FRAGMENTO DE ALCEU, POETA GREGO:

TRADUZIDO DA IMITAÇÃO FRANCEZA DE Mr. PARNY.

I

Imaginas, meu bem, suppões, oh Lilia,

Que os beneficos céos, os céos piedosos

Exigem nossos ais, nossos suspiros

Em vez de adorações, em vez d'incensos?

Credula, branda amiga é falso, é falso:

Longe a cega illusão. Se ambos sumidos

Em solitario bosque, e misturando

Doces requebros c'os murmurios doces

Dos transparentes, garrulos arroios,

Sempre me ouvisses, sempre me dissesses

Que és minha, que sou teu; que mal, que offensa

Nosso innocente ardor faria aos Numes?

Se acaso reclinando-te comigo

Sobre viçoso thalamo de flores,

Turvasse nos teus olhos carinhosos

Suave languidez a luz suave;

Se os doces labios teus entre meus labios

Fervendo, grata Lilia, me espargissem

Vivissimo calor nas fibras todas;

Se pelo excesso de ineffaveis gostos

Morressemos, meu bem, d'uma só morte;

E se Amor outra vez nos désse a vida

Para expirar de novo: em que peccára,

Em que afrontára aos céos prazer tão puro?

A voz do coração não tece enganos,

Não é réo quem te segue, oh Natureza:

Esse Jove, esse deus, que os homens pintam

Suberbo, vingador, cruel, terrivel;

Em perpetuas delicias engolphado,

Submerso em perennal tranquillidade

Com as acções humanas não se emb'raça:

Fictos seus olhos no universo todo,

Em todos os mortaes, n'um só não param:

As vozes da razão profiro, oh Lilia!

É lei o amor, necessidade o gosto:

Viver na insipidez é erro, é crime,

Quando amigo prazer se nos franquêa.

Poesias Eroticas, Burlescas, e Satyricas de M.M. de Barbosa du Bocage não comprehendidas na edição que das obras d'este poeta se publicou em Lisboa, no anno de MDCCCLIII. · 第 66 / 208 题