Aproveitando-se da derrota soffrida pélas armas hollandezas diante da

Bahia do Salvador, levantou opposições contra Mauricio no conselho

director de Amsterdam. Logrou que sem se lhe tirar a autoridade civil e

administrativa, confiasse o conselho a Artichftky o commando em chefe

das forças militares, com o titulo de mestre general da artilharia.

Chegado ao Recife, e empossado do seu novo cargo, encetou Artichfsky uma

serie de correspondencias para Hollanda, censurando os actos do principe

de Nassau, e pretendeu manobrar em Pernambuco independentemente da sua

autoridade, e fóra da acção superior de Mauricio.

Exasperou-se o principe com o procedimento de Artichfsky, e reunio o seu

conselho secreto e politico. Expôz-lhe a impossibilidade da existencia

no Brazil hollandez de duas autoridades em luta e dissidencia.

Manifestou intenções de retirar-se para Hollanda, e abandonar o Recife.

Erão porém todos os membros do conselho amigos do principe, e justos

apreciadores dos seus talentos administrativos. Assentárão unanimemente

em fazer uso das suas faculdades extraordinarias e superiores, decidindo

em favor de Mauricio, e reenviando para Hollanda o astucioso Polaco, com

communicações francas á Companhia a respeito dos motivos que os

levavão a adoptar essa anormal resolução e alvitre.

Partíra constrangido Artichfsky, e ficára o principe senhor da situação,

e livre do seu inimigo. Mas o perspicaz e atilado conselheiro

Brodechevius, pressentio logo que as intrigas do Polaco em Amsterdam

arrancarião por fim ao principe o governo de Pernambuco, e os odios

concentrados dos naturaes do paiz recomeçariam as lutas e guerras nas

terras já possuidas pela Companhia, e lograrião expellir do solo

americano as armas hollandezas. Conservava-se tranquillo o Brazil

hollandez com a moderação, experiencia e tino de Mauricio de Nassau.

Regimen diverso arrastaria tudo para a perdição.

Deliberou-se Brodechevius a abandonar o Recife, e recolher-se a

Amsterdam com a sua familia. Communicou á sua filha os seus intentos

para que se preparasse a seguir na primeira frota que para Hollanda

se fizesse de vela.

Recebeu Beatriz a noticia com tristeza e amargura, mas não oppôz duvidas

á resolução de Brodechevius. Tornou-se mais reservada com Manuel de

Moraes, escondendo-lhe todavia os projectos paternos.

Não escapou a Manuel de Moraes a nova phase por que passava o trato da

donzella. Diminuir-se-lhe-hia o affecto que, sem lhe haver sido jámais

declarado, elle não deixára de perceber? Que causas lhe teria dado?

Quando de soffrimentos intimos resultasse a frieza calculada, mas triste

e pensativa de Beatriz, d'onde partia a sua origem?

Atormentava-se Moraes com serias cogitações, sem que pudesse rasgar o

véo que encobria a dôr de Beatriz, que cada vez mais o acabrunhava com o

seu procedimento reservado. Corrêrão alguns dias nebulosos e enlutados

após tantos dias alegres, felizes, perfumados de amores, de

estremecimentos risonhos e de sonhos vaporosos.

Resolveu-se Manuel a um passo atrevido. Não podia conservar-se n'aquella

situação miseranda depois da anterior e aventurada posição. Sentio que a

franqueza se tornava necessaria, qualquer que fosse o seu resultado.

Preferivel era abrir a Beatriz o intimo do seu peito, dirigir-lhe uma

declaração leal do seu amor, manifestar pelos labios o que com mais

eloquencia havião os olhos propalado, já que uma nuvem se interpuzera á

linguagem muda com que mutuamente até então se correspondião.

Não lhe faltavão occasiões para se achar a sós com a donzella. Tomou

forças para a acção, e arrojou-se a pratica-la. Perguntou-lhe decidida e

resolutamente pelo motivo da sua tristeza, que desgraça lhe houvera

acontecido, ou que calamidade estava a elle reservada. Tentou Beatriz

esconder-lhe a verdade. Apertando-a cada vez mais, sem que lograsse

ser satisfeito, arrancou do coração um grito de dôr, e disse-lhe

estremecidamente:

--Dizei-m'o, dizei-m'o por piedade. Não sabeis já, com que força vos amo

e adoro!

Não espantou a confissão á donzella. Conheceu porém que após ella feita

tão solemnemente, melhor fôra fallar-lhe com lealdade. Posto pretendesse

apparentar-se calma e tranquilla a physionomia abatida trahia-a, e a voz

se lhe embargava ás vezes, correndo vagarosa e como perturbada por entre

os tremulos labios que a desprendião.

Declarou-lhe que seu pai lhe annunciára que pela primeira frota, que do

Recife seguisse para a Hollanda, deverião ambos partir, deixando por uma

vez as terras de Pernambuco.

--Partir! partir!--exclamou elle attonito;--E eu que fico aqui fazendo?

que vida posso esperar?

Subírão-lhe ao espirito todos os impetos da paixão. Fallou mais alto o

sentimento do peito que a reflexão, o respeito e a conveniencia.

--Para que me apparecestes?--continuou desasocegadamente.--Para que

mostrastes a meus sentidos absortos, quietos e indifferentes, o que era

amor, que elles nunca tinhão conhecido.

Estava Beatriz acostumada a ler-lhe a paixão nos gestos, no trato, nos

olhos, no fogo, e no enthusiasmo. Não escapa a mulher nem-uma o mysterio

de um coração apaixonado, qualquer que seja o trabalho que se empregue

em occulta-lo. Impressionou-se todavia com a força e vehemencia com que

elle fallava. Fingíra a principio que o não comprehendêra. Empregára

esforços para divergir do assumpto do colloquio. Não conseguindo porém

que Moraes o abandonasse, disse-lhe Beatriz com sombrio, mas calculado

enternecimento:

--Razão maior encontro eu agora na necessidade de separar-nos. Não vos

quero enganar. Amo-vos tambem, e não menos profundamente do que me

asseverais ser para comigo o vosso sentimento! Serei desditosa

igualmente. Devem apartar-nos mares, distancias, terras, espaços.

Tentarei esquecer-vos... Procurai igualmente riscar do vossa espirito a

minha lembrança... Poderá talvez o tempo abafar idéas que a loucura nos

creou, e que a razão condemna...

--Não vos entendo,--interrompeu-a Manuel de Moraes.--Porque condemnará a

razão o que lhe não é contrario?

--Não o pensastes, e nem eu ao principio--repetio-lhe Beatriz,

pegando-lhe na mão, erguendo humedecidos os olhos para o céo, e

empregando um tom de ineffavel ternura.--Deixámos imprudentemente que a

paixão se infiltrasse pelos nossos corações, sem que pressentissemos a

impossibilidade de uma união legitima. Sois catholico, eu

protestante. Distancia fatal e insuperavel nos arreda um do outro. Não

podem meus pais esquecer as violencias que dos vossos soffrêrão.

Gottejão feridas profundas entre os dous cultos...

--Impossivel! impossivel!--prorompeu Moraes.--Emquanto me não convencia

de ser correspondido, poderia realisar-se a separação. Tragaria eu só a

minha dôr, matar-me-hia ella sem duvida. Agora que me raiou o céo

diaphano, que me sorrio a natureza toda, que me fallão os anjos no

paraiso--é impossivel.--Partis, eu parto. Em qualquer parte, lugar ou

sitio que vos abrigue, quaesquer mares que atravesseis, estarei ahi

tambem, encontrar-me-heis como quem respira com o vosso sopro, vive com

a vossa vida, e exhalará o ultimo suspiro da existencia por vós, ou

comvosco!

--De que serve tudo isso,--replicou-lhe Beatriz agitada igualmente,

posto esforçando-se em parecer serena,--se jámais podemos unir-nos,

se nos separão para sempre os homens, os cultos, as tradições e os

costumes? Eu não posso tornar-me catholica. Não poderieis renegar a

vossa religião, e quando o amor em um momento vos desvirtuasse a razão,

e vos coagisse a renegar, não vos atormentaria eternamente o perjurio,

não ralaria o remorso todos os dias da vossa vida? Não se murcharia com

elle o amor que exigio sacrificios superiores á alma e á fé? Não o

quebrantaria o arrependimento, reputando-o capricho insensato? Pensai

melhor. Tratemos de cicatrizar o que o peito soffre. Somos como dous

viajores que se encontrárão no deserto, repousárão ambos á sombra do

mesmo oásis, refrescárão os seus labios nas aguas da mesma fonte, e se

despedírão depois, seguindo cada um para horizontes diversos. Este valle

de lagrimas em que andamos errantes não é eterno. Transpomo-lo apenas.

Mais tarde nos encontraremos. Como o filho de Abrahão atravessastes

a Mesopotamia. Não vos seguirá porém a filha de Labão.

--Quereis que eu morra?--perguntou-lhe Manuel assombrado por essas

palavras quasi mysticas, e accentuadas tristemente, que lhe dirigira a

donzella.--Melhor fôra que me houvesseis deixado perecer quando Deos me

mandou aquella febre terrivel, que me consumiria de certo se os vossos

cuidados e carinhos me não tivessem salvado!

--Deos--repetio-lhe Beatriz--nos concedeu um coração para amar, mas

acima do coração collocou o espirito, que é a sua emanação divina, e a

razão que deve dominar sobre tudo e todos. Emmudeça a paixão diante da

reflexão. Não nos é permittido unir-nos honestamente. Ficai em

Pernambuco. Eu parto. Assim devia sê-lo, logo que nos descobrímos

mutuamente os sentimentos.

--Não, não,--gritou Manuel.--Mato-me antes. O que é a vida? o que vale

para o homem solitario e abandonado na terra? o que é a religião, quando

a creatura não tem fé intensa e profunda, e reconhece que pertence

igualmente ao mundo, e á sociedade humana?

Aterrou-se a donzella com esta declaração inopinada. Percebeu logo que a

paixão cegava Moraes, e o precipitava para destinos desconhecidos. Mas

essa paixão se manifestava com uma força que lisongeava de certo o seu

amor-proprio, e exaltava a seus olhos o amante capaz dos maiores

sacrificios. Não era todavia Beatriz tão sensivel ao arrastamento dos

instinctos do seu sexo, que não deslumbrasse ao longe, e no tempo as

consequencias fataes que poderião resultar do enthusiasmo.

--Mudança de culto,--disse-lhe ella,--exige convicção firme, e não

subito hallucinamento. Deve ser obra da razão, não do coração. O

espirito confirma e garante. O amor é passageiro. Quando lhe desapparece

o encanto, e murcha-lhe o viço, bate á porta o arrependimento. Eu

propria me condemnaria se causasse a vossa eterna desgraça...

--Não a temais,--retorquio-lhe Manuel.--Permitti que eu vos acompanhe

para Hollanda, e provar-vos-hei por meus actos a sinceridade de minhas

palavras.

Prometteu-lhe Beatriz pensar no que elle lhe dissera, pedindo-lhe um

momento de socego. Cortou-se a conversação, separando-se na maior

agitação do espirito.

Dominava a paixão exclusivamente em Manuel de Moraes.

Subordinárão-se-lhe todos os mais sentimentos moraes e intellectuaes.

Acurvou-se como convencido, ou melhor como escravo que se liga ás suas

cadeias e ferros, reputando-os como a sua felicidade, considerando-os

como sorte inevitavel e unica que lhe está reservada, e a que o attrahem

delicias particulares, sonhos dourados, e voluptuosos imans.

Reflectia mais Beatriz. Folgava-lhe o coração com o amor profundo de

Moraes. Fallava-lhe porém a razão, denunciando-lhe perigos futuros. Luta

de amor risonho, e de tristes pressentimentos, se lhe travou no

espirito, e o apouquentou bastante.

Resolveu-se a fallar com seu pai. Confessou-lhe que amava Moraes, lhe

seria impossivel esquecê-lo e abandona-lo; e resistiria o seu animo a

aceitar por marido outro qualquer homem, porque lhe pertencia toda a sua

alma. Não deixou igualmente de manifestar-lhe os seus temores sobre a

sinceridade da declaração do amante, que preferia trocar o catholicismo

pelo culto calvinista, no intento de acompanha-la, e viver para ella.

Estimava Brodechevius o homem que salvára a sua filha. Prezava-o como

intelligencia distincta, espirito dotado de raras qualidades, e capaz

dos feitos e acções mais honrosas. Não lhe repugnava aceita-lo por

genro. Não erão para elle distincções a riqueza, e nem o nascimento

desigual ou humilde. Arredava-o a só diversidade dos cultos religiosos,

que se poderia sanar abandonando Manuel a religião catholica, e

adoptando por patria a Hollanda. Cumpria porém em seu parecer verificar

igualmente a convicção com que praticaria Moraes a difficultosa mudança.

Aconselhou a Beatriz, que, esperando do tempo a prova da sinceridade do

amante, lhe consentisse acompanha-la para Amsterdam, aonde se observaria

mais cuidadosamente o procedimento de Moraes, para ser ao justo apreciado.

Deixou a frota hollandeza as plagas de Pernambuco no principio do anno

de 1639.

Embarcárão-se todos, abandonando as terras brazileiras. Despedio-se

Manuel de Moraes da America, na intenção firme de nunca mais revê-la.

CAPITULO VIII

Não decorrêra um anno inteiro em Amsterdam, para onde se havião retirado

Brodechevius e sua filha, e já havia Manuel de Moraes abjurado a

religião catholica, abraçado o protestantismo com o consentimento do

velho Hollandez, celebrado os seus desposorios com Beatriz, e fixado

emfim a sua residencia na nova patria que adoptára.

Venturosos dias se passárão a principio no seio d'essa familia

tranquilla e socegada. Posto nem-uma convicção arrastasse Moraes

para o novo culto, seguia-lhe os mandamentos com exactidão, e cumpria

escrupulosamente com os deveres que a Igreja calvinista recommendava.

Não lhe pesavão no espirito, porque não era ainda chegada a hora do

arrependimento e dos remorsos, e o prendião com doces e agradaveis laços

os encantos da esposa, que cada vez manifestava mais finas qualidades, e

correspondia ao seu amor fogoso com uma dedicação admiravel e extremosa.

Frequentavão-lhes a casa familias distinctas, affeiçoavão-lhes a amizade

pessoas selectas, attrahião-lhes os cuidados relações agradaveis.

Conheceu e relacionou-se Moraes com muitos judêos portuguezes, evadidos

de Portugal diante das perseguições do governo e do Santo Officio da

Inquisição. Numerosas familias d'essa raça condemnada por injustos

preconceitos e prejuizos loucos da opinião publica da época, abandonárão

as terras luzitanas, e achárão abrigo, e liberdade para os seus

cultos, na judiciosa Hollanda, que se engrandeceu e gloriou com a sua

industria e fortunas.

Primavão entre os judêos portuguezes homens de merito notavel. Havião

muitos acquiescido em Portugal a trocar a sua religião pela catholica,

afim de se lhes consentir a residencia na patria, que não admittia o

culto israelita. Bastava porém a mais pequena suspeita, a menor

denuncia, para que fossem presos, encarcerados, processados, e

condemnados aos tormentos e fogueiras do Santo Officio. Entrárão alguns

para as ordens monasticas, tomárão habitos de sacerdotes, empregárão-se

no proprio tribunal da Inquisição, como seus famulos e servidores. Não

lhes valêra a metamorphose do culto e dos costumes. Ninguem acreditára

na sinceridade da sua abjuração. Após os que, por não quererem renegar

as suas crenças religiosas, forão compellidos a expatriar-se,

seguírão aquelles que, convencida ou hypocrita e simuladamente,

adoptárão o catholicismo, por mais evidentes e claros abonos de

sinceridade e dedicação aos dogmas e disciplina da Igreja romana.

Bastava ser judêo, tê-lo sido, ou descender de sangue judêo, para que se

lhe não poupassem insultos, prisões, miserias, violencias, assassinatos

juridicos e barbaros. Não os isentava o sexo, e nem a idade. Perdeu

Portugal com a sua emigração um povo rico, industrioso, trabalhador,

activo, intelligente, e capaz de grandes emprezas.

Figuravão entre os judêos estabelecidos por esse tempo em Amsterdam tres

Portuguezes, considerados como capacidades elevadas, e que deixárão fama

nas lettras e sciencias. Isaac Orobio de Castro, que fôra medico notavel

em Lisboa, e professor em Sevilha, escapo dos carceres do Santo Officio

graças a um disfarce de vestes, e nomeado para um dos chefes da

communhão israelita da Hollanda[4]. Manassé ben Israel,

oriundo de Arabes e judêos, naturalista distincto[5]. Uriel

da Costa, que exercêra cargos civis em Lisboa, convertendo-se á religião

de Roma, e que nem por isso fôra poupado pelo cruento tribunal, que

anciava por purificar a fé religiosa nas fogueiras que levantava para

queimar vivas as victimas da sua atrocidade supersticiosa[6].

Perseveravão as familias israelitas em guardar na Hollanda os seus

costumes, e a lingua portugueza, formando uma communhão livre e

levantando as suas synagogas, celebrando os seus actos religiosos,

solemnisando o seu dia do sabbado, e as suas festas tradicionaes.

Tudo o que víra Manuel na Hollanda entre os protestantes, e a historia e

situação dos judêos portuguezes exilados, parecião fortifica-lo a

principio no seu novo culto, demorando o tempo do infallivel

arrependimento.

Rebentára por esse tempo a revolução portugueza de 1640. Applaudírão

todos os judêos portuguezes o levantamento glorioso do povo luzitano

para recuperar a sua independencia, e libertar-se do jugo de Hespanha.

Enthusiasmou-se Manuel de Moraes pelo evento feliz, e incitado pelas

reminiscencias patrias, escreveu e publicou uma memoria, defendendo os

direitos de Portugal e do duque de Bragança elevado ao throno nacional,

com o nome de Dom João IVº, e offereceu-a ao diplomata portuguez nomeado

para Hollanda, Diogo de Mendonça Furtado[7].

Começárão estas occurrencias a avivar no espirito de Manuel de Moraes

reminiscencias do que fôra, e de onde proviera. O proprio escripto que

traçava lhe insinuára saudades da patria, e forão com ellas vindo

timidas duvidas a principio ácerca da honestidade e dignidade da sua

abjuração religiosa, e a pouco e pouco e com o tempo depois um como que

arrependimento do que praticára, e que condemnava-o no fôro interno d'alma.

Ninguem se podia reputar no entanto mais feliz na sua domesticidade. Um

sogro que o estimava e prezava, cheio de bondade e affecto; uma esposa

bella, meiga, amorosa, devotada; abastança de meios de fortuna; renome

de homem intelligente e serio; amigos que o procuravão, e acolhião com

urbanidade e respeito; que lhe era mais preciso para a felicidade na

terra?

Assim o pensára elle proprio no começo. Não descobríra na existencia

senão socego, doçuras, risos, prazeres, delicias, encantos, flôres e

perfumes. Passados os primeiros tempos da felicidade, que se deverião

reputar a lua de mel dos noivos, uma voz surda e intima, que partia da

alma, lhe iniciou uma agitação paulatina no espirito, que se foi

entristecendo e cobrindo de luto, e perdendo a vivacidade anterior, como

a rosa que murcha a olhos vistos, apenas cortada da haste, que lhe dava

viço e vida.

Tratou de occulta-la Moraes aos olhos do mundo, e com mais cuidados da

consorte adorada, que se lhe afigurava ainda o unico ente sobre a terra

por quem dera e daria sempre a vida. Não escapou porém á perspicacia de

Beatriz a metamorphose espiritual e moral que se passava no marido. Não

tardou muito a adivinhar por si, á custa de seu unico trabalho, e sem a

menor confidencia de Manuel, posto o interrogasse por todas as

fórmas sobre o motivo verdadeiro da lamentavel transformação que se ia

operando no seu animo.

Estremeceu. Realisára-se o seu pressentimento. Após o saborear dos

prazeres, entornava-se o fel do arrependimento. Destruirião os remorsos

posteriores aquelle amor fogoso, aquella paixão enthusiastica, que

correspondêra mais aos sentidos physicos que aos dotes da alma e do

espirito.

Desapparecia-lhe toda a felicidade domestica, como um sonho agradavel

que o acordar interrompêra, e a realidade supprimíra. E se não podia

queixar de ingratidão. Elle não professava outro amor; não a abandonára

por outra mulher; dedicava-lhe o mesmo affecto extremoso e fino;

adorava-a sempre com o coração, mas laborava já em lutas intimas das

idéas religiosas dos arrependimentos do espirito, dos remorsos d'alma

contra esse amor e paixão a que sacrificára o que agora lhe ia

parecendo não dever e nem poder ser jámais sacrificado, como superior

que era á razão e á vida.

Volveu contra si propria a setta, por se haver mostrado tão fraca,

aceitando o sacrificio, e não apreciando no seu justo valor a sua

grandeza invencivel. Communicou-se a Beatriz a tristeza e abatimento

moral de Moraes, e seguindo cada um vereda differente, se convertêrão

ambos em entes isolados e solitarios, que o mundo e a sociedade

approximárão, e as paixões latentes separão, como remorsos vivos de

crimes, que arredão um do outro os seus complices respectivos.

Fugião já ás confidencias mutuas. Mas o contacto intimo, o lar domestico

a vida regular, as devião trazer naturalmente, posto as temessem

reciprocamente.

--Sou eu causa,--disse-lhe Beatriz um dia,--dos tormentos do teu

espirito?

--Tu?--respondeu-lhe Moraes.--Enganas-te. És antes o unico anjo que me

ampara. Ainda esta noite sonhei: Um monstro lançava-se sobre mim; tinha

eu conhecimento da minha critica situação, como se estivera acordado;

paralysava-me porém a inercia do somno--chegaste,--fugio o

monstro,--salvaste-me!

--Sacrificaste por mim tua vida,--continuou ella.--Sei que isso te não

peza. Mas sacrificaste igualmente o teu culto religioso, e eu aceitei o

que não podia aceitar, e d'ahi provém o arrependimento que te tortura o

espirito!

--Ama-me sempre,--replicou-lhe Moraes,--e tudo isso é nada, porque só

vivo para ti, e ás dôres que me assomem ao espirito, desconhecidas,

precipitadas, anciosas, mas que me obscurecem e assoberbão ás vezes, não

vejo remedio ou allivio senão em teu amor. Arranca-m'as tua

presença, como a do anjo tutelar e da guarda.

--Moraes,--tornou-lhe ella,--conheço-te, admiro-te, adoro-te. Sei que

sacrificio enorme commetteste por meu amor. Culpa minha foi, e não tua,

em que se realisasse. Não ha mais remedio; suas terriveis consequencias

apparecem agora, e Deos deixa-me solitaria. Vês como os astros gravitão

um para os outros, em extases communicativos e innocentes? Um laço

ineffavel prende ao creador a creatura. A floresta que geme, o lago que

dormita, a torrente que se despenha, o vento que sibilla, a cidade que

sonha, o passaro que canta, a aurora que resplandece, tudo tem uma voz

no hymno da universal harmonia. Eu porém considero-me discordancia

inutil no concerto immenso da natureza. Sou no meio do immortal poema

d'arte como um membro cortado, e estranho ao movimento que lhe imprimio

o architecto supremo. Dir-se-me-hia semelhante á superficie incolor

das aguas que reflecte apenas o brilhantismo das arvores, das flôres e

do firmamento.

Impressionou-se seriamente Manuel de Moraes, ouvindo essa linguagem

mysteriosa, mas que denunciava o fundo cavado no peito da esposa pelo

sentimento forte da dôr e da amargura.

--Ó santa creatura!--exclamou, abraçando-a e beijando-a com

effusão,--desterra imagens tristes e aterradoras. Se não sou o que fui,

se não passo de uma sombra de homem, se soffro paralysia intellectual,

só tu podes alliviar-me as dôres, e salvar-me, porque és o unico ente

que me ampara na terra. Restitue-me tua alma, dá-me a fé que é a vida, a

fé no teu amor!

--Pensei,--interrompeu ella,--que encarariamos a felicidade sob a mesma

feição e aspecto. Encanta-me a paz e tranquilidade da vida intima, mas

teu espirito se revolta, e eu considero-me culpada. Dize que

sacrificios queres que eu faça para superar os que por mim commetteste!

--Nem-um, nem-um,--respondeu-lhe Moraes.--Cumpre-me a mim repetir todos

para te provar minha dedicação. Se queres que eu exista, não soffras,

minha alma! Perdôa-me, serena-me estes impetos involuntarios do

espirito. Não és culpada,--nem eu,--ninguem o é. Abandona sonhos e

pressentimentos infaustos.

Enlutava-se cada vez mais a existencia mutua de Moraes e de Beatriz com

a falta de filhos, que são prisões no mundo, e tomão pela sua affeição a

dianteira a todos os sentimentos humanos, vencendo-os em superioridade e

força, e obrigando os pais a ligar-se á terra, e a applicar-se á sorte e

felicidade da sua prole querida.

Manuel de Moraes: Chronica do Seculo XVII · 第 5 / 9 段