Todos os sonetos comprehendidos nas paginas e sob os numeros indicados,
foram por nós trasladados ha quasi trinta annos de um quaderno, que
continha promiscuamente obras de Bocage, e de Pedro José Constancio,
mas sem a devida separação; tornando-se por isso difficultoso, se não
impossivel, discriminar com certeza entre ellas as que pertencem a
um ou outro dos dous poetas; muito mais quando os estylos de ambos
offerecem ás vezes tal similhança, que deixa indeciso o juizo mais
experimentado.
Por conseguinte pareceu preferivel a idéa de os reproduzir aqui na sua
totalidade; o leitor poderá fazer a respeito de cada um as observações
que a sua critica lhe suggerir, e estremal-os-ha como for do seu agrado.
Pedro José Constancio, a quem indubitavelmente pertencem alguns
dos sonetos a que nos referimos, foi bacharel formado em canones
pela universidade de Coimbra, filho de Manuel Constancio, cirurgião
da camara da Rainha D. Maria I, e conseguintemente irmão do nosso
conhecido escriptor Francisco Solano Constancio. Falleceu antes
de 1820, e conviveu no seu tempo com a maior parte dos poetas
contemporaneos, particularmente com Bocage, e José Agostinho. Homem de
vida extravagante, e desregrada soffria por vezes ataques de alienação
mental, chegando a apresentar-se nú em pleno dia ás janellas da casa
onde morava, no deserto da rua larga de S. Roque! Compoz grande numero
de poesias, quasi todas licenciosas, e entre estas um poema allusivo
á _fornicação dos cães dentro nas egrejas_, que sendo denunciado ao
Intendente Geral da Policia por Pedro Alexandre Cavroé, deu logar á
reclusão do poeta por alguns dias na cadêa do Limoeiro; e poderia
ter peores consequencias, se não interviessem os rogos e empenhos de
alguns amigos, que se interessaram por elle para com o Intendente.
Enfermidades geradas pelos excessos venereos a que se dava, sem escolha
nem reserva, o levaram a um estado valetudinario, attenuando-lhe as
faculdades, e tornando-o incapaz de toda a applicação. Victima de seus
desregramentos falleceu antes de completar quarenta annos de edade.
Entre as poucas composições suas, que se imprimiram, ha um soneto,
que por engano foi inserido como de Bocage pelo editor do 4.° tomo
das Obras poeticas d'este poeta, que sahiu á luz em 1812; posto que,
mais bem aconselhado, o mesmo editor o expungisse depois na segunda
edição do referido volume feita em 1829. Crêmos que os leitores não
desgostarão de aqui o verem, pois que n'outra parte se não encontra.