Trinta fidalgos, flor da cavallaria, corriam á redea solta pelas

campinas de Béja; trinta, não mais, eram elles; mas orçavam por

trezentos os homens d'armas, escudeiros e pagens que os acompanhavam.

Entre todos avultava em robustez e grandeza de membros o Lidador,

cujas barbas brancas lhe ondeavam como frocos de neve sobre o

peitoral da cota d'armas, e o terrivel Lourenço Viegas, a quem

pelos espantosos golpes da sua espada chamavam o Espadeiro. Era

formoso espectaculo e esvoaçar dos balsões e signas, fóra de suas

fundas, e soltos ao vento, o scintillar das cervilheiras, as

cores variegadas das cotas, e as ondas de pó, que se alevantavam

debaixo dos pés dos ginetes, como as alevanta o bulcão de Deus,

varrendo a face da campina resequida, em tarde ardente de verão.

Ao largo, muito ao largo, dos muros de Béja vai a atrevida cavalgada

em demanda dos mouros; e no horisonte não se vêem senão os topos

pardo-azulados das serras do Algarve, que parece fugirem tanto

quanto os cavalleiros caminham. Nem um pendão mourisco, nem um

albornoz branco alveja ao longe sobre um cavallo murzello. Os

corredores christãos volteiam na frente da linha dos cavalleiros,

correm, cruzam para um e outro lado, embrenham-se nos matos, e

transpõem-nos em breve; entram pelos cannaviaes dos ribeiros;

apparecem, somem-se, tornam a saír ao claro: mas no meio de tal

lidar apenas se ouve o trote compassado dos ginetes, e o grito

monotono da cigarra, pousada nos raminhos da giesteira.

A terra que pisam é já de mouros; é já além da frontaria. Se

olhos de cavalleiros portuguezes soubessem olhar para trás indo

em som de guerra, os que para trás de si os volvessem a custo

enxergariam Béja. Bastos pinhaes começavam já a cobrir mais ondeado

territorio, cujos outeirinhos aqui e alli se alteavam suaves como

seio de virgem em viço de mocidade. Pelas faces tostadas dos

cavalleiros cobertos de pó corria o suor em bagas, e os ginetes

alagavam de escuma as redes de ferro acaireladas de ouro, que

os defendiam. A um signal do Lidador a cavalgada parou; era

necessario repousar, que o sol ía no zenith e abrazava a terra:

descavalgaram todos á sombra de um azinhal, e sem desenfrear os

ginetes deixaram-nos pascer alguma relva, que crescia nas bordas

de um arroio vizinho.

Tinha passado meia hora: por mandado do velho Fronteiro de Béja

um almogavar montou a cavallo, e aproximou-se á rédea solta de

uma selva extensa, que corria á mão direita: pouco, porém, correu;

uma frecha despedida dos bosques sibilou no ar: o almogavar gritou

por Jesus: a frecha tinha-se-lhe embebido no lado: o cavallo

parou de repente, e elle, erguendo os braços ao ar com as mãos

abertas, cahiu de bruços, tombando para o chão, e o ginete partiu

desenfreado através das veigas, e desappareceu na selva. O almogavar

dormia o ultimo somno dos valentes em terra de inimigos, e os

cavalleiros da frontaria de Béja viram o seu trance do repousar

eterno.

"A cavallo! a cavallo!"--bradou a uma voz toda a lustrosa companhia

do Lidador; e o tinido dos guantes ferrados, batendo na cobertura

de malha dos ginetes, soou unisono, quando todos os cavalleiros

cavalgaram de um pulo: e os ginetes rincharam de prazer, como

aspirando os combates.

Uma grita medonha troou ao mesmo tempo além do pinhal da

direita.--"Allah! Almoleimar!"--era o que dizia a grita.

Enfileirados em uma longa linha, os cavalleiros arabes saíram á

rédea solta de trás da escura selva que os encubria: o seu numero

excedia cinco vezes o dos soldados da cruz: as suas armaduras

lisas e polidas contrastavam com a rudeza das dos christãos,

apenas defendidos por pesadas cervilheiras de ferro, e por grossas

cotas de malha do mesmo metal: mas as lanças destes eram mais

robustas, e as suas espadas mais volumosas do que as cimitarras

mouriscas. A rudeza e a força da raça gothico-romana íam ainda

mais uma vez provar-se com a destreza e com a perícia arabes.

4

Como uma longa fita de muitas côres, recamada de fios d'ouro, e

reflectindo ao longe mil accidentes de luz, a extensa e profunda

linha dos cavalleiros mouros sobresaía na veiga entre as searas

pallidas que cubriam o campo: defronte delles os trinta cavalleiros

portuguezes, com trezentos homens d'armas, pagens, e escudeiros

cubertos dos seus escuros involtorios, e lanças em riste, esperavam

o brado de accommetter. Quem visse aquelle punhado de christãos,

diante da copia d'infiéis que os esperavam, diria que, não com

brios de cavalleiros, mas com fervor de martyres, se offereciam

a desesperado trance. Porém, não pensava assim Almoleimar, nem os

seus soldados, que bem conheciam a têmpera das espadas e lanças

portuguezas, e a rijeza dos braços que as meneavam. De um contra

dez devia ser o eminente combate; mas se havia ahi algum coraçâo

que batesse descompassado, algumas faces descoradas, não era

entre os companheiros do Lidador que tal coração batia ou que

taes faces descoravam.

Pouco a pouco a planura que separava as duas hostes tinha-se

embebido debaixo dos pés dos cavallos, como no torculo se embebe

a folha de papel saindo para o outro lado convertida em estampa

primorosa. As lanças iam feitas: o Lidador bradára Sanctiago; e

o nome de Allah soára em um só grito por toda a fileira mourisca.

Encontraram-se! Duas muralhas fronteiras, balouçadas por violento

terremoto, desabando, não fariam mais ruido, ao bater em pedaços

uma contra a outra, que este recontro de infiéis e christãos: as

lanças topando em cheio nos escudos tiravam delles um som profundo,

que se misturava com o estalar das que voavam despedaçadas. Do

primeiro encontro muitos cavalleiros vieram ao chão: um mouro

robusto foi derribado por Mem Moniz, que lhe falsou as armas,

e traspassou o peito com o ferro de sua grossa lança.

Deixando-a depois cahir, o velho desembainhou a espada, e gritou

ao Lidador, que perto delle estava:

"Senhor Gonçalo Mendes, alli tendes, no peito daquelle perro,

aberta a séteira por onde eu, velha dona assentada á lareira,

costumo vigiar a chegada de inimigos, para lhes ladrar como alcateia

de villãos do cimo da torre de menagem."

O Lidador não lhe pôde responder. Quando Mem Moniz proferia as

ultimas palavras, elle topára em cheio com o terrivel Almoleimar.

As lanças dos dous contendores haviam-se feito pedaços, e o alfange

do mouro cruzou-se com a boa toledana do Fronteiro de Béja.

Como duas torres de sete seculos, cujo cimento o tempo petrificou,

os dous capitães inimigos estavam um defronte do outro, firmes

em seus possantes cavallos: as faces pallidas e enrugadas do

Lidador tinham ganhado a immobilidade que dá, nos grandes perigos,

o habito de os affrontar: mas no rosto de Almoleimar divisavam-se

todos os signaes de um valor colerico e impetuoso. Cerrando os

dentes com força, descarregou um golpe tremendo sobre o seu

adversario: o Lidador recebeu-o no escudo, onde o alfange se

embebeu inteiro, e procurou ferir Almoleimar entre o fraldão e

a couraça; mas a pancada falhou, e a espada desceu, faiscando,

pelo coxote do mouro, que já desencravára o alfange. Tal foi a

primeira saudação dos dous cavalleiros inimigos.

"Brando é o teu escudo, velho infiel; mais bem temperado é o

metal do meu arnez. Veremos agora se na tua touca de ferro se

embotam os fios deste alfange."

Isto disse Almoleimar, dando uma risada; e a cimitarra bateu

em cima da cervilheira do Lidador com a mesma violencia com que

bate no fundo do valle penedo desconforme desprendido do pincaro

da montanha.

O Fronteiro vacillou, deu um gemido, e os braços ficaram-lhe

pendentes: a espada ter-lhe-hia cahido no chão, se não estivesse

presa ao punho do cavalleiro por uma cadeia de ferro: o ginete,

sentindo as redeas frouxas, fugiu um bom pedaço pela campanha

a todo o galope.

Mas o Lidador tornou a si: uma forte soffreada avisou o ginete

de que seu senhor não morrêra. Á redea solta lá volta o Fronteiro

de Béja; escorre-lhe o sangue, involto em escuma, pelos cantos

da bôca: traz os olhos torvos de ira: ai de Almoleimar!

Semelhante ao vento de Deus, Gonçalo Mendes da Maia passou por

entre christãos e mouros: os dous contendores viram-se, e, como

o leão e o tigre, correram um para o outro: as espadas reluziram

no ar: mas o golpe do Lidador era simulado, e o ferro, mudando

de movimento no ar, foi bater de ponta no gorjal de Almoleimar,

que cedeu á violenta estocada; e o sangue, saindo ás golfadas,

cortou a ultima maldicção do agareno.

Mas a espada deste tambem não errára o golpe: vibrada com ancia,

colhêra pelo hombro esquerdo o velho Fronteiro, e, rompendo a

grossa malha do lorigão, penetrára na carne até o osso; e ainda

mais uma vez a mesma terra bebeu nobre sangue godo misturado

com sangue arabe.

"Perro maldicto! Sabe lá no inferno que a espada de Gonçalo Mendes

é mais rija que a sua cervilheira."

E, dizendo isto, o Lidador cahiu amortecido: um dos seus homens

de armas voou a soccorre-lo; mas o ultimo golpe d'Almoleimar

fôra o brado da sepultura para o fronteiro de Béja: os ossos do

hombro do bom velho estavam como triturados, e as carnes rasgadas

pendiam-lhe para um e outro lado involtas nas malhas descosidas

do lorigão.

5

Entretanto os mouros íam de vencida: Mem Moniz, D. Ligel, Godinho

Fafes, Gomes Mendes Gedeão, e os outros cavalleiros daquella

lustrosa companhia tinham practicado maravilhosas façanhas. Mas

entre todos tornava-se notavel o Espadeiro. Com um pesado montante

nas mãos, cuberto de pó, suor e sangue, pelejava a pé; que o

seu agigantado ginete cahíra morto de muitos tiros de frecha e

lançadas. De roda delle não se viam senão cadaveres e membros

destroncados, por cima dos quaes trepavam, para logo recuarem

ou baquearem no chão, os mais ousados cavalleiros arabes. Como

um promontorio de escarpados alcantis, Lourenço Viegas estava

immovel e sobranceiro no meio do embate daquellas vagas de

pelejadores, que vinham desfazer-se contra o terrivel montante

do filho de Egas Moniz.

Quando o Fronteiro cahiu, o grosso dos mouros fugia já para alem

do pinhal; mas os mais valentes pelejavam ainda á roda do seu

capitão mal ferido. O Lidador tinha sido posto em cima d'umas andas,

feitas de troncos e franças de arvores; e quatro escudeiros, que

restavam vivos dos dez que comsigo trouxera, o haviam transportado

para a caga da cavalgada. O tinir dos golpes era já mui frouxo,

e sumia-se no som dos gemidos, pragas, e lamentos, que soltavam

os feridos derramados pela veiga ensanguentada. Se os mouros,

porém, levavam, fugindo, vergonha e damno, a victoria não saíra

barata aos portuguezes. Viam perigosamente ferido o seu velho

capitão, e tinham perdido alguns cavalleiros de conta, e a maior

parte dos homens de armas, escudeiros e pagens.

Foi n'este ponto, que ao longe se viu erguer uma nuvem de pó,

que voava rapida para o logar da peleja: mais perto, aquelle

turbilhão rareou, vomitando do seio um basto esquadrão de arabes;

os mouros que fugiam, deram volta e gritaram:

"Ali-Abu-Hassan! Só Deus é Deus, e Mohammed o seu propheta!"

Era, com effeito, Ali-Abu-Hassan, rei de Tangere, que estava

com seu exercito sobre Mertola, e que viera com mil cavalleiros

em soccorro de Almoleimar.

6

Cansados do largo combater, reduzidos a menos de metade em numero,

e cubertos de feridas, os cavalleiros de Christo invocaram o seu

nome, e fizeram o signal da cruz. O Lidador perguntou com voz

fraca a um pagem, que estava ao pé das andas, que nova revolta

era aquella.

"Os mouros foram soccorridos por um grosso esquadrão:--respondeu

tristemente o pagem.--A Virgem Maria nos acuda, que os senhores

cavalleiros parece recuarem já."

O Lidador cerrou os dentes com força, e levou a mão á cincta.

Buscava a sua boa toledana.

"Pagem, quero um cavallo. Onde está a minha espada?

"Aqui a tenho, senhor. Mas estaes tão quebrado de forças!...."

"Silencio! A espada, e um bom ginete."

O pagem deu-lhe a espada, e foi pelo campo buscar um ginete,

dos muitos que andavam já sem dono. Quando voltou com elle, o

Lidador, pallido e cuberto de sangue, estava em pé, e dizia,

falando comsigo:

"Por Sanctiago, que não morrerei como villão de Behetria, onde

entrou cavalgada de mouros!"

E o pagem ajudou-o a montar a cavallo.

Ei-lo vae o velho Fronteiro de Béja! Semelhava um espectro erguido

de pouco em campo de finados: debaixo de muitos pannos involtos

no braço e hombro esquerdo levava a propria morte; nos fios da

espada, que a mão direita mal sustinha, levava porventura ainda

a morte de muitos outros!

7

Para onde mais travada e accesa andava a peleja se encaminhou

o Lidador. Os christãos affrouxavam diante daquella multidão

d'infiéis, entre os quaes mal se enxergavam as cruzes vermelhas

pintadas nas cimeiras dos portuguezes. Dous cavalleiros, porém, com

vulto feroz, os olhos turvados de colera, e as armaduras crivadas

de golpes, sustinham todo o peso da batalha. Eram estes o Espadeiro

e Mem Moniz. Quando o Fronteiro assim os viu offerecidos a certa

morte, algumas lagrymas lhe cahiram pelas faces, e esporeando

o ginete, com a espada erguida abriu caminho por entre infiéis

e christãos, e chegou aonde os dous, cada um com seu montante

nas mãos, faziam larga praça no meio dos inimigos.

"Bem vindo, Gonçalo Mendes!--disse Mem Moniz.--Quizeste assistir

comnosco a esta festa de morte? Vergonha era, de feito, que

estivesses fazendo teu passamento, com todo o repouso, deitado

lá na çaga, em quanto eu, velha dona, espreito os mouros com

meu sobrinho juncto desta lareira...."

"Implacaveis sois vós outros, cavalleiros de Riba-Douro,"--respondeu

o Lidador em voz sumida,--"que não perdoaes uma palavra sem malicia.

Lembra-te Mem Moniz de que bem depressa estaremos todos diante

do justo juiz."

"Velhos sois; bem o mostraes!"--acudiu o Espadeiro.--"Não cureis de

vans porfias, mas de morrer como valentes. Demos nestes perros,

que não ousam chegar-se a nós. Ávante, e Sanctiago!"

"Ávante, e Sanctiago!"--responderam Gonçalo Mendes e Mem Moniz:

e os tres cavalleiros deram rijamente nos mouros.

8

Quem hoje ouvir recontar os bravos golpes que no mez de Julho

de 1170 se deram na veiga da frontaria de Béja, nota-los-ha de

fabulas sonhadas; porque nós homens corruptos e enfraquecidos

por ocios e prazeres de vida afeminada, medimos por nosso animo

e forças as forças e o animo dos bons cavalleiros portuguezes

do seculo doze; e todavia esses golpes ainda soam através das

eras nas tradições e chronicas, tanto christans como agarenas.

Depois de deixar assignadas muitas armaduras mouriscas, o Lidador

vibrára pela ultima vez a espada, e abríra o elmo e o craneo

de um cavalleiro arabe. O violento abalo que soffreu, fez-lhe

rebentar em torrentes o sangue da ferida, que recebêra das mãos de

Almoleimar, e cerrando os olhos, cahiu morto ao pé do Espadeiro,

de Mem Moniz, e de Affonso Hermigues de Bayão, que com elles se

ajunctára. Repousou finalmente Gonçalo Mendes da Maia de oitenta

annos de combates!

Já a este tempo christãos e mouros se haviam descido dos cavallos,

e pelejavam a pé. Traziam-se assim á vontade, e recrescia a crueza

da batalha. Entre os cavalleiros de Béja espalhou-se logo a nova da

morte do seu capitão, e não houve ahi olhos que ficassem enxutos.

O despeito do proprio Mem Moniz deu logar á dor, e o velho de

Riba-Douro exclamou entre soluços:

"Gonçalo Mendes, és morto! Nós todos quantos aqui somos, não

tardará que te sigamos; mas ao menos, nem tu nem nós ficaremos

sem vingança!"

"Vingança!"--bradou o Espadeiro, com voz rouca, e rangendo os

dentes. Deu alguns passos, e viu-se o seu montante reluzir como

uma centelha em céu procelloso.

Era Ali-Abu-Hassan: Lourenço Viegas o conhecêra pelo timbre real

do morrião.

9

Se já vivestes vida de combates em cidade sitiada, tereis visto

muitas vezes um vulto negro, que em linha diagonal corta os ares,

sussurrando e gemendo. Rapido, como um pensamento criminoso em

alma honesta, elle chegou das nuvens á terra, antes que vos

lembrasseis do seu nome. Se encontrou na passagem angulo de torre

secular, o marmore converte-se em pó; se atravessou pelas ramas

de arvore basta e frondosa, a folha mais virente e fragil, o

raminho mais tenro é dividido, como se com cutelo subtilissimo

mão de homem lhe houvera cerceado attentamente uma parte: e,

todavia, não é um ferro açacalado: é um globo de ferro; é a bomba,

que passa, como a maldicção de Deus. Depois, debaixo della o

chão achata-se, e a terra espadana aos ares; e como agitada,

despedaçada por cem mil demonios, aquella machina do inferno

estoura, e de roda della ha um zumbir sinistro: são mil fragmentos;

são mil mortes que se derramam ao longe. Então faz-se um grande

silencio, e após o silencio vêem-se corpos destroncados, poças

de sangue, arcabuzes quebrados, e ouve-se o gemer dos feridos

e o estertor de moribundos....

Tal desceu o montante do Espadeiro, bôto já de milhares de golpes,

que o cavalleiro tinha descarregado. O elmo de Ali-Abu-Hassan

faiscou, voando em pedaços pelos ares, e o ferro christão,

esmigalhando o craneo do infiél, abriu-o até os dentes.

Ali-Abu-Hassan cahiu.

"Lidador! Lidador!"--disse Lourenço Viegas, com voz comprimida.

As lagrymas misturavam-se-lhe nas faces com o suor, o pó, e o

sangue do agareno, de que ficou coberto. Não pôde dizer mais

nada.

Tão espantoso golpe aterrou os mouros: os portuguezes seriam já

apenas sessenta entre cavalleiros e homens d'armas; mas pelejavam

como desesperados, e resolvidos a morrer. Mais de mil inimigos

juncavam o campo de involta com os christãos. A morte de

Ali-Abu-Hassan foi o signal da fugida.

Os portuguezes, senhores do campo, celebravam com prantos a victoria.

Poucos havia que não estivessem feridos; nenhum que não tivesse

as armas falsadas e rotas. O Lidador e os demais cavalleiros de

grande conta, que naquella jornada tinham acabado, atravessados em

cima de ginetes foram conduzidos a Béja. Após aquelle tristissimo

prestito íam os cavalleiros a passo lento, e um sacerdote templario,

que fôra na cavalgada, com a espada cheia de sangue mettida na

bainha, psalmeava em voz baixa aquellas palavras do livro da

Sabedoria:

"_Justorum autem animæ in manu Dei sunt, et non tanget illos tormentum

mortis._"

* * * * *

O PAROCHO DA ALDEIA

(1825)

PROLOGO.

Como a philosophia é triste e arida! Ás vezes, na primavera,

o vento norte atira-se pelas encostas, tombando dos visos da

serra, como se uma intelligencia vivesse n'elle, intelligencia

de maldade e destruição. De noite e de dia os troncos das arvores

torcem-se e gemem, as ramas açoutam-nos, e despedaçam-se involtas

nos braços longos e flexiveis da ventania: o demonio do septentrião

sibilla no meio dellas um zumbido entre de lamento e d'escarneo.

Debalde o bosque estende saudoso por um momento os seus mais altos

raminhos para o sol que se vae alevantando no oriente: a rajada

despega de novo da cumiada da montanha; o bosque curva-se para o

meio-dia; e galgando por cima daquellas mil frontes inclinadas

das plantas gigantes, das rainhas magestosas da vegetação, os

turbilhões da atmosphera agitada rolam pela planicie coberta

já de relva entresachada das primeiras florinhas. Então, relva

e florinhas murcham-se esmagadas pelas mãos da procella, que

tudo alcançam, fustigam e desbaratam. Os carvalhos frondosos e

as boninas rasteiras, com a fronte pendida para a terra, como

outros tantos symbolos do desalento, não ousam ergue-la para o

céu. É que, rugindo, a rajada cahe da montanha em perenne catadura.

Ás vezes, como por brinco infernal, o vento finge adormecer um

instante, e depois remoinha e apruma os topos das arvores e as

corolas das flores, mas é para logo as vergar com mais força,

e apupar com o silvo insolente aquella rapida esperança, que

se desvaneceu tão breve.

E quando o vento acalma é para saltar ao ponente ou ao sul. A

rajada já não silva da montanha: uma bafagem tepida vem da banda

do mar; mas o ceu está toldado e o ar humido: o dia passa

melancholico e pesado sobre a bonina que a nortada açoutou: ella

não pôde saudar o sol no oriente: está pendida e murcha como a

ventania a deixára. A noite vem encontra-la n'uma especie de

torpor, que é existir, mas que não é vegetar, e ainda menos viver.

Como a florinha do campo a alma por onde passou a procella da

philosophia, esse turbilhão transitorio de doutrinas, de systemas,

de opiniões, de argumentos, pende desanimada e triste; e na claridade

baça do septicismo, que torna pesada e fria a atmosphera da

intelligencia, não póde aquecer-se aos raios esplendidos do sol

de uma crença viva.

Com Kant o universo é uma duvida: com Locke é duvida o nosso

espirito: e n'um destes abysmos vem precipitar-se todas as

philosophias.

A arvore da sciencia, transplantada do Eden, trouxe comsigo a

dor, a condemnação e a morte: mas a sua peior peçonha guardou-se

para o presente: foi o scepticismo.

Feliz a intelligencia vulgar e rude, que segue os caminhos da vida

com os olhos fitos na luz e na esperança postas pela religião além

da morte, sem que um momento vacille, sem que um momento a luz se

apague ou a esperança se desvaneça! Para ella não ha abraçar-se

com a cruz em impeto de agonia, e clamar a Jesus:--"Creio, creio,

oh Nazareno! Creio em ti, porque a tua moral é sublime; porque

eras humilde e virtuoso; porque filho da raça soffredora e austera

chamada o povo, eras meu irmão, e não podias, tão bom, tão singelo,

tão puro enganar teu pobre irmão. Creio, creio, oh Nazareno! porque

até a hora do expirar na ignominia, até a hora da grande prova,

nunca desmentiste a tua doutrina. Creio, creio, oh Nazareno!

porque tu só nos explicaste o mysterio desta associação monstruosa

da saude e do ouro, do poderio e dos crimes a um lado; a da

enfermidade e da pobreza, da servidão e da innocencia a outro;

porque nos explicaste como os destinos humanos se compensavam além

do sepulchro. Creio, creio, oh Nazareno! porque só tu soubeste

revelar a consolação á extrema miseria sem horisonte, e os terrores

á completa felicidade sem termo na vida, collocando no logar do

destino a providencia, e do nada a immortalidade! Creio, creio,

oh Nazareno! porque a intensidade do teu viver é um impossivel

humano; a victoria da tua doutrina severa contra a philosophia e

o paganismo um milagre; a gloria do teu nome de suppliciado maior

que todas as glorias das mais altas e virtuosas intelligencias

do mundo. Mas foste, na verdade, um Deus?"

Não, o animo vulgar que nunca vacillou na fé, que nunca discutiu

o Verbo, nunca julgou o Christo, possuido do insensato orgulho

da sciencia, esse não sabe a dolorosa oração do que pede a Deus

o crer; ignora quanto fel encerra a interrupção contínua de cada

phrase, de cada palavra daquelle tormentoso orar; ignora o que

é atirar-se aos pés da cruz por um impulso quasi phrenetico do

coração, sentir a voz gelida, pesada, cruel do entendimento dizer-lhe

tranquillamente--_quem sabe!_"--e cahir desanimado no lethargo da

duvida, d'onde muitas vezes bem tarde se alevanta o espirito,

opprimido e quebrado, porque nelle pelejaram horas largas o instincto

religioso e o demonio implacavel a que chamam sciencia.

A sociedade é bem injusta quando ás faces do desgraçado, que

assim lucta comsigo mesmo, sacode o lodo da injuria, dizendo-lhe:

--hypocrita!--porque escondeu aos que o rodeiam, não as certezas,

que não as tem, mas as duvidas terriveis da intelligencia, e lhes

revelou só as inspirações, os desejos, as saudades do coração!

--Hypocrita?! Tanto como o que, havendo-se transviado da estrada

e cahido em fojo profundo, dorido, coberto de pisaduras e feridas,

e ensanguentando as mãos e o rosto nas urzes do despenhadeiro,

lidasse por saír delle e voltar ao caminho suave e plano, e bradasse

aos que visse ao longe:--"não vos affasteis para aqui!"--Hypocritas

são aquelles que mentem aos que os escutam; que simulam a paz do

descrer tranquillo, quando vae lá dentro o tumultuar das incertezas.

Como Satanaz elles dizem que o inferno é o ceu; dizem que a

irreligiosidade tem o segredo do repouso e da ventura, quando o que

ella dá é inquietação e desesperança.

Feliz a alma vulgar e rude que crê, e nem sequer sabe que a duvida

existe no mundo! Está certa de que além da morte ha vida; conhece

as suas condições; conhece-as como lh'as ensinaram, como conhece

as condições dos corpos. Para ella as noites não tem os pesadellos

monstruosos, nem os dias as meditações febris em que o sceptico

involuntario se debate na orla do possivel, que toca por um lado

nas solidões do nada, por outro na immensidade de Deus.

Lendas e Narrativas (Tomo II) · 第 3 / 14 段