Miss Parker foi o unico folego vivo da Gran-Bretanha, a quem, na

minha estada em Inglaterra, devi um beneficio: quando partimos

para Jersey deu-nos um cabazinho em que levassemos a nossa

matalotagem, e derramou algumas lagrymas ao despedir-se de nós.

Aquelle cabazinho era o que estava ante mim, e me sustinha em

cima dos joelhos a cabeça do velho. Sobre as vagas procellosas

do canal da Mancha eu soldava assim as minhas contas com a

Inglaterra.

O vento continuava a rodar para sudoeste, e os nossos dous

marinheiros colheram parte do panno e mudaram algum tanto de rumo:

depois tornaram a assentar-se na mesma postura em que estavam, e

tudo voltou ao anterior silencio, que só era interrompido pelo

marulho das ondas espalmando-se no costado do chasse-marée.

Mas um flagicio, mais abominavel ainda que os condimentos ferozes

da cozinha ingleza, veio cortar atrozmente este silencio triste,

que representava no meio de nós a previsão de imminente procella.

O inglez alto, de gesto esguio, e nariz hebraisante, tinha-se

assentado ao pé do outro inglez affeiçoado pelo typo saxonico,

no topo esquerdo da banqueta corrida á pôpa. Duas ou tres vezes,

desde que levámos ferro, elle dirigiu ao companheiro uma rosnadura,

a que este respondeu com o estirado monossyllabo _Yes_. Á quarta

vez, aquella resposta laconica foi proferida com certa melopéa

de resignação, que cortava os fios da alma, e acompanhada de um

volver d'olhos azues, em que se pintava uma supplica de piedade.

Mas o inglez aguçado carregou o sobr'olho, e, mettendo a mão ao

seio, poz-se a procurar o que quer que era na algibeira interior

de uma das quatro sobrecasacas que tinha vestidas. Eu observava esta

scena; sabia o que póde o spleen, e o receio de algum anglicidio

passou-me pela mente, ao contemplar o aspecto torvo de um e o gesto

confrangido e timido de outro. O vento sibilava violento, as aguas

começavam a tingir-se de negro, e o céu estava completamente

toldado; era meio poema britannico. Um tiro de pistola e um cadaver

baldeando no mar completariam uma epopéa. Nas feições do inglez

esgrouviado parecia-me ler duas palavras--Spleen e Poeta--e por

isso os meus temores não eram tão infundados, como, no primeiro

momento, talvez os tenha julgado o leitor.

E o mais era que eu acertára farejando em Mr. Graham Senior (eram

os dous inglezes irmãos, segundo depois soubemos) um fazedor das

regrinhas, que na lingua ingleza correspondem ao que nas linguas

do meio-dia é e se chama versos. O honrado Mr. Graham não procurava

na algibeira o amago e substancia da idealidade e poesia britannicas,

a pistola suicida. Não! Era cousa mais atrozmente assassina; era um

quaderno grosso de letra microscopica, em que provavelmente se

continham as suas inspirações ineditas! Estava explicada a longa

taciturnidade dos dous. O perverso meditava aquelle fratricidio

intellectual desde a partida de Saint-Hélier, e os quatro grunhidos

abafados que lhe ouviramos tinham sido quatro tentativas para predispor

a victima. De feito, quando elle sacou o alentado canhenho, Mr. Graham

Junior parecia inteiramente resignado.

Aquelle atenazador das orelhas do proximo começou a sua leitura

pela primeira pagina. Era um algoz de consciencia, e já se podia

prever que tinha a boa tenção de atormentar-nos emquanto durasse o

dia, que felizmente se inclinava a seu termo. Como me foi possivel,

percebi aos trinta ou quarenta versos que era um poeta da eschola

de Pope, ou como quem o dissesse entre nós, um poeta da Arcadia.

Cá teria falado em Jove, Marte e Neptuno, nas musas, nos zagaes,

nas nymphas, na tuba de Calliope, ou na sanfona não sei de que

deusa: lá, nas inspirações de Mr. Graham, eram as paixões, os

vicios, os affectos personalisados quem fazia o serviço dos seus

poemas: aqui a esperança, alli o desalento; ora a temperança, logo

a desenvoltura. Aquella poesia frigidissima fazia-me lembrar do

Olympo, do Pindo e da Castalia dos nossos arcades, e de algum modo

me consolava das miserias domesticas, ao vêr que a poesia cadaverica

das fórmas e convenções não vivia unicamente entre nós, mas ainda

ousava no canal da Mancha misturar as suas semsaborias academicas

com o bramido terrivel do vento, e com o ferver estrepitoso das

vagas, que entoavam accordes a sublime invocação da procella.

O poeta esguio declamava as suas regrinhas lentamente e com todos

os requebros da melopea ingleza, genero de canto semelhante ao

gemer rabugento de uma creança na primeira dentição. O pobre

diabo, posto que provavelmente acreditasse que nenhum de nós o

entendia, pensava por certo que, nova especie de Orpheu, bastavam

os sons das suas palavras harmoniosas para nos arrebatarem e

extasiarem, a nós selvagens da Europa, como com tanta graça e

verdade denominam os escrevinhadores de John Bull os habitantes

da Peninsula! Pensava assim, de certo; porque de quando em quando

volvia para nós os olhos com aquelle sorriso de complacencia

estupida, que é peculiar na cara de um inglez vaidoso e contente

de si.

Um dos exemplos mais lamentaveis da cegueira do espirito humano

é a persuasão em que os escriptores de Inglaterra estão de que

possuem uma lingua litteraria falada; isto é, que os sons quasi

inarticulados do seu chilrear e grunhir correspondem sufficientemente

aos grupos de caractéres alphabeticos, de que elles se servem para

representarem os proprios pensamentos. Todavia a lingua escripta

de Inglaterra nada tem que ver com a linguagem em que a nação se

exprime: são dous typos diversissimos, que dão fórma sensivel

ao pensamento. Abri um livro escripto em qualquer outro idioma da

Europa, e fazei ler por elle um estrangeiro completamente ignorante

desse idioma: o natural do respectivo paiz, aquelle que o falou

desde a infancia entenderá tudo ou quasi tudo, se escutar essa

leitura. Fazei a mesma experiencia com um livro inglez: o natural

de Inglaterra não entenderá provavelmente uma unica palavra. É

que na realidade entre este povo, em tudo singular, os signaes

chamados letras não tem um valor constante e determinado, e por

isso não podem corresponder rigorosamente a um som.

A Inglaterra ha visto nascer no seu gremio grandes poetas. Shakspeare

e Byron bastariam para lhe dar uma celebridade immensa. Mas a

sua poesia reside toda no pensamento, na essencia da arte. As

fórmas externas são rudes, barbaras, ou fluctuantes. Shakspeare e

Byron foram dous selvagens, um porque estava além da civilisação,

outro porque estava áquem della; mas foram talvez as duas almas

mais sublimemente poeticas da Europa. Porque, pois, não souberam

ajunctar a melodia material ás harmonias intimas das suas ideas?

Foi porque não podiam converter em palavras humanas o intoleravel

grasnido dos seus compatriotas.

Uma cousa que sempre me acontece em ouvindo falar um inglez é

notar as mysteriosas analogias que ha constantemente entre a lingua

de qualquer povo e os seus habitos de moralidade. Considerae por

exemplo a lingua alleman: é um idioma perfeitamente accentuado;

os vocabulos escriptos correspondem rigorosamente aos falados:

não ha ahi luxo inutil de letras: todas se proferem; todas

representam um som ou uma articulação. Os caractéres do alphabeto

nunca serviram para enganar o estrangeiro. Não achaes n'isto

uma expressão do animo leal, franco e singelo daquelle povo?

A _Deutsche Treue_, a _fé germanica_, não se reflecte como em um

espelho da lingua desse paiz? Agora escutae um inglez: dous terços

de cada palavra, como a representam os signaes alphabeticos, não

se proferem: devora-os o leitor: são uma armadilha para obrigar

os labios peregrinos a darem syllabadas: o inglez pronuncia com

os dentes cerrados, como se temesse que essas palavras-ouriços

lhe fizessem, ao perpassarem, os labios em sangue. Não achaes

n'isto um typo de cubiça e avareza? Um pensamento enganoso? O

algodão tecido á sorrelfa com a lan? Não descubris lá o pensamento

do tractado de Methuen, ou do desembarque de Quiberon? Não se

revela no coaxar das rans de Wordsworth e dos poetas dos lameiros

o _British Interest_?

Taes eram as reflexões em que eu estava embebido emquanto o poeta

mastareu acreditava ter-nos enleiados a todos com as mellifluas

toadas do seu poetico lavor. A noite, entretanto, tombando de

castello em castello de nuvens, lançava sobre o dorso do mar

revolto o seu manto de obscuridade. O sectario de Pope cedeu

então ás trévas: fechou o canhenho, e resguardou-o outra vez

dos olhos profanos debaixo da meia fabrica de Leeds, que fora

absorvida na mole immensa dos seus quatro casacões.

Mr. Graham Junior, apenas seu respeitavel irmão cessou de ler,

volveu para elle o rosto melancholico, e murmurou, depois de

um suspiro:

"_Aye!--Very good!_"

Com os tres _Yes_ precedentes fazia a conta de seis palavras, ou

grasnos, que despendêra naquelle dia Mr. Graham Junior.

Dous inglezes ridiculos são incontestavelmente as duas cousas

mais ridiculas deste mundo.

O temporal que se preparára durante a tarde desfechou em cima

de nós com o cerrar da noite. O vento saltára inteiramente ao

sul, de modo que nos ficava ponteiro. As vagas accumulavam-se

em serras, que, alçando-se e topando em cheio, se enlaçavam e

confundiam como dous luctadores furiosos. Depois a mais possante,

sumindo debaixo de si o grande vulto da sua contraria, erguia

o topo esguio, que vacillava um instante, e cahia desfeita em

catadupas de escuma nos valles profundos cavados momentaneamente

em volta della. A lucta daquelles vagalhões gigantes, em pé sobre

o abysmo das aguas, estreitando-se e despedaçando-se como as

hyenas e tigres n'um circo romano, vista assim ao lusco-fusco

sob um ceu achatado e cinzento, era uma sublime peleja! Todos

os espectaculos da terra--dos homens ou da natureza--que são,

ou que valem, comparados com a colera da procella que passa no

oceano? Menos que farça semsabor de titeres comparada com o Hamlet

ou com o Othelo representados por Betterton ou por Garrick. O

mysterio dos mares é de todas as obras da creação aquella em que

mais profundamente o Senhor estampou o seu verbo; a inscripção

indelevel e indubitavel, que narrará perpetuamente ao genero

humano o seu infinito poder.

O chasse-marée havia-se posto á capa. O vento não consentia já que

surdissemos avante, e o arraes, depois de uma breve conferencia á

prôa com o seu companheiro, veio declarar-nos que seria impossivel

seguir o rumo de Saint-Maló; que era necessario pôr a prôa nas

costas da Normandia, e dirigirmo-nos a Granville; e finalmente,

que só ahi poderiamos tocar em terra na manhan seguinte. Recebemos

esta desagradavel nova com mais heroica resignação, se é possivel,

que a de Mr. Graham Junior ao levar a sova poetica das inspirações

fraternas. E que não nos resignassemos! A immutabilidade do nosso

destino proclamavam-n'a os silvos do vento, e, o que mais era, a

declaração do arraes. Um capitão de qualquer baixel é o absolutismo

incarnado: as suas decisões equivalem á fatalidade moslemica. Em

muitos sermões politicos, que é a espécie mais impertinente do

genero litterario--sermão--tenho lido comparações fulminantes

contra os tyrannos, buscadas no despotismo asiatico. Se eu cahisse

na miseria de fazer eloquencia politica, não ía tão longe busca-las.

Saltava no primeiro hiate, chasse-marée, ou sloop, e travando do

arraes dizia ao mundo: _ecce homo_; eis-aqui a flôr, a maravilha, o

ideal de todos os despotismos possiveis. Os que andam incommodando

Attila, Kulikan, ou Timur, para afferir por elles os tyrannetes

quasi-ridiculos da Europa moderna, são dissertadores d'agua-doce,

que (para me servir de uma phrase do auctor de Micer Harold)

nunca pozeram a mão sobre a juba crespa do oceano. Tyrannia e

arraes são synonimos: digam o que quizerem os extirpadores

implacaveis das synonimias.

Maitre Jean Legris era um verdadeiro arraes normando: duro,

carrancudo, e inexoravel como os piratas do seculo duodecimo seus

antepassados, de que tão pavorosas memorias restam nas costas

de Portugal e de Galliza. Ouvimo-lo com magoa, mas com respeito,

porque não havia replicar. O chasse-marée obedecia ao leme, o leme

ao marinheiro, o marinheiro ao capitão, e o capitão, pactuando

com o vento, resolvêra empalmar-nos Saint-Maló e a Bretanha,

para nos dar em troco Granville e a Normandia. Por isso, antes

de nos communicar as suas intenções, mestre João tinha dado a

pôpa á tempestade e tomado o rumo de leste. Contava d'antemão

com a obediencia, que não lhe podiamos refusar.

Emfim anoitecera: a unica luz que viamos nas campinas do ceu

e das aguas era aquella especie de branquejar phantastico e

transitorio da escuma, que é para o luar o que um retrato de

morte-côr para um vulto original--menos que frouxissima claridade,

e mais que o crepusculo esbranquiçado e indeciso de um corpo

alvo e que mal se divisa no meio das trevas.

O chasse-marée, galgando por cima das ondas, no meio do refluxo

dellas, devia parecer, visto de longe, um baixel mysterioso e

infernal, perseguido por espectros que surgiam successivamente dos

abysmos, e que em roda delle dançavam danças maldictas, involtos

em seus alvos sudarios.

Bem importavam a Mr. Graham, o fratricida psychologico, aquellas

solemnes tristezas de uma noite procellosa! Tirou um frasquinho

de aguardente que trazia a tiracollo, bebeu um largo trago, e

alevantou-se, dirigindo-se á escotilha da especie de camara que

nos ficava de baixo do tombadilho. Era um pinheiro! Quando o

vi em pé receei que o sul o partisse; mas nem sequer rangeu.

Se me não mente um calculo rapido, Mr. Graham era, ao menos

physicamente, um poeta da força de oitenta cavallos, medida

britannica: era um poeta de alta pressão: era um poeta _warranted_,

para me exprimir como os laconicos letreiros de todas as peças

de fazendas inglezas falsificadas. Mr. Graham Junior seguiu Mr.

Graham Senior, _non passibus aequis_, como mais curto que era.

Ouvimos lá embaixo ainda dous ou tres regougos; depois tudo cahiu

de novo em silencio.

O velho, que se me encostára sobre os joelhos, apenas viu os

seus compatriotas buscarem acolheita para a noite, ergueu-se,

e cambaleando chegou á ingreme escada que conduzia á estreita

camara. Poz um pé no primeiro degrau, poz o outro no segundo,

tornou a pôr aquelle no ar, e disse com o corpo no fundo--pan!

Era o som d'um _cask_ de cerveja cahindo de vinte pés d'altura.

Ouviu-se-lhe um grito rouco e mais dous grunhidos dos seus

respeitaveis patricios. Tinha arrebentado o saxonio, ou espalmado

o poeta? Talvez ambas as cousas. Corremos a acudir-lhes levados

pelo primeiro impulso de humanidade. Os primeiros impulsos, nestes

casos, não prestam nem para Deus, nem para o diabo, porque são

estupidamente involuntarios. Seja isto dicto, com paz do leitor,

como desculpa da nossa caridade, e como descargo de consciencia

nacional.

Para clareza desta importante narração é de saber, que apenas

viraramos de rumo, o marinheiro substituíra o grumete no governo

do leme, como ministro responsavel de mestre João, e o grumete

fôra assentar-se á proa no logar que deixára o seu successor,

exactamente como um ministro demittido, que vae tomar assento

nos bancos da opposição. D'alli olhava para o tombadilho, fazendo

a segunda, com um assobiar monotono, ao bramido do vento.

Chegámos dous ou tres á escotilha onde soára o baque do velho.

Iamos a descer, a risco de nos despenharmos tambem, quando a

cabeça de Mr. Graham Senior começou a surgir como uma visão de

Manfredo:

_What dost thou see?--_

_I see a dusk and awful figure rise._

Á luz da bitacula, que enviava um raio frouxo ao rosto do grumete,

o poeta acenou-lhe que se approximasse, sem se dignar sequer de

olhar para nós humildes creaturas, que haviamos parado em roda

de sua grandeza.

O rapaz chegou-se a Mr. Graham.

"_Brandy!_[1]"--rosnou este, com o aspecto temerosamente carrancudo

e imperativo de um Nelson dando a ordem de accommetter na batalha

de Trafalgar. Dizendo e fazendo, mostrava o seu frasco de aguardente

virado de boca para baixo. O rapaz poz-se de novo a assobiar.

Nós então ousámos perguntar a sua extensão se por ventura succedêra

algum fracasso aos seus compatricios. Elle lançou-nos um olhar

obliquo, e em voz mais alta bradou ao grumete:

"_Rhum!_"

"Não ha:--respondeu o rapaz entre dous assobios.

"_Bring rhum, boy!_--insistiu o cantor da temperança, já colerico,

e fazendo-se desentendido.

"_Chien d'anglais_, não percebes?..."--exclamou o grumete na sua

lingua nativa, com um gesto de impaciencia; e accrescentou

voltando-se para nós:

"Que diz este diabo?"

"Que lhe ponhas para alli cachaça:"--ia eu a dizer, paraphraseando

em francez os trez monosyllabos britannicos, quando fui interrompido

por um mugido, subito, incisivo, retumbante, que sobrelevou o rugir

da tempestade. Soltara-o Mr. Graham, que, cerrando os punhos,

com todos os ademanes de um professor de sôcco, crescia já para

o pobre grumete, o qual avaliára erradamente a linguistica do

poeta. Elle percebêra ás mil maravilhas as duas personalidades

de _cão_ e _diabo_, que ousára dirigir-lhe o imberbe e enfarruscado

normando.

Felizmente para este, uma onda galgando exactamente nesse momento

a pôpa, veio lavar o tombadilho, e em forte balanço, fazendo

perder o equilibrio ao filho da Gran-Bretanha, o estendeu ao

comprido na agua que passava em demanda da prôa, com grave perigo

do precioso manuscripto do casacão. Estirado sobre a tilhá do

chasse-marée, e colleando e bufando para se alevantar, Mr. Graham

representava soffrivelmente o papel de um congro tirado naquelle

instante do mar. Quando elle, emfim, pôde concluir o plagiato

que fizera ao tombo do seu velho compatriota, o grumete tinha-se

já retirado ao anterior posto, sobre os escovens, e continuava

o seu acompanhamento de assobio ao estrepitar do vento.

Mr. Graham meditou um momento. Parece que o abalo da quéda e

a frescura da agua lhe modificaram poderosamente o orgão da

_combatividade_; porque, sem dizer palavra, desceu outra vez para

a limitada camara da fragil embarcação.

Este incidente, que passára com grande rapidez, podia ter dado

motivo a uma séria desavença entre o arraes e o poeta, porque

mestre João mostrava-se demasiado cioso da propria auctoridade,

para não consentir que um dos seus subditos fosse punido por

haver recusado uma cousa que talvez não houvesse realmente a

bordo, e por ter dicto duas verdades duras a um conterraneo dos

nevoeiros e dos beef-steaks. Mas porque não se exprimiu Mr. Graham

de modo que o grumete o entendesse? Como imaginou elle que o pobre

rapaz podesse perceber os seus tres monosyllabicos grunhidos?

É que o orgulho e o patriotismo britannico andam aninhados em

tudo. O que nos outros paizes se olha como um primor d'educação,

em Inglaterra é uma indecencia. Um inglez parece envergonhar-se

de saber algum idioma estranho, e muito mais o francez, que nos

paizes continentaes não é permittido ignorar a qualquer individuo

medianamente instruido.

A lingua franceza, pela sua simplicidade, regular sintaxe,

determinada prosodia, e mais circumstancias que a tornam facil

para os estrangeiros, tem obtido uma certa universalidade, que a

vae convertendo, por assim dizer, em lingua geral, principalmente

na Europa. Este predominio da lingua franceza deve ter talvez n'um

remoto futuro graves consequencias politicas. É por essa razão,

que aos inglezes doe excessivamente tal predominio. Primeira nação

do mundo como potencia material; representando nos tempos modernos

uma imagem da antiga Roma, a Inglaterra soffre de mau-grado o ser

intellectualmente inferior á Allemanha e á França. A influencia

moral que pelos seus livros esta ultima exercita na Europa,

nomeadamente nos paizes occidentaes, tende a augmentar ahi a sua

influencia social, na razão directa do progresso de civilisação

desses paizes. A França actua pelas idéas, em quanto a Inglaterra

o faz pelas esquadras: mas a acção das idéas cria a semelhança

de crenças, de costumes e de affectos, em quanto o temor das

esquadras, o apparato do poder, as insolencias do forte contra o

fraco só geram odios fundos, que se vão legando de paes a filhos:

que se vão accumulando no thesouro commum das gerações que vem

surgindo. Estes odios são um incendio que lavra, e que póde abrasar

a Inglaterra n'um desses dias aziagos, que amanhecem para as

nações como para as familias. Uma crise basta para perder o

Reino-Unido, e esta crise é facil n'um corpo moral cuja physiologia

é monstruosa e antinomica. A Gran-Bretanha deve saber que os

ecchos do continente repetem de contínuo a grande voz do povo,

que, em mais de um paiz, murmura aquelle terrivel verso do poeta

italiano:

_Siam'servi, si:--ma servi ognor frementi!_

Ninguem como os inglezes tem o instincto da vida politica. N'uns

este instincto é ajudado pelo raciocinio, n'outros pelo orgulho

nacional. A Inglaterra desejára tirar á França as influencias

intellectuaes: para isso fôra necessario generalisar a propria

lingua. Ahi é que bate o impossivel. Entretanto o inglez vae

falando inglez na terra e nos mares, quer o entendam, quer não,

e só em casos desesperados recorre a algum idioma estranho, não

sem o torcer, estafar e mutilar, com toda a barbaridade de um

verdadeiro Kimhri. É uma teima perpetua entre a Europa e a

Gran-Bretanha:

"O mundo a porfiar que os bretões grunhem;

E os bretões a teimar que o mundo mente"

Aquelle caso de Mr. Graham fôra mais um capitulo desta polemica

eterna.

Nós os portuguezes pensámos então em buscar uma guarida para

passarmos a noite, porque algumas pingas grossas de chuva nos

annunciavam um aguaceiro imminente. Dirigimo-nos a mestre João,

que nos declarou categoricamente ser impossivel dar-nos entrada

na tóca miseravel, a que elle tivera a ousadia de pôr o nome de

camara; e isto pela razão composta de que os tres inglezes a

occupavam inteiramente, e não podiam ser d'alli expulsos, tendo

pago trinta shellings por cabeça, em quanto nós pagáramos só

vinte. O argumento era de uma solidez irreprehensivel. Pedimos-lhe

todavia humildemente nos declarasse em que sitio nos poderiamos

resguardar da agua do mar e do ceu; porque se houvessemos pretendido

passar a nado de Jersey para França, escusáramos ter-lhe pago a

mal-aventurada capitação d'uma libra esterlina, que nos fazia

descer na escada social dez shellings, ou dez furos, abaixo dos

tres inglezes.

Os selvagens têem mais que os homens civilisados a eloquencia

do gesto, e o bom do normando, forçoso é confessa-lo, dava todos

os indicios de verdadeiro botecudo. Tomando a postura sublime

de um _seekoenig_, o rei do mar dos antigos sagas da Islandia,

e com um--_là!_--que podia fazer ainda mui decente papel ao lado

do--_qu'il mourut_--de Corneille, o arraes, especie de Buonaparte

juncto ás Pyramides, nos apontava para a escotilha d'avante, a

escotilha da boca do porão, e parecia dizer-nos no seu gesto

mudo:--"Ahi quarenta dores rheumaticas vos esperam!"--Melhor era

isso, comtudo, que amanhecer inteiriçados sobre a tolda; e assim,

dando-nos por avisados, arremettemos com o abysmo.

Escada não a havia; e as trevas interiores não eram menos densas

que as trevas exteriores, de que resa a Biblia, onde ha o chôro

e o ranger de dentes. A altura, porém, não devia ser grande.

Como os cavalleiros do Palmeirim d'lnglaterra, cada um de nós

se encommendou á dama dos seus pensamentos, e do modo que pôde

desceu áquella especie de _bolgia_ dantesca.

O chasse-marée, destinado a transportar gado de França para as

ilhas do Canal, ía em lastro, e o lastro era d'areia. Se não

fossem os terriveis balanços da embarcação, a pocilga em que nos

achavamos poderia passar ao tacto, unico sentido de utilidade

naquella situação, por uma praia deserta. Depois de apalparmos por

largo tempo em volta de nós, achámos por fim uma véla e alguns

cabos, lançados para uma extremidade do areal fluctuante. Ao

menos tinhamos um leito, se não mais macio, ao menos mais enxuto

que esse com que já contavamos. Uma pouca d'areia humida por

pavimento, algumas braças de lona por leito, e por agasalho e

cobertura a tolda d'um miseravel barco eram, com as trevas que

nos rodeavam nesse momento, toda a nossa consolação e abrigo.

Lendas e Narrativas (Tomo II) · 第 13 / 14 段