Os adornos ou guarnição do quarto consistiam em um leito de casados

de pau-sancto de pés torneados e cabeceira redonda, thalamo nupcial,

agora enluctado pela sempre chorada morte da tia Genoveva da

Ventosa, mãe de Manuel da Ventosa, e mulher que fôra do honrado

Bartholomeu da Ventosa, que, para falar como os poetas, solitaria

rolla (ou rollo ou rolho) naquelle ninho silencioso se encouchava

triste nas longas noites de inverno, ai, outr'ora tão felizes! O

contador ficava defronte, e ao lado um bofete, e sobre o bofete

um oratorio forrado de damasco amarello com sanefa encarnada. Sete

sanctos povoavam o larario da defuncta moleira: S. Servulo, Sancto

Onofre, S. Miguel, S. Sebastião, S. Gregorio, Sancto Antonio, e

S. João Baptista; este ultimo no centro e em peanha mais elevada;

Sancto Antonio á sua direita, com um cordão de ouro lançado ao

pescoço e dando multas voltas ao redor do corpo. Como supplemento,

por cima da cabeceira da cama, uma lamina da Senhora da Conceição,

e dous registos, um de Sancta Barbara, outro de Sancta Rita; no

tardoz da porta uma cruz de S. Lazaro pregada com massa. Uma arca

da India, com ferrolho de correr e pregaria de grandes cabeças

chatas de duas pollegadas de diametro, e quatro cadeiras de costas

e assentos de couro lavrado completavam a mobilia do aposento. No

canto do bofete, quasi á borda, estavam cravados um cruzado-novo

e um tostão falsos, memorias dolorosas de um mono que pregára

certo padeiro de Lisboa ao moleiro, na compra de uns saccos de

farinha, historia, que, se eu a contasse, havia de fazer arripiar

o pello aos leitores mais do que as novellas de Anna Radcliffe.

"Dez centos de mil réis! Chumba-lhe!"--dizia o velho esfregando

as mãos, como um botecudo esfrega dous páus de que quer tirar

lume, e passeando com passos curtos e rapidos de um para outro

lado.--"É isso! cem peças, sete centos e meio; quatrocentos pintos,

dous centos menos oito; fazem nove centos e meio menos oito:

duzentas cravellas de doze, meio cento menos dous: oito e dous

dez: dez centos menos dez: oitenta de seis fazem duas moedas:

duas moedas dez mil réis menos um cruzado: oito meios tostões

quatro tostões: quatro tostões com ... justamente, dez centos.

Ah sô Barnabé, quer setecentos? Heim? Com vinte moedas que já

lá andam a juro, parece-me....! Quer ou não quer?"--"Homem, isso

é muito pouco..."--"Pouco?! E doze moedas foro?"--"As terras dão

bem para isso: só a Abrunhosa..."--"Pois se dão, homem, paga-me

as vinte moedas. Ah, embatucas? Oh, oh, ih, ih, ih!.."

E Bartholomeu ria a bom rir daquelle dialogo que phantasiava

travar como irmão. De repente, porém, as feições contrahidas

pelo riso se lhe immobilisaram diante de uma idéa fatal. Barnabé

podia dar com a lingua nos dentes ácerca do negocio, n'alguma

noite em que fosse para a tenda do Agostinho jogar a bisca a

vinho, segundo o seu costume, e sair um atravessador a picar-lhe

o lanço; o Bento Rabixa, por exemplo, que tinha muito caroço, e

que era um dos da tripeça da bisca. Vinham-lhe calafrios com tal

pensamento. Uma palavra, uma allusão perderia, talvez, tudo. Era

verdadeira agonia a sua. Costumado a implorar o céu nas grandes

afflicções, Bartholomeu por uma daquellas subtilezas moraes dos

avaros, que sabem conciliar a devoção com o seu vicio hediondo,

ajoelhou diante do oratorio, e com lagrymas e fervorosas suplicas

começou a pedir a S. João Baptista fizesse com que Barnabé não

tugisse nem mugisse a similhante respeito. Nas suas orações

passou-lhe, talvez, pela cabeça a idéa de um estupor na lingua

de Barnabé. Desconfio: não o affirmo; porque não gósto de cousas

dictas no ar. O que é certo é que procurou dar a entender ao

sancto que teria duas vélas accesas e uma esmola para a sua festa,

se as cousas lhe saissem a geito, exprimindo-se, todavia, por

tal arte que não ficasse absolutamente preso pela palavra, e

podesse roer a corda depois de se pilhar servido.

Em quanto o moleiro se debatia nestas tempestades de ambição,

passava-se no presbyterio a scena que já descrevi entre João

Nepomuceno e Gabriel. A principio Bartholomeu, embebido nos seus

calculos, temores e rogativas, nem sequer ouvíra os repiques

variados e harmonicos, com que o rapaz do moinho rompêra o seu

grande e festivo concerto; mas pouco a pouco o motim dos sinos

crescêra a ponto, que só os defunctos do cemiterio poderiam ficar

indifferentes a tão retumbantes bellezas musicaes. Na aldeia já

ninguem se entendia no meio dessa procella de sons, que, trepando

pelos outeiros ao redor, e precipitando-se para os valles além,

iam levar o ruido da festa e a gloria de S. Pantaleão ás povoações

vizinhas. Penetrando pelos ouvidos do moleiro, aquellas vibrações

desalmadas fizeram-n'o despertar do extasi de sovinaria devota

que o arrebatava. Ergueu-se, chegou-se á janella, alçou a adufa,

poz-se a mirar o relogio de sol do campanario, piscando os olhos

e fazendo com a mão uma especie de pala para os defender da luz,

e depois de se affirmar por um pedaço, deixando cahir de golpe a

adufa, correu á arca, murmurando:--"nove horas! Já mais de nove

horas! Esta só por trezentos milheiros de diabos! E ainda tenho

de me vestir! Com seiscentos diabos! D'aqui a nada estão lá os

outros. Ora o diabo!.."

Estas imprecações em razão descendente, que o moleiro tinha sempre

na bôca por um mau habito, que todas as prégações e remoques

do padre prior não haviam podido fazer perder áquella lingua

damnada de Bartholomeu, nasciam de uma circumstancia na verdade

séria. A funcção d'igreja devia de começar ás dez horas, e elle

era um dos festeiros. O padre prior tantas voltas dera que o

obrigára a sê-lo, e a esportular uma moeda para as despezas.

Devemos acreditar que nunca o teria alcançado, se não fosse o dote

de Bernardina, sobre o que o moleiro tremia que o velho clerigo

deixasse escapar alguma palavra. Elle aproveitára habilmente o

caso para passar por bom pae e generoso, e ao mesmo tempo para

se esquivar ao menor acto de beneficencia o resto da sua vida,

affirmando que se empenhára até os olhos para comprar e reparar

a azenha do Ignacio Codeço e estabelecer lá o seu rapaz, quando

a verdade era que, comprada e reparada a azenha, posta a casa

aos noivos, adquiridos seis machos, paga a soldada de tres mezes

a dous moços, provída a dispensa, e deixadas algumas moedas para

as despezas diarias, ainda um certo numero de louras do padre

prior tinham ido cahir, como já disse, no escaninho onde jaziam

sem ver sol nem lua aquellas que o moleiro acabava de contar.

Obrigado por semelhante consideração, e á força de rogativas

do parocho e das picuinhas de outros irmãos da Irmandade do

Sanctissimo, que se tinham mettido no negocio, o moleiro achava-se

elevado a uma situação que estava longe de ambicionar. Perdida a

moeda, que elle havia de chorar toda a sua vida, importava-lhe

não perder a consideração e valia na festa, que por tão alto e

raivado preço comprára; era o risco que via imminente, ao menos

em parte, se não estivesse a ponto de saír da sacristia para a

capella-mór no prestito dos festeiros.

O dia começára bem; mas ía-se tornando aziago.

Apesar de velho, curto e barrigudo, o moleiro, não vendo nenhum

outro meio de esquivar o contratempo que receiava, apressou-se o

mais que pôde em se adornar com o aceio e pontualidade que requeria

o acto. Do fundo da arca saíu o arsenal completo para os dias de

vêr a Deus. Era respeitavel pela antiguidade! Monumentos de mais

felizes epochas, os arreios esplendidos de Bartholomeu constavam

de uns calções de gorgorão côr de tabaco, de um colete de veludo

verde, e de uma casaca azul de abas largas e gola estreita (isto

passava ha bem dezoito annos) antipoda da casaca peralvilha dos

casquilhos daquelle tempo. As menudencias do trajo diplomatico

do moleiro compunham-se de um chapéu armado, de um pescocinho

com bofes, de umas meias de algodão brancas, e d'uns sapatos

de entrada abaixo, ensebados de novo, com fivelas de prata, que

batiam quasi na vira de um e outro lado. Assim vestido era um

principe. Não; que lá isso é verdade; mettia respeito! Apressado,

vermelho, suando com a calma, bufava como um touro encaminhando-se

para a igreja. Os moços dos seus collegas, os de tres padeiros

que havia no logar, e os de cinco lavradores a quem costumava

comprar os trigos, passando por elle desbarretavam-se até baixo;

a outra saloiada, espécada pelo arraial, fazia menção de cortezia

com o barrete: dos mendigos que começavam a apinhar-se para o lado

do presbyterio ao cheiro do bodo, uns, que não o conheciam por

virem de longe, estendiam-lhe a mão e davam-lhe senhorias, tudo em

vão; outros, que eram dos arredores, rosnavam e praguejavam-no.

Mas dessas rosnaduras e pragas ria-se elle. Na auréola de gloria

que o cercava já, que o ía cercar ainda maís brilhante, Bartholomeu

estava tanto acima da maledicencia daquelles madraços, como os

homens d'estado de qualquer partido costumam estar acima das

ferretoadas, sovinadas e lambadas da imprensa periodica do partido

contrario, segundo affirmam os da sua parcialidade: _vide_ jornaes

de todas as côres e cambiantes, _passim_. Como os politicos, o

moleiro podia dizer, pondo a mão no coração--a minha consciencia--a

minha honra--a opinião publica--os meus serviços--a nação--a

posteridade:--e depois tossir e escarrar grosso, e seguir ávante

sem se embaraçar com aquelle rosnatorio despeitoso e zangado;

porque, como bem disse um poeta de philosophia ancha:

O premio da virtude é a virtude:

O castigo do vicio o proprio vicio.

E foi o que Bartholomeu fez: e com razão. Não eram os respeitos

dos moços dos outros moleiros e dos lavradores seus freguezes,

e os dos pobres que o avaliavam pelo secio dos trajos, a prova

cabal e indestructivel da sua popularidade? Eram. Que caso devia,

pois, fazer dos zums-zums de meia duzia de farrapilhas? Nenhum.

Eu cá, pelo menos, sou de opinião que fez bem proseguindo no

seu caminho, tranquillo com o testemunho de uma voz intima, que

o certificava de que era um homem de importancia, e digno por

todos os titulos de representar o papel de festeiro a que fôra

chamado.

Mas a nobre altivez do moleiro, e a firmeza que mostrára para

não deslizar um apice do caracter grave e sobranceiro, proprio da

sua situação, tinham de ser postas a mais dura prova. O momento

em que chegou ao adro foi aziago. Ahi viu e ouviu cousas que o

fizeram saír da gravidade e compostura que até então guardára.

O que o negocio deu de si vê-lo-ha o leitor no proseguimento

desta historia, que poderá ter mil defeitos, mas que (não é por

me gabar) tenho levado com toda a pontualidade na chronologia e

na averiguação dos mais miudos factos que possam illustra-la.

* * * * *

VII

TANTAENE ANIMIS?

Quando Bartholomeu ía entrando no adro viu um taful e uma senhora,

que, á porta da igreja, forcejavam para romper a pinha de povo,

que a obstruia. Vistos assim pelas costas, pareciam pessoas de

conta. Trajava ella um vestido de seda preta, um grande schall

vermelho e um chapéu, franzido á ingleza, côr de café: elle calça

e casaca preta da moda e chapéu fino, posto que já amarrotado

pelos apertões da saloiada, que, fingindo quererem abrir caminho

ao elegante par, cada vez se uniam mais, olhando uns para os

outros com aquelle sorriso de socapa e malevolo, que é peculiar

aos camponios quando colhem algum individuo, cujo porte e apparencia

os humilha, para victima das suas graças e perrarias um pouco

abrutadas.

O moleiro tinha nascido naquelles sitios, nunca dormíra uma noite

fóra do logar, lidava com muita gente em consequencia do seu

trafego, ía-lhe já a neve pela serra, e por isso conhecia

perfeitamente os habitos, propensões e manhas dos seus patricios.

Percebeu logo que os saloios estavam de embirração com as duas

personagens cortesans, e desenganou-se de todo vendo vir do lado

da igreja um dos moços do Agostinho da tenda, que, fingindo-se

bebado e cambaleando, dizia:--cresça o monte, rapazes; cresça

o monte!

O magnetismo animal é um mysterio ainda: a extensão das affinidades

magneticas ninguem a póde demarcar. De homem para homem ellas são

indubitaveis; mas, porventura, vão mais longe. Ao menos eu creio

que os calções, a casaca e o chapéu armado do moleiro actuavam

fortemente no seu espirito por influencia occulta. Sentia no

coração uma especie de cocegas aristocraticas; uma vontade de

mostrar o que podia e valia aos nobres hospedes da sua terra,

que, pretendendo assistir á festa, se collocavam naturalmente

debaixo da sua protecção como festeiro. Era esta uma idéa que não

lhe viria á cabeça quando trajava os seus calções enfarinhados,

o seu colete assertoado e a sua jaqueta de saragoça. Mas veio-lhe

então, mysteriosa, irreflectida, forçosa, posto que sem quebra

da liberdade de a rejeitar, semelhante, se a comparação fosse

licita, á graça efficaz. Approximou-se, pois, abrindo passagem

por entre a turbamulta. O primeiro individuo com quem topou em

cheio foi com Gabriel, que, tendo saído do campanario, tractava

tambem de penetrar na igreja para ajustar contas com o sacristão

logo que se lhe offerecesse ensejo. Para aproveitar o tempo,

Gabriel, informado do que se passava, ía ajudando a augmentar o

apertão, que crescia cada vez mais, de modo que a dama do schall

e o dandy de preto, entalados juncto do guardavento, nem podiam

recuar nem surdir ávante. Apesar, porém, da pequenez do seu corpo,

Gabriel parecia ter de olho as duas victimas, como receioso de

que voltando a cabeça o lobrigassem. Careteava, ria, empurrava

com alma; mas, de instante a instante, punha-se nos bicos dos

pés, espreitava por cima dos hombros e por entre as cabeças dos

vizinhos, agachava-se ao menor movimento que via fazer aos dous,

tornava a empurrar, e nesta lida o garoto renovava, incansavel

em novo combate, as façanhas que, havia pouco, practicára no

sempre memorando repique.

"Mariola!--rosnou colerico o moleiro por entre os dentes cerrados,

ao chegar ao apertão e agarrando de subito as orelhas de Gabriel,

que, com uma cara onde assomava o chôro, encolhia a cabeça entre

os hombros, mal comparado, como um caracol quando lhe puxam os

tentaculos. Não tanto pela voz, como pelo contacto das mãos, assaz

conhecidas daquellas pobres orelhas, Gabriel sentíra o patrão.

Era, todavia, já tarde.

"Mariola!"--repetiu Bartholomeu com o mesmo grito mal sopeado de

colera. E ouviu-se o tinir duvidoso de uma fivela acompanhado

de um som baço, como quem dissera o do bico de um sapato grosso

batendo sobre uma pouca de bombazina estofada de certa porção

convexa de carne humana. Gabriel descreveu com o corpo um arco,

mas no sentido inverso ao de quem faz cortezia profunda. E começou

a soluçar.

"Mariola!"--accrescentou ainda outra vez o moleiro, com aquelle

fatal rugido, que significava o seu profundo despeito. Ao dicto

seguiu-se rapidamente o feito. Largou as orelhas do rapaz: recuou

o braço, cerrou o punho, e desfechou-lhe tal murro no toutiço,

que Gabriel foi ao chão.

A principio, uma certa contemplação com a idade, com o caracter,

e mais que tudo com a fama de ricaço de que Bartholomeu gosava,

conteve os murmurios dos poucos, a quem as diligencias communs

para penetrar na igreja haviam consentido attender ao duro castigo

que convertêra Gabriel n'um como bode emissario dos peccados

de muitos. Quando, porém, o mesquinho rapaz cahiu em terra, a

indignação dos seus co-réus rebentou. O moço do Agostinho, posto

que a medo, alevantou a antiphona.

"Tambem é bater á bruta! Agora, a prove creança fez-lhe algum

mal?! Vá bater assim no diabo. Olha não matasse aquelles

milordens!..."

"Entre, sô doutor!--atalhou Bartholomeu, atirando umas escorralhas

de pontapé, que ainda lhe titilavam nos tendões da perna direita,

ao limite inferior das vertebras de Gabriel, já que não podia sem

risco applica-las ao orador. Essa fôra, todavia, a sua primeira

inspiração.

"Ai, é para isso que uma mãe cria um filho! Coitadinho, já não

tens pae! Não fôras tu orfo e prove. Mas cal-te, bôca. A gente

sempre vê coisas!"

Ouvindo estas palavras, proferidas por uma voz feminina conhecida,

o velho moleiro voltou-se. Era a senhora Perpetua Rosa, que, em

companhia da ama do prior, tinha chegado naquelle instante a

mata-cavallo, por se havêrem ambas entretido a examinar umas

meadas, que a tia Jeronyma dera a curar á lavadeira, e que esta,

vindo para a festa, de caminho lhe fôra entregar. Posto que ligados

até certo ponto pelo casamento de seus filhos, a mutua má vontade

da lavadeira e do moleiro, alimentada por largo tempo, tinha sido

como o escalracho: cada anno profundara mais um palmo de raizes.

Só havia uma differença, e era que Perpetua Rosa, protegida pelo

genro, perdêra pouco a pouco o medo que tomára a Bartholomeu

desde aquella historia das saccas, e já se engrifava para elle

sem cerimonia. Encontrando-se ás vezes na azenha, nem uma só

deixavam de se travar de razões por qualquer palha podre. De

resto, tractavam-se com apparente cordialidade. Era como a alliança

e sympathia actual entre a França e a Inglaterra.

"Pois não, sua lambisgoia!"--acudiu o moleiro fazendo-se

vermelho.--"Acha você muito bonito que meia duzia de patifes estejam

judiando com as pessoas que querem entrar na igreja? Com um

quarteirão de diabos! Quem dá o pão dá o ensino; e este, pelo

menos, hei-de eu ensina-lo!... Rosna p'ra ahi, pedaço de bruxa

velha:"--accrescentou elle, vendo que Perpetua Rosa continuava

a resmonear, já com acompanhamento de--"tem razão, tia Perpetua!"

--"olha o maluco!"--"se queres vêr o villão mette-lhe a vara na

mão!"--"é agora o senhor assaluto!"--Era uma tempestade eminente:

era a revolta eterna do pobre contra o abastado, que resfolga

pelo minimo respiradouro. E o sussurro crescia, e Bartholomeu,

suffocado pela raiva, batia o pé, e debalde tentava cuspir por

cima daquella quasi algazarra as pragas, as injurias, as ameaças,

que lhe faziam maior entupimento na garganta do que pão de cevada

faria em goellas de peralvilho dengoso. Vingava-se, é verdade, em

servir de couces e cachações o misero Gabriel, que se lhe

reboleava aos pés; mas isto não era mais que botar lenha ao forno,

e augmentar cada vez mais o tumulto. A hirta mó de saloios ao pé

do guardavento tornava-se mais flexivel, ondeava, alargava-se,

dissolvia-se, e vinha agglomerar-se de novo em volta de Bartholomeu,

curiosos de indagarem o motivo daquella assuada. Falavam todos a um

tempo; já no meio do borborinho ninguem se entendia; e, apesar da

colera e da sua habitual firmeza, o moleiro começava a titubear.

Na furia em que estava incendido contra Perpetua Rosa, contra a

ama do prior, que tambem tinha desembainhado a lingua em defesa

de Gabriel, e contra outras duas velhas do logar, que ajudavam a

atenaza-lo, Bartholomeu não reparou que o taful, por cuja causa

se mettêra naquella nora, forcejava por chegar ao pé delle. Por

fim, foi a propria Perpetua Rosa que o fez attentar por isso.

"Venha, Manuel, venha cá: olhe a figura que está fazendo seu pae.

Forte toirão! Abrenuncio!"

A isto o moleiro alçou os olhos para aquella parte, e viu...

Quem havia elle de vêr? O seu Manuel, que, com effeito, rompia

por entre a turba approximando-se, seguido de Bernardina, que

lá de longe fazia esgares e visagens á senhora Perpetua Rosa

e á tia Jeronyma para que se calassem. Os dous tafues, os dous

_milordens_, os dous fidalgos, por quem Bartholomeu affrontava

as iras populares, eram nem mais nem menos que seu filho e sua

nora. Ficou parvo. O luxo dos noivos fez-lhe esquecer Gabriel, as

velhas, as injurias, tudo. Como o corpo electrisado pelo contacto

da resina, que é repellido chegando-o de novo a ella, e desembésta

para o vidro se lh'o approximam, a sanhuda indignação do moleiro

nordesteou para as novas victimas. Cingiu involuntariamente as

algibeiras com as mãos; porque cada uma dellas se lhe figurou

convertida n'um repuxo de cruzados novos, que, descrevendo uma

curva parabolica, íam cahir nos balcões dos arruamentos de Lisboa.

Depois, fincando os punhos cerrados nos vazios, e meneando a cabeça

de um para o outro lado, poder-se-hia comparar ao oceano nos

momentos que precedem a tempestade, quando as vagas, profundamente

revoltas, ainda se não encrespam em carneiradas, mas banzam como

somnolentas e espertando-se para o combate.

Passa a França pela terra classica da galanteria: parece que

o bello-sexo tem alli o seu throno. Nesse ponto cedem a palma

aos francezes os outros povos. Dizem-no todos; mas eu digo que

não. Vence-os esta namorada terra de Portugal. Os nossos affectos

serão menos ruidosos, menos rendidos; são, porém, mais ardentes e

duradouros. Se as phrases d'uma lingua podem muitas vezes servir

para revelar o caracter, os costumes e até a historia da nação

que a fala, a nossa lingua e a franceza nos offerecem argumento

da existencia dessa superioridade do coração, pela qual eu ponho,

não digo a cabeça, mas quasi. E senão, respondam-me. Que incendio

seria maior; aquelle que precisasse de um anno para amortecer

e extinguir-se, ou o que durasse apenas um mez?

Indubitavelmente o primeiro. Bellamente. Venhamos agora á hypothese.

O matrimonio é de sua natureza resfriativo: a paixão mais violenta

acalma, entibia-se, entisica, e morre com o tracto domestico;

e feliz se póde chamar a união em que a amizade e a estima vem

substituir os sonhos e os delirios de um amor já saciado. Ha,

todavia, um periodo em que, apesar de satisfeito, elle resiste

ainda: é durante o lento desabar das illusões, que vão cahindo

peça a peça. Nesse periodo ainda aos casados cabe o nome poetico

de amantes: depois é que se chamam a cousa mais prosaica e positiva

que se conhece no mundo; chamam-se marido e mulher. Esta epocha

transitoria tem a sua formula diversa segundo as diversas linguas.

Exprime-a em francez a phrase _lua de mel_: o portuguez diz _anno

de noivos_. É claro que em Portugal resiste o amor ao matrimonio

doze vezes mais que em França. Lá um mez; cá um anno. Fiquem

as raparigas de aviso: nada de amores com estrangeiros. Se em

França n'um mez colhem todo o fructo da victoria, que será por

essas terras de Christo mais geladas e nevoentas? Eu, por mim,

façam lá o que quizerem. Lavo d'ahi minhas mãos.

Bernardina, essa é que a dera em cheio casando com o Manuel da

Ventosa. Aos quatro mezes de noivo era ainda um baboso por ella.

No principio de julho ajustára contas com os freguezes da azenha,

e recebêra algumas moedas: a festa da aldeia estava proxima:

Bernardina morria por tafularia; o moço moleiro tambem não lhe era

avesso. Tinham o vicio instinctivo da gente moça, vicio legitimo,

se em vicios se póde dar legitimidade. Duas forças arrastavam,

pois, o pobre Manuel da Ventosa: o amor, e a propria inclinação.

D. Thomazia, irman do mestre eschola da aldeia (se Deus me der

vida e saude, ainda talvez um dia conte a historia do digno

professor) vivêra na côrte muitos annos com o sabio mano. Nisto

de modas falava que nem um livro. Quando ía por acaso a Lisboa,

nunca deixava de visitar duas ou tres modistas suas conhecidas,

de maneira que, por assim dizer, andava sempre ao par da sciencia.

Foi n'um aposento interior, no sancta sanctorum da residencia

magistral, que se traçou, discutiu, e resolveu a conspiração,

que devia baralhar os calculos de Bartholomeu sobre as maquias

da azenha naquelle semestre. Seis moedas foram ali barbaramente

espatifadas. Foi um orçamento perfeito: talhou-se por cima da

risca do necessario, e gastou-se: gastou-se d'ahi a poucos dias até

o ultimo real, já se sabe, com severissimas economias, ficando-se

devendo apenas uns tres mil e seiscentos a D. Margarida, famosa

modista daquelle tempo. A campanha fez-se do modo seguinte: Manuel

da Ventosa acompanhou D. Thomazia a Lisboa, para umas compras de

certos arranjos domesticos, de que ella dizia muito carecer. Os

arranjos eram os da fatal conspiração contra o velho Bartholomeu.

Os trances d'esperança e de receio do bom ou mau desempenho de D.

Thomazia, por que passou Bernardina em quanto os dous não voltaram,

não cabe no possivel narra-los. Apesar d'isso, a elegancia com

que se imaginava trajada e o seu homem, namorava-a de si mesma,

e dobradamente delle. Chegava a ter ciumes das olhaduras que

deitariam ao Manuel as outras raparigas, sem que por isso deixasse

de admittir com certa complacencia innocente a idéa do quanto a

haviam de achar attractiva os rapazes da aldeia. Emfim, é aqui

o caso de dizer com o poeta, ácerca do que se passava no coração

da moleira,

"Melhor é exp'rimenta-lo que julga-lo;

Mas julgue-o quem não póde exp'rimenta-lo."

Lendas e Narrativas (Tomo II) · 第 10 / 14 段