II

Eia! Deixemos á vaidade insana

Correndo-se da rapida existencia

Sem susto para si crear segunda:

Deixemos-lhe entranhar por vans chimeras,

Pela immortalidade os olhos ledos;

E do seu phrenesi, meu bem, zombemos.

Esse abysmo sem fundo, ou mar sem praia

Onde a morte nos lança, e nos arroja,

Guarda perpetuamente tudo, oh Lilia,

Tudo quanto lhe cae no bojo immenso.

Em quanto dura a vida ah! sejam, sejam

Nossos os prazeres, os Elysios nossos.

Os outros não são mais que um sonho alegre,

Uma invenção dos reis, ou dos tyrannos,

Para curvar ao jugo os brutos povos:

E o que a superstição nomêa averno,

E á multidão fanatica horrorisa;

As furias, os dragões, e as chammas fazem

Mais medo aos vivos, do que mal aos mortos.

Poesias Eroticas, Burlescas, e Satyricas de M.M. de Barbosa du Bocage não comprehendidas na edição que das obras d'este poeta se publicou em Lisboa, no anno de MDCCCLIII. · 第 67 / 208 题