III

Ao romper da manhã, quando a consciencia principia, pouco a pouco, a

acudir aos sentidos, até então tomados pelo torpôr de um somno profundo,

Henrique de Souzellas sonhava-se commodamente sentado em uma cadeira de

S. Carlos, disposto a assistir ao desempenho de uma opera favorita.

Moviam-se os arcos nas cordas dos violinos, violoncellos e contrabassos;

sopravam, a plena bôca, os tocadores dos instrumentos de vento; agitavam

descompostamente os braços os ruidosos timbaleiros; dedos amestrados

faziam vibrar as cordas da harpa; a batuta do mestre fendia airosamente

os ares, e comtudo não chegava aos ouvidos de Henrique, de toda esta

riqueza de instrumentação, mais do que uma nota unica, arrastada,

continua, plangente, baixando e subindo na escala dos tons, e sem formar

uma só phrase musical.

Era de desesperar um _dilettante_ como elle; torcia-se na cadeira,

inclinava convenientemente a cabeça, fazia das mãos cornetas acusticas,

e sempre o mesmo resultado!

Este violento estado de attenção, este esforço do sensorio, principiou

n'elle a obra de despertar; principiou pois pelos ouvidos, mas cêdo se

transmittiu a todos os outros orgãos.

Antes de dar a si proprio conta do que era aquelle som, e quasi

esquecido ainda do logar em que estava, Henrique abriu os olhos.

A luz do dia penetrava já pelas frestas mal vedadas das janellas e

espalhava no aposento uma tenue claridade.

Veio então a Henrique a consciencia do logar em que estava, e uma

alegria profunda lhe dilatou o coração.

O leitor se ainda não padeceu de insomnias, de pesadêlos, ou de somnos

febris, não avalia por certo o contentamento intimo, que se apossa das

desgraçadas victimas d'esses demonios nocturnos, quando por excepção

elles as deixam em paz, e lhes respeitam o somno de uma noite completa.

Acordar só aos raios da aurora é um dos mais ineffaveis prazeres, a que

elles aspiram na vida.

Penetra-lhes então nos membros um insolito vigor; a arca do peito

expande-se-lhes mais livre e as sombras do espirito dissipam-se-lhes com

aquelle clarão matinal.

Foi o que succedeu a Henrique. Pela primeira vez depois de muitos mezes,

dormira de um somno a noite inteira.

Sentia-se com isto tão bom, tão vigoroso, tão contente que teve vontade

de cantar.

Mas o som, que o acordára, aquella nota unica, em que se confundiam

todas as notas da sonhada orchestra, ainda lhe soava aos ouvidos.

Prestando-lhe a attenção de acordado, conheceu que era o chiar dos

carros--o mesmo som, que na vespera o irritára, agora assim a distancia,

estava-lhe agradando, como nota extrahida por mão habil das cordas de um

violino.

Não resistiu mais tempo ao impulso que n'aquella manhã o incitava ao

exercicio, rara disposição no indolente filho da capital, que tinha por

habito ouvir o meio dia na cama.

Ergueu-se e abriu as janellas.

Não é licita a comparação entre a mais surprehendente transmutação de

uma d'essas apparatosas magicas, que tanto extasiam as multidões

embasbacadas nas plateias e camarotes de um theatro, e as que de

instante para instante, realisa a natureza. Descerrando o véo de nuvens

que encobre o fulgor do sol, elevando, acima do horizonte, esse

magestoso lampadario do mundo, ou o brilhante reflectidor que illumina

as noites desanuviadas, a natureza opéra, a cada momento, as mais

admiraveis e completas metamorphoses.

Durante o somno de Henrique realisára-se um d'esses effeitos magicos.

Abrandára gradualmente a violencia do sul; o vento, mudando, voltou em

sentido opposto a grimpa do campanario; dispersaram-se as nuvens;

luziram trémulas por momentos as estrellas, empallideceram perante o

alvor do dia, e quando o sol assomou por sobre a crista das serras,

estendia-se-lhe deante um vasto manto azul, tapetando a estrada, que

tinha a percorrer. Só, muito para o occidente, ainda algumas nuvens

amontoadas formavam uma como franja, que o astro nascente em breve

tingiu de carmim e de ouro.

Foi pois a luz de um dia esplendido e a brisa, cheia de aromas, que vem

dos campos nas alvoradas serenas que penetraram no quarto de Henrique,

quando elle abriu as janellas.

A inesperada surpreza quasi lhe soltava do peito uma exclamação de

prazer!

A aldeia, aquella mesma aldeia, escura e triste que, com o coração

apertado, atravessára na vespera, parecia outra.

O sol da manhã baixára sobre ella, dissipára-lhe as sombras,

colorira-lhe as verduras, reflectira-se-lhe nas presas, dispersára-se em

iris cambiantes na espuma das torrentes e cascatas naturaes, perfumára-a

de aromas, animára-a de cantos, transformára-a emfim na mais risonha

paizagem, em que os olhos de Henrique, pouco habituados ás esplendidas

galas do Minho, tinham nunca repousado.

O inverno despojára parte d'essas galas; embora! Até da propria nudez de

algumas arvores resultavam encantos. As folhas crestadas, os ramos

despidos, as moitas sem flores infundem tristeza; mas não tem a tristeza

poesia tambem? Pode haver completa paizagem onde não haja uns tons

escuros de melancolia?

Henrique de Souzellas, debruçado na varanda de pedra do quarto, não se

cançava de admirar aquella scena.

Parecia-lhe estar assistindo a um milagre de fadas, que, n'um momento,

elevam, nos ermos, jardins e paços, como os de Armida e Alcina.

Pois era esta a mesma aldeia, através da qual elle cavalgára de noite?

Os accidentes do terreno, aquelles accidentes, que tão do fundo da alma

amaldiçoára na vespera, produziam, vistos então d'alli, os mais

pittorescos effeitos. Abatia-se-lhe aos pés um não muito profundo valle,

opulento em vegetação, e que a certa distancia se continuava insensivel

e gradualmente com uma amenissima collina.

Além, um bello bosque de carvalhos seculares, que o inverno, privando-os

de folhas, tingira quasi da côr da violeta, contrastava com a fronde

sempre verde das laranjeiras nos pomares vizinhos, fronde por entre a

qual se divisavam abundantes os dourados fructos, poupados pela mão do

lavrador. As copas, como umbelladas dos pinheiros mansos, desenhavam nas

encostas e eminencias fronteiras as mais suaves ondulações. Dispersos

aqui e alli, e entremeiados com a verdura, grupos de casas campestres,

alvejantes á luz do sol, moinhos e azenhas, noras toldadas de ramadas

conicas, eiras, pontes rusticas, as mesmas talvez que com mau humor

trilhára na vespera, tão sinistras então, como graciosas agora; extensas

e virentes campinas e lameiros, onde pastavam numerosas manadas de gado.

Mais longe a igreja com a sua alameda á entrada e o cemiterio, onde um

só mausoléo avultava ainda; uma ou outra casa apalaçada, ennegrecida

pelo tempo; algumas ruinas, consolidadas pelas heras, revestidas de

musgos, douradas de lichens; finalmente, tudo o que tenta os

paizagistas, tudo o que exalça os poetas, tudo quanto suspende os passos

ao viajante; e, encobrindo todo o quadro, um tenuissimo sendal de

vapores azulados, dando-lhe a apparencia de uma das mimosas composições

a pastel da mão de Pillement.

A mudança de aspecto da scena operou não menor mudança nos sentimentos e

disposição do enlevado espectador que das varandas de Alvapenha a estava

observando.

--É preciso sair! é preciso sair!--disse Henrique comsigo.--Quero vêr

isto de perto; quero entranhar-me n'estes bosques, quero trepar por

aquelles montes, debruçar-me d'aquellas ribanceiras.

E vestindo-se á pressa, e sem sentir a necessidade de uma escrupulosa

_toilette_, saiu do quarto.

Encontrou nos corredores a tia Dorothéa, que o saudou amavelmente.

--Muito bons dias, menino, então como passaste tu a noite?

--Deliciosamente minha querida tia--respondeu elle, abraçando-a com

maior affecto e bom humor do que na vespera.

O que é sentir-se a gente bem!

--Então não estranhaste?

--Estranhei immenso!

--Sim?!--disse a tia, mortificada.

--Dormi a noite de um somno, e acordei bem disposto; o que para mim é a

mais estranha das occorrencias.

A tia sorriu satisfeita.

--Pois antes assim. E agora...

--E agora quero sair, quero vêr esta terra, que me está parecendo um

paraiso terreal.

--Espera, menino. Não vás sem almoçar.

--Almoçar! Pois que horas são?

--Não é cêdo; são já sete horas.

--Já sete horas!

E Henrique insensivelmente desviou os olhos para a janella, para vêr

como era a natureza, a uma hora a que raras vezes a examinava.

--E então acha que se pode almoçar ás sete horas?

--Por que não? Se está já prompto.

--Bom; almocemos. O doutor disse-me que tomasse os habitos da aldeia.

Principiemos por este.

Entrando para a sala do jantar, Henrique viu deante de si uma taça de

leite espumante, tépido, odorifero, extrahido de pouco tempo.

Foi por elle que principiou o almoço.

Pela primeira vez na sua vida disse elle ter bebido o leite verdadeiro,

o leite que não faz mentir a analyse dos chimicos, de que os

physiologistas exaltam as qualidades nutritivas, de que os poetas das

georgicas cantam as delicias e virtudes; só agora os comprehendeu elle,

que bem differente d'aquillo era o aguado e quantas vezes derrancado

sôro, a que estava habituado na cidade.

D. Dorothéa, almoçando, e Maria de Jesus, servindo, falaram, segundo o

costume, continuadamente.

Henrique, d'esta vez, falou tanto como ellas.

Ouvia-as já com mais attenção e respondia-lhes com mais vontade e

paciencia.

Falaram em muitas coisas.

A tia deu parte ao sobrinho de que varias pessoas da vizinhança,

sabendo-o chegado, lhe tinham mandado presentes de gallinhas,

offerecendo-se, ao mesmo tempo, para lhe mostrarem as raridades da

terra; disse mais que as senhoras da quinta do Mosteiro tambem tinham já

mandado saber d'elle, Henrique, e lembrou que seria delicado ir

visital-as aquella manhã.

Henrique concordou em tudo, quasi sem reparar em quê, e terminando o

almoço apressou-se a sair para o campo.

--E se te perdes, menino?--lembrou a tia.

--Se me perder, farei por achar-me.

Riram-se muito as boas mulheres e deixaram-o ir.

Dentro em pouco, Henrique atravessava a quinta, que tambem então lhe

parecia graciosa, de uma graça bucolica, a que não estava habituado. O

aspecto melancolico da vespera desvanecera-se. Até para ser completa a

mudança, estavam encadeados nas casotas o Lobo e o Tyranno, cujas boas

graças comtudo procurou conquistar, atirando-lhes biscoutos.

Foi um passeio delicioso o que elle deu. Tudo quanto via lhe era

novidade, tudo lhe captivava a attenção e o distrahia dos seus lugubres

pensamentos.

Depois de muito andar, de subir collinas, de descer valles e costear

ribeiros, foi sair a um pequeno largo, ao fim do qual havia uma casa

terrea, caiada de branco, com portas verdes e janellas envidraçadas,

sendo os vidros em alguns dos caixilhos substituidos por papel. Á porta

d'esta casa estava muita gente parada; mulheres, velhos, moços,

creanças, uns sentados, outros deitados, outros a pé e encostados á

umbreira, e todos apparentemente aguardando alguma coisa ou alguem do

lado de uma das ruas, que vinha terminar no largo, e para a qual se

dirigiam todos os olhares.

Henrique approximou-se d'esta casa com alguma curiosidade, que cêdo

satisfez, vendo em uma taboleta, suspensa no alto da janella, a seguinte

pomposa inscripção: «Repartição do correio», e, como a confirmar o

distico, um córte feito na porta para a recepção das cartas.

Lembrando-se da conveniencia de avisar o empregado do correio para lhe

serem remettidas a Alvapenha as cartas que lhe viessem de Lisboa,

Henrique entrou na repartição.

Consistia esta n'uma loja apenas, mobilada com um banco de pinho e

dividida por um mostrador, para dentro do qual se alojava todo o pessoal

do serviço, isto é, um homem por junto; e era este o sr. Bento

Pertunhas, personagem importante na terra, e a cuja intelligencia e

solicitude estavam confiadas mais do que uma funcção. Além de servir, em

interinidade permanente, como muitas vezes são as interinidades do nosso

paiz, este cargo, dito por elle, de «director do correio», estava de

posse s. s.^a de uma das cadeiras de latim e de latinidade, com que se

procura em Portugal fomentar nos concelhos ruraes o gôsto pelas lettras

antigas; era ainda regente e director da philarmonica da terra, armador

de igreja em dias festivos, ensaiador de autos e entremezes populares,

e, quando Deus queria, auctor de alguns tambem.

Vendo entrar Henrique nos seus dominios, o illustre funccionario tirou

cortezmente o seu bonnet de pelle de lontra e ergueu-se da banca para

cumprimentar tão honrosa visita. Nos cumprimentos que formulou disse o

nome de Henrique.

Admirado por ser já conhecido, Henrique interrogou o latinista e,

achando-o muito informado de tudo quanto lhe dizia respeito,

convenceu-se de que estava na presença de um esmerilhador de vidas

alheias do mais fino quilate e de um falador de assustar.

Com o fim de cortar a divagação, em que o homem entrára a respeito de

certa viagem que fizera a Lisboa, perguntou-lhe Henrique se o correio

não chegára ainda.

--Saiba v. s.^a que ainda não--respondeu o sr. Bento Pertunhas--mas não

deve tardar; o homem que d'aqui vae buscar as malas á villa, se bem

andasse, já cá podia estar. Esse formigueiro de gente, que v. s.^a ahi

vê á porta, está á espera d'elle. Hoje então, que chegam as cartas do

Brazil, ninguem pára com este povo. Dão-me cabo da paciencia. Isto é um

inferno! Eu sirvo este logar interinamente, emquanto o empregado está

paralytico; porque eu tenho outro cargo publico; sou professor de

latinidade.

--Ah!...

--É verdade, mas a minha vocação era para as artes. Meu pae queria que

eu fôsse padre e mandou-me ensinar latim; mas já então a minha paixão

era a musica. Eu ainda queria que v. s.^a me ouvisse tocar trompa, que é

o instrumento que mais tenho estudado... Se v. s.^a se demorar ha de

fazer-me o favor...

--Com muito gôsto.

--Não poder um homem seguir no mundo a sua vocação!

--Ainda assim não se pode queixar muito. O cultivo das lettras latinas

deve-lhe proporcionar gosos; porque emfim para quem possue instinctos de

arte, a leitura dos poetas já é um lenitivo contra as agruras da vida.

O mestre Pertunhas fitou Henrique com olhos muito abertos.

--Os poetas? Os poetas latinos! Ora essa! Então parece-lhe que pode

achar-se gôsto em lêl-os? Ai, meu caro senhor, eu por mim tenho-lhe uma

vontade!... O latim!... a mais destemperada e desesperadora lingua que

se tem falado no mundo! Se é que se falou--accrescentou em voz baixa.

--Então duvida que se falasse latim?--perguntou Henrique, sorrindo.

--Eu duvido. Não sei como os homens se podessem entender com aquella

endiabrada contradança de palavras, com aquella desafinação que faz dar

volta ao juizo de uma pessoa. Sabe o senhor o que é uma casa

desarranjada, onde ninguem se lembra onde tem as suas coisas quando

precisa d'ellas e passa o tempo todo a procural-as? Pois é o que é o

latim. Abre a gente um livro e põe-se a traduzir e vae dizendo: «As

armas, o homem e eu, canto, de Troia, e primeiro, das praias.» Quem

percebe isto! Ora agora peguem n'estas palavras e em outras, que elles

punham ás vezes em casa do diabo, e façam uma coisa que se entenda! É

quasi uma adivinha. Ora adeus! E depois--continuou elle, enthusiasmado

com o riso de Henrique, suppondo-o de approvação--e depois as

differentes maneiras de chamar a um objecto? Isso tambem tem graça. Nós

cá dizemos por exemplo: «reino e reinos» e está acabado; lá não senhor;

diz-se _regnum_ e _regna_ e _regni_ e _regno_ e _regnis_ e até

_regnorum_. Ora venham-me cá elogiar a tal lingua!

Henrique estava achando delicioso o odio entranhado de mestre Bento

Pertunhas á latinidade que ensinava com a proficiencia, que o leitor

pode imaginar, depois do que ouviu.

--Ai, meu caro senhor--continuou o atribulado _magister_--eu se me vejo

um dia livre d'este amaldiçoado latim, faço uma fogueira, na qual me hei

de regalar de vêr arder o Tito Livio e os Virgilios todos tres.

É de advertir que mestre Bento falava sempre no plural, ao referir-se a

Virgilio.

Quer-me parecer que para este interprete da litteratura latina tinham de

facto existido tres Virgilios, provavelmente irmãos, e cada um auctor de

cada um dos tres volumes da edição, que lhe servia de texto. Dizia

Virgilio 1.^o, 2.^o e 3.^o, como quem se refere aos monarchas homonymos,

que succederam n'um mesmo reino.

--Não me salvo se morro mestre de latim--proseguia elle.--Afunda-me no

inferno o trambolho da syntaxe.

Ia continuar, quando toda a gente, que Henrique viu fóra da porta,

principiou em desordenada azafama a entrar para a loja, que em breve não

comportava mais ninguem.

--Ahi vem o homem, sr. Pertunhas; ahi vem. Graças a Deus, que ahi

vem!--diziam todos á uma.

O funccionario principiou a impacientar-se.

--Então! então! Por onde ha de elle entrar, fazem favor de me dizer?

Saiam, saiam. Não ouvem? Então não fazem caso das minhas ordens? Dêem

logar. Não vêem que estão molestando este senhor?

Cada um dos reprehendidos n'estes termos indignava-se, ao vêr que os

outros não obedeciam ás ordens, mas, pela sua parte, não cedia um passo,

como se lhe valesse algum especial privilegio.

--Saia você, mulher--dizia um.

--E você por que não sae? Olha agora!

--A todos ha de chegar a vez. Descance. Se tiver carta lh'a darão. Lá

por estar aqui não é que...

--Pois então saia tambem. Ora essa!

--Ó santinha, não empurre.

--Ó filho, quem é que lhe faz mal?

--Por onde é que se quer metter, homem de Deus?

--Eu não sou menos que os outros.

--Que quereis vós d'aqui, canalhada?

--Não bata, que ninguem lhe tocou, seu velhote.

--Espera que eu te falo.

Estas e analogas vozes abafavam n'um rumor tumultuoso as agudas

declamações do «director do correio», o qual obrigou Henrique a passar

para dentro da teia, para se salvar das ondas populares.

Henrique estava achando igualmente curiosa a indignação do homem e a

alvoroçada anciedade do povo.

Ha de facto poucas scenas tão animadas, como a da chegada do correio e

da distribuição das cartas em uma terra pequena. Durante a leitura dos

sobrescriptos, feita em voz alta pelo empregado respectivo, um

observador, que estude attento as impressões que essa leitura opéra nos

semblantes dos que ávidos a escutam, como que vê levantar-se uma ponta

de cortina, corrida a occultar-nos as scenas da comedia ou da tragedia

da vida de cada um.

Que hora de commoções aquella, em que se abrem as malas, onde veem

encerrados porventura os destinos de tantas pobres familias! Quantas

vezes verdadeira boceta de Pandora, d'onde se espalham as desgraças e os

pezares!

Nas grandes cidades dispersam-se estas commoções; passam-se no recato

dos gabinetes de cada um. Lembrem-se porém das vezes, em que teem

segurado com mão trémula na correspondencia, que o correio lhes traz; no

anciar do coração com que lhe rasgam o sêllo; nas lagrimas ou sorrisos

com que lhe interrompem a leitura; no irresistivel movimento de

desespero com que a amarrotam depois, ou nas expansões apaixonadas com

que beijaram o nome que a subscreve; lembrem-se d'isso, multipliquem

depois esses affectos todos, despojem-os das reservas que a etiqueta

impõe ás classes mais civilisadas, façam-os manifestarem-se n'um mesmo

momento e n'um mesmo logar, e digam se concebem muitas outras scenas, em

que mais sentimentos e paixões se agitem em lucta travada.

Chegou emfim o homem das cartas, e a custo conseguiu romper até ao

mostrador, onde pousou a mala. O «director», depois de tossir, de

assoar-se, de suspirar e de limpar os oculos com umas delongas, que

formavam com a anciedade do povo um contraste desesperador, abriu

fleugmaticamente o sacco, extrahiu um não muito volumoso masso de

cartas, que despejou n'um cesto de vime, e tomou apontamentos.

Era digno do pincel de um artista aquelle grupo de physionomias, que

seguiam ávidas todos os movimentos de mestre Bento. Olhos e bôcas

abertas, mãos juntas, pescoços estendidos, a cabeça inclinada para

receber o menor som, tudo caracterisava profundamente a anciedade que

lhes dominava os animos.

Mestre Bento Pertunhas achou a occasião apropriada para dizer a

Henrique:

--Pois, senhor, eu nasci para artista. Quasi sem mestre aprendi a tocar

trompa e, não é por me gabar, mas prezo-me de tocar com certo mimo e

expressão.

Henrique volveu o olhar para o auditorio; apiedou-o a consternação

d'aquellas physionomias. Resolveu valer-lhe.

--Tem a bondade de vêr se ha alguma carta para mim?

--Ah! pois já as espera hoje?

--Não é provavel; porém...

Mestre Bento Pertunhas, em vista d'isto, começou em voz lenta e fanhosa

a leitura dos sobrescriptos.

Seguiu-se novo e não menos interessante espectaculo.

A cada nome proferido, erguia-se quasi sempre uma voz, ás vezes um

grito; estendia-se por cima das cabeças um braço, e, podemos

accrescentar ainda que se não visse, alvorotava-se um coração.

Outros, os não nomeados ainda, olhavam com anciedade para o masso, que

diminuia, e cada vez mais se lhes assombrava o semblante.

--Luiza Escolastica, do logar dos Cójos--lia mestre Pertunhas.

--Sou eu, senhor, sou eu; ai, o meu rico homem!--exclamou uma mulher

joven, apoderando-se ávidamente da carta.

--Joanna Pedrosa, de Serzedo--continuava elle.

--Aqui estou; será do meu Antonio, senhor?--disse uma velha, pobremente

vestida.

--Será do seu Antonio, será--respondeu o insensivel funccionario;--o que

lhe posso dizer é que traz obreia preta.

A mulher, que já tremia ao receber a carta, deixou-a cair, ouvindo

aquellas sinistras palavras. Apanharam-lh'a; e ella, tomando-a, saiu da

loja, a chorar lastimosamente.

--Se foi o filho que lhe morreu, não sei o que ha de ser d'ella--disse

um dos circumstantes.

--Coisas do mundo!--respondeu outro.

Estes commentarios foram interrompidos pela continuação da leitura.

--João Carrasqueiro.

--Prompto, senhor--bradou um velho.

--A mezada, hein?--disse Bento Pertunhas, fitando-o por cima dos

oculos.--O rapaz não se esquece.

--Deus Nosso Senhor o ajude, que bem bom filho tem saido.

--D. Magdalena Adelaide de...

--É a morgadinha, é a morgadinha--disseram a um tempo muitas vozes.

--Agradecido pela novidade; era cá muito precisa a explicação--disse o

Pertunhas: e passando a carta para uma mulher, que era a encarregada de

fazer a distribuição a quem a podia gratificar, accrescentou:

--Leve-lh'a a casa.

E proseguiu:

--Augusto Gabriel...

--É o mestre-escola...

--Ora fazem o favor de estar calados! Esta... como elle vem por aqui...

pode ficar... ainda que... será melhor levar-lh'a a casa, leve, leve

tambem...

--João Cancella.

--É o João Herodes.

--Esse foi a Lisboa.

--Então, quando vier, que appareça.

--O tio Zé P'reira ficou de receber as cartas. É compadre d'elle.

--Eu não quero saber de compadrices. O tio Zé P'reira que se occupe com

o seu zabumba e deixe lá os outros.

A leitura mais ou menos acompanhada d'estes dialogos proseguiu,

redobrando de momento para momento a anciedade dos que iam ficando. Um

fundo suspiro, unisono, melancolico, expressivo de desalento, seguiu-se

á leitura do ultimo nome e ás poucas palavras, com que o funccionario

fechou a tarefa.

--E acabou-se.

Os que ainda estavam na loja sairam cabisbaixos, morosos e com tão má

vontade, como se ainda tivessem esperança de commover a inexoravel

sorte.

Henrique, ficando só com Bento Pertunhas, teve de lhe escutar ainda, por

muito tempo, a narração dos seus passados triumphos artisticos, das suas

amarguras presentes no magisterio, e das suas esperanças em

melhoramentos futuros. Entre as ambições mais inquietas do mestre, a de

obter o logar de recebedor de comarca, proximo a vagar por a morte

imminente do respectivo empregado, figurava em primeira linha.

Depois de varias tentativas, Henrique conseguiu deixar o seu

interlocutor, e continuou o passeio que este episodio interrompera, tão

satisfeito e distrahido, que nem apprehensões lhe causava a ideia de

trazer as botas humedecidas pelas hervas do caminho, ideia que, em outra

occasião, bastaria para o fazer doente.

Ladeava elle um campo, cingido de altas silvas, a procurar saida para a

deveza, da qual um fundo vallado o separava, quando lhe pareceu ouvir um

rumor de vozes, como de alguem, que conversasse perto d'alli.

Parou a certificar-se.

Não se enganára. Era do outro lado da sebe, e na deveza, para onde

tentava passar, que se estava falando.

Espreitou por entre as folhas do silvado que o encobria, e viu uma

scena, que lhe moveu a curiosidade.

Um grupo de creanças e de mulheres do povo escutavam em pleno ar e com

religiosa attenção, a leitura que uma senhora joven e elegante lhes

fazia das cartas, que ellas para esse fim lhe davam. A senhora estava

montada, não como romantica amazona, em hacanêa fogosa, mas modesta e

simplesmente n'um digno exemplar d'aquelles pacificos animaes, a que

Sterne não duvidou dedicar algumas palavras de sympathia nas suas

paginas mais humoristicas, e que Pelletan incluiu entre os

collaboradores da humanidade na grande obra do progresso, ou, deixando a

periphrase, em uma possante e bem apparelhada jumenta.

Á roda as ouvintes encostavam-se com familiaridade ás ancas e ao pescoço

do immovel quadrupede.

A leitora segurava no collo a mais pequena e a mais nua das creanças do

rancho.

Lia com voz agradavel e sonora; e, graças á serenidade da manhã e ao

socego do logar, ouviam-se distinctas, á distancia que ficava Henrique,

as palavras, que ella pronunciava lentamente, como para as deixar

penetrar bem na intelligencia do auditorio.

Henrique reconheceu muita d'esta pobre gente, por a mesma que, momentos

antes, vira na casa do correio.

Mas as suas attenções voltaram-se com especialidade para a leitora.

Era uma mulher muito nova ainda. Uma graciosa figura de mulher, suave,

elegante, distincta, um d'esses typos que insensivelmente desenha uma

mão de artista, quando movida ao grado da livre phantasia; a côr, essa

côr inimitavel, onde nunca dominam as rosas, mas que não é bem o

desmaiado das pallidas, encarnação surprehendente, a que ainda não ouvi

dar nome apropriado.

Os cabellos em fartas tranças, em ondas naturaes, não de todo pretos,

porém, mais distinctos ainda dos louros; a estatura esbelta, sem ser

alta, o corpo flexivel, sem ser languido; um vulto de fada, emfim, com a

magestade, com a graça que deviam ter estas creações da poesia popular,

se fôsse certo tomarem a fórma de virgens, para matar de amores.

Não se concebe attenção tão distrahida, que esta mulher não fixasse;

olhos, que se não voltassem para seguil-a, depois de a vêr passar;

coração, que não se perturbasse na sua presença.

Trajava um singelo vestido de xadrez branco e preto, adornado no collo e

punhos apenas por collarinhos lisos. Descaía-lhe natural e elegantemente

dos hombros um chale de casimira escura, sem lhe occultar as bellezas da

airosa conformação; o chapéo de palha de largas abas, cobrindo-lhe a

cabeça, espalhava pelo rosto as meias tintas, tão favoraveis ás bellezas

delicadas.

Henrique comprehendeu logo a significação da scena, a que, tão

inesperadamente, viera assistir. Aquella mulher parára alli, para ler a

essa gente pobre e ignorante, as cartas que haviam recebido do correio.

Tambem era caridade a acção, muito mais cumprida com o bom modo e com o

carinho com que ella o fazia.

Henrique applicou a attenção.

--...«E por isso, minha mãe»--lia ella--«se Deus me ajudar, espero

dentro em pouco ir a essa terra e darei remedio a tudo. E não me fale

vossemecê mais em vender o cordão e as arrecadas. Diga ao senhorio que

tenha paciencia, que eu satisfarei a tudo.»

Aqui a leitora parou para perguntar:

--Então que historia é esta das arrecadas, Anna?

--É, senhora, que o aluguer estava vencido...

--E não podia falar-me antes de se lembrar do seu filho?

--Ora, senhora, bem basta o que...

--Fez mal. Estar a affligil-o com estas coisas! Elle que precisa de toda

a coragem!

E continuou a ler a carta, no meio das lagrimas e das expansões de

alegria da ouvinte, mais interessada n'ella.

Acabando, deu um beijo na creança, que tinha ao collo, e estendeu a mão

a receber a carta, que outra mulher do grupo lhe passou. Esta era menos

de consolar. Não se falava alli senão de contratempos, de revezes e

desesperanças. Mais do que uma vez teve de suspender a leitura, para

mitigar a dôr e enxugar as lagrimas, que ella estava produzindo na pobre

mulher, a quem era dirigida.

Após esta, ainda outra e outra; uma do marido para mulher; outra de

filho para mãe; outra de noivo para noiva.

Foi com o riso nos labios e inoffensiva malicia nas inflexões da voz e

no olhar, que ella decifrou os mal legiveis caracteres, com que em papel

bordado, pintado e recortado, vinham expressos os mais arrebicados

conceitos amorosos, que ainda dictou uma paixão.

A noiva córava, sorria; mas, no meio da sua modesta turbação, era

evidente que estava exultando de jubilo.

Com esta terminou a leitura.

Henrique não resistiu a esboçar rapidamente o gracioso grupo na

carteira, que trazia comsigo. Não pôde, porém, deixar de dar-lhe um

sabor de idade média, substituindo a jumenta por um palafrem de pura

raça e dando á donzella, pelos trajes com que a desenhou, os ares de uma

castellã rodeada dos seus vassallos.

Não lhe bastou o natural do quadro, quiz revestil-o de um figurino de

convenção. Perdôe-lhe a arte, que julgou servir.

Depois de distribuir mais alguns beijos pelas creanças, a gentil

rapariga passou a que tinha no collo para os braços da mãe e partiu

rodeada de agradecimentos e bençãos, perdendo-a Henrique de vista, por

entre as arvores do caminho.

Aquelle typo delicado de mulher, aquella singeleza do apurado gôsto, em

que não podiam enganar-se olhos conhecedores, como os d'elle, aquella

preciosa perola alli na aldeia! em uma terra para chegar á qual era

necessario fazer uma comprida e laboriosa jornada! D'onde viera ella e

como? que nuvem a trouxera? que viração a transportára?

Em tudo isto ficou a pensar Henrique, e quando se lembrou de que podia,

para esclarecer-se, interrogar alguem do grupo, já não ia a tempo;

tinham dispersado.

Conseguiu finalmente passar para a deveza, e foi sentar-se no logar, em

que lhe apparecera a visão e ahi se demorou algum tempo; mas

lembrando-se de que eram quasi onze horas, levantou-se para não faltar

ás promessas feitas á tia Dorothéa, e que eram: a de visitar as senhoras

do Mosteiro e a de estar em casa pouco depois do meio dia, para não

transtornar a regularidade dos habitos domesticos em Alvapenha.

Pediu pois a uma creancinha que passava, que o guiasse á quinta do

Mosteiro, e ahi chegou depois de um quarto de hora de caminho.

A Morgadinha dos Cannaviaes (Chronica da aldeia) · 第 15 / 66 题