dir-se-hia ainda que as costas de Portugal os repellião, enviando-lhes
ventos impetuosos de leste, que os arrastavão para o largo. Mais de
quarenta dias despendêrão até que lograssem avistar as montanhas de
Cintra. Aproárão á barra do Tejo, com os mastros do galeão partidos,
velas rasgadas, cortado em pedaços, e falta quasi completa de alimentos
e aguada. Dobrárão felizmente o cabo, e penetrárão dentro das aguas
mansas do rio, e no meio das fortalezas que o guarnecem e vigião.
Saltou Manuel de Moraes, e soffreu, como era habitual do tempo, infindos
e minuciosos interrogatorios, e visitas rigorosas. Dirigio-se para
a casa da companhia de Jesus, e se apresentou ao provincial, que, ao
tomar conhecimento das recommendações do padre Antonio Vieira, o acolheu
com benevolencia e carinho, ainda que com sorpresa e susto.
Não terião decorrido duas horas depois que se abrigára ao Instituto de
santo Ignacio, quando soldados armados, e fâmulos cobertos com as
insignias do Santo Officio da Inquisição, se apresentárão á porta da
casa santa, exigindo fallar ao provincial, e derramando espanto no
claustro e em todo o povo da vizinhança.
Levados á presença do veneravel sacerdote, intimárão-lhe uma ordem do
tribunal, reclamando a entrega de Manuel de Moraes, chegado de Hollanda,
e asylado na companhia, réo dos crimes de abjuração e apostasia, e
sujeito á jurisdicção do Santo Officio.
Conferenciou o provincial com varios padres respeitaveis e
illustrados sobre o que lhe convinha praticar em honra do Instituto e em
defesa dos seus direitos. Concordárão todos unanimemente, que offendia
os fóros e privilegios da companhia a ordem inaudita do tribunal da
Inquisição, mas lhe não podia o provincial oppôr resistencia,
cumprindo-lhe apenas entregar o preso, e dirigir os seus protestos ao
governo e ao soberano, afim de reinvindica-lo como membro do Instituto,
e julga-lo segundo os seus regulamentos, quando se lhe imputassem crimes
dignos de punição e castigo.
Executou-se a ordem do Santo Officio. Sahio Manuel de Moraes da casa da
companhia de Jesus, e se passou para o poder da Inquisição. Corria então
o anno de 1645.
CAPITULO XII
Estava então o edificio da Inquisição no largo do Rocio, assoberbando a
praça com os seus muros tristes de pedra, e suas portas robustas de
ferro. Formava uma massa disforme, mas grandiosa, sem bellezas
architecturaes, mas de aspecto imponente e fortificado.
Destacado no fundo do Rocio, rodeiado de soldados e guardas, que velavão
noite e dia, contendo as salas do tribunal, os carceres, as cellas dos
presos, os quartos dos tormentos e torturas, e os aposentos das
penitencias, afugentava o palacio de perto de si e dos seus arredores as
massas tranquillas do povo, que o não avistava sem benzer-se devotamente
e tirar-lhe o chapéo com respeitoso acatamento, temendo suspeitas e
castigo.
Nem pedras restão hoje do barbaro edificio. Uma por uma forão pela
população exasperada de Lisboa distrahidas do seu lugar, arrancadas á
força, e dispersas em desordem, quando as côrtes constituintes de 1821
abolírão a instituição do Santo Officio, e extinguírão para sempre o
tribunal execrando.
Por cima do palacio da Inquisição levanta-se actualmente o lindo theatro
de Maria II, fazendo substituir o riso, os prazeres e os divertimentos
alegres, ás scenas de dôres e de sangue commettidas outr'ora dentro
d'aquelles muros enfumaçados, e que nodoárão as paginas da historia
portugueza.
Foi Manuel de Moraes para alli conduzido. Ao penetrar os umbraes da
porta principal por entre fileiras de guardas armados, ao avistar a
enorme estatua de pedra da Fé, que resplandecia no topo da grande
escada, sentio coar-lhe pelo sangue um frio intenso, e anuviar-lhe o
espirito cogitações tenebrosas.
Atravessou varios páteos escusos e sombrios. Desceu e subio diversas
escadas allumiadas apenas pelo frouxo clarão de lampadas pregadas no
tecto. Ouvio ranger gonzos pesados de portas, que se abrião e fechavão.
Respirava-se dentro um odor infecto, que parecia exhalação de cadaveres.
Dir-se-hia que as paredes gottejavão sangue humano, e gemidos de
infelizes creaturas echoavão pelos longos corredores abobadados.
Trajavão os empregados vestes iguaes, resplandecendo-lhes ao peito uma
grande cruz pintada de côr amarella, e cobrindo-lhes as cabeças um capuz
que lhes escondia as faces.
Reinava uma lugubre tristeza, um horror extraordinario, que se entornava
por todos os sitios e reconditos do edificio, e amedrontava os sentidos
dos entes malfadados que alli penetravão.
Depois de muitas voltas, e palavras baixas trocadas entre os guardas e
empregados, achou-se em um negro corredor, aonde se não adivinharia
caminho se o não aclareasse opacamente uma lampada acesa, collocada no
centro. Abrio-se a um dos lados uma porta de ferro, e foi Moraes
introduzido em um quarto pequeno, baixo, despido de ar e sombrio, que se
reputaria antes um sepulcro, cavado como que em rocha viva e humida.
Trancou-se-lhe a porta, apenas elle entrou para esta prisão solitaria,
que com difficuldade agazalharia duas pessoas juntas. Não havia um
leito, e nem-um traste. A unica cousa que se apercebia era um pucaro de
barro, que parecia cheio de agua, a um canto da cella. O chão de
tijollo servia de assento e uma porção de palhas espalhadas formavão a
cama. Negra escuridão o rodeiava, vasando-lhe ás vezes por uma fresta
aberta na parte superior da muralha um ou outro raio da lampada do
corredor contiguo, que descobria o preso aos guardas, que alli vigiavão
todas as acções e gestos dos presos, e lhes ouvião os ais e palavras,
por maiores cautelas que as victimas empregassem em abafa-los.
Só e n'esta penosa posição, se entregou Moraes a um exame minucioso do
sitio em que se achava. Percorreu com os olhos o chão, o tecto, as
paredes. Deslumbrou aqui e alli dispersas manchas vermelhas que se
dirião de sangue borrifado no meio do colorido enfumaçado e sujo, e
hieroglyphicos sensiveis que se afiguravão traçados por mãos humanas.
Subírão-lhe á mente assombrada pensamentos amargos e tristonhos. Seria
sangue dos réos do Santo Officio que salpicava aquellas paredes?
Serião adeoses ao mundo que elles alli escrevêrão, e que já nem erão
decifraveis? Appareceria algum nome, alguma data, algum signal, por onde
se descobrisse o segredo que pretendessem legar aos posteriores?
Não logrou comprehender nem-um d'esses mysterios. Arripiou-se-lhe porém
todo o corpo com o seu aspecto merencorio, e assomou-lhe ao espirito a
historia tenebrosa do tribunal da Inquisição, que lançava o susto por
toda a parte, e sobre todo o povo, e era tão geralmente execrado pelos
seus crimes monstruosos.
Trouxe-lhe o cansaço o somno, porque a consciencia repousava tranquilla,
desde que abandonára o calvinismo, e volvêra á religião dos seus
maiores. O tempo que dormio não apreciou exactamente. As noites se
confundirão com os dias, sem que um signal de maior ou menor luz ou
claridade as deixasse verificar, no seio das trevas constantes que
inundavão monotonamente a cella solitaria.
Imaginava comsigo que raiava o dia quando, sem lhe abrir a porta da
prisão, rolava pelas paredes arranjadas adrede um novo pucaro de agua, e
uns pães seccos e duros, avisando-o uma voz cavernosa de fóra para os
receber, tira-los do lugar, e substitui-los pelo pucaro da vespera, que
se sumia logo com as mesmas mysteriosas cautelas, não ouvindo resposta
alguma á pergunta que dirigisse.
Lembrou-se de contar as vezes em que se verificava esta operação, e
pensou encontrar no seu numero a quantia dos dias de prisão. Mais de
quarenta erão já decorridos, quando sentio rumor mais sensivel de passos
e palavras baixas trocadas fóra da cella.
--A mim,--disse comsigo,--ou a outra victima vizinha procurão e buscão
para os tormentos e torturas.
Percebeu minutos depois abrir-se a sua porta. Ergueu-se, e vio apparecer
um vulto coberto de manto longo e escuro. Tornou a porta a fechar-se, e
achárão-se os dous cerrados um junto ao outro, quasi sem poderem fazer
livremente um gesto, pela estreiteza do aposento.
--Sois Manuel de Moraes? perguntou-lhe uma voz mansa e socegada.
Pensou rapido o preso que tinha diante de si um dos juizes encarregados
do seu interrogatorio e processo. O accento meigo e sereno com que lhe
dirigíra a pergunta, significava de certo um dos estratagemas empregados
pelos inquisidores, afim de illudir os presos, e leva-los, pelas
palavras seductoras e fallazes a confessar-lhes confiada e loucamente os
seus segredos, ou a revelar-lhes falsas narrações de imaginarios crimes.
Deliberado porém a dizer a verdade inteira, fosse qual fosse o
resultado, e a se não deixar enganar com promessas fascinadoras,
respondeu ao vulto em tom resoluto.
--Não ha duvida que me chamo Manuel de Moraes.
--É vossa patria a povoação de São Paulo na capitania de São Vicente dos
Brazis?--continuou o vulto a perguntar-lhe.
--É verdade,--repetio Moraes.
--Fostes noviço na companhia de Jesus? Abandonastes o Instituto e o
habito?--continuou o vulto.
--Não posso, não devo, e nem quero nega-lo,--proseguio Moraes.
--E me não reconheceis?--disse-lhe o vulto, approximando-se do espaço
atravessado pelo raio da lampada do corredor, e mostrando uma face
macerada pelos annos e povoada de alvissima barba, uma cabeça despida
inteiramente de cabellos, e a roupeta de Jesuita de que estava cingido.
Encarou-o Moraes em vão. Não lhe recordárão os seus olhos o homem que
tinhão diante de si. Traçou chamar em seu auxilio reminiscencias
passadas. Nem-uma idéa o coadjuvou nos seus intentos.
--Não me é possivel,--respondeu-lhe amarguradamente; e depois de alguns
momentos de silencio e de visivel anciedade, continuou:--Sem duvida
querem os santos padres castigar-me pela minha fuga da sua casa, e vos
envião para interrogar-me?
--Afastai do espirito,--replicou-lhe o Jesuita,--idéas tão erradas
quanto insensatas. Nossa companhia aconselha, convence, e influe pela
persuasão e consciencia. Não dobra vontades com a força physica. Não
castiga rebeldes ou criminosos com penas corporaes, tormentos ou
carceres. Deos todo poderoso é o unico juiz que reconhece para os
delictos dos homens. Não estais preso por ordem do Instituto de santo
Ignacio de Loyola. Sois réo do tribunal do Santo Officio da Inquisição.
Venho visitar-vos como amigo e antigo companheiro, conseguindo com custo
as licenças necessarias para penetrar até esta prisão.
Profunda impressão produzírão sobre o desditoso Moraes essas palavras
pausadas, e proferidas com uma uncção tão aprimorada, que lhe levárão
certeza ao animo de robusta expressão de franqueza e verdade. Mas quem
era esse homem que lhe fallava? Partia-lhe e agitava-lhe o espirito a
idéa de não podê-lo descobrir e conhecer.
--Que quereis pois de mim?--disse-lhe meigamente.--Cheguei de Hollanda,
trazendo cartas de recommendação do veneravel padre Antonio Vieira, que
me protegeu e salvou do precipicio e da perdição eterna. Se sois Jesuita
como proclamais, encontrareis na casa da companhia esses papeis e
documentos, que lá deixei quando os famulos da Inquisição me
arrancárão da santa morada.
--Tomou o nosso provincial conta de tudo--proseguio o vulto com
tristeza.--Entregou a cada um a carta que lhe era dirigida, afim de
affeiçoar vontades e dedicações em pró de vossa pessoa e defesa.
Infelizmente porém não vo-lo devo occultar, parecem-me inefficazes todos
os esforços!
--Tenho de morrer!--proseguio Moraes.--Sinto-o tão cedo porque não
expurguei ainda os meus grandes peccados e crimes. Desejára conservar-me
no mundo o tempo só preciso para as penitencias e sacrificios. Mas Deos
ouve o meu sincero arrependimento, e será de certo misericordioso para
comigo!
--Ignorais que já vos condemnárão?--retorquio o vulto.
--Condemnado sem ser ouvido?--perguntou-lhe.
--Fostes denunciado ao tribunal do Santo Officio de Lisboa como herege e
apostata,--continuou o Jesuita.--Formou-se o processo, e lavrou-se
a sentença. Apezar de ausente e refugiado em Hollanda, fostes relaxado
comtudo em estatua no auto de fé de 6 de Abril de 1643, e inscripto o
vosso nome no livro dos condemnados á morte.
--Nada me resta portanto no mundo?--exclamou Moraes.--Deixai-me então
rogar a Deos tranquilamente nos poucos instantes que me sobrão de vida,
para que me conceda a sua graça infinita!
--Ereis assim um réo já, e sujeito ao tribunal da Inquisição--proseguio
o velho--quando ousastes vir a Lisboa, confiado na vossa nova abjuração,
e na protecção do veneravel padre Antonio Vieira. Soube o Santo Officio
que vos havieis recolhido á nossa casa, e reclamou-vos com a sua justiça.
--E o Instituto de santo Ignacio entregou-me, e abandonou-me?--murmurou
Manuel com indicios visiveis de despeito.
--Que póde contra a Inquisição a companhia de Jesus?--repetio-lhe o
padre.--São tão diversas as funcções respectivas das duas oppostas
instituições! Aquella cura da purificação da fé, e da orthodoxia romana,
constituindo um poder temporal, formando um tribunal civil, com juizes,
guardas, empregados, força publica, instrumentos de tortura, fogueiras,
processos e execuções. Limita-se esta ao espiritual, e ás cousas
sagradas, apenas incumbida de derramar as luzes e os dogmas pelo mundo.
Quantos trabalhos lhe não tem custado salvar os Brazis da inquisição,
que desejaria lá como em Portugal estender o seu dominio? Vivem a
Inquisição e a companhia separadas por insuperaveis barreiras, em luta
constante, porque uma deseja destruir e cortar a arvore molesta,
emquanto pretendem os filhos de santo Ignacio que se cure apenas a parte
imprestavel, e se aproveite e salve o tronco e os ramos sãos, que
podem dar ainda viço e fructos.
--Mande-me ao menos--interrompeu Moraes--um padre, um amigo fiel para me
ouvir de confissão, e acompanhar-me nos derradeiros arquejos da existencia!
--E que vim eu aqui fazer?--perguntou-lhe o Jesuita em tom de
queixa--para que penetraria por entre estes negros corredores, e
chegaria até aqui, se não houvera recebido encargo particular do nosso
provincial, e logrado licença do Santo Officio, para ver-vos,
fallar-vos, e entreter-vos como membro da companhia de Jesus, que não
desampara os seus discipulos?
--Obrigado! obrigado!--proferio Moraes, deixando-se cahir aos pés do
padre, e esforçando-se em abraça-los com fervor.
--Levantai-vos, filho--continuou o vulto, tentando erguer o desgraçado e
apertando-o nos braços--não é tempo ainda de confissão e preparativos do
ultimo instante. Sou por ora um amigo, que procura consolar-vos, e
basta para que me presteis toda a vossa confiança recordar-vos de quem
sou... lembrar-vos do passado...
Observou Manuel que sahírão estas palavras no meio de suffocados
soluços, e inundava o rosto do amigo desconhecido um pranto amargo e
copioso.
Por mais tratos porém que désse á memoria, não lhe foi possivel ainda
assomar ao espirito pensamento algum que lhe recordasse aquella figura
arruinada pelo tempo, aquella veneranda cabeça, aquella voz doce e
attractiva, aquelles gestos bondadosos, que o convencião no entanto de
que não o enganavão as expressões sinceras do seu respeitavel interlocutor.
Decorreu um silencio de alguns instantes, sem que nem-um d'elles ousasse
interrompê-lo, até que o desconhecido, encostando-lhe a face, e
imprimindo-lhe um beijo paternal na fronte, perguntou-lhe em voz clara e
sonora:
--Não me reconheces ainda? Continuava o animo de Moraes a embrulhar-se
com o emmaranhado dos eventos da sua vida errante, sem que pudesse
atinar com uma reminiscencia qualquer, que lhe rasgasse o véo que o
assombrava de todo.
--Olha--proseguio o vulto, fallando vagarosamente, no intuito de
avivar-lhe a memoria--olha em cima d'aquelle outeiro a casa da companhia
de Jesus, com o seu risonho sobrado, a sua igreja contigua e a sua torre
pittoresca. Adeja-lhe ao lado o arraial com suas casas de telha
vermelha, e suas choupanas de palha amarellada, com suas ruas e beccos
tortuosos, que trepão e descem outeiros um aos outros pendurados. Divisa
do outro lado a cerca plantada de arvoredos fructiferos, de larangeiras,
jaboticabeiras, e cajueiros, em cujos galhos canoros sabiás e pintados
gaturamos saudão a aurora que nasce, o dia que desapparece, e o poder e
a grandeza de Deos, que se estende por toda a parte. Descobre
abaixo da cerca, que povoa o outeiro até a sua base, esse riacho, que
alli corre sereno e limpido, rumorejando sobre pedrinhas e humedecendo
flôres sylvestres, que lhe brotão das margens alegres e festivas. Lança
para mais longe os olhos, e lá pairão a planicie com suas mattas
poderosas; o grande rio Tieté, que lhe rasga as entranhas; os morros da
Penha, que em distancia arrebatão os sentidos, e terminão em soberbo
amphitheatro. Sente essa atmosphera perfumada com as folhas movidas e
balouçadas pelo brando zephyro, e que se não escapão jámais dos galhos
das arvores carinhosas, e nem jorrão murchas pelo chão como succede na
Europa durante a estação do outono. Nota esses gentios, côr de cobre,
que enchem os templos em multidão, orão devotamente, respeitão e
obedecem aos padres da companhia, e formão procissões religiosas. Não
avistas a povoação de São Paulo pelas lembranças, já que a não vêem
mais os teus olhos? Não me reconheces ainda?
--Meu Deos, meu Senhor!--gritou Moraes.--Que feridas me rasga este
padre, e não posso recordar-me d'elle!
--Alli em cima de um outeiro pousava tranquilla e retiradamente uma
casinha branca, de telhas vermelhas,--continnou o vulto.--Morava n'ella
José de Moraes com sua familia. Chamou-o Deos para perto de si antes que
lhe perdoasse a imprudencia que commetteu, expellindo-te do seu alvergue.
--Morto é já meu pai!--desgraçado!--Basta, basta!--interrompeu-o
Moraes.--Tende piedade de mim! dizei-me quem sois por compaixão!
--Não descobriste ainda?--repetio o padre.--Conto está obsecado o teu
espirito com os successos portentosos da tua vida transviada!...
Lembra-te, filho, do padre que te disse: Desgraçado serás, porque a
Igreja calholica é a razão divina, a unica salvação da creatura humana.
Não encontrará descanso quem a trocar pelo oceano insondavel do mundo
das miserias!
--Eusebio de Monserrate!--prorompeu em ancias afflictas Manuel de
Moraes, e agarrando-se ao velho, foi desfallecendo, perdendo os
sentidos, e cahindo sobre o chão frio do carcere.
CAPITULO XIII
Apenas deixou o padre Eusebio de Monserrate os paços da Inquisição,
encaminhou-se para a casa da companhia, e procurou o provincial.
Expôz-lhe com lealdade o que tinha succedido com Manuel de Moraes. Era
sua opinião que a sua conversão ao catholicismo se baseava em
sinceridade e espontaneidade d'alma, e fôra o seu arrependimento
verdadeiro e consciencioso: poder-se-hia tornar um excellente discipulo
de santo Ignacio, e prestar relevantes serviços á religião e ao Estado.
Em relação no entanto ás suas pesquizas ácerca dos intentos do tribunal
do Santo Officio, perseverava em desconfiança de que confirmaria a
primeira sentença proferida em ausencia do réo, e não seria poupado o
infeliz no primeiro auto de fé que a Inquisição designasse.
Lembrou ao provincial a necessidade de empregar todos os esforços e
empenhos afim de salvar o noviço, avocando-o a companhia como sujeito á
sua jurisdicção, e transfuga do claustro, para arranca-lo ao tribunal do
Santo Officio. Para se conseguir esse fim, ninguem era de mais:
Jesuitas, funccionarios publicos, ministros, nobres, bispos e officiaes
da Igreja. Cumpria a todos promover os meios possiveis para attrahir a
cooperação e a autoridade d'el-rei e da rainha.
Concordárão em procurar todos os seus amigos, e aquelles individuos
para quem trouxera Moraes cartas de Antonio Vieira, e pedir-lhes os seus
auxilios efficazes. Escreveu o provincial ao padre Vieira,
summariando-lhe os successos, e mostrando-lhe a urgencia de implorar do
proprio soberano o perdão do noviço por uma missiva sua directa,
empenhando todo o seu valimento.
Uma quantia numerosa de personagens importantes se achou dentro de
poucos dias em movimento, e trabalhando em pró de Manuel de Moraes. O
confessor d'el-rei e da rainha, Duarte Nunes de Leão, desembargador da
casa da Supplicação, João Pinto Ribeiro, secretario privado do monarcha,
e varios individuos mais de influencia. Não pôde infelizmente Dom
Francisco Manuel de Mello concorrer, porque um fatal acontecimento o
roubara á liberdade, e o arrastára aos carceres. Ninguem valêra mais que
elle á sua chegada a Lisboa. Considerado pelos seus escriptos
primorosos, pelos seus feitos guerreiros no Brazil, Flandres e
Catalunha, e pelos seus sentimentos patrioticos de nacionalidade e
independencia portugueza, sacrificando honras e riquezas em Hespanha, e
expondo-se a perseguições do governo de Castella, de cujas prisões
lográra evadir-se, comprando os guardas que o vigiavão, e recolhendo-se
a Portugal, travára por um acaso infeliz uma rixa em Belem com o aldeão
Francisco Cardoso, e o matára exasperado. Estava por esse motivo
processado e preso, cumprindo-lhe cuidar mais da sua salvação que do
beneficio alheio.
Virão-se el-rei e a rainha circumdados de pedidos e empenhos para
salvarem a Manuel de Moraes. Hesitava porém Dom João IVº em intrometter
a sua autoridade, ainda não solidamente estabelecida em Portugal, em
questões inherentes ao tribunal do Santo Officio.
Saltára a sua corôa do meio de uma revolução. Sahíra o seu throno de um
movimento popular, que fôra unisono no povo, e em maioria apenas na
nobreza e clero. Era compellido a todos os instantes a abafar reacções e
levantamentos dos que lhe não adherião ao governo, e perseveravão em
obediencia a Castella. Via-se obrigado a castigar e punir com severidade
fidalgos e bispos, que se lhe oppunhão, e tramavão contra a sua
autoridade. Por demais forte se mostrava ainda Hespanha em referencia a
Portugal, achando-se felizmente occupada em varios pontos dos seus
dominios igualmente insurgidos, e laborando em guerra contra os seus
exercitos numerosos, que divididos assim e dispersos, não alcançavão
victorias assignaladas.
Cumpria portanto a Dom João IVº praticar na sua administração interior
uma tal moderação, que não augmentasse a somma de difficuldades e
perigos que lhe surgião por toda a parte. Que valia a salvação de
um noviço dos Jesuitas diante dos despeitos e lutas do Santo Officio,
que exercia influencia nos animos populares, e ajudava até o seu governo
nacional?
Sabia que os proprios fidalgos e principaes ecclesiasticos se honravão
de pertencer á Inquisição, e de lhe servir de famulos. E não estremecia
o povo todo diante dos seus actos e jurisdicção, reputando-a mais divina
que humana?
Mais politico que sentimental se esquivava el-rei aos rogos dos seus
mais dedicados amigos e conselheiros dilectos. Recusava-se as vozes da
propria rainha Dona Luiza de Gusmão, que tomava o partido dos Jesuitas,
apezar de quanta affeição e confiança tributava el-rei á sua extremosa
consorte.
Sem a intervenção directa do soberano comprehendia Eusebio de Monserrate
que perdidos serião todos os esforços empregados. Esvoaçava por
cima da sociedade portugueza da época o poder aterrorisador do Santo
Officio. Ninguem o ousaria affrontar impunemente a não ser el-rei em
pessoa, graças ao seu prestigio pessoal, e á necessidade que reconhecião
os Portuguezes de sustentar-lhe a autoridade para poderem resistir ás
forças de Castella, e restaurar a sua autonomia e independencia.
Espalhavão-se por toda a parte espias da Inquisição, adivinhando acções,
gestos, palavras, pensamentos, para os denunciarem ao tribunal
execrando. Dir-se-hia que as paredes tinhão ouvidos, olhos os trastes
das casas, e lia a propria atmosphera no fundo d'alma os mais reconditos
segredos, porque chegavão todos ao conhecimento do Santo Officio, que
não tardava em expedir mandados de prisão, ordenar castigos, applicar
torturas, formar processos, lavrar sentenças rigorosas, preparar forcas
e fogueiras, espantando a multidão supersticiosa com os
espectaculos horriveis dos autos de fé, acreditados como sacramentos da
Igreja.