ANTI-PAVOROSA — PARODIA CHRISTAN.

I

Fatal meditação da Eternidade,

Dos vivos illusão, vida dos mortos;

Ou gloria para sempre, ou sempre inferno;

De desordens, de crimes oppressora,

Não forjada por despotas, por bonzos,

Mas sim por divinal credulidade;

Dogma infallivel, que o prazer arreigas

Quando a sizania c'o remorso arrancas;

Dogma infallivel, favoravel crença,

Digno premio de peitos innocentes,

Das delicias gosando, que mal fingem

Impavidos á furia Centimanos,

Que vomitando estão perpetua chamma;

Superiores motejam seu engano

No limiar das Parcas, eis o quadro

Que observa em vivas côres a ignorancia,

Egualmente a sciencia em vivas côres;

Inda que eu por sciente só conheço

A quem teme os castigos no ameaço,

A quem teme tornar um páe tyranno,

A quem lamenta inuteis suas preces,

Por mais que em giro ao throno elle as espalhe.

Teme o sabio que um Deus irado o fira,

E penitente vae, supplíca a venia

Ao dispenseiro seu, nobre, e sagrado.

Que ora as graças lhe abre, ora as ferrolha;

As graças, que co'as leis da natureza

Se ligam sempre, eternas, necessarias,

E só quando a vontade as torna em crimes

Cruel desunião n'ellas fomenta;

Por vêl-a rebellada lhe fulmina

Prisões suaves no jejum, cilicio,

Que n'um geral conselho só lhe arbitra;

Humilde, pode resarcir-se a benção;

Suberba, porque quer desenfadar-se

No jugo, que remata nas delicias,

Recáe n'outro maior, que a morte vende.

Poesias Eroticas, Burlescas, e Satyricas de M.M. de Barbosa du Bocage não comprehendidas na edição que das obras d'este poeta se publicou em Lisboa, no anno de MDCCCLIII. · 第 165 / 208 题