D. Victoria zangou-se.

--Então que pouca vergonha é essa? Parecem-me um bando de patetas! Ora

vamos! Já quietos. A culpa tem a Ermelinda, que já vos devia ter levado

para a quinta. Ó Senhor, esta praga de criados, que nunca ha de fazer a

sua obrigação!

As creanças reprimiram um pouco mais as expansões de seus jubilos, mas

ainda ficaram cantando a meia voz, em musica de composição d'ellas, o

seguinte:

--Vem o primo Angelo! Vem o primo Angelo! Ora viva, viva! Ora viva, olé!

--Pschiu! Calae-vos!--bradou ainda D. Victoria; e voltando-se para

Magdalena:--Mas então como se entende isso, Lena? Então o pae diz que

vem...

--Nas vesperas do Natal.

--Sim, nas vesperas do Natal, e vae...

--Depois dos Reis.

--Sim; está bem; e... sim... e então o Angelo?...

--O Angelo vem com elle. Quer vêr a carta?

--Não, menina. Mas é preciso não fazer confusão... Então...

--Não ha nada menos confuso... É só isto.

--Sim; pois agora, sim; agora está bem claro. Calae-vos, diabretes! Ó

meu Deus, que consumição! Mas então por que não entregou o criado ha

mais tempo essa carta? Eh! não que vocês dizem que elles...

--Ó tia, pois não ouviu que foi a mulher das cartas que se demorou,

porque...

--Historias! Não me venham para cá com esses contos. Vocês estão sempre

promptos para desculpal-os. São elles...

--Ó Lena, Lena--diziam as creanças--o primo Angelo não torna para

Lisboa?

--Ha de tornar.

--Ora!

--Olha lá, ó Lena--disse D. Victoria--sabes tu o que me lembra?... Mas

eu nem sei... com estes criados que tenho... Mas a mim lembra-me... uma

vez que teu pae vem com o pequeno... e... está agora cá o primo

Henrique... lembra-me a mim... mas, já digo, era se eu pudesse contar

com os criados que temos... lembra-me, juntarmo-nos todos para

consoar... A prima Dorothéa tambem, e aqui o primo; mas era se...

Uma perfeita ovação acolheu o projecto; as creanças levaram as suas

demonstrações de enthusiasmo até o delirio, penduraram-se ao pescoço, á

cinta, ao avental da mãe, gritando todas a um tempo:

--Ai, sim, mamã, sim; mande convidar a tia Dorothéa, mande! E ha de

ficar em casa, sim? Olhe e... e arma-se o presepe... e... e... e havemos

de cantar as janeiras... Mande, mande, mamã, por as alminhas; ora mande.

D. Victoria fingia arrenegar-se com aquella pequenada, e erguia o braço,

como para a fustigar asperamente, mas, contra a sua vontade, rompia-lhe

o riso dos labios.

--Saiam d'aqui!--exclamava ella, quando conseguiu estar

séria.--Saiam!... Não ouvem?... Espera que eu vos falo... Ai, não fazem

caso? Ora esperem... Marianna, já devias ter mais juizo... Então,

Eduardo! Tu tambem? Não tem vergonha! Um homem quasi! Saiam d'aqui,

estafermos!

A ideia das consoadas em familia fôra uma ideia que a ninguem deixára

impassivel. Christina, a timida Christina, não disfarçou um movimento de

jubilo; as mãos ajuntaram-se-lhe instinctivamente, e raiou-lhe no olhar

suave um fulgor pouco costumado.

A propria Magdalena não se mostrou superior áquella tocante puerilidade.

Approximou-se com viveza da tia, e beijando-a nas faces, disse-lhe

affectuosamente:

--Ora ahi está o que é muito bem pensado.

--Pois sim, sim, mas o peor é... os criados--disse D. Victoria.

--Quem fala n'isso? Na noite de Natal quem mais trabalha somos nós.

Demais, teremos, para dirigir as tarefas, a Maria de Jesus, a criada da

tia Dorothéa.

--Isso é que é a perola das criadas! Oh! aquella prima Dorothéa, aquella

sua tia, primo Henrique, é que teve felicidade! Mas dizes tu... Bem se

importam os de cá com a Maria.

--Não tem dúvida. N'aquella noite quanto mais barulho e desordem,

melhor--aventurou-se a dizer Christina, com impeto revolucionario.

--Ahi temos outra! Não, filha; isso é que não. Para barulhos é que eu já

não estou. Então, não.

--Está resolvido--disse a morgadinha, para cortar pelas divagações da

tia.--Aqui o sr. de Souzellas--accrescentou, com maliciosa

inflexão--fica desde já encarregado de transmittir á tia Dorothéa o

nosso plano e, ao mesmo tempo, officialmente convidado.

--Acceito da melhor vontade.

--Não sei se o deverá dizer. É preciso que o avise de que n'aquella

noite todos teem de trabalhar na cozinha; a ninguem se dispensa, um

minuto, pelo menos, de collaboração nos guisados. Por isso veja lá....

--Ó menina, tens coisas!--disse D. Victoria.--Deixe-a falar, primo.

--Não é deixe-a falar. Eu não dispenso ninguem.

--E eu prometto não me recusar. Promptifico-me a tornar detestaveis os

pratos em que puzer a mão. Que mais querem?

Foi alegremente acolhida a promessa.

As creanças, familiarisadas já com Henrique, em quem tinham adivinhado

um humor jovial, o que é sempre para ellas um motivo de attracção,

trepavam-lhe já aos joelhos e dirigiam-lhe perguntas sobre perguntas,

difficultando-lhe as respostas.

--Havemos de jogar o rapa, não havemos?

--Havemos de jogar, havemos--respondeu Henrique.

--E o par ou pernão?

--Tambem; tambem havemos de jogar o par ou pernão.

--E?...

--Tudo, tudo; havemos de jogar tudo.

--Olhe: e sabe contar historias?

--Sei tambem contar historias.

--Então ha de contar-nos, que nós tambem lhe contamos a da Gata

borralheira, a da Maria de pau e a da Menina com as tres estrellinhas na

testa.

--Ora, o sr. Henrique já as sabe--disse, fazendo-se sisuda, Marianna.

--Pois não sei, não, senhora; quem lhe disse que eu as sabia? hei de

querer ouvir isso tudo.

--Ó meninos!--exclamou D. Victoria, que até alli estivera distrahida a

discutir com Magdalena.--Então isso que é? Já para baixo. Ai, se lhes dá

confiança, está arranjado, primo.

--Deixe-os estar, minha senhora, este contacto de alegrias é salutar;

pegam-se.

--E não o diga a brincar--disse Magdalena--que tambem confio n'essas

creanças para o curarem dos seus males.

--Então devéras emprehendeu curar-me?

--Com toda a certeza.

--N'esse caso havemos de discutir devagar esse ponto de pathologia.

--Não havemos, não, senhor. É mau medico o que soffre que o doente o

interrogue sobre a molestia e o tratamento. O medico deve ser obedecido

com fé, e cega.

Christina que, havia muito, defronte de Magdalena, fazia esforços por

lhe chamar a attenção, resolveu-se a falar-lhe.

--Lena--disse ella--que te parece a lembrança que teve ha pouco a mamã?

--A das consoadas? Excellente.

--Não, menina, a do passeio á ermida.

--Ah! Excellente tambem. Marquemos já o dia.

--Quando queres?

--Depois de ámanhã, que é quinta feira.

--Seja.

--Que diz, primo Henrique?

--Quando quizerem, primas; agora mesmo...

--Mas, veja lá, atreve-se a fazer uma madrugada?

--Pois não viu hoje?

--Ai, pois não! Na aldeia não se chama isso uma madrugada. É preciso que

se levante ás horas, a que se deitava na cidade.

--Que estás a dizer, Lena?--acudiu Christina.--Deixa-a falar. Basta que

saiamos d'aqui ás cinco horas.

--Esta innocente Christina! Pois não é o mesmo que eu digo? Pergunta ao

primo Henrique se tinha costume de se deitar mais cêdo em Lisboa.

--Engana-se, prima Magdalena; lembre-se de que, ha perto de um anno, sou

valetudinario.

--Ai, é verdade, que me tinha esquecido. O que vejo é que ha por aqui

muita indolencia.

--Quem a ouvir falar, ha de julgar que será ella a mais madrugadora; ora

havemos de vêr--disse Christina.

Magdalena poz-se a rir.

E o passeio ficou ajustado. A morgadinha lembrou que se convidasse

Augusto, por ser conhecedor do sitio e poder mostrar os mais bellos

pontos de vista.

Henrique saiu finalmente da quinta do Mosteiro, já retardado uma boa

hora ao que promettera á tia Dorothéa.

Um criado serviu-lhe de guia até Alvapenha.

Henrique de Souzellas, ao findar aquella manhã, era inteiramente outro,

do que viera para a aldeia. Todas aquellas horas se haviam passado, sem

que o affligissem os males habituaes, sem que nem sequer pensasse

n'elles. O viver intimo a que assistira, a troca reciproca de affectos

entre os membros de tão numerosa familia, a franqueza cordial com que

fôra recebido, produziram n'elle uma impressão profunda.

Costumado ao viver desconsolador e de gêlo de rapaz solteiro e só; não

passando, nas casas que visitava, além da sala de visitas, esse palco

artificioso e reservado, onde as familias ante as familias representavam

a comedia social, Henrique estranhára, mas agradavelmente, o

espectaculo, quasi novo, d'aquelle interior, d'aquelles modestos

costumes, d'aquellas alegrias, que não se envergonham de apparecer sem

reservas nem disfarces. Foi uma revelação que recebeu. Sorriu-lhe a

ideia de ter um dia uma familia assim; de viver entre creanças que lhe

trepassem aos joelhos, na companhia de affectos, que alli via

manifestarem-se, e até com alguem que ralhasse com os criados, á maneira

de D. Victoria.

Escusado é dizer que a imagem da morgadinha apparecia sempre n'estes

quadros que lhe traçava a phantasia: assim como, nos quadros dos grandes

mestres, apparecem quasi sempre reproduzidas as feições queridas da

mulher que elles traziam no pensamento e a quem deram assim a

immortalidade.

De manhã parecera-lhe a aldeia um paraiso terreal; completára-o a figura

de uma mulher; sem o sorriso d'ella nem o primeiro homem seria feliz no

eden, onde a mão de Deus o collocára.

--Anda, vagaroso, anda--disse D. Dorothéa a Henrique, assim que o viu

chegar.--Se o jantar tiver esturro, a culpa é tua.

--Perdôe-me, tia. Demorei-me no Mosteiro...

--Ah! foste lá? E então gostaste d'aquella gente?

--É uma familia para o coração. Passa-se o tempo alli tão depressa! A

morgadinha, sobretudo, é adoravel!

--Ai, ai; como elle nos vem! Olha lá no que te mettes, menino! A mina

boa é, mas... filho, anda alli encanto, que ainda ninguem descobriu.

Henrique fitou os olhos na tia Dorothéa, que dissera isto com certa

malicia.

--Que quer dizer, tia?

--Tu bem me percebes. Anda lá, anda. Se fizesses tu o milagre, se

quebrasses o encanto, grande coisa seria; mas sempre te digo que não

tomes a coisa a peito, que podes aggravar o teu mal.

Henrique levou o caso a rir, mas é certo que esteve um pouco mais

preoccupado e distrahido no resto da tarde.

A Morgadinha dos Cannaviaes (Chronica da aldeia) · 第 17 / 66 题