Acredite, sentado aos quentes lares
Nas noutes hynvernosas de Janeiro,
Lendo em Carlos Magno o sapateiro
As proezas crueis dos doze Pares:
Cream que vem as bruxas pelos ares
A chupar as creanças no trazeiro;
Comam quanto lhes diz o gazeteiro,
De casos, de successos singulares:
Porém que uma beata amortalhada,
Com a cara vermelha e corpo molle,
E sancta, por um frade apregoada;
Que respire, que os braços desenrole,
E seja por defuncta acreditada,
Isto sómente em Evora se engole!
* * * * *
Voltando ao soneto de Bocage, digamos aqui alguma cousa com referencia
ás distinctas personagens n'elle commemoradas.
_Heróe de bola chata, etc._ — Era D. José da Costa, marechal de campo,
e governador d'Evora, que por morte de seu irmão mais velho veiu a ser
conde de Soure, e tenente general. Foi elle o primeiro que com sua
filha bastarda D. Maria José tiveram a honra de ser abençoados pela
sancta beata, e de lhe beijarem os pés, tocando seus lenços nas chagas,
que ahi se offereciam á veneração dos fieis, feitas prodigiosamente por
meio do nitrato de prata!
_Falso pastor etc._ — O Arcebispo D. Joaquim Xavier Botelho de Lima, do
qual acima falámos.
_O respeitavel Cunha etc._ — Antonio da Cunha Souto-maior, sargento mór
do regimento de cavallaria d'Evora, que não obstante ser tido por homem
instruido e desabusado, foi o segundo que teve a alta ventura de beijar
o pé á sancta!