fossem entregues ao governo que administrava a colonia hollandeza do
Brazil, queimando-se immediatamente os galeões imprestaveis. Dos dez
vencidos escapárão quatro apenas, para cujo bordo se transferírão as
cargas retiradas dos outros, os prisioneiros infelizes, e novas
tripolações hollandezas. Deu-se então ainda um espectaculo merencório e
attristador para os que se não havião a elle habituado. Lançou-se fogo
ás seis embarcações condemnadas, que ardêrão no meio de robustas e
estrepitosas chammas, e ao som de vivas partidos dos navios
hollandezes, que assistião alegres á scena miseranda.
Executadas as determinações do commandante, seguírão os quatro galeões
para Pernambuco. Entrárão no porto do Recife, e derão contas ao conselho
director da Companhia das Indias Occidentaes, que governava a conquista
hollandeza.
Forão soltos todos os prisioneiros e abandonados a plena e inteira
liberdade para procurarem á sua vontade meios de subsistencia e vida, já
que havião sido despojados de quantos bens lhes pertencião. Corria o
anno de graça de 1632 quando se achou Manuel de Moraes lançado no meio
da povoação do Recife, dominado então pelos Hollandezes. Sob os mais
infaustos auspicios se lhe abria o mundo livre, a que elle aspirára
imprudentemente. Raiava-lhe a aurora da vida anuviada por clarões
sinistros de amarguras e dôres physicas. Iniciava assim a sua
marcha debaixo das impressões mais crueis e sombrias, já que, por
capricho do espirito, ou indefinidos impetos d'alma, desamparára a
quietação e santidade do claustro para correr adiante de peripecias e
aventuras que lhe preparavão o seu fatal destino e a sua estrella
desventurada.
CAPITULO VI
Desde que a nação portugueza, conquistada em 1580 pelos exercitos do
duque d'Alva e pelas trahições da nobreza nacional degenerada, fôra
reunida á monarchia hespanhola como sua provincia, timbrárão
constantemente os Felippes de Castella em suffoca-la, arruina-la, e
esbroa-la sob seus pés, quebrando-lhe os brios, sopitando-lhe os vôos de
regeneração, e sumindo na miseria e na degradação as reminiscencias das
passadas glorias e faustos heroicos. Cuidárão igualmente os
Hollandezes, inimigos de Hespanha, em roubar-lhe possessões
transatlanticas, empossar-se das suas colonias, e estragar-lhe
inteiramente o commercio maritimo.
Hespanholas se reputavão as terras americanas, asiaticas e africanas,
que havião a Portugal pertencido quando constituíra um Estado
independente. Não as poupou Hollanda, incitada pelas riquezas do solo.
Da Asia e Africa lançou vistas igualmente sobre o Brazil. Organisára-se
em 1631 uma Companhia de gente e capitaes pelas varias cidades dos
Paizes Baixos afim de conquistar e usufruir as possessões americanas
outr'ora portuguezas. Lográra approvação do governo dos Estados Geraes
para os estatutos que a constituião sob o titulo de Companhia das Indias
Occidentaes, e lhe concedião o direito de invadir, occupar e desfructar
os territorios que conquistasse, pelo espaço de trinta annos a começar
de 1624, com a obrigação de entregal-os no fim do prazo ao governo,
e receber em indemnisação o valor dos navios que possuissem,
estabelecimentos que lhe pertencessem, e munições de guerra que lhe
restassem.
Formárão-se os capitaes necessarios com a emissão de titulos ou acções,
espalhados em Hollanda. Concorria o Estado com a somma annual de um
milhão de florins para ajudar a Companhia, e com o auxilio de vinte
navios de guerra para o seu serviço. Participava por este motivo da
metade dos beneficios liquidos que lhe resultassem das suas emprezas.
Residia alternativamente em Amsterdam e Midelburgo a séde ou conselho
director principal e supremo da Companhia, composto do stathouder de
Hollanda como presidente, e de dezoito membros escolhidos pelas camaras
e secções de accionistas de Amsterdam, Rotterdam, Groningue, Zelandia e
Frisa. Competião á administração superior as attribuições politicas
e administrativas da Companhia, e d'ella partião as ordens necessarias
para expedição de frotas e tropas, e augmentos das conquistas, como se
fôra a Companhia um Estado e governo proprio e independente.
Traçára a Companhia encetar o seu dominio na America portugueza
apoderando-se da Bahia de Todos os Santos. Conseguira em 8 de Maio de
1624 vencer e domar a cidade, aprisionando-lhe o governador Diogo de
Mendonça Furtado. Teve porém de abandona-la no anno seguinte, diante das
massas numerosas de gente armada que se formárão no reconcavo da
capitania, e assediárão os invasores entrincheirados nas linhas da sua
capital, ao passo que uma esquadra hespanhola, commandada por D.
Fradique de Toledo, os punha em rigoroso bloqueio maritimo.
Não se desanimára todavia, e expedindo contra o Brazil novas forças em
1630, lográra fazer saltar em terra no Páo Amarello o coronel
Wanderburgo com cerca de tres mil soldados, que cahindo sobre Olinda,
capital de Pernambuco, e apossando-se d'ella inopinadamente, obrigárão
Mathias de Albuquerque, governador da capitania, a desamparar o porto do
Recife, atacado por terra e bombardeado pelo mar, afim de achar abrigo
no interior das terras, e fortificar-se no arraial do Bom Jesus, depois
de ter queimado os armazens do Recife, e os navios ancorados no porto,
para que não pudessem servir ao inimigo.
Estendêrão-se a pouco e pouco as posses dos Hollandezes em Pernambuco,
em despeito da resistencia heroica dos naturaes e habitadores
portuguezes do paiz, que valentemente commandava Mathias de Albuquerque,
e dos gentios alliados, que o indigena Felippe Camarão denodadamente
dirigia.
Reduzíra-se a cinzas o glorioso forte de São Jorge, arrasára-se o
heroico arraial do Bom Jesus, incendiára-se a fermosa Olinda; mas a
Companhia progredia em sua conquista, e os Portuguezes e Brazileiros se
forão recolhendo para o Norte e Sul, abandonando aos Hollandezes o
territorio invadido, para o qual expedia a Companhia das Indias
incessantes e poderosos auxilios de armas e soldados, e nomeára chefes
activos e bravos.
Curvavão-se ao jugo hollandez os naturaes do paiz, que não puderão ou
lográrão evadir-se, posto lhes prohibisse o conselho director da
Companhia a celebração do seu culto religioso nas igrejas e templos que
possuião, e que forão transferidos para o protestantismo, logrando
apenas a faculdade de ouvirem missa catholica, e praticarem as suas
preces no meio dos campos e praças, ao ar livre e publico. Passára-se o
commercio para os agentes exclusivos da Companhia, consentindo-se
unicamente aos Portuguezes o cultivo das terras, e os trabalhos da
industria agricola.
Era esta a physionomia do Recife quando desembarcou alli Manuel de
Moraes, e tratou de procurar meios de vida. Partia-se a povoação em tres
quarteirões distinctos. Os armazens, arsenaes, casas de negocio,
fortalezas, e habitações officiaes e particulares, occupavão a lingua de
terra que forma o rio Biberibe na sua juncção com o Capiberibe.
Avassallava o segundo quarteirão a ilha de Antonio Vaz, creada no seio
d'este ultimo rio, deserta e abandonada ainda. Além do Capiberibe e
Biberibe estendia-se a capitania para o centro das terras, sem que
nem-umas pontes o communicassem ainda com a ilha, e nem com o Recife.
Atravessavão-se os rios em canôas e jangadas, que conduzião assucares e
aguardentes que produzia a lavoura, e que vinhão a entregar-se aos
agentes da Companhia, que os compravão pelo preço previamente
estabelecido nos seus regulamentos e annuncios.
Não lhe podendo valer a instrucção que adquirira no Instituto dos
Jesuitas de São Paulo, e nem os dotes primorosos da intelligencia com
que o mimoseára a Providencia, comprehendeu Moraes que o só trabalho
manual lhe forneceria elementos de existencia, e cuidou portanto em
applicar-lhe os seus recursos. Entregou-se aos misteres agricolas,
alugando os seus serviços a um Portuguez que possuia terrenos á margem
esquerda do rio Biberibe, no sitio em que se edificou posteriormente o
notavel bairro da Boa Vista.
Corrêrão os dias, os mezes e os annos sem que lhe deparasse a sorte com
meios de modificar a sua situação e estado miseravel e penoso. A varios
generaes e chefes do conselho civil substituíra a Companhia em 1656 o
principe Mauricio de Nassau, que tomando as redeas do Estado, prestou
nova vida á colonia hollandeza, augmentou-lhe os dominios até além
do rio de São Francisco para as partes do Sul, e quasi no Maranhão as
possessões do Norte. Tratava-se Nassau como soberano. Trouxera comsigo
naturalistas para estudar as riquezas do paiz, como Piso de Leyde e o
celebrisado Macgraff, historiadores como Barlous, litteratos como
Francisco Plante, architectos como Pieter Porter, e pintores sahidos da
escola flamenga, que já gozava de nomeada na Europa. Conseguio que a
Companhia cedesse aos particulares hollandezes a liberdade do commercio,
guardando unicamente monopolios em generos determinados, afim de
augmentar a povoação do Recife, e enriquecer a colonia. Perseguio
funccionarios prevaricadores. Pôz ordem nas finanças. Melhorou a
administração publica. Reorganisou as forças militares. Acabou com
arbitrios e abusos das autoridades subalternas. Permittio aos judêos
levantar as suas synagogas, e aos Portuguezes celebrar a sua
religião e culto divino, e praticar conforme a antiga solemnidade as
suas procissões apparatosas. Fundou escolas para os gentios. Mandou
restituir os escravos fugidos a seus donos portuguezes, comtanto que
estes prestassem juramento de obediencia ao governo de Hollanda.
Levantou fortalezas no Penedo, Porto Calvo, na ilha de Antonio Vaz, e
outros lugares. Traçou uma nova cidade n'esta ilha, delineando-lhe as
ruas, e construindo n'ella um palacio para si com o nome de Wryburgo,
com torres nas azas, e um observatorio astronomico ao lado. Communicou a
ilha com o Recife por uma ponte lançada sobre o Capiberibe e Biberibe,
que já ahi correm juntos e unidos. Á nova cidade edificada sobre a ilha
deu o titulo de Mauricia, e em pouco tempo se cobrio ella de edificios e
predios. Attrahíra assim o seu governo cópia numerosa de naturaes do
paiz, que não temião já perseguições e vinganças dos invasores, e
não raros forão os que aceitárão então o dominio hollandez, notando-se
entre elles João Fernandes Vieira, que fôra um dos bravos defensores do
forte de São Jorge, e acompanhára Mathias de Albuquerque ao arraial do
Bom Jesus, preferindo agora a vida socegada e industriosa, e tornando-se
até um dos agentes financeiros da Companhia.
Trabalhava Manuel de Moraes uma tarde á margem do rio, limpando e arando
a terra, quando gritos doridos lhe chamárão a attenção para a ilha de
Antonio Vaz. Partião de dous cavalleiros que a todo o galope dos seus
corseis corrião após uma dama cavalleira, que cada vez se afastava mais
d'elles, vencendo-os na marcha veloz e precipitada. Estavão longe ainda,
e se não podia adivinhar o motivo dos clamores. Ao approximar-se porém
mais o ginete da dama que vinha adiante, percebeu Manuel com susto
que fugia o animal á redea solta, e não era mais domado pela cavalleira,
que com difficuldade se sustentava na sella. Gravissimo perigo a
ameaçava se mão estranha não segurasse o freio do cavallo disparado, e
lhe não cortasse os impetos força de braço vigoroso.
Descobrir a scena, e acudir-lhe incontinente, cogitou Moraes no mesmo
instante. Atravessar o rio em canôa equivalia a perder tempo, e nem
canôa se encontrava perto. Posto as aguas estivessem crescidas, não
hesitou um minuto em atirar-se no seu seio, vencê-las, e transpo-las,
vestido como estava, para chegar ao sitio fatal, e servir aos seus
intentos.
Bastárão-lhe poucos momentos para passar de uma para outra margem, da
terra firme para a ilha. Precipitou-se sobre o cavallo disparado,
agarrou-lhe as redeas e freio, e o conteve de subito. Esbraveceu o
ginete de raiva, vendo-se acurvado, e fortes tremores lhe agitárão
o corpo. Com um dos braços sacou Moraes de cima dos arções a dama, que
desmaiada depositou no chão, e cujos sentidos cuidou em avivar,
tranquillisando-a com palavras animadoras. Chegárão no entanto os dous
cavalleiros da comitiva. Era um d'elles um velho Hollandez, Guilherme
Brodechevius, membro do conselho politico, amigo do principe Mauricio, e
pessoa abastada e importante da Companhia das Indias. Apertou amigavel e
fervorosamente a mão de Manuel de Moraes, perguntou-lhe por seu nome,
officio e residencia, e prometteu-lhe lembrar-se do serviço assignalado
que prestára á sua filha. A pouco e pouco recobrou a dama os seus
sentidos, e quiz ver o homem que a salvára da morte, e exprimir-lhe de
viva voz o seu reconhecimento.
Não tardárão em vir soccorros de gente, e uma liteira, que recebeu a
dama, e a transportou para a sua casa, emquanto Manuel tratou de
recolher-se ao seu mesquinho alvergue.
Ou o proprio feito, ou a humidade das vestes, que tanto tempo conservára
sobre o corpo, lhe não deixára conciliar o repouso. Com o correr da
noite um insulto de febre violenta lhe quebrou as forças, agitou os
membros, requeimou-o de fogo e arrancou-lhe o somno.
Horas tormentosas se passárão para Moraes até que o dia raiou, e linhas
quentes do sol lhe rasgárão as frestas da janella do seu alvergue, sem
que uma mão amiga lhe procurasse allivio ao mal que o suffocava, visto
como só e isolado residia.
Tentou levantar-se, mas sentio fraqueza inexprimivel. Esperava resignado
que o calor da temperatura lhe trouxesse recobramento de forças, quando
ouvio bater á porta, e fallar uma voz meiga posto desconhecida.
Pôde a custo erguer-se, e abrir o miseravel ferrolho, volvendo logo
depois para a velha marqueza, que lhe servia de leito.
Entrou o velho Hollandez, cuja filha salvára na vespera. Com
difficuldade pôde responder-lhe Moraes ás perguntas, reconhecendo-se
extremamente abatido e prostrado. Deixou-lhe Brodechevius um criado, que
o havia acompanhado, para tratar o enfermo, munindo-o de dinheiro e
instrucções no intuito de cuidar de Moraes, compromettendo-se a
mandar-lhe immediatamente um facultativo que o examinasse e medicasse.
Regressado o velho á sua casa exigio-lhe a filha fizesse transportar
para alli o enfermo, dando-lhe pouso na sua propria morada, porque ella
propria desejava pagar-lhe a vida que lhe devia.
Não sabia Brodechevius recusar-se á vontade de sua filha Beatriz. Era o
fructo unico que lhe restava da sua finada e querida esposa, e
dominava-lhe o animo e o coração com poder extraordinario. Desesperado
com a morte da companheira, abandonára Amsterdam, aceitára um emprego no
conselho director da Companhia das Indias, passára-se para o Recife, e
ahi se estabelecêra, vivendo só para Beatriz, e cercando-lhe a vida com
todas as delicias, que sóem adivinhar e descobrir o carinho e amor paterno.
Foi portanto Manuel de Moraes conduzido em uma padiola para a casa de
Brodechevius, e recolhido a um aposento excellentemente preparado, aonde
um facultativo se incumbio de trata-lo.
Tomou a febre um caracter maligno e proporções assustadoras. Visitava a
miudo Beatriz o infeliz enfermo compellindo-o ás vezes a tomar os
medicamentos aconselhados pelo facultativo, quando Moraes se recusava ao
enfermeiro, animando-o com maneiras gentis e expressões doces e
sympathicas, e extasiando-o como um anjo, que lhe raiava á cabeceira, e
lhe dirigia a vontade.
Tinha Beatriz estatura elevada. Era a sua idade de vinte annos. Longos e
louros cabellos ondeavão-lhe por sobre a cabeça altiva, denunciando a
sua origem do norte da Europa. Fronte larga e pura, physionomia oval e
expressiva, olhos grandes e feições regulares, lhe davão ares de
magestade mais que de delicadeza e doçura. Impunha o respeito pela
seriedade do porte, como as antigas rainhas, que convertêra o
catholicismo em santas da sua Igreja, tão graciosas na sua dignidade
quanto imponentes na sua attitude.
Faltavão a doçura, a fineza delicada, e a suavidade meridional das
imagens traçadas pelos Raphaeis e Murillos. Manifestava porém uma
d'essas figuras grandiosas de sacerdotisas dos Gaulezes, como as cria a
imaginação. Não resplandecião os seus olhos voluptuosamente,
inundando-se de paixões deleitosas. Mas dizião admiravelmente que se um
dia sentissem os assaltos do amor, não serião estes transitorios e
mundanos, inconstantes e ligeiros; elevar-se-hião á altura de dedicação
firme e permanente.
Acostumava-se Moraes á direcção que lhe dava Beatriz, descobrindo pela
primeira vez de sua vida o valor e poderio de uma mulher, que curva as
vontades, e converte os seus admiradores em escravos submissos.
Melhorava, considerava-se quasi restabelecido sempre que se pregavão os
seus olhos n'aquelle semblante admiravel. Recahia e definhava na sua
ausencia, parecendo chama-la constantemente para perto de si, se ella
queria que elle não morresse. Fallava-lhe já o coração que era Beatriz
indispensavel á sua existencia, e a pouco e pouco violenta paixão lhe
tomou posse de todas as faculdades, e assoberbou-lhe todo o espirito.
Não deixava a donzella de admirar igualmente a gentileza do moço, as
suas maneiras nobres, que lhe não parecião coadunar com a condição em
que o achára, as conversas delicadas, instructivas e interessantes, que
manifestavão uma educação superior á sua profissão, e os pensamentos
moraes e religiosos, que soía exprimir, e que abonavão uma alma pura e
honesta, e um animo primoroso.
O que foi n'elle desde o principio paixão amorosa, iniciou-se em Beatriz
como sympathia razoavel. Borbulhavão no peito de Manuel sentimentos
fogosos e delirantes, que lhe assoberbárão o espirito. Deixou-se
arrastar a donzella por uma affeição moral, que lhe descrevia as
qualidades selectas do mancebo e o seu trato agradavel, passando da
razão para o peito, e cavando-lhe a pouco e pouco o coração, como gottas
d'agua, que esbroão a pedra progressivamente. Vagarosa, diremos mesmo
razoavelmente, tomou a affeição o caracter de amizade, e este o
gráo de amor, acompanhando as phases da reflexão em luta com os
sentimentos naturaes, até que estes conseguírão sobre aquella um
triumpho decidido.
Mais de tres mezes durou a molestia de Moraes, aggravando-se e
diminuindo alternativamente até que entrou em plena convalescença.
Bastou esse tempo para criar e firmar nos corações de ambos os jovens o
sentimento mutuo, que os prendeu um ao outro para todo o sempre.
Fizera-se Moraes conhecer e apreciar como um homem de raro merecimento,
e que o só destino cego conservava em trabalhos inferiores á sua
educação e intelligencia. Arranjou-lhe Brodechevius um emprego
conveniente na administração da Companhia, em cujo exercicio entrou,
sahindo-lhe de casa, e estabelecendo-se com decencia no Recife. Sem que
suspeitasse o velho os mysterios que lhe escondia o coração,
abrio-lhe a sua sociedade, e continuou a dar-lhe os abonos mais
evidentes de verdadeira estima.
Ao passo que o contacto incessante de Beatriz lhe aprofundava cada vez
mais os sentimentos de amor que nutria, e lhe affeiçoava as vontades da
donzella, sorvendo ambos a tragos saborosos a atmosphera incitante da
paixão, ganhou Moraes relações com personagens importantes da Companhia,
e se habituou aos costumes severos e puritanos de muitos Hollandezes
distinctos, extremosa e convencidamente dedicados ao seu culto
calvinista, e arreigados profundamente ás virtudes domesticas, e á vida
intima e pura do lar e da familia.
Resistíra sempre o seu espirito altivo e independente á disciplina
imposta e forçada. A instrucção que adquiríra dos dogmas da religião
catholica não lhe havião ganho a razão, como elle proprio o desejára,
para que com a razão lhe sorrisse a fé que lhe cumpria ter na
orthodoxia de Roma. Conservava já o seu culto mais por habito e
instincto que por convicção, porque se impregnára de duvidas o seu
animo, não distinguindo nas religiões senão as idéas moraes e as
virtudes praticas. Mais convencidos e respeitadores do culto lhe
parecião em geral os protestantes que os catholicos, avaliando os
Hollandezes do Recife pelos Portuguezes de São Paulo.
A cogitações tão fataes lhe ia seguindo a indifferença espiritual e o
scepticismo cruel e destruidor, que lhe abalava e estragava as fibras da
alma. Concorreria o amor para esta phase desgraçada, que o desprendia da
religião pura e santa de Roma, que melhor falla ao homem para a vida
eterna, e mais perfeitamente lhe mostra a humildade e natureza da
creatura diante do supremo autor do mundo?
CAPITULO VII
Corria o tempo veloz e feliz para Manuel de Moraes. Cumpria com as
obrigações do seu emprego. Applicava-se ás lettras e ás artes.
Engolfava-se na contemplação do seu amor. Espirito e coração nadavão em
prazer e delicias ineffaveis.
Sem que os dous amantes se tivessem mutuamente rasgado os segredos do
peito, e confessado as suas ardencias apaixonadas, parecião
comprehender-se entre si, porque no trocar dos olhos os feria a chamma,
e nas conversações familiares denunciavão as palavras de ambos os
seus intimos sentimentos. Notámos já que o amor de Manuel de Moraes
tendia a idéas e instinctos mais sensuaes, emquanto que o affecto de
Beatriz se sumia no espiritualismo de um animo raciocinador, e menos
dedicado ás cousas do mundo. Mais firme devia de ser o da donzella,
porque nascia da convicção e da razão que o aceitárão, e dos pensamentos
sublimes que ella nutria. Resplandecia como uma aureola celeste, e uma
aspiração pura e santa. Dominava a paixão de Moraes os sentidos
materiaes exclusivamente, avassallava-o pela fascinação, curvava-o pelo
enthusiasmo, e pertencia mais á terra e á realidade, fragil e
inconstante como o homem, exaltada e attribulada como todos os seus
impetos.
Amavão-se, e bastava o mutuo sentimento para approxima-los, sem que
percebessem as differenças que os arredarião mais tarde.
Preparára no entanto Mauricio de Nassau uma poderosa expedição para
augmentar os dominios dos Hollandezes no continente brazilico. Reunindo
uma frota de vinte dous vasos de guerra, mandou embarcar tres mil e
duzentos soldados hollandezes e mil gentios de Pernambuco, com quem
entretinha relações amigaveis e excellente alliança, e passou ordens
para se dirigirem para a Bahia do Salvador, e tomarem á força conta
d'esta praça importante.
Partíra a frota, e penetrára na Bahia, descarregando gente que por terra
coadjuvasse os navios na redição da cidade. Foi o assalto terrivel e
medonho. Defendêrão-se com denodo os habitantes da praça. Tomárão os
Hollandezes os fortes Alberto, Felippe, Bartholomeu, e Rosario.
Pretendendo escalar o convento dos Carmelitas descalços, fortificado
cuidadosamente, soffrêrão todavia resistencia tão azeda e pertinaz, que
os compellio a recuar. Tinhão perdido já cerca de mil e cem homens,
quando conhecêrão que lhes não restava recurso, para não morrerem todos,
senão no levantamento do sitio, e no abandono da praça. Volvêrão
vencidos para o Recife os restos da famosa expedição effectuada pelos
Hollandezes em Maio de 1637. Amargurára-se extremamente o principe de
Nassau com este evento desastroso dos seus projectos. Traçou todavia
ajuntar meios mais fortes e poderosos para os levar avante, não perdendo
a esperança de annexar a capitania da Bahia aos demais territorios de
que já estava de posse no continente americano, que se intitulava n'esse
tempo de Brazil hollandez, para se distinguir do que sobrava ainda aos
Portuguezes.
Tramava porém na Hollanda contra o principe um seu decidido inimigo,
Christovão Artichfsky, Polaco de nascimento, general ao serviço dos
Estados Geraes, e que governára militarmente Pernambuco antes que
se tivesse confiado a administração do paiz a Mauricio de Nassau.
Proezas praticára Artichfsky, serviços distinctos commettêra, fama de
valentia e coragem ganhára, durante as guerras em que anteriormente
laborava a Companhia das Indias Occidentaes. Retirado do Recife ao
chegar Mauricio, conservava creditos excellentes na Hollanda, e
procurava vingar-se da preterição que reputava injusta, e da sua
substituição pelo principe Mauricio no cargo principal da Companhia em
seus territorios de Pernambuco.