Se isto é assim, qual culto, entre os de todas as parcialidades

christans, será mais efficaz em gerar essa unidade forte do amor

patrio, que dá, não tanto a vida activa e exterior, como uma vida

intima, escondida, tenaz, que resiste á morte e á dissolução social?

Serão essas mil variações do protestantismo, que diariamente se

vão subdividindo, e condemnando umas pelas outras; essas crenças

incertas, em que o filho já despreza o culto que o pae seguiu, e

o neto desprezara o de ambos? Quando e onde, não dizemos na mesma

cidade e na mesma rua, mas na mesma familia, em quanto o marido

dorme ao som monotono do sermão anglicano, sublime de trivialidade

e tedio, a mulher dá representações de Bedlam[1] n'uma senzala de

quakers ou de methodistas, póde-se acaso dizer que ahi a religião

é laço que impeça a morte do corpo da republica, não nos dias de

ventura e prosperidade exterior, em que é facil conservar pelo

orgulho a unidade nacional, mas nas epochas de calamidade e

decadencia? Parece-nos pouco provavel. Ahi, as prisões moraes

da familia são apenas habitos humanos, e não estão harmonisadas

e sanctificadas por se prenderem no céu: o primeiro sopro das

paixões ou da desventura as reduzirá a pó. A historia tambem

no-lo diz, e a historia não é senão a prophecia do futuro.

O protestantismo accusa o catholicismo de se haver afastado da

pureza christan antiga, e gaba-se de ter revocado o christianismo

ás suas tradições primitivas. O discutir tal materia, em relação

ás doutrinas, fôra insensato: os tempos dessa argumentação

consummaram-se; tudo por este lado está dicto de parte a parte.

Quanto, porém, ás formulas exteriores do nosso culto, são essas que

ainda hoje attrahem os insulsos motejos da imprensa protestante;

é o culto catholico principalmente que dá origem áquellas graças

inglezas, tão agudas como a intelligencia dos habitantes do

_Bethnal-Green_ de Londres ou do _Winds_ de Glasgow, embrutecidos

pela fome, pela embriaguez e pela immundicie; tão brilhantes e

leves como o fumo de carvão de pedra, que constitue a atmosphera

britannica. Diariamente são accommettidas as duas nações das

Hespanhas nos seus habitos religiosos por homens que empregariam

melhor o tempo em estudar os cancros asquerosos que devoram moral

e materialmente a classe popular no seu proprio paiz, e em pedir

á riqueza, só poderosa, só respeitada, só insolente, mais alguma

caridade para com os muitos milhões dos seus compatricios, que

lidam, cheios de fome e de frio, cubertos de farrapos e vermes,

para accumularem aos pés de bem poucos homens as fortunas

incalculaveis e quasi fabulosas que alimentam o luxo desenfreado

de Londres, da Roma, ou antes da Babilonia moderna.

Por certo que no culto catholico se tem introduzido abusos, e

para isso contribue muitas vezes o proprio clero, menos instruido,

menos bem educado, moralmente, que o clero anglicano. Mas em que

é culpado o culto da pouca instrucção dos seus ministros, e dessa

falta de educação moral, que diversas causas, alheias á religião,

têm trazido e trazem ainda? É a igreja que recommenda a ignorancia?

São os abusos consequencias logicas das doutrinas catholicas? Eis

o que cumpriria se provasse, como não é difficultoso mostrar,

que o protestantismo, querendo annullar as pompas e espectaculos,

as formulas externas e brilhantes do catholicismo, matou tudo

o que a crença do Calvario tinha de uncção, de consolações, de

affectos para o commum dos seus sectarios, e converteu a religião

n'uma certa metaphysica nevoenta, que foge á comprehensão das almas

rudes e vulgares, quebrando todos os esteios, a que nesta vida de

tristezas e dores ellas se encostavam para confiarem no céu, e

consolarem-se na esperança; porque esses arrimos, necessarios á

sua fraqueza intellectual, eram o unico meio de subirem até o throno

de Deus, e descerem de lá armadas de resignação para continuarem

a luctar com as tempestades da existencia. O protestantismo foi

só feito para os ditosos e abastados da terra!

Vêde aquella casinha, tão humilde e só, no meio de um descampado.

Lá, sobre camilha dura e rota, delira em accesso febril um filho,

unico amparo da mãe idosa, que véla chorando ao pé delle. Na

sua solidão e miseria nenhuns soccorros humanos póde esperar

a pobre velha, cujas mãos trémulas em vão tentam conchegar as

roupas, que o febricitante arroja, murmurando afflicto com o

ardor que o devora. Uma lampada de ferro, que allumia frouxa o

aposento, arde no canto opposto diante de uma grosseira e affumada

imagem da Virgem. A triste mãe volve para lá os olhos embaciados

da idade e das lagrymas, e sente que não se acha inteiramente

abandonada. Alli está outra mãe que tambem derramou pranto por

um filho; pranto mil e mil vezes mais amargoso que o seu. Ella

ha-de comprehender-lhe a afflicção e valer-lhe, porque é boa, e

poderosa ante Deus. Ei-la, a pobre velha, que trôpega se arrasta,

e ajoelha aos pés da imagem, e cruza as mãos enrugadas, e ora;

ora com fé viva. Na procella de terrores que a cercam começa a

bruxulear uma luz de esperança: espera, porque crê na possibilidade

da intercessão e dos milagres; e anima-se, e a tempestade da

sua alma asserena-se, e a dor mitiga-se, porque, no meio das

lagrymas e das resas, ella pensa lá comsigo que aquella imagem

trouxe já muitas consolações a seus paes, a ella mesma, e a toda a

familia, e que a Virgem Sanctissima ha-de acudir-lhe ao seu filho,

que desde pequenino gostava de ir apanhar as flores campestres

para enfeitar a Senhora, e que tantas vezes á noite antes de se

deitar ía pôr-se de joelhos alli onde ella estava, e resar uma

salve-rainha. E quantas vezes, depois destas orações ardentes, volve

Deus olhos compassivos para a morada da miseria e da amargura, e

obra, não um milagre inutil, mas o beneficio que faria qualquer

medico, se na habitação solitaria houvesse a possibilidade de

se buscarem os soccorros da sciencia humana!

Dirá o protestantismo que isto é idolatria? Que! Ignora, acaso,

o mais grosseiro catholico que acima dessa imagem está o espirito

puro que ella representa, e que acima desse espirito está Deus? O

catholicismo no seu culto das imagens, nas suas festas, nas suas

_visualidades_, como vós lhes chamaes, commetteu o grave erro de suppôr

que a maioria do genero humano não era composta de philosophos, nem

capaz de um espiritualismo absoluto; de abstrahir inteiramente das

cousas sensiveis para remontar ao céu. O catholicismo lembrou-se

das doutrinas do Christo; accommodou-se á curta comprehensão

dos pequenos e humildes. Vós tendes um evangelho mais fidalgo

e altivo. O protestantismo convem por isso ao Reino-Unido, onde

os quatrocentos mil senhores do solo são tudo, e são nada quinze

ou vinte milhões de servos de gleba e de mendigos.

E como deixaria elle de ser exclusivo, aristocratico, orgulhoso? Essa

crença, ou antes essa infinidade de crenças, unidas só em guerrear

a igreja de dezoito seculos, e que no dia em que lhes faltasse o

inimigo commum se despedaçariam mutuamente, não podem deixar de

viver de um mysticismo perfumado, de um culto inintelligivel para

o povo. Desde que a reforma substituiu á auctoridade e á tradição

a sciencia humana, o raciocinio e a discussão, saíu do templo para

a eschola; transformou-se de fé em theoria. Então o christianismo

deixou de ser uma cousa practica e positiva para todos os homens:

os espiritos grosseiros e ignorantes acceitaram-n'o como um costume

que acharam no mundo, sem affecto nem má vontade, e as imaginações

desregradas fizeram cada qual uma religião a seu modo. Deram uma

biblia ao ganhapão, ao porcariço, ao belforinheiro, e por esse

facto constituiram-n'o theologo, sancto-padre, e até concilio.

Creram ter estendido ao genero-humano a maravilha das linguas de

fogo que desciam sobre os apostolos, e ficaram muito contentes

de si. As multidões é que ficaram tristes e desconsoladas, porque

tinham desapparecido de redor dellas todos os symbolos, todas as

imagens, que lhes serviam como de marcos miliarios para buscarem

a Deus.

Affigurae-vos, de feito, o exemplo da mãe idosa e miseravel,

que vê em transes mortaes o filho, seu unico abrigo; buscae este

exemplo ou outro qualquer, porque entre os pequenos não são raras

nem pouco variadas as occasiões de asperos infortunios. Lançae-a

no seio do protestantismo. Qual refugio lhe offerecerá a religião;

refugio immediato, solido, esperançoso? A biblia? Tambem nós

sabemos que thesouros encerra a biblia: tambem nós sabemos quantas

vezes as suas paginas divinas têm feito dilatar em torrentes de

lagrymas as negras aperturas do coração: tambem nós sabemos que

dessa fonte inexhaurivel mana a resignação e a paz: a igreja

catholica sabia-o muitos seculos antes de vós existirdes. Mas

quem vos assegura que a pobre velha achará a passagem analoga

á sua situação; que encontrará nas palavras do livro sacrosanto

o conforto de que carece, e a esperança do soccorro immediato e

sobre-humano de que não menos precisa? Quem vos assegura, emfim,

que ella saberá ler? Ou é que no paiz dos quakers a inspiração

tambem faz de mestre-eschola, como exercita o mister de mestre

de theologia?

E depois, não sabeis que a dor moral do homem do povo tem gemidos

e queixumes; é estrepitosa, delirante, sincera? que não se reporta,

não se esconde, e vem ao gesto, aos meneios, aos olhos, á voz,

como a dor physica! Julgae-la acaso semelhante ao _spleen_ do dandy,

ou ao devorar intimo e calado das almas, a quem a educação e a

sciencia ensinaram a dignidade das grandes agonias? Estes taes,

exteriormente tranquillos, podem encostar-se ao braço, fitar

os olhos no livro aberto ante si, e aspirar naquellas paginas

sublimes e profundas o halito consolador que dellas espira. Mas

para o homem do povo, quasi primitivo, quasi selvagem, cujos

olhos nadam em pranto, e que se estorce e brada flagellado pela

afflicção, a biblia é nesses instantes inutil, porque é impossivel.

Deixae-lhe a imagem do sancto, o crucifixo, o voto, o altar

domestico, a lampada accesa ante o vulto do martyr ou da Virgem:

deixae-lhe o ajoelhar, o gemer, o resar, o fazer promessas. Deixae

os symbolos materiaes da confiança na providencia á imbecilidade

da natureza humana, aliás, crendo anniquilar a superstição e a

idolatria, não fareis senão matar a vida moral e religiosa do

povo.

Se nos dias, desgraçadamente mui communs, das máguas extremas só

o catholicismo tem conforto para o homem rude, nos de contentamento

só o catholicismo tem festas que convertam para a gratidão e

para Deus o seu goso interior, que tende a trasbordar em risos

e folgares. O simples repouso do domingo, para o que, condemnado

a lavor indefesso durante a semana inteira, compra á custa de

suor e cansaço um pouco de pão duro e grosseiro, é uma alegria

semelhante á do preso, que, adormecendo em ferros, despertasse

livre. Aquelle coração precisa de dilatar-se, aquelles sentidos

de recrearem-se, aquelle espirito murcho e triste de se tornar

viçoso, de desabrochar de novo ao sol da vida, ao menos n'alguns

desses dias reservados ao descanço. É então que o catholicismo

lhe offerece as pompas das suas solemnidades; o templo illuminado,

os canticos dos sacerdotes, as harmonias do orgão, o espectaculo

brilhante das vestes sacerdotaes e dos adornos do altar, os

ramilhetes povoando os degraus do sanctuario, ou juncando o

pavimento, o incenso embalsamando a atmosphera. E como tudo isto

é para as multidões, o culto trasborda do estreito recincto e

derrama-se pelas ruas, pelas praças, pelos campos em procissões,

em cirios, em romarias, e o povo fluctua, folga, resa, tripudia,

esquece-se dos seus destinos de miseria e trabalho, ama a religião

que o consola, e voltando ás suas habituaes fadigas, leva para o

meio dellas a saudade do dia-sancto e as recordações affectuosas

da igreja.

E o protestantismo? O protestantismo despedaçou os vultos dos

sanctos, prohihiu os oragos, as procissões e as romagens: esfarrapou

alvas, casulas, amictos, pluviaes; apagou as luzes; varreu as

flores; assoprou o incenso. Fechou-se na celebração do domingo;

e fez bem! bem ao povo, a quem para tedio e tristeza, nos paizes

protestantes, sobeja o domingo. E porque fez elle isto? Foi porque

essas cousas eram superstições papistas: as imagens idolatria,

a agua benta agua lustral, as vestes sacerdotaes indecencias

ridiculas, as ceremonias visagens, a missa mentira. Passagens

de biblia e compridos sermões ficaram bastando ao culto externo,

e se alguma cousa deixaram ainda a este, poetica e attractiva,

foi o canto dos psalmos e as harmonias do orgão; porque, como

todos sabem, nas agapas dos christãos primitivos cantavam-se os

psalmos ao som do orgão!! Os protestantes são indubitavelmente

antiquarios eruditos, mas, sobretudo, logicos.

Qual foi o resultado desta reformação insensata de instituições

antigas e venerandas? Foi que o culto se tornou n'um habito machinal,

n'uma acção que se practíca na impossibilidade de se practicar

outra. A policia vigia sobre isso. Deixe ella ao domingo abrir as

lojas, os passeios, os estabelecimentos publicos, os espectaculos,

as fabricas e as officinas; deixe correr nas veias do corpo social

o sangue comprimido, e os templos dos districtos d'Inglaterra mais

fervorosos no protestantismo ficarão tão ermos como as igrejas da

Irlanda, onde o reitor préga ao sacrista o suado sermão, que ha-de

um dia, impresso, allumiar o mundo, emquanto o seu recalcitrante

rebanho, á porta do presbyterio solitario, ouve ajoelhado na rua

a missa que em altar portatil lhe diz o pobre clerigo catholico,

verdadeiro e legitimo pastor, a quem incumbe o consola-los, bem

como ao parocho protestante pertence... o que? Fazer predicas

ás paredes, e comer os dizimos, sacramento, que, de certo, o

puritanismo protestante achou n'algum alfarrabio velho ter sido

instituido por Christo!

Temos ouvido lamentar ás pessoas de boa fé excessiva, destas

que estudam as nações nas apparencias, e não na vida intima,

que o catholicismo não tome entre nós a severidade e decencia

exterior do culto anglicano; que o dia consagrado ao Senhor não

seja guardado pontualmente; que as nossas igrejas não offereçam

na celebração dos officios divinos a gravidade, o silencio, a

ordem, o aceio de um templo protestante, nas horas destinadas

á oração. No estado actual das sociedades, em que o fervor dos

primeiros tempos christãos tem esfriado, em que, tanto entre

catholicos como entre protestantes, a religião deixou de ser o

primeiro, ou, ao menos, o exclusivo negocio dos homens, o que

elles desejam seria impossivel, e se absolutamente um bem,

relativamente um grande mal; porque as causas que facilitam esse

estado de cousas em Inglaterra são a prova mais clara da morte,

se não de uma certa religião vaga, em que os espiritos mais

cultivados se alevantam até ao pé do throno de Deus, ao menos

da religião positiva, practica, definida, morta e enterrada ha

muito na mina de carvão de pedra chamada Gran-Bretanha.

Já dissemos que não é tanto o sentimento religioso que guarda em

Inglaterra a decencia do culto, como a admiravel policia ingleza.

Quem não o sabe? Quem ignora que naquelle paiz a religião tem a

natureza de outra qualquer formula material da sociedade; que

é uma cousa como o regimento, a nau de guerra, o _workhouse_? Ao

christão um vigario, uma biblia, e a cadeia se perturbar o officio

divino; ao soldado um coronel, uma espingarda, e uns açoutes se

mecher a cabeça na fórma; ao marinheiro um commodóro, um posto

juncto da amurada, e um mergulho por baixo da quilha se offender

a disciplina; ao miseravel que vae cahir no workhouse um director

implacavel, uma atafona, e ração curta para aprender a deixar-se

estalar á mingua sem pedir esmola. A cada instituição suas condições,

sua sancção penal, seus destinos: o regimento serve para provar

aos chartistas que a melhor organisação politica possivel é a

que faz morrer annualmente milhares de obreiros de fadiga, de

fome, e de febres putridas sobre uma pouca de palha fetida e

humida, no fundo de subterraneos; a nau serve para civilisar

a India pelas contribuições, e moralisar a China pelo opio; o

workhouse serve para curar radicalmente os que não têm nem pão nem

camisa, do vicio infame da mendicidade; emfim a igreja dominante

_(established church)_ serve para sustentar de dizimos muitas familias

honradas com as modestas e reformadas prebendas anglicanas, entre

as quaes nenhuma excede a vinte mil libras esterlinas _per annum_,

ou, em moeda portugueza, a obra de uns mesquinhos duzentos mil

cruzados.

O templo catholico é commummente o symbolo da completa igualdade:

lá não ha distincções, senão para os ministros do culto; e quando o

orgulho humano, que forceja sempre por invadir ainda as cousas mais

sagradas, vae ahi profanamente estender o tapete aristocratico, e

collocar sentinellas, o povo murmura, e murmura em voz alta; porque

sabe que na sociedade christan só ha um Grande e Poderoso, que é

Deus. Os nossos habitos, as nossas idéas são que o mais commodo, o

mais distincto logar no templo pertence ao que primeiro o occupou.

O catholicismo entendeu que diante da magestade do Creador os

vermes cobertos de brocado não o são menos que os vermes cobertos

de farrapos. Assim o vulgo dos fiéis precipita-se como torrente

através dos umbraes da igreja; estrepita nas lageas do pavimento

com os seus sapatos ferrados; roça com o burel grosseiro as finas

sedas dos nobres e abastados; afasta com as mãos callosas os

grupos alindados dos peralvilhos; esquece-se, emfim, dos respeitos

humanos, que se guardam, e devem guardar, cá fóra. Como, pois,

obter a ordem, as attenções, o silencio? O nosso povo é rude

e mal educado (não o gabâmos por isso; mas o vulgacho inglez

leva-lhe, em bruteza, incomparavel vantagem); o nosso povo conserva

dentro do templo os habitos ruidosos, inquietos, grosseiros da

praça publica. E poderia elle despi-los de subito ao entrar na

casa de Deus? Prova acaso o borborinho, que ahi sôa, desprezo

pela religião? Examinae os que parecem estar com menos respeito

e decencia; os que falam e se agitam: são aquelles entre os quaes

o christianismo iria achar os seus martyres, se viessem de novo os

tempos em que a crença do Crucificado precisava de ser revalidada

pelo sangue dos seguidores da cruz. Que esses pobres tontos, que

nos motejam sem nos conhecerem, venham estudar o catholicismo

portuguez, se d'isso são capazes, e saberão se nós falâmos verdade.

Nestas consequencias, tão logicas, tão rigorosas do caracter

primitivo da religião christan, e do estado das classes inferiores

da sociedade, poz cobro a igreja anglicana. É verdade que

Jesu-Christo, segundo o Evangelho, _na traducção vulgata_, chamou

principalmente os pobres e humildes; e se no templo ha quem valha

mais que outrem, não são por certo aquelles que o Filho de Deus

achava mais anchos para entrarem no reino dos céus, do que um

camello para entrar no fundo de uma agulha. A igreja reformada

entendeu provavelmente que outra era a interpretação do Evangelho;

porque é corrente que os catholicos nunca souberam grego, desde S.

Jeronymo até Angelo Policiano, ou Ayres Barbosa, para o poderem

interpretar bem. Assim, em Inglaterra, aquellas tão formosas e

vastas cathedraes da idade média, a que só falta um culto poetico

e consolador para serem sublimes, repartiram-se em camarotes de

theatro, fechados á chave, e alguns até com todos os requisitos

desse _comfort_, que só os inglezes conhecem bem. As jerarchias

do dinheiro e do sangue estão lá rigorosamente guardadas: pelo

logar dos stallos, e pelo seu luxo, os espiritos habituados á

topographia da _Church_ podem orçar o numero d'avós ou os milhares

de libras que possue cada filho da igreja anglicana: o commum

dos villãos, empurrados para ao pé da porta, lá perdem em parte

os deliciosos periodos do sermão do reitor, encarregado de

acalentar... queremos dizer de conservar puros na fé averiguada

e decretada pela grande theologa chamada a rainha Isabel, os

seus _dizimados_ freguezes.

E o vulgo? Os homens do trabalho, da fome, dos farrapos? Os tres

quartos da população ingleza? Esses? Esses lá têm o templo da

esperança e do consolo: lá tem o _gin's palace_ (palacio da genebra),

a taberna. Na sua incrivel miseria, os homens que não podem encontrar

Deus, porque a igreja anglicana lh'o collocou n'uma atmosphera

nebulosa, onde o não descortinam; porque o templo os repelle;

porque o _priest_ com seu aristocratico, polido e perfumado sermão,

não póde substituir a entidade exclusivamente catholica chamada o

missionario, sublime de persuasão, de energia e de virgem rudeza;

os miseraveis, dizemos, atiram-se desorientados aos braços da

embriaguez, porque a embriaguez tem o esquecimento, tem a sua

horrivel alegria. Lá, no _gin's shop_, estendendo o braço cadaverico

e vacillante para a destruidora bebida, sorvendo-a com phrenesi,

essa especie de brutos com fórma humana resumem no seu aspecto

e meneios, e na decadencia de todos os sentimentos de pudor,

as ultimas consequencias moraes do protestantismo.

Que nos seja permittido citar as proprias palavras de um escriptor

moderno[2], que, melhor talvez que ninguem, pintou o estado presente

das ultimas classes em Inglaterra, e que em todos os factos que

narra se funda ou nas proprias observações, ou nos documentos

officiaes publicados pelo governo inglez. Perfeitamente imparcial

a respeito da Gran-Bretanha, o seu testemunho é o que mais a

proposito podemos neste ponto invocar.

"A seriedade e o silencio com que este licôr ardente (a genebra)

é tragado, fazem arripiar. É como se o povo assistisse a um officio

divino. Consummado o sacrificio, vão-se assentando no banco de

madeira corrido em frente do balcão, e alli ficam quedos, mudos,

como arrebatados em ineffavel extasi. Depois, passados alguns

minutos, voltam ao balcão, tornam a beber, e repetem até se lhes

acabar o dinheiro. Vae-se assim a ultima mealha. E têm animo

de affrontarem o morrer de fome, elles e seus filhos, para se

embriagarem. Provou-se pelos inqueritos feitos por causa da lei

dos pobres, que as esmolas em dinheiro, dadas pelas parochias,

íam cahir inteiras na taberna, e só aproveitavam ao taberneiro.

_A povoação infima da Inglaterra está de tal modo atolada no seu

lodaçal, que não ha ahi caridade que possa desempega-la._"

"Sabem todos quão rigoroso preceito ecclesiastico e civil é o

guardar o domingo em Inglaterra. A unica excepção da regra é a

taberna. Lojas, tudo fechado; logares de honesto ou instructivo

recreio, como hortos botanicos e museus, o mesmo. Só o _gin's shop_

se abrirá de par em par a quem empurrar a porta com o pé. O caso

está em que pareça cerrada: duas meias portas solidas, que se fechem

por si, fazem a festa: janellas fechadas: dentro lusco-fusco,

como em sanctuario, e até sua luz de gaz. Tomadas estas cautelas,

plena licença, licença auctorisada para se venderem bebidas todo

o dia sem lhe faltar hora. E é neste paiz que os caminhos de

ferro estão devolutos por todo o tempo do officio divino, em

honra do domingo! Emquanto, em Manchester, eu me espantava das

largas que se davam ás tabernas, apresentava-se á camara dos

Lords um bill para prohibir o transporte das mercadorias pelos

canaes no sagrado dia do domingo! Nesta cidade de Manchester ha

jardins zoologicos e botanicos, que o povo frequenta gostoso; mas

não se obtem da pontualidade anglicana que estejam patentes no dia

sancto; e os bispos, tão escrupulosos no mais, são indifferentes

pelo que toca aos _gin's shops_, abertos publicamente e frequentados

ao domingo. Não é singular que a cousa unica permittida ao povo

seja o embriagar-se?"

Não!--diriamos nós ao auctor do excellente livro que havemos

citado.--O governo e a igreja da Gran-Bretanha sabem que entre a

horrivel miseria das classes laboriosas, a embriaguez e o suicidio

não ha uma quarta cousa para suavisar a agonia dos tractos que a

primeira dá ao homem do povo. A religião, que falava aos sentidos

do vulgacho, e por meio delles ao seu espirito, mataram-n'a;

e como a morte não tem remedio, o protestantismo, creança de

dous dias, mas já sem vigor e esfalfada, encommenda á religião

das pipas o salvar os malaventurados obreiros, não do suicidio

moral, mas ao menos do physico.

Lendas e Narrativas (Tomo II) · 第 8 / 14 段