IV

Crê pois, meu doce bem, meu doce encanto,

Que te anceam phantasticos terrores,

Prégados pelo ardil, pelo interesse.

Só de infestos mortaes na voz, na astucia

A bem da tyrannia está o inferno.

Esse, que pintam barathro de angustias,

Seria o galardão, seria o premio

Das suas vexações, dos seus embustes,

E não pena de amor, se inferno houvesse.

Escuta o coração, Marilia bella,

Escuta o coração, que te não mente:

Mil vezes te dirá: «Se a rigorosa

Carrancuda oppressão de um pae severo,

Te não deixa chegar ao charo amante

Pelo perpetuo nó, que chamam sacro,

Que o bonzo enganador teceu na idéa

Para tambem no amor dar leis ao mundo;

Se obter não podes a união solemne,

Que hallucina os mortaes, porque te esquivas

Da natural prisão, do terno laço

Que com lagrimas, e ais te estou pedindo?

Reclama o teu poder, os teus direitos

Da justiça despotica extorquidos:

Não chega aos corações o jus paterno,

Se a chamma da ternura os affoguêa:

De amor ha precisão, ha liberdade;

Eia pois, do temor saccode o jugo,

Acanhada donzella; e do teu pejo

Déstra illudindo as vigilantes guardas,

Pelas sombras da noute, a amor propicias,

Demanda os braços do ancioso Elmano,

Ao risonho prazer franquêa os lares.

Consista o laço na união das almas;

Do ditoso hymenêo as venerandas

Caladas trevas testemunhas sejam;

Seja ministro o Amor, e a terra templo

Pois que o templo do Eterno é toda a terra.

Entrega-te depois aos teus transportes,

Os oppressos desejos desafoga.

Mata o pejo importuno; incita, incita

O que, só de prazer merece o nome.

Verás como, envolvendo-se as vontades,

Gostos eguaes se dão, e se recebem:

Do jubilo hade a força amortecer-te,

Do jubilo hade a força aviventar-te.

Sentirás suspirar, morrer o amante,

Com os seus confundir os teus suspiros,

Has de morrer, e reviver com elle.

De tão alta ventura, ah! não te prives,

Ah! não prives, insana, a quem te adora.»

Eis o que has de escutar, oh doce amada,

Se á voz do coração não fores surda.

De tuas perfeições enfeitiçado

Ás preces, que te envia, eu uno as minhas.

Ah! Faze-me ditoso, e sê ditosa.

Amar é um dever, além de um gosto,

Uma necessidade, não um crime,

Qual a impostura horrisona apregôa.

Céos não existem, não existe inferno,

O premio da virtude é a virtude,

É castigo do vicio o proprio vicio.

Poesias Eroticas, Burlescas, e Satyricas de M.M. de Barbosa du Bocage não comprehendidas na edição que das obras d'este poeta se publicou em Lisboa, no anno de MDCCCLIII. · 第 65 / 208 题