E com estas digressões esquecemo-nos do padre prior. Não importa.

Deixa-lo ceiar em paz, e resar o breviario. Eram estas, entre

outras, duas phases graves e sérias de todos os seus dias. Depois,

emquanto a velha Jeronyma punha em ordem a casa, elle pegava

em um livro da pequena estante que lhe ficava á cabeceira, e

lia ou uma lenda pia do Flos-Sanctorum de Rosario, ou um tracto

d'aquellas grandes historias de Fr. Bernardo de Brito, até que o

somno tranquillo de uma boa e san consciencia, apertando-lhe com

os dedos rosados as palpebras, o entregava aos sonhos placidos

que só a alvorada vinha interromper, quando o perigo imminente de

alguma das suas ovelhas o não obrigava a erguer-se alta noite,

ao som do resmungar malsoffrido e, até certo ponto, impio da

tia Jeronyma. No horisonte limpo e sereno destas duas vidas

innocentes, destes Philemon e Baucis celibatarios, que amparados

um no outro íam peregrinando contentes para o sepulchro, havia

um ponto negro e triste. O rendimento da parochia não consentia

que o padre prior _possuisse_ essa especie de ilota _in sacris_, de

servo de gleba sacerdotal, chamado o padre cura. As ventanias,

as chuvas, as noitadas através das serras revertiam como a congrua

e os benesses em beneficio, senão do corpo, ao menos da alma do

reverendo prior.

A sua congrua era maravilhosamente estitica: o grosso dos dizimos

da parochia, jogava-os á risca todas as noites em tertulias um

digno commendador não sei de que ordem. Ai, que a extincção dos

dizimos foi a morte da religião!

* * * * *

II

NOITADAS PAROCHIAES.

A vida do velho prior passava na verdade dura e trabalhosa! Como

todas as cousas deste mundo, o egoismo da tia Jeronyma não era

acabado e completo, ou, para falarmos em estylo de philosophia

fidalga, não era absoluto. O limitado e imperfeito é o signal

que o Creador estampou na fronte do homem e na face da terra

para nos recordar a todo o instante a nossa origem; é a barreira

que elle alevantou diante d'este grande mysterio de energia e

de audacia chamado a intelligencia. Sabedoria, força, paixões,

affectos, tudo tem um horisonte commensuravel; horisonte para as

virtudes como para a dor. O espirito mede e abrange o que ha mais

vasto e profundo, os ermos, os mares, o coração humano; porque ao

cabo d'isso tudo está o finito. Immensa, eterna, absoluta só ha

uma idéa, que está fora do universo. Esta é a idéa de Deus.

Por isso, grande é somente Deus!

Mas dizia eu que o egoismo da tia Jeronyma era incompleto: digo

mais; era incompletissimo. Quando o sacristão vinha alta noite

quebrar o dormir risonho e variamente resonado do padre prior;

quando á voz roufenha do ostiario aldeião, despertando o pastor

para ir levar as consolações extremas á ovelha moribunda, e tira-la

lá, porventura, dos dentes e garras do cão tinhoso, se ajunctava o

trovejar ao longe da tempestade, o fustigar da chuva nas vidraças

progressivas das meias janellas, e o ramalhar da ventania nos

dous platanos do adro, era sem duvida que o resmungar da tia

Jeronyma, apparecendo da banda da sua pocilga com a candeia mortiça

na mão e as roupinhas vermelhas do envez, tinha o que quer que

fosse repugnante e vil. A boa da velha pensava, acaso, que a

morte não seria tão descortez que negasse ao espirito do pobre

moribundo o tempo necessario para poder, ao abandonar o corpo,

subir como chammasinha tenue, e galgar para o céu sobre um raio

do sol nascente? Póde ser que sim. Não seria, porém, antes, que

ella preferisse o deixar frigir por alguns seculos nas caldeiras

do purgatorio aquella pobre alma christan, largando a sua veste

mortal sem os ultimos sacramentos, á necessidade de erguer-se

por noite fria e tempestuosa para tomar nos hombros uma parte

da cruz do ministerio parochial? Tambem isto póde ser. O que

se passava no abysmo da sua consciencia cousa era que ella não

revelava a ninguem; mas em todo o caso era um pensamento egoista.

Todavia é preciso confessar que com elle se misturava um sentimento

puro e nobre: dizia-o esse cuidado pressuroso com que a tia Jeronyma

trazia as botas de côr terrea, o berneo de saragoça, o capote de

barregana, o chapeirão oleado, e a aguardente de ginjas, sem um

copo da qual o prior não ousaria transpôr o limiar da porta, e

investir com as furias da noite procellosa: diziam-n'o a attenção

com que mirava se elle ía agasalhado, e as mil vezes repetidas

ponderações hygienicas, que lhe fazia com admiravel volubilidade

de lingua. A affeição da sancta velha mostrava-se em tudo isso

viva e sincera; e o seu resmonear, que no meio das idas e das

voltas, e do perguntar e do responder, ía rareando e abatendo como

o assobio do furacão pelo valle, perdia gradualmente a expressão

de egoismo, e convertia-se pouco a pouco na de um pensamento

moral.

E o padre prior calado!--Calado enfiava as botas; envergava o

gabinardo; cobria-se com o capote; punha o amplo sombreiro; enchia

um copinho do excellente cordial que a boa da ama lhe havia posto

diante; virava-o d'um golpe; fazia uma visagem fechando os olhos

com força e estendendo os beiços; dava um estalído com a lingua

no céu da bôca; exprimia o intimo conforto que n'elle gerára

o ethereo licor com um brrahhh prolongado; estendia a pequena

taça, cheia de novo, ao sacristão, que, mestre nos estylos de

cortezia, se curvava formando com o corpo um angulo obtuso de

noventa e cinco graus, despresadas as fracções, e arqueando o

braço para levar o copo á bôca sequiosa, como se curva e arqueia

um peralvilho de guedelhas sansimonianas e miolos de agua chilra,

ao conduzir em sala de baile a deusa dos seus affectos de vinte

e quatro horas ao meio do turbilhão doudo e (perdoe-se-nos a

blasphemia) um tanto parvo das valsas e contradanças.

Depois duas palavras magicas saíam da bôca do reverendo pastor:--"Até

logo!"--O seu effeito era instantaneo: o sacristão, pegando n'uma

lanterna, com as chaves da igreja na mão encaminhava-se para

o adro seguido do padre prior: a tia Jeronyma fechava a porta

após elles; e o tentador, como se estivesse esperando por esse

momento, travava-lhe novamente do espirito, e o resmoninhar da

impaciencia recomeçava em breve, acompanhado do ranger do linho na

roca, e do espirrar da candeia a espaços, e do respiro asthmatico

do nedio gato do presbyterio, que, enroscado na lareira, abria

de quando em quando os olhos amortecidos, e cerrava-os logo com

philosophica indifferença, emquanto a tia Jeronyma esperava por

seu velho amo, e se lhe apertava o coração sentindo o temporal

que passava lá fóra, e lembrando-se de que o enfermo poderia ter

guardado para hora mais decente e commoda a agonia do passamento.

E pela serra fóra, caminho de casal remoto, vae o velho prior:

adiante o sacristão com a lanterna e a ambula da extrema-unção,

e elle atrás com o ciborio. As poças de agua reflectem essa debil

claridade que as alumia, e fazem um continuo plach, plach, debaixo

dos pés dos dous caminhantes, cujo passo apressam as cordas de

chuva batida pelos furacões do sudoeste. Os pinheiros balouçando-se

gemem tristemente, e os enxurros, estrepitando pelos corregos,

tiram com o pinhal uma toada soturna.

No céu profundamente negro não apparece uma estrella: na terra

ao longe, bem ao longe, não se descortina uma luz. A natureza

debate-se comsigo mesma: tudo dorme, entretanto, nos casaes e

na aldeia, salvo o velho parocho e a familia daquelle que em

trances mortaes espera o representante do Christo, que lhe traz

as derradeiras consolações e esperanças. Entre a philantropia

humana e as agonias extremas dos pequenos e humildes a noite e a

tempestade ergueram uma barreira quasi insuperavel: esta barreira

desapparece, porém, diante da caridade que a todos nos ensina o

Evangelho, e que ao parocho impõem como dever imprescriptivel

a sua missão sacerdotal e o seu caracter de pae dos pobres e

affligidos.

A esta mesma hora, em que o velho prior assim vagueava por sendas

alpestres exposto ás inclemencias de noite invernosa, talvez em

aposento bem resguardado, no fim de ceia brilhante, entre as

taças cheias de vinhos generosos, no meio de mulheres formosas e

voluptuarias, embriagado em todos os deleites dos sentidos, algum

famoso espirito forte cirzia remendos das paginas soporiferas

d'Holbach ou de Diderot, e dissertava profundamente sobre a

mandriice, egoismo e cubiça do clero, ou carpia a superstição

do povo, que, para ser completamente feliz de nada mais precisa

do que de abandonar as crenças do christianismo e de amaldiçoar

as esperanças de Deus, o conforto unico da sua vida de miseria,

de trabalho e de amargura. E naturalmente os neophitos daquella

triste philosophia extasiavam-se em redor do sabio philantropo,

que, impando de iguarias delicadas, de vinhos custosos, e de

grossa sciencia, só lamentava a ignorancia daquelles a quem muitas

vezes faltava então, falta hoje, e faltará de futuro um bocado

de pão negro para matar a fome; extasiavam-se alli diante da

sensualidade e bruteza de um insensato vanglorioso, emquanto

a virtude do velho clerigo, exercitada nos desvios dos montes

e no silencio da noite, não tinha por testemunhas senão um céu

humido e cerrado, e o vulto impetuoso e bramidor da ventania;

mas que, em vez das lisonjarias de parvos, tinha para o applaudir

a voz sincera, consoladora e sancta da propria consciencia.

Havia, porém, no fim de tudo, uma differença entre o homem do

evangelho e o da falsa sciencia. Era o systema das compensações.

O padre prior, depois de cumprir com o seu dever, voltava ao

presbyterio tranquillamente: tirava o capote alagado, despia o

gabinardo felpudo, sacudia a uma distancia razoavel as ponderosas

botas, e enfiando-se entre os grosseiros lençoes, atava o fio do

somno no ponto em que o deixára; e emballado brandamente por

sonhos apraziveis, só acordava sol nado e alto, ao bradar da

tia Jeronyma, e ao cheiro da açorda fumegante; almoço que, como

tudo o que era consagrado pelos seculos e pela tradição, elle

profundamente respeitava.

E o nosso philosopho? O nosso philosopho, recolhendo-se alta

noite, ía todo o caminho provando a si mesmo que não ha diabos no

mundo, nem almas, nem talvez Deus; mas sentindo arripiarem-se-lhe

os cabellos ao vêr dançar a phosphorescencia d'algum marnel,

rezando o credo em cruz ao passar por algum cemiterio, benzendo-se

ao ouvir piar algum mocho. E depois de se deitar e adormecer

sonhava.... Em quê? Nas combinações infinitas da materia eterna

de que deve, _segundo as boas doutrinas_, ter rebentado o universo?

Não! Sonhava com as penas do inferno; e ao acordar pela manhan

com defluxo, pedia confissão e sacramentos.

Já lá vão vinte annos! Bom tempo era esse, ao menos para mim,

que ainda nem sabia da existencia do animal chamado philosopho,

classificavel entre os _rodentia_, pelo medroso e damninho. Em

vinte annos que voltas tem dado o mundo! Aquella especie vae-se

acabando de todo. Auctores de comedias apressae-vos! Antes que

se perca o typo, levae o incredulo ostentoso á scena. Dae-nos

algumas noites de rir doudo e inextinguivel.

Os dias do padre prior corriam assim placidamente para o seu viver

intimo, posto que o duro mister de parocho lhe entenebrecesse

muitas vezes os horisontes da vida material. E que importava,

se todos na aldeia lhe queriam bem; se todos o acatavam como a

summa bondade, e o que não era menos, como a summa intelligencia

da parochia? Até o barbeiro, o proprio barbeiro, homem entendido

e grave em materias de eloquencia sagrada, não constava houvesse

jámais torcido o nariz ás praticas e sermões do padre prior, que

elle, com a mão sobre a consciencia, punha acima dos melhores de

frei Timotheo, um fradalhão arrabido, cousa brava em gritarias ao

divino, que por via de regra se incumbia das domingas de quaresma

naquella freguezia e nas circumvizinhas com acceitação e applauso

universal do auditorio, mas cuja fama era offuscada pelos periodos

singelos do velho sacerdote, repassados de uncção, e daquella

eloquencia de missionario, que, apesar de rude, lá vae fazer

vibrar o coração do povo, afinado pela crença viva, como a harmonia

que se tira das cordas de dous instrumentos accordes.

Agora por isso, o que será feito de frei Timotheo?! Era naquelle

tempo um frade guapo e alentado! O que será feito delle? Se ainda

vive, tiraram-lhe o burel e a corda de esparto, o seu capital;

venderam-lhe o convento, o seu tonel de Diogenes; prohibiram-lhe o

capuz e as sandalias, o seu direito inauferivel de andar trajado como

lhe aprouvesse; e mandaram-no, desarmado de tudo isso, pedir para o

mendigo a esmola que se dava ao burel, ao esparto, ao convento, ao

capuz e ás sandalias. Bom passaporte para frei Timotheo transitar

pela valla plebea do cemiterio nos braços morbidos e suavissimos

da fome! Foi um progresso de civilisação, que se completou pelo

lado moral com o augmento das loterias, das casas de cambio, e

das traducções de novellas e dramas francezes. Bemaventurada

a tão esperta nação que assim comprehende o progresso!

Duas cousas, porém, mais que as práticas e sermões, serviam para

engrandecer e glorificar o padre prior, não só diante dos homens,

mas tambem diante de Deus. Era a primeira o incansavel zêlo com

que se applicava a apaziguar as rixas, a estabelecer a concordia

domestica, a prégar o trabalho, a guerrear a embriaguez, e sobretudo

a sanctificar pelo casamento as affeições illicitas: era a segunda

o fervor modesto e o innocente luxo com que procurava celebrar

as festas religiosas, principalmente a de S. Pantaleão, orago da

freguezia, e de quem tanto os aldeiões como o velho presbytero

criam affincadamente possuir o metacarpo da mão direita, o qual

devia ser de outro sancto, ou não-sancto, se acreditarmos (eu cá

pela minha parte acredito) os parochianos da sé do Porto, que

se gabam de ter debaixo de chave S. Pantaleão _in totum_, sem lhe

faltar dedo de pé nem de mão, quanto mais um metacarpo inteiro.

* * * * *

III

UMA ESCORREGADELA.

A proposito do que o padre prior era de casamenteiro ainda me

lembra uma velha viuva, a senhora Perpetua Rosa (Deus lhe fale

na alma!) que morava ao cabo do logar n'uma barraquinha á beira

do rio muito caiada, com seu rodapé de vermelhão, e sombreada

por cinco ou seis choupos que nasciam da agua. Tinha ella (a

velha, não a barraquinha) uma filha, formosa rapariga, chamada

Bernardina. Era uma das leiteiras mais desenxovalhadas de que

se gabavam os arredores de Lisboa: bonita, que não havia mais

dizer: alva como toalha de freira, airosa como pinheirinho de

quatro annos. Uns poucos de rapazes da aldeia andavam doudos

por ella. Nas noites dos domingos, em que havia dança e viola na

casa da brincadeira[1], a tia Jeronyma, que era capaz de espreitar

este mundo e o outro, mirando da sua rotula o que se passava á

entrada da rustica sala do baile, pouco distante do presbyterio,

notava que, apenas a Bernardina apparecia, os rapazes entravam

após ella com muita mais furia e pressa do que pela manhan haviam

corrido para a igreja ao ultimo toque da missa do dia. Antes

d'isso já a boa da velha tinha reparado no modo por que elles

se encostavam aos cajados para lados oppostos, em frente uns dos

outros, nos motejos do cantar ao desafio, no pôr dos barretes

á banda, nos olhares que mutuamente se lançavam, no pegarem em

seixos e atirarem-nos a grande distancia a modo de competencia, sem

dizerem palavra, como se cada um quizesse mostrar aos seus rivaes

a robustez do proprio braço. D'isto tudo tirava a tia Jeronyma

agouro de muita pancadaria,--"por amor daquella delambida--dizia

a ama do prior em suas caridosas murmurações--que anda toda

arrebicada por baralhotas, em quanto a pobre da mãe moureja todo

o sancto dia ao sol e á neve naquelle rio, para ganhar um bocado

de pão sem vergonha da cara. Havia de ser comigo!"

E o mais é que a tia Jeronyma não se enganava nas suas previsões.

Chegou vespera de Reis: houve á noite brincadeira ou baile

extraordinario: passou-se ahi tudo na melhor ordem: riu-se, tocou-se

viola, dançou-se, cantou-se ao desafio, e cada qual se recolheu

a esperar entre os lençoes os sanctos _Reis magnos_, designação

popular dos magos do Oriente, cuja vinda a Bethlem se memora

na Epiphania.

Houve, porém, nessa noite um saloio mais cortez, que esperou

vestido e ao relento, no caminho da serra, a vinda dos tres sanctos

personagens. Foi o Manuel da Ventosa, estendido com uma tremebunda e

magnifica massada, de que esteve ido, a ponto de dar ao padre prior

uma daquellas noitadas que suscitavam a colera da tia Jeronyma,

e de que já acima fiz honrosa e especifica menção.

O Manuel da Ventosa era filho unico d'um moleiro ricaço, chamado

Bartholomeu, velho honrado, mas avarento como seiscentos Satanáses.

Teve a ventura (o rapaz, entende-se) de caír em graça á Bernardina.

Amoricos d'aqui, amoricos d'acolá, janella na cara a um, respostas

tortas a outro, segredar e rir de vizinhas, raivas de desprezados:

somma total--zás, uma sova mestra no Manuel da Ventosa, por ter

tido a negregada dita de merecer a preferencia daquella que era

o enlevo de todos os corações.

Mas enganaram-se. O amor redobrou com o sacrificio; os desprezos

cresceram com a vingança. O que começára por passatempo converteu-se

em paixão violenta: um fogo íntimo devorava a alma de Bernardina,

e desbotava-lhe as faces, d'antes tão frescas e rosadas como

as de um seraphim da peanha da Senhora da Conceição, obra de

esculptor insigne. No Manuel da Ventosa, isso não falemos: quando

melhorou da _doença_ andava entre parvo e abstracto: attribuia-o o

licenciado dos sitios a depressão cerebral produzida por alguma

ripada nas vertebras; mas, se existia depressão de cerebro, outra

era a sua origem. Certa mulher de virtude que havia na aldeia

jurava e tresjurava que o moço moleiro tinha a espinhela caída.

Historias. Eu, apesar de ser então uma creança, sabia bem onde

batia o ponto; por isso nunca fui para ahi.

Por encurtar razões: os dous amavam-se como loucos. As pessoas

desinteressadas achavam-nos um par completo; e com bom fundamento:

o Manuel da Ventosa era um galhardo mancebo, unico herdeiro de

ginja abastado, e Bernardina uma rapariga honesta. As beatas da

aldeia, ás quaes, conforme a direito, incumbia pôr ao soalheiro

a vida privada de cada uma, no capitulo da honra nunca se tinham

atrevido a ir devassar a barraquinha de Perpetua Rosa. Podia a

senhora Perpetua Rosa gabar-se dessa! E de feito, muitas vezes,

mettida no rio até os joelhos, em discussões acaloradas com as suas

illustres amigas, as outras lavadeiras pelo circulo de Lisboa,

a ouvi empraza-las para que formulassem precisamente certas

interpellações infundadas, rejeitando com desprezo alguns remoques

bernardos relativos a Bernardina, e appellando para a opinião

do paiz representada pelos seus orgãos, as beatas do soalheiro.

Mas se os dous se amavam com tanto extremo, e eram feitos e talhados

para puxarem o mesmo carro matrimonial, porque não íam pedir

ao padre prior o _conjungo vos_? Ahi é que certo animal torcia

certa parte do corpo, que eu e o leitor sabemos. Por não terem

pedido esclarecimentos sobre o facto é que as lavadeiras faziam

declamações vagas.

Eis o caso: o Bartholomeu da Ventosa era rico e avaro; mas

bestialmente avaro: Perpetua Rosa pobre, pobrissima. Por mal

de peccados fôra ella antigamente lavadeira do casal do moinho,

ou antes dos moinhos, porque para a exacção historica deve-se

advertir que o moleiro possuia dous. Uma vez, que levára grande

porção de roupa, tinha perdido tres saccas velhas e rotas.

Bartholomeu quando tal soube quiz morrer.--"Juro por esta--dizia

elle esbravejando e beijando os dous dedos indices cruzados sobre

a bôca:--juro que Perpetua Rosa me ha-de pagar as minhas tres

saccas novas em folha, que me perdeu, a desalmada!"--Mas nem

novas nem velhas; porque a verdade era que ella não tinha com que

as pagasse. Forçado foi, portanto, ao moleiro fartar a vingança

com ordenar-lhe que não lhe tornasse a rapar os pés á porta. Desde

este fatal dia nunca mais Bartholomeu da Ventosa pôde encarar com

a lavadeira: o seu odio vivia involto e aquecido na imagem das

tres saccas gravada naquelle coração de avarento. Assim para elle

seria cousa monstruosa e abominavel só o imaginar a possibilidade

de seu filho Manuel casar com Bernardina, a quem a pobreza fôra

de sobra para impedimento dirimente, quanto mais o ser filha de

semelhante mãe. Tal era a difficuldade insuperavel que se oppunha

á união dos dous amantes.

E os mezes íam passando, e as murmurações crescendo, e saltando

já das lavadeiras para as beatas. Tinham visto mais de uma vez

(dlzia-se: valha a verdade) o moço moleiro rondando a deshoras

a barraquinha da beira do rio. Havia tambem quem dissesse que

nas madrugadas de alguns domingos, quando a senhora Perpetua

Rosa saía para a missa das almas, se enxergava ao lusco fusco

um vulto, que, cosendo-se com os choupos, se aproximava da porta

da Bernardina, e... e etcaetera. Era muito vêr! Mas a cousa ía

correndo, e no fim de contas quem ganhava com essas historias

eram as linguas dos maldizentes, que se refocillavam na palangana

da murmuração, e o diabo que se lambia para, por estas e por

outras, os catrafilar a seu tempo.

Veio a quaresma: sancta quadra; mas que por isso mesmo é ás vezes

boa de mais. Desobriga vae, desobriga vem, sabe-se muita cousa.

O padre prior andava já com a pedra no sapato; porque elle não

era cégo nem mouco. Meu dicto, meu feito. Certo dia (por signal

que era uma sexta-feira), quando o sacristão veio abrir a porta

da igreja, estavam já no adro á espera Perpetua Rosa e Bernardina

para se confessarem. Não tardou o prior. Aviou-se a mãe: ajoelhou

a filha: persignou-se, benzeu-se, disse _mea culpa_, e começou

sua confissão.

Se isto fosse uma historia de polpa, cortesan e culta, viria neste

ponto o _casus foederis_ de eu tomar a postura tragica a la moda,

carregando as sobrancelhas, e dizendo em tom soturno e lento:--"O

que ahi se passou entre o veneravel ancião e a donzella ninguem

o soube!--!--!--!--Mysterio!--!--!--! Acontecimento horrivel e

fatal!--!--!--! As lagrymas ardentes do velho caíram sobre a

cabeça da infeliz ajoelhada a seus pés, cujo futuro (não o dos

pés, mas o da infeliz) era de maldicção!--!--!--!" Limitada,

porém, a minha narrativa a chan e plebéa recordação de um pobre

parocho d'aldeia, reflectirei em summa, que me não é licito revelar

o segredo do confessionario. Os sigillistas já deram que fazer

ao marquez de Pombal, cuja consciencia, como todos sabem, era

delicadissima em materias de orthodoxia catholica, e em tudo.

Calo-me, porque não quero caír no erro que elle condemnou. Direi

só que foi mui demorada a confissão de Bernardina, e que, ao

alevantar-se d'ante os pés do prior, ella trazia os olhos como

punhos: e digo-o, porque o viram os circumstantes, a saber, o

sacristão e a senhora Perpetua Rosa, que devotamente ía descabeçando

a penitencia em quanto a filha se desobrigava.

Ao sol posto desse mesmo dia o prior espairecia a vista pela veiga

coberta de verdura, assentado no cruzeiro, segundo o seu costume.

A brisa da tarde era fria e aguda, porque a primavera começava

apenas; mas o velho parocho parecia não a sentir, embebido em

cogitações; e tão fundas íam estas, que, em vez de traçar na terra

com a bengala as usuaes figuras geometricas, ou anti-geometricas,

conservava-a immovel e perpendicular, com as mãos cruzadas sobre

o castão, firmando a barba em cima. Conhecia-se-lhe no olhar e no

mecher tremulo dos beiços, que algum grande cuidado o inquietava.

E tanto assim, que nem reparou nos tres signaes das ave-marias,

deixando-se ficar sentado, e até, oh profanação! com o chapeu

na cabeça. Felizmente não passava ninguem naquelle momento, que

podesse notar a involuntaria irreverencia do distrahido pastor.

Mas um vulto assomou lá ao longe, e os olhos do velho brilharam

como animados por vida nova. Quem quer que era descia do monte,

e vinha para a banda do rio. O caminho passava perto do adro:

o prior ergueu-se, estendendo a mão, e brandindo a bengala na

direcção do vulto.

"Oh Manuel! psio, Manuel! chega á fala! Oh rapaz!"

O filho do moleiro (porque era elle) hesitou um pouco. Alguma

cousa lhe roía na consciencia. Mas vendo o prior em pé com ar

de quem estava resolvido a ir atravessar-se-lhe diante, cortou

para elle com o barrete azul e vermelho na mão.

"Boas tardes, padre prior: quer alguma cousa?"

"Quero que você chegue aqui, porque temos que falar."

O tom com que estas palavras foram proferidas, e mais que tudo

aquelle _você_, fizeram estremecer o Manuel da Ventosa. O prior

tractava todos por tu, e o você na bôca delle era presagio infallivel

de temporal.

O rapaz parou diante do velho com os olhos cravados no chão,

torcendo e destorcendo a orla do barrete que tinha entre as mãos.

O padre prior mediu-o de alto a baixo, e começou _ex abrupto_:

Lendas e Narrativas (Tomo II) · 第 5 / 14 段