S. Pantaleão era, como disse, o orago da freguezia aldeian, cujos

habitantes mais conspicuos o leitor já conhece, e por via dos

quaes o puz em contacto com as differentes classes de que se

compunha aquelle mundozinho, ou, para melhor dizer, e falar de

modo que não me entendam, aquelle _microcosmo_. Esse grecismo

expremeu-mo do espirito S. Pantaleão, que, conforme o que bem

pondera a folhinha, foi medico, e os medicos finam-se por grego.

O padre prior e o sacristão representam a igreja espiritual e

materialmente, o Agostinho da tenda o commercio, o Barnabé a

agricultura, a senhora Perpetua Rosa a industria, e finalmente

o honrado Bartholomeu da Ventosa representa nos seus sonhos a

industria-agricola, ou a agricultura-industrial, genero de existencia

lembrado pelos economistas da Alemanha para salvar as classes

laboriosas do horrivel futuro com que as ameaça o vapor; porque

se ha-de advertir que alguns restos de prudencia e juizo que

ainda havia cá por esta nossa Europa varreu-os Deus para aquelle

canto do mundo, a que nós chamamos a terra das theorias e das

chimeras; nós os homens do meio dia, que fazemos phalansterios

e não sei quantas mais comedias politicas capazes de fazer rir...

quem direi eu? O proprio mirradissimo S. Pantaleão da cidade

eterna.

Eterna, entenda-se, até que o primeiro cometa venha embrulhar

na cauda este nosso _microcosmo_ tão caturra e parvo chamado o

orbe terraqueo.

Celebra-se a festa de S. Pantaleão a vinte-sete de julho; data

preciosa e averiguada por mim em largas vigilias, consumidas

em revolver breviarios, antiphonarios, legendarios, missaes,

sanctoraes, e livros historiaes, na phrase daquelle grande rhetorico

Gomes Eannes. Está a folhinha pontualissima; podem acreditar-me!

Celebrou-se, celebra-se e ha-de celebrar-se a festa de S. Pantaleão,

o bemaventurado physico, todos os vinte-sete de julho, até a

consummação dos seculos; salvo o caso de ninguem se lembrar d'aqui

a cem ou duzentos annos de que existiu no mundo o meu rico sancto;

mas espero tal não aconteça ficando lançada a sua memoria nestas

paginas, ás quaes incontestavelmente pertence a immortalidade.

"Mas--acudirão os leitores--que nos importa a nós que essa

commemoração seja a vinte-sete ou a vinte-oito: seja em julho ou

em dezembro? Vamos á festa, e deixemo-nos de historias."--Devagar,

devagar! É justamente porque isto é uma historia grave, sisuda,

erudita, que eu não me havia de metter abrutadamente na narração, sem

deixar averiguada, esmiuçada e fixada a data precisa e irrecusavel

do meu _recontamento_. Sabem o que é uma data? Uma data é, depois de

uma questão de orthographia, do talho e feitura de uma judia, a que

os nossos velhos chamavam uma aljuba, e depois de um phalansterio, a

que os dictos velhos chamariam uma sandice, a cousa mais importante

que conheço neste valle de lagrymas. No caso presente, supponhamos

que eu fosse um cabeça de vento, que atirasse com S. Pantaleão

para vinte-sete de dezembro. Ficavamos aceiados; não tem duvida!

Ahi se me ía metter a segunda oitava do Natal com o meu sancto

martyr; e eu a querer revestir o padre prior para a missa cantada

e a vêr-me doudo na escolha da vestimenta. Vermelho? Saltava-me

a canzoada dos criticos:--Fóra ignorantão! Vermelho na segunda

oitava da Natividade!? Vae ler o Claudio de Vert, alarve! vae ler

o Campello, o Gavanto, o Lambertini."--Atarantado com a grita,

atirava-me ao gavetão da vestimenta branca. Peior! Vinha-me outra

surriada de sotavento:--Olha a alimaria! Não querem ver? A um

martyr vestimenta branca! Hypocrita! que nos anda aqui a prégar

sermões a favor dos padres e dos frades, e ainda não sabe qual é

a sua vestimenta direita. Ahi tem os taes escrevedores d'agua

doce, que se riem á socapa das arcadias, e das odes pindaricas,

e da sciencia em notas, e das chronologias dos academicos. A

gente que fazia essas cousas trazia as vestimentas na ponta da

lingua: distinguia-as como _hora horae_ de _servus servi_. Vae ler,

oh taboa rasa de Locke, vae ler o Prado, o Clericato, o Bauldry,

o..."

E eu, que não podia ir ler tanto calhamaço em folio, em quarto,

em oitavo, e em doze, estacava, punha-me a gaguejar, perdia o

fio da narrativa, e não proseguia nesta notavel historia do padre

prior, a qual me abriria as portas do Instituto Historico de

París, se eu fosse tão creança que me resolvesse a pagar não sei

quantos francos por anno para gosar dessa incomparavel honra.

Por isto façam os leitores idéa das deploraveis consequencias de

um erro de data!--"Porém--replicarão elles--quem te obrigava a

tractares essa questão chronologica, superior talvez ás forças do

teu entendimento? Não foste andando até aqui sem te metteres nesses

debuxos? Porque não descreves a festa, deixando aos entendidos em

calendario o pô-la na epocha propria?"--Bonissimos leitores, pensaes

vós que eu sou o Manuel da Ventosa, que me deixe assim esmagar por

uma saraivada de perguntas? Enganaes-vos! A resposta vae caír dos

bicos desta penna como as frechas de Apollo _longe-asseteador_ caíam

no campo dos argivos, segundo resa Homero no capitulo primeiro da

sua chronica das birras do Pelida e do Atrida: a minha tréplica

vae tombar sobre os prelos convincente, irresistivel, irreplicavel.

Ei-la. Finjamos por um momento que, em vez de consultar os

respectivos auctores sobre a verdadeira casa de S. Pantaleão no

taboleiro do calendario, nem sequer pensava nisso, e começava _ex

abrupto_ a scena da festa aldeian. Que succedia? Como estamos no

inverno, e eu gósto do inverno, principalmente quando ruge uma boa

nortada (são gostos), punha-me a descrever um destes formosos dias

de dezembro ou de janeiro, em que o firmamento parece retincto de

novo no seu tão lindo azul; em que a verdura infantil das searas

á flor da terra sorri estirando-se dos topos arredondados dos

outeiros pelo pendor de recostos levemente inclinados; em que a

relva se mira á luz vermelha da aurora no espelho do caramelo,

que envidraça a superficie dos pegos e remansos dos regatos.

Falar-vos-hia de uma abençoada missa do gallo na aldeia em noite

de luar, missa mil e quinhentas vezes mais poetica do que toda

a poesia protestante desde Luthero, o pae do protestantismo,

até Strauss, que hoje lhe tira as derradeiras consequencias;

falar-vos-hia, emfim, de mil cousas, muito bonitas, muito viçosas,

muito brilhantes, mas que viriam tanto a proposito de S. Pantaleão,

como o anho paschal daquella sancta velha da tia Jeronyma viria

a pello da Natividade com o seu caldo tradicional de perú, ou

como o estylo do nosso drama moderno se casa com a linguagem

da sociedade cujo transumpto deve ser. É por esta razão que em

cousas serias, quaes a presente narrativa, eu sou muito pechoso

em averiguar tudo quanto póde contribuir para a perfeição de

obras em que a fórma de modo nenhum ha-de vencer a substancia:--e

a essa classe pertencem estes estudos moraes.

Resolvida e assentada a questão de tempo e logar, sem o que não

ha obra litteraria, segundo affirmam os glossadores e espivitadores

daquella famosa embrulhada de Horacio chamada a Epistola aos

Pisões, resta dizer alguma cousa ácerca de S. Pantaleão. Por muita

importancia que eu ligue á feira, aos foguetes, aos buscapés, ás

jarras de flores, aos tocheiros accesos, ao sacristão, á musica,

aos festeiros, e ao padre prior, ligo muita mais á memoria daquelle

cuja festa trazia n'um rodopio toda a aldeia, e até tivera a

influencia magnetica de alargar os fechos da bolça ao veneravel

moleiro Bartholomeu. Tenham, portanto, paciencia; que já agora

hei-de dizer-lhes duas palavras ácerca do meu rico sancto. São

reminiscencias do sermão, o qual, desde aqui fique sabido, foi feito

e prégado por Fr. Timotheo, o fradalhão arrabido de mendicante e

espoliada memoria. É pouco mais ou menos um resumo da historia do

sancto como a contou Fr. Timotheo. Parece-me que o estou ouvindo!

S. Pantaleão era um medico de Nicomedia: o bispo Hermolau converteu-o

ao christianismo. Desde então elle reduziu o seu receituario á

invocação do nome do Senhor. Seguiram-se d'aqui duas consequencias

graves: as suas curas foram mais baratas e mais rapidas, ao mesmo

tempo que as offertas dos doentes escaceavam nos templos pagãos,

e os sacerdotes de Esculapio começavam a morrer litteralmente

de fome. O resultado foi um clamor geral contra o pobre sancto:

os sacerdotes accusavam-n'o de impio e de bruxo, os medicos de

charlatão. O odio contra elle chegou ao ultimo auge: só faltava

uma occasião para a vingança: esta não tardou a apparecer.

"Não, que não havia de chegar!--rosnou o barbeiro, que, espécado

em frente do pulpito, meneava a cabeça laudativamente de quando

em quando, em honra da eloquencia de Fr. Timotheo, que, narrando

a vida do sancto, esbravejava como um possesso.--Não, que não

havia de chegar! Bastavam os medicos. Os medicos e os cirurgiões!

Posto que até certo ponto pertença á faculdade, hei-de dize-lo:

é a classe mais invejosa do merito, que eu conheço."

O barbeiro pensava assim havia muitos annos: desde que fôra

cruelmente arranhado por tres raposas, que os lentes do Hospital

lhe tinham largado ás pernas em um exame de sangrador. Boas ou

más, eram as suas doutrinas.

Entretanto o arrabido continuava a lenda de S. Pantaleão: as idéas

que della conservo são as seguintes:

Neste meio tempo veio a Nicomedia o imperador Maximiano. S. Pantaleão

restituiu perante elle a um paralytico o uso dos membros, o que

nem os sacerdotes pagãos, nem os medicos tinham podido fazer,

mostrando assim quanto era poderoso o Deus dos nazarenos. Mostrar

aos poderosos que se tem razão contra elles é o maior dos perigos

do mundo. S. Pantaleão experimentou-o. Lançaram-n'o ás feras no

circo: mas as feras, em vez de o devorar, vieram lamber-lhe os

pés. Cresceu a colera do imperador. Mandou ata-lo a uma grande

roda e solta-lo por uma ladeira abaixo; mas as prisões quebraram-se

e o suppliciado ficou illeso. Então ordenou que o degolassem. O

sancto, segundo parece, estava já saciado de prodigios: ao golpe

do algoz a cabeça voou-lhe dos hombros, e a sua alma, subindo

ao ceu, viu o proprio nome escripto no livro dos martyres. O

inferno e a tyrannia tinham sido mais uma vez vencidos.

Tal é em poucas palavras a historia do sancto orago da aldeia,

que constituia os dominios espirituaes do padre prior.

A noite que precedeu á grande solemnidade da parochia foi semelhante

naquelle anno em que succedeu o caso da Bernardina ao que havia

sido no anno antecedente; semelhante ao que costumam ser taes

noites nos campos deste nosso bom Portugal. Um coreto coberto de

velhos razes alteava-se á porta da igreja: delle resfolgava uma

selvagem e, ás vezes, atrozmente desentoada musica, e em baixo

crepitavam as fogueiras. Como faltariam fogueiras no mez de julho

e em festa saloia? Os fogos nocturnos são o symbolo da alegria;

mas cumpre que se repintem no ceu diaphano e estrellado. Debaixo

de uma atmosphera crassa e negra o seu reflexo tem o que quer que

seja soturno e infernal. O sentimento poetico está mais vivo e

puro nas almas habituadas ás harmonias campestres, do que em nós

os habitantes das grandes cidades: é por isto que os camponezes

accendem no estio as fogueiras festivas, usança que, como todos

sabem, offende o nosso profundissimo e estupidissimo senso-commum.

Eu, por mim, que, graças a Deus, não tenho a honra de pertencer

á classe desses que lidam, contentes de si, por se bambolearem

no vertice da animalidade pura, e que se chamam homens da vida

positiva, digo que, por mais ardente que vá o estio, amo uma

fogueira no arraial em vespera de festa, e aquelle estourar e

chispar dos foguetes que roçam rapidos pelo manto escuro da noite.

Sei tambem que o consumir-se polvora em esbombardear cidades, e

em alastrar de cadaveres um campo de batalha é cousa muito mais

philosophica e sisuda, do que desbarata-la nas festividades

supersticiosas do povo. Mas nem todos podemos ser philosophos,

e eu tenho quéda particular para a superstição.

E que quereis? O catholicismo é jovial: o seu culto, como o vulgo

o entende, é ruidoso, e risonho, e brilhante, e attractivo, e

sociavel, e por isso debalde trabalharieis por arranca-lo ao

povo, que vive e morre no meio do trabalho, dos cuidados, das

privações. O domingo, o dia sancto, o orago da parochia são os

seus dias de contentamento e repouso. Abençoado quem inventou os

oragos! Pois as invocações da Virgem, e a advocacia dos sanctos?!

Mil vezes bemdito quem os multiplicou! Ride-vos, se vos aprouver,

dos que crêem que tal Senhora obra mais maravilhas que todas as

outras Senhoras junctas; que tal sancto é remedio infallivel

para esta ou para aquella enfermidade. As preces levam pelo menos

uma vantagem ás drogas dos physicos: não custam nada, e são mais

ricas de esperança; e a esperança é a maior, quasi a unica virtude

dos medicamentos. E depois as devoções, as promessas geraram

as romarias, as festas, e logo as feiras e todo esse franco e

alegre folgar das multidões, que voltam de lá contentes, sem

tedio e sem remorsos, o que nem sempre nos acontece nos nossos

prazeres das cidades, a que bem longe estamos de associar nenhum

pensamento de Deus.

Alguns economistas destes tempos dizem--"as feiras vão-se"--como

certos doutores de ha uns annos diziam, alludindo ao christianismo

--"_os deuses vão-se_."--Oh semsaborões de meus peccados! Nem os

deuses, nem as feiras se vão! Tudo isso fica, porque o abriga e

salva a egide encantada do amor popular: vós é que tendes seguro

o passardes; e se fizerdes o vosso ablativo de viagem n'alguma

aldeia como a do meu padre prior, lá do adro, onde haveis de jazer,

alevantae a caveira descarnada, no dia de S. Pantaleão, ou do

sancto influente do logar, qualquer que elle seja, e vereis o

foguete subir aos ares, e os Manueis e as Bernardinas de então a

feirarem-vos em rebemdita sobre as cinzas, que as ventanias terão

espalhado, e ouvireis o ramram da guitarra, e o cantar ao desafio,

e o bradar dos leilões de cargos, e aviventar-vos-ha o olfacto o

cheiro do incenso, involto em rolos de fumo, que, espalmando-se

nas faces dos gordos cherubins pintados no tecto, surdirão pelo

portal da velha igreja remoçada d'ochre, e virão embalsamar os

ares: inclinae, não as orelhas, que não as tereis, mas os ouvidos

em osso, e escutae o futuro padre prior alevantando o _Gloria_, e o

prégador--"ai! já não será um fradalhão arrabido!..."--contando, voz

em grita, as maravilhas do martyr. Então reconhecereis a vaidade

das vossas doutrinas, e morder-vos-heis e damnar-vos-heis, dizendo

com as vossas costellas esbrugadas, á falta de botões:--"Bem nos

prégava aquelle grande chronista do padre prior! Aquillo é que

era homem de juizo! _Miserere mei, Deus, quia asinificavimus!_

Compadece-te de nós, Senhor, porque asneámos!"

Agora por asnear, acudamos a um reparo antes de ir mais longe.

Já ouço um destes oragos de botequim (tambem aquelles templos

tem seus oragos); um destes eruditos em Balzac e Marryat, em Paul

de Kock e Dickens, sacudir a melena annelada, affastar da bôca

o charuto apertado entre o pae-de-todos e o fura-bolos, salivar

com os dentes cerrados, dando um som de espirro de gato, tomar a

postura solemne que estudou n'uma gravura em madeira do Antony de

Dumas, e dizer-me em tom pausado e soturno:--Oh malfeliz, malfeliz!

que em vez de empregares esses raios do fogo ceruleo e invisivel

das inspirações estheticas, que, da mysteriosa solidão em que se

dilata o halito celeste da summa intelligencia, desceu aos abysmos

íntimos da tua essencia, em depurares o sentimento religioso das

suas formulas materialisadas para o transportares ás regiões

ideaes do culto íntimo, seguindo os vestigios das notabilidades

mais remarcaveis da intellectualidade actual que fluctuam nos

grandes centros de luz progressiva chamados París e Londres,

vertes os teus sarcasmos baixos, triviaes, e desgostantes, sobre

o espiritualismo pantheistico, apoias o fetichismo, e poetisas

(crês poetisar, digo eu) essas festas da populaça, e esses prazeres

gordureiros das massas, que sublevam o coração daquelle que adora

o supremo architecto no silencio interior, em quanto os seus

labios estão immoveis como se elles fossem de marmore explorado

nas carreiras de Paros! Escriptor retrogrado e condemnavel, que

em logar de combateres a barbarie do paiz, pretendes atacar mais

o povo ao obscurantismo, que dirão as summidades do jornalismo

estrangeiro e os toiristas e impressionistas viageiros quando

lançarem seu golpe d'olho d'aguias para o Portugal, e virem sua

materialisação supersticiosa inculcada, e suas tradições grosseiras

exaltadas? Repetirão o que o immortal marido de Lady Byron dizia

de nós a proposito de uns cachações com que o massacraram certa

noite á saída de S. Carlos:

"Nação impando de ignorancia e orgulho,

Que lambe e odeia a mão que brande a espada

Que do Gallo assanhado á zanga o rouba[1]...

* * * * *

Onde é sujo o palacio ao par da choça,

E o hospede forçado em lama trepa;

Onde nobres, plebeus nunca pensaram

Em ter limpa a casaca ou roupa branca[2],

Posto que a lepra egypcia os cubra e rôa,

Intacta d'agua a pelle, e a grenha hirsuta.

Servos torpes e vis[3], bem que nascidos

Nas pompas da creação. Tola és, natura,

Com defunctos ruins em gastar cera.

Eis o que elles dirão lendo a tua inconscienciosa defeza dos

costumes e credulidades dos tempos do jesuitismo e da inquisição."

Tal reparo antevejo eu que me ha-de ser feito pelos pensadores

da nossa terra, por estas ou por outras palavras. Respondo--o

que escrevi escrevi. A primeira vez que puz os olhos naquelles

bonitos versos do Child Harold, impei. Fui vivendo e lendo, e

affiz-me ás injurias de estranhos. Livros, jornaes serramadeiras,

jornaes populares, jornaes atoalhados, jornaes lençoes, em se

tocando em Portugal, sancta Barbara, advogada dos trovões, nos

acuda! Fervem as calumnias, os motejos, as accusações de todo o

genero; o que inquestionavelmente é grande, é nobre, é generoso!

O dar é assim!--n'uma nação cuja lingua, pouco conhecida na Europa,

torna impossiveis as represalias. E se fosse a verdade só! Muitas

verdades amargas nos poderiam dizer, como se podem dizer a todas

as nações do mundo; mas a calumnia tem mais pilheria; e Portugal

é um thema em que até os inglezes querem ter graça! Os francezes

ainda alguma vez por engano nos fazem justiça: elles nunca. Em

Inglaterra não ha nenhum tolo que não faça um livro de _tourist_,

nenhum architolo que não o faça sobre Portugal: estes livros e

os sermões constituem o grosso da sua litteratura[4]. Assim,

oh philosopho idealista progressivo, eu sei tão bem como tu o

que nos ha-de custar a festa de S. Pantaleão, quando esta famosa

historia for caír nas mãos dos criticos d'alem-mar. Mas pensas

que me faltará moeda para dar troco ás miserias de revisteiros,

touristas, magazineiros, e fazedores de livros em sarapatel mascavado

de normando e teutonico, surripiado por metade em cada palavra

na melodiosa pronunciação britannica? Enganas-te, oh caricatura

viva do Anthony morto! Enganas-te! Quando os inglezes se rirem

de elles terem muito dinheiro e nós pouco, torçamos a orelha, e

choremos como creanças pelas barbas abaixo. Quando elles compararem

o Strand ou Regent-Street com os arruamentos da nossa cidade

baixa, agachemo-nos. Quando perfilarem as suas estradas com as

nossas azinhagas reaes, cubramos a cara. Mas quando compararem as

venturas do homem de trabalho inglez com a triste sorte do peão

portuguez, risada. Quando oppozerem as virtudes e illustrações

das suas classes infimas á barbaria e estupidez das nossas, duas

risadas. Quando encherem as bochechas das suas velhas liberdades

(do tempo de Ricardo III, de Henrique VIII, de Isabel, de Cromwell

e de Carlos II), das suas leis de propriedade em particular, e

da clareza, simplicidade, e rectidão de todas as suas leis em

geral, e nos atirarem á cara o absolutismo dos nossos antigos

monarchas, a bruteza da nossa ordenação, a intolerancia dos

inquisidores, trinta risadas. Quando, emfim, nos offerecerem

em escambo das nossas crenças, dos nossos costumes religiosos,

os seus costumes e a sua crença, que esborôa ha mais de dous

seculos em quatrocentas crençasinhas, com seus nomes muito

arrevesadinhos, quatrocentas risadas ou antes uma risada só,

mas retumbante, macissa, inextinguivel, como aquellas famosas

gargalhadas dos deuses de Homero. O caso é d'isso! Se caíssemos

na troca ficavamos logrados. Traziam-nos de involta na carregação

dos sermões domingueiros os dizimos e as bruxas, de que ha muito

estamos livres pela misericordia divina, e que são os dous maiores

flagellos da Inglaterra, depois da lei dos cereaes e dos

arrendamentos das terras, que ahi alugam, até por semana, a dez

milhões de esfaimados quatrocentos mil proprietarios gordos e

anafados.

Ao menos são quatrocentas mil barrigas de uma amplidão respeitavel,

campeando entre dez milhões de irmãos nossos, que não foram formados

de barro, como nós e Adão, mas de massa insonsa de batatas.

* * * * *

[1] Isto escrevia o nobre Lord em 1809, quando os inglezes

reivindicavam dos francezes o throno de Beresford 1.º occupado

pelo usurpador Junot 1.º--_(Nota do gamenho que fala)._

[2] Estylo epico em Inglaterra e na Cafraria.

[3] _Poor paltry slaves!_--_Pobre_ na livre Inglaterra é

synonimo de _desprezivel e vil_, por isso traduzo assim.--_(Nota

do gamenho orador)._

[4] Não me persuado de que nenhum leitor tome ao pé da

letra este brinco litterario. A Inglaterra é uma grande nação,

e possue no seu gremio muitos homens honestos, sabios, e por

todos os modos respeitaveis. Mas a essa classe não pertencem

por certo aquelles, que, propondo-se illustrar o povo, escrevem

ácerca de uma pobre nação, que nunca os offendeu, toda a casta

de absurdos e mentiras insulsas.

V

EXCURSO PATRIOTICO.

Falemos serio: não comtigo, philosopho

esthetico-romantico-progressivo, que não vales a pena d'isso,

mas com o povo portuguez, que fala portuguez chão e intelligivel.

Falemos serio, porque estas materias de crença e de culto são

cousas graves e sanctas. Saber resistir á violencia é forte, mas

vulgar; saber resistir á calumnia e aos motejos é maior esforço

e mais raro. Envergonhemo-nos do que houver mau e corrupto nos

nossos costumes; envergonhemo-nos de muitas vezes não seguirmos na

vida practica os dictames do christianismo: não nos envergonhemos,

porém, do culto dos sete seculos da monarchia. A lingua e a religião

são as duas cadeias de bronze, que unem no correr dos tempos as

gerações passadas ás presentes; e estes laços que se prolongam

através das eras são a patria. A patria não é a terra; não é o

bosque, o rio, o valle, a montanha, a arvore, a bonina; são-no

os affectos que esses objectos nos recordam na historia da vida:

é a oração ensinada a balbuciar por nossa mãe, a lingua em que

pela primeira vez ella nos disse:--"meu filho!"--A patria é o

crucifixo com que nosso pae se abraçou moribundo, e com que nós

nos abraçaremos tambem antes de ir dormir o grande somno, ao pé

do que nos gerou, no cemiterio da mesma aldeia em que elle e

nós nascemos. A patria é o complexo de familias enlaçadas entre

si pelas recordações, pelas crenças, e até pelo sangue. Tomae, de

feito, as duas dellas que vos parecerem mais estranhas, collocadas

nas provincias mais oppostas de um paiz: examinae as relações

de parentesco de uma com outra familia, quaes as desta com uma

terceira, e assim por diante. Dessa primeira, que tão estranha

vos pareceu á ultima, achareis um fio, enredado sim, talvez

inextricavel, mas sem solução de continuidade. Uma nação não

é só metaphoricamente uma grande familia: é-o tambem no rigor

da palavra.

A oração que consolou nossos avós nos consola no dia da amargura:

o gesto com que imploramos a providencia é mais vehemente quando

nos foi transmittido por aquelles que pedem por nós a Deus. É

por esse meio que os homens apertam mais os laços invisiveis

que os unem aos seus maiores; porque o sentimento mysterioso da

familia, e portanto da nacionalidade, se purifica e fortalece

quando se prende no céu.

Vêde na historia a prova de que a religião póde por si só crear

uma nacionalidade mais rapidamente que todos os outros elementos

que tendem a compôr as nações. Considerae as cruzadas; essa multidão

de homens nascidos em paizes diversos, entre os quaes não ha nenhuma

communidade de interesses, antes muitas vezes odios sangrentos e

fundos. Lá na Asia, em frente do islamismo, formam um só povo;

são irmãos, porque ajoelham todos ante o mesmo altar; combatem

todos pela mesma idéa religiosa. Olhae para os mussulmanos: vêde

o koran agglomerando, assimilando o beduino e o egypcio, o alarve

do Atlas e o negro de El-Sudan. Onde quer que um pensamento grande

precisa de toda a energia de uma unidade social para se desenvolver

e realisar, lá haveis de encontrar a religião produzindo essa

energia.

Lendas e Narrativas (Tomo II) · 第 7 / 14 段