De feito Leoncio mal vio sumir-se a esposa por trás da ultima collina,

não podendo conter mais a expansão de seo satanico jubilo, tratou logo

de pôr o tempo em proveito, e pôz-se a percorrer toda a casa em procura

de Isaura. Foi emfim deparar com ella no escuro recanto de uma alcova,

estendida por terra quasi exanime, banhada em pranto, e arrancando do

peito soluços convulsivos.

Poupemos ao leitor a narração da scena vergonhosa, que ahi se deo.

Contentemo-nos com dizer, que Leoncio esgotou todos os meios brandos e

suasivos ao seo alcance para convencer a rapariga, que era do interesse

e dever della render-se a seos desejos. Fez as mais esplendidas

promessas, e os mais solemnes protestos; abaixou-se até ás mais

humildes supplicas, e arrastou-se vilmente aos pés da escrava, de cuja

boca não ouvio senão palavras amargas, e terriveis exprobrações; e

vendo emfim que eram infructiferos todos esses meios, retirou-se cheio

de cólera, vomitando as mais tremendas ameaças.

Para dar a essas ameaças começo de execução, nesse mesmo dia mandou

pôl-a trabalhando entre as fiandeiras, onde a deixámos no capitulo

antecedente. Dali teria de ser levada para a roça, da roça para o

tronco, do tronco para o pelourinho, e deste certamente para o tumulo,

se teimasse em sua resistencia ás ordens de seo senhor.

Capitulo IX.

Leoncio impaciente e com o coração ardendo nas chammas de uma paixão

febril e delirante, não podia resignar-se a adiar por mais tempo a

satisfação de seos libidinosos desejos. Vagando daqui para ali por

toda a casa, como quem dava ordens para reformar o serviço domestico,

que dahi em diante ia correr todo por sua conta, não fazia mais do que

espreitar todos os movimentos de Isaura, procurando occasião de achal-a

a sós para insistir de novo e com mais força em suas abominaveis

pretenções. De uma janella vio as escravas fiandeiras atravessarem o

pateo para irem jantar, e notou a ausencia de Isaura.

--Bom!... vae tudo ás mil maravilhas! murmurou Leoncio com satisfação;

nesse momento passava-lhe pela mente a feliz lembrança de mandar um

feitor levar as outras escravas para o cafesal, ficando elle quasi a

sós com Isaura no meio daquelles vastos e desertos edificios.

Dir-me-hão, que sendo Isaura uma escrava, Leoncio, para achar-se a

sós com ella não precisava de semelhantes subterfugios, e nada mais

tinha a fazer do que mandal-a trazer á sua presença por bem ou por

mal. De certo elle assim podia proceder, mas não sei que prestigio

tem, mesmo em uma escrava, a belleza unida á nobreza da alma, e á

superioridade da inteligencia, que impõe respeito aos entes ainda os

mais perversos e corrompidos. Por isso Leoncio, a despeito de todo o

seo cynismo e obcecação, não podia eximir-se de render no fundo d’alma

certa homenagem á belleza e virtudes daquella escrava excepcional, e de

tratal-a com mais alguma delicadeza do que ás outras.

--Isaura,--disse Leoncio, continuando o dialogo que deixámos apenas

encetado,--fica sabendo, que agora a tua sorte está inteiramente entre

as minhas mãos.

--Sempre esteve, senhor,--respondeo humildemente Isaura.

--Agora mais que nunca. Meo pae é fallecido, e não ignoras que sou

eu o seo unico herdeiro. Malvina por motivos, que sem duvida terás

adivinhado, acaba de abandonar-me, e retirou-se para a casa de seo pae.

Sou eu pois, que hoje unicamente governo nesta casa, e disponho do

destino. Mas tambem, Isaura, de tua vontade unicamente depende a tua

felicidade ou a tua perdição.

--De minha vontade!... oh! não, senhor; minha sorte depende unicamente

da vontade de meo senhor.

--E eu bem desejo--replicou Leoncio com a mais terna inflexão de

voz,--com todas as forças de minha alma, tornar-te a mais feliz das

creaturas; mas como, se me recusas obstinadamente a felicidade, que tu,

só tu me poderias dar?....

--Eu, senhor?! oh! por quem é, deixe a humilde escrava em seo lugar;

lembre-se da senhora D. Malvina, que é tão formosa, tão boa, e que

tanto lhe quer bem. É em nome della que lhe peço, meo senhor; deixe de

abaixar seos olhos para uma pobre captiva, que em tudo está prompta

para lhe obedecer, menos nisso, que o senhor exige...

--Escuta, Isaura; és muito creança, e não sabes dar ás cousas o devido

peso. Um dia, e talvez já tarde, te arrependerás de ter rejeitado o meu

amor.

--Nunca!--exclamou Isaura.--Eu cometteria uma traição infame para com

minha senhora, se désse ouvidos ás palavras amorosas de meo senhor.

--Escrupulos de creança!... escuta ainda, Isaura. Minha mãe vendo

a tua linda figura e a viveza de teo espirito,--talvez por não ter

filha alguma,--desvelou-se em dar-te uma educação, como teria dado a

uma filha querida. Ella amava-te extremosamente, e se não deo-te a

liberdade foi com o receio de perder-te; foi para conservar-te sempre

junto de si. Se ella assim procedia por amor, como posso eu largar-te

de mão, eu que te amo com outra sorte de amor muito mais ardente e

exaltado, um amor sem limites, um amor que me levará á loucura ou ao

suicidio, se não ... mas que estou a dizer!... Meo pae,--Deos lhe

perdoe,--levado por uma sordida avareza, queria vender tua liberdade

por um punhado de ouro, como se houvesse ouro no mundo que valesse os

inestimaveis encantos, de que os céos te dotárão. Profanação!... eu

repelliria como quem repelle um insulto, todo aquelle que ousasse vir

offerecer-me dinheiro pela tua liberdade. Livre és tu, por que Deos não

podia formar um ente tão perfeito para votal-o á escravidão.

Livre és tu, por que assim o queria minha mãe, e assim o quero eu.

Mas, Isaura, o meo amor por ti é immenso; eu não posso, eu não devo

abandonar-te ao mundo. Eu morreria de dor, se me visse forçado a largar

mão da joia inestimavel, que o céo parece ter-me destinado, e que eu ha

tanto tempo rodeio dos mais ardentes anhélos de minha alma...

--Perdão, senhor; eu não posso comprehendel-o; diz-me que sou livre, e

não permite que eu vá para onde quizer, e nem ao menos que eu disponha

livremente de meu coração?!

--Isaura, se o quizeres, não serás sómente livre; serás a senhora, a

deosa desta casa. Tuas ordens, quaesquer que sejão, os teos menores

caprichos serão ponctualmente cumpridos; e eu, melhor do que faria o

mais terno e o mais leal dos amantes, te cercarei de todos os cuidados

e carinhos, de todas as adorações, que sabe inspirar o mais ardente

e inextinguivel amor. Malvina me abandona!... tanto melhor! em que

dependo eu della e de seo amor, se te possuo! Quebrem-se de uma vez

para sempre esses laços urdidos pelo interesse! esqueça-se para sempre

de mim, que eu nos braços de minha Isaura encontrarei sobeja ventura

para poder lembrar-me della.

--O que o senhor acaba de dizer, me horroriza. Como se pode esquecer e

abandonar ao desprezo uma mulher tão amante e carinhosa, tão cheia de

encantos e virtudes, como sinhá Malvina? Meo senhor, perdoe-me se lhe

fallo com franqueza; abandonar uma mulher bonita, fiel e virtuosa por

amor de uma pobre escrava, seria a mais feia das ingratidões...

A tão severa e esmagadora exprobração, Leoncio sentio revoltar-se o seo

orgulho.

--Cala-te, escrava insolente!--bradou cheio de cólera.--Que eu

supporte sem irritar-me os teos desdens e repulsas, ainda vá; mas

reprehensões!... com quem pensas tu, que fallas?...

--Perdão! senhor!... exclamou Isaura atterrada e arrependida das

palavras que lhe tinhão escapado.

--E entretanto, se te mostrasses mais branda commigo ... mas não, é

muito aviltar-me diante de uma escrava; que necessidade tenho eu de

pedir aquillo, que de direito me pertence? Lembra-te, escrava ingrata e

rebelde, que em corpo e alma me pertences, a mim só e a mais ninguem.

És propriedade minha; um vaso, que tenho entre as minhas mãos, e que

posso usar delle ou despedaçal-o a meo sabor.

--Pode despedaçal-o, meo senhor; bem o sei; mas por piedade não queira

usar delle para fins impuros e vergonhosos. A escrava tambem tem

coração, e não é dado ao senhor querer governar os seos affectos.

--Affectos!... quem falla aqui em affectos?! Podes acaso dispor

delles?...

--Não por certo, meo senhor; o coração é livre; ninguem póde

escravizal-o, nem o proprio dono.

--Todo o teo ser é escravo; teo coração obedecerá, e se não cedes de

bom grado, tenho por mim o direito e a força ... mas para que? para te

possuir não vale a pena empregar esses meios extremos. Os instinctos

do teo coração são rasteiros e abjectos como a tua condição; para te

satisfazer far-te-hei mulher do mais vil, do mais hediondo de meus

negros.

--Ah! senhor! bem sei de quanto é capaz. Foi assim que seo pae fez

morrer de desgostos e máos tratos a minha pobre mãe; já vejo que me é

destinada a mesma sorte. Mas fique certo, de que não me faltarão nem os

meios nem a coragem para ficar para sempre livre do senhor e do mundo.

--Oh!--exclamou Leoncio com satanico sorriso,--já chegaste a tão

subido gráo de exaltação e romantismo!... isto em uma escrava não

deixa de ser curioso. Eis o proveito, que se tira de dar educação a

taes creaturas! bem mostras, que és uma escrava, que vives de tocar

piano e ler romances. Ainda bem que me preveniste; eu saberei gelar a

ebullição desse cerebro escaldado. Escrava rebelde e insensata, não

terás mãos nem pés para pôr em pratica teos sinistros intentos. Ó lá,

André,--bradou elle e apitou com força no cabo do seo chicote.

--Senhor!--bradou de longe o pajem, e um instante depois estava em

presença de Leoncio.

--André,--disse-lhe este com voz secca e breve--traze-me já aqui um

tronco de pés e algemas com cadeado.

--Virgem santa!--murmurou comsigo André espantado.--Para que será tudo

isto?... ah! pobre Isaura!...

--Ah! meo senhor, por piedade!--exclamou Isaura, caindo de joelhos aos

pés de Leoncio, e levantando as mãos ao céo em contorções de angustia;

pelas cinzas ainda quentes de seo pae, ha poucos dias fallecido, pela

alma de sua mãe, que tanto lhe queria, não martyrize a sua infeliz

escrava. Acabrunhe-me de trabalhos, condene-me ao serviço o mais

grosseiro e pesado, que a tudo me sujeitarei sem murmurar; mas o que o

senhor exige de mim, não posso, não devo fazel-o, embora deva morrer.

--Bem me custa tratar-te assim, mas tu mesma me obrigas a este excesso.

Bem vês, que me não convem por modo nenhum perder uma escrava como tu

és.

Talvez ainda um dia me serás grata por ter-te impedido de matar-te a ti

mesma.

--Será o mesmo!--bradou Isaura levantando-se altiva, e com o accento

rouco e trémulo da desesperação,--não me matarei por minhas proprias

mãos, mas morrerei ás mãos de um carrasco.

Neste momento chega André trazendo o tronco e as algemas, que deposita

sobre um banco, e retira-se imediatamente.

Ao ver aquelles barbaros e aviltantes instrumentos de supplicio

turvárão-se os olhos a Isaura, o coração se lhe enregelou de pavor,

as pernas lhe desfallecerão, cahio de joelhos e debruçando-se sobre o

tamborete, em que fiava, desatou uma torrente de lagrimas.

--Alma de minha sinhá velha!--exclamou com voz entre-cortada de

soluços,--valei-me nestes apuros; valei-me lá do céo, onde estais, como

me valieis cá na terra.

--Isaura,--disse Leoncio com voz aspera apontando para os instrumentos

de supplicio,--eis ali o que te espera, se persistes em teo louco

emperramento. Nada mais tenho a dizer-te; deixo-te livre ainda, e

fica-te o resto do dia para reflectires. Tens de escolher entre o meo

amor e o meo odio. Qualquer dos dous, tu bem sabes, são violentos e

poderosos. Adeos!...

Quando Isaura sentio, que seo senhor se havia ausentado, ergueo o

rosto, e levantando ao céo os olhos e as mãos juntas, dirigio á Rainha

dos anjos a seguinte fervorosa prece, exalada entre soluços do mais

intimo de sua alma:

--Virgem senhora da Piedade, Santissima Mãe de Deos!... vós sabeis se

eu sou innocente, e se mereço tão cruel tratamento. Soccorrei-me neste

transe afflictivo, por que neste mundo ninguem pode valer-me. Livrae-me

das garras de um algôz, que ameaça não só a minha vida, como a minha

innocencia e honestidade. Illuminai-lhe o espirito, e infundi-lhe no

coração brandura e misericordia, para que se compadeça de sua infeliz

captiva. É uma humilde escrava, que com as lagrimas nos olhos, e a dor

no coração vos roga pelas vossas dores sacrosantas, pelas chagas de

vosso Divino Filho: valei-me por piedade.

Quanto Isaura era formosa naquella supplicante e angustiosa attitude!

oh! muito mais bella do que em seos momentos de serenidade e prazer!...

se a visse então Leoncio talvez sentisse abrandar-se o ferreo e

obcecado coração. Com os olhos arrasados em lagrimas, que em fio lhe

escorregavão pelas faces desbotadas, entre-aberta a boca melancolica,

que lhe tremia ao passar da prece murmurada entre soluços, atiradas em

desordem pelas espaduas as negras e opulentas madeixas, voltando para

o céo o busto mavioso plantado sobre um collo escultural, offereceria

ao artista inspirado o mais bello e sublime modelo para a effigie da

Mãe Dolorosa, a quem nesse momento dirigia suas ardentes supplicas. Os

anjos do céo, que por certo naquelle instante adejavão em torno della

agitando as azas de ouro e carmim, não podião deixar de levar tão

fervida e dolorosa prece aos pés do throno da Consoladora dos afflictos.

Absorvida em suas magoas Isaura não vio seo pae, que entrando pelo

salão a passos subtis e cautelosos, encaminhava-se para ella.

--Oh! felizmente ella ali está,--murmurava o velho,--o algôz aqui

tambem andava! oh! pobre Isaura!... que será de ti!...

--Meo pae por aqui!...--exclamou a infeliz ao avistar Miguel.--Venha,

venha ver a que estado reduzem sua filha.

--Que tens, filha?... que nova desgraça te succede?

--Não está vendo, meo pae?... eis ali a sorte, que me

espera,--respondeu ella apontando para o tronco e as algemas, que ali

estavam ao pé della.

--Que monstro, meo Deos!... mas eu já esperava por tudo isto...

--É esta a liberdade que pretende dar áquella, que a mãe delle creou

com tanto amor e carinho. O mais cruel e aviltante captiveiro,

um martyrio continuado da alma e do corpo, eis o que resta á

sua desventurada filha... Meo pae, não posso resistir a tanto

soffrimento!... restava-me um recurso extremo; esse mesmo vai-me ser

negado. Presa, algemada, amarrada de pés e mãos!... oh!... meo pae! meo

pae!... isto é horrivel!... Meu pai, a sua faca,--acrescentou depois de

ligeira pausa com voz rouca e olhar sombrio,--preciso de sua faca.

--Que pretendes fazer com ella, Isaura? que louco pensamento é o teo?...

--Dê-me essa faca, meo pae; eu não usarei della senão em caso extremo;

quando o infame vier lançar-me as mãos para deitar-me esses ferros,

farei saltar meo sangue ao rosto vil do algôz.

--Não, minha filha; não serão necessarios taes extremos. Meo coração

já adivinhava tudo isto, e já tenho tudo prevenido. O dinheiro, que

não servio para alcançar a tua liberdade, vae agora prestar-nos para

arrancar-te ás garras desse monstro. Tudo está já disposto, Isaura.

Fujamos.

--Sim, meo pae, fujamos; mas como? para onde?

--Para longe daqui, seja para onde fôr; e já, minha filha, emquanto não

suspeitão cousa alguma, e não te carregão de ferros.

--Ah! meo pae, tenho bem medo; se nos descobrem, qual será a minha

sorte!...

--A empreza é arriscada, não posso negar-te; mas animo, Isaura; é nossa

unica taboa de salvação; agarremo-nos a ella com fé, e encommendemo-nos

á divina providencia. Os escravos estão na roça; o feitor levou para

o cafesal tuas companheiras, teo senhor sahio a cavallo com o André;

não ha talvez em toda a casa senão alguma negra lá pelos cantos da

cosinha. Aproveitemos a occasião, que parece mesmo nos vir das mãos de

Deos no momento, em que aqui estou chegando. Eu já preveni tudo. Lá

no fundo do quintal á beira do rio está amarrada uma canoa; é quanto

nos basta. Tu sahirás primeiro e irás lá ter por dentro do quintal; eu

sahirei por fora alguns instantes depois e lá nos encontraremos. Em

menos de uma hora estaremos em Campos, onde nos espera um navio, de

que é capitão um amigo meo, e que tem de seguir viagem para o norte

nesta madrugada. Quando romper o dia, estaremos longe do algôz, que te

persegue. Vamo-nos, Isaura; talvez por esse mundo encontremos alguma

alma piedosa, que melhor do que eu te possa proteger.

--Vamo-nos, meo pae; que posso eu recear?... posso acaso ser mais

desgraçada do que já sou?...

Isaura cosendo-se com a sombra do muro, que rodeava o pateo, abrio o

portão, que dava para o quintal, e desappareceo. Momentos depois Miguel

rodeando por fora os edificios costeava o quintal, e achava-se com ella

á margem do rio.

A canoa vogando subtilmente bem junto á barranca, impellida pelo braço

vigoroso de Miguel, em poucos minutos perdeo de vista a fazenda.

Capitulo X.

Já são passados mais de dous mezes depois da fuga de Isaura, e agora,

leitores, em quanto Leoncio emprega diligencias extraordinarias e

meios extremos, e desatando os cordões da bolsa, põe em actividade a

policia e uma multidão de agentes particulares para empolgar de novo a

presa, que tão sorrateiramente lhe escapára, façamo-nos de véla para

as provincias do norte, onde talvez primeiro que elle deparemos com a

nossa fugitiva heroina.

Estamos no Recife. É noite e a formosa Veneza da America do Sul,

coroada de um diadema de luzes, parece surgir dos braços do oceano,

que a estreita em carinhoso amplexo e a beija com amor. É uma noite

festiva: em uma das principaes ruas nota-se um edificio esplendidamente

illuminado, para onde concorre grande numero de cavalheiros e damas

das mais distinctas e opulentas classes. É um lindo prédio onde uma

sociedade escolhida costuma dar brilhantes e concorridos saráos. Alguns

estudantes dos mais ricos e elegantes, tambem costumão descer da velha

Olinda em noites determinadas, para ali virem se espanejar entre os

esplendores e harmonias, entre as sedas e perfumes do salão do baile;

e aos meigos olhares e angelicos sorrisos das bellas e espirituosas

pernambucanas, esquecerem por algumas horas os duros bancos da Academia

e os carunchosos praxistas.

Supponhamos que tambem somos adeptos daquelle templo de Terpsicore,

entremos por elle a dentro, e observemos o que por ahi vai de curioso e

interessante. Logo na primeira sala encontramos um grupo de elegantes

mancebos, que conversam com alguma animação. Escutemol-os.

--É mais uma estrella, que vem brilhar nos salões do Recife,--dizia

Alvaro,--e dar lustre a nossos saráos. Não ha ainda tres mezes, que

chegou a esta cidade, e haverá pouco mais de um, que a conheço. Mas

creia-me, D^{r}. Geraldo, é ella a creatura mais nobre e encantadora

que tenho conhecido. Não é uma mulher; é uma fada, é um anjo, é uma

deosa!...

--Caspite!--exclamou o D^{r}. Geraldo; fada! anjo! deosa!... são

portanto tres entidades distinctas, mas por fim de contas verás que não

passa de uma mulher verdadeira. Mas dize-me cá, meo Alvaro; esse anjo,

fada, deosa, mulher ou o que quer que seja, não te disse d’onde veio,

de que familia é, se tem fortuna, etc., etc., etc.

--Pouco me importo com essas cousas, e poderia responder-te que veio

do céo, que é da familia dos anjos, e que tem uma fortuna superior a

todas as riquezas do mundo: uma alma pura, nobre e intelligente, e uma

belleza incomparavel. Mas sempre te direi que o que sei de positivo

a respeito della é que veio do Rio-Grande do Sul em companhia de seo

pae, de quem é ella a unica familia; que seos meios são bastantemente

escassos, mas que em compensação ella é linda como os anjos, e tem o

nome de Elvira.

--Elvira!--observou o terceiro cavalheiro--bonito nome na verdade!...

mas não poderás dizer-nos, Alvaro, onde mora a tua fada?...

--Não faço mysterio disso; mora com seo pae em uma pequena chacara no

bairro de Santo Antonio, onde vivem modestamente, evitando relações,

e apparecendo mui raras vezes em publico. Nessa chacara, escondida

entre moitas de coqueiros e arvoredos, vive ella como a violeta entre a

folhagem, ou como fada mysteriosa em uma gruta encantada.

--É celebre!--retorquio o doutor--mas como chegaste a descobrir essa

nympha encantada, e a ter entrada em sua gruta mysteriosa?

--Eu vos conto em duas palavras. Passando eu um dia a cavallo por sua

chacara, avistei-a sentada em um banco do pequeno jardim da frente.

Sorprehendeo-me sua maravilhosa belleza. Como vio que eu a contemplava

com demasiada curiosidade, esgueirou-se como uma borboleta entre os

arbustos floridos e desappareceo. Formei o firme proposito de vel-a e

de falar-lhe, custasse o que custasse. Por mais porém, que indagasse

por toda a visinhança, não encontrei uma só pessoa, que se relacionasse

com ella, e que pudesse apresentar-me. Indaguei por fim quem era o

proprietario da chacara, e fui ter com elle. Nem esse podia dar-me

informações, nem servir-me em cousa alguma. O seo inquilino vinha todos

os meses pontualmente adiantar o aluguel da chacara; eis tudo quanto

a respeito delle sabia. Todavia continuei a passar todas as tardes

por defronte do jardim, mas a pé para melhor poder sorprehendel-a e

admiral-a; quasi sempre porém sem resultado. Quando acontecia estar no

jardim, esquivava-se sempre ás minhas vistas como da primeira vez. Um

dia porém quando eu passava, cahio-lhe o lenço ao levantar-se do banco;

a grade estava aberta; tomei a liberdade de penetrar no jardim, apanhei

o lenço, e corri a entregar-lho, quando já ella punha o pé na soleira

de sua casa. Agradeceo-me com um sorriso tão encantador, que estive em

termos de cahir de joelhos a seos pés; mas não mandou-me entrar, nem

fez-me offerecimento algum.

--Esse lenço, Alvaro,--atalhou um cavalheiro,--de certo ella o deixou

cahir de proposito, para que pudesses vel-a de perto e fallar-lhe. É um

apuro de romantismo, um delicado rasgo de _coquetterie_.

--Não creio; não ha naquelle ente nem sombra de _coquetterie_;

tudo nella respira candura e singeleza. O certo é que custei a arrancar

meos pés daquelle lugar, onde uma força magnetica me retinha, e que

parecia rescender um mysterioso effluvio de amor, de pureza e de

ventura...

Alvaro pára em sua narrativa, como que embevecido em tão suaves

recordações.

--E ficaste nisso, Alvaro!--perguntava outro cavalheiro;--o teo romance

está-nos interessando; vamos por diante, que estou afflicto por ver a

peripecia...

--A peripecia?... oh! essa ainda não chegou, e nem eu mesmo sei qual

será. Esgotei em fim os estratagemas possiveis para ter entrada no

sanctuario daquella deosa; mas foi tudo baldado. O acaso em fim veio

em meo socorro, e servio-me melhor do que toda a minha habilidade e

diligencia. Passeando eu uma tarde de carro no bairro de Santo Antonio,

pelas margens do Beberibe, passeio que se tornára para mim uma devoção,

avistei um homem e uma mulher navegando a todo panno em um pequeno bote.

Instantes depois o bote achou-se encalhado em um banco de areia.

Apeei-me imediatamente, e tomando um escalér na praia, fui em soccorro

dos dois navegantes que em vão forcejavão por safar a pequena

embarcação. Não podem fazer idéa da deliciosa surpresa que senti, ao

reconhecer nas duas pessoas do bote a minha mysteriosa da chacara e seo

pae...

--Por essa já eu esperava; entretanto o lance não deixa de ser

dramatico; a historia de teos amores com a tal fada mysteriosa vae

tomando visos de um poema phantastico.

--Entretanto é a pura realidade. Como estavão molhados e enxovalhados,

convidei-os a entrarem no meo carro. Acceitárão depois de muita

reluctancia, e dirigimo-nos para a casa delles. É escusado contar-vos o

resto desde então, se bem que com algum acanhamento foi-me franqueado o

umbral da gruta mysteriosa.

--E pelo que vejo,--interrogou o doutor,--amas muito essa mulher?

--Se amo! adoro-a cada vez mais, e o que é mais, tenho rasões para

acreditar, que ella ... pelo menos não me olha com indifferença.

--Deos queira que não andes embaido por alguma Circe de bordel, por

alguma dessas aventureiras, de que ha tantas pelo mundo, e que sabendo

que és rico, arma laços ao teo dinheiro! Esse afastamento da sociedade,

esse mysterio, em que procurão tão cuidadosamente envolver a sua vida,

não abonão muito em favor delles.

--Quem sabe, se são criminosos que procurão subtrahir-se ás pesquizas

da policia?--observou um cavalheiro.

--Talvez moedeiros falsos,--accrescentou outro.

--Tenho má fé,--continuou o doutor--todas as vezes, que vejo uma mulher

bonita viajando em paizes estranhos em companhia de um homem, que de

ordinario se diz pae ou irmão della. O pae de tua fada, Alvaro, se

é que é pae, é talvez algum cigano, ou cavalheiro de industria, que

especula com a formosura de sua filha.

--Santo Deos!... misericordia!--exclamou Alvaro.--Se eu adivinhasse

que veria a pessoa daquella creatura angelica apreciada com tanta

atrocidade, ou antes tão impiamente profanada, quereria antes ser

atacado de mudez, do que trazel-a á conversação. Creião, que são

demasiado injustos para com aquella pobre moça, meos amigos. Eu a

julgaria antes uma princeza desthronizada, se não soubesse que é um

anjo cahido do céo. Mas vocês em breve vão vel-a, e eu e ella estaremos

vingados; pois estou certo, que todos a uma voz a proclamarão uma

divindade. Mas o peór é, que desde já posso contar com um rival em cada

um de vocês.

--Por minha parte,--disse um dos cavalheiros,--pode ficar tranquillo,

pois sempre tive horror ás moças mysteriosas.

--E eu, que não sou mais do que um simples mortal, tenho muito medo de

fadas,--accrescentou o outro.

--E como é,--perguntou o Dr. Geraldo,--que vivendo ella assim arredada

da sociedade, poude resolver-se a deixar a sua mysteriosa solidão, para

vir a este baile tão publico e concorrido?...

--E quanto não me custou isso, meo amigo!--respondeo Alvaro.--Veio

quasi violentada. Ha muito tempo, que procuro convencel-a por todos os

modos, que uma senhora joven e formosa, como é ella, escondendo seos

encantos na solidão, commette um crime, contrario ás vistas do creador,

que formou a belleza para ser vista, admirada e adorada; pois sou o

contrario desses amantes ciumentos e atrabiliarios, que desejarião

ter suas amadas escondidas no amago da terra. Argumentos, instancias,

supplicas, tudo foi perdido; pae e filha recusavão-se constantemente a

aparecerem em publico, allegando mil diversos pretextos. Vali-me por

fim de um ardil; fiz-lhes acreditar que aquelle modo de viver retrahido

e sem contacto com a sociedade em um paiz, onde erão desconhecidos,

já começava a dar que fallar ao publico e a attrahir suspeitas sobre

elles, e que até a policia começava a olhal-os com desconfiança;

mentiras, que não deixavão de ter sua plausibilidade...

--E tanta,--interrompeo o doutor,--que talvez não andem muito longe da

verdade.

--Fiz-lhes ver,--continuou Alvaro,--que por infundadas e futeis,

que fossem taes suspeitas, era necessario arredal-as de si, e para

isso cumpria-lhes absolutamente frequentar a sociedade. Este embuste

produzio o desejado effeito.

--Tanto peór para elles,--retorquio o doutor;--eis ahi um indicio bem

máo, e que mais me confirma em minhas desconfianças. Fossem elles

innocentes, e bem pouco se importarião com as suspeitas do publico ou

da policia, e continuarião a viver como d’antes.

--Tuas suspeitas não tem o menor fundamento, meo doutor. Elles tem

poucos meios, e por isso evitão a sociedade, que realmente impõe duros

sacrificios ás pessoas desfavorecidas da fortuna, e elles ... mas

eil-os, que chegão... Vejão e convenção-se com seos proprios olhos.

Entrava nesse momento na ante-sala uma joven e formosa dama pelo braço

de um homem de idade madura e de respeitavel presença.

--Boa noite, senhor Anselmo!... boa noite, D. Elvira!... felizmente

eil-os aqui!--isto dizia Alvaro aos recemchegados, separando-se de

seos amigos, e apressurando-se para cumprimentar a aquelles com toda

a amabilidade e cortezia. Depois offerecendo um braço a Elvira e

outro ao senhor Anselmo, os vae conduzindo para as salas interiores,

por onde já turbilhona a mais numerosa e brilhante sociedade. Os

tres interlocutores de Alvaro, bem como muitas outras pessoas, que

por ali se achavão, puserão-se em ala para verem passar Elvira, cuja

presença causava sensação e murmurinho, mesmo entre os que não estavão

prevenidos.

--Com effeito!... é de uma belleza deslumbrante!

--Que porte de rainha!...

--Que olhos de andaluza!...

--Que magnificos cabellos!

--E o collo!... que collo!... não reparaste?...

--E como se traja com tão elegante simplicidade!--assim murmuravão

entre si os tres cavalheiros como impressionados por uma apparição

celeste.

--E não reparaste,--accrescentou o D^{r}. Geraldo,--naquelle feiticeiro

sinalsinho, que tem na face direita?... Alvaro tem razão; a sua fada

vae eclipsar todas as bellezas do salão. E tem de mais a mais a

vantagem da novidade, e esse prestigio do mysterio, que a envolve.

Estou ardendo de impaciencia por lhe ser apresentado; desejo admiral-a

mais de espaço.

Neste tom continuárão a conversar, até que passados alguns minutos,

Alvaro, tendo cumprido a grata commissão de apresentador daquella nova

pérola dos salões, estava de novo entre elles.

--Meos amigos,--disse-lhes elle com ar triumphante.--convido-os para o

salão. Quero já apresentar-lhes D. Elvira para desvanecer de uma vez

para sempre as injustas e injuriosas apprehensões, que ainda ha pouco

nutrião a respeito do ente o mais bello e mais puro, que existe debaixo

do sol, se bem que estou certo que só com a simples vista ficárão

penetrados de assombro até a medulla dos ossos.

Os quatro cavalheiros se retirárão e desapparecêrão no meio do

turbilhão das salas interiores. Forão porém immediatamente substituidos

por um grupo de lindas e elegantes moças, que scintillantes de sedas

e pedrarias como um bando de aves do paraizo, passeavão conversando.

O assumpto da palestra era tambem D. Elvira; mas o diapasão era

totalmente diverso, e em nada se harmonizava com o da conversação dos

rapazes. Nenhum mal nos fará escutal-as por alguns instantes.

--Você não saberá dizer-nos, D. Adelaide, quem é aquella moça, que

ainda ha pouco entrou na sala pelo braço do senhor Alvaro?

--Não, D. Laura; é a primeira vez que a vejo, parece-me que não é desta

terra.

--De certo; que ar espantado tem ella!... parece uma matuta, que nunca

pisou em um salão de baile; não acha, D. Rozalina?

--Sem duvida!... e você não reparou na toilette della?... meo Deos!...

que pobreza! a minha mucama tem melhor gosto para se trajar. Aqui a D.

Emilia é que talvez saiba quem ella é.

--Eu? porque? é a primeira vez que a vejo, mas o senhor Alvaro já me

tinha dado noticias dela, dizendo que era um assombro de belleza. Não

vejo nada disso; é bonita, mas não tanto, que assombre.

--Aquelle senhor Alvaro sempre é um excentrico, um exquisito; tudo

quanto é novidade o seduz. E onde iria elle excavar aquella pérola, que

tanto o traz embasbacado?...

--Veio de arribação lá dos mares do sul, minha amiga, e a julgar pelas

apparencias não é de todo má.

--Se não fosse aquella pinta negra, que tem na face, seria mais

supportavel.

--Pelo contrario, D. Laura; aquelle signal é que ainda lhe dá certa

graça particular...

--Ah! perdão, minha amiga; não me lembrava, que você tambem tem na face

um signalsinho semelhante; esse devéras fica-te muito bem, e dá-te

muita graça; mas o della, se bem reparei, é grande de mais; não parece

uma mosca, mas sim um besouro, que lhe pousou na face.

--A dizer-te a verdade, não reparei bem. Vamos, vamos para o salão; é

preciso vel-a mais de perto, estudal-a com mais vagar para podermos dar

com segurança a nossa opinião.

E dito isto lá se forão ellas com os braços enlaçados, formando como

longa grinalda de variegadas flores, que lá se foi serpeando perder-se

entre a multidão.

Capitulo XI.

Alvaro era um desses entes privilegiados, sobre quem a natureza e a

fortuna parece terem querido despejar á porfia todo o cofre de seos

favores. Filho unico de uma distincta e opulenta familia, na idade de

vinte e cinco annos, era orphão de pae e mãe, e senhor de uma fortuna

de cerca de dous mil contos.

Era de estatura regular, esbelto, bem feito e bello, mais pela nobre

e sympathica expressão da physionomia, do que pelos traços physicos,

que entretanto não erão irregulares. Posto que não tivesse o espirito

muito cultivado, era dotado de entendimento lucido e robusto, proprio a

elevar-se á esphera das mais transcendentes concepções. Tendo concluido

os preparatorios, como era philosopho, que pesava gravemente as cousas,

ponderando que a fortuna de que pelo acaso do nascimento era senhor,

por outro acaso lhe podia ser tirada, quiz para ter uma profissão

qualquer, dedicar-se ao estudo do Direito. No primeiro anno, em quanto

pairava pelas altas regiões da filosofia do direito, ainda achou algum

prazer nos estudos académicos; mas quando teve de embrenhar-se no

intrincado labyrintho dessa arida e enfadonha casuistica do direito

positivo, seo espirito eminentemente synthetico recuou enfastiado, e

não teve animo de proseguir na senda encetada. Alma original, cheia de

grandes e generosas aspirações, aprazia-se mais na indagação das altas

questões politicas e sociaes, em sonhar brilhantes utopias, do que em

estudar e interpretar leis e instituições, que pela maior parte, em sua

opinião só tinhão por base erros e preconceitos os mais absurdos.

Tinha odio a todos os privilegios e distincções sociaes, e é escusado

dizer que era liberal, republicano e quasi socialista.

Com taes idéas Alvaro não podia deixar de ser abolicionista exaltado,

e não o era só em palavras. Consistindo em escravos uma não pequena

porção da herança de seos paes, tratou logo de emancipal-os todos. Como

porém Alvaro tinha um espirito nimiamente philantropico, conhecendo

quanto é perigoso passar bruscamente do estado de absoluta submissão

para o gozo da plena liberdade, organizou para os seos libertos em

uma de suas fazendas uma especie de colonia, cuja direcção confiou a

um probo e zeloso administrador. Desta medida podião resultar grandes

vantagens para os libertos, para a sociedade, e para o proprio Alvaro.

A fazenda lhes era dada para cultivar, a titulo de arrendamento,

e elles sujeitando-se a uma especie de disciplina commum, não só

preservavão-se de entregar-se á ociosidade, ao vicio e ao crime, tinhão

segura a subsistencia e podião adquirir algum peculio, como tambem

poderião indemnizar a Alvaro do sacrificio, que fizera com a sua

emancipação. Original e excentrico como um rico lord inglez, professava

em seos costumes a pureza e severidade de um quaker. Todavia, como

homem de imaginação viva e coração impressionavel, não deixava de

amar os prazeres, o luxo, a elegancia, e sobre tudo as mulheres, mas

com certo platonismo delicado, certa pureza ideal, proprios das almas

elevadas e dos corações bem formados. Entretanto Alvaro ainda não

havia encontrado até ali a mulher, que lhe devia tocar o coração,

a encarnação do typo ideal, que lhe sorria nos sonhos vagos de sua

poetica imaginação. Com tão excellentes e brilhantes predicados, Alvaro

por certo devia ser objeto de grande preoccupação no mundo elegante, e

talvez o almejo secreto, que fazia palpitar o coração de mais de uma

illustre e formosa donzella. Elle porém, igualmente cortez e amavel

para com todas, por nenhuma dellas ainda havia dado o minimo signal de

predilecção.

Pode-se fazer idéa do desencanto, do assombro, da terrivel decepção

que reinou nos circulos das bellas pernambucanas ao verem o vivo

interesse e solicitude, de que Alvaro rodeava uma obscura e pobre moça;

a defferencia com que a tratava, e os enthusiasticos elogios, que sem

rebuço lhe prodigalisava. Juno e Pallas não ficárão tão despeitadas,

quando o formoso Paris conferio a Venus o premio da formosura. Já antes

daquelle saráo, Alvaro em alguns circulos de senhoras havia fallado

de Elvira em termos tão lisonjeiros e mesmo com certa eloquencia

apaixonada, que a todas sorprehendeo e inquietou. As moças ardião

por ver aquelle prototypo de belleza, e já de antemão chovião sobre

a desconhecida e o seo campeão mil chascos e malignos apodos. Quando

porém a virão, apezar dos contrafeitos e desdenhosos sorrisos, que

apenas lhes roçavão a flor dos labios, sentirão uma desagradavel

impressão pungir-lhes no intimo do coração. Peço perdão ás bellas, de

minha rude franqueza; a vaidade é com bem raras excepções, companheira

inseparavel da belleza; e onde se acha a vaidade, a inveja, que sempre

a acompanha mais ou menos de perto, não se faz esperar por muito tempo.

A belleza da desconhecida era incontestavel; sua modestia e timidez

em nada prejudicavão a singela e nativa elegancia de que era dotada;

o traje simples e mesmo pobre em relação ao luxo sumptuoso, que a

rodeava, assentava-lhe maravilhosamente, e realçavão-lhe ainda mais os

encantos naturaes. O effeito deslumbrante, que Elvira produzio logo ao

primeiro aspecto, e o empenho com que Alvaro procurava fazer sobresahir

os seductores attractivos de Elvira, como de proposito para eclipsar as

outras bellezas do salão, erão de sobejo para irritar-lhes a vaidade

e o amor proprio. Uma e outro devião ser naquella noite o alvo de mil

olhares desdenhosos, de mil sorrisos zombeteiros, e acerados epigrammas.

Alvaro nem dava fé da mal disfarçada hostilidade, com que elle e a

sua protegida,--podemos dar-lhe esse nome,--erão acolhidos naquella

reunião; mas a timida e modesta Elvira, que em parte alguma encontrava

lhaneza e cordialidade, achava-se mal naquella atmosphera de fingida

amabilidade e cortezania, e em cada olhar via um escarneo desdenhoso,

em cada sorriso um sarcasmo.

Já sabemos quem era Alvaro; agora travemos conhecimento com o seo

amigo, o D^{r}. Geraldo.

Era um homem de trinta annos, bacharel em direito, e advogado altamente

conceituado no foro do Recife. Entre as relações de Alvaro era a que

cultivava com mais affecto e intimidade; uma intelligencia de bom

quilate, firme e esclarecida, um caracter sincero, franco e cheio de

nobreza, davam-lhe direito a essa predilecção da parte de Alvaro.

Seo espirito pratico e positivo, como deve ser o de um consummado

jurisconsulto, prestando o maior respeito ás instituições e mesmo a

todos os preconceitos e caprichos da sociedade, estava em completo

antagonismo com as idéas excentricas e reformistas de seo amigo; mas

esse antagonismo longe de perturbar ou arrefecer a reciproca estima

e affeição, que entre eles reinava, servia antes para alimental-as e

fortalecel-as, quebrando a monotonia, que deve reinar nas relações

de duas almas sempre accordes e unisonas em tudo. Estas taes por fim

de contas, vendo que o que uma pensa, a outra tambem pensa, o que

uma quer, a outra igualmente quer, e que nada tem a se communicarem,

enjoadas de tanto se dizerem--amen,--ver-se-hão forçadas a

recolherem-se ao silencio e a dormitarem uma em face da outra; placida,

commoda e somnolenta amisade!... De mais, a contrariedade de tendencias

e opiniões são sempre de grande utilidade entre amigos, modificando-se

e temperando-se umas pelas outras. É assim, que muitas vezes o

positivismo e o senso pratico do D^{r}. Geraldo servião de correctivo

ás utopias e exaltações de Alvaro, e vice-versa.

Da boca do proprio Alvaro já ouvimos por que acaso veio elle a conhecer

D. Elvira, e como conseguio leval-a ao saráo, a que ainda continuamos a

assistir.

--Meo pae,--dizia uma jovem senhora a um homem respeitavel, em cujo

braço se arrimava, entrando na ante-sala, onde ainda nos conservamos de

observação.--Meo pae, fiquemos por aqui um pouco nesta sala, em quanto

está deserta. Ah! meo Deos!--continuou ella com voz abafada, depois de

se terem sentado junto um do outro;--que vim eu aqui fazer, eu pobre

escrava, no meio dos saráos dos ricos e dos fidalgos!... este luxo,

estas luzes, estas homenagens, que me rodeião, me perturbão os sentidos

e causão-me vertigem. É um crime que cometo, envolvendo-me no meio de

tão luzida sociedade; é uma traição, meo pae; eu o conheço, e sinto

remorsos... Se estas nobres senhoras adivinhassem, que ao lado dellas

diverte-se e dança uma miseravel escrava fugida a seos senhores!...

Escrava!--exclamou levantando-se--escrava!... affigura-se-me que todos

estão lendo, gravada em letras negras em minha fronte, esta sinistra

palavra!... fujamos daqui, meu pai, fujamos! esta sociedade parece

estar escarnecendo de mim; este ar me suffoca... fujamos.

Fallando assim a moça palida e offegante, lançava a cada phrase olhares

inquietos em roda de si, e empuchava o braço de seo pae, repetindo

sempre com anciosa soffreguidão:--Vamo-nos, meo pae; fujamos daqui.

--Socega teo coração, minha filha, respondia o velho procurando

acalmal-a.--Aqui ninguem absolutamente pode suspeitar quem tu és.

Como poderão desconfiar, que és uma escrava, se de todas essas lindas

e nobres senhoras nem pela formosura, nem pela graça e prendas do

espirito, nenhuma pode levar-te a palma?

--Tanto peor, meo pae; sou alvo de todas as attenções, e esses olhares

curiosos, que de todos os cantos se dirigem sobre mim, fazem-me a cada

instante estremecer; desejaria até, que a terra se abrisse debaixo de

meos pés, e me sumisse em seo seio.

--Deixa-te dessas idéas; esse teo medo e acanhamento é que poderião nos

pôr a perder, se acaso houvesse o mais leve motivo de receio. Ostenta

com desembaraço todos os seos encantos e habilidades, dança, canta,

conversa, mostra-te alegre e satisfeita, que longe de te supporem uma

escrava, são capazes de pensar que és uma princeza. Toma animo, minha

filha, ao menos por hoje; esta tambem, assim como é a primeira, será

a derradeira vez que passaremos por este constrangimento; não nos é

possivel ficar por mais tempo nesta terra, onde começamos a despertar

suspeitas.

--É verdade, meo pae!... que fatalidade!...--respondeo a moça com uma

triste oscillação de cabeça.--Assim pois estamos condenados a vagar

de paiz em paiz, sequestrados da sociedade, vivendo no mysterio, e

estremecendo a todo instante, como se o céo nos tivesse marcado com

um ferrete de maldição!... ah! esta partida ha-de-me doer bem no

coração!... não sei que encanto me prende a este lugar. Entretanto

terei de dizer adeos eterno a ... esta terra, onde gozei alguns dias de

prazer e tranquillidade! Ah! meo Deos!... quem sabe, se não teria sido

melhor morrer entre os tormentos da escravidão!...

Neste momento entrava Alvaro na ante-sala percorrendo-a com os olhos,

como quem procurava alguem.

--Onde se sumirião?--vinha elle murmurando;--terião tido a triste

lembrança de se irem embora?... oh! não; felizmente ei-los

ali!--exclamou alegremente, dando com os olhos nos dous personagens,

que acabamos de ouvir conversar.--D. Elvira, Vª. Exª. é modesta de

mais; vem esconder-se neste recanto, quando devia estar brilhando

no salão, onde todos suspirão pela sua presença. Deixe isso para as

timidas e fanadas violetas; á rosa compete alardear em plena luz todos

os seos encantos.

--Desculpe-me,--murmurou Isaura--uma pobre moça creada como eu na

solidão da roça, e que não está acostumada a tão esplendidas reuniões,

sente-se abafada e constrangida...

--Oh! não;... ha-de acostumar-se, eu espero. As luzes, o esplendor, as

harmonias, os perfumes, constituem a atmosphera em que deve brilhar

a belleza, que Deos creou para ser vista e admirada. Vim buscal-a a

pedido de alguns cavalheiros, que já são admiradores de Vª. Exª. Para

interromper a monotonia das valsas e quadrilhas, costumão aqui as

senhoras encantar-nos os ouvidos com alguma canção, aria, modinha,

ou seja o que fôr. Algumas pessoas, a quem eu disse,--perdoe-me a

indiscrição, filha do enthusiasmo,--que Vª. Exª. possue a mais linda

voz, e canta com maestria, mostrão o mais vivo desejo de ouvil-a.

--Eu, senhor Alvaro!... eu cantar diante de uma tão luzida reunião!...

por favor queira dispensar-me dessa nova prova. É em seo proprio

interesse, que lhe digo; canto mal, sou muito acanhada, e estou certa

que irei solemnemente desmentil-o. Poupe-nos a nós ambos essa vergonha.

--São desculpas, que não posso acceitar, por que já a ouvi cantar, e

creia-me, D. Elvira, se eu não tivesse a certeza, de que a senhora

canta admiravelmente, não seria capaz de expôl-a a um fiasco. Quem

canta como Vª. Exª. não deve acanhar-se, e eu por minha parte peço-lhe

encarecidamente, que não cante outra cousa, senão aquella maviosa

canção da escrava, que outro dia a sorprehendi cantando, e affianço a

Vª. Exª, que arrebatará os ouvintes.

--Por que razão não pode ser outra? essa desperta-me recordações tão

tristes...

--E é talvez por isso mesmo, que é tão linda nos labios de Vª. Exª.

--Ai! triste de mim!--suspirou dentro da alma D. Elvira:--aquelles

mesmos que mais me amão, tornão-se, sem o saber, os meos algozes!...

Elvira bem quisera escusar-se a todo transe; cantar naquella ocasião

era para ella o mais penoso dos sacrificios. Mas não lhe era mais

possivel reluctar, e lembrando-se do judicioso conselho de seo pae,

não quis mais ver-se rogada, e acceitando o braço que Alvaro lhe

offerecia, foi por elle conduzida ao piano, onde sentou-se com a

graça e elegancia, de quem se acha completamente familiarizada com o

instrumento.

Uma multidão de cabeças curiosas, e de corações palpitando na mais

anciosa expectação, se apinhárão em volta do piano; os cavalheiros

estavão anciosos por saberem, se a voz daquella mulher correspondia

á sua extraordinaria belleza; se a fada seria tambem uma sereia; as

moças esperavão, que ao menos naquelle terreno, terião o prazer de ver

derrotada a sua formidavel emula, e já contavão comparal-a com o pavão

da fabula, queixando-se a Juno, que o tendo formado a mais bella das

aves, não lhe déra outra voz mais que um guincho aspero e desagradavel.

A conjunctura era delicada e solemne; a moça achava-se na difficil

situação de uma prima dona, que precedida de uma grande reputação, faz

a sua estréa perante um publico exigente e illustrado. Em torno della

fazia-se profundo silencio; as respirações estavão como que suspensas,

ao passo que parecia ouvir-se o palpitar de todos os corações no offego

da expectação. Alvaro, apezar de conhecer já a excellencia da voz de

Elvira e sua maestria no canto, não deixava de mostrar-se inquieto e

commovido. Elvira por sua parte pouco se importaria de cantar bem ou

mal; desejaria até passar pela moça a mais feia, a mais desengraçada

e a mais tola daquella reunião, com tanto que a deixassem a um canto

esquecida e socegada. Dir-se-hia, que estava debaixo do imperio de

algum terrivel presentimento. Mas Elvira amava a Alvaro, e grata ao

delicado empenho, com que este, cheio de solicitude e enthusiasmo,

se esforçava por apresental-a como um prototypo de belleza e de

talento aos olhos daquella brilhante sociedade, para satisfazel-o, e

não desmentir a lisonjeira opinião, que propalára a respeito della,

desejava cantar o melhor que lhe fosse possivel. Era ao triumpho de

Alvaro, que aspirava mais do que ao seo proprio.

Uma vez sentada ao piano, logo que seos dedos mimosos e flexiveis,

pousando sobre o teclado, preludiárão alguns singelos accordes, a moça

sentio-se outra, revelando aos circumstantes maravilhados um novo

e original aspecto de sua formosura. A physionomia, cuja expressão

habitual era toda modestia, ingenuidade e candura, animou-se de luz

insolita; o busto admiravelmente cinzelado, ergueo-se altaneiro

e magestoso; os olhos estaticos alçavão-se cheios de esplendor e

serenidade; os seios, que até ali apenas arfavão como as ondas de

um lago em tranquilla noite de luar, começárão de offegar, turgidos

e agitados, como oceano encapellado; seo collo distendeo-se alvo e

esbelto como o do cysne, que se aprésta a desprender os divinais

gorgeios. Era o sopro da inspiração artistica, que roçando-lhe pela

fronte, a transformava em sacerdotiza do bello, em interprete inspirada

das harmonias do céo. Ali sentia-se ella rainha sobre seo throno ideal;

ali era Caliope sentada sobre a tripode sagrada, avassalando o mundo ao

som de enlevadoras e ineffaveis harmonias. Das proprias inquietações e

angustias da alma soube ella tirar alento e inspiração para vencer as

difficuldades da ardua situação, em que se achava empenhada. Banhou os

labios com as lagrimas do coração, e a voz lhe rompeo do peito com tão

original e arrebatadora vibração, em modulações tão puras e suaves, tão

repassadas de sublime melancolia, que mais de uma lagrima vio-se rolar

pelas faces dos frequentadores daquelle templo dos prazeres, dos risos,

e da frivolidade!

Elvira acabava de alcançar um triumpho collossal. Mal terminára o

canto, o salão restrugio entre os mais estrondosos applausos, e parecia

que vinha desabando ao ruido atordoardor das palmas e dos vivas!

--A fada de Alvaro é tambem uma sereia;--dizia o D^{r}. Geraldo a um

dos cavalheiros, em cuja companhia já o vimos.--Resume tudo em si!...

que timbre de voz tão puro e tão suave! julguei-me arrebatado ao

septimo céo, ouvindo as harmonias dos choros angelicos.

--É uma consummada artista ... no theatro faria esquecer a Malibran, e

conquistaria reputação europea. Alvaro tem razão; uma creatura assim

não pode ser uma mulher ordinaria, e muito menos uma aventureira... A

musica dando o signal para a quadrilha, interrompe a conversação ou não

nol-a deixa ouvir.

--D. Elvira,--diz Alvaro dirigindo-se á sua protegida, que já se achava

sentada ao pé de seo pae,--lembre-se, que me fez a honra de conceder-me

esta quadrilha.

Elvira esforçou-se por sorrir e combater o terrivel abatimento, que ao

deixar o piano de novo se apoderára de seo espirito.

Tomou o braço de Alvaro, e ambos forão occupar o seo lugar na quadrilha.

Capitulo XII.

Agora os leitores já sabem, se é que ha mais tempo não adivinhárão,

que a supposta Elvira não é mais do que a escrava Isaura, assim como

Anselmo não passa do feitor Daniel, ambos os quaes são já nossos

conhecidos antigos. Como tambem sabem, que Isaura não só era dotada

de espirito superior, como tambem recebera a mais fina e esmerada

educação, não lhe estranharão a distincção das maneiras, a elegancia e

elevação da linguagem, e outros dotes, que fazião, com que essa escrava

excepcional pudesse apparecer e mesmo brilhar no meio da mais luzida e

aristocratica sociedade.

Foi a situação desesperada, em que via sua querida filha, que inspirou

a Daniel o expediente extremo de uma fuga precipitada, exposta a mil

azares, e perigos. Lembrava-se elle com horror do miserando destino,

de que em iguaes circumstancias fôra victima a mãe de Isaura, e bem

sabia, que Leoncio, tão desalmado como o pae, e ainda mais corrupto

e libertino, era capaz de excessos e attentados ainda maiores. Tendo

perdido a esperança de libertar a filha, entendeo que podia utilizar-se

da somma, que para esse fim tinha agenciado, empregando-a em arrancar

a pobre victima das mãos do algôz, por qualquer meio que fosse. Bem

via, que aos olhos do mundo tirar uma escrava da casa de seos senhores,

e proteger-lhe a fuga, além de ser um crime, era um acto desairoso e

indigno de um homem de bem; mas a escrava era uma filha idolatrada, e

uma pérola de pureza, prestes a ser polluida ou esmagada pela mão de um

senhor verdugo, e esta consideração o justificava aos olhos da propria

consciencia.

Bem se lembrára o infeliz pae de dar denuncia do facto ás autoridades,

implorando a protecção das leis em favor de sua filha, para que não

fosse victima das violencias e sevicias de seo dissoluto e brutal

senhor. Mas todos a quem consultava, respondião-lhe a uma voz:--Não

se metta em tal; é tempo perdido. As autoridades nada tem que ver com

o que se passa no interior da casa dos ricos. Não caia nessa; muito

feliz será, se sómente tiver de pagar as custas, e não lhe arrumarem

por cima algum processo, com que tenha de ir dar com os costados na

cadeia.--Onde se vio o pobre ter razão contra o rico, o fraco contra o

forte?...

Daniel entretinha relações occultas com alguns dos antigos escravos da

fazenda de Leoncio, os quaes, lembrando-se ainda com saudades do tempo

de sua boa administração, conservavão-lhe o mesmo respeito e affeição,

e por meio delles tinha exacta informação do que se passava na fazenda.

Sabendo dos crueis apuros, a que sua filha se achava reduzida depois

da morte do commendador, não hesitou mais um instante, e tratou de

tomar todas as providencias e medidas de segurança para roubar a filha,

e pôl-a fóra do alcance de seo barbaro senhor. Na mesma madrugada,

que seguio-se á tarde, em que a raptou, fazia-se de véla com Isaura

para as provincias do norte em um navio negreiro, de que era capitão

um portuguez, antigo e dedicado amigo seo. Este chegando ás alturas

de Pernambuco, como dahi tinha de singrar para a costa da Africa,

largou-os no Recife, promettendo-lhes, que dentro em tres ou quatro

mezes estaria de volta e pronto a conduzil-os para onde quizessem.

Daniel, que em sua profissão de jardineiro ou de feitor havia passado a

vida desde a infancia, dentro de um horizonte acanhado e em circulo mui

limitado de relações, tinha pouco conhecimento e nenhuma experiencia do

mundo, e portanto não podia calcular todas as consequencias da difficil

posição, em que ia collocar a si e a sua filha. Durante os longos

annos, que esteve feitorando a fazenda do commendador e de outros, não

se déra senão uma ou outra fuga insignificante de escravos, por poucos

dias e para alguma fazenda vizinha, e portanto não é para admirar, que

elle quasi completamente ignorasse a amplitude dos direitos, que tem

um senhor sobre o escravo, e os infinitos meios e recursos de que pode

lançar mão para captural-os em caso de fuga. Entendeo pois, que em

Pernambuco poderia viver com sua filha em plena seguridade, ao menos

por tres ou quatro mezes, uma vez que se afastassem da sociedade o

mais que pudessem, e procurassem esconder sua vida na mais completa

obscuridade.

Isaura tambem, se bem que tivesse o espirito mais atilado e

esclarecido, longe do objecto principal de seo terror e aversão, não

deixava de sentir-se tranquilla, e até certo ponto descuidosa dos

perigos a que vivia exposta. Mas essa tal ou qual tranquillidade só

durou até o dia, em que pela primeira vez vio Alvaro. Amou-o com esse

amor exaltado das almas elevadas, que amão pela primeira e unica vez,

e esse amor, como bem se comprehende, veio tornar ainda mais critica e

angustiosa a sua já tão precaria e misera situação.

Alvaro tinha na physionomia, nas maneiras, na voz e no gesto, um não

sei quê de nobre, de amavel e profundamente sympathico, que avassalava

todos os corações. O que não seria elle para aquella, que unica até

ali lhe soubera conquistar o amor. Isaura não poude resistir a tão

prestigiosa seducção; amou-o com o ardor e enthusiasmo de um coração

virgem; e com a inprevidencia e cegueira de uma alma de artista, embora

não visse nesse amor mais do que uma nova fonte de lagrimas e torturas

para seo coração.

Medindo o abysmo, que a separava de Alvaro, bem sabia que de nenhuma

esperança podia alimentar-se aquella paixão funesta, que deveria ficar

para sempre sepultada no intimo do coração, como um cancro a devoral-o

eternamente.

No seo calix de amarguras, já quasi a transbordar, tinha de receber

da mão do destino mais aquelle travo cruel, que lhe devia queimar os

labios e envenenar-lhe a existencia.

Já bastante lhe pesava andar enganando a sociedade a respeito de sua

verdadeira condição; alma sincera e escrupulosa, envergonhava-se

comsigo mesma de impor ás poucas pessoas, que com ella tratavão de

perto, um respeito e consideração a que nenhum direito podia ter. Mas

considerando que de tal disfarce nenhum grande mal podia resultar

á sociedade, conformava-se com sua sorte. Deveria porém ella, ou

poderia sem inconveniente manter o seo amante na mesma illusão? Com

seo silencio, conservando-o na ignorancia de sua condição de escrava,

deveria deixar alimentar-se e crescer profunda e energica paixão,

que o moço por ella concebera?... não seria isto um vil embuste, uma

indignidade, uma traição infame? não teria elle o direito, ao saber

da verdade, de acabrunhal-a de amargas exprobrações, de desprezal-a,

de calcal-a aos pés, de tratal-a emfim como escrava abjeta e vil, que

ficaria sendo?

--Oh! isto para mim seria mais horrivel que mil mortes!--exclamava

ella no meio do angustioso embate de idéas, que se lhe agitavão no

espirito.--Não, não devo illudil-o; isto seria uma infamia ... vou-lhe

descobrir tudo; é esse o meo dever, e hei-de cumpril-o. Ficará sabendo,

que não pode, que não deve amar-me; porém ao menos não ficará com o

direito de desprezar-me ... uma escrava, que procede com lisura e

lealdade, pode ao menos ser estimada.

Não; não devo enganal-o; hei de revelar-lhe tudo.

Esta era a resolução que lhe inspiravão seo natural pundonor e

lealdade, e os dictames de uma consciencia recta e delicada, mas quando

chegava o momento de pôl-a em pratica fraqueava-lhe o coração, e Isaura

ia differindo de dia para dia a execução de seo proposito.

Fallecia-lhe de todo a coragem para quebrar por suas proprias mãos a

doce chiméra, que tão deliciosamente a embalava, e em que ás vezes

conseguia esquecer por longo tempo sua misera condição, para lembrar-se

sómente que amava e era amada.

--Deixemos durar mais um dia--reflectia ella comsigo,--esta illusoria,

mas ineffavel ventura. Sou uma condenada, que arrancão da masmorra para

subir ao palco e fazer por momentos o papel de rainha feliz e poderosa;

quando descer, serei de novo sepultada em minha masmorra para nunca

mais sahir. Prolonguemos estes instantes; não será licito deixar passar

ao menos em sonhos uma hora de felicidade sobre a fronte do infeliz

condenado?... sempre será tempo de quebrar esta fragil cadeia de ouro,

que me prende ao céo, e baquear de novo no inferno de meos soffrimentos.

Nesta indecisão, nesta lucta interna, em que sempre a voz da paixão

abafava os dictames da razão e da consciencia, passarão-se alguns dias

até áquelle, em que Alvaro os induzio por meios quasi violentos a

acceitarem convite para um baile. Desde então Isaura entendeo que seria

uma deslealdade, uma infamia inqualificavel, conservar por mais tempo

o seo amante na illusão a respeito de sua condição, e que não havia

mais meio de prolongar, sem desdouro para elles, tão falsa e precaria

situação.

Era muito abusar da ignorancia do nobre e generoso mancebo! uma escrava

fugida apresentar-se em um baile, e apavonar-se em seo braço á face da

mais brilhante e distincta classe de uma importante capital!... era

pagar com a mais feia ingratidão e a mais degradante deslealdade os

serviços, que com tanta delicadeza e amabilidade lhe havia prestado.

Isto repugnava absolutamente aos escrupulos, da melindrosa consciencia

de Isaura. É verdade, que Miguel atterrado pelas considerações, que

Alvaro lhe fizera, vio-se forçado a annuir ao seo gracioso convite;

Isaura porém guardára absoluto silencio, o que ambos tomárão por um

signal de aquiescencia.

Enganavão-se. Isaura recolhida ao silencio não fazia mais do que tentar

esforços supremos para sacudir o fardo daquelle disfarce, que tanto lhe

pesava sobre a consciencia, rasgando resolutamente o véo, que encobria

aos olhos do amante sua verdadeira condição. Por mais porém que

invocasse toda a sua energia e resolução, no momento decisivo a coragem

a abandonava. Já a palavra lhe pairava pelos labios entre-abertos,

já tinha o passo formado para ir prostrar-se aos pés de Alvaro, mas

encontrando pousado sobre ella o olhar meigo e apaixonado do mancebo,

ficava como que fascinada; a palavra não ousava romper os labios

paralysados e refluia ao coração, e os pés recusavão-se ao movimento

como se estivessem pregados no chão. Isaura estava como o desgraçado a

quem circunstancias fataes arrastão ao suicidio, mas que ao chegar á

borda do precipicio medonho em que deseja arrojar-se, recua espavorido.

--Fraca e covarde creatura que eu sou!--pensou ella por fim

esmorecida:--que miseria! nem tenho coragem para cumprir um dever! não

importa; para tudo ha remedio; cumpre que elle ouça da boca de meo pae,

o que eu não tenho animo de dizer-lhe.

Esta idéa luzio-lhe no espirito como uma taboa salvadora; agarrou-se

a ella com soffreguidão, e antes que de novo lhe fraqueasse o animo,

tratou de pôl-a em execução.

--Meo pae,--disse ella resolutamente, apenas Alvaro transpoz o portão

do pequeno jardim,--declaro-lhe, que não vou a esse baile; não quero,

nem devo por forma nenhuma lá me apresentar.

--Não váis?!--exclamou Miguel attonito.--E por que não disseste isto ha

mais tempo, quando o senhor Alvaro ainda aqui se achava? agora que já

demos nossa palavra...

--Para tudo ha remedio, meo pae,--atalhou a filha com febril

vivacidade--e para este caso elle é bem simples. Vá meo pae depressa

á casa desse moço, e diga-lhe o que eu não tive animo de dizer-lhe;

declare-lhe quem eu sou, e está tudo acabado.

Dizendo isto, Isaura estava palida, fallava com precipitação, os labios

descorados lhe tremião, e as palavras proferidas com voz convulsa e

estridente, parecia que lhe erão arrancadas a custo do coração. Era

o resultado do extremo esforço que fazia, para levar a effeito tão

penivel resolução. O pai olhava para ella com assombro e consternação.

--Que estás a dizer, minha filha!--replicou-lhe elle--estás tão palida

e alterada!... parece-me que tens febre ... soffres alguma cousa?

--Nada soffro, meo pae; não se inquiete pela minha saúde. O que eu

estou lhe dizendo é que é absolutamente necessario, que meo pae vá

procurar esse moço e confessar-lhe tudo...

--Isso nunca!... estás louca, menina?... queres que eu te veja

encerrada em uma cadeia, conduzida em ferros para a tua provincia,

entregue a teo senhor, e por fim ver-te morrer entre tormentos nas

garras daquelle monstro! oh! Isaura, por quem és, não me falles mais

nisso. Emquanto o sangue me girar nestas veias, emquanto me restar o

mais pequenino recurso, hei-de lançar mão delle para te salvar....

--Salvar-me por meio de uma indignidade, de uma infamia, meo pae!...

retorquio a moça com exaltação.--Como posso eu, sem commetter a mais

vil deslealdade, apparecer apresentada por elle como uma senhora livre

em uma sala de baile?... Quando esse senhor e tantas outras illustres

pessoas souberem que hombreou com ellas, e a par dellas dançou uma

miseravel escrava fugida...

--Cala-te, menina!--interrompeo o velho, incommodado com a exaltação

da filha.--Não falles assim tão alto ... tranquilliza-te; elles nunca

saberão de nada. O mais breve que puder ser deixaremos esta terra;

ámanhã mesmo, se for possivel. Embarcaremos em qualquer paquete, e

iremos para bem longe, para os Estados-Unidos, por exemplo. Lá, segundo

me consta, poderemos ficar fóra do alcance de qualquer perseguição. Eu

com o meo trabalho, e tu com as tuas prendas e habilitações, podemos

viver sem soffrer necessidades em qualquer canto do mundo.

--Ah! meo pae! essa idéa de irmos para tão longe, sem esperança de um

dia podermos voltar, me opprime o coração.

--Que remedio, minha filha!... já agora, ainda que tenhamos de ir parar

ao fim do mundo, nos é forçoso fugir ás garras do monstro.

--Mas esse moço, que tanto se interessa por nós, o senhor Alvaro,

nobre e generoso como é, sabendo da minha verdadeira condição, e das

terriveis circumstancias que nos obrigão a andar assim fugitivos e

disfarçados pelo mundo, talvez queira e possa nos amparar e valer

contra as perseguições.

--E quem nos affiança isso?... o mais certo é elle entregar-te ao

desprezo, logo que saiba que não passas de uma escrava fugida, se

despeitado com o logro que levou, não for o primeiro a denunciar-te

á policia. No transe em que nos achamos, é de absoluta necessidade

enganar a elle e a todos; se revelarmos a quem quer que seja o segredo

de nossa posição, estamos perdidos. Toma coragem, e vamos ao baile,

minha filha; é um sacrificio cruel, mas passageiro, a que devemos nos

sujeitar a bem de nossa segurança. Em breve estaremos longe, e se

algum dia souberem quem tu eras, que nos importa? nunca mais nos verão

o rosto, nem ouvirão nossos nomes. Tens a consciencia escrupulosa

em demasia. Se ignorão quem tu és, a tua companhia em nada os pode

infamar. Com isso não fazes mal a ninguem; é uma medida de salvação,

que todos te perdoarião.

--Meo pae parece que tem razão; mas não sei por que, repugna-me

absolutamente ao coração dar esse passo.

--Mas é preciso dal-o, minha filha, se não queres para nós ambos a

desgraça e a morte. Se não formos a esse baile, e desapparecermos de um

dia para outro, como nos é forçoso, então as suspeitas que começamos

a despertar, tomarão muito maior vulto, e a policia pôr-se-há á nossa

pista, e nos perseguirá por toda parte. É um sacrificio na verdade, mas

não será elle muito mais suave do que as perseguições da policia, a

prisão, as torturas e a morte, que é o que podes esperar em casa de teo

senhor?...

Isaura não respondeo; seo espirito agitava-se entre as mais pungentes e

amargas reflexões.

As palavras de seo pae a tinhão abismado em glacial e profundo

desalento. Aturdida por tantos golpes, sua alma debatia-se em um mar

de duvidas e perplexidades, como fragil barca em meio de um oceano

irritado, sacudida aos boléos por vagalhões desencontrados.

O grito de sua consciencia escrupulosa e delicada, a lisura e

sinceridade de seo coração, que não podia accomodar-se com o embuste

e a mentira, e uma especie de vago presentimento que lhe pesava sobre

o espirito, a desviavão daquelle baile, e por momentos parecião fixar

definitivamente a sua resolução; e firme neste proposito dizia comsigo

mesma:--não, não irei.

Por outro lado as considerações de seo pae, que parecião tão razoaveis

e sensatas, bem como o desejo de ver Alvaro ainda uma vez, de gozar por

algumas horas a sua presença, fazião-lhe de novo fluctuar o espirito

no mar das irresoluções. A lembrança de que em breve, talvez no dia

seguinte, tinha de deixar aquella terra e separar-se de Alvaro, sem

esperança alguma de jámais tornar a vel-o, sem poder dizer-lhe um

adeos, sem que elle pudesse saber quem ella era, nem para onde ia,

dilacerava-lhe o coração. Partir sem ter um ente a quem apertar nos

braços na hora da despedida, nem ter um seio onde verter as lagrimas

da mais pungente saudade; partir para levar uma vida errante e

fugitiva, sem esperança nem consolação alguma, atravéz de mil trabalhos

e perigos, para terminal-a talvez entre os tormentos da mais atroz

escravidão, oh!... isto era pavoroso!--e, entretanto, era esse o unico

futuro, que a pobre Isaura tinha diante dos olhos. Mas não; tinha

ainda diante de si uma noite inteira de prazer e de ventura, uma noite

esplendida de baile e regozijo de seo amante, respirando o mesmo ar,

inebriando-se de sua voz, bebendo o seo halito, recolhendo dentro

d’alma seos olhares apaixonados, sentindo na sua a pressão daquella

mão adorada, contando as pulsações daquelle coração, que só por ella

palpitava. Oh! uma noite assim valia bem uma eternidade, viessem depois

embora as angustias e perigos, a escravidão e a morte!

Candida e modesta como era, nem por isso Isaura deixava de ter

consciencia do quanto valia. Vendo-se o objeto do amor de um jovem de

espirito elevado, e dotado de tão nobres e brilhantes qualidades como

Alvaro, ainda mais se confirmou na idéa que de si mesma fazia.

Com sua natural perspicacia e penetração, bem depressa convenceo-se,

de que o affecto que o mancebo lhe consagrava, não era simples e

superficial homenagem rendida a seos encantos e talentos, nem tão

pouco passageiro capricho de mocidade, mas verdadeira paixão, sincera,

energica e profunda. Era isto para ella motivo de um orgulho intimo,

que a elevava a seos proprios olhos, e por momentos a fazia esquecer-se

que era uma escrava.

--Estou convencida de que sou digna do amor de Alvaro, se não, elle

não me amaria; e se sou digna de seo amor, por que não o serei de me

apresentar no seio da mais brilhante sociedade? A perversidade dos

homens pode acaso destruir o que ha de bom e de bello na feitura do

creador? Assim reflectia Isaura, e exaltada com estas idéas e com

a seductora perspectiva de algumas horas de ineffavel ventura em

companhia do amante, exclamava dentro d’alma.--Hei de ir, hei de ir ao

baile!--

Emquanto Isaura, silenciosa e com a face na mão, se embebia em suas

cismas, procurando firmar-se em uma resolução, o pae não menos inquieto

e preoccupado, passeava distrahido entre os canteiros do jardim,

aguardando com anciedade uma resposta definitiva de sua filha.

--Irei, meo pae, irei ao baile,--disse ella por fim levantando-se, mas

vou preparar-me para elle como a victima que tem de ser conduzida ao

sacrificio entre canticos e flores. Tenho um cruel presentimento, que

me acabrunha...

--Presentimento de que, Isaura?...

--Não sei, meo pae; de alguma desgraça.

--Pois quanto a mim, Isaura, o coração como que está-me adivinhando,

que de ir a esse baile resultará a nossa salvação.

Capitulo XIII.

Não pense o leitor, que já se acha terminado o baile, a que estavamos

assistindo. A pequena digressão, que por fóra delle fizemos no capitulo

antecedente, nos pareceo necessaria para explicar por que conjuncto de

circumstancias fataes a nossa heroina, sendo uma escrava, foi impellida

a tomar a audaciosa resolução de apresentar-se em um esplendido e

aristocratico saráo,--fraqueza de coração, ou timidez de caracter, que

pode ser desculpada, mas não plenamente justificada em uma pessoa de

consciencia tão delicada e de tão esclarecido entendimento.

O baile continúa, mas já não tão animado e festivo como ao principio.

Os applausos freneticos, a admiração geral, de que Isaura se havia

tornado objecto da parte dos cavalheiros, tinhão produzido um

completo resfriamento entre as mais bellas e espirituosas damas da

reunião. Arrufadas com seos cavalheiros predilectos, em razão das

enthusiasticas homenagens, que francamente ião render aos pés daquella,

que implicitamente estavão proclamando a rainha do salão, já nem ao

menos querião dançar, e em vez de risos folgazões, e de uma conversação

franca e jovial, só se ouvião pelos cantos entre diversos grupos,

expansões mysteriosamente sussurradas, e cochichos segredados entre

amarellas e sarcasticas risotas.

Propagava-se entre as moças como que um sussurro geral de

descontentamento. Era como esses rumores surdos e profundos, que

restrugem ao longe pelo espaço, precedendo uma grande tempestade.

Dir-se-hia, que já estavão adivinhando que aquella mulher, que por

seos encantos e dotes incomparaveis as estava supplantando a todas,

não era mais do que--uma escrava. Muitas mesmo se forão retirando, e

nomeadamente aquellas que affagavão alguma esperança, ou se julgavão

com algum direito sobre o coração de Alvaro. Aniquiladas sob o peso

dos esmagadores triumphos de Isaura, não se achando com animo de

manterem-se por mais tempo na liça, tomárão o prudente partido de irem

esconder no mysterioso recinto das alcovas o despeito e vergonha de tão

cruel e solemne derrota.

Não diremos todavia, que no meio de tantas e tão nobres damas,

distinctas pelos encantos do espirito e do corpo, não houvessem muitas,

que com toda a isenção e sem a menor sombra de inveja, admirassem a

belleza de Isaura, e applaudissem de coração e com sincero prazer os

seos triumphos, e forão essas, que conseguirão ir dando alguma vida ao

saráo, que sem ellas teria esmorecido inteiramente. Todavia não é menos

certo que do bello sexo, sem distincção de classes, ao menos a metade é

ludibrio dessas invejas, ciumes e rivalidades mesquinhas.

Deixamos Isaura indo tomar parte em uma quadrilha, tendo Alvaro por seo

par. Emquanto danção, entremos em uma saleta, onde ha mesas de jogo, e

bufetes guarnecidos de licoreiras, de garrafas de cerveja e champanhe.

Esta saleta communica immediatamente com o salão onde se dança, por uma

larga porta aberta. Achão-se ahi uma meia duzia de rapazes, pela maior

parte estudantes, desses com pretensões a estroinas e excentricos á

Byron, e que já enfastiados da sociedade, dos prazeres e das mulheres,

costumão dizer que não trocarião uma fumaça de charuto, ou um copo de

champanhe, pelo mais fagueiro sorriso da mais formosa donzella; desses

descridos, que vivem a apregoar em prosa e verso que na aurora da vida

já tem o coração mirrado pelo sopro do scepticismo, ou calcinado pelo

fogo das paixões, ou enregelado pela saciedade; desses misanthropos

emfim, cheios de _spleen_, que se achão sempre no meio de todos

os bailes e reuniões de toda especie, alardeando o seo afastamento e

desdem pelos prazeres da sociedade e frivolidades da vida.

Entre elles acha-se um, sobre o qual nos é mister deter por mais um

pouco a attenção, visto que tem de tomar parte um tanto activa nos

acontecimentos desta historia. Este nada tem de _spleenitico_ nem

de byroniano; pelo contrario o seo todo respira o mais chato e ignobil

prosaismo. Mostra ser mais velho que os seos comparsas, uma boa dezena

de anos. Tem cabeça grande, cara larga, e feições grosseiras. A testa

é desmesuradamente ampla, e estofada de enormes protuberancias, o

que, na opinião de Lavater, é indicio de espirito lerdo e acanhado,

a roçar pela estupidez. O todo da physionomia tosca e quase grotesca

revéla instinctos ignobeis, muito egoismo e baixeza de caracter. O

que porém mais o caracteriza é certo espirito de cobiça, e de sordida

ganancia, que lhe transpira em todas as palavras, em todos os actos, e

principalmente no fundo de seos olhos pardos e pequeninos, onde reluz

constantemente um raio de velhacaria. É estudante, mas pelo desalinho

do trajo, sem o menor esmero e nem sombra de elegancia, parece mais um

vendilhão. Estudava ha quinze anos á sua propria custa, mantendo-se

do rendimento de uma taverna, de que era socio capitalista. Chama-se

Martinho.

--Rapaziada,--disse um dos mancebos,--vamos nós aqui a uma partida de

lansquenet, emquanto esses basbaques ali estão a arrastar os pés e a

fazer mesuras.

--Justo!--exclamou outro, sentando-se a uma mesa e tomando

baralhos.--Já que não temos cousa melhor a fazer, vamos ás cartas.

Demais, no baralho é que está a vida. A vista de uma sóta me faz ás

vezes estremecer o coração em emoções mais vivas, do que as sentiria

Romeo a um olhar de Julieta... Affonso, Alberto, Martinho, andem para

cá; vamos ao lansquenet ... duas ou tres corridas sómente...

--De boa vontade acceitaria o convite,--respondeo Martinho,--se não

andasse occupado com um outro jogo, que de um momento para outro, e sem

nada arriscar, pode meter-me na algibeira não menos de cinco contos de

réis limpinhos.

--De que diabo de jogo estás ahi a fallar?... nunca deixarás de ser

maluco?... deixa-te de asneiras, e vamos ao lansquenet.

--Quem tem um jogo seguro como eu tenho, ha-de ir meter-se nos azares

do lansquenet, que já me tem engolido bem boas patacas?... Nem tão tolo

serei eu.

--Com mil diabos, Martinho!... então não te explicarás?... que maldito

jogo é esse?...

--Ora adivinhem lá... Não são capazes. É uma bisca de estrondo. Se

adivinharem, dou-lhes uma ceia esplendida no melhor hotel desta cidade;

bem entendido, se encartar a minha bisca.

--Dessa ceia estamos nós bem livres, pobre comedor de bacalháo ardido,

e por que não é possivel haver quem adivinhe as asneiras que passam lá

por esses teos miolos extravagantes. O que queremos é o teo dinheiro

aqui sobre a mesa do lansquenet.

--Ora deixem-me em paz,--disse Martinho, com os olhos attentamente

dirigidos para o salão de dança.--Estou calculando o meo jogo ...

supponhão que é o xadrez, e que eu vou dar cheque-mate á rainha ...

dito e feito, e os cinco contos são meos...

--Não ha duvida, o rapaz está doudo varrido... Anda lá, Martinho;

descobre o teo jogo, ou vae-te embora, e não nos estejas a massar a

paciencia com tuas maluquices.

--Malucos são vocês. O meo jogo é este ... mas quanto me dão para

descobril-o? olhem que é cousa curiosa.

--Queres-nos atiçar a curiosidade para nos chuchar alguns cobres, não é

assim?... pois desta vez affianço-te da minha parte, que não arranjas

nada. Vae-te aos diabos com o teo jogo, e deixa-nos cá com o nosso. Ás

cartas, meos amigos, e deixemos o Martinho com suas maluquices.

--Com suas velhacarias, dirás tu ... não me pilha.

--Ah! toleirões!--exclamou o Martinho,--vocês ainda estão com os beiços

com que mamárão.

Andem cá, andem, e verão se é maluquice, nem velhacaria. Emfim quero

mostrar-lhes o meo jogo, porque desejo ver se a opinião de vocês estará

ou não de accordo com a minha.

Eis aqui a minha bisca.--concluio Martinho mostrando um papel, que

sacou da algibeira;--não é nada mais que um annuncio de escravo fugido.

--Ah! ah! ah! esta não é má!...

--Que disparate!... decididamente estás louco, meo Martinho.

--A que proposito vem agora annuncio de escravo fugido?...

--Foste acaso nomeado official de justiça ou capitão do mato?

Estas e outras phrases escapavão aos mancebos de envolta, em um choro

de interminaveis gargalhadas, que competião com a orchestra do baile.

--Não sei de que tanto se espantão,--replicou frescamente o

Martinho;--o que admira é que ainda não vissem este grande annuncio em

avulso, que veio do Rio de Janeiro, e foi distribuido por toda a cidade

com o _Jornal do Commercio_.

--Por ventura somos esbirros ou officiaes de justiça, para nos

embaraçarmos com semelhantes annuncios?

--Mas olhem que o negocio é dos mais curiosos, e as alviçaras não são

para se desprezarem.

--Pobre Martinho! quanto pode em teo espirito a ganancia de ouro, que

faz-te andar á cata de escravos fugidos em uma sala de baile!--pois é

aqui, que poderás encontrar semelhante gente?...

--Olé!... quem sabe?!... tenho cá meos motivos para desconfiar que por

aqui mesmo hei-de achal-a, assim como os cinco continhos, que, aqui

entre nós, vem agora mesmo ao pintar, pois que o armazem de meo socio

bem pouco tem rendido nestes ultimos tempos.

Martinho chamava armazem a pequena taverna, de que era socio. Ditas

aquellas palavras foi postar-se junto á porta, que dava para o salão, e

ali ficou por largo tempo a olhar, ora para os que dansavão, ora para o

annuncio, que tinha desdobrado na mão, como quem averigua e confronta

os signaes.

--Que diabo faz ali o Martinho?--exclamou um dos mancebos, que

entretidos com as mimicas do Martinho, tomando-as por palhaçada,

tinha-se esquecido de jogar.

--Está doudo, não resta a menor duvida.--observou outro.--Procurar

escravo fugido em uma sala de baile!... Ora não faltava mais nada!

Se andasse á cata de alguma princeza, de certo a iria procurar nos

quilombos.

--Mas talvez seja algum pajem, ou alguma mucama, que por ahi anda.

--Não me consta que haja nenhum pajem nem mucama ali dansando, e elle

não tira os olhos dos que dansão.

--Deixál-o; este rapaz, além de ser um vil traficante, sempre foi um

maniaco de primeira força.

--É ella!--disse o Martinho, deixando a porta, e voltando-se para seos

companheiros;--é ella; já não tenho a menor duvida; é ella, e está

segura.

--Ella quem, Martinho?...

--Ora! pois quem mais ha-de ser?...

--A escrava fugida?!...

--A escrava fugida, sim, senhores!... e ella está ali dansando.

--Ah! ah! ah! ora vamos ver mais esta, Martinho!... até onde queres

levar a tua farça? deve ser galante o desfecho. Isto é impagavel, e

vale mais que quantos bailes ha no mundo.

--Se todos elles tivessem um episodio assim, eu não perdia nem

um.--Assim clamavão os moços entre estrondosas gargalhadas.

--Vocês zombão?--olhem que a farça cheira um pouco a tragedia.

--Melhor! Melhor!--vamos com isso, Martinho!

--Não acreditão?... pois escutem lá, e depois me dirão que tal é a

farça.

Dizendo isto, Martinho sentou-se em uma cadeira, e desdobrando o

annuncio, pôz-se em attitude de lêl-o. Os outros se agrupárão curiosos

em torno delle.

--Escutem bem,--continuou Martinho--Cinco contos!--eis o titulo

pomposo, que em eloquentes e graúdos algarismos se acha no frontispicio

desta obra immortal, que vale mais que a Iliada de Camões...

--E que os Luziadas de Homero, não é assim, Martinho? deixa-te de

preambulos asnaticos, e vamos ao annuncio.

--Eu já lhes satisfaço,--disse Martinho, e continuou lendo:

--Fugio da fazenda do S^{r}. Leoncio Gomes da Fonseca, no municipio de

Campos, provincia do Rio de Janeiro, uma escrava por nome Isaura, cujos

signaes são os seguintes:

Côr clara e tez delicada como de qualquer branca; olhos pretos e

grandes; cabelos da mesma côr, compridos e ligeiramente ondeados;

boca pequena, rosada e bem feita; dentes alvos e bem dispostos; nariz

saliente e bem talhado; cintura delgada, talhe esbelto, e estatura

regular; tem na face esquerda um pequeno signal preto, e acima do seio

direito um signal de queimadura, mui semelhante a uma aza de borboleta.

Traja-se com gosto e elegancia; canta e toca piano com perfeição. Como

teve excellente educação e tem uma boa figura, pode passar em qualquer

parte por uma senhora livre e de boa sociedade. Fugio em companhia

de um portuguez, por nome Miguel, que se diz seo pae. É natural, que

tenhão mudado o nome. Quem a appreender, e levar ao dito seo senhor,

além de se lhe satisfazerem todas as despezas, receberá a gratificação

de 5:000:000 de réis--.

--Devéras, Martinho?--exclamou um dos ouvintes,--está nesse papel o

que acabo de ouvir? acabas de nos traçar o retrato de Venus, e vens

dizer-nos que é uma escrava fugida!!...

--Se não querem acreditar ainda, leião com seos proprios olhos: aqui

está o papel...

--Com effeito!--accrescentou outro--uma escrava assim vale a pena

apprehendel-a, mais pelo que vale em si, do que pelos cinco contos. Se

eu a pilho, nenhuma vontade teria de entregal-a ao seo senhor.

--Já não me admira que o Martinho a procure aqui; uma creatura tão

perfeita só se pode encontrar nos palacios dos principes.

--Ou no reino das fadas; e pelos signaes e indicios estou vendo, que

não pode ser outra senão essa nova divindade que hoje appareceo....

--Sem mais nem menos; deo no vinte,--atalhou Martinho, e chamando-os

para junto da porta:

--Agora venhão cá,--continuou,--e reparem naquella bonita moça, que

dansa de par com Alvaro. Pobre Alvaro, como está cheio de si! se

soubesse com quem dansa, cahia-lhe a cara aos pés. Reparem bem, meos

senhores, e vejão se não combinão perfeitamente os signaes?...

--Perfeitamente!--acudio um dos moços,--é extraordinario! lá vejo o

signalsinho na face esquerda, e que lhe dá infinita graça. Se tiver a

tal aza de borboleta sobre o seio, não pode haver mais duvida. Ó céos!

é possivel que uma moça tão linda seja uma escrava!

--E que tenha a audacia de apresentar-se em um bailes

destes?--accrescentou outro.--Ainda não posso capacitar-me.

--Pois cá para mim,--disse o Martinho--o negocio é liquido, assim como

os cinco contos, que me parece estarem já me cantando na algibeira; e

até logo, meos caros.

E dizendo isto dobrou cuidadosamente o annuncio, meteo-o na algibeira,

e esfregando as mãos com cynico contentamento, tomou o chapéo, e

retirou-se.

--Forte miseravel!...--disse um dos comparsas--que vil ganancia de ouro

a deste Martinho! estou vendo, que é capaz de fazer prender aquella

moça aqui mesmo em pleno baile.

--Por cinco contos é capaz de todas as infamias do mundo. Tão vil

creatura é um desdouro para a classe a que pertencemos; devemos todos

conspirar para expellil-o da Academia. Cinco contos daria eu para ser

escravo daquella rara formosura.

--É assombroso! Quem diria, que debaixo daquella figura de anjo estaria

occulta uma escrava fugida!

--E tambem quem nos diz, que no corpo da escrava não se acha asylada

uma alma de anjo?...

Capitulo XIV.

Havia terminado a quadrilha. Alvaro ufano e cheio de jubilo, conduzia

o seo formoso par atravéz da multidão, atravéz de uma viva fusilaria

de olhares de inveja e de admiração, que se cruzavão em sua passagem;

a pretexto de offerecer-lhe algum refresco, a foi levando para uma

sala dos fundos, que se achava quasi deserta. Até ali ainda elle não

havia feito a Elvira uma declaração de amor em termos positivos, se

bem que esse amor se estivesse revelando a cada instante, e cada

vez mais ardente e apaixonado, em seos olhos, em suas palavras, em

todos os seos movimentos e acções. Alvaro julgava já ter adquirido

completo conhecimento do coração de sua amada, e nos dous mezes

durante os quaes a havia estudado, não havia descoberto nella senão

novos encantos e perfeições. Estava plenamente convencido, que de

todas as formosuras que até ali tinha conhecido, Elvira era em tudo

a mais digna de seo amor, e já nem por sombras duvidava da pureza de

sua alma, da sinceridade do seo affecto. Pensava portanto, que sem

receio algum de comprometter o seo futuro, podia abandonar o coração

ao imperio daquella paixão, que já não podia dominar. Quanto á origem

e procedencia de Elvira, era cousa de que nem de leve se preoccupava,

e nunca se lembrou de indagar. A distincção de classes repugnava a

seos principios e sentimentos philantropicos. Fosse ella uma princeza

que o destino obrigava a andar foragida, ou tivesse o berço na palhoça

de algum pobre pescador, isso lhe era indifferente. Conhecia-a em si

mesma, sabia que era uma das creaturas mais perfeitas e adoraveis que

se pode encontrar sobre a terra, e era quanto lhe bastava.

Observava Alvaro em seos costumes, como já sabemos, a severidade de um

quaker, e seria incapaz de abusar do amor que havia inspirado á formosa

desconhecida, aninhando em seo espirito um pensamento de seducção.

Naquella noite pois o apaixonado mancebo, rendido e deslumbrado mais

que nunca pelos novos encantos e attractivos, que Elvira alardeava

entre os esplendores do baile, não poude e nem quiz dilatar por

mais tempo a declaração, que a cada instante lhe ardia nos olhos, e

esvoaçava pelos labios, e apenas achou-se em lugar onde pudesse não ser

ouvido senão de Elvira:

--D. Elvira,--lhe disse com voz grave e commovida,--se a senhora é

um anjo em sua casa, nos salões do baile é uma deosa. O meo coração

ha muito já lhe pertence; sinto que o meo destino de hoje em diante

depende só da senhora. Funesta ou propicia, a senhora será sempre a

minha estrela nos caminhos da vida. Creio que me conhece bastante para

acreditar na sinceridade de minhas palavras. Sou senhor de uma fortuna

consideravel; tenho posição honrosa e respeitavel na sociedade; mas

não poderei jámais ser feliz, se a senhora não consentir em partilhar

commigo esses bens, que a fortuna prodigalizou-me.

Estas palavras de Alvaro, tão meigas, tão repassadas do mais sincera

e profundo amor, que em outras condições terião cahido como balsamo

celeste sobre o coração de Isaura a banhal-o em ineffaveis effluvios

de ventura, erão agora para ella como um atroz e pungente sarcasmo do

destino, um hymno do céo ouvido entre as torturas do inferno. Via de um

lado um anjo, que tomando-a pela mão com um suave sorriso mostrava-lhe

um eden de delicias, ao qual se esforçava por conduzil-a, emquanto de

outro lado a hedionda figura de um demonio atava-lhe ao pé um pesado

grilhão, e com todo o seo peso a arrastava para um golphão de eternos

soffrimentos.

É que a pobre Isaura, cheia de sustos e desconfianças, durante uma

pausa tinha notado os movimentos do infame Martinho, quando encostado

ao umbral da saleta com um papel na mão, parecia examinal-a com a mais

minuciosa attenção. Aquella vista produzio nella o effeito de um raio;

não duvidou mais que estava descoberta, e irremissivelmente perdida

para sempre. Subita vertigem lhe escureceo os olhos, pareceo-lhe que o

chão lhe faltava debaixo dos pés, e que ia sendo tragada pelas fauces

de um abysmo immensuravel. Para não cahir foi-lhe preciso agarrar-se

fortemente com ambas as mãos ao braço de Alvaro arrimando-se em seo

peito.

--Que tem, minha senhora?--perguntára-lhe este, assustado.--Está

incommodada?...

--Algum tanto,--respondeo Elvira com voz desfallecida e arquejante, e

reanimando-se pouco a pouco.--Foi uma dor aguda ... uma pontada deste

lado ... mas vae passando ... não estou acostumada com este aperto ...

o remoinhar da dansa me fez mal.

--Mas ha-de acostumar-se em pouco tempo,--replicou-lhe Alvaro,

segurando-lhe uma das mãos e sustendo-a com um braço pela cintura.--A

senhora nasceo para brilhar nos salões;... mas, se quer retirar-se....

--Não, senhor; continuemos; já agora estamos na final...

Com estas respostas evasivas Alvaro tranquillizou-se, e em razão dos

movimentos rapidos da quadrilha na marca final, que immediatamente

seguio-se, não poude notar a extrema palidez e profundo transtorno

das feições de Elvira. A infeliz já não dansava, arrastava-se

automaticamente pela sala; seo espirito não estava ali, não ouvia nem

via outra cousa senão a figura repugnante do Martinho, postada como

esphinge ameaçadora junto á porta da saleta, para a qual ella volvia de

quando em quando olhos cheios de anciedade e pavor. E o sangue todo lhe

refluia ao coração, que lhe tremia como o da pomba que sente estendida

sobre o collo a garra desapiedada do gavião.

Em tal estado de susto e perturbação, Isaura não atinava com o que

devia responder áquella tão sincera e apaixonada declaração do mancebo.

Guardou silencio por alguns instantes, o que Alvaro interpretou por

timidez ou emoção.

--Não me quer responder?--continuou com voz meiga,--uma só palavra é

bastante....

--Ah! senhor,--murmurou ella suspirando, o que posso eu responder ás

doces palavras, que acabo de ouvir de sua boca. Ellas me encantão,

mas....

Elvira interrompeo-se bruscamente; um subito estremecimento agitando o

braço de Alvaro o fez olhar para ella com sobresalto e inquietação.

--É elle!...--este som sussurrou-lhe pelos labios como um gemido rouco

e convulsivo; acabava de avistar Martinho, entrando na sala em que se

achavão, e sentio mortal calafrio percorrer-lhe todo o corpo.

--Desculpe-me, senhor;--continuou ella;--não é possivel por hoje ouvir

suas doces palavras; sinto-me mal; preciso retirar-me. Se o senhor

tivesse a bondade de levar-me onde está meo pae...

--Por que não, D. Elvira?... mas oh!... como está palida!... está

soffrendo muito, não é assim?... quer que eu a acompanhe?... que lhe

chame um medico?... aqui mesmo os há....

--Obrigada, senhor Alvaro; não se inquiete; isto é um mal passageiro,

cansaço talvez; em chegando a casa ficarei boa.

--E quer então retirar-se sem me deixar uma só palavra de consolação e

de esperança?...

--De consolação talvez, mas de esperança....

--Por que não?

--Se nem eu mesma posso tel-a...

--Então não me ama....

--Amo-o muito.

--Então será minha...

--Isso é impossivel...

--Impossivel!... que obstaculo pode haver?...

--Não sei dizer-lhe, senhor; minha desgraça.

Esta amorosa confidencia no momento, em que se achava no ponto mais

interessante, foi bruscamente interrompida pela presença de Martinho,

que se lhes atravessou pela frente, fazendo uma profunda reverencia.

Alvaro indignado carregou o sobrôlho, e esteve a ponto de enchotar

o importuno, como quem enchota um cão. Elvira estacou como que

petrificada de pavor.

--Senhor Alvaro, disse-lhe respeitosamente o Martinho,--com a permissão

de Vª. Sª., preciso dizer duas palavras a esta senhora, a quem Vª. Sª.

dá o braço.

--A esta senhora!--exclamou maravilhado o cavalheiro.--Que tem o senhor

que ver com esta senhora?

--Negocio de summa importancia; ella bem o sabe, melhor do que eu e o

senhor.

Alvaro, que bem conhecia o Martinho, e sabia quanto era abjecto e

desprezivel, julgando ser aquillo manobra de algum rival invejoso, e

covarde, que se servia daquelle miseravel para ultrajal-o ou expôl-o ao

ridiculo, teve um assomo de indignação, mas contendo-se por um momento:

--Tem a senhora algum negocio com este homem?--perguntou a Elvira.

--Eu!?... nenhum, por certo; nem mesmo o conheço,--balbuciou a moça,

palida e a tremer.

--Mas, meo Deus! D. Elvira, por que treme assim? como está palida!...

maldito importuno, que assim a faz soffrer!... oh! pelo céo, D. Elvira,

não se assuste assim. Aqui estou eu a seu lado, e ai daquelle, que

ousar ultrajar-nos!

--Ninguem quer ultrajal-os, senhor Alvaro;--replicou o Martinho; mas o

negocio é mais serio do que o senhor pensa.

--Emfim, senhor Martinho, deixe-se de rodeios e diga-nos aqui mesmo o

que quer com esta senhora.

--Posso dizel-o; mas seria melhor que Vª. Sª. o ignorasse.

--Oh! temos mysterio!... pois nesse caso declaro-lhe, que não

abandonarei esta senhora um só instante, e se o senhor não quer dizer

ao que veio, póde retirar-se.

--Nessa não caio eu, que não hei-de perder o meo tempo, e o meo

trabalho, e nem os meos cinco contos.--Estas ultimas palavras

resmungou-as elle entre os dentes.

--Senhor Martinho, por favor queira não abusar mais da minha paciencia.

Se não quer dizer ao que veio, ponha-se já longe da minha presença....

--Oh! senhor!--retorquio Martinho, sem se perturbar;--já que a isso me

força, pouco me custa fazer-lhe a vontade, e com bastante pezar tenho

de declarar-lhe, que essa senhora a quem dá o braço, é uma escrava

fugida!...

Alvaro, se bem que conhecesse a vilania e impudencia do caracter de

Martinho, no primeiro momento ficou pasmo ao ouvir aquella subita

e imprevista delação. Não podia dar-lhe credito, e reflectindo um

instante confirmou-se mais na idéa, de que tudo aquillo não passava

de uma farça posta em jogo por algum indigno rival, com o fim de

desgostal-o ou insultal-o. A pessoa do Martinho, que não poucas vezes,

na qualidade de truão ou palhaço, servia de instrumento ás vinganças

e paixões mesquinhas de entes tão ignobeis como elle, servia para

justificar a desconfiança de Alvaro, que acabou por não sentir senão

asco e indignação por tão infame procedimento.

--Senhor Martinho,--bradou elle com voz severa,--se alguem pagou-lhe

para vir achincalhar-me a mim e a esta senhora, diga quanto ganha, que

estou prompto a dar-lhe o dobro para nos deixar em paz.

A esta sanguinolenta affronta, a larga e impudente cara do Martinho nem

de leve se alterou, e por unica resposta:

--Torno a repetir,--bradou com todo o descaramento,--e em voz bem alta,

para que todos oição: esta senhora que aqui se acha, é uma escrava

fugida, e eu estou encarregado de apprehendel-a e entregal-a a seo

senhor.

Entretanto Isaura avistando seo pae, que tambem a procurava por toda

a parte com os olhos, largando o braço de Alvaro correo a elle,

lançou-se-le nos braços, e escondendo o rosto em seo hombro:

--Que opprobrio, meo pae!--exclamou com voz sumida e a soluçar.--Eu bem

estava presentindo!...

--Este homem, se não é um insolente, ou está louco ou bebado,--bradava

Alvaro palido de cólera.--Em todo o caso deve ser enchotado como

indigno desta sociedade.

Já alguns amigos de Alvaro agarrando o Martinho pelo braço, se

dispunhão a pôl-o pela porta a fora, como a um ebrio ou alienado.

--De vagar meos amigos, de vagar!.. disse-lhes elle com toda a

calma.--Não me condenem sem primeiro ouvirem-me. Escutem primeiro este

annuncio que lhes vou ler, e se não fôr verdade o que eu digo, dou-lhes

licença para me cuspirem na cara, e me atirarem da janella abaixo.

Entretanto esta pequena altercação começava a attrair a attenção geral,

e numerosos grupos movidos de curiosidade se apinhavão em torno dos

contendores. A frase fatal--esta senhora é uma escrava!--proferida

em voz alta por Martinho, transmittida de grupo em grupo, de ouvido

em ouvido, já havia circulado com incrivel celeridade por todas as

salas e recantos do espaçoso edificio. Um sussurro geral se propagára

por todo elle, e damas e cavalheiros, e tudo o que ali se achava,

inclusive musicos, porteiros e famulos, atropellando-se uns aos outros,

arrojavão-se afanosos para a sala, onde se dava o singular incidente

que estamos relatando. A sala estava litteralmente apinhada de gente,

que nem se podia mexer, e que offegante de anciosa curiosidade erguia a

cabeça, afiava o ouvido e alongava o pescoço o mais que podia para ver

e ouvir o que se passava.

Foi no meio desta multidão silenciosa, immovel, estupefacta e

anhelante, que Martinho sacando tranquillamente da algibeira o

annuncio, que nós já conhecemos, desdobrou-o ante seos olhos, e em voz

bem alta e sonora o leo de principio a fim.

--Bem se vê,--continuou elle concluida a leitura,--que os signaes

combinão perfeitamente, e só um cego não verá naquella senhora a

escrava do annuncio. Mas para tirar toda a duvida, só resta examinar,

se ella tem o tal signal de queimadura acima do seio, e é cousa que

desde já se póde averiguar com licença da senhora.

Dizendo isto, Martinho com impudente desembaraço se encaminhava para

Isaura.

--Alto lá, vil esbirro!... bradou Alvaro com força, e agarrando o

Martinho pelo braço, o arrojou para longe de Isaura, e o teria lançado

em terra, se elle não fosse esbarrar de encontro ao grupo, que cada

vez mais se apertava em torno delles.--Alto lá! nem tanto desembaraço!

escrava, ou não, tu não lhe deitarás as mãos immundas.

Aniquilada de dor e de vergonha, Isaura erguendo emfim o rosto, que

até ali tivera sempre debruçado e escondido sobre o seio de seo pae,

voltou-se para os circumstantes, e ajuntando as mãos convulsas no gesto

da mais violenta agitação:

--Não é preciso que me toquem,--exclamou com voz angustiada.--Meos

senhores, e senhoras, perdão! commetti uma infamia, uma indignidade

imperdoavel!... mas Deos me é testemunha, que uma cruel fatalidade a

isso me levou. Senhores, o que esse homem diz, é verdade. Eu sou ...

uma escrava!...

O rosto da captiva cobrio-se de lividêz cadaverica, como lyrio ceifado

pendeo-lhe a fronte sobre o seio, e o donoso corpo desabou como

bella estatua de marmore, que o furacão arranca do pedestal, e teria

rojado pela terra, se os braços de Alvaro e de Miguel não tivessem

promptamente acudido para amparar-lhe a queda.

Uma escrava!... estas palavras, soluçadas no peito de Isaura como o

estertor do arranco extremo, murmuradas de boca em boca pela multidão

estupefacta, echoárão largo tempo pelos vastos salões, como o rugir

sinistro das lufadas da noite pela grenha de funebre arvoredo.

Este estranho incidente produzio no saráo o mesmo effeito, que faria

em um acampamento a explosão de um paiol de polvora; nos primeiros

momentos susto, pasmo, e uma especie de estertor de angustia; depois

agitação, alarma, movimento e alarido.

Alvaro e Miguel conduzirão Isaura desfallecida ao _boudoir_ das

damas, e ahi ajudados por algumas senhoras compassivas, prestárão-lhe

os socorros que o caso reclamava, e não a abandonárão em quanto não

recobrou completamente os sentidos. Martinho, inquieto e resabiado, os

seguia e espiava o mais de perto que lhe era possivel, com receio de

que lhe roubassem a presa.

É impossivel descrever a celeuma, que se levantou, a agitação, que

sublevou todos os espiritos, e as diversas e oppostas impressões, que

produzio nos animos aquella inesperada revelação. Com que cara ficarião

tantas bellezas de primeira ordem, tantas damas das mais distinctas

jerarquias sociaes, ao saberem que aquella que as havia supplantado

a todas, em formosura, donaire, talentos e graças do espirito, não

era mais que uma escrava! eu mesmo não sei dizer; os leitores que

fação idéa. Entretanto em muitas dellas o cruel desapontamento por

que acabavão de passar, não deixava de ser mesclado de um certo

contentamento intimo, mórmente naquellas que se sentião enfadadas

pelas defferencias e homenagens que certos cavalheiros, tomados de

enthusiasmo, havião francamente rendido á gentil desconhecida. Estavão

humilhadas, mas tambem vingadas. Quanto ás que tinham esperanças ou

pretensões ao amor de Alvaro,--e não erão poucas,--essas exultárão de

jubilo ao saberem do caso, e o nobre mancebo tornou-se o alvo de mil

desapiedados apodos e pilhérias.

--O que me diz do escravo da escrava?--dizião ellas--com que cara não

ficaria o pobre homem!...

--Com a mesma. De certo vae forral-a e casar-se com ella. Aquillo é um

maluco capaz de todas as asneiras.

--E que máo! Terá ao mesmo tempo mulher e talvez uma boa cosinheira.

Triste consolação! o estigma do captiveiro não podia apagar da bella

fronte de Isaura, antes mais realçava o cunho de superioridade que o

sopro divino nella havia gravado em caracteres indeleveis.

Entre os mancebos a impressão era bem differente. Poucos, bem poucos,

deixávão de tomar vivo interesse e compaixão pela sorte da infeliz e

formosa escrava. Por todos os cantos fallava-se e discutia-se com calor

a respeito do caso. Alguns, a despeito da evidencia dos indicios e da

confissão de Isaura, ainda duvidavão da verdade que tinham diante dos

olhos.

--Não; aquella mulher não pode ser uma escrava,--dizião elles,--aqui ha

algum mysterio, que algum dia se desvendará.

--Qual mysterio? o caso é muito factivel, e ella mesma o confessou. Mas

quem será esse bruto e desalmado fazendeiro, que conserva no captiveiro

uma tão linda creatura?

--Deve ser algum lorpa de alma bem estupida e sordida.

--Se não fôr algum sultãosinho de bom gosto, que a quer para o seo

serralho.

--Seja como fôr, esse bruto deve ser constrangido a dar-lhe a

liberdade. Na senzala uma mulher que merecia sentar-se n’um throno!...

--Tambem só o infame do Martinho, com o seo satanico instincto de

cobiça, poderia farejar uma escrava na pessoa daquelle anjo! que

impudencia! se o visse agora aqui, era capaz de estrangulal-o!

Entretanto Martinho, que se havia previamente munido de um mandado

de apprehensão, e se fazia acompanhar de um official de justiça,

exigia terminantemente, que se lhe fizesse entrega de Isaura. Alvaro

porém interpondo o valimento e prestigio de que gozava, oppôz-se

decididamente a essa exigencia, e tomando por testemunhas as pessoas

que ali se achavão, constituio-se fiador da escrava, compromettendo-se

a entregal-a a seo senhor, ou a quem por ordem delle a reclamasse. Em

vão Martinho quiz insistir; uma multidão de vozes, que o apupavão e

cobrião de injurias, forçárão-no a calar-se e desistir de sua pretensão.

--Ah! malditos! querem-me roubar!--bradava Martinho como um

possesso.--Meos cinco contos! ai! meos cinco contos! lá se vão pela

agoa abaixo.

E dizendo isto procurou a escada, e saltando-a aos dois e tres degráos,

lá se foi bramindo pela porta a fóra.

Capitulo XV.

Já é passado cerca de um mez depois dos acontecimentos, que acabamos

de narrar. Isaura e Miguel, graças á valiosa intervenção de Alvaro,

continuão a habitar a mesma pequena chacara no bairro de Santo Antonio.

Já não lhes sendo mais possivel pensar em fugir para mais longe

nem occultarem-se, ali se conservão por conselho de seo protector,

esperando o resultado dos passos que este se compromettera a dar em

favor d’elles, porém sempre na mais angustiosa inquietação, como

Damocles tendo sobre a cabeça, aguda espada suspensa por um fio.

Alvaro vae quasi todos os dias a casa dos dous foragidos, e ahi passa

longas horas entretendo-os sobre os meios de conseguir a liberdade de

sua protegida, e procurando confortal-os na esperança de melhor destino.

Para nos inteirarmos do que tem occorrido desde a fatal noite do baile,

ouçamos a conversação que teve lugar em casa de Isaura entre Alvaro e o

seo amigo D^{r}. Geraldo.

Este na mesma manhã que seguio-se á noite do baile, deixára o Recife e

partira para uma villa do interior, onde tinha sido chamado a fim de

encarregar-se de uma causa importante. De volta á capital no fim de um

mez, um de seos primeiros cuidados foi procurar Alvaro, não só pelo

impulso da amisade, como tambem estimulado pela curiosidade de saber do

desenlace que tivera a singular aventura do baile. Não o tendo achado

em casa por duas ou tres vezes que ahi o procurou, presumio que o meio

mais provavel de encontral-o seria procural-o em casa de Isaura, caso

ella ainda se achasse no Recife residindo na mesma chacara; não se

illudio.

Alvaro, tendo reconhecido a voz de seo amigo, que da porta do jardim

perguntava por elle, sahio ao seo encontro; mas antes disso, tendo

assegurado aos donos da casa que a pessoa que o procurava, era um amigo

intimo, em quem depositava toda confiança, pedio-lhes licença para o

fazer entrar.

Geraldo foi introduzido em uma pequena sala da frente. Posto que

pouco espaçosa e mobiliada com a maior simplicidade, era esta salinha

tão fresca, sombria e perfumada, tão cheia de flores desde a porta

da entrada, a qual bem como as janellas estava toda entrelaçada de

ramos e festões de flores, que mais parecia um caramanchão ou gruta de

verdura, do que mesmo uma sala. Quasi toda a luz lhe vinha pelos fundos

atravéz de uma larga porta dando para uma varanda aberta, que olhava

para o mar. Dali a vista enfiando-se por entre troncos de coqueiros,

que derramavão sombra e fresquidão em torno da casa, deslizava pela

superficie do oceano, e ia embeber-se na profundidade de um céo limpido

e cheio de fulgores.

Miguel e Isaura depois de terem cumprimentado o visitante e trocado

com elle algumas palavras de mera civilidade, presumindo que quererião

estar sós, retirárão-se discretamente para o interior da casa.

--Na verdade, Alvaro,--disse o doutor sorrindo-se,--é uma deliciosa

morada esta, e não admira que gostes de passar aqui grande parte do

teo tempo. Parece mesmo a gruta mysteriosa de uma fada. É pena, que

um maldito nigromante quebrasse de repente o encanto de tua fada,

transformando-a em uma simples escrava!

--Ah! não gracejes, meo doutor; aquella scena extraordinaria produzio

em meo espirito a mais estranha e dolorosa impressão; porém,

francamente te confesso, não mudou senão por instantes a natureza de

meos sentimentos para com essa mulher.

--Que me dizes?... a tal ponto chegará a tua excentricidade?!...

--Que queres? a natureza assim me fez. Nos primeiros momentos a

vergonha e mesmo uma especie de raiva me cegárão; vi quasi com prazer

o transe cruel, porque ella passou. Que triste e pungente decepção! Vi

em um momento desmoronar-se e desfazer-se em lama o brilhante castello,

que minha imaginação com tanto amor tinha erigido!... uma escrava

illudir-me por tanto tempo, e por fim ludibriar-me, expondo-me em face

da sociedade á mais humilhante irrisão! faze idéa de quanto eu ficaria

confuso e corrido diante daquellas illustres damas, com as quaes tinha

feito ombrear uma escrava em pleno baile, perante a mais distincta e

brilhante sociedade!...

--E o que mais é,--accrescentou Geraldo,--uma escrava, que as offuscava

a todas por sua rara formosura e brilhantes talentos. Nem de proposito

poderias preparar-lhes mais tremenda humilhação. É um crime, que nunca

te perdoarão, posto que saibão que tambem andavas illudido.

--Pois bem, Geraldo; eu, que naquella occasião, desairado e confuso,

não sabia onde esconder a cara, hoje rio e me applaudo por ter

dado occasião a semelhante aventura. Parece que Deos de proposito

tinha preparado aquella interessante scena, para mostrar de um modo

palpitante quanto é van e ridicula toda a distincção, que provém do

nascimento e da riqueza, e para humilhar até o pó da terra o orgulho

e fatuidade dos grandes, e exaltar e ennobrecer os humildes de

nascimento, mostrando que uma escrava pode valer mais que uma duqueza.

Pouco durou aquella primeira e desagradavel impressão. Bem depressa

a compaixão, a curiosidade, o interesse, que inspira o infortunio em

uma pessoa daquella ordem, e talvez tambem o amor, que nem com aquelle

estrondoso escandalo pudéra extinguir-se em meo coração, fizerão-me

esquecer tudo, e resolvi-me a proteger francamente e a todo o transe a

formosa captiva. Apenas consegui que Isaura recobrasse os sentidos, e

a vi fora de perigo, corri á casa do chefe de policia, e expondo-lhe

o caso, graças ás relações de amisade, que com elle tenho, obtive

permissão, para que Isaura e seo pae,--fica sabendo que é realmente

seo pae,--podessem recolher-se livremente á sua casa, ficando eu por

garante de que não desapparecerião; e assim se effectuou, a despeito

dos bramidos do Martinho, que teimava em não querer largar a presa.

Todavia no dia seguinte pela manhã, o mesmo chefe, pesando a gravidade

e importancia do negocio, quiz que ella fosse conduzida á sua presença

para interrogal-a e verificar a identidade de pessoa. Encarreguei-me

de conduzil-a. Oh! se a visses então!... atravéz das lagrimas, que

lhe arrancava sua cruel situação, transparecia em todo o seo brilho,

a dignidade humana. Nada havia nella, que denunciasse a abjecção do

escravo, ou que não revelasse a candura e nobreza de sua alma. Era o

anjo da dor exilado do céo e arrastado perante os tribunaes humanos.

Cheguei a duvidar ainda da cruel realidade. O chefe de policia possuido

de respeito e admiração diante de tão gentil e nobre figura, tratou-a

com toda a amabilidade, e interrogou-a com brandura e polidez. Coberta

de rubor e pejo confessou tudo com a ingenuidade de uma alma pura.

Fugira em companhia de seo pae, para escapar ao amor de um senhor

devasso, libidinoso e cruel, que a poder de violencias e tormentos

tentava forçal-a a satisfazer seos brutaes desejos. Mas Isaura, a

quem uma natureza privilegiada secundada pela mais fina e esmerada

educação, inspirára desde a infancia o sentimento da dignidade e do

pudor, repellio com energia heroica todas as seducções e ameaças de

seo indigno senhor. Emfim ameaçada dos mais aviltantes e barbaros

tratamentos, que já começavão a traduzir-se em vias de facto, tomou o

partido extremo de fugir, o unico que lhe restava.

A escrava Isaura · 第 5 / 7 题