A mana e eu estivemos hontem em casa da boa velha Aguiar. Saí de lá
mais cedo do que quizera; se pudesse, ficaria muito mais tempo.
Achamo-la entre alegre e triste, se esta expressão pode definir um
estado que se não descreve; eu, ao menos, não posso. Recebeu-nos como
sempre; ella sabe dar ao gesto e á palavra um afago sem intenção,
verdadeiramente delicioso. Quando lhe falámos de Fidelia disse da
tristeza da amiga com outra tristeza correspondente, e referiu a
partida do marido na manhã de hontem, sem aludir ás obrigações que
elle teve de interromper. Não tardou, porém, que lhe perguntassemos
pelo afilhado e respondeu com satisfação grande. O resto da visita
dividiu-se entre ambos, mas ao rapaz coube a maior parte da
conversação, naturalmente por ser mais longa a ausencia, maior a
distancia e inesperada a volta.
D. Carmo continuou a narração da outra noite, agora mais intima, eramos
tres pessoas apenas. Não diria toda a primeira vida do pequeno, o tempo
seria pouco, ella mesma o confessou, mas muita cousa principal disse.
Era fragil, magrinho, quasi nada, creaturinha de escasso folego. Não
disse que se fez mãe; esta senhora não conhece a lingua do proprio
louvor, mas eu já sabia, e percebia-se do carinho da narração que devia
ser assim mesmo. Rita arriscou esta reflexão rindo:
--As creanças não sabem o cuidado que dão, e esquecem depressa o que
sabem.
--É preciso desculpar a Tristão o que é proprio de rapaz, acudiu D.
Carmo. Elle não é mau; esqueceu-se um pouco de nós, mas a idade e a
novidade dos espectaculos explicam tudo. A prova é que ahi vem elle
ver-nos, e se lêsse as cartas delle... Aguiar não lhe mostrou a ultima?
--Não, minha senhora, respondi; disse-me só o que continha.
--Talvez não dissesse tudo.
Cuido que quizesse mostrar-me as cartas do rapaz, uma só que fosse, ou
um trecho, uma linha, mas o temor de enfadar fez calar o desejo. Foi o
que me pareceu e deixo aqui escrito. Tornámos á viuva, depois voltámos
a Tristão, e ella só passou a terceiro assunto porque a cortezia o
mandou; eu, porém, para ir com a alma della, guiei a conversa novamente
aos filhos postiços. Era o meu modo de ser cortez, com a boa senhora.
Custa-me dizer que saí de lá encantado, mas saí, e mana Rita tambem.
Rita disse-me na rua:
--Ha poucas creaturas como aquella.
--Creio, creio, é excelente... sem desfazer em você.
--Eu não, replicou Rita prontamente. Não me acho má, porém estou longe
de ser o que ella é. Você repare que tudo naquella senhora é bom, até a
opinião, que nem sempre é justa, porque ella perdoa e desculpa a todos.
Eu não sou assim; acho muita gente má, e se fôr preciso dizel-o, digo.
D. Carmo não é capaz de criticar ninguem. Algum reparo que aceite é
sempre explicando; quando menos, calando.
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