Ordenou Henrique Long que se levassem para o Recife as presas de valor e

fossem entregues ao governo que administrava a colonia hollandeza do

Brazil, queimando-se immediatamente os galeões imprestaveis. Dos dez

vencidos escapárão quatro apenas, para cujo bordo se transferírão as

cargas retiradas dos outros, os prisioneiros infelizes, e novas

tripolações hollandezas. Deu-se então ainda um espectaculo merencório e

attristador para os que se não havião a elle habituado. Lançou-se fogo

ás seis embarcações condemnadas, que ardêrão no meio de robustas e

estrepitosas chammas, e ao som de vivas partidos dos navios

hollandezes, que assistião alegres á scena miseranda.

Executadas as determinações do commandante, seguírão os quatro galeões

para Pernambuco. Entrárão no porto do Recife, e derão contas ao conselho

director da Companhia das Indias Occidentaes, que governava a conquista

hollandeza.

Forão soltos todos os prisioneiros e abandonados a plena e inteira

liberdade para procurarem á sua vontade meios de subsistencia e vida, já

que havião sido despojados de quantos bens lhes pertencião. Corria o

anno de graça de 1632 quando se achou Manuel de Moraes lançado no meio

da povoação do Recife, dominado então pelos Hollandezes. Sob os mais

infaustos auspicios se lhe abria o mundo livre, a que elle aspirára

imprudentemente. Raiava-lhe a aurora da vida anuviada por clarões

sinistros de amarguras e dôres physicas. Iniciava assim a sua

marcha debaixo das impressões mais crueis e sombrias, já que, por

capricho do espirito, ou indefinidos impetos d'alma, desamparára a

quietação e santidade do claustro para correr adiante de peripecias e

aventuras que lhe preparavão o seu fatal destino e a sua estrella

desventurada.

CAPITULO VI

Desde que a nação portugueza, conquistada em 1580 pelos exercitos do

duque d'Alva e pelas trahições da nobreza nacional degenerada, fôra

reunida á monarchia hespanhola como sua provincia, timbrárão

constantemente os Felippes de Castella em suffoca-la, arruina-la, e

esbroa-la sob seus pés, quebrando-lhe os brios, sopitando-lhe os vôos de

regeneração, e sumindo na miseria e na degradação as reminiscencias das

passadas glorias e faustos heroicos. Cuidárão igualmente os

Hollandezes, inimigos de Hespanha, em roubar-lhe possessões

transatlanticas, empossar-se das suas colonias, e estragar-lhe

inteiramente o commercio maritimo.

Hespanholas se reputavão as terras americanas, asiaticas e africanas,

que havião a Portugal pertencido quando constituíra um Estado

independente. Não as poupou Hollanda, incitada pelas riquezas do solo.

Da Asia e Africa lançou vistas igualmente sobre o Brazil. Organisára-se

em 1631 uma Companhia de gente e capitaes pelas varias cidades dos

Paizes Baixos afim de conquistar e usufruir as possessões americanas

outr'ora portuguezas. Lográra approvação do governo dos Estados Geraes

para os estatutos que a constituião sob o titulo de Companhia das Indias

Occidentaes, e lhe concedião o direito de invadir, occupar e desfructar

os territorios que conquistasse, pelo espaço de trinta annos a começar

de 1624, com a obrigação de entregal-os no fim do prazo ao governo,

e receber em indemnisação o valor dos navios que possuissem,

estabelecimentos que lhe pertencessem, e munições de guerra que lhe

restassem.

Formárão-se os capitaes necessarios com a emissão de titulos ou acções,

espalhados em Hollanda. Concorria o Estado com a somma annual de um

milhão de florins para ajudar a Companhia, e com o auxilio de vinte

navios de guerra para o seu serviço. Participava por este motivo da

metade dos beneficios liquidos que lhe resultassem das suas emprezas.

Residia alternativamente em Amsterdam e Midelburgo a séde ou conselho

director principal e supremo da Companhia, composto do stathouder de

Hollanda como presidente, e de dezoito membros escolhidos pelas camaras

e secções de accionistas de Amsterdam, Rotterdam, Groningue, Zelandia e

Frisa. Competião á administração superior as attribuições politicas

e administrativas da Companhia, e d'ella partião as ordens necessarias

para expedição de frotas e tropas, e augmentos das conquistas, como se

fôra a Companhia um Estado e governo proprio e independente.

Traçára a Companhia encetar o seu dominio na America portugueza

apoderando-se da Bahia de Todos os Santos. Conseguira em 8 de Maio de

1624 vencer e domar a cidade, aprisionando-lhe o governador Diogo de

Mendonça Furtado. Teve porém de abandona-la no anno seguinte, diante das

massas numerosas de gente armada que se formárão no reconcavo da

capitania, e assediárão os invasores entrincheirados nas linhas da sua

capital, ao passo que uma esquadra hespanhola, commandada por D.

Fradique de Toledo, os punha em rigoroso bloqueio maritimo.

Não se desanimára todavia, e expedindo contra o Brazil novas forças em

1630, lográra fazer saltar em terra no Páo Amarello o coronel

Wanderburgo com cerca de tres mil soldados, que cahindo sobre Olinda,

capital de Pernambuco, e apossando-se d'ella inopinadamente, obrigárão

Mathias de Albuquerque, governador da capitania, a desamparar o porto do

Recife, atacado por terra e bombardeado pelo mar, afim de achar abrigo

no interior das terras, e fortificar-se no arraial do Bom Jesus, depois

de ter queimado os armazens do Recife, e os navios ancorados no porto,

para que não pudessem servir ao inimigo.

Estendêrão-se a pouco e pouco as posses dos Hollandezes em Pernambuco,

em despeito da resistencia heroica dos naturaes e habitadores

portuguezes do paiz, que valentemente commandava Mathias de Albuquerque,

e dos gentios alliados, que o indigena Felippe Camarão denodadamente

dirigia.

Reduzíra-se a cinzas o glorioso forte de São Jorge, arrasára-se o

heroico arraial do Bom Jesus, incendiára-se a fermosa Olinda; mas a

Companhia progredia em sua conquista, e os Portuguezes e Brazileiros se

forão recolhendo para o Norte e Sul, abandonando aos Hollandezes o

territorio invadido, para o qual expedia a Companhia das Indias

incessantes e poderosos auxilios de armas e soldados, e nomeára chefes

activos e bravos.

Curvavão-se ao jugo hollandez os naturaes do paiz, que não puderão ou

lográrão evadir-se, posto lhes prohibisse o conselho director da

Companhia a celebração do seu culto religioso nas igrejas e templos que

possuião, e que forão transferidos para o protestantismo, logrando

apenas a faculdade de ouvirem missa catholica, e praticarem as suas

preces no meio dos campos e praças, ao ar livre e publico. Passára-se o

commercio para os agentes exclusivos da Companhia, consentindo-se

unicamente aos Portuguezes o cultivo das terras, e os trabalhos da

industria agricola.

Era esta a physionomia do Recife quando desembarcou alli Manuel de

Moraes, e tratou de procurar meios de vida. Partia-se a povoação em tres

quarteirões distinctos. Os armazens, arsenaes, casas de negocio,

fortalezas, e habitações officiaes e particulares, occupavão a lingua de

terra que forma o rio Biberibe na sua juncção com o Capiberibe.

Avassallava o segundo quarteirão a ilha de Antonio Vaz, creada no seio

d'este ultimo rio, deserta e abandonada ainda. Além do Capiberibe e

Biberibe estendia-se a capitania para o centro das terras, sem que

nem-umas pontes o communicassem ainda com a ilha, e nem com o Recife.

Atravessavão-se os rios em canôas e jangadas, que conduzião assucares e

aguardentes que produzia a lavoura, e que vinhão a entregar-se aos

agentes da Companhia, que os compravão pelo preço previamente

estabelecido nos seus regulamentos e annuncios.

Não lhe podendo valer a instrucção que adquirira no Instituto dos

Jesuitas de São Paulo, e nem os dotes primorosos da intelligencia com

que o mimoseára a Providencia, comprehendeu Moraes que o só trabalho

manual lhe forneceria elementos de existencia, e cuidou portanto em

applicar-lhe os seus recursos. Entregou-se aos misteres agricolas,

alugando os seus serviços a um Portuguez que possuia terrenos á margem

esquerda do rio Biberibe, no sitio em que se edificou posteriormente o

notavel bairro da Boa Vista.

Corrêrão os dias, os mezes e os annos sem que lhe deparasse a sorte com

meios de modificar a sua situação e estado miseravel e penoso. A varios

generaes e chefes do conselho civil substituíra a Companhia em 1656 o

principe Mauricio de Nassau, que tomando as redeas do Estado, prestou

nova vida á colonia hollandeza, augmentou-lhe os dominios até além

do rio de São Francisco para as partes do Sul, e quasi no Maranhão as

possessões do Norte. Tratava-se Nassau como soberano. Trouxera comsigo

naturalistas para estudar as riquezas do paiz, como Piso de Leyde e o

celebrisado Macgraff, historiadores como Barlous, litteratos como

Francisco Plante, architectos como Pieter Porter, e pintores sahidos da

escola flamenga, que já gozava de nomeada na Europa. Conseguio que a

Companhia cedesse aos particulares hollandezes a liberdade do commercio,

guardando unicamente monopolios em generos determinados, afim de

augmentar a povoação do Recife, e enriquecer a colonia. Perseguio

funccionarios prevaricadores. Pôz ordem nas finanças. Melhorou a

administração publica. Reorganisou as forças militares. Acabou com

arbitrios e abusos das autoridades subalternas. Permittio aos judêos

levantar as suas synagogas, e aos Portuguezes celebrar a sua

religião e culto divino, e praticar conforme a antiga solemnidade as

suas procissões apparatosas. Fundou escolas para os gentios. Mandou

restituir os escravos fugidos a seus donos portuguezes, comtanto que

estes prestassem juramento de obediencia ao governo de Hollanda.

Levantou fortalezas no Penedo, Porto Calvo, na ilha de Antonio Vaz, e

outros lugares. Traçou uma nova cidade n'esta ilha, delineando-lhe as

ruas, e construindo n'ella um palacio para si com o nome de Wryburgo,

com torres nas azas, e um observatorio astronomico ao lado. Communicou a

ilha com o Recife por uma ponte lançada sobre o Capiberibe e Biberibe,

que já ahi correm juntos e unidos. Á nova cidade edificada sobre a ilha

deu o titulo de Mauricia, e em pouco tempo se cobrio ella de edificios e

predios. Attrahíra assim o seu governo cópia numerosa de naturaes do

paiz, que não temião já perseguições e vinganças dos invasores, e

não raros forão os que aceitárão então o dominio hollandez, notando-se

entre elles João Fernandes Vieira, que fôra um dos bravos defensores do

forte de São Jorge, e acompanhára Mathias de Albuquerque ao arraial do

Bom Jesus, preferindo agora a vida socegada e industriosa, e tornando-se

até um dos agentes financeiros da Companhia.

Trabalhava Manuel de Moraes uma tarde á margem do rio, limpando e arando

a terra, quando gritos doridos lhe chamárão a attenção para a ilha de

Antonio Vaz. Partião de dous cavalleiros que a todo o galope dos seus

corseis corrião após uma dama cavalleira, que cada vez se afastava mais

d'elles, vencendo-os na marcha veloz e precipitada. Estavão longe ainda,

e se não podia adivinhar o motivo dos clamores. Ao approximar-se porém

mais o ginete da dama que vinha adiante, percebeu Manuel com susto

que fugia o animal á redea solta, e não era mais domado pela cavalleira,

que com difficuldade se sustentava na sella. Gravissimo perigo a

ameaçava se mão estranha não segurasse o freio do cavallo disparado, e

lhe não cortasse os impetos força de braço vigoroso.

Descobrir a scena, e acudir-lhe incontinente, cogitou Moraes no mesmo

instante. Atravessar o rio em canôa equivalia a perder tempo, e nem

canôa se encontrava perto. Posto as aguas estivessem crescidas, não

hesitou um minuto em atirar-se no seu seio, vencê-las, e transpo-las,

vestido como estava, para chegar ao sitio fatal, e servir aos seus

intentos.

Bastárão-lhe poucos momentos para passar de uma para outra margem, da

terra firme para a ilha. Precipitou-se sobre o cavallo disparado,

agarrou-lhe as redeas e freio, e o conteve de subito. Esbraveceu o

ginete de raiva, vendo-se acurvado, e fortes tremores lhe agitárão

o corpo. Com um dos braços sacou Moraes de cima dos arções a dama, que

desmaiada depositou no chão, e cujos sentidos cuidou em avivar,

tranquillisando-a com palavras animadoras. Chegárão no entanto os dous

cavalleiros da comitiva. Era um d'elles um velho Hollandez, Guilherme

Brodechevius, membro do conselho politico, amigo do principe Mauricio, e

pessoa abastada e importante da Companhia das Indias. Apertou amigavel e

fervorosamente a mão de Manuel de Moraes, perguntou-lhe por seu nome,

officio e residencia, e prometteu-lhe lembrar-se do serviço assignalado

que prestára á sua filha. A pouco e pouco recobrou a dama os seus

sentidos, e quiz ver o homem que a salvára da morte, e exprimir-lhe de

viva voz o seu reconhecimento.

Não tardárão em vir soccorros de gente, e uma liteira, que recebeu a

dama, e a transportou para a sua casa, emquanto Manuel tratou de

recolher-se ao seu mesquinho alvergue.

Ou o proprio feito, ou a humidade das vestes, que tanto tempo conservára

sobre o corpo, lhe não deixára conciliar o repouso. Com o correr da

noite um insulto de febre violenta lhe quebrou as forças, agitou os

membros, requeimou-o de fogo e arrancou-lhe o somno.

Horas tormentosas se passárão para Moraes até que o dia raiou, e linhas

quentes do sol lhe rasgárão as frestas da janella do seu alvergue, sem

que uma mão amiga lhe procurasse allivio ao mal que o suffocava, visto

como só e isolado residia.

Tentou levantar-se, mas sentio fraqueza inexprimivel. Esperava resignado

que o calor da temperatura lhe trouxesse recobramento de forças, quando

ouvio bater á porta, e fallar uma voz meiga posto desconhecida.

Pôde a custo erguer-se, e abrir o miseravel ferrolho, volvendo logo

depois para a velha marqueza, que lhe servia de leito.

Entrou o velho Hollandez, cuja filha salvára na vespera. Com

difficuldade pôde responder-lhe Moraes ás perguntas, reconhecendo-se

extremamente abatido e prostrado. Deixou-lhe Brodechevius um criado, que

o havia acompanhado, para tratar o enfermo, munindo-o de dinheiro e

instrucções no intuito de cuidar de Moraes, compromettendo-se a

mandar-lhe immediatamente um facultativo que o examinasse e medicasse.

Regressado o velho á sua casa exigio-lhe a filha fizesse transportar

para alli o enfermo, dando-lhe pouso na sua propria morada, porque ella

propria desejava pagar-lhe a vida que lhe devia.

Não sabia Brodechevius recusar-se á vontade de sua filha Beatriz. Era o

fructo unico que lhe restava da sua finada e querida esposa, e

dominava-lhe o animo e o coração com poder extraordinario. Desesperado

com a morte da companheira, abandonára Amsterdam, aceitára um emprego no

conselho director da Companhia das Indias, passára-se para o Recife, e

ahi se estabelecêra, vivendo só para Beatriz, e cercando-lhe a vida com

todas as delicias, que sóem adivinhar e descobrir o carinho e amor paterno.

Foi portanto Manuel de Moraes conduzido em uma padiola para a casa de

Brodechevius, e recolhido a um aposento excellentemente preparado, aonde

um facultativo se incumbio de trata-lo.

Tomou a febre um caracter maligno e proporções assustadoras. Visitava a

miudo Beatriz o infeliz enfermo compellindo-o ás vezes a tomar os

medicamentos aconselhados pelo facultativo, quando Moraes se recusava ao

enfermeiro, animando-o com maneiras gentis e expressões doces e

sympathicas, e extasiando-o como um anjo, que lhe raiava á cabeceira, e

lhe dirigia a vontade.

Tinha Beatriz estatura elevada. Era a sua idade de vinte annos. Longos e

louros cabellos ondeavão-lhe por sobre a cabeça altiva, denunciando a

sua origem do norte da Europa. Fronte larga e pura, physionomia oval e

expressiva, olhos grandes e feições regulares, lhe davão ares de

magestade mais que de delicadeza e doçura. Impunha o respeito pela

seriedade do porte, como as antigas rainhas, que convertêra o

catholicismo em santas da sua Igreja, tão graciosas na sua dignidade

quanto imponentes na sua attitude.

Faltavão a doçura, a fineza delicada, e a suavidade meridional das

imagens traçadas pelos Raphaeis e Murillos. Manifestava porém uma

d'essas figuras grandiosas de sacerdotisas dos Gaulezes, como as cria a

imaginação. Não resplandecião os seus olhos voluptuosamente,

inundando-se de paixões deleitosas. Mas dizião admiravelmente que se um

dia sentissem os assaltos do amor, não serião estes transitorios e

mundanos, inconstantes e ligeiros; elevar-se-hião á altura de dedicação

firme e permanente.

Acostumava-se Moraes á direcção que lhe dava Beatriz, descobrindo pela

primeira vez de sua vida o valor e poderio de uma mulher, que curva as

vontades, e converte os seus admiradores em escravos submissos.

Melhorava, considerava-se quasi restabelecido sempre que se pregavão os

seus olhos n'aquelle semblante admiravel. Recahia e definhava na sua

ausencia, parecendo chama-la constantemente para perto de si, se ella

queria que elle não morresse. Fallava-lhe já o coração que era Beatriz

indispensavel á sua existencia, e a pouco e pouco violenta paixão lhe

tomou posse de todas as faculdades, e assoberbou-lhe todo o espirito.

Não deixava a donzella de admirar igualmente a gentileza do moço, as

suas maneiras nobres, que lhe não parecião coadunar com a condição em

que o achára, as conversas delicadas, instructivas e interessantes, que

manifestavão uma educação superior á sua profissão, e os pensamentos

moraes e religiosos, que soía exprimir, e que abonavão uma alma pura e

honesta, e um animo primoroso.

O que foi n'elle desde o principio paixão amorosa, iniciou-se em Beatriz

como sympathia razoavel. Borbulhavão no peito de Manuel sentimentos

fogosos e delirantes, que lhe assoberbárão o espirito. Deixou-se

arrastar a donzella por uma affeição moral, que lhe descrevia as

qualidades selectas do mancebo e o seu trato agradavel, passando da

razão para o peito, e cavando-lhe a pouco e pouco o coração, como gottas

d'agua, que esbroão a pedra progressivamente. Vagarosa, diremos mesmo

razoavelmente, tomou a affeição o caracter de amizade, e este o

gráo de amor, acompanhando as phases da reflexão em luta com os

sentimentos naturaes, até que estes conseguírão sobre aquella um

triumpho decidido.

Mais de tres mezes durou a molestia de Moraes, aggravando-se e

diminuindo alternativamente até que entrou em plena convalescença.

Bastou esse tempo para criar e firmar nos corações de ambos os jovens o

sentimento mutuo, que os prendeu um ao outro para todo o sempre.

Fizera-se Moraes conhecer e apreciar como um homem de raro merecimento,

e que o só destino cego conservava em trabalhos inferiores á sua

educação e intelligencia. Arranjou-lhe Brodechevius um emprego

conveniente na administração da Companhia, em cujo exercicio entrou,

sahindo-lhe de casa, e estabelecendo-se com decencia no Recife. Sem que

suspeitasse o velho os mysterios que lhe escondia o coração,

abrio-lhe a sua sociedade, e continuou a dar-lhe os abonos mais

evidentes de verdadeira estima.

Ao passo que o contacto incessante de Beatriz lhe aprofundava cada vez

mais os sentimentos de amor que nutria, e lhe affeiçoava as vontades da

donzella, sorvendo ambos a tragos saborosos a atmosphera incitante da

paixão, ganhou Moraes relações com personagens importantes da Companhia,

e se habituou aos costumes severos e puritanos de muitos Hollandezes

distinctos, extremosa e convencidamente dedicados ao seu culto

calvinista, e arreigados profundamente ás virtudes domesticas, e á vida

intima e pura do lar e da familia.

Resistíra sempre o seu espirito altivo e independente á disciplina

imposta e forçada. A instrucção que adquiríra dos dogmas da religião

catholica não lhe havião ganho a razão, como elle proprio o desejára,

para que com a razão lhe sorrisse a fé que lhe cumpria ter na

orthodoxia de Roma. Conservava já o seu culto mais por habito e

instincto que por convicção, porque se impregnára de duvidas o seu

animo, não distinguindo nas religiões senão as idéas moraes e as

virtudes praticas. Mais convencidos e respeitadores do culto lhe

parecião em geral os protestantes que os catholicos, avaliando os

Hollandezes do Recife pelos Portuguezes de São Paulo.

A cogitações tão fataes lhe ia seguindo a indifferença espiritual e o

scepticismo cruel e destruidor, que lhe abalava e estragava as fibras da

alma. Concorreria o amor para esta phase desgraçada, que o desprendia da

religião pura e santa de Roma, que melhor falla ao homem para a vida

eterna, e mais perfeitamente lhe mostra a humildade e natureza da

creatura diante do supremo autor do mundo?

CAPITULO VII

Corria o tempo veloz e feliz para Manuel de Moraes. Cumpria com as

obrigações do seu emprego. Applicava-se ás lettras e ás artes.

Engolfava-se na contemplação do seu amor. Espirito e coração nadavão em

prazer e delicias ineffaveis.

Sem que os dous amantes se tivessem mutuamente rasgado os segredos do

peito, e confessado as suas ardencias apaixonadas, parecião

comprehender-se entre si, porque no trocar dos olhos os feria a chamma,

e nas conversações familiares denunciavão as palavras de ambos os

seus intimos sentimentos. Notámos já que o amor de Manuel de Moraes

tendia a idéas e instinctos mais sensuaes, emquanto que o affecto de

Beatriz se sumia no espiritualismo de um animo raciocinador, e menos

dedicado ás cousas do mundo. Mais firme devia de ser o da donzella,

porque nascia da convicção e da razão que o aceitárão, e dos pensamentos

sublimes que ella nutria. Resplandecia como uma aureola celeste, e uma

aspiração pura e santa. Dominava a paixão de Moraes os sentidos

materiaes exclusivamente, avassallava-o pela fascinação, curvava-o pelo

enthusiasmo, e pertencia mais á terra e á realidade, fragil e

inconstante como o homem, exaltada e attribulada como todos os seus

impetos.

Amavão-se, e bastava o mutuo sentimento para approxima-los, sem que

percebessem as differenças que os arredarião mais tarde.

Preparára no entanto Mauricio de Nassau uma poderosa expedição para

augmentar os dominios dos Hollandezes no continente brazilico. Reunindo

uma frota de vinte dous vasos de guerra, mandou embarcar tres mil e

duzentos soldados hollandezes e mil gentios de Pernambuco, com quem

entretinha relações amigaveis e excellente alliança, e passou ordens

para se dirigirem para a Bahia do Salvador, e tomarem á força conta

d'esta praça importante.

Partíra a frota, e penetrára na Bahia, descarregando gente que por terra

coadjuvasse os navios na redição da cidade. Foi o assalto terrivel e

medonho. Defendêrão-se com denodo os habitantes da praça. Tomárão os

Hollandezes os fortes Alberto, Felippe, Bartholomeu, e Rosario.

Pretendendo escalar o convento dos Carmelitas descalços, fortificado

cuidadosamente, soffrêrão todavia resistencia tão azeda e pertinaz, que

os compellio a recuar. Tinhão perdido já cerca de mil e cem homens,

quando conhecêrão que lhes não restava recurso, para não morrerem todos,

senão no levantamento do sitio, e no abandono da praça. Volvêrão

vencidos para o Recife os restos da famosa expedição effectuada pelos

Hollandezes em Maio de 1637. Amargurára-se extremamente o principe de

Nassau com este evento desastroso dos seus projectos. Traçou todavia

ajuntar meios mais fortes e poderosos para os levar avante, não perdendo

a esperança de annexar a capitania da Bahia aos demais territorios de

que já estava de posse no continente americano, que se intitulava n'esse

tempo de Brazil hollandez, para se distinguir do que sobrava ainda aos

Portuguezes.

Tramava porém na Hollanda contra o principe um seu decidido inimigo,

Christovão Artichfsky, Polaco de nascimento, general ao serviço dos

Estados Geraes, e que governára militarmente Pernambuco antes que

se tivesse confiado a administração do paiz a Mauricio de Nassau.

Proezas praticára Artichfsky, serviços distinctos commettêra, fama de

valentia e coragem ganhára, durante as guerras em que anteriormente

laborava a Companhia das Indias Occidentaes. Retirado do Recife ao

chegar Mauricio, conservava creditos excellentes na Hollanda, e

procurava vingar-se da preterição que reputava injusta, e da sua

substituição pelo principe Mauricio no cargo principal da Companhia em

seus territorios de Pernambuco.

Manuel de Moraes: Chronica do Seculo XVII · 第 4 / 9 段