boas letras, sey
que naõ tem em menos as obras por pequenas, quando nellas se contem
a doutrina necessaria ao assumpto de que trataõ; antes vemos, que em
todos os escritores saõ mais presados estes pequenos tratados, que os
mayores volumes, que seus Authores composeraõ; como se vè entre os
Filosofos nas obras de Plataõ, e Aristoteles, nos Moraes de Plutarco,
e nas de quasi todos os Padres, principalmente S. Basilio, S. Gregorio
Nazianzeno, S. Jeronymo, e na mòr parte das de Santo Agostinho. E
ainda que os Scholasticos tiveraõ por argumento principal as materias
de Theologia; com tudo naõ saõ menos estimados os Opusculos de Santo
Thomaz, e Dionysio Carthusiano, que as outras suas obras Theologicas, e
Escriturarias. Pelo que assaz fica approvado este genero de escritos,
quando por outra cousa o naõ desmerecerem.
Os motivos, que tive para communicar estes Discursos, saõ os seguintes.
O primeiro Discurso he sobre o augmento da povoaçaõ deste Reyno,
porque sendo a multidaõ da gente o fundamento de todos os Estados, em
Portugal he isto muito mais necessario, pois tem mais Conquistas, que
nenhum outro Reyno de Europa; e assim necessita mais de tratar desta
materia.
No segundo se refere a ordem da Milicia, com que este Reyno se defendeo
de seus contrarios por espaço de quasi 500. annos, e os meyos, e
forças, que agora tem, para poder melhor conservarse, que de antes.
O terceiro he o da Nobreza, em que se mostra a origem dos Appellidos,
e Brazoens de cada uma das Familias do Reyno, noticia taõ desejada
atègora, e taõ occulta a quasi todos os que da Nobreza trataraõ, como
se vè de seus escritos,
Seguese outro Discurso sobre as Moedas Portuguesas, tratado muito
necessario para a intelligencia das historias, computaçoens, e noticia
dos tempos; o que neste Discurso se ajusta com a pontualidade possivel;
pois se faz pelos textos das mesmas leys, e authoridade das Chronicas
deste Reyno.
O Catalogo das Universidades de Hespanha serà agradavel aos estudiosos;
principalmente por ser manifesto, que a noticia das Sciencias de
Hespanha teve principio na nossa Lusitania.
A advertencia sobre a prègaçaõ do Evangelho nas Provincias de Guinè é
quase devida, naõ só por caridade, mas tambem por singular obrigaçaõ,
pois em tantos anos se tem feito taõ pouco, ainda que se tem trabalhado
tanto, por se naõ accomodarem os meyos à conveniencia da obra, cousa
que facilmente parece se pòde alcançar.
O Discurso sobre se evitar a grandeza das Nàos da India; pòde ser
que se tenha pelo mais importante; pois por esta causa padece
Portugal, quasi todos os annos taõ grandes perdas de gente, fazenda,
embarcaçoens, e do principal cabedal deste Reyno, tendo a demasiada
grandeza das Nàos contra si tantos exemplos, e Provisoens Reaes, e o
juizo dos mais desinteressados homens, que nellas navegaraõ.
O Discurso sobre os inconvenientes da Peregrinaçaõ pode servir para nos
aproveitarmos do tempo, procurando empregallo mais no conhecimento da
nossa patria, que das alheyas. E debaixo do titulo deste mesmo discurso
foraõ (por inadvertencia do Impressor) os Elogios seguintes, a saber.
O Catalogo dos Cardeaes que escrevi ha muitos anos; porque vulgarmente
senaõ sabia delles sendo Varoens taõ insignes, e Principes da Igreja;
e ainda que ao presente nos Authores modernos se faz mençaõ de alguns
delles, com tudo naõ he de todos, nem se achaõ juntos como aqui vaõ.
O Elogio do P. Fr. Bernardo de Brito fiz entre outros muitos, que deste
argumento tenho compostos; e pareceo tambem ao Reverendissimo P. Fr.
Antonio Brandaõ Abbade de Alcobaça, e Geral neste Reyno dos Religiosos
de Cister, que mo pedio para a primeira, e segunda parte da Monarquia
Lusitana, a que o P. Fr. Bernardo deu principio. Não teve o Padre
Geral tempo para dar à execução o que desejava: mas nem por isso he
razaõ que por esta causa falte ao Padre Fr. Bernardo a demonstraçaõ do
agradecimento que todos os Portugueses devemos à sua boa memoria.
A inclita Cidade de Evora he dignissima de soberanos Elogios, pois a
ella reconhece este Reyno o principio de sua liberdade, e merece por
isso eternos louvores. O Reverendo Abbade de Pera quiz referir parte
deste Elogio nos seus Successos militares; mas como està alli impresso
taõ diminuto, e com tantos erros, me pareceo se devia publicar na
fórma, em que primeiramente foy escrito.
O Elogio delRey D. Joaõ III. he feito por Antonio de Castilho Chronista
Mòr que foy deste Reyno, e do Conselho delRey D. Sebastiaõ, e seu
Embaixador em Inglaterra, e hum dos homens, que melhor fallaraõ a
lingua Portuguesa, a juizo de todos os doutos: e assim por esta causa,
como por ser de hum Rey, que governou com mayor acerto, e felicidade a
Portugal, me pareceo muy conveniente tirallo das trevas do esquecimento
em que estava sepultado; pois he dignissimo de sahir à luz, e andar nas
mãos de todos. E se antigamente como affirma Plinio, era mais prezada
a Coroa de Carvalho, que se concedia ao que conservava a vida de hum
Cidadaõ Romano, que as dos mais preciosos metaes, e Seneca diz della:
_Nullum ornamentum Principis fastigio dignius, pulchriusque est, quam
illa corona ob cives servatos_; com razaõ deve ser estimada esta minha
diligencia; pois com elle se conserva, naõ sómente a memoria quasi
acabada de tal Cidadaõ, e taõ Illustre Escritor; mas ainda a do governo
de hum nosso Principe natural, cujos prudentissimos dictames pòdem ser
exemplos aos melhores Politicos do Mundo.
No mesmo estado passava esquecido o Panegyrico da Senhora Infanta Dona
Maria digna dos mayores louvores entre as Princesas do seu tempo por
suas insignes virtudes, e por a excellencia singular de seu engenho.
Foy composiçaõ do nosso grande Joaõ de Barros; o qual como seu pay era
morador de Viseu, celebrou com este Panegyrico a boa sorte daquella
Cidade, quando ElRey D. Joaõ a deu à Senhora Infanta com titulo de
Duquesa della. He obra igual ao Panegyrico de Trajano, que se estima
pela melhor de Plinio: ainda que para o engenho de Joaõ de Barros se
pode ter esta por huma pequena linha; com tudo quando ella he lançada
pela maõ de Apelles, naõ fica sendo de menor estima, que a mais famosa
imagem de Phidias. E como o Elogio de Joaõ de Barros ao mesmo Rey D.
Joaõ o III. he obra, em que se ve a grande erudiçaõ, e delicadissimos
pensamentos de hum homem taõ excellente, se imprime agora, ainda que
com alguns erros, que senaõ puderaõ emmendar na falta do original, e de
copia exactissima; e como estes Elogios naõ tinhaõ ordem, se lhes deo a
que pedia a sua materia.
LICENÇAS DO SANTO OFFICIO.
_CENSURA DO M.R.P.D. CAETANO DE GOUVEA C.R. Qualificador do Santo
Officio, Examinador das Tres Ordens Militares, e Academico da Academia
Real, &c._
EMINENTISSIMO SENHOR,
Vi as Noticias de Portugal de Manoel Severim de Faria com as addiçoens,
que de novo se lhe acrescentaõ, e com o excellente Panegyrico, que
o grande Joaõ de Barros fez a ElRey D. Joaõ III. e nenhuma cousa
encontrey opposta à pureza da Fè, e bons costumes, pelo que me
parece este Livro digno da licença para se tornar a imprimir. Lisboa
Occidental 13. de Outubro de 1739.
_D. Caetano de Gouvea C.R._
Vista a informaçaõ, pode-se tornar a imprimir o livro de que se trata,
com as addiçoens, que se apprezentaõ, e depois de impresso tornarà para
se conferir, e dar licença, que corra, sem a qual naõ correrà. Lisboa
Occidental 13. de Outubro de 1739.
_Fr. R. de Alencastre. Teixeira. Sylva. Soares. Abreu._
DO ORDINARIO.
Póde-se tornar a imprimir o livro de que se trata, e depois de impresso
tornarà para se conferir, e dar licença para que corra, sem a qual naõ
correrà. Lisboa Occidental 14. de Outubro de 1739.
_Gouvea._
DO PAÇO.
_Aprovação do M. R. P. D. Antonio Caetano de Sousa C. R. Qualificador
do Santo Officio, Consultor da Bulla da Cruzada, e Academico da
Academia Real, &c._
SENHOR.
Este Livro que no anno de 1655. imprimio Manoel Severim de Faria
Chantre na Cathedral da Cidade de Evora, com o titulo Noticias de
Portugal, foy estimado dos Erudîtos, como merecia a producçaõ de hum
taõ insigne Antiquario, como foy Manoel Severim de Faria, a cujos
incansaveis estudos devem huma grande luz todos os curiosos da nossa
historia, e he bem de sentir, que se perdessem, ou sepultassem, que he
tudo o mesmo, as diversas obras, e memorias, que elle escreveo, que
tanto acreditavaõ a patria, em cujo obsequio trabalhou toda a vida
este Eruditissimo Author. Esta obra, que agora se pertende juntamente
reimprimir, se hia fazendo taõ rara, que difficultosamente poderia
chegar às mãos daquelles, que se applicaõ com curiosidade a ler, assim
he de louvar o zelo de novo se imprimir com addiçoens, que a fazem mais
estimavel por serem noticias, que instruem, e poem a obra depois de
quasi hum seculo no nosso tempo. No fim se lhe ajunta aquelle celebre
Panegyrico feito no anno de 1533. a ElRey D. Joaõ III. por aquelle
insigne Varaõ o grande Joaõ de Barros, cujo nome he o mayor Elogio,
para a recomendaçaõ da obra. Assim, Senhor, nenhum motivo pòde haver
para que senaõ dè a Manoel da Conceiçaõ a licença, que pede. Este he o
meu parecer. V. Magestade mandarà o que for servido. Lisboa Occidental
na Casa de Nossa Senhora da Divina Providencia 18. de Outubro de 1739.
_D. Antonio Caetano de Sousa C. R._
Que se possa imprimir com o acrecentamento junto, vistas as licenças do
Santo Officio, e Ordinario, e depois de impresso tornarà à Mesa para se
conferir, e dar licença, que sem isso naõ correrà. Lisboa Occidental
20. de Outubro de 1739.
_Pereira. Teixeira. Cardeal. Vaz de Carvalho. Coelho._
LICENÇAS
DO SANTO OFFICIO.
Visto estar conforme com o seu original, pòde correr. Lisboa Occidental
5. de Abril de 1740.
_Fr. R. de Allencastre. Teixeira. Sylva. Soares. Abreu._
DO ORDINARIO.
Visto estar conforme com o original, pòde correr. Lisboa Occidental 5.
de Abril de 1740.
_Gouvea._
DO PAÇO.
Taxaõ este livro em mil e duzentos reis em papel para que possa correr.
Lisboa Occidental 4. de Abril de 1740.
_Pereira. Teixeira. Vaz de Carvalho_
VIDA
DE
MANOEL SEVERIM
DE FARIA:
_Escrita pelo Adicionador._
Entre os grandes homens de que Lisboa tem a gloria de ter sido Patria,
foy hum Manoel Severim de Faria, que teve por Pays a Gaspar Gil Severim
Executor Mòr do Reyno, e Escrivaõ da Fazenda Real, e sua segunda
mulher Dona Juliana de Faria. Naõ pude descobrir o dia, em que veyo
à luz do Mundo, mas pela idade, em que falleceo, devia de ser o anno
do seu nascimento o de 1581. ou 82. Sendo ainda menino foy para Evora
assistir em casa de seu Tio Balthesar de Faria Severim, Chantre que era
daquella antiga, e illustre Cathedral. Aprendeo em Evora Filosofia,
e Theologia, em que fez progressos taõ grandes, que em ambas estas
Faculdades tomou o grào. Vendo-o o Tio jà capaz, naõ menos pelos
annos, que pelas letras, de lhe succeder no Chantrado, o renunciou
nelle em 16. de Setembro de 1609. e depois de lhe dar a posse, se
recolheo ao Convento da Cartuxa da mesma Cidade, aonde professando
com o nome de D. Basilio, deixou dos seus estudos, e virtudes igual
memoria. Naõ se esqueceo Manoel Severim de Faria com a nova Dignidade
do que estudàra, como muitas vezes succede; mas procurando adiantarse
cada vez mais em todo o genero de Sciencias, se applicou à liçaõ da
Sagrada Escritura, da Theologia Mystica, da Historia, da Politica,
da Geographia, e das Antiguidades Romanas, e Portuguesas, em que
foy insigne. A mayor parte do rendimento daquelle pingue beneficio
converteo em livros, de que juntou huma grande copia, naõ só estimavel
pelo numero, como pela qualidade, pois àlem de algũs, a que a raridade
dos exemplares fazia preciosos, se achavaõ naquella celebre Livraria
alguns Volumes escritos no Papyro do Egypto, outros em folhas de palmas
com pena de ferro, a que chamaõ estilo, e entre elles as obras de
Fr. Luiz de Granada traduzidas na lingua do Japaõ. A sua generosa, e
conhecida curiosidade o fez Senhor de hum thesouro de Moedas Romanas,
e Portuguesas, pois como se lè em algumas das suas obras, eraõ tantas
as que se lhe levavaõ, que parece que a terra se desentranhava para o
enriquecer. Conservou grande numero de vasos, e outras reliquias da
grandeza Romana, de que formou hum Museo digno de hum Principe; mas
por sua morte desapareceo de maneira, que delle naõ ha mais que huma
lastimosa tradiçaõ. Tendo renunciado em outro Sobrinho seu do mesmo
nome o Chantrado de Evora, depois de huma dilatada emfermidade de
Tericia, falleceo naquella Cidade em 16. de Dezembro de 1655. em idade
de setenta, e dous annos. Foy de boa estatura, muito corpulento, olhos
azues, naturalmente descorado, mas de agradavel presença. O seu Cadaver
foy levado com a mayor pompa que se pòde considerar, porque àlem das
Communidades Religiosas, da Cleresia, e Confrarias da Cidade, concorreo
toda a Nobreza, e Povo, porque de todos era igualmente bemquisto, e
respeitado. Deose lhe sepultura em hum dos angulos da Cemiterio da
Cartuxa, e sobre a Campa, em que estaõ abertas as Armas dos Severins, e
Farias, se lè esta inscripçaõ.
_Manoel Severim de Faria Chantre, e Conego da Sè de Evora, elegeo para
si esta Sepultura, assim por sua devoçaõ, como por estar nella o Corpo
do P. D. Basilio de Faria seu Tio, que falleceo sendo do Prior deste
Convento a 5. de Abril de 1625._
INDEX DOS PARAGRAFOS, QUE SE CONTEM neste Livro.
DISCURSO I.
_Dos meyos com que Portugal pòde crescer em grande numero de
gente, para augmento da Milicia, Agricultura, e Navegaçaõ. §. I.
pag. 1._
_Como a gente naturalmente se multiplica, e deste Reyno se vay
diminuindo do anno de 500. a esta parte, e as causas porque.
§. 2. p. 5._
_Do remedio para a falta da gente, da primeira causa, que saõ as
Conquistas. §. 2. pag. 10._
_Como se remediarà a segunda causa da falta da gente com a introducçaõ
de algumas artes mechanicas. §. 4. pag. 15._
_Do remedio da terceira causa da falta da gente, que saõ as novas
Colonias no Reyno. §. 5. pag. 20._
_De outro remedio para a falta da gente popular, que he o amparo dos
orfaõs. §. 6. pag. 25._
_Do remedio da primeira causa da extincçaõ da Nobreza pela uniaõ dos
Morgados. §. 7. pag. 28._
_Do remedio da segunda causa da falta da Nobreza, com a diminuiçaõ da
grandeza dos dotes. §. 8 pag. 30_.
DISCURSO II.
_Sobre a ordem da Milicia, que antigamente avia em Portugal, e das
forças militares que hoje tem, para se conservar, e ficar superior a
seus contrarios. §. 1. pag. 32._
_Do officio, que fazia ElRey no Exercito, e dos Ministros, que serviaõ
à pessoa Real na guerra, e da dignidade do Condestable. §. 2.
pag. 35._
_Do Marichal. §. 3. pag. 38._
_Do Alferes Mòr, e Capitaõ dos Genetes. §. 4. pag. 39._
_Dos Annadeis, e Coudeis Mòres. §. 5. pag. 41._
_Do Adail Mór, e Almocadeis, e Ceremonias com que eraõ creados.
§. 6. p. 42._
_Das gentes, de que constava o Exercito. §. 7. pag. 43._
_Das Leys Militares, que se guardavaõ no Exercito. §. 8. pag. 46._
_Da guerra de Castella. §. 9. pag. 48._
_Da Milicia da Ordenança. §. 10. pag. 54._
_Das armas. §. 11. pag. 56._
_Das Fronteiras do Reyno, e Alcaides Mòres das fortalezas. §. 12.
p. 59._
_Da Milicia maritima, e do officio de Almirante. §. 13. pag. 63._
_Do Capitaõ Mòr, e General das Galès. §. 14. pag. 65._
_Das Armadas ordinarias do Reyno, e da grande brevidade, com que em
Lisboa se aprestaraõ poderosos socorros para fóra da Barra. §. 15.
pag. 67._
_Do modo, com que se ordenou andassem armados os Navios do comercio do
Reyno. §. 16. p. 72._
_Da instituiçaõ das Ordens Militares, para defender o Reyno. §. 17.
p. 74._
DISCURSO III.
_Da Nobreza das Familias de Portugal, com a noticia, de sua
antiguidade, origem dos Appellidos, e razaõ dos Brazoens das Armas
de cada huma. §. 1. p. 81._
_Da origem dos Appellidos dos Nobres de Portugal. §. 2. p. 84._
_Das origens das armas que trazem os Fidalgos e Nobres de Portugal.
§.3. p. 86._
_Da origem dos Leoens, e Aguias, e outros Animaes, que se trazem nos
Escudos. §. 4. p. 87._
_Da origem das Faxas, Bandas, Barras, Esquaques, que se trazem nos
Escudos. §. 5. p. 89._
_Da origem das Cruzes floreteadas, Cruzes da Cruzada, e de S. Jorge,
que se trazem nos Escudos. §. 6. p. 90._
_Da origem das Aspas. §. 7. p. 93._
_Da origem das Vieiras. §. 8. p. 94._
_Da origem das meyas Luas. §. 9. p. 95._
_Da origem das Estrellas. §. 10. p. 96._
_Da origem das Arruellas. §. 11. p. 97._
_Da origem das flores de Lis. §. 12. ibidem._
_Dos Castellos. §. 13. p. 98._
_Cifras dos Appellidos. §. 14. p. 99._
_Descendencia. §. 15. p. 101._
_Armas tomadas por casos particulares. §. 16. p. 104._
_Origem dos Timbres. §. 17. p. 108._
_Dos Oficiaes, que os Reys de Portugal crearaõ para conservaçaõ das
insignias dos Nobres, e da Casa das armas de Cintra. §. 18. p. 109._
_Do modo com que saõ postos os nomes aos Officiaes da Armaria. §.19.
p. 117._
_Dos titulos, que antigamente se davaõ aos Grandes do Reyno, e
particularmente dos Ricos Homens. §. 20. p. 120._
_Dos Vassallos. §. 21. p. 122._
_Dos Infançoens. §. 22. p. 124._
_Da antiguidade dos Duques em Portugal, e do que a sua dignidade
pertence §. 23. p. 126._
_Dos Marqueses, que ha no Reyno, e das ceremonias com que eraõ creados
antigamente. §. 24. p. 136._
_Da origem dos Condes, e sua antiguidade, e preeminencia em Portugal.
§. 25. p. 133._
_Dos Viscondes, e Baroens. §. 26. p. 138._
_Do titulo de Senhor. §. 27. p. 140._
_Da dignidade da Cavalleria. §. 28. p. 141._
DISCURSO IV.
_Sobre as Moedas de Portugal. §. 1. p. 144._
_Moedas Romanas. §. 2. p. 145._
_Moedas Goticas. §. 3. p. 147._
_Leovigildo. §. 4. p. 148._
_Hermenegildo. §. 5. p. 149._
_Recaredo. §. 6. p. 151._
_Liuva §. 7. p. 152._
_Uviterico. §. 8. p. 153._
_Gundemaro. §. 9. p. 154._
_Sisebuto. §. 10. p. ibidem._
_Sventila. §. 11. p. 156._
_Sissenando. §. 12. p. 157._
_Tulgan. §. 13. p. ibidem._
_Chindasvindo. §. 14. p. 158._
_Recesvinto. §. 15. p. ibidem._
_Uvamba. §. 16. p. 80._
_Ervigio. §. 17. p. 161._
_Egica. §. 18. p. 162._
_Uvitiza. §. 19. p. 164._
_D. Rodrigo, §. 20. p. ibidem._
_Moedas Arabigas. §. 21. p. 165._
_Moedas dos Reys Portugueses. §. 22. p. 168._
_Dobras delRey D. Sancho. §. 23. p. 169._
_Moedas delRey D. Affonso IV. §. 24. p. 170._
_Moedas delRey D. Pedro. §. 25. p. ibidem._
_Dos Gentis, Barbudas, Graves, Pilartes, e Fortes delRey D. Fernando.
§. 26. p. 171._
_Moedas delRey D. Joaõ I. §. 27. p. 173._
_Moedas delRey. D. Duarte. §. 28. p. 174._
_Moedas delRey D. Affonso V. §. 29. p. 175. _
_Moedas delRey D. Joaõ II. §. 30. p. 177._
_Moedas delRey D. Manoel. §. 31. p. 178._
_Moedas delRey D. Joaõ III. §. 32. p. 182._
_Moedas delRey D. Sebastiaõ. § 33. p. 181._
_Moedas delRey D.Joaõ IV. §. 34. p. 182._
_Moedas delRey D. Affonso VI. §. 35. p. 183._
_Moedas DelRey D. Pedro II. §. 36. p. 184._
_Moedas DelRey D. Joaõ V. §. 37. p. 185._
_Das Livras. §. 38. p. 187._
_Das Livras de dez soldos. §. 36. p. 188._
_De outras Livras, que valiaõ dez Livrinhas sómente. §. 40. p. 189._
_Dos Soldos. §. 41. p. 190._
_Dos Dinheiros. §. 42. p. 191._
_Das Mealhas. §. 43. p. 194._
_De outras Moedas Estrangeiras, que corriaõ no Reyno. §. 41.
p. ibidem._
DISCURSO V.
_Sobre as Universidades de Hespanha. §. 1 p. 196._
_Principio das Sciencias na Lusitania. §. 2. p. 197._
_Catalogo das Universidades de Hespanha: Universidades de Portugal:
Universidade de Coimbra. §. 3. p. 200._
_Universidade de Evora. §. 4. p. 202._
_Universidade de Salamanca. §. 5. p. 203._
_Universidade de Toledo. §. 6. p. 204._
_Siguença. §. 7. p. 205._
_Alcalà de Henares. §. 8. ibidem._
_Osma. §. 9. p. 206._
_Avila. §. 10. p. ibidem._
_Valhadolid. §. 11. p. 207._
_Oropesa. §. 12. p. ibidem._
_Ossuna. §. 13. p. ibidem._
_Sevilha. §. 14. p. 208._
_Granada. §. 15. p. ibidem._
_Baeça. §. 16. ibidem_.
_Murcia. §. 17. p. 209._
_Compostella. §. 18. p. ibidem._
_Onhate. §. 19. p. 210._
_Oviedo. §. 20. p. ibidem._
_Huesca. §. 21. p. 211._
_Çaragoça. §. 22. ibidem._
_Lerida. §. 23. ibidem._
_Perpinhaõ. §. 24. p. 212._
_Barcelona. §. 25. ibidem._
_Tarragona. §. 26. ibidem._
_Girona. §. 27. p. 220._
_Valença. § 28. p. 215._
_Luchente. §. 29. ibidem._
_Origuela. §. 30. ibidem._
_Gandia. §. 31. p. 214._
_Hirache. §. 32. ibidem._
_Estella. §. 33. p. 215._
_Pamplona. §. 34. p. ibidem._
DISCURSO VI
_Sobre a propagação do Evangelho nas Provincias de Guinè. Das
condiçoens, com que os Summos Pontifices deraõ aos Reys de Portugal o
Senhorio de Guinè. §. 1. p. 216._
_Das causas porque em tantos annos se tem feito taõ pouco fruito na
conversaõ dos Povos de Guinè. §. 2. p. 227._
_De como se pòdem remediar todas essas tres cousas, avendo Seminarios
destas naçoens. §. 3. p. 222._
_Do proveito temporal, que resultarà à Coroa de Portugal de se fazerem
estes Seminarios. §. 4. p. 222._
_Como se poderaõ fazer os Seminarios com pouco custo. §. 5. p. 226._
DISCURSO VII.
_Sobre as causas dos muitos naufragios, que fazem as Nàos da Carreira
da India, pela grandeza dellas. p. 230_.
DISCURSO VIII.
_Sobre a Peregrinaçaõ. p. 237_.
ELOGIOS.
_Memorial de alguns Cardeaes Portugueses. p. 247._
_S. Damaso Summo Pontifice. §. 1. ibidem._
_O Cardeal D. Payo. §. 3. p. 249._
_O Cardeal D. Joaõ. §. 3. p. 250._
_Joaõ XX. dito XXI. Summo Pontifice. §. 4. p. 251._
_O Cardeal D. Martinho. §. 5. p. 252._
_O Cardeal D. Joaõ Affonso de Azambuja. §. 6. ibidem._
_O Cardeal D. Pedro da Fonseca. §. 7. p. 254._
_O Cardeal D. Antaõ Martins de Chaves. §. 8. p. 255._
_D. Luiz de Amaral. §. 9. p. 257._
_O Cardeal D. Gemes. §. 10. p. 258._
_O Cardeal D. George da Costa. §. 11. p. 259._
_O Cardeal D. Affonso. §. 12. p. 263._
_O Cardeal D. Miguel da Sylva. §. 13. p. 264._
_O Cardeal D. Henrique. §. 14. p. 266._
_O Cardeal D. Verissimo de Lencastro. §. 15. p. 267._
_O Cardeal D. Luiz de Sousa. §. 16. p. 269._
_O Cardeal Nuno da Cunha de Ataide. §. 17. p. 273._
_O Cardeal D. Jozè Pereira de Lacerda. §. 18. p. 275._
_O Cardeal D. Joaõ da Mota, e Silva. §. 19. p. 277._
_O Cardeal D. Thomàs de Almeida. §. 20. p. 278._
_Panegyrico a ElRey D. Joaõ III. por Joaõ de Barros. p. 287._
_Elogio a ElRey D. Joaõ III. por Antonio de Castilho. p. 381._
_Panegyrico à Infanta Dona Maria. p. 395._
_Elogio do Doutor Fr. Bernardo de Brito. p. 430._
_Elogio de Evora. p. 441._
ERRATA.
_Pag._ _Regra_ _Erratas_ _Emendas._
4. 21. da Sedas das Sedas
4. 30. cousrs cousas
22. 23. Chancea Charneca
56. §. II. XI.
63. §. XI. XIII.
74. §. VII. XVII.
101. 9. Denarcius Denarius
196. 2. do prismeiro do primeiro
197. 3. que o mesmo luso que he o mesmo que luso.
210. §. IXX. XIX.
213. §. XXXX. XXX.
231. alijada alojada.
239. se pos a pag. 139. em lugar de 239.
245. 1. carere carcere.
257. 32. a despeito a respeito
307. 30. estas cheas estaõ cheas
319. 3. por sobre Epiphanes por sobrenome Epiphanes
347. 34. lembarse lembrarse
348. 10. muita muito.
377. 31. desengavava desenganava
386. 37. departir repartir
405. 22. hostorias historias
411. 19. Nanoles Napoles
DISCURSO I.
_Dos meyos com que Portugal pode crescer em grande numero de gente,
para augmento da Milicia, Agricultura, e Navegaçaõ._
§. I.
Querendo Salamaõ encarecer, quanto importava ao Rey, e ao Reyno haver
muita gente nelle, diz no cap. 4 das suas Parabolas: _In multitudine
populi dignitas, & in paucitate plebis ignominia Principis_. Que he
o mesmo que dizer: A grandeza dos Reys està na multidaõ do povo, e
dos poucos Vassallos nasce a falta da reputaçaõ do Principe. A razaõ
he, porque a multidaõ dos subditos defende o senhorio proprio, e pòde
conquistar o alheyo. A multidaõ da gente cultiva o terreno, de maneira,
que naõ sómente basta para os naturaes, mas pòde prover os estranhos.
Da muita gente se colhe a riqueza do Principe pelos direitos, que se
pagaõ dos frutos da terra, obras de mãos, e mercancias. Acontece isto
naturalmente; porque como cada hum procura a sustentaçaõ de sua propria
vida por preceito natural, tanto que chega a idade conveniente, de força
a ha de buscar pelos meyos, com que melhor, e com mais commodidade
a possa alcançar. Estes commummente se reduzem a quatro, que saõ
Agricultura, para a sustentaçaõ necessaria às Artes mechanicas, para
a vida politica, e à Mercancia, para levar os frutos proprios às
Provincias alheyas, e trazer das alheyas, os que nos faltaõ, e à
Milicia, para defensaõ da patria. Pela qual razaõ fica claro, que onde
houver muita gente, haverà muita Agricultura, muitas Artes, e muita
Mercancia, e muitos Soldados; que saõ as quatro cousas, em que se
funda, e consiste a riqueza, o poder, e a felicidade de hum Reyno.
Tratando primeiramente da lavoura, e Agricultura, he de notar, que para
por esta via se tirarem della muitas riquezas, he necessario haver
muita gente. Grande exemplo temos disto em nossa Espanha no Reyno de
Granada; porque no tempo que os Arabes estavaõ Senhores deste Reyno,
por ser entaõ habitado de muitos Mouros, que lançados de todas as mais
partes de Espanha, se foraõ recolhendo nelle, todos os montes se viaõ
cubertos de vinhas, e arvores fructiferas, os valles, e campinas de
sementeiras, e hortas, de maneira que naõ se podia ver no mundo terra
mais abastada, e abundante de todas as cousas.[1] E era tanto isto
assim, que sómente as folhas das amoreiras da Veiga de Granada rendiaõ
a ElRey mais de 30U. cruzados, e as rendas das sedas, que se creavaõ
no Reyno, rendiaõ mais de 42. contos,[2] e punha o Rey de Granada mais
homens de cavallo em campo, que os outros Reynos de Espanha; com serem
os mais delles muito mayores, que o de Granada;[3] o qual agora pela
falta, que tem de gente, està taõ dessemelhante daquelle tempo, como
se naõ fora o mesmo torraõ da terra, e por esta causa vieraõ as rendas
delRey naquelle Reyno a tanta quebra, que naõ chegaõ hoje a ametade do
que dantes valiaõ.
Na China por ser infinita a gente, he tanto o mantimento, que dà a
terra, e tanta a industria com que a cultivaõ seus naturaes, que sendo
elles tantos, que por não caberem nas povoaçoens, habitaõ em barcos
nos rios, e enseadas; comtudo naõ padecem falta delles, antes os levaõ
della continuamente de mercadoria para outras partes.
Nem contra isto se pòde dizer, que ainda, que haja muita gente
naõ haverà cultivaçaõ da terra, se ella for de si infructifera, e
esteril; porque confórme aos naturaes, e o que se nota nas leys das
partidas,[4] nenhuma terra he infructifera; antes he cousa certa, que
se alguma terra naõ for boa para dar trigo, serà para produsir cevada,
centeyo, ou milho; e quando naõ, serà conveniente para vinhas, pastos
de gado, mel, e cera; e a que naõ poder produzir árvores de fruto, darà
arvores silvestres, ou pinheiros para madeira, como temos por exemplo
nas terras, que estaõ da outra banda do Tejo defronte de Lisboa, onde
vemos huma area solta dar excellentes vinhas, e produsir infinidade de
pinheiros, e lenha, sem a qual se naõ poderia sustentar o grande povo
de Lisboa.[5] O Author das Chiliadas diz, que as campinas de Brabante
saõ de area esteril, mas os naturaes com sua multidaõ, e industria as
fazem abundar de trigo, mostrando a experiencia contra o proverbio, que
naõ he trabalho baldado lançar semente na area: _In Brabantia_, diz
elle, _fiunt agricolæ tam industrij, qui sitientissimas arenas cogunt
& triticum ferre_. Bem se vè logo, que onde houver muita gente haverà
todos os frutos, e proveitos, que da terra se pòdem tirar, e que a
falta da gente he a causa da caristia delles.
Quanto às artes, e industria, com que grande parte do povo se mantèm;
estas naõ as pòde haver, nem pòdem florecer onde naõ houver muita
gente; porque huns ensinaõ os outros, e inventando cada hum novas
cousas, fica aos outros mais facil aperfeiçoarem a arte, confórme ao
que se diz: _Facilius est inventis addere_. E assim vemos, que depois,
que os Estados de Flandes cresceraõ em multidaõ de gente, floreceraõ
entre elles mais artes, e industria, que entre todas as mais naçoens
de Europa. Porque nesta Provincia se tecem as ricas, e maravilhosas
tapeçarias, de que se usa em todo o mundo; que por esta causa se
chamaraõ pannos de Arràs, tomando o nome da principal Cidade, em que
se principiaraõ; nella se fazem as mais, e as melhores impressões de
livros; della vem as pinturas, as olandas, os cofres, e caixas, os
espelhos, e milhares de miudezas, e brincos, que em nenhuma outra parte
do mundo se fazem, se naõ nesta: donde vem a ser huma das mais ricas
Provincias de Europa; sendo assim, que naõ tem minas de ouro, nem prata.
Em Alemanha, por haver muita gente, florece tanto a mechanica, que
a ella se attribue a invenção da impressaõ, polvora, e artilheria,
as maravilhosas fabricas dos relogios, e dos mais dos instrumentos
Mathematicos; de entre elles sahio a artificiosa invençaõ do papel, de
que hoje usamos, das quaes cousas todos os antigos naõ tiveraõ noticia.
Isto nasce da multidaõ da gente de Alemanha, que por ser muita, cada
hum busca por sua industria, e arte seu melhoramento, e de maneira tem
em honra esta occupaçaõ, que desde o Emperador, atè o ultimo homem da
Republica se professa algum officio mechanico, e se preza muito de
fazer obras de mayor preço. Esta foy a causa porque antigamente em
Grecia chegaraõ a tanta perfeiçaõ as artes da pintura, e escultura,
porque segundo Plinio[6] toda a nobreza se occupava nellas: o que durou
tanto tempo naquella regiaõ, que ainda se refere do Emperador Theodosio
II. que as illuminaçoens, que fazia, vendia por grande preço, e se
prezava muito disso.
O mesmo succede na China, a qual por ser a mais povoada Provincia do
Oriente, tem mais artificios, e obras mechanicas, que todas as outras;
porque della vem os leitos, escritorios, bofetes, e mesas douradas,
as camas bordadas de ouro, e seda, as perçolanas finas, as telilhas,
damascos, tafetàs, e outras mil invençoens da sedas em tão grande
quantidade, que todas as Provincias do mundo estaõ cheyas destas
mercadorias; e ainda confórme à opiniaõ de alguns modernos, elles
acharaõ primeiro, que os Alemaens, o papel, a impressaõ, a polvora, e
fundiçaõ da artilharia.
Da copia da Agricultura, e das Mechanicas nasce a mercancia; porque naõ
sendo os frutos da terra, e materiaes comuns a todas as Provincias,
procuraõ os mercadores levar os frutos, e obras, que nas patrias tem de
sobejo a outras partes, onde as taes cousas faltaõ; e trazerem dellas
as que se naõ daõ nas suas terras; o que naõ pòde ser, se não havendo
abundancia de gente, que se possa occupar nestes tratos, e viagens,
como vemos em Alemanha, Flandes, Inglaterra, Italia, e na China,[7]
que com a multidaõ de seus baixeis mercantis correm o mundo todo, e o
enchem de suas mercadorias.
Porèm para nenhuma cousa he mais necessaria a multidaõ de gente,
que para a Milicia; porque como os soldados saõ ordinariamente a
gente superflua na Republica, naõ havendo destes muitos, naõ pòde
haver exercitos grandes, com os quaes sómente se fundaraõ as quatro
Monarquias. Dos Assirios, e Persas lemos, que os exercitos eraõ taõ
grandes, que lhes naõ bastavão para beber as agoas dos rios. Os
successores de Alexandre, que podemos dizer foraõ os possuidores da
Monarquia Grega, tambem se valeraõ de exercitos grossissimos, e a
Republica Romana adquirio o senhorio do mundo, não menos com o grande
numero das suas Legioens, que com sua prudencia, e valor. A ruina do
Imperio de Roma foy mais causada das innumeraveis gentes, que do Norte
sahiraõ, que não de sua destreza militar: o mesmo experimentamos no
senhorio dos Arabes, que com sua multidaõ subjugarão o Imperio Grego, o
Egypto, e Africa, e tiveraõ muito tempo tiranizada a Espanha. Pelo que
sem grande numero de gente, não se pòde adquirir, ou conservar, grande
Senhorio.
§. II.
_Como a gente naturalmente se multiplica, e deste Reyno se vay
diminuindo do anno de 500. a esta parte, e as causas porque._
Se quizermos considerar o que ordinariamente lemos nas historias
antigas, não poderemos deixar de confessar, que do tempo do diluvio,
ate o presente, sempre a geraçaõ humana foy em grande crescimento, e
que de cada vez vay em mayor augmento, e multiplicaçaõ. Porque deixadas
as historias muito antigas, e da Sagrada Escritura, onde vemos, que de
oito pessoas, que escaparaõ do diluvio, se encheo o mundo de gente,
e de 70. que da familia de Jacob entrarão em Egypto, sahirão depois
600000. soldados de peleja, a fóra as mulheres, e meninos: quem ler, e
vir as taboas da Geographia de Ptolomeu, e depois os Mapas, que traz
Abraham Ortelio no seu Theatro do mundo, verà claramente como em cada
Provincia erão sem comparação muito menos as Villas, e Cidades no tempo
de Ptolomeu, que as que sabemos estão hoje edificadas, e habitadas. Nem
contra isto se pòde dizer, que naquelle tempo se não sabia tanto das
Provincias, como hoje se sabe; porque isso seria da India, e de outras
terras incognitas, de que Ptolomeu não podia ter perfeita noticia;
mas o que trazemos por exemplo, saõ as Provincias da nossa Europa,
como Italia, França e Espanha; nas quaes hà agora em cada huma muitas
mais povoaçoens do que dantes havia. Bozio contra Machiavelo lib. 3.
cap. I. nomea só no Reyno de Napoles muitos milhares de povos mais,
que os que tinha toda Italia antigamente segundo Estrabo, Ptolomeu, e
Plinio, o qual chega a contar atè os Casaes, e Bozio não conta lugar
de menos de 300. visinhos. Flandes, que hoje contèm em si 17. Estados
nobilissimos, nos quaes se contaõ 208. Cidades, e mais de 6300. Villas,
sem contar as Aldeas, Castellos, e Fortalezas, que saõ em grandissimo
numero, sabemos, que no anno de 878, o Papa Joaõ VIII.[8] no Synodo de
Troyes concedeo hum só Bispo a Flandes, por ser terra até aquelle tempo
cheya de bosques, e pouco povoada, e que então se começava a cultivar,
e habitar. E as Ilhas de Holanda, e Zelanda, que saõ as mais povoadas
destes Estados, quasi neste mesmo tempo estavão ainda cobertas do mar
Oceano, do qual se foraõ descobrindo pouco, e pouco, e agora estaõ
todas cheyas de fortissimas, e riquissimas Cidades. Colligese tambem
esta mesma verdade dos livros das Cidades de Joaõ Braum, onde se vèm
quasi todas com duas cercas, e muralhas; as primeiras, e mais antigas
mais pequenas, e quasi interiores, e as modernas muito mais grandes, e
capazes, que por os povos crescerem em grande numero, e naõ caberem nos
primeiros muros, vem a ser necessarios outros mayores. E para que nos
não cansemos com exemplos estrangeiros, venhamos a este nosso Reyno;
o qual do tempo delRey D. Afonso Henriques, atè o em que estamos, naõ
cresceo menos, que qualquer das outras Provincias, que acima nomeamos.
O que se colige evidentemente das Villas, e Cidades fundadas pelos
Reys Portuguezes, assim neste Reyno, como fóra delle (alèm das muitas,
que particulares Senhores edificarão, e lhes derão seus Foraes) fundou
ElRey D. Afonso Henriques de novo as Villas de Almada, Villa-Franca,
Villa-Verde, Azambuja, e Lourinhãa. No tempo delRey D. Sancho se
povoaraõ por seu mandado as Villas de Penamacor, Sortelha, Valença do
Minho, Montemòr o Novo, Penella, Figueirò, Covilhaã, Folgosinho, e a
Cidade da Guarda. ElRey D. Afonso III. fez novas povoaçoens em muitas
partes do Reyno, que eraõ deshabitadas; entre as quaes edificou de
novo Estremòs, e reformou, e povoou de novo a Villa de Pinhel, Vinhaes,
Villa-Flor, Mirandella, Freixo de espada na cinta, Villa-Nova de
Cerveira, Villa-Real, Muja, Salvaterra, Atalaya, Aceteira, Montargil,
e outros muitos lugares; que por todos passaõ de 40. A todos seus
antecessores excedeo ElRey D. Diniz, porque podemos dizer, que povoou
meyo Reyno. E depois, que o Infante D. Henrique começou o descobrimento
da Costa de Africa, e Ilhas do mar Oceano, e se continuou atè chegar
à India, foy esta multiplicaçaõ de gente Portugueza em muito mayor
crescimento; porque se povoaraõ todas as Ilhas, Brasil, Costa de
Africa, e se fundaraõ de novo todas as Cidades, e Fortalezas, e mais
povoaçoens do Estado da India. Pelo que consta, que tem os Portuguezes
fundado da Barra para fóra hum numero immenso de povoaçoens, em que
entraõ muitas, e grandes Cidades.
Com tudo de prezente experimentamos neste Reyno falta de gente, assim
para a milicia, como para a navegaçaõ, e muito mais para a cultivaçaõ
da terra; pois por falta da gente Portugueza se servem os mais dos
lavradores de escravos de Guinè, e mulatos. Pelo que apontaremos as
causas, porque neste Reyno falta a gente do povo, e da nobreza, que
parece saõ as seguintes.
A primeira causa da falta da gente, que se padece neste Reyno, saõ as
nossas Conquistas; porque estas ainda que foraõ de grande utilidade,
assim para a propagaçaõ do Evangelho, como para o comercio do mundo,
toda via defraudaraõ muito este Reyno da gente, que lhe era necessaria.
E assim naõ sómente deste tempo por diante naõ cresceo a gente neste
Reyno, como era conveniente para as muitas povoaçoens, que jà nelle
havia, e para se poder defender, e offender aos inimigos, mas alèm
disto se foy despovoando com as muitas armadas cheyas de gente, que
cada anno partem de Portugal para estas Conquistas; e com as muitas
Colonias, que se tiraõ para estas povoaçoens. Pelo que ainda que a
gente naturalmente và em crescimento, como temos provado; com tudo
a nossa naçaõ Portugueza depois, que houve estas Conquistas, se foy
diminuindo, naõ por falta da multiplicaçaõ natural, se naõ por os
Portuguezes se irem de sua patria a povoar, e fundar tantas Cidades, e
lugares, como temos dito, em terras taõ remotas, e taõ largas.[9] Por
onde do tempo destes descobrimentos para cà naõ se fundaraõ de novo no
Reyno, nem Villas, nem lugares, como atè entaõ se tinhaõ fundado.[10] E
passando ElRey D. Joaõ I. à tomada de Ceita com mais de 20U. homens, e
ElRey D. Afonso V. às empresas de Africa com exercitos de 30U. homens,
no tempo delRey D. Sebastiaõ era jà taõ pouca a gente, que com levar
os mais dos soldados por força, naõ pòde ajuntar mais, que onze mil
Portuguezes. Donde claro se mostra naõ sómente, que hà falta de gente
em Portugal, mas que a primeira causa della saõ as Conquistas; pois do
tempo dellas a esta parte se foy sentindo esta diminuiçaõ. Daqui veyo o
ser necessario trazerem se Cafres, e Indios para o serviço ordinario. E
já em tempo delRey D. Joaõ III. passava isto em tanto crescimento, que
disse Garcia de Resende numa copla da sua Miscellanea.
_Vemos no Reyno metter
Tantos cativos crescer
E irem-se os naturaes.
Que se assim for, seraõ mais
Elles que nòs a meu ver._
A segunda, causa porque falta a gente deste Reyno, he por naõ terem
officios, com que ganhem de comer por sua industria, que he o meyo, que
Deos deo para a sustentaçaõ de cada hum; e como os homens naõ tem de
que se sustentem, naõ se querem casar, e muitos com esta occasiaõ se
fazem vàdios andando pedindo esmola pelas Cidades, e Villas, homens,
e mulheres em taõ grande numero, que parecem exercitos; e a desculpa,
que daõ para pedirem, he dizerem, que naõ achaõ em que trabalhar.
Outros se passaõ a Reynos estranhos, principalmente para os de Castella
pela facilidade da vizinhança, onde antes da Acclamaçaõ havia tantos
Portuguezes, que muitas pessoas affirmavaõ, que a quarta parte dos
moradores de Sevilha eraõ nascidos em Portugal, e que em muitas ruas
daquella Cidade se fallava a nossa lingua, e naõ a Castelhana. Quasi
o mesmo se podia dizer de Madrid; e por toda Castella a Velha, e
Estremadura he notorio, que os mais dos mechanicos eraõ naturaes deste
Reyno, os quaes por não terem cà em que trabalhar, hiaõ là ganhar sua
vida.
A terceira causa porque falta a gente popular, he por naõ terem neste
Reyno terras, que cultivem, e de que possaõ tirar sua sustentaçaõ,
porque a Provincia de entre Douro, e Minho, e as mais atè o Tejo estaõ
bastantemente povoadas, e não hà nellas lugar para se fundarem nòvos
pòvos, que possa cultivar a gente, que cresce. E Alentejo, que podèra
socorrer a esta falta (porque he quasi tão espaçoso, como o resto do
Reyno) como està todo dividido em herdades, e as mais dellas muito
grandes, nem se povôa, nem se cultiva. Porque sendo as herdades de
muitas folhas, ficão de ordinario as tres partes dellas por semear,
faltando por esta causa os muitos frutos, que se dellas poderaõ colher,
e a cõmodidade, que poderaõ dar a tantos homens, que não achaõ lugar,
onde poder fazer hum recolhimento em que se metaõ: e por isto se
embarca tanta gente para fóra da Barra, obrigando-os a necessidade a ir
buscar terras, em que vivaõ a outras partes do mundo; pois lhe faltaõ
em sua propria patria.
Estas trez saõ as causas da falta da gente popular deste Reyno; mas as
da falta da gente nobre se pòdem reduzir a duas. A primeira he a união
de muitos Morgados numa pessoa; porque quando se conserva hum Morgado
per si, cada possuidor casa, e propaga sua familia; mas juntando-se
muitos Morgados numa só pessoa, essa sómente casa, e as mais familias,
para que os outros Morgados foraõ instituidos, ficaõ extintas. Isto tem
acontecido em Portugal a grande numero de Morgados;[11] e he tão grande
este danno, que já os Reys lhe quizeraõ acodir, como se vè no 4. livro
das Ord. tit. 100. onde se diz, que com esta união dos Morgados se
ficaõ extinguindo as Casas, e Familias, e faltando a gente nobre para a
defensaõ, e conservaçaõ do Reyno. Pelo que esta he a principal razão da
falta da Nobreza.
A segunda he a grandeza, a que tem chegado os dotes das mulheres
nobres; pois vay em tanto excesso, que poucos saõ os Fidalgos, que
pòdem casar huma filha, e quasi nenhum duas, como se disse no capitulo
das Cortes do Estado da Nobreza a ElRey Nosso Senhor[12] pedindo-lhe
remedio para este danno, por ser gravissimo, e que extinguia
grandemente a Nobreza de Portugal.
§. III.
_Do remedio para a falta da gente da primeira, causa, que saõ as
Conquistas._
As Conquistas, que este Reyno intentou fóra da Barra, humas não
passarão do Cabo de Boa Esperança, como as Ilhas Terceiras, Madeira,
e Cabo-Verde, Costas de Guinè, e Provincias do Brasil; outras foraõ
alèm do Cabo, e pertencentes ao Estado da India. Das Colonias, que
não passarão o Cabo, padecemos menos prejuizo; porque como estão mais
perto, e nellas não intentamos guerras com Principes confinantes, não
nos occuparão tanta gente; e os que a ellas forão, tornarão a vir
com mais facilidade ao mesmo Reyno. E assim destas Colonias louva
muito João Botero aos Portuguezes, dizendo, que elles sós entre todos
os povos de Europa se souberão aproveitar das Colonias; e levando a
gente, que no Reyno não tinha com que viver, povoarão a Madeira, e o
Cabo-Verde, a Ilha de S. Thomè, e o Brasil, membros importantes de seus
Estados, donde agora tiraõ grossos retornos de gente, mantimentos, e
riquezas: _I Portoghesi_ (diz elle) _soli trà tuti i popoli di Europa,
si son saputi valer di questa arte, per che con la gente piu povera,
e bisognosa, che fosse in quel Regno hano popolato la Madera, il Capo
Verde, la Isola di S. Thomaso, il Brasile, membri importanti de gli
Stati loro. Onde hora cavano ajuti grossi, & di gente, & di vetovaglie,
& di thesori_.
Das nossas Colonias das Ilhas Terceiras, e Madeira foy socorrido este
Reyno por vezes com gente, e com cavallos, e com muito trigo. De Angola
se tem tirado innumeravel gente, que serve naõ sómente nos engenhos
do Brasil, mas ainda neste Reyno, assim na cultivaçaõ do campo, como
no serviço ordinario. Da povoaçaõ do Brasil resultou a mercancia do
assucar em tanta abundancia, que delle provemos quasi toda Europa.
Donde se vè, que estas Colonias naõ nos saõ de tanto prejuizo, porque
nos levaõ menos gente.