"Então que historias são estas da Bernardina, sô velhaco da conta

benta? Sabe o que fez, grandessissimo tractante? Aonde foi você

aprender isso? (Esta pergunta era asnatica). É a doutrina que

eu lhe ensinei em pequeno? De que tem servido os exemplos de

modestia e honra que lhe dá seu pae? De ser um vadío, um seductor,

um... Deixe estar: a cadeia não se fez para as aranhas, e elrei

nosso senhor (o bom do parocho puxava em politica para a eschola

historica) ainda não mandou queimar a náu de viagem..."

"Eu, padre prior... como lhe ía dizendo--interrompeu atarantado

o saloio, coçando na cabeça, e procurando atar o fio das suas

idéas inteiramente confundidas.

"Cale-se; não me responda:--proseguiu o velho parocho, achando

talvez pouco cinco perguntas para ouvir uma resposta.--Diga-me:

que tenções eram as suas enganando uma rapariga honesta?"

"Eu..."

"Não me replique; já lh'o disse. Lembre-se de que é o seu pastor

que lhe fala. Ahi está porque você ainda não veio desobrigar-se.

Pensava que, por ella ser miseravel e sua mãe uma triste viuva,

não tinham ninguem neste mundo? Enganou-se. Tem-me a mim. Saiba

que a poder que eu possa ha-de ír bater com o costado na India,

ou casar com a Bernardina."

Aqui o pobre rapaz atirou-se de joelhos a chorar aos pés do velho,

e exclamau soluçando:

"E é isso o que eu quero!... Juro-o por aquella arvore da bella

cruz que alli está..."

"Vera cruz, salvage! vera cruz!--interrompeu o prior, visivelmente

abrandado com o pranto, humildade, e declaração categorica do

moço moleiro.

"Mas, como eu ía dizendo--proseguiu este--por'mor daquella diabrura

das saccas meu pae não póde tragar a senhora Perpetua Rosa. Se lhe

falasse em tal, fazia-me os ossos tão miudos como a picadura da

mó. Se a Bernardina tivesse dote, ainda talvez elle consentisse...

Mas sem isto; bem lhe sabe do genio. Se o padre prior podesse

adivinhar o que me tenho ralado, havia de ter dó de mim. Não

como, não durmo, ando doudo. Não basta a massada que gramei...

Ahn! ahn! ahn!"

Chorava em berreiro, e o chôro não o deixava continuar. As lagrymas

começaram tambem a bailar nos olhos do prior, que ficou por alguns

momentos pensativo.

"Levanta-te, rapaz dos meus peccados:--disse elle por fim, puxando

pelo braço do moleiro.--Vamos; confessa a verdade: estás arrependido

do que fizeste?"

"Estou, sim senhor! Ahn! ahn!"

Nesta parte, apesar do chôro e soluços, parece-me que o saloio

mentia.

"Promettes casar com Bernardina, se teu pae consentir?"

"Prometto, sim senhor! Ahn!"

"Ora, pois, socega, e não chores. Deixa o caso por minha conta.

Volte para casa, e não me torne a rondar pela beira do rio. Entende?

Olhe que!..."

O prior estendeu a bengala para o lado dos moinhos, que assobiavam

lá no alto, e Manuel da Ventosa voltou cabisbaixo e a passos

lentos pelo caminho por onde viera. Sentia confusamente que se

aproximava a crise mais temerosa da sua vida.

Então o padre prior assentou-se outra vez no poial do cruzeiro,

e recaíu em profunda meditação. Depois de um bom quarto de hora,

poz-se em pé e encaminhou-se para o presbyterio. Tinha anoitecido.

De memoria de homens nunca ceiára tão tarde!

E andando, o velho sacerdote repetia aquellas palavras do livro

de Job, onde, entre parenthesis, ha mais philosophia que n'um

aduar inteiro de philosophos:

_Nudus egressus sum de utero matris meoe, et nudus revertar illuc_[2].

O porque o dizia, bem o sabia elle! Ceiou sem dar palavra: resou

o breviario: deitou-se, e apagou o candieiro. Contra o costume,

Fr.

Bernardo de Brito e Fr. Diogo do Rosario ficaram aquelle serão

na estante. A ama sentiu-o assoar-se, tomar tabaco, e escarrar

até muito tarde. Cousa rara! signal evidente de que tinha negocio

de vulto, que lhe embargava o dormir!

Peior foi pela manhan. Apenas luziu o buraco, o padre prior saltou

da cama; calçou os sapatos engraixados; vestiu a loba nova; pediu

o chapeu de tres ventos, a bengala de castão de prata, e os oculos

fixos, que só punha em dias de missa cantada, e disse á ama que

se aviasse com o almoço, porque tinha de saír cedo.

Emquanto a tia Jeronyma, para maior brevidade, fazia umas papas

de milho, o prior abriu um contador enorme, destes que os nossos

grandes amigos inglezes nos vão agora levando em logar de vinho

do Porto, tirou para fóra uma folha de papel almasso, e bradou:

"Jeronyma! oh Jeronyma!"

A velha chegou ao corredor da cozinha com o abano na mão.

"Estão quasi feitas:--disse ella.--Tenha paciencia um instantinho."

"Não é isso, mulher:--replicou o prior.--Ouve cá: vae ao forro

da escada e traze-me aquillo."

"Isso, eu lá ponho. Mas, com sua licença, d'onde veio maquia grossa?

Hontem não houve baptisado nem enterro..."

E a tia Jeronyma estendia a mão esquerda coberta com a ponta

do avental, para não sujar a maquia de que falava, e ao mesmo

tempo volvia olhos ávidos, ora para o bofete, ora para o prior.

"Qual carapuça!--replicou elle fazendo-se vermelho.--Tira-se;

não se põe. Faça o que lhe digo, e dê ao démo o que sabe."

A ama empallideceu. As palavras _tira-se; não se põe_ eram de ruim

agouro; mas vendo já o padre prior azedo, calou-se e obedeceu.

D'alli a pouco o velho parocho começava a tirar de um pé de meia

uma, duas, tres peças de ouro; foi tirando até setenta: restavam

apenas obra de uma duzia dellas.

"Basta:--rosnou o prior.--Póde occorrer uma doença. Então, Jeronyma,

vem essas papas?!"

E dizendo isto embrulhava muito bem as setenta peças na folha

de papel que tinha sobre o bofete, e mettia-as na algibeira da

loba.

"Guarde isso, Jeronyma:"--disse elle á ama, que entrava com as

papas. E empurrou pela mesa fóra o exangue pé de meia. A ama,

ao vêr aquella horrorosa sangria, esteve a ponto de largar a

frigideira no chão, e de deixar o bom do padre sem almoço.

Quando voltou para a cosinha, ouviu-a o prior soluçar.

"_Nudus egressus sum de utero matris meoe, et nudus revertar illuc._"

Murmurando esta profunda sentença da Biblia, o reverendo parocho

saiu pela porta fóra. A ama, vendo-o saír, andava como pasmada.

Nestas idas e voltas havia nascido o sol. O Bartholomeu da Ventosa,

afanado com a sua lida, em pé á porta de um dos moinhos, bracejava,

ralhava, praguejava como um possesso. Os brutos dos moços tinham-lhe

quebrado já duas cordas ao _enquerir_ as cargas de uma récua de

machos pimpões presa á argola do moinho.

De repente viu um castão de bengala saír-lhe por cima do hombro.

Voltou-se: era o prior.

"Olé, vossenhoria por aqui a estas horas?!... Psio, oh Zé Dorna,

olha o rabicho daquelle macho!... Grande novidade, padre prior!

grande novidade!... Raios te partam! Que tal'stá o filho do diabo?!"

Estas duas ultimas jaculatorias eram acompanhadas de dois

reverendissimos pontapés na barriga de uma das cavalgaduras, que

já estava carregada, e que parecia achar mais prudente deitar-se

em quanto as outras se aviavam.

O moleiro dava assim a modo d'umas lembranças de Napoleão dictando

ao mesmo tempo a dous secretarios.

"Falaste, Bartholomeu!--replicou o prior.--Novidade, e grande!

Ha quarenta annos que sou parocho desta freguezia, e é a primeira

vez que tal me succede. É negocio intrincado, e quero ouvir o teu

conselho, porque tens caixa para as cousas. Rapazes--accrescentou

dirigindo-se aos moços do moinho--safa d'aqui, que tenho que

dizer ao patrão em particular."

"Rua!--gritou o moleiro correndo com força ambas as mãos pelo

colete e pelos calções, donde saíu um nevoeiro de farinha.--Entre

vossenhoria."

O prior entrou, e foi assentar-se n'uma tripeça que estava a um

canto: Bartholomeu assentou-se sobre um sacco de trigo defronte

delle. Os dous velhos mediram-se com os olhos por momentos, como

se cada um delles tentasse ler no rosto do outro os pensamentos

que lhes vagavam na alma. A primeira idéa que occorreu ao moleiro

foi a de alguma festa que o parocho pretendia fazer, e para que

lhe vinha pedir dinheiro. Batia-lhe o coração com violencia,

e já imaginava trinta mentiras para evitar essa calamidade.

"Homem--disse por fim o prior--tenho em minha mão uma somma avultada;

mais de quinhentos mil réis (o moleiro estendeu o pescoço); pertencem

a um devoto, que os quer dar em dote a uma rapariga pobre desta

freguezia. Encarreguei-me do negocio, e deitei as minhas linhas

para dar no vinte. Mas temo não acertar, e venho bater comtigo.

És honrado, meu Bartholomeu, posto que um tanto sovina: falo-te

com o coração nas mãos, e..."

"Isso é o que dizem por ahi essas linguas perversas--interrompeu

o moleiro, fazendo-se vermelho de colera;--essas mandrionas do

soalheiro, porque lhes não metto no bandulho o meu remedio. Os

diabos me levem..."

"Tá, ta!--acudiu o prior.--Ajustaremos contas na desobriga. Vamos

agora ao que serve. Sem refolhos: a quem te parece que dêmos

este dote? Parafusa lá."

O moleiro poz-se a scismar, alevantando os olhos para o tecto,

estendendo e revirando a mandibula inferior, e batendo de quando

em quando na testa.

"Nada ... a Genoveva da Theresa não:--disse por fim.--Tal mãe,

tal filha. Aquella está arrumada."

"Nem pensar n'isso é bom:--retrucou o prior.--_Libera nos Domine._

Anda, vê se atinas."

"A Clara da Fonte tambem não..."

"Uhm!--rosnou o clerigo, abanando a cabeça.

"A Catharina Carriça menos. Heim?"

"Tó carapuça! Ahi vae já! Fundia-me o dote em menos de um anno

com tafularias tolas. Adiante."

O leitor póde prever que o Bartholomeu da Ventosa e o seu parocho

estavam no caso de duas linhas parallelas, que, prolongando-se

indefinidamente, nunca podem encontrar-se: o pensamento do prior

dirigia-se a Bernardina, e o moleiro já tinha affastado por tres

vezes do espirito essa lembrança como uma idéa importuna.

"Eu--disse elle finalmente, coçando na cabeça--tinha cá uma idéa...

mas não sei... Não digo nada... Acabou-se."

"Desembuxa lá, homem! Foi para te ouvir que vim aqui."

"Então sempre lh'o direi. Minha sobrinha Joanna é um anjo. Boa

rapariga! famosa rapariga! Meu irmão Barnabé não pede esmola,

é verdade; mas anda atrapalhadote. O casal dos Caniços arrasou-o

este anno: deve-me já vinte moedas, e..."

O prior cortou-lhe o enthusiasmo pelos seus parentes com uma

gargalhada estrondosa. O moleiro ficou de bôca aberta no meio

daquelle destampatorio.

"Oh, oh, oh! querias que o meu dote servisse para pagar as tuas

vinte moedas?! Não é assim?--E, voltando immediatamente ao seu

serio, proseguiu:--Bartholomeu! Bartholomeu! _Por causa da iniquidade

da sua avareza me irei, e o feri_: diz o propheta. A cubiça que

te cega ha-de baldear-te no inferno, como tu baldêas alli para

a ribanceira as mós que já não prestam. Queres mentir á tua

consciencia, enganar o teu pastor, quando elle te vem pedir que

o aconselhes? Isto não é bonito, Bartholomeu! Não é bonito!"

"Mas, padre prior..."

"Qual mas, nem meio mas! Deixemo-nos de historias. Bem diz o

dictado:--Fui a casa da vizinha envergonhei-me; vim á minha

remediei-me.--O melhor é seguir a primeira lembrança."

"Então, se vossenhoria já tinha posto o dedo..."

"Tinha, tinha!--retrucou o prior:--Queria só ver se tu concordavas

comigo: mas sacas-te com uma exquisitice de fazer arripiar. Não

temos feito nada, meu Bartholomeu: não temos feito nada!"

E dizendo e fazendo, o clerigo erguia-se como para saír.

"Pois diga vossenhoria--acudiu o moleiro ainda atrapalhado com

o _revertere_:--e enforcado morra eu se..."

"Não praguejes, homem! Ahi vae! Quem ha-de apanhar o dote é a

Bernardina d'ao pé do rio..."

A historia das saccas era espinha que ainda lhe estava atravessada

na garganta: ouvindo tal nome, o velho não pôde conter-se:

"Quem? A cara de fuinha da filha de Perpetua Rosa? O padre prior

está brincando. Olha as lesmas! Umas desmaseladas, e caloteiras!

Isso, nas unhas da mãe, era fogo viste, linguiça. Terçans me

matem..."

"Espera, homem, espera! Não é isso o que se diz na aldeia. Tu tens

osga ás pobres mulheres, e cega-te a paixão. Desmaseladas?! Basta

olhar para ellas; como andam limpas na sua miseria. Caloteiras?

coitadínhas! É porque não têm com que pagar ao Agostinho da tenda?

Pagar-lhe-hão agora. Quinhentos mil réis ainda ficam livres, e

Bernardina ha-de com elles achar um bom casamento."

Emquanto o prior falava, uma idéa bem-aventurada illuminára

subitamente a alma do moleiro. As suas tres saccas podiam não

estar perdidas de todo; podiam voltar melhoradas ao moinho. Sentiu

a colera desvanecer-se-lhe, como a nuvem negra que varre a brisa

do norte.

"É verdade que a gente ás vezes tem cá as suas birras:--disse

elle com certo ar que queria ser fino e saía parvo.--Cega-se

com as pessoas! Vossenhoria bem sabe o que faz: dê o dote a quem

quizer, que diante de mim ninguem ha-de tugir nem mugir contra

vossenhoria."

"Pois bem!--proseguiu o prior.--Esta lebre está corrida. Resta

achar um noivo para Bernardina. Isso é bico d'obra que requer

escolha e siso. Pensa no caso, Bartholomeu! Vamos a vêr se acertas

melhor desta vez. Agora outra cousa. Tu és capaz: tens sabido

guardar o teu dinheiro; saberás guardar o alheio. Eu para isso

não presto: sou um mãos-rotas. Aqui te deixo setenta louras,

que a seu tempo se hão-de entregar a quem tocarem. Incumbes-te

d'isto?"

"Vossenhoria manda:"--respondeu o moleiro, cujos olhos brilharam

com o fulgor devorante da avareza ao vêr rolar as peças, que

o prior tivera a cautela de desembrulhar sobre a grande arca

das maquias. O velho parocho usava de uma esperteza de Satanás

para fazer uma obra de Deus.

E, despedindo-se de Bartholomeu, saíu. O moleiro ficou em pé

e immovel. Estava, mal comparado, como o asno de Buridan entre

as duas medidas iguaes de cevada: nem se podia affastar do ouro,

nem ousava faltar á cortezia devida ao padre prior. A final,

por um movimento sublime de energia moral, correu pela porta

fóra atrás delle, que já ía a certa distancia. Neste correr

parecia-lhe sentir estalar o que quer que era dentro do coração.

"Se vossenhoria é servido do nosso almoço"--bradava o moleiro"--não

tarda ahi um credo. Pobre, mas de boamente."

"Obrigado! obrigado!"--respondeu o prior sem se voltar, brandindo

para trás a bengala, como quem dizia adeus. E pensava lá

comsigo:--"Fóra, miseravel sovina!"

Apenas o bom do clerigo dobrára a quina, do muro de uma quinta,

que se dilatava desde a encosta até a baixa do rio, truz!...

Com quem havia d'elle dar de rosto? Com o Manuel da Ventosa,

de espingarda ao hombro, rede ás costas, chumbeira e polvorinho

a tiracolo. O saloio ficou embaçado.

"Com que, sim, senhor! Já você por aqui me apparece a estas

horas,"--disse o prior com um gesto folgado, que forcejava por

ser colerico.--"Heim?"

"É verdade, padre prior!... Entreter um bocado... A manhan estava

boa."

"Pois não! Aos pardaes... bem sei! Ora corte-me para casa, e

vá ajudar seu pae, o pobre velho, que lá anda lidando... e você

feito caçador das duzias... Caçador! Pensava agora o sonso que

me enganava! Vamos marchando!"

Deu alguns passos para diante, emquanto o Manuel da Ventosa fazia

o mesmo em sentido contrario. Depois voltou-se de repente. O

saloio também parára a olhar para trás.

"Olé. Escuta cá, Manuel!"--O Manuel aproximou-se.

"Depois d'amanhan é necessario que você se bote aos pés de seu

pae, que lhe conte a boa obra que fez, e que lhe peça licença

para casar com Bernardina..."

"Pelo amor de Deus, padre prior!"--interrompeu o triste do rapaz

cheio de susto.--"Com os figados delle, põe-me os ossos n'um feixe."

"Não se perdia nada:"--acudiu o velho.--"Mas não é anno de fortuna.

Era melhor que se tivesse lembrado a horas. Faça o que lhe digo,

que não lhe ha-de succeder mal nenhum! Vamos."

"Se vossenhoria entende?!..."

"Entendo, sim, senhor. A paschoa não tarda; e passada a quaresma

você ha-de receber-se. Mas d'isto nem palavra! E córte!"

O tom com que o parocho proferiu estas palavras deu uma alma nova

ao Manuel da Ventosa. Imaginou logo que o padre prior tinha aplanado

o negocio. Não sabia se risse ou se chorasse. Instinctivamente

agarrou a mão do clerigo e beijou-a. A sua gratidão era sincera.

O padre prior sentia palpitar esse vivo sentimento naquellas mãos

callosas, que apertavam a sua mão enrugada, naquelles labios

ardentes, que pareciam devora-la. Conheceu que estava arriscado

a deslizar da habitual severidade, e, affastando-se rapidamente,

bradou com voz aspera, mas alguma cousa trémula:--"Deixa-me, pateta!

Deixa-me! ... e Deus te alumie para que seja esta a ultima das

tuas rapaziadas."

Fez bem em alongar-se: duas lagrymas lhe rolaram pelas faces abaixo.

Naquelle dia a tia Jeronyma chegou a desconfiar de que o padre

prior tinha a bola desarranjada. Toda a manhan não fez senão

cantarolar, ora um pedaço do _Tantum ergo_, logo um versiculo do

_Te Deum Laudamus_, e assim por diante. Até andou por mais de meia

hora a brincar com o gato do presbyterio. E, para resumir em

poucas palavras a extravagancia de que parecia possuido, baste

dizer que, ao descalçar-se, arrumou os çapatos para um canto,

e depois de ter lido um capitulo da chronica de Cister, pela

primeira vez da sua vida metteu na estante essa especie de

Carlos-Magno monastico sem o pôr de pernas ao ar. Aquelle coração

sentia dilatar-se na sancta paz do Senhor.

E porque não cabia o bom do padre na pelle? Porque tinha feito

felizes duas creaturinhas, sacrificando-lhes as suas economias

de quarenta annos. Elle achava isso uma cousa naturalissima; mas

a providencia dava-lhe uma parte da sua recompensa nessa alegria

suave e intima, que nunca pôde entrar nos palacios dos grandes e

poderosos do mundo; porque é o premio, não do beneficio insolente

da opulencia, mas sim da abnegação caridosa da humildade.

O padre prior tinha tido tempo de estudar individualmente o caracter

dos seus freguezes, e por isso seguíra aquelle caminho para chegar

ao fim moral que se proposera. De feito o velho moleiro andou

abstracto todo o dia. Pois de noite? Não pregou olho! Ás escuras

via diante dos olhos as setenta peças a reluzirem como uma visão

ao mesmo tempo celeste e infernal. Depois, naquellas horas longas

de vigilia punha-se a calcular a acção prodigiosa que ellas teriam

incorporadas com mais de outras tantas que elle tinha enterradas.

Era o que bastava para dar o harmonioso epitheto de _minha_ á azenha

do Ignacio Codeço, e pôr lá o seu Manuel a labutar, e a ganhar

dinheiro, muito dinheiro: e elle a tomar-lhe contas ao sabbado:

meia moeda ... uma moeda ... duas moedas; e a pilha-lo em uma

gaziva de seis vintens; e despertava daquella especie de extasi

ao atirar-lhe o primeiro pontapé. Era um regalo! Ria ás vezes

ao lembrar-se de uma que elle havia de pregar no outro dia ao

Agostinho da tenda. Essa estava segura. Ia-lhe comprar o _créto_ de

Perpetua Rosa por metade, por um terço, talvez.--"Oh sô Agostinho,

você não vê que isso é dinheiro perdido? Cinco mil réis! seis

mil réis! Vamos; é minha a divida."--E tripudiava na cama, e

assentava-se, lançando mão dos calções, para ir, para correr,

para voar, antes que algum diabo (pensava elle) fosse metter no

bico ao usurario do tendeiro a mudança de fortuna de Bernardina.

Chegava, naquelle fervor, a enfiar os calções mas recaía na cama

ao vêr, ou antes ao não vêr, que era escuro como breu. Momentos

havia em que as suas idéas tomavam outro curso: representava-se-lhe

seu irmão Barnabé a largar-lhe o casal dos Caniços pelas vinte

moedas e por mais umas trinta peças com que o engodava; e elle

a fazer estercar as terras, e alqueivar, e lavrar, e semear, e

mondar, e ceifar, e a ter na eira uma serra de trigo durazio,

e achar uma excommungada de uma velha pedinchona a furtar-lhe á

sorrelfa uma abáda daquelle grande trigo, e elle a desanca-la

com uma tranca. E saía desse pesadello de homem acordado a ranger

os dentes, e com a mão agarrada á maçaneta do catre. D'ahi a

pouco vinha-lhe outra enfiada de imaginações, e d'ahi outra,

e outra, até que por fim a idéa de que as setenta peças eram

suas lhe ficava de tal modo encravada e enraizada na alma, que

o arrancar-lh'a de lá seria o mesmo que metter-lhe no bucho uma

apoplexia. Então punha-se a scismar no pensamento capital e gerador

de todas essas imagens bemaventuradas que lhe luziam no olho, o

como chamaria á muxilla as setenta do dote. Abafa-las? Nega-las

ao prior? Estremeceu horrorisado; porque Bartholomeu era homem

de probidade, a seu modo, que, sem malicia seja dicto, vinha

a ser um modo como o de tantos homens honrados que todos nós

conhecemos. Nada! Era preciso um meio natural, decente, legitimo

de arranjar o negocio. Caíu então no que o prior queria que elle

caísse. Casou _in mente_ o seu Manuel com a Bernardina. Feito isto,

as peças eram suas; suas porque o Manuel pellava-se com medo

delle, e casado ou solteiro havia de ficar-lhe sempre debaixo

dos cabeções. Assentado este ponto, o moleiro sentia um certo

refrigerio interior que o consolava. Não tardou a adormecer no

somno do justo, e em placidos sonhos balouçou-se todo o resto

da noite entre a azenha do Ignacio Codeço e o casal de seu irmão

Barnabé. Saía ás vezes desta hesitação beatifica sonhando no

gatazio que ía pregar ao Agostinho, e ria com um rir de innocencia.

Era um sancto velho aquelle Bartholomeu da Ventosa!

O leitor deve estar já sufficientemente aborrecido de tão comprida

historia do moleiro, da lavadeira e do prior; por isso não o farei

assistir ás explicações entre o pae e o filho. Mais repousado

o sangue com o dormir, Bartholomeu reflectiu pela manhan que o

propor ao parocho o seu Manuel para noivo de Bernardina tinha

suas parecenças com o haver-lhe proposto para ser dotada sua

sobrinha Joanna, idéa maldicta que lhe tinha custado uma risada

nas suas barbas e um revértere com texto de Biblia. Por outra

parte pensava que Manuel era o seu unico herdeiro, e que se

Bernardina trazia para a ceia, elle levaria para o jantar, principio

consagrado pela philosophia saloia, talvez desde o tempo dos

mouros. Emfim o pae nestes vaivens, e o filho com os receios que

o leitor póde imaginar, fizeram ao declararem-se uma verdadeira

scena de comedia. Ao cabo, porém, de tudo entenderam-se. Assim

o padre prior, á custa das suas economias de quarenta annos,

teve a consolação de fazer tres sermões, um a Bartholomeu sobre

a cubiça e avareza, outro a Manuel sobre o trabalho, sobriedade

e mais virtudes annexas á condição de pae de familia, outro

finalmente a Bernardina sobre a honestidade, modestia e sujeição

das mulheres casadas. Depois, quando veio a paschoa, regalou-se

de atar o laço matrimonial entre os dous amantes, acabando por

uma vez com as interpellações das lavadeiras, com as espreitaduras

dos curiosos, e com as murmurações do beaterio. Custou-lhe a

brincadeira setenta peças, e o atirar á rua o sermão sobre a

avareza, porque o Bartholomeu continuou a ser sovina até a hora

da morte, na qual piamente se deve crer o catrafilou o diabo,

não só por ser unhas de fome, mas por ter refinado a ponto, que,

perdendo a vergonha, já começava a sizar nas maquias, com escandalo

dos freguezes, e grande mortificação de seu filho Manuel.

Agora duas palavras sobre a festa do orago da parochia, o meu

rico S. Pantaleão. O leitor vio o padre prior caminhando pela

estrada dolorosa da moral evangelica: é necessario que o veja

tambem radiante no meio das pompas do culto.

* * * * *

[1] Assim se denominava ainda ha poucos annos uma casa, na

proximidade da cada uma das aldeias vizinhas de Lisboa, emprestada

por algum ricaço ou alugada, em que se ajunctava nas noites dos

domingos para _brincar_ (dançar) a mocidade aldeian.

[2] Nu saí do ventre de minha mãe, e nu voltarei para

alli. Job: cap. 1, v. 21.

IV

ALHOS E BUGALHOS.

Lendas e Narrativas (Tomo II) · 第 6 / 14 段