II

E inda dizem que Deus é vingativo,

Se com razão sacode o raio ardente?…

Antes te louvarei, por que não déste

O justo premio a muitos, que arrojando

Contra si tremendissima sentença

Julgam pela grandeza propria o crime,

E não querem fazer seu peito escravo

No castigo, que affirmam ser-lhes duro!

Será eterna a pena n'esses peitos,

Que d'um Deus se não movem ao interesse,

E o desaggravo indomito attribuem

Menos ao Sempiterno, do que a todos

Temendo perdurar como a mesma alma,

Verdades proferidas nos altares,

Onde ha satisfação, e não cruezas:

Vemos ali ministro venerando,

Longe de renovar suppostos odios,

Defendendo nos crimes a innocencia,

Primeiro recusando alto dominio,

C'o peso superior por tempo incita:

Eil-o na honra altissima abrasado,

Com sangue apaga inundações de fogo;

Testemunhas do zelo a voz, e a espuma;

Mandado por um Deus, tão bom como elle,

Pede ao Senhor não multiplique exemplos

Com que já se consterna a phantasia!

Victima impura de outra vez no povo,

Livremente seu povo entrega á morte:

Defuncto o servo, que esfriava os raios,

Punia sem limite o Omnipotente;

Inda lembra ao Sinai tremer-lhe a terra,

Quando Adonai lhe intima seus decretos.

Ah! Moysés, que não podes ser astuto,

Contra a publica voz, que assim troveja!

O teu povo confessa os seus furores,

Quando entregue de um Deus á justa raiva

Sua clemencia, succumbia á tua:

Na inteireza, que tens, creio; confio

Que a tocha da verdade te precede,

Para mais deslumbrar aos que te offendem:

Que se o ferro fatal já não se ensopa

No resto d'estas animadas cinzas,

Da lei da graça os divinaes incensos

Por disfarçar a pena tornam surdos

Á voz interna os que não crêem no inferno:

Tremenda lei, se a pena lhe retardas!

Mas se lh'a appressa executor propheta

Lhe acalma as iras, porque vae, diffunde

O pavoroso medo nos sequazes

Do idolatra e espantoso fanatismo.

Convocam-se os levitas, os quaes matam

Aos cumplices de tal atrocidade:

Comprimida gemeu a Natureza;

Por um Deus os consortes, páes, e filhos

Com seu sangue as espadas, vestes tingem:

Recobra o páe quem faz o parricidio,

E aos campos, que de victimas se alastram

Chovem mil novas graças como em rios.

Acalmada a justiça a teus clamores,

Por honra do teu Deus, servo sedento,

Co'um só estrago evitas mil estragos,

Ferrando a todos do leão as garras.

E tu, impio, as blasphemias que derramas

Escusa, lendo a historia dos tyrannos.

Os de Israel não foram que este exemplo

Tomaram por fazer pesado o jugo;

Por uma vil paixão, cruel, não manches

Os direitos de um Ser eterno, augusto.

De um Deus real Moysés real valido

Deu cultos á verdade, corte ao genio,

E codigo de leis mais necessario

Deu a todos, que a bem de si o imitam,

Prova fiel de que um Deus senhor existe.

Poesias Eroticas, Burlescas, e Satyricas de M.M. de Barbosa du Bocage não comprehendidas na edição que das obras d'este poeta se publicou em Lisboa, no anno de MDCCCLIII. · 第 166 / 208 题