IV

A casa do Mosteiro, com a quinta annexa á casa, como o dava a entender o

nome, pelo qual o povo a conhecia, tinha pertencido em tempo a uma ordem

monastica.

Era um d'estes conventos campestres, que hoje ou se encontram em ruinas

ou transformados em solar de alguma _notabilidade_ provinciana. Ao de

que falamos coubera o ultimo destino.

Incluido, depois do acto dictatorial de 1834, na lista dos bens

nacionaes, fôra, por insignificante preço, vendido a um modesto

proprietario das immediações, mais arrojado do que os vizinhos, ou mais

convencido da estabilidade da nova ordem de coisas politicas, que se

inaugurava no paiz.

E em tão auspiciosa hora lhe acudira aquella inspiração, que, em pouco

tempo, lhe restituia a quinta o capital empregado, regalando-o todos os

annos com não calculados juros, e elle, sem intermittencias, cresceu

d'ahi por deante em prosperidade a ponto de deixar, ao morrer, a familia

no numero das mais abastadas d'aquella terra.

A propriedade do Mosteiro, apesar de varios melhoramentos e reformas

effectuados n'ella, offerecia, ainda claros, muitos vestigios de seus

primitivos usos. Não era raro encontrar-se, aqui e alli, em pé uma cruz

de pedra marcando antigos logares de devoção; no alto de algumas portas

conservava-se visivel o emblema e divisa da ordem, ou restos de

inscripções latinas; nas paredes da arcaria, em que se apoiava a face

posterior do edificio, mantinha-se ainda um azulejo contemporaneo dos

frades; finalmente resistira a successivas reformações certo colorido

monastico, que só após muitos annos se dissiparia de todo.

Entrava-se para a propriedade por uma larga, comprida e magestosa álea

de sobreiros seculares, alcatifada de relva, que, sobretudo dos lados,

por pouco trilhada, crescia espêssa e verdejante. Abria-se, ao fim

d'esta rua, o alto portão do pateo.

Henrique, deixado só pelo guia ao chegar alli, foi caminhando

vagarosamente por esta avenida, dominado por a intima commoção e

sentimento quasi de temor, que se apodera de nós, em todos os logares a

que se ligam memorias do passado.

A phantasia estava-o transportando a tempos, a que não chegavam já as

suas recordações, ás épocas, em que, por entre estas arvores gigantes,

se via passar, como um phantasma, o habito escuro do monge, cuja sombra

o sol, ao declinar no horizonte, tantas vezes projectou, esguia e

estirada, ao longo d'aquella mesma avenida.

Impressionado por esta ordem de pensamentos, chegou Henrique ao portão,

transpondo o qual se introduziu no pateo. Era um largo terreiro de

perfeita fórma rectangular, limitado ao fundo pela fachada da casa, e

lateralmente por elevadas paredes, armadas á maneira de pannos de Arrás,

com tapeçarias de vigorosas heras. A cada uma das paredes encostavam-se

dois tanques de vasta capacidade.

No tempo dos frades vomitavam, sem cessar, as feias e enormes carrancas

de todos estes quatro tanques grossos jorros de fresca e purissima agua;

porém as medidas economicas do ultimo proprietario e as exigencias dos

seus projectos agricolas haviam derivado para outros fins, parte d'esta

abundante veia, de maneira que tres d'aquellas bacias estavam agora

completamente a sêcco.

Os fetos de folhas recortadas, as pegajosas parietarias, os funchos

odoriferos, havia muito que tinham invadido a bôca dos encanamentos

inuteis onde encontravam asylo imperturbado lagartos, aranhas e

myriapodes, e se estabeleciam pacificas colonias de caracoes.

A fachada do ex-mosteiro nada tinha de notavel pelo lado architectonico.

A arte não tivera fadigas, ao concebel-a; o cinzel pouco se embotára a

executal-a; nem uma columna singela, nem um florão, nem um tympano lhe

davam a menos pretenciosa apparencia monumental. Imagine-se uma vasta

casaria de um andar além do terreo, com muitas janellas de peitoril e

uma só varanda de pedra sobranceira á porta principal; acima do telhado,

uma especie de agua furtada, de construcção evidentemente posterior e

aconselhada aos proprietarios modernos por conveniencias de accommodação

domestica; e ter-se-ha concebido o edificio.

Emquanto Henrique se occupava a examinar estas particularidades, um

velhito, que, sentado em um banco de pedra, que havia á porta de casa,

se estava aquecendo ao sol, ergueu-se e veio ao encontro do

recem-chegado, tossindo e arrastando os passos.

Junto de Henrique, o velho, de apparencia meia rustica, meia urbana,

depois de o saudar com grave cortezia, que deixou a descoberto o

_solideo_ fradesco com que resguardava a fronte calva, perguntou se

havia alguma coisa, em que o pudesse servir.

Ouvindo, depois de repetida, a resposta de Henrique, que disse procurar

as senhoras, com nova cortezia lhe fez signal para que o acompanhasse, e

ambos atravessaram o pateo em direcção da casa.

No portal o velho afastou-se de lado com toda a deferencia para deixar

passar Henrique; em seguida abriu-lhe a porta de uma primeira sala, e,

voltando-se, pediu-lhe para que lhe dissesse quem havia de annunciar.

Henrique deu-lhe para esse fim um bilhete de visita, cuja significação

teve de explicar, porque o velho não a comprehendia bem.

A final porém retirou-se por outra porta, levando o bilhete.

A sala, em que Henrique ficou esperando, era toda mobilada com pesadas

cadeiras de couro lavrado e alto espaldar, mesas de pés em espiral, e

pelas paredes alguns ennegrecidos retratos de frades, pertencentes

provavelmente aos antigos proprietarios do mosteiro.

No momento em que o velho servo, que era uma especie de feitor honorario

da casa, abriu outra porta da sala, para ir annunciar á familia a visita

de Henrique, chegaram aos ouvidos d'este, de mistura com um tinir de

louças e de crystaes, as vozes e risos de creanças, que falavam ao mesmo

tempo. Com a entrada do velho produziu-se um certo silencio, e após uma

voz de mulher, de timbre fresco e agradavel, disse audivelmente e como

em resposta ás palavras do criado:

--Ora as etiquetas com que esteve, Torquato! Mande entrar para aqui.

O feitor parece que resmoneou não sei o quê, a que ainda a mesma voz

redarguiu:

--O que não é bonito é fazel-o esperar. Ande, vá.

Torquato--chamemos-lhe assim, visto que assim lhe chamaram--appareceu

outra vez e fez signal a Henrique, de que o esperavam na sala immediata.

Henrique que presentiu ir achar-se na presença de uma mulher nova e

porventura bonita, correu, com instincto de perfeito homem de côrte, os

dedos pelos cabellos, afagou o bigode, ageitou rapidamente o laço da

gravata e entrou.

Era completo o contraste d'este aposento com o primeiro; transpondo

aquella porta dissipava-se todo o perfume antigo, todo o caracter de

vetustez, que até alli reinava em tudo. Era moderno o estuque do tecto,

modernissimo o papel que forrava as paredes, e a mobilia toda de um

cunho de actualidade, visivel aos olhos menos pesquizadores. Como para

tornar mais frizante o contraste, a presença do velho feitor estava aqui

substituida por a de duas creanças, a mais velha das quaes mal passaria

dos seis annos.

O reposteiro, que caiu atraz de Henrique, foi como que uma cortina

corrida sobre o passado. A porta, que elle transpuzera, a barreira que

separava dois seculos.

Sentadas no tôpo de uma longa mesa de jantar, coberta de louça fina

ingleza, estavam as duas creanças que dissemos, com os seus babeiros

brancos e tendo cada qual defronte de si um prato de odorifera sôpa. Em

pé, á cabeceira, presidia ao _lunch_ infantil uma mulher, de quem

Henrique só pôde notar vagamente os contornos geraes do corpo e não as

particularidades das feições, porque, ficando voltada de costas á luz

das janellas, velavam-lhe o rosto umas meias sombras, que não favoreciam

o exame.

Ao vêr entrar Henrique, ella disse-lhe jovialmente:

--Na aldeia a sala de recepções é aquella em que a gente se acha, quando

lhe annunciam uma visita. É assim pelo menos que eu comprehendo o viver

do campo.

--E é assim que eu o aprecio, minha senhora--respondeu Henrique,

approximando-se da mesa.

As creanças, interrompendo a refeição, fitavam o recem-chegado com

aquelles olhos espantados e penetrantes, com que ellas, promptamente, e

quasi sempre com a certeza de um verdadeiro instincto, decidem para si

das sympathias ou antipathias de que lhes é merecedor um estranho, a

quem vêem pela primeira vez.

A mulher, que presidia ao banquete, não suspendeu com a entrada de

Henrique a occupação domestica, na qual estava empenhada. Mostrava

receber-lhe a visita com um perfeito «á vontade», que nada tinha porém

de affectado.

--Não sei se v. ex.^a sabe...--ia dizendo Henrique, quando, ao chegar

perto d'ella, parou subitamente em meio da phrase.

Na mulher, que estava deante de si, reconheceu a leitora da deveza, a

interessante rapariga, que tanto o preoccupára.

Era ella, era o mesmo vestido de xadrez, era a mesma cabeça, agora

melhor apreciada ainda, porque nada havia a encobrir-lhe a fronte de um

primoroso modelo, e os cabellos penteados com tanta graça como

singeleza. Em vez do longo chale de casimira, trazia agora uma especie

de jaqueta, curta e larga, apertada por alamares, de fórma pouco mais ou

menos similhante á que, na nomenclatura das modistas, nomenclatura quasi

sempre absurda, e de mau gôsto, teve depois a impropria e desastrada

denominação de _zuavo_!

A surpreza de Henrique não passou despercebida a quem era causa d'ella e

que lhe correspondeu com um gesto de curiosa interrogação.

--Perdão, minha senhora--disse Henrique, comprehendendo aquelle

gesto--mas ignorava que vinha encontrar aqui uma pessoa, que já me não

era estranha.

--E sou eu essa pessoa?

--É v. ex.^a effectivamente.

--Pois já nos vimos?

--Já... quero dizer, eu já vi v. ex.^a

--Pode ser; pela minha parte confesso-lhe que me não lembra de o ter

visto nunca. Apesar d'isso sei que é o sr. Henrique de Souzellas,

sobrinho d'aquella boa senhora de Alvapenha, a tia Dorothéa; não é

verdade?

--Eu proprio. O conhecimento que tenho de v. ex.^a não é antigo tambem;

data de algumas horas apenas.

A interlocutora de Henrique, ouvindo isto, contrahiu levemente as

sobrancelhas bem desenhadas, fez um movimento de labios e deu á cabeça

uma ligeira inclinação sobre o hombro, d'onde resultou para aquella

gentil physionomia a mais adoravel expressão de estranheza, que pode

animar um semblante de mulher.

--Esta manhã--proseguiu Henrique, a quem os encantos d'aquelle gesto não

tinham passado despercebidos--assisti a uma scena commovente. O logar

era uma deveza; uma joven senhora... joven e... e com outras qualidades,

além d'esta, para excitar attenções, lia, em voz alta, as cartas que

algumas pobres mulheres do povo acabavam de receber pelo correio...

Ella não o deixou continuar.

--Ah! entendo agora. Viu-me? Já andava por fóra? Não o suppunha assim

madrugador. Mas onde estava tão escondido? Vejo que é indiscreto... Não

admira, habitos da cidade. É verdade, é. Aquella gente encontrou-me no

caminho quando eu voltava de uma visita a uns parentes pobres, e não me

deixou sem que eu lhe abrandasse a ancia de coração que a affligia.

Coitados! Que havia eu de fazer? Diga-me, já pensou no supplicio que

deve ser olhar a gente para uma folha de papel escripta, na qual sabemos

que se fala de uma pessoa querida, e não ter poder para decifrar aquelle

enygma? Que martyrio! Eu por mim, confesso que me falta o animo para

recusar pedidos d'aquelles, como me faltaria para negar uma gotta d'agua

ao desgraçado que visse a morrer de sêde. A crueldade seria quasi igual.

Não lhe parece?

Henrique formulou um galanteio, que ella porém não ouviu, entretida já a

escutar o que uma das creanças lhe dizia.

--Lena, olha a Annica, que está a deitar a sôpa d'ella no meu prato.

--Deixa falar, Lena, deixa falar, foi ella que primeiro a deitou no meu.

Não tem vergonha de mentir!

--Então--disse Magdalena, que a este nome correspondia a contracção

familiar, de que se serviam as creanças.--Olhem agora se teem juizo.

Vejam se querem que eu vá dizer á mamã que venha para aqui.

--Não é ella a mãe, visto isso--pensou Henrique, como quem modificava

uma opinião que concebera antes e folgava com a modificação.--Será irmã?

Talvez... Ou mestra... É mais provavel que seja mestra. Esta mulher foi

de certo educada na cidade. Tem uns ares distinctos...

E elevando a voz:

--V. ex.^a está-me recordando uma scena de um precioso livro, que nunca

me canço de ler.

--Qual é?

--Werther.

--Ah!

--Conhece?

--Conheço... quero dizer, li-o, por acaso, ha pouco tempo. Compara-me a

Carlota? É por estar a distribuir as rações d'estas creanças? Que mulher

ha que não seja Carlota, n'essa parte? Em todas as casas se passa uma

scena assim. Bem se vê que não tem familia.

--Por quê?

--Por lhe fazer tanta sensação o espectaculo d'esta.

--É certo--respondeu Henrique com melancolia.--Deve ser essa uma das

causas; mas não a unica--accrescentou galanteadoramente.

E, de si para si, estava encantado de saber que a sua interlocutora

tinha lido Werther.

Magdalena, para mudar de conversa, perguntou-lhe:

--Então que lhe parece esta nossa aldeia?

--Um jardim. Hontem, ao chegar, confesso que me foi desagradavel a

impressão recebida. Nem admira; a noite, o frio, a chuva, o cansaço.

Esta manhã, porém, a transformação foi completa. Estou encantado,

fascinado! N'uma palavra, minha senhora, eu, cidadão em corpo e alma,

reconciliei-me em poucas horas com a vida do campo.

--Desconfie da mudança rapida. Habitos radicados, qualidades ou defeitos

de educação não se perdem assim depressa. Alguns dias aqui, e suspirará

por Lisboa outra vez.

--Talvez não. Hoje estou até em acreditar que tinha razão o doutor, que

me prometteu a cura das minhas doenças, se me costumasse devéras a estes

habitos campestres.

--Ai, prometteram-lhe isso? E espera costumar-se?

--Por que não? Hoje já almocei ás sete horas, já andei mais do que uma

semana inteira ando em Lisboa. E inda tenho por vêr as raridades da

terra.

--As raridades?! E que raridades são essas que inda tem para vêr? A

nossa pobre aldeia não lhe merece essa ironia.

--Então acha tão pouco curiosa esta terra? Do quasi nada que d'ella

observei esta manhã, parece-me até...

--Ai, se fala da natureza, é outra coisa. A cada passo se encontra um

ponto de vista, que nos obriga a uma exclamação. Mas ha por ahi certos

cicerones, que insistem em mostrar aos hospedes as bellezas da arte.

Peça a Deus que o livre d'esse flagello.

--V. ex.^a assusta-me. Embora; se lhes cair nas mãos, farei por achar

curioso o que elles acharem. Vae ser esse o meu systema de cura.

Interessar-me por tudo o que a um homem da aldeia interessa. Foi o

regimen que me prescreveu o medico, quando me receitou o campo, a titulo

de emolliente; se o seguir, salvo-me.

--E não o diga a rir. Se quizer prender-se á aldeia, abjurar os

attractivos da cidade, deve rustificar-se em tudo; principiar por

cultivar o interesse por as questõesinhas da terra; deve, por exemplo,

declarar-se pelo abbade contra a junta de parochia ou pela junta de

parochia contra o abbade; ralhar do regedor na questão com os

taberneiros ou defendel-o. Emquanto não chegar a isso, desconfie da sua

acclimação.

--Farei por conseguil-o o mais depressa possivel. Outra coisa necessaria

é deixar-me convencer ingenuamente dos inexcediveis dotes de espirito

das notabilidades da terra, o que é de rigor; estar em perpetua

admiração deante de uns certos nomes famosos que ha sempre em todas as

terras pequenas, e que nos atiram á cabeça a cada momento. Por exemplo,

aqui já sei de um, com que encherei a bôca a proposito de tudo; é o de

uma celebre morgadinha dos Cannaviaes, pessoa em quem ouço falar, desde

que puz os pés, ou por mim a alimaria que me trouxe, n'este productivo

torrão.

Magdalena sorriu de uma maneira singular, ouvindo isto.

--Então com que, tem ouvido falar muito n'essa morgadinha?

--Oh! mas não faz ideia; de uma maneira desesperadora. Não ha pinhal,

quinta, azenha, choça ou lameiro que não pertença a essa entidade, para

mim desconhecida. Este nome anda-me já nos ouvidos, como um estribilho

de cantiga popular; na estrada, nos campos, em casa de minha tia, na

loja do correio, em toda a parte o ouço pronunciar. Parece que voga nos

ares.

--Isso deve ter-lhe excitado a curiosidade de conhecer a pessoa.

--Qual! tem-me impacientado a ponto de nem perguntar por ella. E demais

parece-me que a estou a vêr.

--Ora diga. Então como a imagina? Annica, não tens ahi um guardanapo?

--Como a imagino? Imagino-a uma morgada, e está dicto tudo; uma senhora

nutrida, a rever saude por todos os póros, encarnada como uma romã,

sobre quem os vestidos á moda assentam como pendurados de um cabide, as

mãos cheias de anneis, meias luvas de retroz, um chapéo com uma

cercadura de rendas, pousado no cocoruto da cabeça... V. ex.^a ri-se?

Acertei?

--Parece-me que sim; mas julgue-o por si já que tem á vista o original.

--Como?!

--A morgadinha dos Cannaviaes, sou eu.

--Vossa Excellencia!...

Henrique de Souzellas, apesar do seu uso do mundo, esteve por muito

tempo sem saber como sair da situação em que se puzera.

Magdalena ria com toda a vontade; os pequenos riam, por contagio, sem

saberem de quê. Tudo augmentava pois a confusão de Henrique.

--Ora confesse--insistia cruelmente Magdalena--confesse que o está

lisonjeando a exactidão das suas conjecturas.

Henrique teve emfim uma lembrança. Tirou do bolso a carteira, em que,

horas antes, esboçára rapidamente a figura esbelta da morgadinha,

rodeada das mulheres do povo, e mostrando-lh'a, disse:

--Veja v. ex.^a se esse esboço, apesar da sua imperfeição, está de

accordo com a estupida concepção, que eu formára.

Magdalena lançou a vista para a carteira e sorriu.

--Ah! desenha?

--Quando os modelos tentam, tenho d'essas ousadias. Os resultados são

lastimosos, como estes. Perdôe-me o original, que julguei possivel

copiar, o desacato, mas...

Magdalena fitou em Henrique um olhar penetrante.

--Isso que diz sabe-me a um galanteio. Devo advertil-o de uma coisa, sr.

Henrique de Souzellas. Não ha nada tão mal empregado como uma fineza no

campo. Tudo quer o seu logar. Em Lisboa talvez o achasse pouco

delicado... ou pelo menos pouco amavel, se me não dirigisse d'essas

phrases conceituosas e bonitas. Vive-se d'isso lá. Aqui acho-as

affectadas e inuteis... Que quer? Influencias da scena. Ha tanta

semceremonia no campo! Aqui todos nos tratamos como parentes: ha de vêr.

Não repara como eu o recebo n'uma sala de jantar, sem nem sequer tirar

os babeiros a estas creanças? Olhe lá que fizesse o mesmo em Lisboa...

--Então v. ex.^a já lá esteve?

--Eu nasci lá e lá me eduquei.

--Ah! bem se vê.

--Ah? Ahi está um _ah_, que eu desejaria muito que me explicasse.

--Não me será difficil fazel-o. É que antes já de ouvir falar v. ex.^a,

só ao vêr certa distincção, certa elegancia de maneiras, conjecturei...

--Basta. É um _ah_ portanto, que tem umas poucas de más qualidades.

--Devéras? Uma interjeição tão innocente!

--Pelo contrario, é a voz mais perfida e inconstante da nossa lingua;

tudo exprime, a hypocrita. O seu _ah_ é vaidoso, adulador e iniquo pelo

menos. Pela vaidade castigue-o algum resto de modestia que ainda se

abrigue no seu coração lisbonense; a adulação competia-me castigal-a,

mas perdôo-lh'a porque quero ainda suppôr que é um symptoma da doença

das cidades, a meu vêr, a principal doença, que o obrigou a procurar a

aldeia; da iniquidade, da injustiça, que faz á educação que se pode dar

na provincia, ha de convencer-se dentro em pouco, quando eu lhe

apresentar minha prima Christina, uma rapariga, que tem vivido aqui

sempre e que protesta contra essa sua opinião; possue tudo quanto pode

dar de bom a educação das cidades, e, o que mais vale, aquillo que lá é

tão facil perder-se depressa, uma candura adoravel. É a irmã mais velha

d'estas creanças--accrescentou, pousando a mão na cabeça dos pequenos,

que comiam e conversavam um com o outro.

--Mas v. ex.^a...

--Perdão. Outra coisa. Já agora que entrei no caminho das admoestações,

permitta-me mais uma, antes de perder o ar grave, que hei de por força

ter. Não me sôa bem o impertinente tratamento de excellencia, que me dá.

Essa excellencia está a pedir-me uma senhoria, pelo menos, e,

confesso-lhe ingenuamente que me custaria a voltar na lingua uma palavra

tão comprida.

--Como quer então que a trate?

--Eu sei?... Olhe, uma ideia! Ha pouco não me comparou á Carlota de

Goethe? Deixe-me pois adoptar uma lembrança d'ella. Está certo de que

tratou o Werther por primo, a primeira vez que lhe falou? É um

tratamento como outro qualquer; e entre nós mais justificado, porque

sendo o sr. Henrique sobrinho direito de D. Dorothéa, e teimando minha

tia Victoria, a mãe d'estes pequenos e de Christina, que D. Dorothéa é

ainda uma especie de nossa tia arredada, e como tal a tratamos, nós a

final de contas vimos a ser uma especie de primos tambem. Pelo menos

assim o sustentou e decidiu hontem minha tia Victoria; e ha de vêr como

por primo o tratará! É um tratamento menos incómmodo; eu chamar-lhe-hei

primo Henrique; chamar-me-ha, se quizer, prima Magdalena, e

desterraremos para sempre a antipathica senhoria e excellencia;

concorda?

--Acceito e acho deliciosa a proposta. Adoptamos o principio falso,

admittido pela fidalguia em Portugal, de que «os primos dos nossos

primos, nossos primos são.»

--Fica pois ajustado?

--Fica ajustado.

--Bem. Mas que ia dizer ha pouco?

--Nem eu já sei... Ah!... Perguntava se tinha estado muito tempo em

Lisboa e o que a obrigou a vir viver para aqui.

--Isso é nem mais nem menos do que pedir-me a historia da minha vida.

Seja; é um sacrificio inevitavel a quem se vê pela primeira vez.

Deixe-me primeiro attender a estes pequenos, que eu principio.

E, depois de partir a cada creança uma fatia de queijo, a morgadinha

principiou:

--A historia é curta e sem peripecias, tranquillise-se. Eu sou filha de

Manuel Bernardo de Mesquita e...

Este nome era o de um dos principaes vultos politicos da época, e que

então militava no campo opposicionista, sendo indigitado para ministro

na primeira reforma ministerial, homem influente, de grande capacidade

politica, tendo sempre advogado no parlamento as ideias mais liberaes, e

militado no partido progressista.

Henrique de Souzellas, que conhecia todas as personagens de importancia

no paiz, fitou Magdalena com olhar estupefacto: tão longe estava de

encontrar alli a filha de um futuro ministro.

--Filha do conselheiro Manuel Bernardo! V. ex.^a?

--Excellencia! Esquece-se da nossa convenção? Repare! É verdade. Não

sabia que meu pae era d'aqui? Eu e meu irmão Angelo, que estuda

actualmente n'um collegio em Lisboa, somos os unicos filhos de meu pae.

Nasci, como disse, em Lisboa, mas as continuas enfermidades de minha mãe

fizeram-nos vir para aqui viver na companhia d'ella; aqui mesmo morreu,

e aqui está sepultada. O Angelo nasceu já n'esta casa. A morte de minha

mãe deixou-me orphã aos doze annos, e incompleta a educação que ella

principiára a dar-me e para a qual, se vivesse, ella só bastaria. Fui

pois obrigada a voltar a Lisboa, onde continuei com mestra a minha

educação. Mas, ao chegar á idade dos quinze annos, receiando meu pae que

os ares da cidade desenvolvessem em mim germens de molestia, que

porventura tivesse herdado, mandou-me outra vez para aqui, onde sempre

passava alguns mezes no anno, e para onde me chamavam tambem habitos

adquiridos em creança. Eu sou muito aldeã. Para aqui vim pois. A morte

de meu tio, passado pouco tempo, impressionou profundamente a minha tia

Victoria, que ficou desde então um pouco... um pouco... com pouca

paciencia para olhar por as coisas domesticas. Isto creou-me novos

deveres; havia aqui muitas creanças, estas duas, outras que estão lá

dentro, e Christina, que era então creança tambem; occupei-me a ajudar

minha tia.

--E tão admiravelmente, que a mais carinhosa mãe o não faria melhor.

--Dou-me bem com as creanças, dou. E a meu pae devo, em parte, o ter

aprendido cedo esta sciencia. Porque é uma sciencia tambem.

--Então como procedeu o conselheiro para a ensinar?

--Eu lhe digo. Meu pae tem em certas coisas umas ideias muito

singulares. Excellentes as acho eu. Oh! não imagina que boa e excellente

alma é a de meu pae! Era eu uma creança, tinha onze annos, talvez,

quando elle, um dia, vindo de Lisboa passar aqui algum tempo comnosco,

me trouxe uma boneca, realmente bonita; uma maravilha de Nuremberg. Nos

primeiros dias não me fartava de a vêr, de a beijar, até commigo a

deitava. Oito dias depois succedia o que era de esperar, já nem d'ella

sabia. Meu pae notou-o.--Então, Lena--aqui todos me chamam assim--já não

gostas da tua boneca?--Disse-lhe eu: Gosto, mas...--Bem sei, já fizeste

tudo o que tinhas a fazer por ella, e como, pela sua parte ella nada faz

por ti, enfastias-te, canças-te de conceber, a cada momento, brinquedos

novos. Tens razão; onze annos já não é idade em que o interesse se

sustente com tão pouco, é necessario mais. Ora dize-me, Lena,--continuou

elle--se eu te mandasse vir uma boneca que movesse os braços e os olhos,

que te sorrisse, que chorasse tambem, que te beijasse até...--Pois ha

bonecas assim?--perguntei eu, admirada.--E desejaval-a?--Oh! se a

houvesse!...--Trago-t'a ámanhã. Não dormi aquella noite a pensar na

boneca. No dia seguinte apresentou-me meu pae uma creança de um anno,

orphã de uma pobre familia, que uma epidemia extinguira, e

disse-me:--Ahi tens a boneca que te prometti, Lena; vou confial-a aos

teus onze annos. Veremos se tens juizo para brincares com ella. É assim

que eu quero que aprendas os deveres de mãe, que é a verdadeira sciencia

apropriada a mulheres. E o que é certo é que eu, dissipado o desgosto

dos primeiros momentos, porque o tive, confesso, costumei-me a querer

áquella pobre creança, fui avara nas suas caricias, troquei por ella

todos os meus brinquedos, e senti-lhe do coração a morte, quando, um

anno depois, ella me expirou nos braços. Quando fui para Lisboa, já ia

educada para amar creanças.

Magdalena contára tudo isto naturalmente, sem a menor affectação, sem

deixar até de attender aos primos, o que augmentava o interesse com que

a escutava Henrique.

--E assim fica sabendo quem é a morgadinha dos Cannaviaes--concluiu

ella, desatando o babeiro das creanças, que tinham terminado o _lunch_.

--É verdade, mas d'onde lhe vem este titulo singular, prima

Magdalena?--perguntou Henrique, tomando ao collo uma das creanças, que a

morgadinha pousou no chão.

--É que eu sou realmente a morgadinha dos Cannaviaes. Quero dizer, minha

madrinha vivia na quinta dos Cannaviaes, uma quinta que fica d'aqui

perto. Era uma senhora velha, rica, elegante e muito caprichosa;

chamavam-lhe todos a morgada dos Cannaviaes. Tomou-me ella affeição, e,

sempre que passeiasse, me havia de levar comsigo; d'ahi começaram a

chamar-me de pequena a morgadinha. Quando ella morreu deixou-me tudo

quanto possuia; n'esse legado entrava a quinta dos Cannaviaes, de que

sou proprietaria ainda. Foi uma como confirmação do titulo, que já desde

creança me tinham dado; e para todos sou aqui a morgadinha, titulo na

verdade pouco elegante e que tão mau conceito fez conceber ao primo

Henrique da possuidora d'elle.

--Retracto-me, prima Magdalena; agora que sei a pessoa a quem elle

pertence, parece-me outro. Acho-o bonito, gracioso...

--Vamos, vamos. Confesse que o titulo não é dos mais romanticos e que,

de boa vontade, escreveria outro nome debaixo do desenho de phantasia

que ahi fez, da mesma maneira que deu á humilde e fiel jumenta, que eu

montava ha pouco, a conformação e orelhas elegantes de um palafrem, e

quasi me transformou em uma amazona ingleza.

Henrique respondeu, sorrindo:

--Na impossibilidade de reproduzir as graças naturaes, soccorri-me ao

expediente das bellezas de convenção. Confesso o meu deploravel erro.

--Olhe que não estamos em Lisboa, primo Henrique. Repare para essas

arvores e refreie o sestro galanteador, com que está.

--Por quem é! Não leve o rigor a tal extremo. Tão injusta é comsigo, que

se recuse a acceitar, como naturaes e sinceras, as phrases que a sua

presença inspira?

--Ai, meu Deus, como refina! Veja como essa creança, que tem no collo, o

está encarando com os olhos espantados. Se ella nunca ouviu falar assim

aqui!

Henrique beijou as faces da creança, movimento em que não ia uma

intenção menos lisonjeira do que nas phrases que dissera, porque elle

percebia que Magdalena era extremosa pelos seus pequenos primos.

Abriu-se, n'este meio tempo, a porta da sala, e entrou, saltando, outra

creança mais crescida, mas ainda de vestidos curtos, trazendo na mão uma

folha de papel.

--Lena--dizia ella em alta voz.--Olha; queres vêr o que o sr. Augusto só

me emendou hoje no thema francez?

Chegando ao meio da sala, parou a olhar com estranheza para Henrique.

--É o sr. Henrique de Souzellas--disse Magdalena.--O hospede da tia

Dorothéa. Esta é Marianna, outra de minhas primas--accrescentou,

voltando-se para Henrique.--Já vê que não faltam creanças n'esta casa; e

ainda ha mais. É o que lhe dá o ar alegre que tem.

Marianna cumprimentou Henrique e não se constrangeu por mais tempo;

mostrando á prima a composição que o mestre lhe emendára, disse:

--Ora vê que não tive muitos erros.

Magdalena sorria, examinando o thema.

Henrique ia a fazer não sei que pergunta a Marianna, quando á mesma

porta, por onde ella entrára, appareceu o mestre, de quem se falava.

Augusto, que assim se chamava o recem-chegado, era um rapaz de pouco

mais de vinte annos de idade; de rosto pallido e physionomia

intelligente.

Ninguem adivinharia n'aquelle typo um mestre-escola de aldeia.

Trajava com simplicidade, porém com asseio e gôsto, e havia em toda a

sua figura certo ar de distincção, que feria quem pela primeira vez o

visse.

N'um leve pendor de cabeça, no olhar penetrante e fixo, e nos labios,

como habituados a fecharem-se á saida dos pensamentos intimos, lia-se o

caracter pouco expansivo d'aquelle adolescente.

Magdalena dirigiu-lhe a palavra, em tom de manifesta deferencia.

--Como vão os seus discipulos, sr. Augusto?

--Optimamente, minha senhora--respondeu o interrogado.

--O sr. Augusto--disse Magdalena, apresentando-o a Henrique--o primeiro

mestre de meu irmão Angelo e hoje mestre de Marianna e Eduardo.

--Esquece-se, minha senhora,--accrescentou Augusto--que de Angelo sou

discipulo tambem, e mais discipulo do que fui mestre.

--Do que me esqueci, e, a falar a verdade, não devia, foi de que de

Angelo é effectivamente mais do que mestre, é amigo; assim como de todos

nós. Este senhor--continuou ella, concluindo a apresentação--é o senhor

Henrique de Souzellas, que se esperava em Alvapenha; é ainda nosso

primo.

Os dois cortejaram-se com affavel delicadeza.

--Teve carta de Angelo?--perguntou em seguida a morgadinha.

--Não recebi ainda o correio de hoje.

--Nem nós; e é de estranhar que meu pae pelo menos não me escrevesse!

Angelo não virá passar a festa comnosco? Pobre rapaz! Parece que renasce

quando se vê aqui. É uma perfeita creança então.

Eduardo, outro primo de Magdalena, que Henrique ainda não vira, entrou

n'este momento na sala, trazendo um masso de cartas na mão. Depois de

cumprimentar Henrique, a quem Magdalena o apresentou, disse para

Augusto:

--A mamã deu-me essas cartas para o sr. Augusto escolher d'ahi aquellas

que eu pudesse ler.

--Eu verei devagar--disse Augusto, guardando-as n'uma pasta que trazia.

--Ah! já temos o Eduardo a ler cartas!--disse a morgadinha, afagando o

primo.

--Pelo que vejo--disse Henrique de Souzellas, vendo Augusto em

disposições de partir--tem uma vida muito occupada?

--E tanto que sou obrigado a pedir licença para me retirar. Tenho de ir

esta tarde a casa do Seabra...

--Ai, lecciona ainda as pequenas do brazileiro?--perguntou Magdalena.

--Ainda, sim, minha senhora.

--E como vão essas mulatinhas?

Augusto encolheu os hombros, sorrindo; gesto que não devia lisonjear a

vaidade do sobredicto brazileiro, se tomasse a peito os dotes

intellectuaes das referidas mulatinhas.

Passados segundos, Augusto retirou-se, apertando a mão a Magdalena que

familiarmente lh'a estendeu, e a Henrique, que a imitou.

--Ia apostar que vae alli uma intelligencia--disse Henrique ao vêl-o

sair--algum d'esses grandes espiritos, que vivem e morrem ignorados e

improductivos, porque os não aquece o sol do favor publico, nem os

bafeja a aura da moda caprichosa. É terra de maravilhas esta, ao que

estou vendo.

--É um rapaz intelligente, é--disse a morgadinha--e uma alma generosa.

Desde tenra idade costumou-se a trabalhar. Não tem familia. O pae foi um

pobre e honrado advogado de um logar perto d'aqui, que morreu quasi na

miseria, deixando-o por educar. A mãe, que era d'estes sitios, para ahi

veio, depois que viuvou. Elle tem sido, pode dizer-se, mestre de si

mesmo. Dirigiu os primeiros estudos de Angelo e hoje é o seu melhor

amigo. A morgada, minha madrinha, legou-lhe um patrimonio para elle se

ordenar: não quiz, e preferiu ser mestre-escola. Meu pae, que lhe

reconhecia intelligencia para mais, tentou dissuadil-o d'isso, mas nada

conseguiu. Não ha quem o arranque d'estes sitios.

--Prende-o talvez alguma paixão?

--Não sei. É certo que é um professor modelo. O seu primeiro despacho

foi temporario; agora, porém, espera meu pae fazel-o effectivo; para o

que já elle fez novo concurso. Já vê que ambições são as d'este rapaz.

--Na verdade! com muito menos fundamentos ha quem aspire a ser ministro.

Mas com certeza o coração entra como elemento no problema d'esse

caracter.

--Mas ainda agora reparo!--exclamou a morgadinha--eu esquecida a

conversar, e sem avisar a minha tia e Christina da sua chegada! Não o

fiz logo, porque as sabia occupadas em umas longas novenas, em que

andam; mas agora é tempo. Vae, Marianna, e tu, Eduardo; ide ambos

dizer-lhes que está aqui o... o primo Henrique de Souzellas.

Marianna e o irmão sairam a correr.

--Vae conhecer duas boas almas--disse Magdalena, voltando-se para

Henrique--minha tia é uma santa senhora, cujo peor defeito é suppôr-se

victima dos criados; e Christina... Christina é um anjo.

V

Henrique de Souzellas sentia-se cada vez mais penetrado da sympathia,

que logo á primeira vista, aquella mulher lhe despertára.

Havia na morgadinha um mixto de candura e de ironia, certa delicada

reserva fluctuando, como uma sombra diaphana, na conversa familiar, a

que tão espontaneamente se dava; um visivel conhecimento dos usos e

etiquetas sociaes, e ao mesmo tempo uma coragem para cortar por elles,

como quem se sentia sobranceira a toda a ousadia, inaccessivel ás

suspeitas dos mais atrevidos: havia tantos enygmas n'aquella sympathica

indole feminina, que poucos seriam impassiveis deante d'ella.

A pensar n'isto se ficou Henrique de Souzellas, calado, immovel,

absorto, seguindo com os olhos os movimentos de Magdalena, que, sem o

menor constrangimento, proseguia nas suas occupações domesticas.

Ouviram-se finalmente passos e vozes de differentes timbres na sala

immediata.

--Ellas ahi veem--disse a morgadinha.

De feito, precedidas por Marianna e Eduardo, entraram na sala D.

Victoria e Christina.

A mãe vinha dizendo:

--É o que eu digo... Não que vocês não querem crer! Ora vejam se isto se

atura... se isto não é para metter uma pessoa no inferno!... Não tem que

vêr!... Não ha ninguem que mais dinheiro gaste com criados e que seja

tão mal servida como eu!... Eu só queria saber o que fazem os criados

d'esta casa? Sim, só queria que me dissessem o que elles fazem, esse

bando de mandriões!... Elle é o Torquato, elle é o Luiz, elle é o

Damião, elle é a Ermelinda, elle é a Rosa, elle é a Violante... e não

havia um só que me viesse dizer que tinha chegado o primo! É forte

coisa!... Compromettem uma pessoa! Então como está?--accrescentou ella,

mudando de tom para cumprimentar Henrique, a quem estendeu a mão.

Magdalena, ao ouvil-a, tinha já trocado com este um olhar malicioso.

Henrique correspondeu delicadamente á saudação das senhoras e procurou

justificar os criados.

--Não m'os desculpe,--atalhou D. Victoria, elevando outra vez o tom de

voz--aquillo é de proposito para fazerem ficar mal uma pessoa; ninguem

me tira isto da cabeça... Aquillo é de proposito!

--Mas a mamã não vê que as criadas estavam comnosco á novena?--lembrou

timidamente Christina.

--Pois que não estivessem. Quem tem serviço a fazer não pode ouvir

novenas.

--Mas se a mamã é que as mandou!

--Pois sim... pois sim... mas... mas ellas é que me deviam dizer que

tinham que fazer. Então eu é que lhes hei de estar a lembrar as suas

obrigações? Não me faltava mais nada! Ora tens coisas, menina! Mas então

vamos a saber, primo Henrique, fez bem a sua jornada?

Henrique principiou a falar para desvanecer a irritação de D. Victoria.

Como nós já sabemos dos pormenores da tal jornada, aproveitaremos a

occasião para dizer duas palavras a respeito das novas personagens, que

estão em scena.

D. Victoria, havendo attingido já a idade respeitavel dos quarenta e

tantos annos, dispensa-nos grandes longuras e esmeros de descripção.

Basta que o leitor saiba que era uma senhora nutrida, bondosa no fundo,

e que sabia muito bem trazer os vestidos escuros da sua viuvez.

Impertinente com os criados, doida pelos filhos e sobrinhos, muito

sujeita a esquecimentos, e confundindo-se facilmente sempre que tentava

forçar o espirito a abraçar alguma ideia mais complexa; mãos rotas com a

pobreza; intolerante, em theoria, com os ladrões e malfeitores, porém

felizes d'elles se d'aquellas mãos lhes dependesse a condemnação; eis o

que era D. Victoria. Christina, porém, tinha dezenove annos; e esta

idade gosa de privilegios, que eu não posso infringir. O leitor não me

perdoaria se me visse passar estouvadamente por deante da prima de

Magdalena, sem um olhar de homenagem á sua juventude e ao seu typo

feminino. Reparemos pois.

Christina era mais bonita do que bella. Não havia n'aquelle rosto uma só

feição, que não fôsse correcta e delicada. Tez alva e finissima; olhos

meigos e quebrando-se com suavidade infantil; bôca, d'onde parecia

sempre prestes a sair um afago ou uma consolação; voz, que da muita

piedade d'aquelle bom coração, tirava ás vezes modulações commoventes;

n'uma palavra, uma figura de cherubim, como as sonharam os mais

inspirados artistas, cuja mão representou na téla os augustos mysterios

do christianismo, tal era a primogenita de D. Victoria. Mas não

procurassem n'ella alguns d'aquelles attractivos, que fixam de repente e

como por magnifico influxo, a attenção dos olhos, uma d'essas

particularidades physionomicas, pelas quaes a natureza, destruindo com

arrojo feliz a geral harmonia de um semblante, consegue tornal-o mais

fascinador; temperavam-se alli tão completamente todas as feições, que a

attenção não se sentia obrigada a passar do conjuncto d'ellas, o que

lhes diminuia muito a intensidade. É o grande senão dos rostos

harmonicamente perfeitos.

Concordava-se em que Christina era galante, ninguem lhe negaria

sympathias; mas o pensamento na ausencia d'ella, não se sentia dominado

por a sua imagem: perdia-a até n'um vago, quando pretendia fixal-a: eram

suaves de mais as inflexões d'aquelles contornos, brandas as tintas que

lhes davam relevo, para que a memoria conseguisse reproduzir facilmente

o typo angelico, de que lhe ficára uma agradavel, mas vaga impressão.

Por um homem, em quem predominasse a razão, Christina poderia vir a ser

adorada; mas nas imaginações ardentes, nos corações inflammaveis,

difficil lhe seria produzir alguma impressão duradoura.

Para bem se comprehender a belleza de Christina, era preciso sondar-lhe

primeiro o coração, apreciar todo o thesouro de sentimentos que alli se

continha; então descobrir-se-lhe-hia nas feições certa belleza ideal,

reflexo de bondade e candura, uma d'essas claridades que as almas puras

e generosas vertem nas physionomias. Se não fôsse receiar-me de

linguagem que saiba a philosophia, diria que a belleza, que possuem umas

mulheres assim, é uma belleza subjectiva.

De tudo isto é natural concluir que Henrique de Souzellas podia

sympathisar com a candida figura de Christina, a qual baixava

timidamente os olhos deante d'elle, córando cheia de enleio e confusão,

mas que qualquer sentimento que ella lhe inspirasse, não conseguiria por

muito tempo desviar-lhe o sentido dos encantos mais attrahentes da

morgadinha--que a muitos respeitos, menos na bondade de coração, formava

contraste completo com sua prima.

Travára-se animada conversação entre as pessoas presentes, e

principalmente entre Henrique, D. Victoria e Magdalena.

D. Victoria quiz ser informada da doença de Henrique. Este passou a

fazer-lhe uma exposição igual, com pequenas variantes, á que fizera á

tia.

Mencionou, como a ella, aquelles vagos symptomas, aquellas tristezas,

impaciencias e desalentos, que tão ingenuamente a boa senhora

classificára como mania.

Emquanto Henrique falava, Magdalena poz-se a rir.

Henrique tornou para ella os olhos.

--Ó menina, de que ris tu?--perguntou D. Victoria, com certo tom de

severidade.

--Rio-me d'aquella doença, tia. Pois já viu alguem padecer d'aquillo?

Ora diga?

--Eu?... mas...

--Pode dizer que não. E comtudo o primo Henrique não mente. Ha

d'aquellas doenças na cidade, ha; mas na aldeia são tão raras, que eu

mesma as estranho já, eu que as vi em outro tempo...

--Então não crê na realidade d'ellas.

--Não lhes estou a dizer que sim? Ouço até que já teem levado ao

suicidio. Acredito-o. Os habitos da civilisação affeiçoam a seu modo a

natureza humana e criam molestias novas, que nem por isso são menos

naturaes. Mas que quer, primo? A minha estranheza, ao vêr um d'esses

doentes em plena aldeia, não é modificada por todas essas considerações.

É como um homem de casaca e gravata branca; não ha nada mais sério e

mais grave n'uma sala de baile, mas colloque-m'o n'um monte, e diga se o

pode olhar a sério.

--Quer dizer que não devo queixar-me aqui, sob pena de zombarem de mim.

--Tanto não digo; mas não o entenderão; isso não.

--Porém a minha doença não é só d'essas, que se não dão na aldeia, prima

Magdalena; eu creio que verdadeiras desordens organicas...

--Ah! tambem?--Com esse aspecto de robustez?!...

--Se eu sei o que tu estás ahi a dizer Lena!--disse D. Victoria, que não

tinha percebido bem o dialogo.

--É que eu, minha tia, teimei em fazer perder ao primo Henrique todos os

maus habitos da cidade, com que veio para aqui. Sem isso não pode

curar-se.

--Sujeitar-me-hei da melhor vontade a tão agradavel dominio.

--Principia mal, se principia com uma fineza. Já o avisei ha pouco...

--Será necessario tornar-me grosseiro, para me salvar? N'esse caso

renuncio á cura.

--Grosseiro, não; basta que seja razoavel e sobretudo...

--Acabe.

--Acabo? eu sei? Eu ás vezes sou sincera de mais.

--Eu adoro as sinceridades.

--Já que o quer... É preciso que seja razoavel e sobretudo...

desaffectado.

Henrique de Souzellas mordeu ligeiramente os labios, córando.

--Então acha?...

--Acho que está sempre a imaginar-se n'um salão; faz uns gastos de

galanteria, desnecessarios e perdidos.

--Ó meninos, eu não vos entendo--repetia D. Victoria.

Magdalena sorriu.

--Digo eu que...

Um criado entrando com as cartas do correio não a deixou continuar.

--Sempre chegou o correio!--exclamou Magdalena com vivacidade, recebendo

as cartas.--Por que veio tão tarde?

--A mulher contou-me lá umas historias de uma quéda, e...

--Coitada! Aconteceu-lhe algum mal?

--Esteja descançada, minha senhora. Ella partiu já e era um gôsto vêl-a

a correr.

Magdalena abriu com pressa a carta recebida.

--É de meu pae--disse ella, olhando-lhe para a lettra e, depois de pedir

licença, começou a ler para si.

--Pois agora--dizia, n'este meio tempo, D. Victoria a Henrique--o que

deve é aproveitar estes bonitos dias para dar alguns passeios. As

pequenas acompanham-n'o. Aonde me dizias tu no outro dia que querias ir,

Christina?

--Eu! disse Christina, córando.

--Tu, sim, menina. Inda hontem me falaste n'isso. Ora onde era?...

--Á Senhora da Saude, mamã.

--Ai, é verdade, á Senhora da Saude. Ahi está já um passeio bonito. Vê?

Saem d'aqui uma manhã cêdo, levam alguma coisa para lá comer, porque o

ar do monte abre o appetite, e a cavallo estão lá n'um instante...

--A cavallo, mamã! d'aqui á Senhora da Saude? Ora! Vae-se muito bem a

pé--notou Christina do lado.

--Isso é por os açudes.

--Pois por onde haviamos de ir?

--Por a Granja, que é melhor.

--Por a Granja! É uma legua!

--Que tem? mas escusam de trepar como cabras por o lado dos açudes, que

é até perigoso; e depois para que hão de ir a pé, se para ahi estão os

cavallos sem fazerem nada? É vontade de se cançarem.

--Mas appetece ainda mais n'este tempo. Só se... só se alli o sr.

Henrique...--disse Christina, embaraçada ao continuar.

--Eu o quê, minha senhora?

--Perdão--interrompeu D. Victoria.--Por que não has de tu chamar primo

ao primo Henrique? pois não chamamos tia á tia Dorothéa?

--Por isso mesmo, mamã,--respondeu Christina--os sobrinhos da tia

Dorothéa não são...

--Não averiguemos d'esses parentescos, priminha,--acudiu Henrique--eu

acceito a proposta da mamã, peço para ser considerado do numero de seus

primos.

Christina baixou os olhos, sorrindo.

Henrique proseguiu:

--Mas parece que receiava por mim, quando falou em ir a pé á Senhora da

Saude. Não sei onde é o logar, mas desde já me comprometto a não cançar.

--Não tem que saber--disse D. Victoria, caminhando para uma

janella.--Ella lá está. Olhe que inda é necessario saber trepar.

--Tendo duas tão galantes companheiras de viagem--tornou Henrique,

depois de reparar no monte escarpado que ficava a alguma distancia

d'alli, o mesmo que o almocreve lhe mostrou--parece-me que daria a pé

uma volta ao globo e que subiria a correr o Pico de Tenerife.

--O que eu lhe digo, primo--accrescentou D. Victoria--é que se acautele,

porque se lhes vae a fazer todas as vontades, tem que vêr.

--Inda que morresse em tão agradavel serviço, teria de agradecer a Deus

a morte.

--Cá me chegou aos ouvidos o cumprimento--disse Magdalena, que

continuava a ler.--Logo ajustaremos contas.

--É implacavel esta nossa prima, não acha?--perguntou Henrique,

sorrindo, a Christina, que por unica resposta só soube sorrir tambem.

--Pois então, é arranjarem, é arranjarem isso e quanto antes, que não ha

que fiar no tempo. Eu se pudesse tambem ia, mas já não são passeios para

mim, e depois estes criados...

Henrique de Souzellas receiou nova divagação sobre o assumpto predilecto

de D. Victoria; mas felizmente acudiu-lhe a morgadinha, que disse,

terminando a leitura da carta:

--Escreve-me o pae que tenciona vir passar comnosco as ferias do Natal e

trazer Angelo comsigo. Promette demorar-se até o dia dos Reis.

As creanças saudaram a nova com gritos de alegria, e saltos de causarem

inveja a um clown de circo.

A Morgadinha dos Cannaviaes (Chronica da aldeia) · 第 16 / 66 题