Não escapavão á sua jurisdicção condições, nem classes da sociedade. Era

o unico tribunal judiciario diante do qual desapparecião fóros e

privilegios, e que curvava á sua autoridade velhos, moços, crianças,

mulheres, aldeões, populares, obreiros, commerciantes, padres, frades,

fidalgos, grandes officiaes da Igreja, titulares e validos do soberano.

Não desanimou todavia o padre Monserrate, e quantas mais difficuldades

surgião adiante dos seus passos, quanto mais seus projectos se

nullificavão, mais tratos dava ao espirito para lembrar-lhe novos meios

a empregar, no intuito de conseguir o triumpho. Ardia-lhe no peito o

amor-proprio de Jesuita, que não queria consentir na affronta de

arrancar a Inquisição ao Instituto um seu noviço e membro, para o julgar

e condemnar livremente. Movia-lhe igualmente os affectos a

sympathia que lhe ganhára Moraes desde os seus mais verdes annos.

Accrescia a essas duas razões poderosas outra ainda de grande

importancia para o padre. Não fôra sincero o arrependimento de Moraes?

Não estava prompto a commetter todas as penitencias e sacificios que lhe

exigissem? Não podia prestar serviços relevantes á religião, á

companhia, ao Estado e aos gentios do Brazil? Não o perdoára Deos quando

espontaneamente lhe infiltrára no animo a idéa de abandonar riquezas e

posições honrosas em Hollanda, trajar de novo o habito da companhia,

dedicar-se á vida trabalhosa e miseravel do missionario, volver á sua

antiga fé e crenças religiosas, como a ovelha desgarrada que regressa

para o rebanho, ou o filho perdido que reganha a casa paterna? Quando

Deos se mostrára tão misericordioso, haveria justiça nos homens em

condemna-lo?

Proseguíra no entanto o tribunal no julgamento de Moraes. Revendo o

antigo processo instaurado na sua ausencia, e annexando-o a novo

summario, passou aos interrogatorios necessarios do réo, que por mais de

seis dias seguidos fôra tirado do seu aposento e conduzido á sala dos

juizes. Perguntas insinuantes a principio, argucias preparadas adrede e

geitosamente, lhe forão dirigidas para o apanharem em contradicções, e

confissões do que lhes convinha. Mas o preso se conservou inalteravel,

sereno, sincero, igual e verdadeiro. Expôz com franqueza toda a sua

vida, todos os seus erros e hallucinações, todos os seus peccados e

crimes, e os seus remorsos e arrependimento espontaneo, que a propria

alma gerára, robustecêra, e lográra verificar particular e publicamente.

Persuadidos os juizes de que conseguirião maiores esclarecimentos, ou

factos que mais correspondessem aos seus intentos, com a applicação

dos tormentos usados contra as suas victimas, passárão das declarações

voluntarias ás arrancadas por meio das dôres resultantes dos

instrumentos de tortura.

Começárão pelos anginhos, doce e mimoso nome dado por irrisão a ferros

que se collocavão aos dedos dos pés e das mãos, e os apertavão tão

cruelmente que causavão soffrimentos horrorosos. Exigírão-lhe

confessasse que volvêra apparente e maliciosamente á religião catholica,

no intuito de se passar para o Brazil, e servir aos interesses dos

Hollandezes, com os quaes se unira, para coadjuva-los nas suas invasões

e conquista da America. Resistio Moraes com estoica resignação á

barbaridade dos castigos, arrasando-se-lhe os olhos de lagrimas, e

escapando-lhe dos labios o nome santo do Christo, que pela salvação dos

homens padecêra martyrios superiores.

Não alcançando os juizes o seu fim, adiárão para mais tarde a

applicação de novos instrumentos, insinuando a Moraes que lhe era

preferivel revelar a verdade espontaneamente a confessa-la á custa de

soffrimentos agudos.

Não se apressava a Inquisição nos processos e julgamentos. Annos

inteiros se demoravão em seus carceres presos innocentes ou culpados,

accusados sem fundamento, suspeitos apenas, e ás vezes mesmo despidos do

menor indicio de crime, sem que cuidasse o tribunal em adiantar-lhes as

sentenças!

Não se contentando com factos materiaes, e procurando adivinhar

intenções e pensamentos, carecia de ganhar tempo, rodeiando as suas

victimas com uma espionagem vigilante, que visse e ouvisse o que ellas

praticavão ou dizião. Aquelle por recusar-se a comer carne de porco em

certos dias; este por soltar uma expressão de raiva ou despeito; um por

commetter qualquer gesto que se interpretasse malignamente; outro

por não se benzer, ou rezar em horas determinadas: tudo lhe servia de

inducção e prova para descobrir crimes, que imaginava o Santo Officio.

Seguírão-se aos interrogatorios e primeiras torturas os depoimentos de

testemunhas, que declarárão ser voz geral e constante que Moraes se

convertêra ao calvinismo, praticára nos templos protestantes todos os

officios religiosos que lhes erão proprios, e se casára com uma mulher

schismatica.

Anciosos de confissões mais amplas do réo, applicárão-lhe novos

tormentos para o obrigarem pela violencia ás revelações necessarias.

Suspendêrão-lhe o pescoço a uma argola pregada no muro, chamada gonilha,

que levantando o corpo por uma fórma perpendicular, produzia-lhe uma

posição dorida, difficil e quasi suffocadora, peior em soffrimentos que

os mais barbaros castigos imaginados pelos tyrannos da idade média.

Escalárão-lhe depois as costas e os peitos com azorragues de arame,

que o ensanguentárão todo.

Mas a victima se afigurava superior aos tormentos, e resignada á sua

sorte. Repetia constantemente as mesmas declarações, e não offerecia

elementos novos de duvida ou suspeita aos juizes cruentos.

Recebeu-o a final o leito de Procusto, larga taboa crivada de pregos

agudos, á qual se lhe apertou o corpo estendido e deitado por cima.

Desfalleceu ahi totalmente Manuel de Moraes, e perdeu os sentidos na

cópia de sangue que lhe rebentava por todos os póros.

Foi carregado para a sua enxovia, e ahi deixado a repousar em uma

esteira de palha mais macia, é tratado com mais cuidado para se lhe não

esvair a vida antes da execução da sentença, e não escapar assim ao

castigo publico e exemplar que lhe destinava o Santo Officio.

Lavrou-se a sua sentença. Confirmava em todas as suas partes a do

anno de 1643. Condemnava-o a sahir no primeiro auto de fé, coberto com

as insignias do fogo, e a ser garroteado na praça publica por apostata,

profitente e obstinado.

Chegou aos ouvidos dos Jesuitas a noticia da decisão. Intensa

desesperação e despeito violento se apoderárão dos padres. Nem-um deixou

de procurar os seus amigos, e de empregar os meios que lhe parecêrão

proprios a nullificar a sentença do tribunal do Santo Officio.

Applicárão-se os ultimos esforços para lograr d'el-rei uma ordem

terminante em pró do infeliz noviço. Cartas do padre Antonio Vieira,

conselhos e insinuações do confessor de Suas Magestades, avisos dos seus

secretarios de estado, e do seu escrivão da puridade, rogos e empenhos

dos fidalgos que o soberano mais prezava, nada alcançava todavia

d'el-rei que sahisse da reserva que se havia imposto.

Assumio ao espirito de Eusebio de Monserrate uma idéa aventurada.

Conhecendo uma irmã de Moraes, por nome Dona Clara da Incarnação, viuva

de um Portuguez que de São Paulo mudára a sua residencia para Lisboa, e

carregada de numerosa familia, preparou-a para se lançar aos pés do

soberano e da rainha, e implorar-lhe ella propria com todos os seus

filhos o perdão do noviço. Concertou com o confessor d'el-rei em

facilitar-lhe a entrevista no momento em que Dom João IVº e Dona Luiza

de Gusmão seguissem para o oratorio a receber a communhão sagrada.

Combinado o projecto, cuidou-se em realisa-lo. Encaminhou-se para os

paços reaes Dona Clara com seus filhos menores. Introduzidos por uma

porta particular, achárão-se na passagem dos soberanos no momento

designado.

--Piedade! piedade!--gritou toda a familia, arrastando-se aos pés de Dom

João IVº, e de sua augusta consorte, agarrando-os com força, e

molhando-os com pranto acerbo e copioso.

Enternecêrão-se todos os circumstantes. Pareceu el-rei impressionado

profundamente, e não pôde proferir palavra. A rainha, banhada em

lagrimas, consolava a dama amargurada, que lhe entregou um memorial

escripto, supplicando a graça de Manuel de Moraes. Representou-se a

scena mais tocante e dorida. O confessor d'el-rei lhe lembrou que Deos

era infinito em sua misericordia, e que os soberanos da terra não tinhão

prerogativa mais bem aceita do céo e mais humana que o perdão, que os

igualava quasi á Divindade. Prometteu Dona Luiza aos infelizes

ouvir-lhes as vozes, e pedio-lhes se retirassem tranquillisados.

Não pôde então o monarcha recusar-se ás supplicas da sua consorte, e

deixa-la faltar á sua palavra. Ordenou ao seu escrivão da puridade

expedisse ao tribunal do Santo Officio uma ordem terminante, em que,

declarando haver el-rei perdoado Manuel de Moraes, lhe determinasse a

entrega do preso á companhia de Jesus, como membro que era do Instituto,

afim de que esta com penas menores o castigasse conforme julgasse

conveniente.

Lavrado e assignado, foi o aviso entregue immediatamente ao Inquisidor

geral, afim de executa-lo com o seu zelo reconhecido em pró da religião

e do soberano.

Tremia no entanto o padre Eusebio de Monserrate. Obedecer-lhe-hião os

juizes do Santo Officio? Não se consideravão superiores a todas as

autoridades temporaes, baseando a sua alçada nos breves e determinações

do Summo Pontifice de Roma? Não responderião a el-rei memorando-lhe a

necessidade de expurgar a fé catholica, e de salvar o dogma; e se

resolveria o monarcha a sustentar e fazer cumprir a sua primeira

deliberação, que mais ao sentimento intimo que á propria convicção lhe

havia sido arrancada?

CAPITULO XIV

Fixou e annunciou no entanto o tribunal do Santo Officio de Lisboa um

auto de fé para o dia 15 de Dezembro de 1647.

Oito condemnados devião ser queimados nas fogueiras; dez se destinávão

ao supplicio do garrote; trinta e quatro ao acompanhamento da procissão,

cobertos com as insignias do fogo; tres relaxados em estatua por

ausentes e fugidos.

Agitou-se e alegrou-se a população de Lisboa com o aviso do espectaculo

que se lhe preparava. Ninguem ousaria deixar de assistir a essa

solemnidade religiosa e sagrada, que remia peccados, e valia perante

Deos, abrindo aos crentes as portas do céo, e trazendo-lhes pelas

indulgencias ganhas a salvação na vida eterna. Quem não tivesse fé no

sacrificio divino não se arriscava a perseguições e tormentos iguaes aos

das victimas condemnadas, no caso de faltar com a sua presença, e não

apparentar jubilo?

Levantárão-se no campo de Santa Anna os cadafalsos e fogueiras.

Prevenírão-se os réos que devião figurar na ceremonia. Concedeu-se a

alguns a faculdade de chamar confessores particulares, e de receber uma

ou outra pessoa da familia, com quem desejassem entreter-se uma vez

ainda antes de abandonar o mundo. Transferírão-se todos os condemnados

para prisões especiaes, aonde lhes cumpria passar o resto do tempo que

lhes sobrava nos paços do Santo Officio.

Intimada a Moraes a sua sentença de garrote, e communicada a noticia de

que lhe era licito escolher um confessor, e receber uma pessoa da sua

familia, declarou desejar o padre Eusebio de Monserrate para o

acompanhar nos ultimos momentos, e sua irmã Dona Clara da Incarnação

para lhe dizer o adeos derradeiro.

Forão-lhe satisfeitos ambos os desejos. Impossivel é descrever a sua

entrevista com Dona Clara. Quebrantado de forças physicas, martyrisado

cruelmente pelas chagas que lhe deixárão no corpo os instrumentos

terriveis que supportára, decomposta a physionomia pelas dôres

profundas, brancos os cabellos da cabeça e do rosto antes que o tempo

lhes mudasse o colorido natural, mais se assemelhava a um decrepito

ancião que anciava por descer ao tumulo e não pertencer mais ao mundo.

O tempo, os trabalhos, as peregrinações e soffrimentos lhe havião

por tal feitio transfigurado a physionomia, que o não conhecêra Dona

Clara, e para o tratar como irmão necessitára de que lhe affirmassem

estar em presença de Manuel de Moraes. Abraçando-se ternamente,

entretiverão-se no meio de soluços repetidos e de lagrimas abundantes,

ácerca dos pais já fallecidos, das irmãs, e parentes domiciliados em São

Paulo, da familia que residia em Lisboa, da casa e ninho paterno, e das

reminiscencias da mutua mocidade. Revivêrão saudades que pungião o

coração, e o cortavão dolorosamente, tanto mais que o tempo feliz

passado lhes manifestava a profunda miseria presente.

--Meu respeitavel pai! minha querida mãi e verdadeira santa,--exclamava

a miudo Moraes.--Estais ambos já no seio da eternidade, e em presença de

Deos. Breve vos irá ahi encontrar o vosso filho desgraçado.

Perdoai-lhe... Perdoai a quem concorreu sem duvida para os vossos

males na terra, mas que padeceu tambem muito!

Durou a entrevista mais de uma hora, e foi seu resultado infallivel

prostrar mais as forças do infeliz noviço, que só deixou a irmã quando

os empregados do Santo Officio a coagírão a abandona-lo, e sahir dos

paços terriveis da Inquisição.

Tocou a vez do padre Eusebio de Monserrate, que se apresentou no

caracter de confessor do condemnado. Contou-lhe a ordem d'el-rei, posto

lhe não occultasse o seu temor tanto mais fundado de que o tribunal a

desattendesse, quanto até aquelle momento lhe não constára haverem os

juizes respondido. Declarou-lhe que visto approximar-se o dia fatal

designado para o auto de fé e execução da sua sentença, preferivel era

que se preparasse para comparecer perante Deos, abrindo ao sacerdote a

sua alma inteira, e recebendo a sua absolvição para se passar á

eternidade tranquillo e sacramentado.

Prostrou-se Moraes diante do seu confessor e amigo. Revelou-lhe com

franqueza os desejos e aspirações mundanas que lhe havião assoberbado o

espirito, os crimes que praticára no seu desvairamento, e as idéas e

pensamentos sinceros de que se possuia o seu animo n'aquelle momento

solemne. Orárão ambos fervorosamente, e de joelhos, diante da cruz

sagrada, que symbolisava o martyrio do filho de Deos. Lançou-lhe o padre

a benção consoladora, e recommendou-o á misericordia do Omnipotente.

Estava-se já em vesperas do auto de fé annunciado, e nem-uma deliberação

tomára ainda o tribunal do Santo Officio ácerca do aviso expedido pelo

escrivão da puridade d'el-rei em pró de Moraes, posto o provincial dos

Jesuitas empregasse as maiores diligencias no seu cumprimento.

No dia porém anterior ao designado para a horrenda ceremonia,

quando os aprestos todos se havião já concluido, correu voz emfim que

não ousára o tribunal do Santo Officio affrontar o perdão que Dom João

IVº concedêra, bem que singular e desusado. Assentárão os juizes que

darião execução ao aviso regio, depois de sahir Manuel de Moraes no auto

de fé como penitente, e coberto com as insignias do fogo, e de assistir

ao cumprimento das sentenças relativas aos demais accusados.

Raiou o dia fatal. Cobrírão-se desde a madrugada as casas dos habitantes

de Lisboa sitas nas ruas e praças que devia atravessar a procissão, e

ornadas de colchas adamascadas, cruzes, imagens de santos, e velas

acesas. Guarneceu-se o chão, que nem calçado era n'aquelle tempo, com

folhas viçosas de arvores. Brilhárão com velas e lampadas, e ornárão-se

com flôres odoriferas os oratorios, que se semeavão pelos cantos

das ruas. Derão signaes repetidos de festa os sinos dos numerosos

templos, que saudavão o triumpho da Igreja catholica, que salvava a fé e

o dogma, castigando os máos, e amedrontando os tibios e descrentes.

Desfilárão soldados, occupando varios pontos proximos á praça de

Santa-Anna, e occupando-a cuidadosamente para que ninguem, afóra as

pessoas do cortejo, penetrasse dentro do circulo reservado ás execuções

das sentenças.

Fogueiras formadas com madeiros seccos e palha solta destinadas para os

condemnados ás chammas, e cadafalsos erguidos ao lado para os que devião

supportar o supplicio do garrote, aterrorisavão as vistas. Vultos

cobertos com o manto do Santo Officio, mascarados, e reluzentes com

grandes cruzes, que se lhes gravárão nos peitos, os rodeiavão em copiosa

quantidade.

Á hora marcada, el-rei, a rainha, os secretarios e conselheiros de

estado, e a côrte toda, tomárão os seus lugares, occupando um edificio

levantado na frente, conforme os usos supersticiosos da época. Por toda

a parte adejava, rumorejava, e saltava, benzendo-se e rezando, uma

multidão de gente miuda, que não falta a quaesquer espectaculos de dôr

ou de alegria.

Ouvírão-se tiros multiplicados da artilharia dos arsenaes, fortalezas e

navios de guerra. Repicárão de novo os sinos das igrejas, e girandolas

pittorescas de fogos artificiaes subírão aos ares, e os partírão com mil

riscos refulgentes, e ribombos repetidos. Era o signal de que partia dos

paços do largo do Rocio o auto de fé e se encaminhava para o seu

destino, segundo as formulas da mais rigorosa etiqueta. Marchavão

adiante empregados do Santo Officio, montados a cavallo, armados, e

segurando bandeiras negras com chammas de fogo, emblemas do tribunal

sanguinolento. Seguião-nos padres e frades de diversas ordens,

recitando orações lugubres, com a cabeça descoberta. Guardas a pé com

clavinotes, espadas e terçados, e vultos mascarados, e com os habitos da

Inquisição, rodeiavão as numerosas victimas, amarradas umas ás outras,

de pés no chão, e ornadas as cabeças com capuzes negros manchados de

flammas luminosas, que lhes cobrião as faces, permittindo-lhes apenas a

vista por dous buracos rasgados.

Ião depois os membros do Santo Officio, cercando o Inquisidor geral, que

caminhava sob um pallio, e acompanhados por mais de duzentos famulos da

Inquisição, que no dizer das tradições se compunhão de fidalgos das

primeiras casas do reino, magistrados, altos funccionarios,

capitalistas, industriosos, e gente de todas as condições e classes da

sociedade.

Fechava o prestito um corpo de cavallaria, com a sua musica e

tambores tangendo constantemente.

Parava o auto de fé diante de todos os oratorios e imagens levantadas na

sua passagem, e demoradamente chegou assim ao largo de Santa-Anna.

Levantárão-se as bandeiras, e rufárão os tambores. Occupára cada pessoa

do cortejo o seu lugar competente. Leu o pregoeiro a lista dos

condemnados ao fogo e ao garrote, e a dos penitentes que devião assistir

á execução das sentenças. Figurava entre estes ultimos o nome do

desditoso Manuel de Moraes, perdoado da pena capital por graça

particular de Dom João IVº. Dirigio um sacerdote uma oração a Deos,

ajoelhárão-se todos os circumstantes, e manifestárão a piedade dos seus

sentimentos.

Derão-se as ordens derradeiras. Subírão ás fogueiras por meio de escadas

preparadas as victimas reservadas ás chammas. Forão amarradas a um

poste de páo que se erguia no centro d'ellas. Incendiou-se a palha e o

madeiro. Uma nuvem escura e ardentes labaredas brotárão immediatamente,

e logo depois se ouvírão gritos doridos, e gemidos pungentes dos

desgraçados, que se queimavão e desapparecião nas flammas.

Succedeu-lhe a operação do garrote, e algozes impedernidos cortárão os

fios de vida, por meio da suffocação instantanea, aos desventurados

réos, cujos restos se lançárão nas fogueiras ainda abrazadoras para o

fim de se confundirem todos, que se havião condemnado.

Organisou-se por fim em torno das fogueiras e cadafalsos a procissão dos

penitentes, sustidos a maior parte por famulos e empregados do Santo

Officio, visto como lhes faltavão forças para se sustentarem por seus

proprios pés.

Terminada a ceremonia, volveu o cortejo para os paços da Inquisição.

Logo que passou os umbraes da entrada principal do edificio, deu ordens

o Inquisidor geral para se tirar Manuel de Moraes d'entre os penitentes,

e restitui-lo aos Jesuitas, que já alli se havião reunido, no intuito de

recebê-lo, e recolhê-lo á sua casa.

Procedeu-se á entrega solemne, e lavrou-se termo, que assignárão as

autoridades competentes. Não se podendo ter em pé o paciente, foi

depositado em um assento de pedra, emquanto se cumprião as formalidades

do acto.

Quando o padre Eusebio de Monserrate se approximou d'elle para lhe dar o

braço, levanta-lo, e ajuda-lo a sahir dos paços do Santo Officio,

escapou-lhe Moraes das mãos, resvalou do assento, e rolou pelo chão.

Tratou subito o Jesuita de rasgar-lhe a mascara e as vestes. Descobrio

um cadaver. Já não pertencia ao mundo.

Ajoelhou-se Eusebio de Monserrate, e disse enternecidamente:

--Senhor! Senhor! recebe no teu seio piedoso o peccador contrito, e

perdôa com a tua infinita misericordia a quem tanto soffreu na terra!

FIM

[1] O padre Techo na sua obra sobre o Paraguay, e a _Historia

Argentina_, L. Iº, Capº. 5º narrão o facto de Aleixo Garcia mandado

ao sertão por Martim Affonso, e morto por Gaboto, que se apoderou da

prata que elle encontrára.

[2] Nos citados autores se falla do convite do cacique Taubixi para

se defender contra os Castelhanos.

[3] O padre Techo conta a historia de Sedenho, que fôra em soccorro

de Aleixo Garcia com 60 homens, dos quaes a maior parte pereceu com

o chefe.

[4] Historico--V. René Saint Taillandier, _les juifs portugais en

Hollande_.

[5] Barlius, _de rebus variis_.

[6] Taillandier acima citado.

[7] Publicada em Leyde, e na lingua castelhana, no anno de 1641, com

o titulo de _Prognostico y respuesta a una pergunta de un cabalero

muy ilustre sobre las cosas de Portugal_.

INDICE

DUAS PALAVRAS AO LEITOR

CAPITULO PRIMEIRO 1

CAPITULO II 21

CAPITULO III 46

CAPITULO IV 75

CAPITULO V 97

CAPITULO VI 116

CAPITULO VII 138

CAPITULO VIII 158

CAPITULO IX 177

CAPITULO X 198

CAPITULO XI 217

CAPITULO XII 235

CAPITULO XIII 255

CAPITULO XIV 272

PARIZ.--TYP. PORTUG. DE SIMÃO RAÇON E COMP., RUA D'ERFURTH, 1.

PARIZ.--TYP. PORTUG. DE SIMÃO RAÇON E COMP., RUA D'ERFURTH, 1.

End of Project Gutenberg's Manuel de Moraes, by João Manuel Pereira da Silva

Manuel de Moraes: Chronica do Seculo XVII · 第 9 / 9 段