passar ante os olhos do major C***[2] elle ha-de por certo lembrar-se
de que essa noite foi uma das bem dolorosas e tristes da sua larga
vida de soffrimento e abnegação; da sua vida de honesto e valente
soldado. Padecimentos antigos haviam crescido com os trabalhos
e estreitezas do desterro, e posto que o seu animo de ferro lhe
não consentisse o soltar um só queixume, o incendio lavrava lá
dentro, e a dôr, que não podia subjugar-lhe o espirito, ás vezes
se lhe revelava no gesto confrangido. O seu estado gerava em nós,
que sinceramente o amavamos, serios receios. Mas como o padecer
se não traduzia em gemidos, no meio da escuridão, e entretidos
com a scena ridicula do poeta da temperança e da aguardente,
haviamo-nos persuadido de que esse padecimento diminuira
consideravelmente.
Deitados em cima da véla convertida em colchão, os meus companheiros
breve adormeceram. Quando a consciencia está tranquilla a mocidade
encontra facilmente o repouso ainda no mais duro leito. Só eu
velei; porque lhes levava uma vantagem, talvez antes desvantagem,
uma imaginação mais ardente. O major C*** tambem parecia dormir.
Achava-me finalmente só!
Havia muito que para mim não existia a vida íntima senão no silencio
da noite. O dia, esse passava-o como embriagado na agitação
tumultuosa de peregrino, vendo fugir diante dos olhos, na terra
e nos mares, os quadros e as scenas de uma natureza e de uma
sociedade diversas daquellas que me tinham cercado na infancia
e na primeira juventude. Era de noite que a imagem da patria,
terribilissima de saudades, se me assentava como um pesadelo
sobre o coração, e me expremia delle bem amargas lagrymas! Aos
vinte annos a nossa alma, viçosa e virgem, tem affectos para
derramar com mão larga por tudo o que nasceu e cresceu juncto de
nós; por todos aquelles que nos ensinaram a balbuciar as primeiras
palavras, e nos guiaram os primeiros passos no caminho da vida.
Para achar deleite em vaguear fóra do nosso ninho paterno, é
preciso haver passado a idade das esperanças; é preciso ter já
calcado aos pés, inteiramente sugado, o pomo das illusões, e
assistir ao drama da existencia, não como actor possuido do seu
papel, mas como espectador indifferente, que sabe ser esse drama
um embuste, algumas vezes attractivo, mas semsabor as mais dellas;
é preciso ser homem; e eu tinha então vinte annos. Por isso este
errar entre estranhos teria para mim demasiado tedio e tristeza,
quando se lhe não ajunctassem outras maguas e privações de muitos
generos.
O desterro é uma das mais profundas miserias humanas; mas a pobreza
no desterrado é o tormento mais intoleravel do espirito, porque é
um composto monstruoso de saudade, de humilhação, de abandono, de
desesperança, que vos lembra cada dia, cada hora, cada instante,
a vossa situação desgraçada; que vos recorda sem cessar que sois
uma especie de Ahasvero, de judeu errante, que a maldicção de
Deus guia, em meio do desprezo dos homens, dos vituperios, dos
trabalhos, por uma peregrinação sem termo e sem horisonte. Tendes
de experimentar a affronta e calar, os maus tractos e soffrer,
a fome e a nudez e não ousar pedir uma esmola, porque o pobre
estrangeiro é um ente médio entre o homem e o animal, a sua linguagem
inintelligivel e ridicula, a sua dôr e o seu sentimento quasi um
impossivel, o nome do seu paiz a fabula e o escarneo das gentes,
sobre tudo se esse paiz é fraco, limitado e obscuro. Então vem o
comparar tudo isso com os commodos e gasalhado do lar domestico,
com o amor e amizade, que vos cercavam de suavidade o viver de
outro tempo, e a comparação vos converte em fel e lagrymas o
sangue mais puro das veias. Tombastes de pedra em pedra no fundo
de um abysmo: lá acharam os vossos membros pisados e feridos um
leito de çarças; e d'ahi medís de contínuo a altura da quéda,
porque vos luz lá em cima o céu da patria, e a saudade vos mede
palmo a palmo a distancia que vae do despenhado a essa imagem
querida.
Que todos aquelles que nunca saíram de sob o tecto da sua infancia;
que nunca buscaram debalde o sol esplendido da terra occidental
para o saudar na manhan de primavera; que nos remansos do seu rio
natal não imaginam o ennovelar-se e bramir das vagas do oceano; que
nunca viram o céu chato do norte pesar sobre a campina, estendida
como um cadaver, e coberta do seu sudario de neve; que esses
alguma vez se recordem e compadeçam do pobre foragido, a quem
as intolerancias insensatas e ferinas de paixões politicas
arremessaram para estranhas regiões. Seja qual fôr a vossa crença,
a vossa parcialidade, doei-vos d'elle; porque as doutrinas podem
ser erros mas não são crimes. E de mais, quem vos diz que essa
opinião, que vos parece verdadeira e sancta, vos não parecerá
com o tempo absurda e má, se de sincero coração a seguís?
Engolfado nestas idéas, posto que bem desperto, conservava-me
calado no meio dos meus companheiros, os quaes dormiam placidamente
ao murmurar da agua no costado do chasse-marée, que rompia pelas
vagas agitadas. De vez em quando os mastros rangiam com os turbilhões
de vento, e sentia-se um golpe soturno e embaçado sobre a tolda.
Era alguma onda que salvava por cima do baixel, como a que viera
acalmar a colera do esgrouviado Mr. Graham. Depois ouvia-se a
voz do arraes, que proferia algumas palavras inintelligiveis:
depois outra vez só o silvar da procella.
O major C*** revolvia-se entretanto perto de mim, ao que parecia
grandemente inquieto. A persuasão, talvez, de que ninguem o escutava,
e a intensidade da dôr arrancaram-lhe, emfim, um gemido. A sua
energia moral succumbíra. O veterano, depois de largo combate
de muitas horas, declarou-se vencido.
Falei-lhe em voz baixa: na tristeza da noite o padecimento physico
parece achar consolo no som da voz humana. Era o unico soccorro
que na situação em que nos achavamos lhe podia ministrar.
A nossa conversação durou por algum tempo; nesta conversação
havia para mim o refrigerio do espirito, porque nos recordavamos
da patria; elle buscava assim um allivio para dous generos de
angustias, as do espirito e as do corpo. Era mais infeliz do
que eu!
Por este modo passou grande parte da noite. A tempestade crescia
progressivamente, e o balanço do chasse-marée era já intoleravel.
Começámos então a sentir por cima das cabeças os passos apressados
dos marinheiros, e um som estranho, como de mar quebrando ao longe
em agra penedia. Este som, semelhante ao disparar de artilharia
por sotavento, approximava-se gradualmente.
D'ahi a pouco ouvimos correr rapidamente a amarra pelos escovens.
Era incrivel que tivessemos chegado tão depressa ao termo da
nossa viagem. As seguintes palavras de mestre João, precedidas
de uma praga, não nos deram vagar de fazer sobre isso largas
conjecturas:
"_Ventre-Saint-Gris_ ... a amarra ... vamos a pique![3]"
Foi o que pudémos perceber. E era sobejo.
O major C*** ficou immovel. Quanto a mim, o primeiro pensamento que
me scintillou no espirito foi o de despertar os nossos companheiros.
Mas porque não haviam de morrer tranquillos? Deixei-os.
O brado do arraes fôra seguido de um momento de tremendo silencio:
depois senti que o chasse-marée fazia um singular movimento,
como galgando pelo dorso de enorme vaga; após isto pareceu-me
que subitamente parára, e ouvi de novo falar na tolda. Era a
voz de Mr. Graham, o poeta agoureiro e esguio.
Este momento de incerteza foi horrivel. Então conheci bem a verdade
de uma phrase de Milton "_a escuridão visivel_." Nas trevas
profundissimas em que estava via o reluzir do mar ao redor da véla
branca em que jaziamos; e os olhos da minha imaginação enxergavam
através da agua os rochedos de sorvedouros submarinhos, onde
os nossos cadaveres deviam dentro em pouco achar uma sepultura
desconhecida.
Não sei o como, mas a verdade é que, no meio do terror de morte
afflictiva e demorada, me veio á cabeça uma idéa ridiculamente
consoladora. Foi esta a imagem de Mr. Graham sumindo-se nas goelas
de um tubarão com a sua fabrica inteira de versos, e a meia fabrica
de Leeds, que trazia distribuida pelos seus quatro casacões
incommensuraveis.
Passou um minuto: passaram dous: passou terceiro; e a nossa véla
enxuta, e o baixel perfeitamente tranquillo. A morte, se tinha
de vir, era tão lenta e derreada como a melopéa da declamação
ingleza.
Porventura haviamos encalhado n'algum banco de areia, porque o
chasse-marée evidentemente não abríra; aliás o mar devia ter-nos
já sorvido.
Lembrei-me de subir á tolda. Mas como? O logar em que nos achavamos
representava uma verdadeira masmorra de castello feudal. O escotilhão
por onde desceramos era mais alto do que um homem: além d'isso o
estrado da bôca tinha sido ahi collocado, como a campa sobre um
tumulo, e em cima do estrado sentíramos lançar uma lona breada
para impedir a invasão das ondas que galgavam pelo tombadilho.
Esperei, pois, que amanhecesse, e que então obtivessemos a luz
e a liberdade da munificencia de Micer Jean Legris. Entretanto
o major parecia mais tranquillo: a quietação do chasse-marée, e
a somnolencia da ante-manhan eram apparentemente a causa d'isto.
A alvorada assomou, emfim, no oriente: alevantou-se o estrado,
e a luz branda do romper do dia veio allumiar o nosso calabouço
marinho com uma claridade frouxa e suave. Não esperára debalde
em mestre João: o _seekoenig_ concedia-nos o favor de aspirarmos
um ambiente puro e livre.
Subi á tolda. O sol surgia como um grande orbe vermelho fluctuante
sobre as ondas levemente crespas. No sudoeste uma nuvem negra
e ampla parecia firmar-se em pé no horisonte, prolongando os
cimos dentados pelas alturas do ceu: era a procella, que fugia
varrida pelo nordeste. A superficie enrugada do oceano tinha não
sei que semelhante a um gesto humano que sorri. Eu contemplava
uma dessas raras alvoradas do navegante, em que no aspecto do
mar se lê o nome de Deus, e no sussurro da brisa se escuta o
hymno da creação.
Onde estavamos nós? No recife de um ilheu, vizinho das costas
de Normandia, cujo nome se me varreu da memoria. A caldeira em
que nos achavamos teria tres vezes o comprimento do chasse-marée
e ainda menor largura. Olhei para a entrada, e os cabellos
eriçaram-se-me ao vê-la. Custava a perceber como o nosso baixel a
atravessára sem se fazer em pedaços: era um labyrintho de rochedos
agudos quasi indelineavel.
Mestre João Legris, não sei por qual razão nautica, pretendêra
fundear junto aos penedos que defendem a bôca daquella abra,
até que chegasse a manhan. Ao lançar ancora a amarra se partíra
roçando pelas rochas. Este successo desastrado arrancára da bôca
do arraes a energica exclamação, que tão terrivel fôra ferir-me
os ouvidos no meio das minhas dolorosas cogitações. Felizmente
uma vaga monstruosa, erguendo o chasse-marée sobre o dorso, o
arrojou por entre os parceis, talvez por cima delles, e nos salvou
da morte, que aliás sería inevitavel.
A saída do recife deu mais trabalho aos nossos marinheiros do
que lhes dera a entrada. O sol ía já mui alto quando abrimos
todas as vélas ao vento. Este era de feição; e dentro em poucas
horas aportámos a Granville.
[1] Aguardente.
[2] Actualmente (1843) brigadeiro Celestino Soares.
[3] Textual.
FIM DO TOMO II.
INDICE.
A DAMA PÉ-DE-CABRA
(SECULO XI)
Trova primeira
Trova segunda
Trova terceira
O BISPO NEGRO (1130)
A MORTE DO LIDADOR (1170)
O PAROCHO DA ALDEIA (1825)
Prologo
I A Aldeia e o Presbyterio
II Noitadas parochiaes
III Uma escorregadela
IV Alhos e Bugalhos
V Excurso patriotico
VI Bartholomeu da Ventosa
VII Tantaene animis?
VIII Gloria ao padre prior
DE JERSEY A GRANVILLE (1831)