PAG. 35 — EPISTOLA A MARILIA.

Todas as pessoas lidas na historia de Bocage sabem que esta epistola,

e o soneto que damos a pag. 111 do presente volume, lhe serviram

principalmente de corpo de delicto, quando, perseguido por ordem da

Intendencia geral da policia, foi a final preso em 10 de agosto de

1797; sendo então transportado de bordo da embarcação onde se refugiara

para os segredos da cadêa do Limoeiro, e d'ahi passados alguns

mezes removido para os carceres da Inquisição. (Veja-se o «Estudo

Biographico» que vem no tomo I. das Poesias de Bocage, edição de 1853,

a pag. XL e seguintes.)

Antonio Maria do Couto nas «Memorias» que escreveu ácerca da vida do

poeta, affirma em tom decisivo — _que a Epistola a Marilia fora feita

por occasião de ser seu mestre um frade (graciano) que a requestava_:

assim será; mas parece-nos, lendo esta composição, que o poeta exigia

da sua bella mais alguma cousa do que pol-a de aviso contra as

seducções do frade.

Quando começaram a divulgar-se algumas copias d'esta epistola, varios

engenhos devotos e de animo timorato, escandalisados justamente da

erronea philosophia do auctor, e muito mais do modo impio e libertino

com que elle dogmatisara, estabelecendo e propalando principios tão

anti-religiosos, e anti-sociaes, entenderam que era do seu dever

opporem-se a taes doctrinas: para que o antidoto seguisse de perto o

veneno, julgaram por melhor servir-se das mesmas armas, empregando

egualmente a linguagem das musas, e ligando á força dos raciocinios as

graças da metrificação. Das «Refutações» que n'este sentido appareceram

conservâmos duas em nosso poder; e como as suppomos desconhecidas para

o commum dos leitores, ahi lh'as apresentamos, desejando que n'ellas

encontrem um correctivo seguro contra as falsas e seductoras maximas da

epistola bocagiana.

A primeira é obra de Manuel Thomás Pinheiro de Aragão, admirador e

amigo de Bocage, falecido ha poucos annos, e que por muitos exerceu em

Lisboa com bons creditos o magisterio na instrucção da mocidade. Quanto

á segunda não podémos, apesar de toda a diligencia, conhecer até agora

o nome do seu auctor.

Poesias Eroticas, Burlescas, e Satyricas de M.M. de Barbosa du Bocage não comprehendidas na edição que das obras d'este poeta se publicou em Lisboa, no anno de MDCCCLIII. · 第 164 / 208 题