D. Victoria não percebeu nada d'este rapido dialogo; por isso exclamou:

--Mas que estão vossês ahi a dizer? De quem falam? Eu se vos entendo!

Quanto a mim, foram os criados, e d'isto é que ninguem me tira.

Abriu-se n'este momento a porta da sala e appareceu Augusto. Era a hora

das lições dos pequenos.

Comquanto, desde o termo das férias, Augusto viesse todos os dias ao

Mosteiro, era aquella a primeira vez que se encontrava com Magdalena e

com Henrique, depois da scena que entre elles se passára na noite de

Natal.

A morgadinha fitou por momentos n'elle os olhos; pareceu-lhe mais

pallido e triste do que de costume. Desviou-os, porém, como se até

sentisse remorsos de ter escutado as allusões de Henrique sobre o

caracter de um homem que ella se costumára a respeitar. Porque o leitor,

cuja intelligencia é, sem lhe fazer favor, mais perspicaz do que a de D.

Victoria, percebeu de certo que era a Augusto que se referiam os vagos

termos trocados entre Henrique e Magdalena.

--Muito bons dias, sr. Augusto,--disse D. Victoria affavelmente--então

são horas de me vir aturar a pequenada? Não lhe invejo a vida. Sabe? De

manhã até á noite a aturar creanças! Deus me livre!

--Agora já não succede assim, minha senhora. Estou dispensado de parte

das minhas obrigações--disse Augusto, depois de cortejar as senhoras e

Henrique.

--Como?

--Pois v. ex.^a não sabe que já foi nomeado outro professor para o meu

logar?

--Que me diz?

Em todas as pessoas presentes produziu sensação esta noticia.

D. Victoria e a morgadinha fixaram em Augusto um olhar interrogador. O

gesto de Henrique tinha uma expressão particular.

--Recebi ha dias a participação official--continuou placidamente

Augusto.

--Mas--proseguiu D. Victoria--o mano tinha aqui dito que o seu despacho

estava seguro, que, além de ser de toda a justiça, elle o tomaria a seu

cuidado. E então agora... Olhem, sabem que mais? eu cada vez me entendo

menos com esta gente. Isto de politicos...

Magdalena inclinou a cabeça, suspirando.

--Bem vê v. ex.^a--disse Augusto, com leve tom de amargura--que ás vezes

ha grandes interesses sociaes dependentes do despacho de um modesto

professor de instrucção primaria da aldeia, e portanto não se deve

extranhar que um homem politico attendesse a elles antes de tudo.

Magdalena que, ao ouvir estas palavras, levantára os olhos, encontrou os

de Henrique, que parecia procurarem os d'ella com intenção.

A morgadinha desviou os seus com impaciencia e desgôsto, que se lhe

manifestou na contracção da fronte.

--V. ex.^a dá-me licença que principie os meus trabalhos?--disse

Augusto.

--Ai, quando quizer--respondeu D. Victoria.--Os pequenos estão na sala

verde.

Augusto saiu.

D. Victoria entrou no panegyrico do mestre de seus filhos, e não se

fartou de exaltar-lhe os talentos e as virtudes, apregoando o muito que

aproveitavam os pequenos sob tão intelligente direcção.

--Olhe que o Eduardito já escreve e já lê manuscripto como um

homem--dizia ella.--Quer vêr? O sr. Augusto deixou aqui ficar a pasta;

ha de ter alguma escripta do pequeno. Ora tambem vou vêr.

E D. Victoria, cedendo aos impulsos do seu enthusiasmo de mãe, foi

buscar a pasta de Augusto e pôz-se a procurar n'ella a escripta do

filho.

--Não vejo ...--disse ella, remexendo os papeis.--Isto que é?... Ai,

isto é uma escripta de Marianna... Ora veja.

Henrique fingiu examinar com attenção a escripta.

--Aqui estão os themas francezes d'elle. Quer vêr? Eu d'isso não

entendo, mas hão de estar bons.

E passava tambem os themas para Henrique, que os examinava com a mesma

attenção.

--Ora onde estará a escripta de Eduardo? Eu sempre queria que a visse.

Isto... isto é... Ha de ser alguma carta, que elle anda a ler. Ora veja,

primo; olhe que a lettra ainda não é das mais faceis... Eu por mim não a

leio... Quer vêr?

Henrique recebeu, com a maior condescendencia, o novo documento que lhe

ministrava D. Victoria, no sympathico intento de provar a habilidade dos

filhos.

Voltou distrahidamente a primeira folha da carta e pôz-se a lêl-a no

fim; cêdo, porém, começou a examinal-a com grande curiosidade; leu uma e

outras das faces escriptas, e, ao acabar a leitura, estava-lhe nos

labios um sorriso entre de ironia e de triumpho.

Offerecendo á morgadinha a carta que lêra, disse-lhe, com um modo que a

impressionou:

--Veja se comprehende a significação d'esta carta, que estava na pasta

do sr. Augusto, do amigo de seu irmão. A mim parece-me que as creanças

não a comprehenderiam bem.

Magdalena olhou para Henrique e depois para a carta, que principiou a

ler.

Succedeu-lhe como a Henrique; cêdo a dominava uma anciosa curiosidade,

que a obrigou a ler com rapidez até o fim.

Ao acabar, amorfanhou-a com raiva, arrojando-a ao chão; escondeu o rosto

entre as mãos e não pôde reter o pranto que lhe rebentava dos olhos.

A Morgadinha dos Cannaviaes (Chronica da aldeia) · 第 48 / 66 题