Dias depois das scenas descriptas no anterior capitulo, estava a
morgadinha occupada a escrever n'uma das salas do Mosteiro, quando ouviu
atraz de si correr o reposteiro da entrada.
Julgando que era algum criado, nem se voltou e proseguiu na escripta.
--Retiro-me, se sou importuno--disse a pessoa que entrára, e que ficára
no limiar da porta.
Magdalena voltou-se então e reconheceu Henrique de Souzellas.
--Ah! é o primo Henrique? Pode entrar.
--Eu sei? Ha correspondencias tão delicadas, que demandam a applicação
de todas as nossas faculdades, e a presença de um importuno...
--Mas não se dá agora esse caso; nem quanto á delicadeza da
correspondencia, nem quanto á importunidade do visitante.
--Então utiliso-me da concessão.
--Occupava-me a escrever áquelle pobre Cancella, para o tranquillisar em
relação á filha. Pobre homem! Ainda se lhe não pôde obter fiança, apesar
de meu pae tratar d'isso, a pedido meu. Ha quem trabalhe contra elle. E
como ha de ter padecido na cadeia na incerteza em que está? Quem ha de
dizer que n'aquelle corpo, robusto e forte, se aloja uma alma de tão
delicados sentimentos? Inda lhe hei de mostrar a carta que elle escreve
a pedir-me que trouxesse para o Mosteiro a filha, e a tirasse de casa da
madrinha, que com o seu fanatismo a perdeu... É um modelo para seguir.
--E como vae a pequena?
--Mal. Estou aqui a mentir, fazendo conceber áquelle pobre homem
esperanças, que eu mesma não tenho.
--Que disse o cirurgião?
--Nada animador.
--Como capitulou a molestia?
--Não sei quê de cerebro; nem eu quiz saber. Nunca pude comprehender a
necessidade que tem certa gente de conhecer a natureza da doença que
lhes ameaça roubar uma pessoa querida. Perdel-a ou salval-a, é a questão
que me interessa. Tudo o mais me é indifferente. N'uma pessoa doente
vejo um espirito que hesita entre deixar-me e permanecer. Aos medicos
peço que removam, se podem, aquillo que o faz partir, mas não quero
saber o que é. Julgo natural ao sentimento o considerar assim a molestia
e a morte.
--Á maneira da arte, ainda que hoje o diagnostico entrou na litteratura,
prima. Mas a proposito do Herodes; deixe-me dizer-lhe que está sendo
muito commentada na aldeia a violencia d'elle contra o missionario. É
voz constante que fizera aquillo por influencia nossa, e as honras
d'aquella bem empregada sóva são-nos tambem concedidas inteiras. Imagine
o clamor que por ahi vae!
--Deixe clamar--respondeu Magdalena, encolhendo os hombros.
--Deixo, deixo. Eu sou odiado como um Lucifer, feito homem; seguem-me,
quando eu passo, uns olhos rancorosos, e adivinho que na ausencia não
sou muito bem tratado.
--É bom acautelar-se. Não os irrite. Viu que não era prudente.
--Não receie. Esta gente a final é cobarde.
--Tanto peor. O inimigo cobarde é mais para temer. Bem sabe. Foi uma
desastrada ideia aquella da nossa ida ao sermão do missionario.
--Parece-lhe? Eu não estou arrependido. Bastava-me, como recompensa, o
ter presenciado o accesso de furor rabico do homem.
--Vamos, primo Henrique; confessemos que a situação não foi das mais
agradaveis.
--Sinto-a, principalmente por o incómmodo que tiveram as senhoras e
talvez por esse episodio dar vigor á opposição, que alguem por ahi se
interessa em organisar contra o sr. conselheiro.
--Ah! pois trata-se d'isso?
--Se se trata?! E muito sériamente. A portaria a respeito do cemiterio,
a historia do sermão, e agora o episodio do Cancella, teem feito um
grande mal.
--Oh! se meu pae perdia!...
--Não entendo essa exclamação, prima Magdalena. Ia jurar que era a
expressão de um desejo.
--E por que não? Se isso fôsse motivo para meu pae abandonar de uma vez
para sempre a politica, pedil-o-hia a Deus.
--Conhece pouco ainda o coração humano, prima. Seu pae está votado á
politica para toda a vida. Desengane-se. E se o prendesse n'esta aldeia,
aqui mesmo faria a mais deploravel, impertinente e inutil de todas as
politicas, a politica local.
A morgadinha suspirou, como se reconhecesse a verdade que Henrique
dizia.
Henrique proseguiu:
--Está organisado um club opposicionista na taberna de um tal Canada. O
brazileiro capitaneia a phalange, os padres são os tribunos e a
propaganda estende-se assustadoramente. É preciso olhar por isto e
sobretudo não perder de vista o sr. Joãozinho das Perdizes, cujo voto
seu pae tinha em grande conta, porque representa o de uma freguezia
inteira. É de suppor que o requestem muito e... o homem é fragil. Já vê,
prima, que eu tomo muito a sério os preceitos hygienicos, que me deu o
meu medico, quando parti de Lisboa, e que a prima approvou. Estou a
interessar-me pelas questões locaes, como se aqui estivesse, ha annos.
--E é um bom indicio de cura, pode crer.
--E ainda tem empenho de me curar?
--Empenho, todo; esperança é que menos.
--Ó meu Deus! que sinceridade de medico tão cruel! Seja; escutarei a
sentença com coragem. Diga-me o que pensa de mim. Ha muito que não
falamos n'isto. A ultima vez que o fizemos, um tanto categoricamente,
foi n'uma occasião bem critica. Julgo que o meu procedimento de então
até hoje lhe terá feito conceber do meu caracter um não muito
desfavoravel conceito. Bem vê que não abusei...
--De quê?--perguntou Magdalena, contrahindo a fronte, n'um gesto de
altivez.--É certo que tem em todo esse tempo dado provas de discreção,
no que se mostrou mais contricto que generoso. Pelo menos é assim que eu
interpretei o seu silencio, e approvo-o em vez de agradecel-o.
--Seja contricção, visto que assim o quer. Mas não lhe merecerá ella
alguma misericordia para com o peccádor?
--Escute. Sinto sincera misericordia de si, pode acredital-o. Ella só me
obriga a perdoar-lhe algumas impertinencias, nem sempre demasiado
delicadas, com que me mortifica.
--Está sendo tão amavel!...
--Perdôe, mas a sinceridade tem d'estas exigencias.
--Curvo-me perante as exigencias da sinceridade. Continue, prima
Magdalena.
--Vae mais longe ainda a minha misericordia, porque apesar da rebeldia
do mal, inda não desisti de cural-o.
--Inda bem. E como? Ser-me-ha licito penetrar no segredo do tratamento?
--Ha já agora uma unica maneira de o salvar.
--E é?...
--Apaixonal-o.
--Ah! n'esse caso estou salvo!--exclamou Henrique, n'um impeto, que não
pôde passar sem um sorriso da morgadinha.
--Ouça. É preciso andar com tento na escolha do objecto d'essa paixão,
sob pena de aggravar o mal em vez de minoral-o.
--E como hei de escolher?
-De modo que lisonjeie a opinião que o primo tem de si proprio.
--A opinião que eu tenho de mim! Se pudésse ser mais clara...
--De boa vontade. O primo Henrique tem uma forte necessidade de
persuadir-se de que representa no mundo um grande papel, uma missão
heroica e generosa, quasi providencial. Exigencias de uma vaidade de boa
indole, que se lhe não pode levar a mal. Repugna-lhe a ideia da
inutilidade, da insignificancia da sua existencia. Não se resigna ao
papel de comparsa, ambiciona o de protector. Se o acaso, ou uma
inconsideração de momento, o associasse, por toda a vida, a um caracter
igualmente forte, que, em constante opposicão, pretendesse provar-lhe
que prescindia da sua protecção, grandes desgostos e amarguras o
esperavam no futuro. Uma indole branda, docil, fraca, um d'estes seres
nervosamente delicados, que tremem ao verem-se sós, cheios de poeticas
superstições, que tenha a dissipar; que se lhe apoie ao braço, como se
n'elle encontrasse a coragem que não sente em si, e que, ao mesmo tempo,
domine pela fraqueza e pela doçura, domine sem consciencia do imperio
que exerce e sem vaidade, portanto; um caracter d'estes é que deve
procurar para salvar-se; só d'elle pode esperar a realisação da vaga
ideia de felicidade, que todos concebem na vida.
--E se essa theoria engenhosa fôsse verdadeira, parece-lhe que poderia
encontrar á mão o tal anjo salvador, que precisa do meu braço para se
apoiar?
--Julgo que pode, e que já o teria encontrado, se pensasse sériamente
nas necessidades do seu coração.
Henrique ia a responder, quando entrou na sala um criado com as cartas
do correio.
--Trégoas á nossa conferencia, emquanto eu leio a carta de meu
pae--disse Magdalena, examinando a carta recebida.
--Concedidas, e eu aproveito-as para correr a vista pelos periodicos que
chegaram.
E emquanto Magdalena lia a carta, Henrique passava pelos olhos as folhas
de Lisboa.
Não tinham decorrido muitos instantes, quando a morgadinha interrompeu a
leitura, exclamando:
--Ó meu Deus! mas de que se trata? Que quer dizer isto?
Ao ouvir estas palavras, Henrique desviou para ella os olhos.
Viu-a agitada e lendo com vivacidade e commoção a carta do conselheiro.
--Ha alguma má nova?--perguntou Henrique, ferido por aquella expressão.
Antes, porém, de responder-lhe, a morgadinha seguiu com ardor a leitura
até o fim.
Henrique continuava a observal-a e cada vez mais evidentes descobria
n'ella os signaes de uma funda agitação. Ao findar a leitura, passou a
mão pela fronte como para desviar uma ideia amarga.
--Por amor de Deus, prima Magdalena, que diz essa carta, para assim a
perturbar?--perguntou Henrique, já assustado tambem.
--Não sei bem; não posso ainda dizer a que se refere meu pae; mas
sinto-me interiormente sobresaltada, como se o adivinhasse.
--Mas a final o que se diz ahi?
--Leia, e veja se, melhor do que eu, pode comprehender esse enigma, por
certo doloroso.
Henrique examinou a carta, que a morgadinha lhe passou para as mãos.
N'esta carta queixava-se o conselheiro á filha de ter sido victima de um
abuso de confiança commettido por alguem, que elle ainda não sabia dizer
quem fôsse. N'um periodico de Lisboa fôra publicada por aquelles dias
uma carta dirigida tempos antes ao conselheiro por não menor personagem
politica do que o secretario intimo do ministro.
O proprio conselheiro confessava ser esta carta demasiado
compromettedora, e assim tambem o demonstrava a excepcional irritação
que transparecia em todos os periodos, da que escrevêra á filha. O
periodico que, para fins politicos, fizera a publicação, havia occultado
os nomes, porém muitas circumstancias referidas tornavam inutil a
discreção; e em Lisboa ninguem hesitou em aprontar as personagens entre
quem se passara o facto. Durante uma das suas demoras na aldeia,
recebêra o conselheiro essa carta; alli, no seio da familia, a confiança
que depositava em quantos o rodeavam impediu-o de ser previdente, como
por hábito o era; facil foi portanto o extravio. O conselheiro dizia á
filha que era preciso descobrir o traidor, para evitar futuros abusos; e
por isso, que se lembrasse de que o alcance da carta não era para todos
comprehendel-o, e portanto não se limitasse a indagar entre os da baixa
classe. «A vingança, concluia o conselheiro, de uma maneira mysteriosa,
como de quem deseja e receia, ao mesmo tempo, fazer uma allusão--a
vingança, bem ou mal fundada, obriga ás vezes os mais nobres caracteres
a uma acção baixa e vil; entre os que por mim se possam julgar
offendidos, é natural encontrar o criminoso.»
--Esclareça-me este mysterio! disse Magdalena, consternada.--De que se
trata aqui?
--Alguma correspondencia politica extraviada. Seu pae diz bem; é
necessario descobrir o traidor por cautela. Além de que, para todos os
que, como eu, teem entrada n'esta casa, é isto um mysterio em que a
nossa honra está empenhada, porque v. ex.^{as} teem direito a alimentar
suspeitas.
-Por amor de Deus!--acudiu, interrompendo-o, a morgadinha.--Não
pronuncie essa palavra! Suspeitas! Esse envenenamento moral, que eu até
aqui não conheci, quer meu pae que voluntariamente o contraia.
--Seja envenenamento, muito embora, mas é um envenenamento salvador,
prima, como o da vaccina; é um preservativo de traição.
--Viver para desconfiar! procurar nas palavras que se ouvem um sentido
occulto! nos gestos uma expressão denunciadora! nos affectos uma
intenção egoista! Oh! isto é horrivel! Mas... que carta é essa, meu
Deus? Que correspondencia pode ter meu pae, que não deva vêr a luz do
dia? Meu pae!... Ha por fôrça illusão n'isto! Meu pae não tem crimes;
meu pae não tem acções que o envergonhem; meu pae pode franquear a todos
as portas da sua casa sem receiar-se de indiscreções. Pois não é assim?
--Por certo, prima; mas... na politica ha actos que... sem serem
criminosos...
--A politica! Sim, é isso! Eu devia prevêr que essa palavra viria para
explicar este mysterio! Por politica é-se cruel, por politica
sacrifica-se um amigo, por politica força-se a consciencia, e depois...
ella justifica tudo. Que obras são as obras politicas que precisam da
sombra e do mysterio para se fazerem? Pois para dirigir ou salvar uma
nação, pois para se tratar dos interesses de um povo, é sempre
necessario o disfarce, a dissimulação, o mysterio?
--Quando se não pode contar com a boa fé dos outros, perde sempre quem
fôr escrupulosamente fiel á sua.
--Mais valeria então abandonar por uma vez essa carreira cruel... Oh!
ainda agora reparo... Tem ahi as folhas de Lisboa... deixe-m'as vêr...
quero saber que carta é esta.
Henrique procurou dissuadil-a. Um numero avulso de um periodico, que não
costumava vir ao Mosteiro, havia-lhe já feito suspeitar que era esse o
que publicava a carta em questão. Não fazendo do conselheiro tão subido
e ideal conceito como a morgadinha, achava muito natural que
effectivamente o comprometesse a carta alludida. Conhecendo bastante
Magdalena, sabia quanto seria cruel para o seu extremoso coração de
filha, e para o seu caracter apaixonado por tudo quanto era idealmente
nobre, generoso e justo, o descobrir no pae uma d'essas máculas
frequentes na vida dos homens politicos, por minima e desvanecida que
fôsse. Por isso quiz evitar-lhe a leitura. Não o conseguiu, porém.
Magdalena, com aquella firmeza de resolução que energicamente se lhe
revelava na voz e no gesto, disse, estendendo a mão para receber os
periodicos:
--Deixe-me vêr, primo Henrique. Não é possivel que de meu pae se diga
ahi alguma coisa que não devam ler os olhos de uma filha.
E quasi arrebatou das mãos de Henrique a folha, justamente aquella de
que elle mais receiava.
E, abrindo-a, examinou-a com anciedade quasi febril.
Henrique observava com curiosidade os movimentos e a physionomia de
Magdalena.
Viu-a tornar-se de repente mais attenta á leitura; os olhos, que até
alli vagueavam por diversas secções do periodico, fixaram-se n'um ponto;
contrahiu-se-lhe a fronte; um ligeiro tremor correu-lhe os labios; córou
e empallideceu alternadamente; e no fim, afastando de si a folha com um
movimento nervoso e apaixonado, exclamou, sob o dominio de uma commoção
profunda:
--Ó meu Deus! E não ter um coração, como o d'elle, a fôrça precisa para
fugir d'estes enredos! Isto é de enlouquecer!...
Henrique pegou na folha, que ella arrojou de si com impeto, e
examinou-a.
Tinha conjecturado bem.
O caso devia consternar Magdalena, para quem o conselheiro era um homem
tão perfeito na vida politica e na vida social, como na vida de familia.
Para Henrique, em quem havia muito se inoculára o scepticismo da época,
impedindo-o de divinisar os homens, por mais rodeados de prestigios que
lhe apparecessem, não tinha o facto de que se tratava grande
significação nem gravidade. O caso era o seguinte:
Tempos antes havia-se agitado nas camaras uma importante questão
politica; uma d'estas questões que servem para estremar os campos e
descriminar os programmas dos partidos. Vacillar n'ellas é já trahir os
principios fundamentaes de uma causa, e abjurar um credo politico
inteiro. O pae de Magdalena, militando no partido de mais avançadas
ideias liberaes, tinha de antemão traçado por elle o caminho a seguir
n'esta conjunctura, o circulo, fóra do qual não poderia combater sem
apostasia; mas, como já atraz dissemos, o conselheiro não era já o homem
que fôra nos primeiros tempos da sua carreira publica; perdera a fé nas
utopias e nos principios abstractos, e trocava-os de barato por qualquer
pequena vantagem positiva que pudésse obter, se não para si, para a
localidade de que era representante. A logica partidaria sacrificára-a,
sem remorsos, mais do que uma vez, ao que, em linguagem não sei se
parlamentar, se chama conveniencias politicas.
Déra-se mais um exemplo d'esta flexibilidade de principios no
conselheiro.
Comquanto membro da opposicão, e dos mais temidos pela sua eloquencia,
variados conhecimentos e vigor de discussão, não era elle de tão
espinhosa moral que não tivesse amigos no seio da maioria, sendo até o
proprio ministro um dos mais intimos. No tempo da discussão, de que
falamos, o ministro, que desejava afastar das camaras todos os
adversarios de importancia, não duvidou entrar em ajustes com o
conselheiro. Este, que já não era homem para repellir com indignação
taes factos, teve a astucia precisa para se aproveitar das
contingencias. Entenderam-se.
Chegada a época da discussão, o conselheiro, que sempre se mostrou
ardente adversario da medida ministerial, e de quem se esperava uma
opposicão vigorosa e efficaz, pretextou subitos negocios a chamal-o á
provincia, e partiu, promettendo voltar a tempo ainda de discutir a
questão.
Depois de chegar ao Mosteiro escreveu para os amigos, lamentando que
inesperados negocios de familia o retivessem alli mais tempo do que
contava, e alentando-os de longe á lucta. No entretanto, a questão foi
apresentada nas camaras: oradores tibios e mal escutados acharam-se sós
a combatel-a; apagadores officiaes e officiosos abafaram a tempo a
discussão; e, quando o conselheiro voltou a Lisboa, só pôde protestar
nos circulos politicos contra o resultado da votação e expender as
razões que deveriam fazer repellir a medida.
Em recompensa eram concedidos melhoramentos para o circulo que o elegia;
e entre elles a estrada que vimos principiar. Tal fôra o preço d'ella.
Tudo isto trazia agora á luz a carta desencaminhada, que era do
secretario do ministro, e que no seu conteúdo deixava vêr claramente as
condições do pacto.
Esta publicação causou profunda sensação em Lisboa. A importancia
politica do conselheiro soffreu com isso.
Atacavam-n'o os partidarios do governo, para declinarem d'este, quanto
possivel, a responsabilidade do facto; atacavam-n'o os opposicionistas
declarados, para com o mesmo golpe ferirem o ministerio.
Os influentes politicos teem sempre no proprio partido, a que pertencem,
invejosos que só almejam o primeiro pretexto para os derrubarem, embora
caia com elles o partido a que se filiam.
Aquella carta foi, durante algum tempo, uma arma poderosa nas mãos dos
taes; originou discussões e ataques violentos; e o conselheiro correu
risco de se malquistar por causa d'ella com gregos e troyanos.
Tudo isto se revelava ao espirito de Magdalena e tudo isto a
consternava. O seu muito amor filial fazia-lhe achar no facto uma
significação dolorosa e triste que só desillusões, como as de Henrique
de Souzellas, velhas desillusões de sceptico impenitente, poderiam
attenuar. O conselheiro expiava cruelmente o seu delicto.
A leviandade e doblez do homem politico pagava-a caro o homem de
familia.
É que a moral é uma. O homem não pode dividir-se; os peccados sociaes de
quem é virtuoso nos lares domesticos, pagam-se, expiam-se n'esses mesmos
lares. Os filhos que creou e educou segundo os preceitos da honra e da
virtude, serão mais tarde os seus proprios juizes, e que cruel
julgamento para o coração de um pae! É justo que a patria peça contas
dos crimes de familia e desconfie dos tribunos que não sabem ser paes,
filhos, irmãos e esposos; é justo que a familia exija que se seja fiel á
prática e ás crenças que se professam, e castigue, pelo menos com
lagrimas, como as de Magdalena, as culpas do homem que julgou poder ter
duas consciencias: uma para responder por os actos civicos, outra para
os actos domesticos.
Henrique procurou minorar o effeito que esta leitura tinha produzido no
animo da morgadinha por meio de algumas consolações, que uma indulgente
moral, muito do uso da sociedade, lhe inspirava.
Percebeu porém, que, embora as manifestações do sentimento tivessem
cessado já em Magdalena, não se lhe tinha ainda dissipado a profunda e
penosa impressão que lhe ficára da leitura.
Como para fazer cessar aquelle genero de consolações, a que Henrique se
julgava obrigado, e que a ella eram custosas de ouvir, Magdalena disse,
em tom já apparentemente sereno:
--Bem; visto que é necessario precavermo-nos, vejamos de quem e quaes as
cautelas que temos a adoptar. Meu pae parece suspeitar de alguem, mas
não se pronuncia claramente.
N'isto entrou na sala D. Victoria, carregada de roupa como para uma
viagem aos pólos, e queixando-se do frio, cuja intensidade attribuia em
grande parte aos criados, por se terem descuidado de accender logo de
manhã os fogões da casa.
Quando D. Victoria foi informada do conteúdo da carta do seu cunhado,
levantou um alarido desolador. Por sua vontade ordenava logo alli um
interrogatorio e uma devassa geral a todos os criados da casa, aos
quaes, segundo o costume, attribuia a culpa toda. Magdalena e Henrique
tiveram muito que fazer para a convencerem da inutilidade e
inconveniencia d'esse alvitre e para lhe mostrarem a necessidade de usar
de toda a prudencia e dissimulação n'esta pesquisa.
--Aqui entre nós--dizia Henrique--vejamos em quem se pode, com
plausibilidade, fazer recahir as suspeitas. O sr. conselheiro diz bem;
um criado boçal pode roubar uma joia, subtrahir qualquer objecto de
valor intrinseco; porém os ladrões de cartas como estas, são de outra
especie e de intelligencia mais apurada. Ora entre a gente que frequenta
o Mosteiro...
E parando subitamente, Henrique disse para D. Victoria, que olhava para
elle com um gesto espantado:
--Porém, minha senhora, eu mesmo não me devo excluir da lista dos
indiciados, e n'esse caso deixo v. ex.^{as} livres para me instaurarem
processo.
--Ora essa, primo Henrique!--exclamou D. Victoria.--Era o que faltava!
Nada, nada; não se cance; não tem que vêr. Aquillo foram os criados.
Magdalena estava tão abatida de animo, que nem deu attenção a este
episodio.
Henrique proseguiu:
--Nada de magnanimidades, minha senhora; quem quer ser juiz a ninguem
deve excluir da possibilidade de ser réo. O sr. conselheiro, porém,
alguns indicios nos aponta. Fala, por exemplo, vagamente, de alguem que
n'estes ultimos tempos se pudesse considerar offendido por elle, e que
por vingança... Ora actos capazes de trazer estas animadversões a seu
pae, prima Magdalena, só a questão do cemiterio, mas essa não importa a
ninguem que tenha entrada aqui... Ha tambem as das expropriações,
porém...
Henrique parou, como se lhe tivesse acudido uma ideia, que examinava,
antes de enuncial-a.
--Tive agora um pensamento diabolico; nem quero attendel-o.
--Diga, primo, diga--acudiu logo D. Victoria.
--A expropriação da casa do herbanario... O muito amor que o velho tinha
áquella vivenda... A repugnancia com que viu cortar aquellas arvores
velhas...
--Então julga que foi o Vicente?--perguntou D. Victoria.--Mas elle não
vem ao Mosteiro ha muitos annos, primo.
--Não digo que fôsse elle, minha senhora--disse Henrique, cujo embaraço
augmentava, sentindo que a morgadinha o fitava com um olhar penetrante,
como se lhe estivesse lendo o pensamento.
--Então?--insistia D. Victoria.
--Mas--proseguiu Henrique--o velho exerce certa fascinação na gente da
terra; um verdadeiro prestigio; e certas intimidades entre elle e... e
alguem que tem aqui entrada a todo o momento... Emfim... eu não quero
seguir mais adeante este antipathico pensamento, que talvez fôsse
rejeitado com indignação por quem me escuta e attribuido a mesquinhos
resentimentos da minha parte.
--Faz bem em o abandonar, primo Henrique--disse Magdalena, com
severidade.--Entre ser victima de uma traição e culpada de uma suspeita
injusta, cruel e maligna, prefiro arriscar-me á primeira sorte. Se um
passado inteiro de honra e de probidade, se um caracter provado nas mais
tentadoras situações da vida, se um nome ennobrecido pelo infortunio,
não são garantias bastantes para proteger um homem contra os ataques da
suspeita, não quero entrar n'essa pesquisa inquisitorial que nada
respeita, que é capaz de lançar sacrilegamente a dúvida entre paes e
filhos, entre irmãs e irmãos. Innocente, prefiro aguardar a calumnia;
culpada, o castigo, a sentar-me como juiz n'esse tribunal impio que quer
arvorar.
--Previ essas palavras, prima Magdalena; por isso hesitei. Lamento
sinceramente ter já perdido no uso do mundo uma tão sympathica e
adoravel boa fé nos outros, que é a maior prova de candura que se pode
dar do proprio caracter.