"Quê? D. Bernardo amaldiçoaria aquelle a quem deve o bago pontifical;

aquelle que o alevantou do nada? Vós, bispo de Coimbra,

excommungarieis o vosso principe, porque elle não quer pôr a

risco a liberdade desta terra remida das oppressões do senhor

de Trava, e do jugo do rei de Leão; desta terra que é só minha

e dos cavalleiros portuguezes?"

"Tudo vos devo, senhor,--atalhou o bispo--salvo minha alma que

pertence a Deus, minha fé que devo a Christo, e a minha obediencia

que guardarei ao papa."

"D. Bernardo! D. Bernardo!--disse o principe suffocado em

colera--lembrae-vos de que affronta que se me fizesse, nunca ficou

sem paga!"

"Quereis, senhor infante, soltar vossa mãe?"

"Não! Mil vezes não!"

"Guardae-vos!"

E o bispo saíu sem dizer mais palavra. Affonso Henriques ficou

pensativo por algum tempo; depois falou em voz baixa com Lourenço

Viegas o Espadeiro, e encaminhou-se para a sua camara. D'ahi a

pouco o alcacer de Coimbra jazia, como o resto da cidade, no

mais profundo silencio.

3

Pela alvorada, muito antes de romper o sol no dia seguinte, Lourenço

Viegas passeava com o principe na sala d'armas do paço mourisco.

"Se eu proprio o vi, montado na sua boa mula, ir lá muito ao longe,

caminho da terra de Sancta Maria[2]! Na porta da sé estava pregado

um pergaminho com larga escriptura, que, segundo me affirmou um

clerigo velho que ahi chegára quando eu olhava para aquella carta,

era o que elles chamam o interdicto.--Isto dizia o Espadeiro,

olhando para todos os lados, como quem receiava que alguem o

ouvisse.

"Que receias, Lourenço Viegas? Dei a Coimbra um bispo que me

excommunga, porque assim o quiz o papa: dar-lhe-hei outro que

me absolva, porque assim o quero eu. Vem comigo á sé. Bispo D.

Bernardo, tarde será o arrepender-te da tua ousadia!"

D'alli a pouco as portas da sé estavam abertas, porque o sol

era nado, e o principe, acompanhado de Lourenço Viegas e de dous

pagens, atravessava a igreja, e dirigia-se á crasta, onde ao

som de campa tangida tinha mandado ajunctar o cabido, com pena

de morte para o que ahi faltasse.

4

Solemne era o espectaculo que apresentava a crasta da sé de Coimbra.

O sol dava com todo o brilho de manhan purissima por entre os

pilares que sustinham as abobadas dos cubertos, que cercavam o

pateo interior. Ao longo desses cubertos caminhavam os conegos

com passos lentos, e as largas roupas ondeavam-lhes ao bafo suave

do vento matutino. No topo da crasta estava o principe em pé,

encostado ao punho da espada, e um pouco atras delle Lourenço

Viegas e os dous pagens. Os conegos íam chegando, e formavam

um semicirculo a pouca distancia d'elrei, em cuja cervilheira

de malha de ferro ferviam buliçosos os raios do sol.

Toda a clerezia da sé estava alli apinhada, e o principe, sem

dar palavra e com os olhos fitos no chão, parecia involto em

fundo pensar. O silencio era completo.

Por fim Affonso Henriques ergueu o rosto carrancudo e ameaçador,

e disse:

"Conegos da sé de Coimbra, sabeis a que vem aqui o infante de

Portugal?"

Ninguem respondeu palavra.

"Se o não sabeis, dir-vo-lo-hei eu,--proseguiu o principe:--vem

assistir á eleição do bispo de Coimbra."

"Senhor, bispo havemos. Não cabe ahi nova eleição--disse o mais

velho e auctorisado dos conegos que estavam presentes, e que

era o _adayão_.

"Amen:--responderam os outros.

"Esse que vós dizeis;--bradou o infante, cheio de colera--esse

jamais o será. Tirar-me quiz elle o nome de filho de Deus; eu

lhe tirarei o nome de seu vigario. Juro que nunca em meus dias

porá D. Bernardo pés em Coimbra: nunca mais da cadeira episcopal

ensinará um rebelde a fé das sanctas escripturas! Elegei outro:

eu approvarei vossa escolha."

"Senhor, bispo havemos. Não cabe ahi nova eleição:--repetiu o

adayão.

"Amen:"--responderam os mais.

O furor de Affonso Henriques subiu de ponto com esta

resistencia:--"Pois bem!"--disse elle, com a voz presa na garganta,

depois de um olhar terrivel que lançou pela assembléa, e de alguns

momentos de silencio.--"Pois bem! Saí d'aqui, gente orgulhosa e

má! Saí, vos digo eu. Alguem por vós elegerá um bispo..."

Os conegos, fazendo profundas reverencias, encaminharam-se para

as suas cellas, ao longo das arcarias da crasta.

Entre os que alli se achavam, um negro, vestido de habitos clericaes,

tinha estado encostado a um dos pilares, observando aquella scena:

os seus cabellos revoltos contrastavam pela alvura com a pretidão

da tez. Quando o principe falava, elle sorria-se e meneava a

cabeça como quem approvava o dicto. Os conegos começavam a

retirar-se, e o negro ía apoz elles. Affonso Henriques fez-lhe

um signal com a mão. O negro voltou para trás.

"Como has nome?"--perguntou-lhe o principe.

"Senhor, hei nome Çolleima.[3]"

"És bom clerigo?[4]"

"Na companhia não ha dous que sejam melhores."

"Bispo serás, D. Çolleima. Vae tomar teus guisamentos, que hoje

me cantarás missa."

O clerigo recuou: naquella face tisnada viu-se uma contracção

de susto.

"Missa não vos cantarei eu, senhor:--respondeu o negro com voz

trémula;--que para tal auto não tenho as ordens requeridas."

"D. Çolleima, repara bem no que te digo! Sou eu que te mando

vás vestir as vestiduras de missa. Escolhe: ou hoje tu subirás

os degraus do altar-mór da sé de Coimbra, ou a cabeça te descerá

de cima dos hombros, e rolará pelas lageas deste pavimento."

O clerigo curvou a fronte.

"_Kirie-eleyson ... Kirie-eleyson ... Kirie-eleyson!_"--garganteava

d'ahi a pouco D. Çolleima, revestido dos habitos episcopaes,

juncto ao altar da capella-mór. O infante Affonso Henriques, o

Espadeiro e os dous pagens, de joelhos, ouviam missa com profunda

devoção.

5

Era noite. Em uma das salas mouriscas dos nobres paços de Coimbra

havia grande sarau. Donas e donzellas, assentadas ao redor do

aposento, ouviam os trovadores repetindo ao som da viola e em

tom monotono suas magoadas endechas, ou folgavam e riam com os

arremedilhos satyricos dos truões e farcistas. Os cavalleiros em

pé, ou falavam de aventuras amorosas, de justas e de bofordos,

ou de fossados e lides por terras de mouros fronteiros. Para um

dos lados, porém, entre um labyrintho de columnas, que davam

saída para uma galeria exterior, quatro personagens pareciam

entretidas em negocio mais grave do que os prazeres de noite de

folguedo o permittiam. Eram estas personagens Affonso Henriques,

Gonçalo Mendes da Maia, Lourenço Viegas, e Gonçalo de Sousa o

Bom. Os gestos dos quatro cavalleiros davam mostras de que elles

estavam vivamente agitados.

"É o que affirma, senhor, o mensageiro--dizia Gonçalo de Sousa--que

me enviou o abbade do mosteiro de Tibães, onde o cardeal dormiu

uma noite para não entrar em Braga. Dizem que o papa o envia

a vós, porque vos suppõe hereje. Em todas as partes por onde

o legado passou, em França e em Hespanha, vinham a lhe beijar

a mão reis, principes e senhores: a eleição de D. Çolleima não

póde por certo ir ávante..."

"Irá, irá!--respondeu o principe em voz tão alta que as suas

palavras reboaram pelas abobadas do vasto aposento.--Que o legado

tenha tento em si! Não sei eu se haveria ahi cardeal, ou

apostolico[5] que me estendesse a mão para eu lh'a beijar, que

pelo cotovello lh'a não cortasse fóra a minha boa espada. Que

me importam a mim vilezas dos outros reis e senhores? Vilezas,

não as farei eu!"

Isto foi o que se ouviu daquella conversação: os tres cavalleiros

falaram com o principe ainda por muito tempo: mas em voz tão

baixa, que ninguem percebeu mais nada.

6

Dous dias depois o legado do papa chegava a Coimbra: mas o bom

do cardeal tremia em cima da sua nedia mula, como se maleitas

o houveram tomado. As palavras do infante tinham sido ouvidas

por muitos, e alguem as havia repetido ao legado.

Todavia, apenas passou a porta da cidade, revestindo-se de animo,

encaminhou-se direito ao alcacer real.

O principe saíu a recebe-lo acompanhado de senhores e cavalleiros.

Com modos cortezes guiou-o á sala de seu conselho, e ahi se passou

o que ora ouvireis contar.

O infante estava assentado em uma cadeira de espaldas: diante

delle o legado em um assento raso, posto em cima de um estrado

mais elevado: os senhores e cavalleiros cercavam o filho do conde

Henrique.

"Dom cardeal,--começou o principe--que viestes vós fazer a minha

terra? Posto que de Roma só mal me tenha vindo, creio me trazeis

agora algum ouro, que de seus grandes haveres me manda o senhor

papa para estas hostes que faço, e com que guerreio noite e dia

os infiéis da frontaria. Se isto trazeis, acceitar-vo-lo-hei:

depois, desembaraçadamente podeis seguir vossa viagem."

No animo do legado a colera sobrepujou o temor, quando ouviu as

palavras do principe, que eram de amargo escarneo.

"Não a trazer-vos riquezas,--atalhou elle--mas a ensinar-vos a fé

vim eu; que della parece vos esquecestes, tractando violentamente

o bispo D. Bernardo, e pondo em seu logar um bispo sagrado com

vossas manoplas, victoriado só por vós com palavras blasphemas

e maldictas..."

"Calae-vos, dom cardeal,--gritou Affonso Henriques--que mentís

pela gorja! Ensinar-me a fé?! Tão bem em Portugal como em Roma

sabemos que Christo nasceu da Virgem; tão certo como vós outros

romãos cremos na sancta Trindade. Se a outra cousa vindes, ámanhan

vos ouvirei: hoje podeis-vos ir."

E ergueu-se: os olhos chammejavam-lhe de furor. Toda a ousadia

do legado desappareceu como fumo, e, sem atinar com resposta,

saíu do alcacer.

7

O gallo tinha cantado tres vezes: pelo arrebol da manhan o cardeal

partia aforradamente de Coimbra, cujos habitantes dormiam ainda

repousadamente.

O principe foi um dos que despertaram mais tarde. Os sinos

harmoniosos da sé costumavam acorda-lo tocando ás ave-marias:

mas naquelle dia ficaram mudos; e quando elle se ergueu havia

mais de uma hora que o sol subia para o alto dos ceus da banda

do oriente.

"Misericordia! misericordia!"--gritavam devotamente homens e mulheres

á porta do alcacer, com alarido infernal. O principe ouviu aquelle

ruido.

"Que vozes são estas que soam?"--perguntou elle a um pagem.

O pagem respondeu-lhe chorando:

"Senhor, o cardeal excommungou esta noite a cidade, e partiu:

as igrejas estão fechadas; os sinos já não ha quem os toque;

os clerigos fecham-se em suas pousadas. A maldicção do sancto

padre de Roma cahiu sobre nossas cabeças."

Outra vez soou á porta do alcacer:--Misericordia! Misericordia!"

"Que enfreiem e selem um cavallo de batalha. Pagem, que enfreiem

e selem o meu melhor corredor!"

Isto dizia o principe, encaminhando-se para a sala d'armas. Ahi

envergou á pressa um saio de malha, e pegou em um montante, que

apenas dous portuguezes dos de hoje valeriam a alevantar do chão.

O pagem tinha saído, e d'alli a pouco o melhor cavallo de batalha

que havia em Coimbra tropeava e rinchava á porta do alcacer.

8

Um clerigo velho, montado em uma alentada mula branca, vindo de

Coimbra seguia o caminho da Vimieira, e de instante a instante

espicaçava os ilhaes da cavalgadura com seus acicates de prata:

em duas outras mulas íam ao lado delle dous mancebos com caras

e meneios de beatos, vestidos de opas e tonsurados, mostrando

em seu porte e idade que aprendiam ainda as pueris ou ouviam

as grammaticaes[6]. Eram o cardeal, que se ía a Roma, e dous

sobrinhos seus que o haviam acompanhado.

Entretanto o principe partíra de Coimbra sósinho. Quando pela

manhan Gonçalo de Sousa e Lourenço Viegas o procuraram em seus

paços, souberam que era partido após o legado. Temendo o caracter

violento de Affonso Henriques, os dous cavalleiros seguiram-lhe

a pista á redea solta, e íam já muito longe quando viram o pó

que elle levantava correndo ao longo da estrada, e o scintillar

do sol batendo-lhe de chapa na cervilheira semelhante ao dorso

de um crocodilo.

Os dous fidalgos esporearam com mais força os ginetes e breve

alcançaram o infante.

"Senhor, senhor, aonde ides sem vossos leaes cavalleiros, tão

cedo e açodadamente?"

"Vou pedir ao legado do papa que se amercêe de mim..."

A estas palavras os cavalleiros transpunham uma assomada que

encobria o caminho: pela encosta abaixo ía o cardeal com os dous

mancebos das opas e cabellos tonsurados.

"Oh!..--disse o principe. Esta unica interjeição lhe fugiu da

bôca; mas que discurso houvera ahi que a igualasse? Era o rugido

de prazer do tigre, no momento em que salta do fojo sobre a prêa

descuidada.

"_Memento mei, Domine, secundùm magnam misericordiam tuam!_"--resou

o cardeal em voz baixa e trémula, quando ouvindo o tropear dos

cavallos, voltou os olhos, e conheceu Affonso Henriques.

Em um instante este o havia alcançado. Ao perpassar por elle,

travou-lhe do cabeção do vestido, e em um relance ergueu o montante:

felizmente os dous cavalleiros arrancaram as espadas, e cruzaram-nas

debaixo do golpe que já descia sobre a cabeça do legado: os tres

ferros feriram fogo; mas a pancada deu em vão, aliás o craneo

do pobre clerigo teria ido fazer mais de quatro redemoinhos nos

ares.

"Senhor, que vos perdeis, e nos perdeis, ferindo o ungido de

Deus:"--gritaram os dous fidalgos com vozes afflictas.

"Principe"--disse o velho chorando--"não me faças mal; que estou

á tua mercê!"--Os dous mancebos tambem choravam.

Affonso Henriques deixou descahir o montante, e ficou em silencio

alguns momentos.

"Estás á minha mercê:--disse elle por fim.--Pois bem! Viverás, se

desfizeres o mal que causaste. Que seja alevantada a excommunhão

lançada sobre Coimbra, e jura-me em nome do apostolico, que nunca

mais em meus dias será posto interdicto nesta terra portugueza,

conquistada aos mouros por preço de tanto sangue. Em refens deste

pacto ficarão teus sobrinhos. Se no fim de quatro mezes de Roma

não vierem letras de bençam, tem tu por certo que as cabeças

lhes voarão de cima dos hombros. Apraz-te este contracto?"

"Senhor, sim!--respondeu o legado com voz sumida.

"Juras?"

"Juro."

"Mancebos, acompanhae-me,"

Dizendo isto, o infante fez um aceno aos sobrinhos do legado,

que com muitas lagrymas se despediu delles, e sósinho seguiu

o caminho da terra de Sancta Maria.

D'ahi a quatro mezes D. Colleima dizia missa pontifical na

capella-mór da sé de Coimbra, e os sinos da cidade repicavam

alegremente. Tinham chegado letras de bençam de Roma; e os sobrinhos

do cardeal, montados em boas mulas, íam cantando devotamente pelo

caminho da Vimieira o psalmo que começa:

_In exitu Israel de Ægypto._

Conta-se, todavia, que o papa levára a mal no principio, o pacto

feito pelo legado; mas que por fim tivera dó do pobre velho,

que muitas vezes lhe dizia:

"Se tu, sancto padre, víras sobre ti um cavalleiro tão bravo

ter-te pelo cabeção, e a espada nua para te cortar a cabeça; e

seu cavallo tão feroz arranhar a terra, que já te fazia a cova

para te enterrar, não sómente deras as letras, mas o papado e

a cadeira apostolical."

* * * * *

NOTA

A lenda precedente é tirada das chronicas de Acenheiro, rol de

mentiras e disparates publicado pela nossa Academia, que teria

procedido mais judiciosamente em deixa-las no pó das bibliothecas,

onde haviam jazido em paz por quasi tres seculos. A mesma lenda

tinha sido inserida pouco anteriormente na chronica de Affonso

Henriques por Duarte Galvão, formando a substancia de quatro

capitulos, que foram supprimidos na edição deste auctor, e que

mereceram da parte do academico D. Francisco de S. Luiz uma _grave_

refutação. Toda a narrativa da prisão de D. Theresa, das tentativas

_opposicionistas_ do bispo de Coimbra, da eleição do bispo negro,

da vinda do cardeal, e da sua fuga contrastam a historia daquella

epocha. A tradição é falsa a todas as luzes: mas tambem é certo

que ella se originou de algum acto de violencia praticado nesse

reinado contra algum cardeal legado. Um historiador coevo, e, posto

que estrangeiro, bem informado geralmente ácerca dos successos do

nosso paiz, o inglez Rogerio de Hoveden, narra um facto acontecido

em Portugal, que, pela analogia que tem com o conto do bispo

negro, mostra a origem da fabula. A narrativa do chronista está

indicando que o acontecimento fizera certo ruído na Europa, e a

propria confusão de datas e de individuos, que apparece no texto

de Hoveden, mostra que o successo era anterior e andava já alterado

na tradição. O que é certo é que o achar-se esta conservada fóra

de Portugal desde o seculo duodecimo por um escriptor que Ruy

de Pina e Acenheiro não leram (porque só foi publicado no seculo

decimo-setimo) prova que ella remonta entre nós, por maioria de

razão, tambem ao seculo duodecimo, embora desfigurada como já a

vemos no chronista inglez. Eis a notavel passagem a que alludimos,

e que se lê a pag. 640 da edição de Hoveden, por Savile:

"No _mesmo anno_ (1187) o cardeal _Jacintho_, então legado em toda

a Hespanha, depôs muitos prelados _(abbates)_ ou por culpas delles

ou por impeto proprio, e como quizesse depôr o bispo de Coimbra,

o rei _Affonso_ (Henriques) não consentiu que elle fosse deposto,

e mandou ao dicto cardeal que saísse da sua terra, quando não

cortar-lhe-hia um pé."

* * * * *

[1] A sé velha de Coimbra é no todo, ou na maxima parte

uma edificação dos fins do seculo duodecimo; mas acceitámos aqui

a tradição que lhe attribue uma remotissima antiguidade.

[2] Hoje Terra da Feira, proxima do Porto, na estrada

de Coimbra.

[3] É notavel coincidencia a seguinte: Em 1088 _um

presbytero, por nome Zoleima,_ fez uma doação _á sé de Coimbra_.

Desta doação se lembra Fr. Antonio Brandão M. L. P. 3.ª L. 8.º

Cap. 5.º pag. 13 col. 2.ª in fine.

[4] _Clerigo_ naquella epocha não significava só o

ecclesiastico revestido do sacerdocio, mas sim qualquer individuo

empregado no serviço do culto. D'ahi a frequente menção nos

documentos, de _clerigos casados_.

[5] Papa.

[6] Estudos menores ou preparatorios. Assim parece se

chamavam na idade média. _Darin lernt ich puerilia,_ diz Hans Sachs

no seu _Lebensbeschreibung_, e o bispo do Porto, D. Pedro Affonso,

affirma de seu predecessor D. João Gomes: _erat bonus homo, et

sinè aliqua malitia, sed jura aliqua non audiverat, immò nec

grammaticalia, quod est plus_.

A MORTE DO LIDADOR

(1170)

1

"Pagens! que arreiem o meu ginete murzello; e vós dae-me o meu

lorigão de malha de ferro, e a minha boa toledana. Senhores

cavalleiros, hoje contam-se noventa e cinco annos que recebi o

baptismo, oitenta que visto armas, setenta que sou cavalleiro, e

quero celebrar tal dia fazendo uma entrada por terras da frontaria

dos mouros."

Isto dizia na sala de armas do castello de Béja Gonçalo Mendes

da Maia, a quem, pelas muitas batalhas que pelejára, e por seu

valor indomavel chamavam o Lidador. Affonso Henriques, depois do

infeliz successo de Badajoz, e feitas pazes com elrei de Leão,

o nomeára fronteiro da cidade de Béja, de pouco conquistada aos

mouros. Os quatro Viegas, filhos do bom velho Egas Moniz, estavam

com elle, e outros muitos cavalleiros afamados, entre os quaes

D. Ligel de Flandres, e Mem Moniz, tio dos quatro Viegas.

"A la fé--disse Mem Moniz---que a festa de vossos annos, senhor

Gonçalo Mendes, será mais de mancebo cavalleiro, que de capitão

encanecido e prudente. Deu-vos elrei esta frontaria de Béja para

bem a haverdes de guardar, e não sei eu se arriscado é saír hoje

á campanha, que dizem os escutas, chegados ao romper d'alva,

que o famoso Almoleimar corre por estes arredores com dez vezes

mais lanças do que todas as que estão encostadas nos lanceiros

desta sala de armas."

"Voto a Christo--atalhou o Lidador--que não cria eu que o senhor

rei me houvesse posto nesta torre de Béja para estar assentado á

lareira da chaminé, como uma velha dona, a espreitar de quando

em quando por uma séteira, se cavalleiros mouros vinham correr

té a barbacan, para lhes cerrar as portas, e ladrar-lhes do cimo

da torre da menagem, como usam os villãos. Quem achar que são

duros de mais os arnezes dos infiéis póde ficar-se aqui."

"Bem dicto! bem dicto!"--clamaram, dando grandes risadas, os

cavalleiros mancebos.

"Por minha boa espada!"--gritou Mem Moniz, atirando com o

guante-ferrado ás lageas do pavimento--"que mente pela gorja quem

disser que eu ficarei aqui, havendo dentro de dez leguas em redor

lide com mouros. Senhor Gonçalo Mendes, podeis montar em vosso

ginete, e veremos qual das nossas lanças bate primeiro em adarga

mourisca."

"A cavallo, a cavallo!"--gritou outra vez a chusma, com grande

alarido.

D'alli a pouco ouvia-se o retumbar dos sapatos de ferro de muitos

cavalleiros descendo os degraus de marmore da torre de Béja,

e passados alguns instantes soava só o tropear dos cavallos

atravessando a ponte levadiça das fortificações exteriores, que

davam para a banda da campanha, por onde costumava apparecer

a mourisma.

2

Era um dia do mez de Julho, duas horas depois da alvorada, e

tudo estava em grande silencio dentro da cerca de Béja: batia o

sol nas pedras esbranquiçadas dos muros e torres que a defendiam:

ao longe, pelas immensas campinas, que avizinham o teso, sobre

que a povoação está assentada, viam-se ondear as searas maduras,

cultivadas por mãos de agarenos para seus novos senhores christãos.

Regados por lagrymas de escravos tinham sido esses campos quando

em formoso dia de inverno os sulcou o ferro do arado; por lagrymas

de servos seriam outra vez humedecidos, quando no mez de Agosto

a paveia, cerceada pela fouce, pendesse sobre a mão do ceifeiro:

chôro de amargura havia ahi, como cinco seculos antes o houvera:

então de christãos conquistados, hoje de mouros vencidos. A cruz

basteava-se outra vez sobre o crescente quebrado; os corucheus

das mesquitas convertiam-se em campanarios de sés, e a voz do

almuhaden trocava-se por toada de sinos, que chamavam á oração

entendida por Deus. Era esta a resposta dada pela raça goda aos

filhos d'Africa e do Oriente, que diziam mostrando os alfanges:--"é

nossa a terra de Hespanha."--O dicto do arabe foi desmentido; mas a

resposta gastou oito seculos a escrever-se: Pelaio entalhou com a

espada a primeira palavra della nos cerros das Asturias; a ultima

gravaram-na Fernando e Isabel com os pelouros de suas bombardas

nos pannos das muralhas da formosa Granada: e a esta escriptura,

estampada em alcantis de montanhas, em campos de batalha, nos

portaes e torres dos templos, nos lanços dos muros das cidades

e castellos, accrescentou no fim a mão da providencia:--"assim

para todo o sempre!"

Nesta lucta de vinte gerações andavam lidando as gentes do Alemtejo.

O servo mouro olhava todos os dias para o horisonte, onde se

enxergavam as serranias do Algarve: de lá esperava elle salvação,

ou ao menos vingança; ao menos um dia de combate, e corpos de

christãos estirados na veiga para pasto dos açores bravios. A

vista do sangue enxugava-lhes por algumas horas as lagrymas,

embora os valentes d'Africa houvessem de fugir vencidos; embora

as aves de rapina tivessem tambem abundante ceva em cadaveres

de seus irmãos! E este ameno dia de julho devia ser um desses

dias porque suspirava o servo ismaelita.

Almoleimar descêra com seus cavalleiros ás campinas de Béja.

Pelas horas mortas da noite viam-se as almenáras das suas atalaias

nos pincaros das serras remotas, semelhantes ás luzinhas, que

em descampados e tremedaes accendem as bruxas em noites de seus

folguedos; bem longe éstavam as almenáras, mas bem perto sentiam

os escutas o resfolegar e o tropear de cavallos, e o ranger de

folhas seccas, e o tinir a espaços de alfange batendo em ferro

de canelleira, ou de coxote. Ao romper d'alva os cavalleiros

do Lidador saíam mais de dous tiros de bésta alem das velhas

muralhas de Béja; tudo, porém, estava em silencio, e só aqui e

alli as searas calcadas davam rebate de que por aquelles sitios

tinham vagueado almogaures mouros, como o leão do deserto rodeia

pelo quarto de modorra as habitações dos pastores alem das encostas

do Atlas.

No dia em que Gonçalo Mendes da Maia, o velho fronteiro de Béja,

cumpria os noventa e cinco annos, ninguem saíra, pelo arrebol da

manhan, a correr o campo; e, todavia, nunca tão de perto chegára

Almoleimar; porque uma frecha fôra pregada á mão em um grosso

carvalho, que sombreava uma fonte, a pouco mais de tiro de funda

dos muros do castello. Era que nesse dia deviam ir mais longe os

cavalleiros christãos: o Lidador pedíra aos pagens o seu lorigão

de malha de ferro, e a sua boa toledana.

3

Lendas e Narrativas (Tomo II) · 第 2 / 14 段