Dir-se-ha que o povo não está entre nós n'uma situação analoga á

do povo inglez, para o catholicismo ser posto á prova? Felizmente

isso é verdade. Mas já houve tempos quasi semelhantes, posto que

ainda inferiores em terribilidade, aos que vão correndo para

a gente miuda de Inglaterra. Era quando a peste devastava as

nossas cidades e ermava os nossos campos, levando-nos ás vezes

mais de um terço da população. Ahi existem innumeraveis monumentos

dessas epochas desastrosas: que appareça um só por onde se prove

que o desalento popular buscasse conforto no vinho e aguardente.

Pois, cá, o remedio não era caro! O que achâmos são as preces,

as romarias, as procissões, as lagrymas, os votos, o sentimento

exaltado da confiança e da resignação na Providencia. Achâmos

a pequena differença que vae de um christão a um bruto.

"E os irlandezes?"--Oh, bem sabemos que os irlandezes, catholicos

como nós, na sua miseria monstruosa têm cahido, se é possivel,

ainda mais fundo que os inglezes. Mas, em rigor, esses catholicos

na intenção e na crença podem acaso sê-lo no culto que aviventa o

espirito? Onde lhes deixou o protestantismo os seus templos, os

seus sacerdotes, os seus costumes religiosos? O vulgacho irlandez

é o argumento mais dolorosamente persuasivo da necessidade dessas

festas, dessas alegrias, dessas fórmas materiaes do culto. Sem ellas,

o catholico miseravel embrutece-se como o miseravel protestante;

e o seu embrutecimento vem, por outra parte, recordar-nos de

que não é possivel achar um nome, que qualifique devidamente o

descaro com que o anglicanismo, inquisidor implacavel e tenaz

de tres seculos, nos lança em rosto as trinta mil verdades e

as sessenta mil mentiras, que, com justissimo horror, se relatam

da Inquisição.

Eis o que nós podemos responder aos insulsos dicterios com que é

diariamente vilipendiado o catholicismo portuguez: e não dizemos

tudo; não dizemos metade. Quanto aos motejos que nos dirigem como

nação pobre, pequena, fraca, isso não passa de uma covardia,

que só deshonra a quem a practíca. Trabalhemos por levantar-nos

da nossa decadencia. Será essa a mais triumphante resposta.

E com estas deambulações de patriotismo religioso saltámos a

pés junctos pela historia do padre prior. No capitulo seguinte

daremos satisfação plena ao pio e benigno leitor.

* * * * *

[1] Bedlam, como a maior parte dos leitores sabem, é

o mais famoso hospital de doudos em Inglaterra.

[2] Buret, _De la misère des classes laborieuses_ (1842),

Liv. 2. cap. 4.

VI

BARTHOLOMEU DA VENTOSA.

A quem não tem succedido nas horas de solidão, no silencio da

noite em que não póde dormir, ou no pino de dia calmoso, ao

atravessar o bosque cerrado e sombrio, onde só se ouve o zumbir

e o ferver dos insectos; a quem não tem succedido engolfar-se

n'uma vaga meditação, e, por assim dizer, tombar de pensamentos

em pensamentos, presos por fio tão tenue, tão imperceptivel para

a consciencia, que, depois dessa especie de devaneio, pretender

remontar da ultima á primeira idéa seria baldado empenho, por

falta de transições naturaes e logicas? E todavia, a alma, que,

nessa situação, como que perde o sentimento da vida externa lá

achou, no seu incessante cogitar, uma ponte invisivel para transpôr

os abysmos que a fria, coixa e orgulhosa razão humana suppõe

existirem, quasi a cada passada, no mundo da intelligencia. Quando

o espirito se desata dos corpos; quando a imaginação, depurando

o senso intimo, o faz repellir a materia, fechando-se, como a

mimosa pudica, á acção grosseira dos sentidos externos, o homem

alevanta-se até o viver de além da morte, a luz dos anjos allumia-lhe

as profundezas mais obscuras do universo ideal, e elle sabe quaes

os caminhos e valles que unem as suas cumiadas brilhantes, unicos

pontos que se podem enxergar da terra. O primeiro que disse "_em

tudo está tudo_" teve uma destas revelações da imaginação pura,

revelação completa do ideal, que não é mais do que a fusão da

variedade absoluta e infinita na infinita e absoluta unidade.

Mas estes momentos, em que somos illuminados pelo sol da vida

celestial, passam rapidos: o espirito cahe logo dentro dos limites da

sua existencia de provança e desterro, e recordando-se confusamente

daquellas inspirações passageiras, sorri-se e chama-lhes sonhos,

abusões, desvarios. É que a pobre e suberba razão, myope advogada

do lodo e do crepusculo, rejeita com horror as cogitações puras

e luminosas, que Deus faculta ás vezes ao miseravel ente, creado

quasi anjo por elle, e a quem o primeiro raciocinio que se fez

na terra converteu em insensato e precíto.

E a que vem estas metaphysicas aqui? De que utilidade são ellas

para a historia do parocho da aldeia, e da festa do orago, ha

tanto tempo interrompida, e que até agora não tem passado de

divagações por objectos sem ligação com a vida e costumes do

reverendo padre prior?--"Venha o padre prior: venha a festa--dirão

alguns--e deixemo-nos dessas metaphysicas modernas, que escorregam

por entre os dedos, e não passam de feixe de maravalhas ao pé

daquellas grandes philosophias dos ideologos, que até um sapateiro

era capaz de estudar batendo a sola e apertando o ponto; philosophia

de pão pão, queijo queijo; philosophia substancial; philosophia

d'ouvir, vêr, cheirar, gostar, e apalpar, roliça, atoucinhada,

confortativa. Se era necessario algum troço da sciencia do _atqui_ e

_ergo_ para atar estes capitulos ou capituladas da chronica aldeian,

porque não recorrer ao clarissimo Condillac, ao bis-clarissimo

Tracy? Para que parafusar em entes de razão impalpaveis, em

armadilhas que trescalam ás parvoices germanicas, quando estava

ahi á mão a philosophia do senso commum, que é o senso patagão

e russo, tupinamba e sueco, chim e dinamarquez, emfim o senso

de todo o mundo?"

Ai, leitor, que ahi bate o ponto! Quem me dera isso! Quem me dera

poder explicar por um capitulo tantos, paragrapho tantos, daquelle

sancto homem de Locke, o que me succedeu ao escrever esta famosa

historia, e lançar na balança da tua inflexivel justiça uma desculpa

de obra grossa dos meus rodeios, desvios e viravoltas na ordem e

disposição destes importantes estudos! Por mais que scismasse,

por mais que afferisse pelos bons principios ideologicos o meu

trabalho, sabia-me tudo torto: era querer levantar uma bóla com um

gancho, ou firmar a taboa-rasa do philosopho inglez sobre uma das

pontas de um dilemma. Como ageitar a minha narração deambulatoria

pelas regras do methodo? Impossivel, impossibilissimo! Fiz então

como Constantino Magno. Não achando escapula nem esperança na

religião da materia em que me crearam, fugi para a religião dos

espiritos, e por uma theoria de abstracção _subjectiva_ expliquei,

como Deus me ajudou, as minhas, aliás inexplicaveis, divagações.

Encostado a ella como a uma columna de basalto (de basalto, porque

as de marmore e de bronze estão muito safadas do uso quotidiano)

rir-me-hei do mais abalisado doutor, que venha perguntar-me qual

é a ordem logica das minhas idéas. A resposta está no que expuz:

pontes intellectuaes, invisiveis, inappreciaveis pelas regras

ordinarias do methodo; pontes que unem o branco ao preto, o circular

ao anguloso, o proximo ao remoto. Fecho-me nisto. A imaginação

que assim o fez, é porque assim devia ser: está muito bem feito,

ao menos no mundo da idealidade pura. Foi lá que eu passei de

um veneravel parocho d'aldeia, portuguez velho em costumes, em

linguagem, em crenças, vulto poetico e sancto, para um inglez

impertigado, monosyllabico, iconoclasta, libertador de pretos

alheios, escravisador de saxões e irlandezes brancos; n'uma palavra

galgei de um a outro pólo da humanidade. Foi lá, que eu pude

tombar, rolar, precipitar-me do catholicismo suave, consolador,

festivo, ameigador dos miseraveis, despresador dos poderosos

suberbos, symbolisador, no seu culto, da igualdade ante Deus,

para o anglicanismo perfumado, espartilhado, casquilho, tezo,

aristocratico, nevoento, dizimador, intolerante, enxotador dos

mendigos, camaroteiro dos templos; pude tombar, rolar, precipitar-me

do vertice brilhante, d'onde derrama a sua eterna claridade o

puro espirito do christianismo, no charco onde o mergulhou e

affogou a vontade de um tyranno devasso do seculo XVI, e a van

presumpção de sua filha, a pura, generosa, e sábia Isabel, especie

de concilio Niceno de carne e osso para o protestantismo inglez.

Dou vinte annos a todos os ideologos para explicarem por outro

systema a transição monstruosa e incomprehensivel, que fiz a

semelhante respeito nestes gravissimos estudos. Idealisei um

inglez (foi façanha!), idealisei o meu bom prior, e no mundo

da razão pura lá achei que havia entre essas existencias,

infinitamente oppostas, uma affinidade: qual, não sei eu dizer,

porque o esqueci: e ainda que me lembrasse, não saberia exprimi-lo.

Dada esta explicação aos pechosos, vamos ás promettidas duas

palavras sobre a festa.

Era um dia ardente de julho, a 27, cousa certissima para o leitor,

em consequencia das minhas profundas investigações chronologicas. O

sol ia alto: a igreja parochial, involta no manto tricolor--branco,

amarello, e vermelho--cal, ochre, rôxo-terra--parecia rir no seu

jubilo. Um moço do Bartholomeu da Ventosa, rapazote de quinze

annos, quatro mezes, vinte quatro dias, e vinte tres horas e

tres quartos completos (por ter nascido a uma segunda-feira, á

meia noite menos um quarto, de dous para tres de março) neste

grande dia do orago pilhára ao moleiro duas graças a um tempo,

a de deixar em descanço o seu tonel das Danaides, a implacavel

joeira, e a de poder assistir á festa e ouvir a missa cantada

e o sermão, em vez de ir acabar o pesado somno da madrugada á

missa das almas. Gabriel, que assim se chamava o rapaz, ou antes

_Graviel_, segundo a mais euphonica pronuncia saloia, vestiu logo

pela manhan as suas calças e jaqueta de bombazina em folha, e o

seu colete vermelho, engenhado de um do patrão a trôco de dous

mezes de soldada, calçou as botifarras novas, e enterrou o barrete

azul e encarnado na cabeça, derrubando-o para traz, e sem fazer

caso do almoço (pois era uma açorda que os anjos a comeriam)

desandou, outeiro abaixo, pela volta das sete e trinta e cinco

minutos da manhan, caminho da parochia. Via-se que um grande

negocio lhe occupava o espirito, por isso que levava os olhos

cravados no campanario, e sem fazer caso das trilhas, cortava

por entre as restevas, escorregando, aqui, nas pedras soltas,

levando-as, acolá, diante dos bicos agudos das botifarras. Chegou.

O sacristão, que estava á porta da igreja, apenas o lobrigou

poz-se a rir, porque logo entendeu o verso. Gabriel era um dos

maiores pimpões em repicar sinos que havia entre a rapaziada

do logar, mas desde que entrára para casa do tio Bartholomeu,

nunca mais puzera pés no campanario. Nos meneios, no gesto, no

olhar lhe revia a sêde, a ancia, a saudade das harmonias risonhas,

doudas, estrugidoras de um repique desenganado. Vinha tão cégo,

que só viu João Nepomuceno (assim se chamava o sacristão) quando

deu de rosto com elle. Estacou embatucado; tirou o barrete, e

começou a coçar a região occipital, olhando de revez para o

sacristão, que se encostára á hombreira, com as mãos cruzadas

atraz das costas, assobiando o _Veni Creator_.

"É-lé Graviel!--disse este por fim com um sorriso.--Você hoje

campou. O patrão é festeiro; fica o moinho a dormir! Heim? Galdére;

não é assim? Mas, cos dianhos! não sei como não vieste cá dormir.

Bota os olhos acolá para o arraial. Vês? Duas bolaxeiras, e a tia

Sezila com queijadas; e disse. Ainda nem sequer o Chico appareceu

para começar o repique. Pois para isso não é cedo, que a missa

da festa é ás dez em ponto. Já o padre Chaparro e frei José dos

Prazeres estão na sancrestia, e dizem que não tarda ahi frei

Narciso, que vem servir de mestre de ceremonias."

"Oh sô João de Permecena!--acudiu o saloio, que tornára, ao ouvir

o nome do Chico, a enterrar o barrete na cabeça, mas desta vez

á banda--com a sua licença, ha-me de perdoar: não sei o que fez

em chamar n'um dia destes aquelle jimento do Chico para tocar

os sinos. Aquillo!? Ora, deixa-me rir. Ha-de-a fazer bonita;

não tem duvida? Olhe, sempre lhe digo..."

"Não digas nada: bem sei. Mas que dianho querias tu com uma cravella

de doze que dá a menza da irmandade, e nicles? Mesmo o Chicho,

deu-me agua pela barba para o resolver. Se aquillo são uns dianhos

d'uns fonas!"

"Pois se vocemecê quer--interrompeu Gabriel, em cujos olhos se

accendia o desejo, o deleite, e a esperança--eu lá vou. Hoje o

patrão deu-me licença até ás trindades. Salto na torre, e vae

tudo raso. Toco até aquella cantiga de Lisboa, que dizem que canta

um tal Catragena em S. Calros: ... totro, trão-balão, re-pim,

piri-pim-pão."

Enthusiasmado, o moço do moleiro cantarolava, imitando os sons de

um sino, ou antes de um tacho, a musica horrendamente aleijada,

esfarrapada, assassinada do dueto de Assur e Semiramis: _La sorte

piu fiera_. Se Rossini alli chegasse de subito, ou não a conhecia,

ou enganava-se. O sacristão estava enlevado.

"Homem!--disse elle quando Gabriel parou--bom era isso: mas o

Chico está ajustado; e já agora....."

"É que o Chico é o seu padagoz: ha-me de dar licença que lho

diga, senhor João de Permecena!--interrompeu o moço do moleiro,

vendo apagar-se a luz que lhe illuminára o espirito.--Pois eu

tocava ahi a desbancar ainda por menos: bastava que me pagasse

um arratel de bolaxas e dous berimbáus."

"Eu cá não tenho padagozes, homem! Cos dianhos!--replicou o

sacristão.--Se elle não estiver aqui ás oito, dou-te a chave da

torre, e são hoje teus os sinos. Quando quizeres terás as bolaxas

e os berimbáus."

A proposta de Gabriel penetrára como um balsamo suave na alma

do sacristão: fazia a despeza com seis e meio, e economisava o

resto para a igreja, isto é, para si, como representante della.

Gabriel saltou acima do parapeito do adro e poz-se a olhar para

o lado onde morava o Chico. Batia-lhe o coração com força. Ás oito

horas devia nascer para elle um dia de gloria e contentamento, ou

de desdouro e zanguinha. Deram as oito.--"Viva!--bradou, saltando

ao terreiro, e correndo ao sacristão.--Venha!--proseguiu, lançando

mão da chave da torre com tal violencia, que João Nepomuceno

por um triz não foi a terra. Ia-lhe quebrando um dedo.

"Dianho!... Safa, alimaria! Forte doido!... Oh Graviel! Ouve cá,

Graviel! Olha que está passada a corda da garrida..."

Qual Gabriel, nem meio Gabriel! Tinha desapparecido, semelhante

a um foguete. O sacristão levantou os olhos para o campanario

e viu já as cordas a bambearem e a desembaraçarem-se, como as

tranças da nobre dama nas mãos subtis de aia geitosa. Gabriel

era, sem a menor sombra de duvida, a flor e nata da rapaziada

curiosa da aldeia.

Uma pancada retumbante e sonora no sino grande, a qual se repetiu

lentamente algumas vezes, foi como um mensageiro, despedido por

montes e valles, a annunciar um dia de repouso e folgares para

o homem do campo, curvado sob o sol ardente nas ceifas e mais

trabalhos ruraes do estio, durante os longos dias de trabalho.

Era como o romper de uma vasta symphonia. Gradualmente os outros

sinos misturaram as suas vozes argentinas com a do primeiro, e

a atmosphera esplendida vibrou ondeando em tempestade de notas

que se cruzavam, cortavam, interrompiam, luctavam em barbara

harmonia. A principio Gabriel, pausado e lento, lançava

successivamente uma ou outra mão a esta ou áquella corda: pouco

a pouco os seus movimentos tornaram-se mais rapidos, e os sons

que transudavam por todas as aberturas, pelos minimos poros da

torre, começavam a assemelhar-se ao granizo do noroeste, que de

instante a instante se torna mais espesso, ao passo que a nuvem

corre mais perpendicular. Era, por fim, um remoinho, um delirio,

uma furia sonorosa. Gabriel estava tomado de campanomania; mãos,

pés, dentes, tudo repicava. Ennovelado, como um gatinho que quer

agarrar e ao mesmo tempo repellir um dixe que colheu ás unhas,

o bom do rapaz, com os olhos faiscantes e desvairados, parecia

possesso: trepava, bracejava, careteava, tropeava, agachava-se,

torcia-se, pulava, volteava, como se estivesse recebendo por

todos os lados e a cada instante descargas electricas. Insensivel

á matinada infernal, que lhe estrepitava nos ouvidos, Gabriel

dirigia palavras de amor, d'ameaça, de incitamento aos sinos,

como se elles podessem ouvi-lo. Queria communicar-lhes o seu

ardor e enthusiasmo de dilettante; e como se o entendessem,

dir-se-hia que, no contínuo vaivem, elles oscillavam tremulos

de prazer, e tentavam desprender da pedra os braços robustos

e voarem, como as aves que tambem soltavam livremente as suas

harmonias pela amplidão dos ceus.

No fim de duas horas de lida a natureza recuperou os seus direitos.

Alagado em suor, perdido o alento, esgotados os brios e as forças,

Gabriel affrouxára pouco e pouco. A estrepitosa e horrenda caricatura

do duetto de Semiramis fôra o canto do cysne. A viveza doudejante

do repique converteu-se n'um tocar lento e solemne, que ora imitava

o dobre de finados, ora os tres signaes melancholicos que indicam

o fim do dia que expira.

Tambem era tempo. No seu banco parte dos festeiros, cubertos

de fitas e medalhas, esperavam já impacientes que o prior, o

padre Chaparro, e frei José dos Prazeres saissem da sacristia

para começar a missa. No coreto as rebecas chiavam cada vez com

odio mais figadal entre si, ao passo que os _virtuosos_ faziam

todas as diligencias possiveis para as pôr de accordo comsigo

mesmas e com os outros instrumentos. A gente, não só da aldeia,

mas tambem dos casaes e logares vizinhos, affluindo de contínuo,

enchia a igreja, e o apertão, que ía a maior, principiava a avariar

os chapeus, os schalls e os vestidos das aldeans mais opulentas,

que tinham obtido transfigurar-se horrendamente com os trajos

das peralvilhas da capital, os quaes harmonisavam tão bem com

aquelles corpos mal acepilhados e robustos, com aquelles rostos

morenos e rosados, como os instrumentos da revoltosa orchestra

se afinavam entre si.

Era um escandalo, profundo escandalo, para as beatas da freguezia,

para as almas repassadas de patriotismo saloio vêr as novidades de

vestuarios, que as corruptoras influencias de Lisboa íam exercendo

nos antigos costumes, viciados por essas escusadas louçainhas. A

honestidade das raparigas, entendiam aquellas matronas de virtude

tão solida como as suas sapatas, tinha ido por ares e ventos

involta nos farrapos das humilhadas saias de baeta vermelha, das

abandonadas roupinhns de panno azul, e das pyramidaes carapuças.

A devassidão, embrulhada nos vestidos de chita, de lan e de seda,

e mettida entre o forro dos chapeus de palha, penetrára no seio

das familias. Tudo estava perdido, e a moral ía cada vez a peior,

diziam ellas com a philosophia macissa que o judicioso Horacio já

gastava ha dous mil annos, e que é a mentira mais trivial, mais

velha e mais tola que se conhece no mundo. Nas suas reflexões

piedosas as respeitaveis decanas da aldeia esqueciam, ou antes

ignoravam, o unico motivo serio que havia para lamentar aquella

transformação. Era que esses trajos tornavam contrafeitas as

raparigas aldeians; matavam a poesia campestre; associavam ao

idyllio a walsa e o whist, e como que impregnavam a atmosphera,

pura, brilhante e livre, dos miasmas repugnantes que povoam o

ambiente pesado e abafadiço de tertulia cortesan.

Mas, antes de proseguirmos nesta gravissima historia, é necessario

que trepemos áquella encosta que fica defronte do presbyterio, e

que vejamos o que é feito de um nosso conhecimento antigo, roda

indispensavel para o andamento da machina de successos que vamos

tecendo. Quem não vê que falâmos do nosso jovial e praguejador

Bartholomeu, sancto velho, se não fosse um desalmadissimo avaro?

O moleiro, desde que o filho casára, andava-lhe tudo á medida

dos seus desejos. Era ganhar dinheiro como milho, e o futuro

da familia dos Ventosas surgia brilhante no horisonte. O Manuel

estava de feito aposentado na azenha do Ignacio Codeço, e com

uma labutação de por ahi além. As peças do padre prior tinham

feito o milagre sonhado por Bartholomeu, e ainda haviam sobejado

algumas, que o honradissimo moleiro associára ás do seu mealheiro

para arranjar o casal dos Caniços, de cuja venda já lhe dera

palavra seu irmão Barnabé, a quem elle, havia dous mezes, não

deixava de dôr d'ilharga para que lhe tornasse as suas vinte

moedas, que lhe eram indispensaveis, dizia o matreiro saloio,

para pagar uma divida contrahida com um usurario de Lisboa por

causa do casamento do seu Manuel, que se víra obrigado a arrumar.

E como Barnabé, que tambem era saloio e manhoso, lhe objectasse

que só vendendo o casal dos Caniços lh'as poderia pagar de prompto,

e que era uma de seiscentos achar comprador que désse o que elle

valia, Bartholomeu, acceso em amor fraterno, lhe declarou que

o maldicto usurario dera a entender, que, se elle Bartholomeu

tivesse umas terras que lhe empenhasse, esperaria pelo dinheiro

com quaesquer cinco por cento ao mez; que por isso, vendo-se

naquelles apertos e afflicções, faria o sacrificio de lhe tomar o

casal pelas vinte moedas e mais o que fosse justo, que iria pedir ao

mesmo usurario; porque--accrescentava elle, quasi chorando--vão-se

os anneis e fiquem os dedos. Que ficaria arrasado, e a bem dizer

a pedir esmola; porque, como elle Barnabé lhe affirmava todas as

vezes que lhe ía pedir o seu dinheiro, as excommungadas das terras

apenas davam para o fabrico. Emfim, tão despejadas mentiras pregou

ao irmão, tanto o atenazou, taes artes teve de lhe converter as

sétas em grelhas, que as bichas pegaram, e Barnabé deu o sim,

a risco de estourar os ossos á tia Vicencia, sua respeitavel

consorte, á minima pegadilha, ou de rebentar de paixão como um

satanaz alguma noite na cama, se não desabafasse daquella grande

magua com uma boa massada na mulher, consolação que para um

verdadeiro saloio é nas afflicções o supra-summum dos prós e

precalços matrimoniaes.

A Providencia temperou as cousas deste mundo de modo que se podem

symbolisar todas as felicidades delle n'uma ameixa saragoçana.

Doçuras, succo, belleza externa, sim-senhor; tudo quanto quizerem:

mas, no fim de contas, travo e mais travo ao pé do caroço. É o

que explica, pê á pá sancta Justa, a theoria das compensações

d'Azaís. Mais um caso, para mostrar as carradas de razão que Azaís

tinha na sua grande cenreira a este respeito, é o que succedeu

ao moleiro, no dia em que Barnabé acabou de se resolver sobre o

casal dos Caniços. Tinha sido justamente no dia da festa pela

manhan, que Barnabé fôra com a sua Joanna á missa das almas, e

viera pelo moinho almoçar com o irmão, que não lhe mostrou a

melhor cara a principio, mas que até mandou fazer uma fritada

de meia quarta de linguiça e tres ovos (um botou-se fóra, porque

estava gôro) quando soube ao que elle vinha. Bartholomeu não

cabia em si de contente: obrigou a sobrinha a levar atados no

avental obra de dous arrateis de farinha para fazer umas raivas,

pondo lá o assucar e os ovos, e mandando-lhe metade dellas; e

por mais que pae e filha se escusassem de acceitar o seu favor,

embirrou, e não houve torcê-lo. Estava naquelle dia capaz de

lhes dar de presente metade da sua fortuna, e mais era, dizia

elle, um pobre de Christo. Logo que se foram, Bartholomeu deitou

a correr para casa, fechou-se no seu quarto, abriu, umas após

outras, as vinte gavetas de um contador, mecheu e remecheu em

todas ellas, tornou a fechar, e fazendo contas de cabeça, começou

a passear de um para outro lado do aposento, com as mãos cruzadas

nas costas, e entregue ás suas cogitações.

Lendas e Narrativas (Tomo II) · 第 9 / 14 段