Eis a verdade nua e crua de como se aventou o segredo. A alhada

da porta da igreja, nascida daquellas tafularias tolas do Manuel

da Ventosa e da sua companheira, acabou de divulgar o negocio,

sem que n'isto andasse o fradinho de mão furada, nem os jesuitas,

gente de poder mysterioso e terrivel, nem, finalmente, o judeu

errante, que tantas maravilhas obra actualmente na terra. Mas se

n'isto não entraram os irmãos do quinto voto, nem o caminheiro

Ahasvero, com as suas sapatas tauxiadas de pregos em cruz e com os

seus alforges de cholera morbus, entrou, a meu vêr, a Providencia,

mas uma Providencia natural e simples nos seus meios, como ella

o é sempre, sem milagres nem bruxarias. Cuidava o prior que a

sua nobre e evangelica generosidade ficasse occulta; cuidava

Bartholomeu que trévas perpetuas cobrissem a torpe cubiça e a

sórdida avareza com que se houvera neste negocio. Vae, que faz

Deus? Serve-se de um pobre rapaz, que ninguem tinha em conta

de nada, e põe tudo ao olho do sol. E fique desde aqui dicto

que essa é a moralidade da minha historia: a virtude exaltada,

e o vicio punido. Nem mais nem menos, como o desfeixo daquellas

grandes comedias, que, ha vinte ou trinta annos, eram as delicias

de nossos paes, e a gloria dos nossos dramaturgos das tres unidades,

que Deus haja... As tres unidades, entenda-se bem; porque os

dramaturgos, esses o Senhor no-los conserve, emquanto podér ser,

para nosso regalo e consolação.

Quem disse lá que as velhotas, testemunhas dos _items_ do moleiro

com as personagens que mais conjunctas lhe eram, entraram para

a igreja e se pozeram a ouvir o cantar dos padres, e a musica do

coreto, e o esbravejar do prégador? Por um oculo! Á sombra da sua

victima, que fôra e que ía seu; á sombra de Bartholomeu, a quem

todos abriam caminho para o deixarem approximar-se do banco dos

festeiros, ellas atravessaram a mó dos homens, unidos como sardinha

em tigela dos estrados para baixo até o guardavento, e chegaram

ao meio do mulherio. Haja o apertão que houver, ainda não consta

que saloia deixasse de fazer praça para si na igreja. Verdade é

que a tia Jeronyma ía em frente com a cara de arremetter que

Deus lhe dera, e que mais rebarbativa se tornára com a anterior

refrega. Quem deixaria de dar campo á ama do prior, e, sobre tudo,

áquella carranca? Seguiam-na os noivos, encolhidos e vergonhosos

do escandalo que tinham causado, tornadas em fel e absintho as

tão risonhas esperanças que, pouco havia, punham no seu garbo e

bizarria; que n'isto vem a acabar muitas vezes as vanglorias do

mundo. (Mais moralidade). Após elles vinha Perpetua Rosa, e após

a lavadeira vinha a Veronica do Tiago, padeira gorda, vermelha

e reverendaça, a Engracia Ripa, mulher do fogueteiro da aldeia,

magra, alta, côr de enxofre, a Eufrasia Tasquinha, tia do Gabriel,

e varias outras, mais anchas ou mais esguias, mais esgrouviadas

ou mais repolhudas, que não sou eu nenhum Homero para estar, nem

antes nem depois da batalha, a tecer catalogos de guerreiros.--"Dê

licença!..."--"Ai, que me pisou!..."--"Perdoe!..."--"Não vê?..."--Eis

o que se ouviu murmurar por alguns instantes. E no meio daquelle

mar de cabeças adornadas de lenços de côr, listrados, e brancos,

avultava a pinha das recem-vindas, que tentavam ajoelhar; pinha

semelhante á embarcação rota a ponto de submergir-se, que balouça

vacillante, e se atufa lentamente nas aguas. Manuel da Ventosa,

que ficára em pé no topo inferior do estrado, sentia apertar-se-lhe

o coração vendo a sua Bernardina no meio daquelle cahos de capotes

e roupinhas, como uma avesinha do céu no meio de ninhada de sapos.

As sedas, o chapéu, as flores, a romeira rangiam, achatavam-se,

engorovinhavam-se entaladas entre aquellas baetas, pannos, camelões

e durantes, do mesmo modo que sobre o cadaver da virgem se achatam

e quebram as alvas roupas da innocencia e a corôa de rosas, debaixo

da terra aspera, pesada, immunda, que o coveiro atira brutalmente

sobre os restos do que foi bello, delicado e puro.--"Mas que

remedio?--pensou Manuel. As cousas assim hão-de ser sempre, porque

assim foram desde o principio do mundo."--Elle, de feito, cria que

desde esse tempo existiam missas cantadas, saloias e apertões.

Mas emfim ajoelharam, persignaram-se, e a festa principiou.

Não a descreverei eu. Quem não sabe o que é uma festividade de

orago, e o que é a missa solemne celebrada n'um templo catholico?

Ha ahi alguem, crente ou não-crente na fé que seus paes lhe

ensinaram, que não tenha bem vivos na memoria esses dias festivos

da sua meninice; esse culto, que sabe elevar o espirito para o

céu com as pompas de espectaculo sensual, que parece deveriam

faze-lo descer para a terra? Quem se não lembra daquelles bons

dias sanctos dos doze annos, em que o sol era mais formoso que

nos dias de trabalho, sem exceptuar a folgada quinta-feira do

sueto escholastico? Quem se não lembra da epocha, em que o nosso

parocho era para nós um ente quasi divino; porque, pobres creanças,

ainda ignoravamos os caminhos por onde esses homens, chamados a

uma existencia de sancta e sublime poesia, sabem vir despenhar-se

no charco das miserias e torpezas humanas, e revolver-se ahi

com aquelles de que deviam ser esperança, salvação e exemplo?

Quem não se recorda com saudade do tempo em que o altar só lhe

apparecia a certa distancia, com o seu frontal broslado e a sua

toalha alvissima, assoberbado pela catadupa de lumes de um throno,

perfumado pelas jarras de flores, involto no ambiente turvo pelos

rolos de fumo raro e pallido do incenso, symbolo do mysterio? A

quem não murmura ainda nos ouvidos o rythmo monotono e severo do

psalmear sacerdotal, mais accorde com as doces tristezas do coração,

que toda a musica sentida e dolorosa dos espectaculos scenicos, e

que estes, na impotencia de o vencer, têm ido humildemente imitar

nas creações dos modernos artistas (porque Meyerbeer, para ser o

rei das harmonias, foi invadir o templo)? Quem, finalmente, não

refugiu uma vez, cansado de scepticismo, para as memorias infantis

das commoções geradas pela religião dos primeiros annos, religião

toda de affectos, de inspirações, sem sciencia nem raciocinio,

os quaes, semelhantes ao sal espalhado sobre a terra, podem

fertilisar algum coração, mas esterilisam os mais delles? As

impressões indestructiveis das festas religiosas guardam-nas

os que crêm, como consolação do passado, e como esperança de

regosijo futuro; e os que não crêm tambem as guardam, no longo

crepusculo da sua alma, como guardamos no inverno as plantas

odoriferas já murchas, que, debaixo de céu pardo e frio, ao pé

da veiga nua e da arvore desfolhada, nos recordam o halito suave

dos campos ao pôr do sol de um dia sereno do estio.

Eis-ahi porque não descrevo a festa. Era especular descaradamente

com os leitores: era como se ao Bartholomeu se lhe mettesse em

cabeça ir ensinar o ceremonial romano ao incomparavel Fr. Narciso.

E que terá Fr. Narciso, que já escarrou duas vezes, já se assoou

quatro, já bufou seis, já arregalou os olhos para o corpo da

igreja oito? É que as attenções estão distrahidas. Fortes brutos!

Uma perfeição de ceremonias, que nem na capella sixtina no dia da

benção _urbi et orbi_!--"Olha o que lá vae! o que lá vae!--rosnava

elle cheio de indignação.--Aquellas endiabradas... Quem vos decepára

as linguas, tarameleiras! Até aqui! Louvado seja Deus! É de mais.

Psiuhhhh!"

Tinha razão. Era um zum zum na igreja, que quasi galgava por cima

das rebecas; e mais chiavam e desafinavam com alma. O arrastado

psiuhhhh de Fr. Narciso restabeleceu, porém, a ordem, que nem

n'um motim popular uma carga de cavallaria.

Mas para se restabelecer a ordem é necessario haver desordem.

Quero vêr se tambem dizem os parvos que esta proposição é uma

das minhas esquisitices, ou excentricidades, para lhes falar

na sua algaravia. A cousa tinha saído do logar onde estavam a

tia Jeronyma, Perpetua Rosa e a Bernardina. Qual cousa? Isso

é o que não diz a historia. O que é certo é que era um bis bis

que partia do centro para a circumferencia, como os circulos

concentricos que encrespam a superficie do lago ao meio do qual

se atirou uma pedra, e era ao mesmo tempo um balouçar de pontas de

lenços sobre os cabeções dos capotes, um rir abafado, um sussurro,

uma agitação entre o mulherío, tal, que attrahira a attenção e

logo a colera de Fr. Narciso. O mais que se pôde perceber foram

alguns fragmentos de dialogo entre a tia Jeronyma e a Engracia

do Estanislau fogueteiro.

"Padre nosso que estaes nos céus:--dizia Engracia Ripa, deixando

correr um dos bugalhos de umas contas da terra sancta que tinha

nas mãos.--Ora essa!--Sanctificado seja o vosso nome.--Forte

tractante!--Venha a nós o vosso reino.--E uma pessoa com a sua

áquella de que era um home como se quer!--Seja feita a vossa

vontade.--Safa!--Assim na terra como nos céus.--Com que então

setenta?"

"Entregadinhas!--_Ave Maria, gracia plena_:--respondeu a tia Jeronyma,

que latinisava furiosamente á força de viver com o prior.--Como

lh'o hei-de dizer?--_Domisteco._--Foi o demo que o tentou.--_Benedités

tu..._"

Neste ponto a interessante conversação das duas matronas foi

interrompida pelo psiu! raivoso de Fr. Narciso. Não podemos dizer

sobre que ella versava, nem aonde iria dar comsigo: e quando

n'uma chronica profunda e grave, como esta, faltam fundamentos

plausiveis, é dever do chronista ser sobrio, ou antes abster-se

de conjecturas. Direi só que ao saír a gente da festa, não havia

cão nem gato que não soubesse tim-tim por tim-tim a historia

do Manuel da Ventosa e da Bernardina.

Mais moralidade:--é o que elles tiraram das suas tolas tafularias.

Quando o prior saíu da igreja os rapazes desbarretavam-se, ainda

com mais signaes de cortezia e respeito do que era costume; as

raparigas affagavam-n'o com um sorrir e volver d'olhos affectuoso,

que fazia scismar o bom do parocho. Todos olhavam para elle e

falavam em voz baixa. O prior estava zangadissimo.

Mas qual foi o seu pasmo ao vêr chegarem-se a elle muitos velhos

de cabeça branca (eram varios lavradores seus freguezes, hourados

paes de familia) e beijarem-lhe a mão com os olhos arrasados de

agua! Estava fumando. Uma onda se lhe ía outra se lhe vinha de

destampar com tudo aquillo, e pregar uma descompostura solemne

e por atacado nos velhos, nos rapazes, e nas raparigas.

E para isso não lhe faltava metralha. Mas lembrou-se de que era

o dia do orago da aldeia, e teve mão em si. Só lá perguntava

aos seus botões qual seria a causa deste destempero e doudice.

Como havia elle de atinar, se tinha o costume de esquecer-se

do bem que fazia, porque, sendo fraco de memoria, reservava-a

toda para o bem que recebia?

A historia do casamento feito pelo velho parocho, segundo depois

me contaram (era eu pequeno, e lembra-me como se fosse hoje),

chegou aos ouvidos do prelado diocesano, o qual disse ao famulo

do famulo do seu secretario, um dia em que se levantou de dormir a

sésta com vontade de galhofar, que na primeira visita que fizesse

á diocese havia de elogiar publicamente aquelle digno pastor.

Nunca, porém, houve occasião para a primeira visita, porque esta

costumeira velha tinha passado já de moda. Eram pieguices só boas

para os Bartholomeus dos Martyres e para os Caetanos Brandões;

pobres homens, a quem Deus fale na alma, se é que valiam a pena

d'isso.

Ajuda--novembro de 1844.

DE JERSEY A GRANVILLE.

(1831)

Abandonavamos, emfim, o solo d'Inglaterra. Sería pela volta do

meio dia quando saltámos no chasse-marée que devia conduzir-nos

de Jersey a Saint-Maló, atravessando aquella estreita porção

do canal que nos separava da França. Sentimentos encontrados

eram nesse momento os meus. O sol resplandecia brilhante, e o

ar estava puro e sereno: era um dia d'outono, tão bello como

o que mais o fosse em Portugal. De um lado alteava-se a ilha

com os seus outeiros e valles, solo anfractuoso semelhante ao

nosso, e a povoação com os seus edificios cobertos de telha,

que nos faziam esquecer aquelles horriveis tectos inglezes de

lousa negra, especie de tabuletas do _spleen_, penduradas pelos

bretões sobre as suas cidades, e em que parece ler-se a inscripção

de Dante:

_Per me si va nella cittá dolente._

Do outro lado estendia-se o mar, chão e espelhado, que se interpunha

entre nós e a França; entre nós e esse paiz, que para a mocidade

das nações occidentaes da Europa é como uma segunda patria; porque

lá está o centro das idéas que hoje agitam os espiritos, tanto

no que respeita ás questões sociaes, como no que interessa á

sciencia e á litteratura; porque lá vivem os escriptores que

melhor conhecemos; que, até, amâmos como se foram nossos: paiz,

a cujos habitos, tradições, successos e glorias nos têm associado

os seus livros, sem o sentirmos, sem, talvez, o querermos. Ao

approximarmo-nos da França o coração não bate violento, nem se

derramam lagrymas, como ao avistar a terra em que nascemos; mas o

animo desaffoga-se, e abre-se á esperança; vamos tractar homens,

que nunca vimos, mas com quem de largo tempo vivemos pelas intimas

relações dos affectos e da intelligencia.

Eramos seis portuguezes a bordo do chasse-marée, além de dous

marinheiros francezes e um grumete, entidades analogas aos nossos

antigos desembargadores; porque cada um delles cumulava seis

ou sete cargos daquella vacillante e pequena republica, cargos

disparatados, que, todavia, as tres personagens desempenhavam

perfeitamente, destruindo assim, em parte, a analogia radical,

que tinham com esses magistrados de pedante e pesada memoria, que

não desempenhavam bem nenhum. Um cão e tres inglezes completavam

a collecção dos animaes inclusos entre as quatro taboas da fragil

embarcação.

O chasse-marée é um transporte maritimo, que, na minha profunda

ignorancia das cousas navaes, me parece semelhante ao hiate

portuguez, ao menos na immundicie e na carencia absoluta de tudo

o que seja commodidade. N'isto, entre parenthesis, não sou eu

ignorante; porque tenho experimentado uns e outros, e posso asseverar

que sería mui difficultoso de resolver qual dos dous generos de

navios tem parentesco mais proximo com as rudes e acanhadas galés,

em que, ha sete seculos, Guilherme o conquistador transportou,

através daquelle mesmo canal, da Normandia para Inglaterra os

ascendentes da actual aristocracia britannica.

Commoda ou incommoda, era necessario aproveitar aquella detestavel

jangada para passarmos a França, e isto por duas razões

urgentissimas; a primeira, porque nenhuma outra embarcação havia

no porto de Saint-Hélier com destino immediato para a costa

fronteira: a segunda, porque o preço da passagem era apenas uma

libra esterlina, e uma libra esterlina era o folego maior que

podia saír da bôca das nossas bolsas, cuja phtysica pulmonar

ia já no ultimo periodo. Tendo-nos, portanto, ajustado com o

marinheiro que capitaneava o outro marinheiro, e havendo mettido

a bordo os nossos bahus, que, pelo leve e desempedido, podiam

servir-nos de botes de salvação em caso de naufragio, saímos

da caldeira de Saint-Hélier com uma brisa forte da terra, que

brevemente nos arremessou para o largo. Era muito depois do meio

dia. Algumas nuvens brancas do lado do poente recortavam as suas

franjas irregulares sobre o chão do céu, que a luz do sol tornava

de um azul desbotado. Raras e diaphanas, aquellas nuvenzinhas

balouçavam-se no ar, ao que parecia, mais voluptuariamente do

que nós, que sentiamos arfar, pinchando d'entre as vagas crespas,

o nosso pequeno baixel. Pouco a pouco esses vapores accumulados,

cujos contornos occidentaes barravam orlas de ouro, engrossaram,

tomando fórmas determinadas. Depois, correndo gradualmente mais

rapidas, e interpondo-se entre os raios do sol já inclinados e

o vulto rugoso das aguas, lhes remendavam o dorso semelhante á

pelle mosqueada do tigre. Este jogo da luz dava ao mar um aspecto

verdadeiramente accorde com a sua natureza. Que é elle, de feito,

senão a mais terrivel das bestas-feras?

E o vento refrescava de instante a instante, e os mastros do

chasse-marée principiavam a soltar de quando em quando um gemido

doloroso, curvando-se para as vélas quadrangulares retesadas

diante delles.

O grumete ía ao leme: o marinheiro, que representava e resumia

a companha, de bruços e com os joelhos sob o ventre, no ademan

de um gato que se apresta a saltar sobre o murganho immovel de

terror, parecia examinar os novellos de nuvens tenebrosas, que

se rolavam no horisonte e cresciam para nós, como uma visualidade

de camara obscura. A barlavento o arraes ou capitão (_capitaine_

lhe chamavamos nós pelo menos) que representava e resumia a

officialidade do navio, com o corpo torcido, e encostado á amurada,

firmando a barba nos braços cruzados em cima da borda, tambem

parecia esquadrinhar o céu e o mar. Dir-se-hia que o encapellar

das ondas se regulava e media pelas rugas que successivamente

augmentavam em numero e profundeza na fronte tostada do antigo

marujo. Um susto vago e inexplicavel como que pairava no meio

de nós. Era que a postura e o gesto daquelles dous homens tinham

um não sei que sinistro e mysterioso, semelhante ao bofar morno

do vento que precede e annuncia a procella.

Nós os passageiros, assentados n'uma especie de canapé mal

affeiçoado, que circumdava a coberta á pôpa, tinhamos insensivelmente

cahido em completo silencio; ou, para falar com mais exacção, nós

os portuguezes eramos os que nos haviamos calado; porque nem o

cão, nem os tres inglezes tinham proferido, aquelle um só ladro,

estes um só grasnido desde o momento em que saltaram a bordo, na

abra de Saint-Hélier. O unico ruído que sussurrava era o ranger

do baixel, e o sibilo de vento embatendo em nós, e abysmando-se

nos nossos ouvidos, o que nos fazia escutar um som semelhante

ao do pinhal que se estorce e vérga ao redemoinharem-lhe por

entre as ramas os mil braços da tempestade nocturna.

Dos tres inglezes um velho de cabeça inteiramente branca e rosto

inteiramente vermelho dava certidão, nas cans, de que a agua

do baptismo passára por alli havia muitos annos, na côr da tez

dava-a de que tambem não havia poucos que elle, levado de um

sancto respeito pela materia do principal sacramento, abjurára de

coração o tocar-lhe com os labios, contentando-se de humedece-los

com os tres liquidos fundamentaes de todos os contentamentos

possiveis entre os netos dos kimhris e saxonios--o rhum, o vinho

e a cerveja. Dos outros dous, um mostrava ser inglez de cincoenta

annos, outro de quarenta; o primeiro, magro, da altura de cinco

para seis pés craveiros, faces encovadas, nariz meridional, ou

antes judaico, isto é, prominente e adunco, tez não tanto morena

como macilenta: o segundo, typo saxonico, isto é, rosto largo

e achatado, olhos azues, guedelhas louras, bôca profundamente

vincada nas extremidades do beiço inferior, de aspecto aborrido

e orgulhoso, como se todo o fumo de carvão de pedra britannico

o cercasse com a sua auréola de gloria nacional. De resto não

havia que duvidar-lhes da patria: indicava-a o cheiro dos seus

vestidos, suavemente impregnados do fartum sebaceo de carneiro, e

aromatisados com os effluvios nauseantes da infusão do chá preto,

os quaes constituem a formula odorifera da sociedade politica

chamada os tres reinos unidos.

Pois tambem ha cheiros nacionaes?--dirá o leitor.--Que duvida!

Cada nação tem a sua crença, a sua lingua, e o seu cheiro. O credo

inglez é representado não sei ao certo por quantos centenares

de seitas, que se mandam reciprocamente para o inferno, desde

a igreja anglicana, em que os bispos e arcebispos (poetas,

amphytriões, millionarios e politicos) bradam anathema contra

as vaidades, luxo e cubiça de Roma, até os methodistas, que vão

para os seus templos caçar as inspirações de cima, inspirações

que muitas vezes são papadas por velha fanatica e tonta, e ouvidas

pelos seus irmãos com uma compunção que daria vinte comedias a

Gil Vicente se hoje vivesse, e viajasse pelo _Might Empire_ do

vapor e da cerveja.

A brisa, que ao saírmos de Jersey era em pôpa, rodou successivamente

para noroeste, e antes do pôr do sol soprava já violenta do lado

do oeste. Nós seguiamos, pouco mais ou menos, o rumo do sul, e a

mudança do vento, posto que ameaçadora, tinha sido momentaneamente

uma vantagem de commodidade: o chasse-marée corria á bolina, e

por isso o seu arfar se tornára mais suave. No horisonte, quasi

pela pôpa, divisavamos ainda o promontorio de Noirmont, e pela

nossa esquerda prolongavam-se quasi imperceptivelmente as costas

de França, como uma linha negra lançada ao través dos mares.

O silencio que reinava a bordo dava certa melancolia solemne ao

quadro do céu nublado, das vagas revoltas, e da terra que parecia

quasi desvanecer-se na orla das solidões do oceano.

O inglez velho, que ía justamente assentado á minha direita, a

pouco mais de meia milha de Saint-Hélier começou a empallidecer.

O ar marinho é inimigo figadal do fastio, e por isso, teriamos

apenas navegado duas horas, quando começámos a experimentar, nós

os portuguezes pelo menos, a immutabilidade inflexivel desse axioma

dietetico. Tirámos algumas das nossas provisões, e pozemo-nos a

despachar os requerimentos do estomago. Offereci ao velho que

tomasse parte naquella refeição; mas elle recusou, declarando-se

_sea-sick_ (enjoado); todavia para não perder, como verdadeiro

inglez, os prós da minha boa vontade, entendeu que podia trocar

uma obra de misericordia por outra, e, deixando-se escorregar do

banco ao convez, fincou-me sobre os joelhos a cabeça entontecida,

e cerrou os olhos. Recommendei então a Deus os meus pobres ossos

cruraes, ameaçados de chegarem a França em estado de para nada

prestarem, visto ser a cabeça do velho uma verdadeira cabeça

ingleza; dura, pesada, e macissa, como o governo da Companhia

na Asia.

Porque não repellia eu a familiaridade ominosa do bom do inglez;

de um homem cuja nação, como portuguez, tenho a obrigação moral

de desamar? Era porque em contrario havia duas considerações

igualmente moraes. Uma cabeça branca é sempre respeitavel, ainda

que assente sobre o tronco ermo de coração de um filho da

Gran-Bretanha. Além d'isso, o cesto de verga em que íam as nossas

provisões estava alli como um espectro, que me embargava sacudir

a fronte do ancião para o travesseiro macio do convez gordurento.

O porque desta acção sympathica do cesto sobre o meu espirito

di-lo-hei em breves palavras: é uma historia como qualquer outra.

Miss Parker de Plymouth era uma donzella de sessenta annos;

excellente creatura, que nos hospedára por dous mezes naquella

cidade, mediante a bagatella de tres shellings semanaes por cabeça.

A Inglaterra, como todos sabem, é o paiz da franca e sincera

hospitalidade. Eramos ahi nove portuguezes, em seis camas e tres

aposentos, o que dava certo ar pythagorico e mysterioso á familia,

que, dirigida por Miss Parker, podia servir de modelo ás outras

ninhadas de emigrados que ainda viviam em Plymouth. Ninguem tinha uma

patroa como nós, e os seus _lodgings_ eram a perola das albergarias de

Plymouth. A principio havia-se encarregado de nos preparar a comida;

mas poucos dias podémos resistir aos abominaveis temperos do paiz.

É precisa uma raça de estomagos que ainda fosse antropophaga no

meado do quinto seculo da era christan para luctar vantajosamente

com a cosinha d'Inglaterra, e estes estomagos só os inglezes

os possuem, segundo o testemunho do seu historiador Gibbon. Os

nossos cederam a tão dura prova, e vimo-nos obrigados a dispensar

Miss Parker do mister de nos envenenar. Quanto ao mais eramos

verdadeiramente seus filhos em espirito, em espirito, digo, porque,

afóra muitas reflexões pias de que se dignava fazer-nos, a nós

pobres idolatras do catholicismo, obrigava-nos a respeitar o

domingo no pleno rigor da igreja anglicana; isto é, a morrer

de tedio e tristeza, prohibindo em sua casa todo o genero de

divertimento, ainda o mais innocente, desde pela manhan até sol

posto, momento em que naquelle abençoado paiz Deus cede ao diabo

o resto do dia dominical, e em que a devassidão e a embriaguez,

tripudiando nos prostibulos e nas tabernas, se vingam das dez ou

doze horas de sermões impertinentes dos _clergymen_, e de psalmos

desafinados pelas vozes roufenhas e prosaicas da turbamulta,

debaixo das abobadas sanctas, poeticas e venerandas das antigas

igrejas catholicas, repartidas hoje em camarotes de theatro pela

pureza aristocratica e beata do protestantismo inglez.

Lendas e Narrativas (Tomo II) · 第 12 / 14 段