XXII

Dias depois das scenas descriptas no anterior capitulo, estava a

morgadinha occupada a escrever n'uma das salas do Mosteiro, quando ouviu

atraz de si correr o reposteiro da entrada.

Julgando que era algum criado, nem se voltou e proseguiu na escripta.

--Retiro-me, se sou importuno--disse a pessoa que entrára, e que ficára

no limiar da porta.

Magdalena voltou-se então e reconheceu Henrique de Souzellas.

--Ah! é o primo Henrique? Pode entrar.

--Eu sei? Ha correspondencias tão delicadas, que demandam a applicação

de todas as nossas faculdades, e a presença de um importuno...

--Mas não se dá agora esse caso; nem quanto á delicadeza da

correspondencia, nem quanto á importunidade do visitante.

--Então utiliso-me da concessão.

--Occupava-me a escrever áquelle pobre Cancella, para o tranquillisar em

relação á filha. Pobre homem! Ainda se lhe não pôde obter fiança, apesar

de meu pae tratar d'isso, a pedido meu. Ha quem trabalhe contra elle. E

como ha de ter padecido na cadeia na incerteza em que está? Quem ha de

dizer que n'aquelle corpo, robusto e forte, se aloja uma alma de tão

delicados sentimentos? Inda lhe hei de mostrar a carta que elle escreve

a pedir-me que trouxesse para o Mosteiro a filha, e a tirasse de casa da

madrinha, que com o seu fanatismo a perdeu... É um modelo para seguir.

--E como vae a pequena?

--Mal. Estou aqui a mentir, fazendo conceber áquelle pobre homem

esperanças, que eu mesma não tenho.

--Que disse o cirurgião?

--Nada animador.

--Como capitulou a molestia?

--Não sei quê de cerebro; nem eu quiz saber. Nunca pude comprehender a

necessidade que tem certa gente de conhecer a natureza da doença que

lhes ameaça roubar uma pessoa querida. Perdel-a ou salval-a, é a questão

que me interessa. Tudo o mais me é indifferente. N'uma pessoa doente

vejo um espirito que hesita entre deixar-me e permanecer. Aos medicos

peço que removam, se podem, aquillo que o faz partir, mas não quero

saber o que é. Julgo natural ao sentimento o considerar assim a molestia

e a morte.

--Á maneira da arte, ainda que hoje o diagnostico entrou na litteratura,

prima. Mas a proposito do Herodes; deixe-me dizer-lhe que está sendo

muito commentada na aldeia a violencia d'elle contra o missionario. É

voz constante que fizera aquillo por influencia nossa, e as honras

d'aquella bem empregada sóva são-nos tambem concedidas inteiras. Imagine

o clamor que por ahi vae!

--Deixe clamar--respondeu Magdalena, encolhendo os hombros.

--Deixo, deixo. Eu sou odiado como um Lucifer, feito homem; seguem-me,

quando eu passo, uns olhos rancorosos, e adivinho que na ausencia não

sou muito bem tratado.

--É bom acautelar-se. Não os irrite. Viu que não era prudente.

--Não receie. Esta gente a final é cobarde.

--Tanto peor. O inimigo cobarde é mais para temer. Bem sabe. Foi uma

desastrada ideia aquella da nossa ida ao sermão do missionario.

--Parece-lhe? Eu não estou arrependido. Bastava-me, como recompensa, o

ter presenciado o accesso de furor rabico do homem.

--Vamos, primo Henrique; confessemos que a situação não foi das mais

agradaveis.

--Sinto-a, principalmente por o incómmodo que tiveram as senhoras e

talvez por esse episodio dar vigor á opposição, que alguem por ahi se

interessa em organisar contra o sr. conselheiro.

--Ah! pois trata-se d'isso?

--Se se trata?! E muito sériamente. A portaria a respeito do cemiterio,

a historia do sermão, e agora o episodio do Cancella, teem feito um

grande mal.

--Oh! se meu pae perdia!...

--Não entendo essa exclamação, prima Magdalena. Ia jurar que era a

expressão de um desejo.

--E por que não? Se isso fôsse motivo para meu pae abandonar de uma vez

para sempre a politica, pedil-o-hia a Deus.

--Conhece pouco ainda o coração humano, prima. Seu pae está votado á

politica para toda a vida. Desengane-se. E se o prendesse n'esta aldeia,

aqui mesmo faria a mais deploravel, impertinente e inutil de todas as

politicas, a politica local.

A morgadinha suspirou, como se reconhecesse a verdade que Henrique

dizia.

Henrique proseguiu:

--Está organisado um club opposicionista na taberna de um tal Canada. O

brazileiro capitaneia a phalange, os padres são os tribunos e a

propaganda estende-se assustadoramente. É preciso olhar por isto e

sobretudo não perder de vista o sr. Joãozinho das Perdizes, cujo voto

seu pae tinha em grande conta, porque representa o de uma freguezia

inteira. É de suppor que o requestem muito e... o homem é fragil. Já vê,

prima, que eu tomo muito a sério os preceitos hygienicos, que me deu o

meu medico, quando parti de Lisboa, e que a prima approvou. Estou a

interessar-me pelas questões locaes, como se aqui estivesse, ha annos.

--E é um bom indicio de cura, pode crer.

--E ainda tem empenho de me curar?

--Empenho, todo; esperança é que menos.

--Ó meu Deus! que sinceridade de medico tão cruel! Seja; escutarei a

sentença com coragem. Diga-me o que pensa de mim. Ha muito que não

falamos n'isto. A ultima vez que o fizemos, um tanto categoricamente,

foi n'uma occasião bem critica. Julgo que o meu procedimento de então

até hoje lhe terá feito conceber do meu caracter um não muito

desfavoravel conceito. Bem vê que não abusei...

--De quê?--perguntou Magdalena, contrahindo a fronte, n'um gesto de

altivez.--É certo que tem em todo esse tempo dado provas de discreção,

no que se mostrou mais contricto que generoso. Pelo menos é assim que eu

interpretei o seu silencio, e approvo-o em vez de agradecel-o.

--Seja contricção, visto que assim o quer. Mas não lhe merecerá ella

alguma misericordia para com o peccádor?

--Escute. Sinto sincera misericordia de si, pode acredital-o. Ella só me

obriga a perdoar-lhe algumas impertinencias, nem sempre demasiado

delicadas, com que me mortifica.

--Está sendo tão amavel!...

--Perdôe, mas a sinceridade tem d'estas exigencias.

--Curvo-me perante as exigencias da sinceridade. Continue, prima

Magdalena.

--Vae mais longe ainda a minha misericordia, porque apesar da rebeldia

do mal, inda não desisti de cural-o.

--Inda bem. E como? Ser-me-ha licito penetrar no segredo do tratamento?

--Ha já agora uma unica maneira de o salvar.

--E é?...

--Apaixonal-o.

--Ah! n'esse caso estou salvo!--exclamou Henrique, n'um impeto, que não

pôde passar sem um sorriso da morgadinha.

--Ouça. É preciso andar com tento na escolha do objecto d'essa paixão,

sob pena de aggravar o mal em vez de minoral-o.

--E como hei de escolher?

-De modo que lisonjeie a opinião que o primo tem de si proprio.

--A opinião que eu tenho de mim! Se pudésse ser mais clara...

--De boa vontade. O primo Henrique tem uma forte necessidade de

persuadir-se de que representa no mundo um grande papel, uma missão

heroica e generosa, quasi providencial. Exigencias de uma vaidade de boa

indole, que se lhe não pode levar a mal. Repugna-lhe a ideia da

inutilidade, da insignificancia da sua existencia. Não se resigna ao

papel de comparsa, ambiciona o de protector. Se o acaso, ou uma

inconsideração de momento, o associasse, por toda a vida, a um caracter

igualmente forte, que, em constante opposicão, pretendesse provar-lhe

que prescindia da sua protecção, grandes desgostos e amarguras o

esperavam no futuro. Uma indole branda, docil, fraca, um d'estes seres

nervosamente delicados, que tremem ao verem-se sós, cheios de poeticas

superstições, que tenha a dissipar; que se lhe apoie ao braço, como se

n'elle encontrasse a coragem que não sente em si, e que, ao mesmo tempo,

domine pela fraqueza e pela doçura, domine sem consciencia do imperio

que exerce e sem vaidade, portanto; um caracter d'estes é que deve

procurar para salvar-se; só d'elle pode esperar a realisação da vaga

ideia de felicidade, que todos concebem na vida.

--E se essa theoria engenhosa fôsse verdadeira, parece-lhe que poderia

encontrar á mão o tal anjo salvador, que precisa do meu braço para se

apoiar?

--Julgo que pode, e que já o teria encontrado, se pensasse sériamente

nas necessidades do seu coração.

Henrique ia a responder, quando entrou na sala um criado com as cartas

do correio.

--Trégoas á nossa conferencia, emquanto eu leio a carta de meu

pae--disse Magdalena, examinando a carta recebida.

--Concedidas, e eu aproveito-as para correr a vista pelos periodicos que

chegaram.

E emquanto Magdalena lia a carta, Henrique passava pelos olhos as folhas

de Lisboa.

Não tinham decorrido muitos instantes, quando a morgadinha interrompeu a

leitura, exclamando:

--Ó meu Deus! mas de que se trata? Que quer dizer isto?

Ao ouvir estas palavras, Henrique desviou para ella os olhos.

Viu-a agitada e lendo com vivacidade e commoção a carta do conselheiro.

--Ha alguma má nova?--perguntou Henrique, ferido por aquella expressão.

Antes, porém, de responder-lhe, a morgadinha seguiu com ardor a leitura

até o fim.

Henrique continuava a observal-a e cada vez mais evidentes descobria

n'ella os signaes de uma funda agitação. Ao findar a leitura, passou a

mão pela fronte como para desviar uma ideia amarga.

--Por amor de Deus, prima Magdalena, que diz essa carta, para assim a

perturbar?--perguntou Henrique, já assustado tambem.

--Não sei bem; não posso ainda dizer a que se refere meu pae; mas

sinto-me interiormente sobresaltada, como se o adivinhasse.

--Mas a final o que se diz ahi?

--Leia, e veja se, melhor do que eu, pode comprehender esse enigma, por

certo doloroso.

Henrique examinou a carta, que a morgadinha lhe passou para as mãos.

N'esta carta queixava-se o conselheiro á filha de ter sido victima de um

abuso de confiança commettido por alguem, que elle ainda não sabia dizer

quem fôsse. N'um periodico de Lisboa fôra publicada por aquelles dias

uma carta dirigida tempos antes ao conselheiro por não menor personagem

politica do que o secretario intimo do ministro.

O proprio conselheiro confessava ser esta carta demasiado

compromettedora, e assim tambem o demonstrava a excepcional irritação

que transparecia em todos os periodos, da que escrevêra á filha. O

periodico que, para fins politicos, fizera a publicação, havia occultado

os nomes, porém muitas circumstancias referidas tornavam inutil a

discreção; e em Lisboa ninguem hesitou em aprontar as personagens entre

quem se passara o facto. Durante uma das suas demoras na aldeia,

recebêra o conselheiro essa carta; alli, no seio da familia, a confiança

que depositava em quantos o rodeavam impediu-o de ser previdente, como

por hábito o era; facil foi portanto o extravio. O conselheiro dizia á

filha que era preciso descobrir o traidor, para evitar futuros abusos; e

por isso, que se lembrasse de que o alcance da carta não era para todos

comprehendel-o, e portanto não se limitasse a indagar entre os da baixa

classe. «A vingança, concluia o conselheiro, de uma maneira mysteriosa,

como de quem deseja e receia, ao mesmo tempo, fazer uma allusão--a

vingança, bem ou mal fundada, obriga ás vezes os mais nobres caracteres

a uma acção baixa e vil; entre os que por mim se possam julgar

offendidos, é natural encontrar o criminoso.»

--Esclareça-me este mysterio! disse Magdalena, consternada.--De que se

trata aqui?

--Alguma correspondencia politica extraviada. Seu pae diz bem; é

necessario descobrir o traidor por cautela. Além de que, para todos os

que, como eu, teem entrada n'esta casa, é isto um mysterio em que a

nossa honra está empenhada, porque v. ex.^{as} teem direito a alimentar

suspeitas.

-Por amor de Deus!--acudiu, interrompendo-o, a morgadinha.--Não

pronuncie essa palavra! Suspeitas! Esse envenenamento moral, que eu até

aqui não conheci, quer meu pae que voluntariamente o contraia.

--Seja envenenamento, muito embora, mas é um envenenamento salvador,

prima, como o da vaccina; é um preservativo de traição.

--Viver para desconfiar! procurar nas palavras que se ouvem um sentido

occulto! nos gestos uma expressão denunciadora! nos affectos uma

intenção egoista! Oh! isto é horrivel! Mas... que carta é essa, meu

Deus? Que correspondencia pode ter meu pae, que não deva vêr a luz do

dia? Meu pae!... Ha por fôrça illusão n'isto! Meu pae não tem crimes;

meu pae não tem acções que o envergonhem; meu pae pode franquear a todos

as portas da sua casa sem receiar-se de indiscreções. Pois não é assim?

--Por certo, prima; mas... na politica ha actos que... sem serem

criminosos...

--A politica! Sim, é isso! Eu devia prevêr que essa palavra viria para

explicar este mysterio! Por politica é-se cruel, por politica

sacrifica-se um amigo, por politica força-se a consciencia, e depois...

ella justifica tudo. Que obras são as obras politicas que precisam da

sombra e do mysterio para se fazerem? Pois para dirigir ou salvar uma

nação, pois para se tratar dos interesses de um povo, é sempre

necessario o disfarce, a dissimulação, o mysterio?

--Quando se não pode contar com a boa fé dos outros, perde sempre quem

fôr escrupulosamente fiel á sua.

--Mais valeria então abandonar por uma vez essa carreira cruel... Oh!

ainda agora reparo... Tem ahi as folhas de Lisboa... deixe-m'as vêr...

quero saber que carta é esta.

Henrique procurou dissuadil-a. Um numero avulso de um periodico, que não

costumava vir ao Mosteiro, havia-lhe já feito suspeitar que era esse o

que publicava a carta em questão. Não fazendo do conselheiro tão subido

e ideal conceito como a morgadinha, achava muito natural que

effectivamente o comprometesse a carta alludida. Conhecendo bastante

Magdalena, sabia quanto seria cruel para o seu extremoso coração de

filha, e para o seu caracter apaixonado por tudo quanto era idealmente

nobre, generoso e justo, o descobrir no pae uma d'essas máculas

frequentes na vida dos homens politicos, por minima e desvanecida que

fôsse. Por isso quiz evitar-lhe a leitura. Não o conseguiu, porém.

Magdalena, com aquella firmeza de resolução que energicamente se lhe

revelava na voz e no gesto, disse, estendendo a mão para receber os

periodicos:

--Deixe-me vêr, primo Henrique. Não é possivel que de meu pae se diga

ahi alguma coisa que não devam ler os olhos de uma filha.

E quasi arrebatou das mãos de Henrique a folha, justamente aquella de

que elle mais receiava.

E, abrindo-a, examinou-a com anciedade quasi febril.

Henrique observava com curiosidade os movimentos e a physionomia de

Magdalena.

Viu-a tornar-se de repente mais attenta á leitura; os olhos, que até

alli vagueavam por diversas secções do periodico, fixaram-se n'um ponto;

contrahiu-se-lhe a fronte; um ligeiro tremor correu-lhe os labios; córou

e empallideceu alternadamente; e no fim, afastando de si a folha com um

movimento nervoso e apaixonado, exclamou, sob o dominio de uma commoção

profunda:

--Ó meu Deus! E não ter um coração, como o d'elle, a fôrça precisa para

fugir d'estes enredos! Isto é de enlouquecer!...

Henrique pegou na folha, que ella arrojou de si com impeto, e

examinou-a.

Tinha conjecturado bem.

O caso devia consternar Magdalena, para quem o conselheiro era um homem

tão perfeito na vida politica e na vida social, como na vida de familia.

Para Henrique, em quem havia muito se inoculára o scepticismo da época,

impedindo-o de divinisar os homens, por mais rodeados de prestigios que

lhe apparecessem, não tinha o facto de que se tratava grande

significação nem gravidade. O caso era o seguinte:

Tempos antes havia-se agitado nas camaras uma importante questão

politica; uma d'estas questões que servem para estremar os campos e

descriminar os programmas dos partidos. Vacillar n'ellas é já trahir os

principios fundamentaes de uma causa, e abjurar um credo politico

inteiro. O pae de Magdalena, militando no partido de mais avançadas

ideias liberaes, tinha de antemão traçado por elle o caminho a seguir

n'esta conjunctura, o circulo, fóra do qual não poderia combater sem

apostasia; mas, como já atraz dissemos, o conselheiro não era já o homem

que fôra nos primeiros tempos da sua carreira publica; perdera a fé nas

utopias e nos principios abstractos, e trocava-os de barato por qualquer

pequena vantagem positiva que pudésse obter, se não para si, para a

localidade de que era representante. A logica partidaria sacrificára-a,

sem remorsos, mais do que uma vez, ao que, em linguagem não sei se

parlamentar, se chama conveniencias politicas.

Déra-se mais um exemplo d'esta flexibilidade de principios no

conselheiro.

Comquanto membro da opposicão, e dos mais temidos pela sua eloquencia,

variados conhecimentos e vigor de discussão, não era elle de tão

espinhosa moral que não tivesse amigos no seio da maioria, sendo até o

proprio ministro um dos mais intimos. No tempo da discussão, de que

falamos, o ministro, que desejava afastar das camaras todos os

adversarios de importancia, não duvidou entrar em ajustes com o

conselheiro. Este, que já não era homem para repellir com indignação

taes factos, teve a astucia precisa para se aproveitar das

contingencias. Entenderam-se.

Chegada a época da discussão, o conselheiro, que sempre se mostrou

ardente adversario da medida ministerial, e de quem se esperava uma

opposicão vigorosa e efficaz, pretextou subitos negocios a chamal-o á

provincia, e partiu, promettendo voltar a tempo ainda de discutir a

questão.

Depois de chegar ao Mosteiro escreveu para os amigos, lamentando que

inesperados negocios de familia o retivessem alli mais tempo do que

contava, e alentando-os de longe á lucta. No entretanto, a questão foi

apresentada nas camaras: oradores tibios e mal escutados acharam-se sós

a combatel-a; apagadores officiaes e officiosos abafaram a tempo a

discussão; e, quando o conselheiro voltou a Lisboa, só pôde protestar

nos circulos politicos contra o resultado da votação e expender as

razões que deveriam fazer repellir a medida.

Em recompensa eram concedidos melhoramentos para o circulo que o elegia;

e entre elles a estrada que vimos principiar. Tal fôra o preço d'ella.

Tudo isto trazia agora á luz a carta desencaminhada, que era do

secretario do ministro, e que no seu conteúdo deixava vêr claramente as

condições do pacto.

Esta publicação causou profunda sensação em Lisboa. A importancia

politica do conselheiro soffreu com isso.

Atacavam-n'o os partidarios do governo, para declinarem d'este, quanto

possivel, a responsabilidade do facto; atacavam-n'o os opposicionistas

declarados, para com o mesmo golpe ferirem o ministerio.

Os influentes politicos teem sempre no proprio partido, a que pertencem,

invejosos que só almejam o primeiro pretexto para os derrubarem, embora

caia com elles o partido a que se filiam.

Aquella carta foi, durante algum tempo, uma arma poderosa nas mãos dos

taes; originou discussões e ataques violentos; e o conselheiro correu

risco de se malquistar por causa d'ella com gregos e troyanos.

Tudo isto se revelava ao espirito de Magdalena e tudo isto a

consternava. O seu muito amor filial fazia-lhe achar no facto uma

significação dolorosa e triste que só desillusões, como as de Henrique

de Souzellas, velhas desillusões de sceptico impenitente, poderiam

attenuar. O conselheiro expiava cruelmente o seu delicto.

A leviandade e doblez do homem politico pagava-a caro o homem de

familia.

É que a moral é uma. O homem não pode dividir-se; os peccados sociaes de

quem é virtuoso nos lares domesticos, pagam-se, expiam-se n'esses mesmos

lares. Os filhos que creou e educou segundo os preceitos da honra e da

virtude, serão mais tarde os seus proprios juizes, e que cruel

julgamento para o coração de um pae! É justo que a patria peça contas

dos crimes de familia e desconfie dos tribunos que não sabem ser paes,

filhos, irmãos e esposos; é justo que a familia exija que se seja fiel á

prática e ás crenças que se professam, e castigue, pelo menos com

lagrimas, como as de Magdalena, as culpas do homem que julgou poder ter

duas consciencias: uma para responder por os actos civicos, outra para

os actos domesticos.

Henrique procurou minorar o effeito que esta leitura tinha produzido no

animo da morgadinha por meio de algumas consolações, que uma indulgente

moral, muito do uso da sociedade, lhe inspirava.

Percebeu porém, que, embora as manifestações do sentimento tivessem

cessado já em Magdalena, não se lhe tinha ainda dissipado a profunda e

penosa impressão que lhe ficára da leitura.

Como para fazer cessar aquelle genero de consolações, a que Henrique se

julgava obrigado, e que a ella eram custosas de ouvir, Magdalena disse,

em tom já apparentemente sereno:

--Bem; visto que é necessario precavermo-nos, vejamos de quem e quaes as

cautelas que temos a adoptar. Meu pae parece suspeitar de alguem, mas

não se pronuncia claramente.

N'isto entrou na sala D. Victoria, carregada de roupa como para uma

viagem aos pólos, e queixando-se do frio, cuja intensidade attribuia em

grande parte aos criados, por se terem descuidado de accender logo de

manhã os fogões da casa.

Quando D. Victoria foi informada do conteúdo da carta do seu cunhado,

levantou um alarido desolador. Por sua vontade ordenava logo alli um

interrogatorio e uma devassa geral a todos os criados da casa, aos

quaes, segundo o costume, attribuia a culpa toda. Magdalena e Henrique

tiveram muito que fazer para a convencerem da inutilidade e

inconveniencia d'esse alvitre e para lhe mostrarem a necessidade de usar

de toda a prudencia e dissimulação n'esta pesquisa.

--Aqui entre nós--dizia Henrique--vejamos em quem se pode, com

plausibilidade, fazer recahir as suspeitas. O sr. conselheiro diz bem;

um criado boçal pode roubar uma joia, subtrahir qualquer objecto de

valor intrinseco; porém os ladrões de cartas como estas, são de outra

especie e de intelligencia mais apurada. Ora entre a gente que frequenta

o Mosteiro...

E parando subitamente, Henrique disse para D. Victoria, que olhava para

elle com um gesto espantado:

--Porém, minha senhora, eu mesmo não me devo excluir da lista dos

indiciados, e n'esse caso deixo v. ex.^{as} livres para me instaurarem

processo.

--Ora essa, primo Henrique!--exclamou D. Victoria.--Era o que faltava!

Nada, nada; não se cance; não tem que vêr. Aquillo foram os criados.

Magdalena estava tão abatida de animo, que nem deu attenção a este

episodio.

Henrique proseguiu:

--Nada de magnanimidades, minha senhora; quem quer ser juiz a ninguem

deve excluir da possibilidade de ser réo. O sr. conselheiro, porém,

alguns indicios nos aponta. Fala, por exemplo, vagamente, de alguem que

n'estes ultimos tempos se pudesse considerar offendido por elle, e que

por vingança... Ora actos capazes de trazer estas animadversões a seu

pae, prima Magdalena, só a questão do cemiterio, mas essa não importa a

ninguem que tenha entrada aqui... Ha tambem as das expropriações,

porém...

Henrique parou, como se lhe tivesse acudido uma ideia, que examinava,

antes de enuncial-a.

--Tive agora um pensamento diabolico; nem quero attendel-o.

--Diga, primo, diga--acudiu logo D. Victoria.

--A expropriação da casa do herbanario... O muito amor que o velho tinha

áquella vivenda... A repugnancia com que viu cortar aquellas arvores

velhas...

--Então julga que foi o Vicente?--perguntou D. Victoria.--Mas elle não

vem ao Mosteiro ha muitos annos, primo.

--Não digo que fôsse elle, minha senhora--disse Henrique, cujo embaraço

augmentava, sentindo que a morgadinha o fitava com um olhar penetrante,

como se lhe estivesse lendo o pensamento.

--Então?--insistia D. Victoria.

--Mas--proseguiu Henrique--o velho exerce certa fascinação na gente da

terra; um verdadeiro prestigio; e certas intimidades entre elle e... e

alguem que tem aqui entrada a todo o momento... Emfim... eu não quero

seguir mais adeante este antipathico pensamento, que talvez fôsse

rejeitado com indignação por quem me escuta e attribuido a mesquinhos

resentimentos da minha parte.

--Faz bem em o abandonar, primo Henrique--disse Magdalena, com

severidade.--Entre ser victima de uma traição e culpada de uma suspeita

injusta, cruel e maligna, prefiro arriscar-me á primeira sorte. Se um

passado inteiro de honra e de probidade, se um caracter provado nas mais

tentadoras situações da vida, se um nome ennobrecido pelo infortunio,

não são garantias bastantes para proteger um homem contra os ataques da

suspeita, não quero entrar n'essa pesquisa inquisitorial que nada

respeita, que é capaz de lançar sacrilegamente a dúvida entre paes e

filhos, entre irmãs e irmãos. Innocente, prefiro aguardar a calumnia;

culpada, o castigo, a sentar-me como juiz n'esse tribunal impio que quer

arvorar.

--Previ essas palavras, prima Magdalena; por isso hesitei. Lamento

sinceramente ter já perdido no uso do mundo uma tão sympathica e

adoravel boa fé nos outros, que é a maior prova de candura que se pode

dar do proprio caracter.

A Morgadinha dos Cannaviaes (Chronica da aldeia) · 第 47 / 66 题