HISTORIA MARAVILHOSA DA INTITULADA BEATA D'EVORA.

Junto á porta de Alconchel, na cidade d'Evora, vivia em companhia

de seus paes uma beata, moça de vinte e dous annos, e de muito bons

bigodes, chamada Anna de Jesus Maria. Esta serva do senhor fora por

algum tempo confessada de fr. João de Santa Euphrasia, da ordem dos

Carmelitas descalsos, e morador no convento dos Remedios da mesma

cidade; porém morrendo este, tomou-a debaixo da sua direcção espiritual

um fr. Felix, que passados tempos teve de ausentar-se da cidade, e

antes da sua partida traspassou a beata a outro masmarro da sua ordem.

Este ultimo, satisfeito em extremo de tão bella acquisição, dava a Deus

continuos louvores por tel-o ali enviado, a fim (segundo elle dizia) de

dirigir e encaminhar para a bemaventurança aquella alma predestinada,

cujas singulares virtudes apregoava por toda a parte á bocca cheia.

Depois de terem ambos abusado por algum tempo da credulidade e

fanatismo, não só do vulgo ignorante, mas até de individuos de mais

elevada esphera, que por suas circunstancias deveriam julgar-se fora do

alcance de tão ridiculas suggestões, entenderam o frade e a confessada

que podiam levar a audacia mais longe, e concertaram entre si uma

farça, de que esperavam colher um resultado maravilhoso. Começaram

pois a assoalhar entre os seus conhecimentos que por divina revelação

fora annunciado á beata que no dia de S. Miguel, 29 de Septembro de

1792, pelas nove horas e meia da noute havia de infallivelmente morrer;

querendo Deus chamal-a a si no proprio instante em que completava

os seus vinte e dous annos. A noticia d'esta especie de prophecia

espalhou-se velozmente por toda a cidade; isso era o mesmo que os

interessados desejavam; e grande numero de pessoas, preoccupadas pela

opinião de virtude da sanctinha, aguardavam anciosamente o cumprimento

da promessa divina. Chegado que foi o dia, em que devia realisar-se

o vatecinio, o Arcebispo D. Joaquim Xavier Botelho de Lima, que era,

ou fingia ser um dos que mais acreditavam nos embustes da beata, e

do seu director, quiz authenticar o milagre, em modo que não ficasse

logar para as duvidas dos incredulos. Mandou por tanto sahir da casa da

sancta o padre confessor, e o prior do convento, seu fiel companheiro;

e ordenou a quatro clerigos da sé que alternadamente assistissem dous e

dous á beata, dia e noute, até chegar a hora prophetisada, para serem

testemunhas do seu miraculoso transito.

Cumpriram os clerigos a determinação do prelado; e tudo correu na

melhor ordem. Porém vendo que o praso promettido era passado, e que a

sanctinha se conservava de perfeita saude, sem que apresentasse o mais

leve indicio de uma morte proxima, entenderam que deviam retirar-se;

despediram-se d'ella, e abalaram para suas casas. Ainda bem não

tinham cruzado a porta, e já o pae da menina corria apoz elles, a

annunciar-lhes que n'aquelle mesmo instante dera a alma ao creador! —

Voltaram attonitos os bons clerigos, pezarosos sem duvida de não terem

presenciado o prodigio; acharam-na com effeito já amortalhada no habito

de Sancta Theresa; e para ser mais cabal o milagre, tinha as mãos e pés

estigmatisados, com chagas similhantes ás do nosso divino redemptor!

— Quem ousaria ainda duvidar da verdade, depois de tão claramente

manifestada? Os clerigos promptamente se persuadiram, e correram logo a

levar ao Arcebispo a noticia do successo.

Entretanto appareceu o padre confessor, declarando aos circumstantes,

que já começavam a affluir, ter sido elle o que mesmo do convento

impozera preceito á sancta para que morresse, logo que os clerigos

sahissem; por quanto sem permissão d'elle o não podia fazer.

Apresentou-se em seguida a communidade de cruz alçada, e começou a

altercar com o parocho de S. Antonio ácerca de quem levaria aquelle

bemdicto corpo para a sua egreja. O povo amotinado corria em chusma

para a casa da beata; todos pretendiam ver com os proprios olhos

tão estupenda maravilha… Eis que o frade começa a prégar com grande

ancia, preconisando a defuncta pela maior de todas as sanctas

nascidas em Portugal; narrou um milhão de suas virtudes, e milagres;

affirmou a todos que Deus estava n'ella; disse-lhes que a adorassem;

e finalmente, para mais enthusiasmar os pios ouvintes, volta-se para

a bisbilhoteira, que jazia amortalhada, e diz-lhe: «Anna! Em virtude

da _sancta obediencia_ abre os olhos!» (E ella os abriu, tamanhos

como duas cebollas). «Anna! Cruza os braços!» (E a defuncta, que os

tinha estendidos, os cruzou effectivamente). «Anna! Abençôa os que

aqui estamos!» (E ella assim o fez). — Mandou-lhe que declarasse onde

estava: ella respondeu que já tinha ido ao céo, e que lá encontrara

fr. João de Sancta Euphrasia, que estava dizendo missa, o qual lhe

dera a chuchar metade do calix! — Finalmente satisfazia com presteza

a tudo quanto o frade lhe ordenava. Os espectadores enternecidos á

vista de tantos prodigios, e lavados em lagrimas, começaram humildes a

beijar-lhe os pés, tocando lenços, contas, e veronicas nas suas chagas.

Repicaram-se os sinos por todos os campanarios da cidade; começaram de

affluir em tropel os coxos, cegos, e paralyticos, que vinham com muitas

lagrimas implorar o remedio para seus males: mas infelizmente para

elles, sahiam como entravam.

Crescia de ponto a devota multidão, e com ella a desordem, até que as

auctoridades tractaram de providenciar, mandando vir tropa, que poz

fora a todos, com promessa de voltarem, ficando a final sós na casa

o pae, e a mãe com a supposta defuncta. O official que commandava a

tropa, tendo-se retirado para baixo, chegou porém passado algum tempo

casualmenle á porta: e como ouvisse rumor de vozes no quarto onde

jazia a sancta amortalhada com tochas accezas, empurra a porta de

repente, e acha-a sentada muito á vontade, conversando sem cerimonia

com o pae e a mãe! — Ella mal que o viu, estendeu-se novamente, e

deixou-se morrer outra vez, querendo sustentar a impostura; e os paes

com toda a presença d'espirito contaram ao official que sua filha lhes

estava declarando o logar em que no convento dos Remedios queria ser

sepultada. Aquelle, que já desconfiava de tanta maranha, deu logo parte

do facto ao Arcebispo. Vieram medicos, e acharam-na mais viva que o

azougue!

Descoberta a impostura, o povo amotinou-se novamente; mas d'esta vez

com o intento de dar cabo da beata, a quem não podiam perdoar a illusão

em que haviam cahido. A final foi mandada presa para o recolhimento

de Sancta Martha. O reverendo padre confessor fugiu, e todos os seus

confrades foram suspensos das ordens, e degradados para um convento do

Algarve. Tudo porém ficou impune; porque passado algum tempo a beata

sahiu do recolhimento, e casou com um soldado, e os frades regressaram

para o seu convento, não se falando mais em tal.

Se a devota pantomima tivesse ido para diante, é provavel que mudariam

a moça para alguma cella, e que d'esta sahissem para a roda netos de

Sancta Theresa: como o corpo havia necessariamente de desapparecer do

logar do deposito, os frades fariam crer á pobre gente que ella subira

ao céo em corpo e alma. Que novo ramo de commercio tão lucrativo para a

communidade, e tão proveitoso para as beatas bonitas! E quantas d'estas

se terão engolido no mundo!

Além do soneto de Bocage, que deixamos transcripto no texto, a que

apresente nota serve de illustração, outros mais appareceram ao

mesmo assumpto. Os seguintes, que não deixam de ter seu merecimento,

attribuem-se a Miguel Tiberio Pedegache:

I

De c'rôa virginal a frente ornada,

Em lugubres mortalhas envolvida,

A beata fatal jaz estendida,

De assistentes contrictos rodeada:

Um se tem por já salvo em ter chegada

Ao lindo pé a bocca commovida;

Outro protesta reformar a vida;

Porém ella respira, e está corada!

Que é sancta, e que morreu, com juramentos

Affirma audaz o façanhudo frade,

E que prodigios são seus movimentos:

O devoto auditorio se persuade:

Renovam-se os protestos, e os lamentos;

Triste religião! Pobre cidade!

Poesias Eroticas, Burlescas, e Satyricas de M.M. de Barbosa du Bocage não comprehendidas na edição que das obras d'este poeta se publicou em Lisboa, no anno de MDCCCLIII. · 第 199 / 208 题