Bahia do Salvador, levantou opposições contra Mauricio no conselho
director de Amsterdam. Logrou que sem se lhe tirar a autoridade civil e
administrativa, confiasse o conselho a Artichftky o commando em chefe
das forças militares, com o titulo de mestre general da artilharia.
Chegado ao Recife, e empossado do seu novo cargo, encetou Artichfsky uma
serie de correspondencias para Hollanda, censurando os actos do principe
de Nassau, e pretendeu manobrar em Pernambuco independentemente da sua
autoridade, e fóra da acção superior de Mauricio.
Exasperou-se o principe com o procedimento de Artichfsky, e reunio o seu
conselho secreto e politico. Expôz-lhe a impossibilidade da existencia
no Brazil hollandez de duas autoridades em luta e dissidencia.
Manifestou intenções de retirar-se para Hollanda, e abandonar o Recife.
Erão porém todos os membros do conselho amigos do principe, e justos
apreciadores dos seus talentos administrativos. Assentárão unanimemente
em fazer uso das suas faculdades extraordinarias e superiores, decidindo
em favor de Mauricio, e reenviando para Hollanda o astucioso Polaco, com
communicações francas á Companhia a respeito dos motivos que os
levavão a adoptar essa anormal resolução e alvitre.
Partíra constrangido Artichfsky, e ficára o principe senhor da situação,
e livre do seu inimigo. Mas o perspicaz e atilado conselheiro
Brodechevius, pressentio logo que as intrigas do Polaco em Amsterdam
arrancarião por fim ao principe o governo de Pernambuco, e os odios
concentrados dos naturaes do paiz recomeçariam as lutas e guerras nas
terras já possuidas pela Companhia, e lograrião expellir do solo
americano as armas hollandezas. Conservava-se tranquillo o Brazil
hollandez com a moderação, experiencia e tino de Mauricio de Nassau.
Regimen diverso arrastaria tudo para a perdição.
Deliberou-se Brodechevius a abandonar o Recife, e recolher-se a
Amsterdam com a sua familia. Communicou á sua filha os seus intentos
para que se preparasse a seguir na primeira frota que para Hollanda
se fizesse de vela.
Recebeu Beatriz a noticia com tristeza e amargura, mas não oppôz duvidas
á resolução de Brodechevius. Tornou-se mais reservada com Manuel de
Moraes, escondendo-lhe todavia os projectos paternos.
Não escapou a Manuel de Moraes a nova phase por que passava o trato da
donzella. Diminuir-se-lhe-hia o affecto que, sem lhe haver sido jámais
declarado, elle não deixára de perceber? Que causas lhe teria dado?
Quando de soffrimentos intimos resultasse a frieza calculada, mas triste
e pensativa de Beatriz, d'onde partia a sua origem?
Atormentava-se Moraes com serias cogitações, sem que pudesse rasgar o
véo que encobria a dôr de Beatriz, que cada vez mais o acabrunhava com o
seu procedimento reservado. Corrêrão alguns dias nebulosos e enlutados
após tantos dias alegres, felizes, perfumados de amores, de
estremecimentos risonhos e de sonhos vaporosos.
Resolveu-se Manuel a um passo atrevido. Não podia conservar-se n'aquella
situação miseranda depois da anterior e aventurada posição. Sentio que a
franqueza se tornava necessaria, qualquer que fosse o seu resultado.
Preferivel era abrir a Beatriz o intimo do seu peito, dirigir-lhe uma
declaração leal do seu amor, manifestar pelos labios o que com mais
eloquencia havião os olhos propalado, já que uma nuvem se interpuzera á
linguagem muda com que mutuamente até então se correspondião.
Não lhe faltavão occasiões para se achar a sós com a donzella. Tomou
forças para a acção, e arrojou-se a pratica-la. Perguntou-lhe decidida e
resolutamente pelo motivo da sua tristeza, que desgraça lhe houvera
acontecido, ou que calamidade estava a elle reservada. Tentou Beatriz
esconder-lhe a verdade. Apertando-a cada vez mais, sem que lograsse
ser satisfeito, arrancou do coração um grito de dôr, e disse-lhe
estremecidamente:
--Dizei-m'o, dizei-m'o por piedade. Não sabeis já, com que força vos amo
e adoro!
Não espantou a confissão á donzella. Conheceu porém que após ella feita
tão solemnemente, melhor fôra fallar-lhe com lealdade. Posto pretendesse
apparentar-se calma e tranquilla a physionomia abatida trahia-a, e a voz
se lhe embargava ás vezes, correndo vagarosa e como perturbada por entre
os tremulos labios que a desprendião.
Declarou-lhe que seu pai lhe annunciára que pela primeira frota, que do
Recife seguisse para a Hollanda, deverião ambos partir, deixando por uma
vez as terras de Pernambuco.
--Partir! partir!--exclamou elle attonito;--E eu que fico aqui fazendo?
que vida posso esperar?
Subírão-lhe ao espirito todos os impetos da paixão. Fallou mais alto o
sentimento do peito que a reflexão, o respeito e a conveniencia.
--Para que me apparecestes?--continuou desasocegadamente.--Para que
mostrastes a meus sentidos absortos, quietos e indifferentes, o que era
amor, que elles nunca tinhão conhecido.
Estava Beatriz acostumada a ler-lhe a paixão nos gestos, no trato, nos
olhos, no fogo, e no enthusiasmo. Não escapa a mulher nem-uma o mysterio
de um coração apaixonado, qualquer que seja o trabalho que se empregue
em occulta-lo. Impressionou-se todavia com a força e vehemencia com que
elle fallava. Fingíra a principio que o não comprehendêra. Empregára
esforços para divergir do assumpto do colloquio. Não conseguindo porém
que Moraes o abandonasse, disse-lhe Beatriz com sombrio, mas calculado
enternecimento:
--Razão maior encontro eu agora na necessidade de separar-nos. Não vos
quero enganar. Amo-vos tambem, e não menos profundamente do que me
asseverais ser para comigo o vosso sentimento! Serei desditosa
igualmente. Devem apartar-nos mares, distancias, terras, espaços.
Tentarei esquecer-vos... Procurai igualmente riscar do vossa espirito a
minha lembrança... Poderá talvez o tempo abafar idéas que a loucura nos
creou, e que a razão condemna...
--Não vos entendo,--interrompeu-a Manuel de Moraes.--Porque condemnará a
razão o que lhe não é contrario?
--Não o pensastes, e nem eu ao principio--repetio-lhe Beatriz,
pegando-lhe na mão, erguendo humedecidos os olhos para o céo, e
empregando um tom de ineffavel ternura.--Deixámos imprudentemente que a
paixão se infiltrasse pelos nossos corações, sem que pressentissemos a
impossibilidade de uma união legitima. Sois catholico, eu
protestante. Distancia fatal e insuperavel nos arreda um do outro. Não
podem meus pais esquecer as violencias que dos vossos soffrêrão.
Gottejão feridas profundas entre os dous cultos...
--Impossivel! impossivel!--prorompeu Moraes.--Emquanto me não convencia
de ser correspondido, poderia realisar-se a separação. Tragaria eu só a
minha dôr, matar-me-hia ella sem duvida. Agora que me raiou o céo
diaphano, que me sorrio a natureza toda, que me fallão os anjos no
paraiso--é impossivel.--Partis, eu parto. Em qualquer parte, lugar ou
sitio que vos abrigue, quaesquer mares que atravesseis, estarei ahi
tambem, encontrar-me-heis como quem respira com o vosso sopro, vive com
a vossa vida, e exhalará o ultimo suspiro da existencia por vós, ou
comvosco!
--De que serve tudo isso,--replicou-lhe Beatriz agitada igualmente,
posto esforçando-se em parecer serena,--se jámais podemos unir-nos,
se nos separão para sempre os homens, os cultos, as tradições e os
costumes? Eu não posso tornar-me catholica. Não poderieis renegar a
vossa religião, e quando o amor em um momento vos desvirtuasse a razão,
e vos coagisse a renegar, não vos atormentaria eternamente o perjurio,
não ralaria o remorso todos os dias da vossa vida? Não se murcharia com
elle o amor que exigio sacrificios superiores á alma e á fé? Não o
quebrantaria o arrependimento, reputando-o capricho insensato? Pensai
melhor. Tratemos de cicatrizar o que o peito soffre. Somos como dous
viajores que se encontrárão no deserto, repousárão ambos á sombra do
mesmo oásis, refrescárão os seus labios nas aguas da mesma fonte, e se
despedírão depois, seguindo cada um para horizontes diversos. Este valle
de lagrimas em que andamos errantes não é eterno. Transpomo-lo apenas.
Mais tarde nos encontraremos. Como o filho de Abrahão atravessastes
a Mesopotamia. Não vos seguirá porém a filha de Labão.
--Quereis que eu morra?--perguntou-lhe Manuel assombrado por essas
palavras quasi mysticas, e accentuadas tristemente, que lhe dirigira a
donzella.--Melhor fôra que me houvesseis deixado perecer quando Deos me
mandou aquella febre terrivel, que me consumiria de certo se os vossos
cuidados e carinhos me não tivessem salvado!
--Deos--repetio-lhe Beatriz--nos concedeu um coração para amar, mas
acima do coração collocou o espirito, que é a sua emanação divina, e a
razão que deve dominar sobre tudo e todos. Emmudeça a paixão diante da
reflexão. Não nos é permittido unir-nos honestamente. Ficai em
Pernambuco. Eu parto. Assim devia sê-lo, logo que nos descobrímos
mutuamente os sentimentos.
--Não, não,--gritou Manuel.--Mato-me antes. O que é a vida? o que vale
para o homem solitario e abandonado na terra? o que é a religião, quando
a creatura não tem fé intensa e profunda, e reconhece que pertence
igualmente ao mundo, e á sociedade humana?
Aterrou-se a donzella com esta declaração inopinada. Percebeu logo que a
paixão cegava Moraes, e o precipitava para destinos desconhecidos. Mas
essa paixão se manifestava com uma força que lisongeava de certo o seu
amor-proprio, e exaltava a seus olhos o amante capaz dos maiores
sacrificios. Não era todavia Beatriz tão sensivel ao arrastamento dos
instinctos do seu sexo, que não deslumbrasse ao longe, e no tempo as
consequencias fataes que poderião resultar do enthusiasmo.
--Mudança de culto,--disse-lhe ella,--exige convicção firme, e não
subito hallucinamento. Deve ser obra da razão, não do coração. O
espirito confirma e garante. O amor é passageiro. Quando lhe desapparece
o encanto, e murcha-lhe o viço, bate á porta o arrependimento. Eu
propria me condemnaria se causasse a vossa eterna desgraça...
--Não a temais,--retorquio-lhe Manuel.--Permitti que eu vos acompanhe
para Hollanda, e provar-vos-hei por meus actos a sinceridade de minhas
palavras.
Prometteu-lhe Beatriz pensar no que elle lhe dissera, pedindo-lhe um
momento de socego. Cortou-se a conversação, separando-se na maior
agitação do espirito.
Dominava a paixão exclusivamente em Manuel de Moraes.
Subordinárão-se-lhe todos os mais sentimentos moraes e intellectuaes.
Acurvou-se como convencido, ou melhor como escravo que se liga ás suas
cadeias e ferros, reputando-os como a sua felicidade, considerando-os
como sorte inevitavel e unica que lhe está reservada, e a que o attrahem
delicias particulares, sonhos dourados, e voluptuosos imans.
Reflectia mais Beatriz. Folgava-lhe o coração com o amor profundo de
Moraes. Fallava-lhe porém a razão, denunciando-lhe perigos futuros. Luta
de amor risonho, e de tristes pressentimentos, se lhe travou no
espirito, e o apouquentou bastante.
Resolveu-se a fallar com seu pai. Confessou-lhe que amava Moraes, lhe
seria impossivel esquecê-lo e abandona-lo; e resistiria o seu animo a
aceitar por marido outro qualquer homem, porque lhe pertencia toda a sua
alma. Não deixou igualmente de manifestar-lhe os seus temores sobre a
sinceridade da declaração do amante, que preferia trocar o catholicismo
pelo culto calvinista, no intento de acompanha-la, e viver para ella.
Estimava Brodechevius o homem que salvára a sua filha. Prezava-o como
intelligencia distincta, espirito dotado de raras qualidades, e capaz
dos feitos e acções mais honrosas. Não lhe repugnava aceita-lo por
genro. Não erão para elle distincções a riqueza, e nem o nascimento
desigual ou humilde. Arredava-o a só diversidade dos cultos religiosos,
que se poderia sanar abandonando Manuel a religião catholica, e
adoptando por patria a Hollanda. Cumpria porém em seu parecer verificar
igualmente a convicção com que praticaria Moraes a difficultosa mudança.
Aconselhou a Beatriz, que, esperando do tempo a prova da sinceridade do
amante, lhe consentisse acompanha-la para Amsterdam, aonde se observaria
mais cuidadosamente o procedimento de Moraes, para ser ao justo apreciado.
Deixou a frota hollandeza as plagas de Pernambuco no principio do anno
de 1639.
Embarcárão-se todos, abandonando as terras brazileiras. Despedio-se
Manuel de Moraes da America, na intenção firme de nunca mais revê-la.
CAPITULO VIII
Não decorrêra um anno inteiro em Amsterdam, para onde se havião retirado
Brodechevius e sua filha, e já havia Manuel de Moraes abjurado a
religião catholica, abraçado o protestantismo com o consentimento do
velho Hollandez, celebrado os seus desposorios com Beatriz, e fixado
emfim a sua residencia na nova patria que adoptára.
Venturosos dias se passárão a principio no seio d'essa familia
tranquilla e socegada. Posto nem-uma convicção arrastasse Moraes
para o novo culto, seguia-lhe os mandamentos com exactidão, e cumpria
escrupulosamente com os deveres que a Igreja calvinista recommendava.
Não lhe pesavão no espirito, porque não era ainda chegada a hora do
arrependimento e dos remorsos, e o prendião com doces e agradaveis laços
os encantos da esposa, que cada vez manifestava mais finas qualidades, e
correspondia ao seu amor fogoso com uma dedicação admiravel e extremosa.
Frequentavão-lhes a casa familias distinctas, affeiçoavão-lhes a amizade
pessoas selectas, attrahião-lhes os cuidados relações agradaveis.
Conheceu e relacionou-se Moraes com muitos judêos portuguezes, evadidos
de Portugal diante das perseguições do governo e do Santo Officio da
Inquisição. Numerosas familias d'essa raça condemnada por injustos
preconceitos e prejuizos loucos da opinião publica da época, abandonárão
as terras luzitanas, e achárão abrigo, e liberdade para os seus
cultos, na judiciosa Hollanda, que se engrandeceu e gloriou com a sua
industria e fortunas.
Primavão entre os judêos portuguezes homens de merito notavel. Havião
muitos acquiescido em Portugal a trocar a sua religião pela catholica,
afim de se lhes consentir a residencia na patria, que não admittia o
culto israelita. Bastava porém a mais pequena suspeita, a menor
denuncia, para que fossem presos, encarcerados, processados, e
condemnados aos tormentos e fogueiras do Santo Officio. Entrárão alguns
para as ordens monasticas, tomárão habitos de sacerdotes, empregárão-se
no proprio tribunal da Inquisição, como seus famulos e servidores. Não
lhes valêra a metamorphose do culto e dos costumes. Ninguem acreditára
na sinceridade da sua abjuração. Após os que, por não quererem renegar
as suas crenças religiosas, forão compellidos a expatriar-se,
seguírão aquelles que, convencida ou hypocrita e simuladamente,
adoptárão o catholicismo, por mais evidentes e claros abonos de
sinceridade e dedicação aos dogmas e disciplina da Igreja romana.
Bastava ser judêo, tê-lo sido, ou descender de sangue judêo, para que se
lhe não poupassem insultos, prisões, miserias, violencias, assassinatos
juridicos e barbaros. Não os isentava o sexo, e nem a idade. Perdeu
Portugal com a sua emigração um povo rico, industrioso, trabalhador,
activo, intelligente, e capaz de grandes emprezas.
Figuravão entre os judêos estabelecidos por esse tempo em Amsterdam tres
Portuguezes, considerados como capacidades elevadas, e que deixárão fama
nas lettras e sciencias. Isaac Orobio de Castro, que fôra medico notavel
em Lisboa, e professor em Sevilha, escapo dos carceres do Santo Officio
graças a um disfarce de vestes, e nomeado para um dos chefes da
communhão israelita da Hollanda[4]. Manassé ben Israel,
oriundo de Arabes e judêos, naturalista distincto[5]. Uriel
da Costa, que exercêra cargos civis em Lisboa, convertendo-se á religião
de Roma, e que nem por isso fôra poupado pelo cruento tribunal, que
anciava por purificar a fé religiosa nas fogueiras que levantava para
queimar vivas as victimas da sua atrocidade supersticiosa[6].
Perseveravão as familias israelitas em guardar na Hollanda os seus
costumes, e a lingua portugueza, formando uma communhão livre e
levantando as suas synagogas, celebrando os seus actos religiosos,
solemnisando o seu dia do sabbado, e as suas festas tradicionaes.
Tudo o que víra Manuel na Hollanda entre os protestantes, e a historia e
situação dos judêos portuguezes exilados, parecião fortifica-lo a
principio no seu novo culto, demorando o tempo do infallivel
arrependimento.
Rebentára por esse tempo a revolução portugueza de 1640. Applaudírão
todos os judêos portuguezes o levantamento glorioso do povo luzitano
para recuperar a sua independencia, e libertar-se do jugo de Hespanha.
Enthusiasmou-se Manuel de Moraes pelo evento feliz, e incitado pelas
reminiscencias patrias, escreveu e publicou uma memoria, defendendo os
direitos de Portugal e do duque de Bragança elevado ao throno nacional,
com o nome de Dom João IVº, e offereceu-a ao diplomata portuguez nomeado
para Hollanda, Diogo de Mendonça Furtado[7].
Começárão estas occurrencias a avivar no espirito de Manuel de Moraes
reminiscencias do que fôra, e de onde proviera. O proprio escripto que
traçava lhe insinuára saudades da patria, e forão com ellas vindo
timidas duvidas a principio ácerca da honestidade e dignidade da sua
abjuração religiosa, e a pouco e pouco e com o tempo depois um como que
arrependimento do que praticára, e que condemnava-o no fôro interno d'alma.
Ninguem se podia reputar no entanto mais feliz na sua domesticidade. Um
sogro que o estimava e prezava, cheio de bondade e affecto; uma esposa
bella, meiga, amorosa, devotada; abastança de meios de fortuna; renome
de homem intelligente e serio; amigos que o procuravão, e acolhião com
urbanidade e respeito; que lhe era mais preciso para a felicidade na
terra?
Assim o pensára elle proprio no começo. Não descobríra na existencia
senão socego, doçuras, risos, prazeres, delicias, encantos, flôres e
perfumes. Passados os primeiros tempos da felicidade, que se deverião
reputar a lua de mel dos noivos, uma voz surda e intima, que partia da
alma, lhe iniciou uma agitação paulatina no espirito, que se foi
entristecendo e cobrindo de luto, e perdendo a vivacidade anterior, como
a rosa que murcha a olhos vistos, apenas cortada da haste, que lhe dava
viço e vida.
Tratou de occulta-la Moraes aos olhos do mundo, e com mais cuidados da
consorte adorada, que se lhe afigurava ainda o unico ente sobre a terra
por quem dera e daria sempre a vida. Não escapou porém á perspicacia de
Beatriz a metamorphose espiritual e moral que se passava no marido. Não
tardou muito a adivinhar por si, á custa de seu unico trabalho, e sem a
menor confidencia de Manuel, posto o interrogasse por todas as
fórmas sobre o motivo verdadeiro da lamentavel transformação que se ia
operando no seu animo.
Estremeceu. Realisára-se o seu pressentimento. Após o saborear dos
prazeres, entornava-se o fel do arrependimento. Destruirião os remorsos
posteriores aquelle amor fogoso, aquella paixão enthusiastica, que
correspondêra mais aos sentidos physicos que aos dotes da alma e do
espirito.
Desapparecia-lhe toda a felicidade domestica, como um sonho agradavel
que o acordar interrompêra, e a realidade supprimíra. E se não podia
queixar de ingratidão. Elle não professava outro amor; não a abandonára
por outra mulher; dedicava-lhe o mesmo affecto extremoso e fino;
adorava-a sempre com o coração, mas laborava já em lutas intimas das
idéas religiosas dos arrependimentos do espirito, dos remorsos d'alma
contra esse amor e paixão a que sacrificára o que agora lhe ia
parecendo não dever e nem poder ser jámais sacrificado, como superior
que era á razão e á vida.
Volveu contra si propria a setta, por se haver mostrado tão fraca,
aceitando o sacrificio, e não apreciando no seu justo valor a sua
grandeza invencivel. Communicou-se a Beatriz a tristeza e abatimento
moral de Moraes, e seguindo cada um vereda differente, se convertêrão
ambos em entes isolados e solitarios, que o mundo e a sociedade
approximárão, e as paixões latentes separão, como remorsos vivos de
crimes, que arredão um do outro os seus complices respectivos.
Fugião já ás confidencias mutuas. Mas o contacto intimo, o lar domestico
a vida regular, as devião trazer naturalmente, posto as temessem
reciprocamente.
--Sou eu causa,--disse-lhe Beatriz um dia,--dos tormentos do teu
espirito?
--Tu?--respondeu-lhe Moraes.--Enganas-te. És antes o unico anjo que me
ampara. Ainda esta noite sonhei: Um monstro lançava-se sobre mim; tinha
eu conhecimento da minha critica situação, como se estivera acordado;
paralysava-me porém a inercia do somno--chegaste,--fugio o
monstro,--salvaste-me!
--Sacrificaste por mim tua vida,--continuou ella.--Sei que isso te não
peza. Mas sacrificaste igualmente o teu culto religioso, e eu aceitei o
que não podia aceitar, e d'ahi provém o arrependimento que te tortura o
espirito!
--Ama-me sempre,--replicou-lhe Moraes,--e tudo isso é nada, porque só
vivo para ti, e ás dôres que me assomem ao espirito, desconhecidas,
precipitadas, anciosas, mas que me obscurecem e assoberbão ás vezes, não
vejo remedio ou allivio senão em teu amor. Arranca-m'as tua
presença, como a do anjo tutelar e da guarda.
--Moraes,--tornou-lhe ella,--conheço-te, admiro-te, adoro-te. Sei que
sacrificio enorme commetteste por meu amor. Culpa minha foi, e não tua,
em que se realisasse. Não ha mais remedio; suas terriveis consequencias
apparecem agora, e Deos deixa-me solitaria. Vês como os astros gravitão
um para os outros, em extases communicativos e innocentes? Um laço
ineffavel prende ao creador a creatura. A floresta que geme, o lago que
dormita, a torrente que se despenha, o vento que sibilla, a cidade que
sonha, o passaro que canta, a aurora que resplandece, tudo tem uma voz
no hymno da universal harmonia. Eu porém considero-me discordancia
inutil no concerto immenso da natureza. Sou no meio do immortal poema
d'arte como um membro cortado, e estranho ao movimento que lhe imprimio
o architecto supremo. Dir-se-me-hia semelhante á superficie incolor
das aguas que reflecte apenas o brilhantismo das arvores, das flôres e
do firmamento.
Impressionou-se seriamente Manuel de Moraes, ouvindo essa linguagem
mysteriosa, mas que denunciava o fundo cavado no peito da esposa pelo
sentimento forte da dôr e da amargura.
--Ó santa creatura!--exclamou, abraçando-a e beijando-a com
effusão,--desterra imagens tristes e aterradoras. Se não sou o que fui,
se não passo de uma sombra de homem, se soffro paralysia intellectual,
só tu podes alliviar-me as dôres, e salvar-me, porque és o unico ente
que me ampara na terra. Restitue-me tua alma, dá-me a fé que é a vida, a
fé no teu amor!
--Pensei,--interrompeu ella,--que encarariamos a felicidade sob a mesma
feição e aspecto. Encanta-me a paz e tranquilidade da vida intima, mas
teu espirito se revolta, e eu considero-me culpada. Dize que
sacrificios queres que eu faça para superar os que por mim commetteste!
--Nem-um, nem-um,--respondeu-lhe Moraes.--Cumpre-me a mim repetir todos
para te provar minha dedicação. Se queres que eu exista, não soffras,
minha alma! Perdôa-me, serena-me estes impetos involuntarios do
espirito. Não és culpada,--nem eu,--ninguem o é. Abandona sonhos e
pressentimentos infaustos.
Enlutava-se cada vez mais a existencia mutua de Moraes e de Beatriz com
a falta de filhos, que são prisões no mundo, e tomão pela sua affeição a
dianteira a todos os sentimentos humanos, vencendo-os em superioridade e
força, e obrigando os pais a ligar-se á terra, e a applicar-se á sorte e
felicidade da sua prole querida.