Hontem conversei com a senhora do Aguiar ácerca das antigas noites de
S. João, Santo Antonio e S. Pedro, e mais as suas sortes e fogueiras.
D. Carmo pegou do assunto para tratar ainda do filho postiço. Leve o
diabo tal filho. A filha postiça é que hade estar a esta hora mui
triste no cazarão da fazenda, onde certamente passou as antigas noites
de S. João de donzela esperançada e credula. A deste anno sem pae deve
ser aborrecida, não tendo mãe que o continue, nem marido que os supra.
Um tio não basta para tanta cousa.
Tambem eu tirei sortes outr'ora. Com pouco se fingia de Destino,-um
livro, um rimador de quadras e um par de dados. «Se hade despozar a
pessoa a quem ama», dizia o titulo da pagina, por exemplo; deitavam-se
os dados, os numeros eram cinco e dous, sete; ia-se á quadra setima,
e lia-se. Suponhamos que se lia... Vá, risco a quadra que cheguei
a escrever aqui. Geralmente era engraçada,-pelo menos, mas tambem
troçava com a pessoa que consultava o Destino. Todos riam; alguns
criam deveras; em todo caso passavam-se as horas até chegar o somno. E
alli vinha este velho camareiro da humanidade, que os pagãos chamaram
Morpheu, e que a pagãos e christãos, e até a incréos fecha os olhos com
os seus eternos dedos de chumbo. Agora, meu somno amigo, só tu virás
daqui a uma ou duas horas, sem livros de sortes nem dados. Quando muito
trarás sonhos, e já não serão os mesmos de outro tempo.
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