Mas ainda mais feliz a intelligencia superior ás do vulgo, aquella

que a Providencia destinou á missão do poeta, nos annos da infancia

e da juventude, antes que o arido bafo da sciencia a queimasse

passando por cima della! Nesse espirito e nessa idade a religião

não está só nos preceitos e nos dogmas; está na natureza inteira.

A alegria de Deus, o aspirar das fragrancias celestes, a toada

suavissima dos hymnos dos anjos, descem a ella nos raios do sol

quando nasce e quando desapparece; tremulam no espelhar-se da

lua nas aguas; misturam-se no cicio das arvores; entretecem-se

com os mil gemidos da noite; vivem nas affeições domesticas, e

sanctificam o primeiro bater do coração pelo amor. Tudo então é

viçoso e puro, porque a alma poetica lhe empresta viço e pureza.

As harmonias moldadas, na virilidade, pelas leis das linguas e das

escholas, são apenas um eccho frouxo desses canticos da meninice

e da primeira mocidade, que se evaporam sem se escreverem, que

são um oceano de delicias ineffaveis em que se embala mollemente

a imaginação e o sentir do homem, a quem o mundo ha-de chamar

poeta. Nessa epocha da vida elle não abstrahe do real para salvar

verdadeira e intacta a sua idealidade: faz mais; derrama esta,

que é a seiva intima do seu viver, pelo universo, e converte-o

n'uma cousa formosa, sancta, ideal, que o mundo está bem longe

de ser.

Depois vem outra epocha da vida, em que a felicidade é mentida,

mas ainda é felicidade, posto que já eivada de vaga inquietação, de

ambições desregradas, de esperanças mesquinhas e contradictorias.

São os annos qnc precedem e seguem immediatamente os vinte.

Abrem-se ante nós os caminhos do mundo como uma conquista. Gloria

d'artistas, poderio, opulencia, acções generosas e grandes, amor

sem termo, amizade sem perfidias, vida multiplicada indefinidamente

pela infinidade de affectos; que ha, emfim, que não sonhemos nessa

epocha de fervente loucura? A innocencia morreu, a poesia intima

e crente desbaratou-se, o sentimento religioso esmoreceu; mas

ficam os deleites dos sentidos, que nos embriagam; os applausos

das multidões aos nossos hymnos descorados, que ellas ainda julgam

energicos e brilhantes; applausos que nos desvairam: fica-nos

uma philosophia orgulhosa e insensata, que se crê profunda, uma

sciencia superficial, que se crê completa, pela qual dormimos

tranquillos sobre a negação de todas as idéas mysticas, e de

todas as lembranças de Deus.

Desta idade em diante é que chega o desfazer das illusões, até

das illusões do orgulho. A poesia suave e pura da infancia e da

puberdade passou: passa também o iris das paixões férvidas, das

ambições insaciaveis, da crença na propria energia. Começa então

o pardo crepusculo deste scepticismo, que, semelhante a herpes

lentos, vae lavrando por todas as nossas opiniões e affectos, e

os prostra e subjuga. Desde essa epocha a vida tem largas horas

de tedio, em que o existir é uma carga pesada, porque nos falta

um alicerce em que possamos firmar-nos; porque fluctuamos sobre

as nevoas densas do duvidar de tudo.

O materialismo incredulo já tirou das phases espirituaes dos

altos engenhos argumento contra a immortalidade. Com a sua logica

miope persuadiu-se de que via as enfermidades e a decadencia da

alma acompanharem as enfermidades e a decadencia do corpo; que

via o entendimento cachetico esmorecer com a decrepidez; quiz

que elle na morte ficasse perdido e annullado entre as cinzas

da sepultura. Se o materialismo soubesse que a vida das summas

intelligencias é a poesia, e que essa vida segue a ordem inversa

do desinvolvimento physico; se conhecesse que a energia intima

tem o seu apogeu nos annos debeis da infancia, e começa a

desvanecer-se quando os orgãos se fortalecem, elle não teria

achado a explicação do phenomeno nas suas tristes doutrinas.

Nos destinos eternos dos homens iria encontrar a razão desse

facto, que então veria á sua luz verdadeira. Os olhos da alma

vão-se pouco a pouco ennevoando no meio das trevas do mundo:

nesta atmosphera grosseira e corrupta ella resfolga a custo, e

com o diminuir dos alentos diminuem-se-lhe successivamente os

brios: cada dia lhe desfolha um affecto, lhe discute uma crença,

lhe mata uma esperança, lhe traz um desengano cruel. Entre o

espirito e o mundo partiram-se um a um todos os laços. Vós crêdes

que a mente se definha, e ella apenas dormita para despertar

vigorosa ao sol da eternidade, que rompe atrás do sepulchro.

Tomae-me esse octogenario tonto que foi um alto engenho: cavae

no deserto do seu coração gasto e frio, e arrancae-me de lá uma

daquellas paixões que ardem até o ultimo instante da existencia:

vibrae uma corda das que lhe davam na idade viril um som estridente:

dizei-lhe:--"teu filho querido foi arrastado ao tribunal como

criminoso; espera-o o supplicio se não houver uma voz eloquente

que o defenda: se ella se erguer será salvo; e tu foste na mocidade

o mais eloquente dos homens!"--Dizei-lhe isto, e vereis esse

engenho, que crêdes moribundo, atirar-se como um tigre ao meio

dos juizes, e achar toda a energia dos vinte e cinco annos para

defender aquella vida que a natureza ligou á sua pelas harmonias

mysteriosas da paternidade. Se as palavras, se o orgão extenuado

da linguagem não podér exprimir o pensamento daquella alma remoçada

subitamente, o gesto, o olhar, os meneios substituirão a lingua, e

se cansados e debeis não bastarem á violencia da idéa, o espirito

despedaçará o quasi cadaver, e despedindo-se da terra provará

que, se dormitava, não se extinguia, e que, despertando, partia

o vaso fragil que já não o podia conter.

Tal é o destino da intelligencia neste breve desterro: dous dias

conserva as recordações verdadeiras e puras da sua origem immortal:

outros dous alumia-se ao fogo fatuo das paixões e esperanças:

o resto delles revolve-se na lucta tormentosa das idéas, dos

affectos, dos desenganos: depois vem o dormitar da velhice, e

a regeneração da morte.

Eu, que já vou áquem do marco, onde começa o terceiro periodo da

vida humana, a sós ás vezes com as minhas recordações infantis,

ponho-me a comparar o aspecto prosaico e triste, que tem actualmente

para mim o universo, com as fórmas suaves e poeticas em que elle

me apparecia involto nesses tempos dourados. É uma comparação

amarga; mas a saudade que encerra consola do seu amargor.

Hoje a lua no crescente alevanta-se ao anoitecer de um dia sereno

do estio, e estende o manto de lhama de prata sobre a face levemente

crespa das aguas: os seus raios, transparecendo por entre o

verdenegro das copas do arvoredo, que se balouçam somnolentas,

descem tremulos sobre o chão pardo, e mosqueam-lhe a superficie

como um dorso de panthera. A viração tenuissima da tarde passa

e murmura um cicio quasi imperceptivel na folhagem. Em volta do

circulo alvacento que o luar esparge no ceu, scintillam algumas

estrellas no azul do firmamento, que parece o leito recamado de

saphyras em que se reclina a rainha da noite.

Ha quinze ou vinte annos uma tal noite tinha para mim um sem

numero de mysteriosas harmonias, que eu não sabia explicar, mas

que sabia sentir. Agora sei dizer-vos o que é a lua, a sua luz

refracta, a noite, a viração, o vulto das aguas encrespadas, as

estrellas, e as solidões do espaço; mas o que eu já não sei é

verter lagrymas de ineffavel contentamento, que se me escoavam

tepidas pelas faces ao contemplar as harmonias immateriaes e

intimas, que vagavam pela atmosphera tranquilla, como uns echos

longinquos de harpa angelica, tombando de astro em astro até

se derramarem na terra.

Dae-me uma nota só dos canticos que eu então escutava; dar-vos-hei

em troca toda a minha estupida e inutil sciencia!

Mas essa epocha da vida não voltará mais, porque não póde retroceder

uma unica onda do rio impetuoso do tempo! Depois da taça do mel

esgotada resta a do absinthio. Que se resigne e espere aquelle

que vae devorando os dias da duvida e do desalento. Chegará a

hora de renascer para a poesia e para a certeza: será a da morte.

A Providencia foi ainda generosa comnosco, consentindo-nos que

a espaços affastemos dos labios o calix do fel, e deixando que

nestes momentos rasguem o nosso longo e tedioso crepusculo alguns

raios transitorios de luz. A memoria é o instante de repouso,

e a saudade o clarão suave que nos illumina.

Recordar-se--consolar-se.

* * * * *

I

A ALDEIA E O PRESBYTERIO.

Uma das cousas que nas recordações da juventude ainda espiram

para mim poesia e saudade é a imagem de um velho prior d'aldeia

que conheci na minha meninice. Hoje tão bondosos, tão alegres,

tão veneraveis, ha-os por certo ahi, e muitos: eu é que não sei

conhecê-los. A auréola, que então rodeava as cans do sacerdote

ancião, desvaneceu-se pouco a pouco; desvaneceu-a a experiencia

do mundo, como tantas mil crenças e imaginações de outr'ora!

Elle morreu já, por certo; mas vivo que fosse, eu não sentiria

ao vê-lo, ao falar-lhe, aquella especie de alegria timida, de

confiança receiosa que nesse tempo o bom do velho me inspirava.

Parecia-me que estando ao pé delle estava mais perto de Deus,

cujo valído, por assim dizer, era o padre prior. Não sabia o

sacerdote essa lingua que eu cria falar-se no ceu, o latim, que

então era para mim cousa mysteriosa e sancta? Não trajava ás vezes

os trajos da côrte celeste, o amicto, a casula, o pluvial, com que

estavam vestidos alguns vultos de anjos pintados em tres ou quatro

antiquissimos quadros do presbyterio? Quando nas suas practicas,

depois da missa do dia, narrava os gosos da bemaventurança, os

tormentos do purgatorio, e os tractos intoleraveis do inferno,

não juraria qualquer que elle já peregrinára largos annos além

do sepulchro, ou que voz de cima lhe revelava tantas maravilhas

e tão solemnes terrores? Evidentemente o velho clerigo estava

mais perto dos degraus do throno divino que toda a outra gente,

e, por me servir da linguagem politica, exercia em nome do céu

uma delegação na terra; era uma especie de _missus dominicus_ da

Providencia. E quando elle, apezar dos meus tenros annos, me

escolhia para acolyto, para estafar a porção de latim do missal,

que as rubricas inexoraveis subtrahiam ao seu imperio, sorriam-me

as esperanças, algum tanto vaidosas, de obter de Deus deferimento

ás minhas pretenções infantis, como costumam sorrir ao requerente,

a quem deputado de grande conta mostra familiaridade na presença

de omnipotente ministro.

Hoje o latim do padre prior parecer-me-hia um tanto barbaro,

e talvez barbarissima a sua prosodia: nas vestes sacerdotaes

acharia os trajos romanos do imperio atravessando, immutaveis

como a igreja, por entre as transformações da moda e do luxo;

nos quadros do presbyterio riria da ignorancia e mau gosto do

pobre pintor; e nas descripções das venturas e tormentos da outra

vida descubriria unicamente uma incarnação grosseira em imagens

materiaes das revelações profundas do espiritualismo christão.

É que nesse tempo tudo me chegava aos olhos da alma alumiado,

risonho, variegado, porque tudo transparecia através de um prisma

de sete côres, da innocencia singela e credula da infancia; e hoje

tudo me parece como a folha que cahiu da arvore no outono, murcho

e desbotado, passando através da atmosphera nevoenta e triste da

sciencia e do orgulho. Então o velho parocho affigurava-se-me

mais que um homem; hoje, na escala das desigualdades humanas,

provavelmente só acharia para elle um bem modesto logar.

A aldeia em que o bom do clerigo pastoreava o seu rebanho espiritual

estava assentada na falda de um monte, e pouco inferior a ella

dilatava-se uma veiga, que ao longe, lá bastante ao longe, ía

bater no mar. No alto da povoação ficava o presbyterio. Era a

igreja, segundo hoje se me affigura (e tenho-a bem presente)

daquelle gosto duvidoso entre a architectura christan que expirava,

e a da restauração romana, que ainda se não comprehendia: era

um desses templosinhos construidos nos fins do reinado de D.

Manuel e durante o de D. João III, de que tão grande numero resta

ainda pelas parochias de Portugal, e que são mais um argumento

de que os nobres conquistadores da India, donatarios das terras

e padroeiros das igrejas, não voltavam do oriente com as mãos

vazias. A devoção nesses tempos era um objecto de luxo: edificar

uma igreja ou uma capella equivalia a ter hoje um camarote em S.

Carlos, ou um cocheiro com estrigas de linho na cabeça e chapeu

triangular.

A portada da igreja, de arco tricentrico firmado em pilares

polystylos de meio relevo, era o mais claro testemunho da idade

provecta do presbyterio. A residencia parochial, originariamente

do mesmo estylo, estava já civilisada: uma porta rectangular

substituíra a antiga. Esquadriadas estavam tambem as duas janellas

do sobrado de differentes dimensões, e affastadas uma da outra;

e nos seus postigos da esquerda via-se o moderno conforto das

vidraças. Não quero dizer com este elogio á morada do padre prior

que a igreja tinha resistido, teimosa como um velho caturra, aos

progressos da civilisação. Pelo contrario. Estava mais alindada

ainda. Uma irmandade, ou não sei quem, que entendia na fabrica,

havia pintado de ochre tudo o que era pedra, de vermelhão tudo

o que era azulejo. As camaras municipaes das grandes cidades,

os conegos das collegiadas e sés ainda não passaram do ochre;

e uma pobre irmandade da aldeia já tinha ha vinte annos vencido

a méta a que apenas hoje chegam o municipio e a cathedral.

O que, porém, escapou ao ochre e ao vermelhão dos mesarios do

burgo foram dous seculares e formosos platanos que sombreavam o

portal do presbyterio: na febre amarella, que grassa tão furiosa

pelo senso esthetico dos nossos magistrados populares e das nossas

dignidades ecclesiasticas, admira que tenha esquecido estender o

beneficio da caiadura gemada aos troncos rugosos e carrancudos

das velhas arvores, que rodeiam os edificios ou as praças. Verdade

é que todos os dias alguma desaba sob os golpes do machado. Isto

é melhor: mas porque não haveis de remoçar as que vão escapando

com as lindezas e alegrias canonico-municipaes?

Bellos e veneraveis eram os dous platanos. O adro, cubriam-no

todo com as suas sombras fechadas, e só pela volta da tarde,

principalmente no outono, é que algumas resteas açafroadas do

sol no poente se estiravam por debaixo delles, e lá íam bater

frouxas no limiar da igreja pulído do contínuo perpassar, e na

porta de um vermelho desbotado, onde nesse tempo começavam a

alvejar os remendos brancos com que as revoluções converteram

os áditos dos templos em pelourinhos eleitoraes.

Á entrada do adro alevantava-se uma grande cruz de madeira pintada

de preto, em cuja haste mãos devotas tinham atado um ramo de

flores, e este ramo, no meio do qual havia um pé de perpetuas, era

a imagem das vaidades do mundo ao redor da religião do calvario,

immutavel no meio dellas. As outras flores tinham-nas mirrado os

ardores do estio: só restavam do morto ramilhete as immarcessiveis

perpetuas.

Era n'um poial que servia de base á cruz, onde áquella hora do

pôr do sol o padre prior vinha muitas vezes sentar-se; e alli

estava tempo esquecido, ora alongando os olhos pelas solidões

do mar, que lá em baixo no fundo do extenso valle quebrava nas

rochas, ora traçando attentamente na terra com a sua grande bengala

de castão de marfim diversas figuras, se geometricas não o sei

dizer, porque hoje não creio tanto na geometria do padre prior

como então cria nas suas terriveis revelações do outro mundo

tiradas do _Speculum Vitae_. O que, porém, eu sentia melhor do

que hoje, sem então o saber explicar, era a suave e profunda

poesia que respirava esse quadro do velho sacerdote juncto do

symbolo religioso, áquella luz moribunda da ultima hora do dia,

em que uma curta saudade melancholica vem como percursora da

noite pousar-nos sobre o coração. Não o imaginava nesse tempo,

mas imagino agora por onde vaguearia a mente do velho clerigo em

quanto a bengala ía d'um para outro lado cruzando linhas tortuosas

e incertas. Os ultimos instantes de moribundo, os quaes elle tinha

adoçado com as consolações da fé; a esmola tirada da escassa

congrua para enxugar lagrymas de viuvas e de orphãos; os conselhos

paternaes dados á mocidade, salva assim por elle de largos dias

de remorsos e amargura; os odios convertidos em perdão entre

inimigos; as dissensões domesticas pacificadas pela conciliação

do pastor; todo o bem, emfim, que por trinta ou quarenta annos

elle havia semeado na aldeia, desde as ultimas casinhas de colmo

que alvejavam caiadas na orla pallida dos campos até o altar

do presbyterio, fructificava talvez ante os olhos da sua alma,

n'esses momentos de extasi, em rica seára de esperanças, cujos

fructos enthesourava no céu. Depois, a cruz hasteada juncto delle

lhe viria lembrar o nada das diligencias que empregára, dos

sacrificios que fizera para verter algum balsamo de ventura nas

chagas dolorosas da vida; para remir da perdição as ovelhas

transviadas do pobre rebanho que lhe fôra confiado. A cruz negra

no seu eloquente silencio contava-lhe sacrificios infinitamente

mais arduos que os delle, feitos, não em proveito d'uma aldeia

ou d'um povo, mas para remir o genero-humano. Por isso lhe via

ás vezes deixar pender a fronte calva sobre o peito, e tomar-lhe

o rosto uma expressão singular, inexplicavel nessa epocha para

mim, mas que era o desalento que lhe gerava no espirito a terrivel

comparação das suas acções com as do Suppliciado do Calvario,

ao qual tomára por modelo, e que jurára imitar. Muitas vezes

espantava-me de que se conservasse assim engolfado em seus

pensamentos até que o sino das ave-marias o vinha despertar; e

na minha alegria da infancia, vendo-o tão triste e carrancudo,

pensava comigo, que o padre prior se ía tornando com a idade

tonto e aborrido. Todavia, era que o bom velho nesses momentos

de meditação volvia atraz os olhos para os caminhos da sua vida,

onde esperava achar alguns vestigios brilhantes de obras virtuosas;

mas esses caminhos, sumidos na penumbra da cruz, não os percebia

senão como uma nuvemsinha escura e duvidosa através da luz immortal

das virtudes e dos beneficios do Christo.

Ao tocar, porém, das ave-marias todas aquellas imaginações

desconsoladas, se elle as tinha, como hoje creio, desappareciam

por um movimento habitual do espirito e do corpo; este para se

erguer, aquelle para orar. Sobraçada a bengala, em pé, com as

mãos postas, segurando ao mesmo tempo entre ellas o seu chapéu

de tres ventos, com a cabeça um pouco inclinada para o chão, o

padre prior murmurava em voz baixa aquella tão poetica oração do

despedir do dia. Os trabalhadores, que, voltando das fadigas do

campo, acontecia passarem por ahi nessa occasião, descobriam-se

tambem, e encostando-se ao ancinho ou á enxada punham as mãos e

resavam até que o reverendo, acabando os latinorios, que elles

íam repetindo em vulgar, lhes dizia:--Boas noites, rapazes, vá

a cobrir."--E os ganha-pães cobriam-se, respondendo:--Guarde-o

Deus, padre prior:"--E partiam: e elle assentava-se outra vez a

olhar para o poente, onde o sol, que se affundíra no mar, deixava

entre si e a noite, precipitando-se após elle das alturas do

céu, uma barra de vermelhidão e ouro, que se estirava para um

e outro lado do horisonte como tentando embargar o caminho ás

trevas. E alli estava scismando até que a tia Jeronyma alçava

meia adufa de uma janella baixa, que dava claridade á cozinha,

e o chamava para a ceia, ao que promptamente obedecia, porque

cumpre advertir que o padre prior não só respeitava á carga cerrada

todas as tradições do catholicismo romano, mas tambem a sabedoria

tradicional do povo, que neste capitulo de ceia resa que deve

ser comida sem sol, sem luz, e sem moscas, momento fugitivo do

expirar do dia, que não consta deixasse jámais passar por alto

a boa da tia Jeronyma.

Nunca me ha-de esquecer aquella hora na aldeia, a luz crepuscular

da atmosphera, as gelosias dos aposentos inferiores da residencia

parochial, e a sancta velha da tia Jeronyma que teria proporcionado

mais um capitulo a Chateaubriand sobre a poesia das usanças

christans, se esse illustre escriptor houvesse uma vez saboreado

as filhós que ella compunha para celebrar o Carnaval;--e os seus

bolos da Natividade--e a sua ôlha e o seu anho assado da Paschoa.

Não!--Saudades de tudo isso, durante a minha vida inteira, em

qualquer fortuna, no meio das mais graves cogitações, nunca hei-de

affastar-vos impaciente quando vierdes, como creança travessa,

baralhar-me um periodo de trabalhada prosa, ou aleijar-me com um

verso parvo uma estrophe soffrivel. Vinde, meus amores antigos,

que para vós esta fronte não saberá arrugar-se; esta bôca não

terá esses monosyllabos duros e gelados com que se repellem

importunações d'indifferentes. Vinde, e demorae-vos comigo, e

palrae por uma hora, por um dia, por uma semana, que vos escutarei

sempre sorrindo; e quando fôr ao sol posto, que os ouvidos da

minha alma vos ouçam reproduzir vivas, harmoniosas, melancholicas

as lentas badaladas das ave-marias, não como agora as ouço ás

vezes no meio do ruído confuso, aspero, estridente do povoado,

mas partindo da aldeia ainda deserta dos seus moradores, rolando

pela veiga, espriguiçando-se pelo prado, rumorejando pelas quebradas

da encosta ou pelo pinhal do cabeço, e indo morrer lá muito ao

longe nas toadas duvidosas de uma cantiga de lavadeiras, ou no

tinir das esquillas de um rebanho de ovelhas, que se encaminham

pára o aprisco ao sibilar do pastor. Repeti-m'as assim, puras,

campestres, vibradas n'um ar puro e sonoro, livres por um horisonte

immenso, e ter-me-heis despertado um affecto consolador, o qual

valerá mais que todas as ambições, que todos os contentamentos,

que todas as esperanças do mundo.

Tem-se discutido os sinos, como se discute quanto ha no universo.

Desde a existencia objectiva ou material deste mundo até a

legitimidade do chocalho pendurado ao pescoço da cabra retouçando

pelas ruas de qualquer capital, que resta ainda ahi para se lhe

trazerem á praça os prós e os contras? Das definições possiveis

do homem uma só é verdadeira: o homem é o animal que disputa. Os

sinos têem tido amigos e inimigos: e porquê? Pela mesma razão

porque sobre tudo ha duas opiniões contradictorias. É que tudo

tem duas faces diversas. O vento sul é meigo para a arvore que

veceja no recosto septentrional da montanha, e açoute da que

vegeta no pendor opposto: o norte é o supplicio da primeira,

e grato para a segunda. N'isto está cifrada a historia das

contradicções humanas.

Os sinos, collocados em campanario de parochia aldeian, ou de

mosteiro solitario, são uma cousa poetica e sancta: os sinos,

pendurados nas torres garridas de garridissimas igrejas das cidades

de hoje, são uma cousa estupida e mesquinha. O sino é um instrumento

accorde com as vastas harmonias das serras e dos descampados.

Assim como o orgão foi feito para reboar pelas arcarias profundas

de uma cathedral gothica, para vibrar na atmosphera mal alumiada

pelas frestas estreitas e ogivaes, do mesmo modo o sino foi

perfilhado pelo christianismo para convocar os seus humildes

sectarios occupados nos trabalhos campestres. Quando se associou

o sino ao culto? Ignoramo-lo: ignoramo-lo, porque foi a religião

serva e perseguida que o sanctificou: e quando os poderosos da

terra a acceitaram para si, então entrou elle nas cidades soberbas.

Lá converteu-se n'uma cousa insignificante e impertinente. É mais

um ruído intoleravel para ajunctar aos outros ruídos discordes

que troam por essas ruas e praças. O sino, tornado cortesão e

fidalgo, é semelhante ao orgão trazido para o aposento do baile,

ou, o que vale quasi o mesmo, para essas salas ao divino, bonitas,

vaidosas, douradinhas, que insensatos edificam para as admirações

de parvos.

Lendas e Narrativas (Tomo II) · 第 4 / 14 段