para ella, e a torna uma heroina; mas ... emfim de contas ella não
deixa de ser uma escrava fugida.
--E por isso mesmo mais digna de interesse e compaixão. Isaura tem-me
contado toda a sua vida, e segundo creio, pode allegar, e talvez provar
direito á liberdade. Sua senhora velha, mãe do actual senhor, a qual
creou-a com todo o mimo, e a quem ella deve a excellente educação que
tem, tinha declarado por vezes diante de testemunhas, que por sua
morte a deixaria livre; a morte subita e inesperada desta senhora, que
falleceo sem testamento, é a causa de Isaura achar-se ainda entre as
garras do mais devasso e infame dos senhores.
--E agora o que pretendes fazer?...
--Pretendo requerer, que Isaura seja mantida em liberdade, e que lhe
seja nomeado um curador a fim de tratar do seo direito.
--E onde esperas encontrar provas ou documentos para provar as
allegações que fazes?
--Não sei, Geraldo; desejava consultar-te, e esperava-te com
impaciencia precisamente para esse fim. Quero que com a tua sciencia
juridica me esclareças e inspires neste negocio. Já lancei mão do
primeiro e mais obvio expediente que se me offerecia, e logo no dia
seguinte ao do baile escrevi ao senhor de Isaura com as palavras as
mais comedidas e suasivas, de que pude usar, convidando-o a abrir
preço para a liberdade della. Foi peor; o libidinoso e ciumento Rajáh
enfureceo-se e mandou-me em resposta esta carta insolente, que acabo de
receber, em que me trata de seductor e acoutador de escravas alheias,
e protesta lançar mão dos meios legaes para que lhe seja entregue a
escrava.
--É bem parvo e descortêz o tal sultanete,--disse Geraldo depois de ter
percorrido rapidamente a carta, que Alvaro lhe apresentou;--mas o certo
é que, pondo de parte a insolencia...
--Pela qual ha-de me dar completa e solemne satisfação, eu o protesto.
--Pondo de parte a insolencia, se nada tens de valioso a apresentar em
favor da liberdade da tua protegida, elle tem o incontestavel direito
de reclamar e apprehender a sua escrava onde quer que se ache.
--Infame e cruel direito é esse, meo caro Geraldo. É já um escarneo
dar-se o nome de direito a uma instituição barbara, contra a qual
protestão altamente a civilisação, a moral e a religião. Porém tolerar
a sociedade que um senhor tyrano e brutal, levado por motivos infames
e vergonhosos, tenha o direito de torturar uma fragil e innocente
creatura, só por que teve a desdita de nascer escrava, é o requinte da
sceleratez e da abominação.
--Não é tanto assim, meo caro Alvaro; esses excessos e abusos devem
ser cohibidos; mas como poderá a justiça ou o poder publico devassar o
interior do lar domestico, e ingerir-se no governo da casa do cidadão?
que abominaveis e hediondos mysterios, a que a escravidão dá lugar,
não se passão por esses engenhos e fazendas, sem que, já não digo a
justiça, mas nem mesmo os visinhos, delles tenhão conhecimento?... Em
quanto houver escravidão, hão-de se dar esses exemplos. Uma instituição
má produz uma infinidade de abusos, que só poderão ser extinctos
cortando-se o mal pela raiz.
--É desgraçadamente assim; mas se a sociedade abandona deshumanamente
essas victimas ao furor de seos algozes, ainda ha no mundo almas
generosas, que se incumbem de protegel-as ou vingal-as. Quanto a mim
protesto, Geraldo, emquanto no meo peito pulsar um coração, hei-de
disputar Isaura á escravidão com todas as minhas forças, e espero que
Deos me favorecerá em tão justa e santa causa.
--Pelo que vejo, meo Alvaro, não procedes assim só por espirito de
philantropia, e ainda amas muito a essa escrava.
--Tu o disseste, Geraldo; amo-a muito, e hei-de amal-a sempre; nem
disso faço mysterio algum. E será cousa estranha ou vergonhosa amar-se
uma escrava? O patriarcha Abraham amou sua escrava Agar, e por ella
abandonou Sara, sua mulher. A humildade de sua condição não póde
despojar Isaura da candida e brilhante aureola, de que a via e até
hoje a vejo circumdada. A belleza e a innocencia são astros que mais
refulgem quando engolphados na profunda escuridão do infortunio.
--É bella a tua philosophia, e digna de teo nobre coração; mas que
queres? as leis civis, as convenções sociaes, são obras do homem,
imperfeitas, injustas, e muitas vezes crueis. O anjo padece e geme sob
o jugo da escravidão, e o demonio exalça-se ao fastigio da fortuna e do
poder.
--E assim pois,--reflectio Alvaro com desanimo,--nessas desastradas
leis nenhum meio encontras de disputar ao algôz essa innocente victima?
--Nenhum, Alvaro, em quanto nenhuma prova puderes adduzir em pro do
direito de tua protegida. A lei no escravo só vê a propriedade, e quasi
que prescinde nelle inteiramente da natureza humana. O senhor tem
direito absoluto de propriedade sobre o escravo, e só pode perdel-o
manumittindo-o ou albreando-o por qualquer maneira, ou por litigio
provando-se a liberdade, mas não por sevicias que commetta ou outro
qualquer motivo analogo.
--Miseravel e estupida papelada que são essas vossas leis. Para
illaquear a boa fé, proteger a fraude, illudir a ignorancia, defraudar
o pobre e favorecer a usura e rapacidade dos ricos, são ellas fecundas
em recursos e estratagemas de toda a especie. Mas quando se tem em
vista um fim humanitario, quando se trata de proteger a innocencia
desvalida contra a prepotencia, de amparar o infortunio contra uma
injusta perseguição, então ou são mudas, ou são crueis.
Mas não obstante ellas hei-de empregar todos os esforços ao meo alcance
para libertar a infeliz do affrontoso jugo que a opprime. Para tal
empreza alenta-me não já sómente um impulso de generosidade, como
tambem o mais puro e ardente amor, sem pejo o confesso.
O amigo de Alvaro arripiou-se com esta deliberação tão franca e
enthusiasticamente proclamada com essa linguagem tão exaltada, que lhe
pareceo um deploravel desvario da imaginação.
--Nunca pensei,--replicou com gravidade,--que a tal ponto chegasse a
exaltação desse teo excentrico e malfadado amor. Que por um impulso de
humanidade procures proteger uma escrava desvalida, nada mais digno e
mais natural. O mais não passa de delirio de uma imaginação exaltada
e romanesca. Será airoso e digno da posição que occupas na sociedade,
deixares-te dominar de uma paixão violenta por uma escrava?...
--Escrava!--exclamou Alvaro cada vez mais exaltado,--isso não passa
de um nome vão, que nada exprime, ou exprime uma mentira. Pureza de
anjo, formosura de fada, eis a realidade! Pode um homem ou a sociedade
inteira contrariar as vistas do creador, e transformar em uma vil
escrava o anjo que sobre a terra cahio das mãos de Deos?...
--Mas por uma triste fatalidade o anjo cahio do céo no lodaçal da
escravidão, e ninguem aos olhos do mundo o poderá purificar dessa
nodoa, que lhe mancha as azas. Alvaro, a vida social está toda juncada
de forcas caudinas, por debaixo das quaes nos é forçoso curvar-nos, sob
pena de abalroarmos a fronte em algum obstaculo, que nos faça cahir.
Quem não respeita as conveniencias e até os preconceitos sociaes,
arrisca-se a cahir no descredito ou no ridiculo.
--A escravidão em si mesma já é uma indignidade, uma ulcera hedionda na
face da nação, que a tolera e protege. Por minha parte, nenhum motivo
enxergo para levar a esse ponto o respeito por um preconceito absurdo,
resultante de um abuso, que nos deshonra aos olhos do mundo civilisado.
Seja eu embora o primeiro a dar esse nobre exemplo, que talvez será
imitado. Sirva elle ao menos de um protesto energico e solemne contra
uma barbara e vergonhosa instituição.
--És rico, Alvaro, e a riqueza te dá bastante independencia, para
poderes satisfazer os teos sonhos philantropicos e os caprichos
de tua imaginação romanesca. Mas tua riqueza, por maior que seja,
nunca poderia reformar os prejuizos do mundo, nem fazer com que essa
escrava, a quem segundo todas as apparencias quererias ligar o teo
destino, fosse considerada, e nem mesmo admittida nos circulos da alta
sociedade...
--E que me importão os circulos da alta sociedade, uma vez que
sejamos bem acolhidos no meio das pessoas de bom senso, e coração bem
formado? Demais enganas-te completamente, meo Geraldo. O mundo corteja
sempre o dinheiro, onde quer que elle se ache. O ouro tem um brilho,
que deslumbra, e apaga completamente essas pretendidas nodoas de
nascimento. Não nos faltarão nunca, eu te affianço, o respeito, nem a
consideração social, em quanto nos não faltar o dinheiro.
--Mas, Alvaro, esqueces-te de uma cousa muito essencial; e se te não
fôr possivel obter a liberdade de tua protegida?...
A esta pergunta Alvaro empalideceo, e opprimido pela idéa de tão cruel
como possivel alternativa, sem responder palavra olhava tristemente
para o horizonte, quando o boleeiro de Alvaro, que se achava postado
com sua caleça junto á porta do jardim, veio anunciar-lhe que algumas
pessoas o procuravão e desejavão fallar-lhe, ou ao dono da casa.
--A mim!--resmungou Alvaro; por ventura estou eu em minha casa?... mas
como tambem procurão o dono desta ... faça-os entrar.
--Alvaro, disse Geraldo espreitando por uma janella,--se me não engano,
é gente da policia; parece-me que lá vejo um official de justiça.
Teremos outra scena igual á do baile?...
--Impossivel!... com que direito virião tocar-me no deposito sagrado,
que a mesma policia me confiou?...
--Não te fies nisso. A justiça é uma deosa muito voluvel e fertil em
patranhas. Hoje desmanchará o que fez hontem...
Capitulo XVI.
O primeiro cuidado de Martinho logo ao sahir do baile, em que vio
mallograda a sua tentativa de apprehender Isaura, foi escrever ao
senhor della uma longa e minuciosa carta, communicando-lhe que tinha
tido a fortuna de descobrir a escrava, que tanto procurava.
Contava por miudo as diligencias que fizera para esse fim, até
descobril-a em um baile publico, e encarecia o seo proprio merito
e perspicacia para esbirro, dizendo que a não ser elle, ninguem
seria capaz de farejar uma escrava na pessoa de uma moça tão bonita
e tão prendada. Alterando os factos e as circumstancias do modo o
mais atroz e calumnioso, dizia-lhe em phrases de taverneiro, que
Miguel se estabelecera no Recife com Isaura a fim de especular com a
formosura da filha, a qual, a poder de armar laços á rapaziada vadia
e opulenta, tinha por fim conseguido apanhar um patinho bem gordo e
facil de depennar. Era este um pernambucano por nome Alvaro, moço
duas vezes millionario, e mil vezes desmiolado, que tinha por ella
uma paixão louca. Este moço, a quem ella trazia illudido e engodado
ao ponto de elle querer desposal-a, cahio na tolice de leval-a a um
baile, onde elle Martinho teve a fortuna de descobril-a, e a teria
apprehendido, e estaria ella já de marcha para o poder de seo senhor,
se não fosse a opposição do tal senhor Alvaro, que apezar de ficar
sabendo de que ralé era a sua heroina, teve a pouca vergonha de
protegel-a escandalosamente. Prevalecendo-se das valiosas relações, e
da influencia de que gozava no paiz em razão de sua riqueza, conseguio
impedir a sua apprehensão, e tornando-se fiador della a conservava em
seo poder contra toda a razão e justiça, protestando não entregal-a
senão ao seo proprio senhor. Julga que a intenção de Alvaro é tentar
meios de libertal-a, a fim de fazel-a sua mulher ou sua amasia. Julgava
de seo dever communicar-lhe tudo isso para seo governo.
Era este em summa o conteúdo da carta de Martinho, a qual seguio
para o Rio de Janeiro no mesmo paquete que levava a carta de Alvaro,
fazendo proposições para a liberdade de Isaura. Leoncio contente com a
descoberta, mas cheio de ciume e inquietação em vista das informações
de Martinho, apressou-se em responder a ambos, e o mesmo paquete
que trouxe a resposta insolente e insultuosa que dirigio a Alvaro,
foi portador da que se destinava a Martinho, na qual o autorisava a
apprehender a escrava em qualquer parte que a encontrasse, e para maior
segurança remettia-lhe tambem procuração especial para esse fim, e mais
algumas cartas de recommendação de pessoas importantes para o chefe de
policia, para que o auxiliasse naquella diligencia.
Martinho mais que depressa dirigio-se á casa da policia, e apresentando
ao chefe todos esses papeis, requereo-lhe que mandasse entregar-lhe
a escrava. O chefe em vista dos documentos de que Martinho se achava
munido, entendeo que não lhe era possivel denegar-lhe o que pedia,
e expedio ordem por escripto, para que lhe fosse entregue a escrava
em questão, e deo-lhe um official de justiça e dous guardas para
effectuarem a diligencia.
Foi portanto o Martinho, que munido de todos os poderes e
competentemente autorisado pela policia apresentou-se com sua escolta á
porta da casa de Isaura, para arrebatar a Alvaro a cubiçada presa.
--Ainda este infame!--murmurou Alvaro entre os dentes ao ver entrar o
Martinho.--Era um rugido de cólera impotente, que o angustiado mancebo
arrancára do intimo da alma.
--Que deseja de mim o senhor?--perguntou Alvaro em tom secco e altivo.
--Vª. Sª., que bem me conhece,--respondeo Martinho,--já pode presumir
pouco mais ou menos o motivo, que aqui me traz.
--Nem por sombras posso adivinhal-o, antes me causa estranheza esse
apparato policial, de que vem acompanhado.
--Sua estranheza cessará, sabendo que venho reclamar uma escrava
fugida, por nome Isaura, que não ha muito tempo foi por mim
apprehendida no meio de um baile, no qual se achava Vª. Sª., e devendo
eu envial-a a seo senhor no Rio de Janeiro, Vª. Sª. a isso se oppôz sem
motivo algum justificavel, conservando-a até hoje em seo poder contra
todo o direito.
--Alto lá, senhor Martinho! penso que não é pessoa competente para dar
ou tirar direito a quem lhe parecer. O senhor bem sabe, que eu sou
depositario dessa escrava, e que com todo o direito e consentimento da
autoridade a tenho debaixo de minha protecção.
--Esse direito, se é que se pode chamar direito a uma arbitrariedade,
cessou, desde que Vª. Sª. nada tem allegado em favor da mesma escrava.
E demais,--continuou apresentando um papel,--aqui está ordem expressa
e terminante do chefe de policia, mandando que me seja entregue a dita
escrava. A isto nada se póde oppôr legalmente.
--Pelo que vejo, senhor Martinho,--disse Alvaro depois de examinar
rapidamente o papel que Martinho lhe entregára,--ainda não desistio de
seo indigno procedimento, tornando-se por um pouco de dinheiro o vil
instrumento do algôz de uma infeliz mulher? Reflicta, e verá que essa
infame acção só pode inspirar asco e horror a todo o mundo.
Martinho achando-se acostado pela policia, julgou-se com direito de
mostrar-se aspero e arrogante, e portanto com imperturbavel sangue frio:
--Senhor Alvaro,--respondeo,--eu vim a esta casa sómente com o fim de
exigir em nome da autoridade a entrega de uma escrava fugida, que aqui
se acha acoutada, e não para ouvir reprehensões, que o senhor não tem
direito de dar-me. Trate de fazer o que a lei ordena e a prudencia
aconselha, se não quer que use de meo direito...
--Qual direito?!...
--De varejar esta casa e levar á força a escrava.
--Retira-te, miseravel esbirro!--bradou Alvaro com força, não podendo
mais sopear a cólera.--Desapparece de minha presença, se não queres
pagar caro o teo atrevimento!...
--Senhor Alvaro!... veja o que faz!
O D^{r}. Geraldo não achando muita razão em seo amigo, por prudencia
até ali se tinha conservado silencioso, mas vendo que a cólera e
imprudencia de Alvaro ia excedendo os limites, julgou de seo dever
intervir na questão, e approximando-se de Alvaro, e punchado-lhe o
braço:
--Que fazes, Alvaro?--disse-lhe em voz baixa,--Não vês que com esses
arrebatamentos não consegues senão comprometter-te, e aggravar a sorte
de Isaura? mais prudencia, meo amigo.
--Mas... que devo eu fazer?... não me dirás?
--Entregal-a.
--Isso nunca!...--replicou Alvaro terminantemente.
Conservárão-se todos silenciosos por alguns momentos. Alvaro parecia
reflectir.
--Occorre-me um expediente,--disse elle ao ouvido de Geraldo,--vou
tental-o.
E sem esperar resposta approximou-se de Martinho.
--Senhor Martinho,--disse-lhe elle,--desejo dizer-lhe duas palavras em
particular, com permissão aqui do doutor.
--Estou ás suas ordens,--replicou Martinho.
--Estou persuadido, senhor Martinho,--disse-lhe Alvaro em voz baixa,
tomando-o de parte,--que a gratificação de cinco contos é o motivo
principal que o leva a proceder desta maneira contra uma infeliz
mulher, que nunca o offendeo. Está em seo direito, eu reconheço, e a
somma não é para desprezar. Mas se quizer desistir completamente desse
negocio, e deixar em paz essa escrava, dou-lhe o dobro dessa quantia.
--O dobro!... dez contos de réis! exclamou Martinho arregalando os
olhos.
--Justamente; dez contos de réis e hoje mesmo.
--Mas, senhor Alvaro, já empenhei minha palavra para com o senhor da
escrava, dei passos para esse fim, e...
--Que importa!... diga que ella evadio-se de novo, ou dê outra qualquer
desculpa...
--Como, se é tão publico que ella se acha em poder de Vª. Sª.?...
--Ora!... isso é sua vontade, senhor Martinho; pois um homem vivo e
atilado como o senhor embaraça-se com tão pouca cousa!...
--Vá feito,--disse Martinho depois de reflectir um instante.--Já que
Vª. Sª. tanto se interessa por essa escrava, não quero mais affligil-o
com semelhante negocio, que a dizer-lhe a verdade bem me repugna.
Acceito a proposta.
--Obrigado; é um importante serviço que vae me prestar.
--Mas que volta darei eu ao negocio para sahir-me bem delle.
--Veja lá; sua imaginação é fertil em recursos, e ha-de inspirar-lhe
algum meio de safar-se de difficuldades com a maior limpeza.
Martinho ficou por alguns momentos a roer as unhas, pensativo e com os
olhos pregados no chão. Por fim levantando a cabeça e levando á testa o
dedo indice:
--Atinei!--exclamou.--Dizer que a escrava desappareceo de novo, não é
conveniente, e iria comprometter a Vª. Sª., que se responsabilizou por
ella. Direi sómente, que bem averiguado o caso, reconheci que a moça,
que Vª. Sª. tem em seo poder, não é a escrava em questão, e está tudo
acabado.
--Essa não é mal achada ... mas foi um negocio tão publico...
--Que importa!... não se lembra Vª. Sª. de um signal em forma de
queimadura em cima do seio esquerdo, que vem consignado no annuncio?
direi, que não se achou semelhante signal, que é muito caracteristico,
e está destruida a identidade de pessoa. Accrescentarei mais que a
moça, por quem Vª. Sª. se interessa, vista de noite é uma cousa, e de
dia é outra; que em nada se parece com a linda escrava que se acha
descripta no annuncio, e que em vez de ter vinte annos mostra ter
seos trinta e muitos para quarenta, e que toda aquella mocidade e
formosura era effeito dos arrebiques, e da luz vacillante dos lustres e
candelabros.
--O senhor é bem engenhoso,--observou Alvaro sorrindo-se;--mas os
que a virão, nenhum credito darão a tudo isso. Resta porém ainda
uma difficuldade, senhor Martinho; é a confissão que ella fez em
publico?... isto ha-de ser custoso de embaçar-se.
--Qual custoso!... allega-se que ella é sujeita a accessos de
hysterismo, e é sujeita a hallucinações.
--Bravo, senhor Martinho; confio absolutamente em sua pericia e
habilidade. E depois?
--E depois communico tudo isso ao chefe de policia, declaro-lhe
que nada mais tenho com esse negocio, passo a procuração a
qualquer meirinho, ou capitão do mato, que se queira encarregar
dessa diligencia, e em acto continuo escrevo ao senhor da escrava
communicando-lhe o meo engano, com o que elle por certo desistirá de
procural-a mais por aqui, e levará a outras partes as suas pesquizas.
Que tal acha o meo plano?...
--Admiravel, e cumpre não perdermos tempo, senhor Martinho.
--Vou já neste andar, e em menos de duas horas estou aqui de volta, a
dar parte do desempenho de minha commissão.
--Aqui não, que não poderei demorar-me muito. Espero-o em minha casa, e
lá receberá a somma convencionada.
--Podem-se retirar,--disse Martinho ao official de justiça e aos
guardas, que se achavão postados do lado de fora da porta.--Sua
presença não é mais necessaria aqui. Não ha duvida!--continuou elle
comsigo mesmo;--isto vae a dobrar como no lansquenet. Esta escrava é
uma mina, que me parece não estar ainda esgotada.
E retirou-se esfregando as mãos de contentamento.
--Então, que arranjo fizeste com o homem, meo Alvaro?--perguntou
Geraldo, apenas Martinho voltou as costas.
--Excellente,--respondeo Alvaro;--a minha lembrança surtio o desejado
effeito, e ainda mais do que eu esperava.
Alvaro em poucas palavras deo conta ao seo amigo do mercado que fizera
com o Martinho.
--Que caracter desprezivel e abjecto o deste Martinho!--exclamou
Geraldo.--De um tal instrumento não se pode esperar obra que preste. E
julgas ter conseguido muita cousa, Alvaro, com o passo que acabas de
dar?...
--Não muito, porém alguma cousa sempre posso conseguir. Pelo menos
consigo deter o golpe por algum tempo, e como diz lá o rifão popular,
meo Geraldo, em quanto o páo vae e vem, folgão as costas. Emquanto
Leoncio, persuadido que a sua escrava não se acha aqui no Recife, a
procura por todo esse mundo, ella aqui fica tranquillamente á minha
sombra, livre das perseguições e dos máos tratos de um barbaro senhor;
e eu terei tempo para activar os meios de arranjar provas e documentos,
que justifiquem o seo direito á liberdade. É quanto me basta por agora;
quanto ao resto, já que pareces julgar a minha causa irremissivelmente
perdida, a justiça divina me inspirará o modo por que devo proceder.
--Como te enganas, meo pobre Alvaro!... cuidas, que arredando o
Martinho ficas por emquanto livre de perseguições e pesquizas contra
a tua protegida? que cegueira!... não faltarão malsins igualmente
esganados por dinheiro, que pelos cinco contos de réis, que para esses
miseraveis é uma somma fabulosa, se ponhão á cata de tão preciosa
presa. Agora principalmente, que o Martinho deo a alarma, e que esse
negocio tem attingido a um certo gráo de celebridade, em vez de um,
apparecerão cem Martinhos no encalce da bella fugitiva, e não terão
mais que fazer senão seguir a trilha batida pelo primeiro.
--És muito meticuloso, Geraldo, e encaras as cousas sempre pelo lado
peor. É bem provavel que peguem as patranhas inventadas pelo Martinho,
e que ninguem mais se lembre de descobrir a captiva Isaura nessa moça,
por quem me interesso, e embora mil malsins a procurem por todos os
cantos do mundo, pouco me importará. Sempre obtenho uma dilação, que
poderá me ser muito vantajosa.
--Pois bem, Alvaro; vamos que assim aconteça; mas tu não vês que
semelhante procedimento não é digno de ti?... que assim incorres
realmente nos epithetos affrontosos, com que obsequiou-te o tal
Leoncio, e que te tornas verdadeiramente um seductor e acoutador de
escravos alheios?...
--Desculpa-me, meo caro Geraldo; não posso acceitar a tua reprimanda.
Ella só pode ter applicação aos casos vulgares, e não ás circumstancias
especialissimas em que eu e Isaura nos achamos collocados. Eu não dou
couto, nem capeio a uma escrava; protejo um anjo, e amparo uma victima
innocente contra a sanha de um algôz. Os motivos que me impellem, e
as qualidades da pessoa por quem dou estes passos, nobilitão o meo
procedimento, e são bastantes para justificar-me aos olhos de minha
consciencia.
--Pois bem, Alvaro; faze o que quizeres; não sei que mais possa
dizer-te para demover-te de um procedimento, que julgo não só
imprudente, como, a fallar-te com sinceridade, ridiculo, e indigno da
tua pessoa.
Geraldo não podia dissimular o descontentamento que lhe causava
aquella cega paixão, que levava o seo amigo a actos que qualificava
de burlesco desatino, e loucura inqualificavel. Por isso longe de
auxilial-o com seos conselhos, e indicar-lhe os meios de promover a
libertação de Isaura, procurava com todo o empenho demovel-o daquelle
proposito, pintando o negocio ainda mais difficil do que realmente o
era. De bom grado, se lhe fosse possivel, teria entregado Isaura a seo
senhor sómente para livrar Alvaro daquella terrivel tentação, que o ia
precipitando na senda das mais ridiculas extravagancias.
Capitulo XVII.
Achando-se só, Alvaro sentou-se junto a uma mesa, e apoiando nella os
cotovelos com a fronte entre as mãos, ficou a cismar profundamente.
Isaura porém, presentindo pelo silencio que reinava na sala, que já ali
não havião pessoas estranhas, foi ter com elle.
--Senhor Alvaro,--disse ella chegando-se de manso e
timidamente;--desculpe-me ... eu venho de certo lhe aborrecer ...
queria talvez estar só...
--Não, minha Isaura; tu nunca me aborreces; pelo contrario és sempre
bem vinda junto de mim...
--Mas vejo-o tão triste!... parece-me que aqui entrou mais gente, e
alteravão-se vozes. Derão-lhe algum desgosto, meo senhor?...
--Nada houve de extraordinario, Isaura; forão algumas pessoas, que
viérão procurar o doutor Geraldo.
--Mas então por que está assim triste e abatido?
--Não estou triste nem abatido. Estava meditando nos meios de
arrancar-te do abysmo da escravidão, meo anjo, e elevar-te á posição
para que o céo te creou.
--Ah! senhor, não se mortifique assim por amor de uma infeliz, que não
merece taes extremos. É inutil luctar contra o destino irremediavel,
que me persegue.
--Não falles assim, Isaura. Tens em bem pouca conta a minha protecção e
o meo amor!...
--Não sou digna de ouvir de sua boca essa doce palavra. Empregue seo
amor em outra mulher que delle seja merecedora, e esqueça-se da pobre
captiva, que tornou-se indigna até de sua compaixão occultando-lhe a
sua condição, e fazendo-o passar pelo vergonhoso desar de...
--Cala-te, Isaura ... até quando pretendes lembrar-te desse maldito
incidente?... eu sómente fui o culpado forçando-te a ir a esse baile,
e tinhas razão de sobra para não revelar-me a tua desgraça. Esquece-te
disso; eu te peço pelo nosso amor, Isaura.
--Não posso esquecer-me, porque os remorsos me avivão sempre n’alma a
lembrança dessa fraqueza. A desgraça é má conselheira, e nos perturba e
anuvia o espirito. Eu o amava, assim como o amo ainda, e cada vez mais
... perdoe-me esta declaração, que é sem duvida uma ousadia na boca de
uma escrava.
--Falla, Isaura, falla sempre, que me amas. Pudesse eu ouvir de teos
labios essa palavra por toda a eternidade.
--Era um triste amor na verdade, um amor de escrava, um amor sem
sorriso nem esperanças. Mas a ventura de ser amada pelo senhor era
uma idéa tão consoladora para mim! amando-me o senhor me nobilitava a
meos proprios olhos, e quasi me fazia esquecer a realidade de minha
humilde condição. Eu tremia ao pensar que descobrindo-lhe a verdade, ia
perder para sempre essa doce e unica consolação que me restava na vida.
Perdoe, meo senhor, perdoe á escrava infeliz, que teve a louca ousadia
de amal-o.
--Isaura, deixa-te de vãos escrupulos, e dessas phrases humildes, que
de modo nenhum podem caber em teos labios angelicos. Se me amas, eu
tambem te amo, por que em tudo te julgo digna do meo amor; que mais
queres tu?... Se antes de conhecer a condição em que nasceste, eu te
amei subjugado por teos raros encantos, hoje que sei que a tantos
attractivos reunes o prestigio do infortunio e do martyrio, eu te
adoro, eu te idolatro mais que nunca.
--Ama-me, e é essa idéa, que ainda mais me mortifica!... de que nos
serve esse amor, se nem ao menos posso ter a fortuna de ser sua
escrava, e devo sem remedio morrer entre as mãos de meo algôz...
--Nunca, Isaura!--exclamou Alvaro com exaltação;--minha fortuna, minha
tranquillidade, minha vida, tudo sacrificarei para libertar-te do jugo
desse vil tyrano. Se a justiça da terra não me auxilia nesta nobre e
generosa empreza, a justiça do céo se fará cumprir por minhas mãos.
--Oh! senhor Alvaro!... não vá sacrificar-se por uma pobre escrava,
que não merece taes excessos. Abandone-me á minha sina fatal; já não
é pouca felicidade para mim ter merecido o amor de um cavalheiro tão
nobre e tão amavel, como o senhor; esta lembrança me servirá de alento
e consolação em minha desgraça. Não posso porém consentir, que o senhor
avilte o seo nome e a sua reputação, amando com tal extremo a uma
escrava.
--Por piedade, Isaura, não me martyrizes mais com essa maldita palavra,
que constantemente tens nos labios. Escrava tu!... não o és, nunca
o foste, e nunca o serás. Pode acaso a tyrania de um homem ou da
sociedade inteira transformar em um ente vil, e votar á escravidão
aquella que das mãos de Deos sahio um anjo digno do respeito e adoração
de todos? Não, Isaura; eu saberei erguer-te ao nobre e honroso lugar a
que o céo te destinou, e conto com a protecção de um Deos justo, por
que protejo um dos seos anjos.
Alvaro não obstante ficar sabendo depois da noite do baile, que Isaura
era uma simples escrava, nem por isso deixou de tratal-a dahi em diante
com o mesmo respeito, defferencia e delicadeza, como a uma donzella
da mais distincta jerarquia social. Procedia assim de accordo com
os elevados principios que professava, e com os nobres e delicados
sentimentos do seo coração. O pudor, a innocencia, o talento, a virtude
e o infortunio, erão sempre para elle cousas respeitaveis e sagradas,
quer se achassem na pessoa de uma princeza, quer na de uma escrava.
Sua affeição era tão casta e pura como a pessoa que della era objecto,
e nunca nem de leve lhe passára pelo pensamento abusar da precaria e
humilde posição de sua amante, para profanar-lhe a candura immaculada.
Nunca de sua parte um gesto mais ousado, ou uma palavra menos casta
havião feito assomar ao rosto da captiva o rubor do pejo, e nem tão
pouco os labios de Alvaro lhe havião roçado o mais leve beijo pelas
virginaes e pudicas faces. Apenas depois de instantes e repetidas
supplicas de Isaura, havia tomado a liberdade de tratal-a por tu, e
isso mesmo quando se achavão a sós.
Sómente agora pela primeira vez, Alvaro, dominado pela mais suave e
vehemente emoção, ao proferir as ultimas palavras, enlaçando o braço em
torno ao collo de Isaura a cingia brandamente contra o coração.
Estavão ambos enlevados na doçura deste primeiro amplexo de amor,
quando o ruido de um carro, que parou á porta do jardim, e logo após um
forte e estrondoso--ó de casa!--os fizérão separar-se.
No mesmo momento entrava na sala o boleeiro de Alvaro, e annunciava-lhe
que novas pessoas o procuravão.
--Oh, meo Deos!... que será isto hoje!... serão ainda os malditos
esbirros?...--refletio Alvaro, e depois dirigindo-se a Isaura:
--É prudente que te retires, minha amiga,--disse-lhe; ninguem sabe o
que será e não convem que te vejão.
--Ah! que eu não sirva senão para perturbar-lhe o socego!--murmurou
Isaura retirando-se.
Um momento depois Alvaro vio entrar na sala um elegante e bello
mancebo, trajado com todo o primor, e affectando as mais polidas e
aristocraticas maneiras; mas apezar de sua belleza, tinha elle na
physionomia, como Luzbel, um não sei quê de torvo e sinistro, e um
olhar sombrio, que incutia pavor e repulsão.
--Este por certo não é um esbirro,--pensou Alvaro, e indicando uma
cadeira ao recemchegado:--Queira sentar-se,--disse-lhe,--e tenha a
bondade de dizer o que pretende deste seo criado.
--Desculpe-me,--respondeo-lhe o cavalheiro, passeando um olhar
escrutador em roda da sala;--não é a Vª. Sª. que eu desejava fallar,
mas sim ao morador desta casa ou a sua filha.
Alvaro estremeceo. Estava claro que aquelle mancebo, se bem que nenhuma
apparencia tivesse de um esbirro, andava á pista de Isaura. Todavia no
intuito de verificar, se era fundada a sua apprehensão, antes de chamar
os donos da casa, quiz sondar as intenções do visitante.
--Não obstante,--respondeo elle,--como estou autorisado pelos donos da
casa a tratar de todos os seos negocios, pode Vª. Sª. dirigir-se a mim,
e dizer o que delles pretende.
--Sim, senhor; não ponho a menor duvida, pois o que pretendo não é
nenhum mysterio. Constando-me com certeza, que aqui se acha acoutada
uma escrava fugida por nome Isaura, venho apprehendel-a....
--Nesse caso deve entender-se commigo, que sou o depositario dessa
escrava.
--Ah!... pelo que vejo, Vª. Sª. é o senhor Alvaro!...
--Um criado de Vª. Sª.
--Bem; muito estimo encontral-o por aqui; pois saiba tambem que eu sou
Leoncio, o legitimo senhor dessa escrava.
Leoncio!... o senhor de Isaura!... Alvaro ficou como esmagado sob o
peso desta fulminante e tremenda revelação. Mudo e attonito, contemplou
por alguns instantes aquelle homem de sombria catadura, que se lhe
apresentava aos olhos, implacavel e sinistro como Lucifer, prestes
a empolgar a victima, que deseja arrastar aos infernos. Suor frio
porejou-lhe pela testa, e a mais pungente angustia apertou-lhe o
coração.
--É elle!... é o proprio algôz!... ai pobre Isaura!...--foi este o écho
lugubre, que remurmurou-lhe dentro d’alma enregelada pelo desalento.
Capitulo XVIII.
O leitor provavelmente não terá ficado menos attonito, do que ficou
Alvaro, com o imprevisto apparecimento de Leoncio no Recife, e indo
bater certo na casa em que se achava refugiada a sua escrava.
É preciso portanto explicar-lhe como isso aconteceo, para que não pense
que foi por algum milagre.
Leoncio depois de ter escripto e entregado no correio as duas cartas
que conhecemos, uma dirigida a Alvaro, outra a Martinho, nem por isso
ficou mais tranquillo. Devorava-lhe a alma uma inquietação mortal,
um ciume desesperador. A noticia de que Isaura se achava em poder de
um bello e rico mancebo, que a amava loucamente, era para elle um
supplicio insupportavel, um cancro, que lhe corroía as entranhas, e
o fazia estrebuchar em ancias de desespero, avivando-lhe cada vez
mais a paixão furiosa que concebera por sua escrava. Achava-se elle
na côrte, para onde, logo que teve noticias de Isaura, se dirigia
immediatamente, a fim de se achar em um centro, donde pudesse tomar
medidas promptas e energicas para a captura da mesma. Tendo escripto
e entregue as cartas na vespera da partida do vapor pela manhã, levou
o resto do dia a cismar. A terrivel anciedade em que se achava, não
lhe permittia esperar a resposta e o resultado daquellas cartas, sendo
muito mais morosas e espaçadas do que hoje as viagens dos paquetes
naquella época, em que apenas se havia inaugurado a navegação a vapor
pelas costas do Brazil. Demais ocorria-lhe frequentemente ao espirito o
anexim popular--quem quer vae, quem não quer manda.--Não podia fiar-se
na diligencia e boa vontade de pessoas desconhecidas, que talvez não
pudessem luctar vantajosamente contra a influencia de Alvaro, o qual,
segundo lho pintavão, era um potentado em sua terra. O ciume e a
vingança não gostão de confiar a olhos e mãos alheias a execução de
seos designios.
--É indispensavel que eu mesmo vá,--pensou Leoncio, e firme nesta
resolução foi ter com o ministro da justiça, com quem cultivava
relações de amizade, e pedio-lhe uma carta de recommendação,--o que
equivale a uma ordem,--ao chefe de policia de Pernambuco, para que o
auxiliasse afficazmente para o descobrimento e captura de uma escrava.
Já de antemão Leoncio tambem se havia munido de uma precatoria e
mandado de prisão contra Miguel, a quem havia feito processar e
pronunciar como ladrão e acoutador de sua escrava. O sanhudo bachá de
nada se esquecia para tornar completa a sua vingança.
No outro dia Leoncio seguia para o norte no mesmo vapor que conduzia
suas cartas.
Estas porém chegárão ao seo destino algumas horas antes que o seo autor
desembarcasse no Recife.
Leoncio apenas pôz pé em terra, dirigio-se ao chefe de policia, e
entregando-lhe a carta do ministro inteirou-o de sua pretensão.
--Tenho a informar-lhe, senhor Leoncio,--respondeo-lhe o chefe,--que
haverá talvez pouco mais de duas horas que daqui sahio uma pessoa
autorisada por Vª. Sª. para o mesmo fim de apprehender essa escrava, e
ainda ha pouco aqui chegou de volta declarando que tinha-se enganado,
e que acabava de reconhecer que a pessoa, de quem desconfiava, não é e
nem pode ser a escrava que fugio a Vª. Sª.
--Um certo Martinho, não, senhor doutor?...--
--Justamente.
--Devéras!... que me diz, senhor doutor?...--
--A verdade; ainda ahi estão á porta o official de justiça e os
guardas, que o acompanhárão.
--De maneira, que terei perdido o meo tempo e a minha viagem!... oh!
não, não; isto não é possivel. Creia-me, Sr. doutor, aqui ha patranha
... o tal senhor Alvaro dizem que é muito rico...
--E o tal Martinho um valdevino capaz de todas as infamias. Tudo pode
ser; mas a Vª. Sª. como interessado, compete averiguar essas cousas.
--E é o que venho disposto a fazer. Irei lá eu mesmo verificar o
negocio por meos proprios olhos, e já, se fôr possivel.
--Quando quizer. Ahi estão o official de justiça e os guardas, que
ainda agora de lá vierão, e ninguem melhor do que elles pode guiar a
Vª. Sª. e effectuar a captura, caso reconheça ser a sua propria escrava.
--Tambem me é preciso que Vª. Sª. ponha o--_cumpra-se_--nesta
precatoria--disse Leoncio apresentando a precatoria contra Miguel--é
necessario punir o patife, que teve a audacia de desencaminhar e
roubar-me a escrava.
O chefe satisfez sem hesitar ao pedido de Leoncio, que acompanhado
da pequena escolta, que fez subir ao seo carro, no mesmo momento se
dirigio a casa de Isaura, onde o deixámos em face de Alvaro.
A situação deste não era só critica; era desesperada. O seo antagonista
ali estava armado de seo incontestavel direito para humilhal-o,
esmagal-o, e o que mais é, despedaçar-lhe a alma, roubando-lhe a
amante adorada, o idolo de seo coração, que ia-lhe ser arrancada dos
braços para ser prostituida ao amor brutal de um senhor devasso,
senão sacrificada ao seo furor. Não tinha remedio senão curvar-se sem
murmurar, ao golpe do destino, e ver de braços cruzados mettida em
ferros, e entregue ao azorrague do algôz a nobre e angelica creatura,
que unica entre tantas bellezas, lhe fizera palpitar o coração em
emoções do mais extremoso e puro amor.
Deploravel contingencia, a que somos arrastados em consequencia de uma
instituição absurda e deshumana!
O devasso, o libertino, o algôz, apresenta-se altivo e arrogante, tendo
a seo favor a lei e a autoridade, o direito e a força, lança a garra
sobre a presa, que é objecto de sua cobiça ou de seo odio, e pode
fruil-a ou esmagal-a a seo talante, emquanto o homem de nobre coração,
de impulsos generosos, inerme perante a lei, ahi fica supplantado,
tolhido, manietado sem poder estender o braço em soccorro da innocente
e nobre victima, que deseja proteger. Assim, por uma estranha
aberração, vemos a lei armando o vicio, e decepando os braços á virtude.
Estava pois Alvaro em presença de Leoncio como o condenado em presença
do algôz. A mão da fatalidade o socalcava com todo o seo peso
esmagador, sem lhe deixar livre o minimo movimento.
Vinha Leoncio ardendo em furias de raiva e de ciume, e prevalecendo-se
de sua vantajosa posição, aproveitou a occasião para vingar-se de seo
rival, não com a nobreza de cavalheiro, mas procurando humilhal-o á
força de improperios.
--Sei que ha muito tempo,--disse Leoncio, continuando o dialogo que
deixámos interrompido no capitulo antecedente,--Vª. Sª. retem essa
escrava em seo poder contra toda a justiça, illudindo as autoridades
com falsas allegações, que nunca poderá provar. Porém agora venho eu
mesmo reclamal-a e burlar os seos planos, e artificios.
--Artificios não, senhor. Protegi e protejo francamente uma escrava
contra as violencias de um senhor, que quer tornar-se seo algôz; eis
ahi tudo.
--Ah!... agora é que sei que qualquer ahi pode subtrahir um escravo ao
dominio de seo senhor a pretexto de protegel-o, e que cada qual tem o
direito de velar sobre o modo por que são tratados os escravos alheios.
--Vª. Sª. está de disposição a escarnecer, e eu declaro-lhe que nenhuma
vontade tenho de escarnecer, nem de ser escarnecido. Confesso-lhe que
desejo muito a liberdade dessa escrava, tanto quanto desejo a minha
felicidade, e estou disposto a fazer todos os sacrificios possiveis
para conseguil-a. Já lhe offereci dinheiro, e ainda offereço. Dou-lhe o
que pedir ... dou-lhe uma fortuna por essa escrava. Abra preço...
--Não ha dinheiro que a pague; nem todo o ouro do mundo, porque não
quero vendel-a.
--Mas isso é um capricho barbaro, uma perversidade...
--Seja capricho da qualidade que Vª. Sª. quizer; por ventura não
posso ter eu os meos caprichos, comtanto que não offenda direitos
de ninguem?... por ventura Vª. Sª. não tem tambem o seo capricho de
querel-a para si?... mas o seo capricho offende os meos direitos, e eis
ahi o que não posso tolerar.
--Mas o meo capricho é nobre e bemfazejo, e o seo é uma tyrannia,
para não dizer uma vilania. Vª. Sª. mancha a sua vida com uma nodoa
indelevel conservando na escravidão essa mulher; cospe o desrespeito
e a injuria sobre o tumulo de sua santa mãe, que creou com tanta
delicadeza, educou com tanto esmero essa escrava, para tornal-a digna
da liberdade que pretendia dar-lhe, e não para satisfazer aos caprichos
de Vª. Sª. Ella por certo lá do céo, onde está, o amaldiçoará, e
o mundo inteiro a acompanhará na maldição ao homem, que retem no
mais infamante captiveiro uma creatura cheia de virtudes, prendas e
belleza...
--Basta senhor!... agora fico tambem sabendo, que uma escrava, só
pelo facto de ser bonita e prendada, tem direitos á liberdade. Fique
tambem Vª. Sª. sabendo, que se minha mãe não creou essa rapariga para
satisfazer aos meos caprichos, muito menos para satisfazer aos de Vª.
Sª., a quem nunca conheceo nesta vida. Senhor Alvaro, se deseja ter
alguma linda escrava para sua amasia, procure outra, compre-a, que a
respeito desta, pode perder toda a esperança.
--Senhor Leoncio, Vª. Sª. de certo esquece-se do lugar onde está, e
da pessoa com quem falla, e julga que se acha em sua fazenda fallando
aos seos feitores ou a seos escravos. Advirto-lhe, para que mude de
linguagem.
--Basta, senhor; deixemo-nos de vãs disputas, e nem eu vim aqui para
ser catechisado por Vª. Sª. O que quero é a entrega da escrava e nada
mais. Não me obrigue a usar do meo direito levando-a á força.
Alvaro desvairado por tão grosseiras e ferinas provocações, perdeo de
todo a prudencia e sangue frio.
Entendeo que para sahir-se bem na terrivel conjunctura em que se
achava, só havia um caminho,--matar o seo antagonista ou morrer-lhe ás
mãos,--e cedendo a essas suggestões da cólera e do desespero, saltou
da cadeira em que estava, agarrou Leoncio pela góla e sacudindo-o com
força:
--Algôz!--bradou espumando de raiva,--ahi tens a tua escrava! Mas antes
de leval-a, has-de responder pelos insultos que me tens dirigido,
ouviste?... ou acaso pensas que eu tambem sou teo escravo?...
--Está louco, homem!--disse Leoncio amedrontado.--As leis do nosso paiz
não permittem o duello.
--Que me importão as leis!... para o homem de brio a honra é superior
ás leis, e se não és um covarde, como penso....
--Soccorro, que querem assassinar-me,--bradou Leoncio desembaraçando-se
das mãos de Alvaro, e correndo para a porta.
--Infame!--rugio Alvaro, cruzando os braços e rangendo os dentes n’um
sorrir de cólera e desdem...
No mesmo momento, attrahidos pelo barulho, entravam na sala de um lado
Isaura e Miguel, do outro o official de justiça e os guardas.
Isaura estava com o ouvido aguçado, e do interior da casa ouvira e
comprehendera tudo.
Vio que tudo estava perdido, e correo a atalhar o desatino, que por
amor della Alvaro ia commetter.
--Aqui estou, senhor!--forão as unicas palavras que pronunciou
apresentando-se de braços cruzados diante de seo senhor.
--Eil-os ahi; são estes!--exclamou Leoncio indicando aos guardas Isaura
e Miguel. Prendão-os!... prendão-os!...
--Vae-te, Isaura, vae-te.--murmurou Alvaro com voz trémula e sumida,
achegando-se da captiva.--Não desanimes; eu não te abandonarei. Confia
em Deos e em meo amor.
* * * * *
Uma hora depois Alvaro recebia em casa a visita de Martinho. Vinha este
mui ancho e lampeiro dar conta de sua commissão, e sofrego por embolsar
a somma convencionada.
--Dez contos!... oh!--vinha elle pensando.--É uma fortuna! agora sim,
posso eu viver independente!... Adeos, surrados bancos de Academia!.
adeos, livros sebosos, que tanto tempo andei folheando á toa!... vou
atirar-vos pela janella a fóra; não preciso mais de vós; meo futuro
está feito. Em breve serei capitalista, banqueiro, commendador, barão,
e verão para quanto presto!...
E á força de multiplicar calculos de usura e agiotagem, já Martinho
havia centuplicado aquella somma em sua imaginação.
--Meo caro senhor Alvaro,--veio logo dizendo sem mais preambulos,--está
tudo arranjado á medida de nossos desejos. Pode Vª. Sª. viver
tranquillo em companhia da gentil fugitiva, que daqui em diante ninguem
mais o importunará. De feito o procedimento de Vª. Sª. nesta questão
tem sido muito bello e digno de elogios; é proprio de um coração grande
e generoso como o de Vª. Sª. Não se dá maior desaforo! no captiveiro
uma menina tão mimosa e tão prendada!... Agora aqui está a carta, que
escrevo ao lorpa do sultãosinho. Prego-lhe meia duzia de carapetões,
que o hão-de desorientar completamente.
Assim fallando Martinho desdobrou a carta, e já começava a lel-a,
quando Alvaro impacientado o interrompeo.
--Basta, senhor Martinho,--disse-lhe com máo humor;--o negocio está
arranjado; não preciso mais de seos serviços.
--Arranjado!... como?...
--A escrava está em poder de seo senhor.
--De Leoncio!... impossivel!
--Entretanto, é a pura verdade; se quizer saber mais vá á policia, e
indague.
--E os meos dez contos?...
--Creio que não lh’os devo mais.
Martinho soltou um urro de desespero, e sahio da casa de Alvaro com tal
precipitação, que parecia ir rolando pelas escadas abaixo.
Descrever o misero estado, em que ficou aquella pobre alma, é empreza
em que não me metto; os leitores que fação idéa.
O cão faminto illudido pela sombra, largou a carne que tinha entre os
dentes, e ficou sem uma nem outra.
Capitulo XIX.
--Olha como arranjas isso, Rosa; esta rapariga é mesmo uma estouvada;
não tem jeito para nada. Bem mostras que não nasceste para a sala; o
teo lugar é na cosinha.
--Ora vejão lá a figura de quem quer me dar regras!... quem te chamou
aqui, intromettido? O teo lugar tambem não é aqui, é lá na estribaria.
Vae lá governar os teos cavallos, André, e não te intromettas no que
não te importa.
--Cala-te dahi, toleirona;--replicou André mudando de lugar algumas
cadeiras.--O que sabes é só tagarellar. Não é aqui o lugar destas
cadeiras... Olha como estão estes jarros!... ainda nem alimpaste os
espelhos!... forte desajeitada e preguiçosa que és!... No tempo de
Isaura andava tudo isto aqui, que era um mimo; fazia gosto entrar-se
nesta sala. Agora, é isto. Está claro que não és para estas cousas.
--Essa agora é bem lembrada!--retorquio Rosa, altamente despeitada.--Se
tens saudades do tempo de Isaura, vae lá tiral-a do quarto escuro do
tronco, onde ella está morando. Esse de certo ella não ha-de ter gosto
para enfeital-o de flores.
--Cala a boca, Rosa; olha que tu tambem lá podes ir parar.
--Eu não, que não sou fujona.
--Por que não achas quem te carregue, senão fugirias até com o diabo.
Coitada da Isaura! uma rapariga tão boa e tão mimosa, tratada como uma
negra da cosinha! e não tens pena della, Rosa?
--Pena por quê, agora?... quem mandou ella fazer das suas?
--Pois olha, Rosa, eu estava prompto a aguentar a metade do castigo que
ella está soffrendo, mas na companhia della, está entendido.
--Isso pouco custa, André; é fazer o que ella fez. Vae, como ella,
tomar ares em Pernambuco, que infallivelmente vaes para a companhia de
Isaura.
--Quem déra!... se soubesse que me prendião com ella, isso é que era um
fugir. Mas o diabo é que a pobre Isaura agora vae deixar a nós todos
para sempre. Que falta não vae fazer nesta casa!...
--Deixar como?
--Você verá.
--Foi vendida?...
--Qual vendida!
--Alhegada?
--Nem isso.
--Está forra?...
--Que abelhuda!... Espera, Rosa; tem paciencia um pouco, que hoje mesmo
talvez você venha a saber tudo.
--Ora ponha-se com mysterios ... então o que você sabe, os outros não
podem saber?...
--Não é mysterio, Rosa; é desconfiança minha. Aqui em casa não tarda a
haver novidade grossa; vae escutando.
--Ah! ah!--respondeo Rosa galhofando.--Você mesmo está com cara de
novidade.
--Psio!... bico calado, Rosa!... ahi vem nhonhô.
Pelo dialogo acima o leitor bem vê, que nos achamos de novo na fazenda
de Leoncio, no municipio de Campos, e na mesma sala, em que no começo
desta historia encontramos Isaura entoando sua canção favorita.
Cerca de dous mezes são decorridos depois que Leoncio fôra ao Recife
apprehender sua escrava. Leoncio e Malvina tinhão-se reconciliado, e
vindos da côrte tinham chegado á fazenda na vespera. Alguns escravos,
entre os quaes se acham Rosa e André, estão asseando o soalho,
arranjando e espanando os moveis daquelle rico salão, testemunha
impassivel dos mysterios da familia, de tantas scenas ora tocantes e
enlevadoras, ora vergonhosas e sinistras, e que durante a ausencia de
Malvina se conservára sempre fechado.
Qual é porém a sorte de Isaura e de Miguel, desde que deixárão
Pernambuco? que destino deo Leoncio ou pretende dar áquella?... por que
maneira se reconciliou com sua mulher?
Eis o que passamos a explicar ao leitor, antes de proseguirmos nesta
narrativa.
Leoncio tendo trazido Isaura para sua fazenda, a conservára na mais
completa e rigorosa reclusão. Não era isto só com o fim de castigal-a
ou de cevar sua feroz vingança sobre a infeliz captiva. Sabia quanto
era ardente e capaz de extremos, o amor que o jovem pernambucano
concebera por Isaura; tinha ouvido as ultimas palavras que Alvaro lhe
dirigira = confia em Deos, e em meo amor; eu não te abandonarei =.--Era
uma ameaça, e Alvaro, rico e audacioso como era, dispunha de grandes
meios para pôl-a em execução, quer por alguma violencia, quer por meio
de astucias e insidias. Leoncio portanto não só encarcerava com todo o
rigor a sua escrava, como tambem armou todos os seos escravos, que dahi
em diante distrahidos quasi completamente dos trabalhos da lavoura,
vivião em alerta dia e noite como soldados de guarnição a uma fortaleza.
Mas a alma ardente e feroz do joven fazendeiro não desistia nunca de
seo louco amor, e nem perdia a esperança de vencer a isenção de Isaura.
E já não era só o amor ou a sensualidade, que o arrastava, era um
capricho tyrannico, um desejo feroz e satanico de vingar-se della e do
rival preferido. Queria gozal-a, fosse embora por um só dia, e depois
de profanada e polluida, entregal-a desdenhosamente ao seo antagonista,
dizendo-lhe:--Venha comprar a sua amante; agora estou disposto a
vendel-a, e barato.
Encetou pois contra ella nova campanha de promessas, seducções e
protestos, seguidos de ameaças, rigores e tyrannias. Leoncio só recuou
diante das torturas e da violencia brutal, não por que lhe faltasse
ferocidade para tanto, mas por que conhecendo a tempera heroica da
virtude de Isaura, comprehendeo que com taes meios só conseguiria
matal-a, e a morte de Isaura não satisfazia o seo sensualismo, e nem
tão pouco a sua vingança. Portanto tratou de meditar novos planos,
não só para recalcar debaixo dos pés o que elle chamava o orgulho
da escrava, como de frustrar e escarnecer completamente as vistas
generosas de Alvaro, tomando assim de ambos a mais cabal vingança.
Além de tudo, Leoncio via-se na absoluta necessidade de reconciliar-se
com Malvina, não que o pundonor, a moral, e muito menos a affeição
conjugal a isso o induzissem, mas por motivos de interesse, que em
breve o leitor ficará sabendo. Com esse fim pois, Leoncio foi á côrte e
procurou Malvina.
Além de todas as más qualidades que possuia, a mentira, a calumnia,
o embuste, erão armas que manejava com a habilidade do mais refinado
hypocrita. Mostrou-se envergonhado e arrependido do modo por que a
havia tratado, e jurou apagar com o seo futuro comportamento até a
lembrança de seos passados desvarios. Confessou com uma sinceridade
e candura de anjo, que por algum tempo se deixára enlevar pelos
attractivos de Isaura, mas que isso não passára de passageiro desvario,
que nenhuma impressão lhe deixára na alma.
Além disso assacou mil aleives e calumnias por conta da pobre Isaura.
Allegou que ella, como refinada loureira que era, empregára os mais
subtis e ardilosos artificios para seduzil-o e provocal-o, no intuito
de obter a liberdade em troco de seos favores. Inventou mil outras
cousas, e por fim fez Malvina acreditar que Isaura fugira de casa
seduzida por um galan, que ha muito tempo a requestava, sem que elles
o soubessem; que fôra este, quem fornecêra ao pae della os meios de
alforrial-a, e que não o podendo conseguir combinárão de mãos dadas e
effectuárão o plano de rapto; que chegando ao Recife, um moço que tanto
tinha de rico, como de extravagante e desmiolado, enamorando-se della a
tomára a seo primeiro amante; que Isaura com seos artificios, dando-se
por uma senhora livre o tinha enleado e illudido por tal forma, que o
pobre moço estava a ponto de casar-se com ella, e mesmo depois de saber
que era captiva não queria largal-a, e praticando mil escandalos e
disparates estava disposto a tudo para alforrial-a. Fôra das mãos desse
moço, que elle a fôra tomar no Recife.
Malvina, moça ingenua e credula, com um coração sempre propenso á
ternura e ao perdão, deo pleno credito a tudo quanto aprouve a Leoncio
inventar não só para justificar suas faltas passadas, como para
predispor o comportamento que dahi em diante pretendia seguir.
Na qualidade de esposa offendida irritára-se outróra contra Isaura,
quando surprehendêra seo marido dirigindo-lhe fallas amorosas; mas o
seo rancor ia-se amainando, e se desvaneceria de todo, se Leoncio não
viesse com falsas e aleivosas informações attribuir-lhe os mais torpes
procedimentos. Malvina começou a sentir por Isaura desde esse momento,
não odio, mas certo afastamento e desprezo, mesclado de compaixão, tal
qual sentiria por outra qualquer escrava atrevida e mal comportada.
Era quanto bastava a Leoncio para associal-a ao plano de castigo
e vingança, que projectava contra a desditosa escrava. Bem sabia,
que Malvina com a sua alma branda e compassiva jámais consentiria
em castigos crueis; o que meditava porém nada tinha de barbaro na
apparencia, se bem que fosse o mais humilhante e doloroso flagicio
imposto ao coração de uma mulher, que tinha consciencia de sua belleza,
e da nobreza e elevação de seo espirito.
--E o que pretendes fazer de Isaura? perguntou Malvina.
--Dar-lhe um marido e carta de liberdade.
--E já achaste esse marido?
--Pois faltão maridos?... para achal-o não precisei sair de casa.
--Algum escravo, Leoncio?... oh!... isso não.
--E que tinha isso, uma vez que eu tambem forrasse o marido? era cré
com cré, lé com lé. Bem me lembrei do André, que bebe os ares por ella;
mas por isso mesmo não a quero dar áquelle maroto. Tenho para ella peça
muito melhor.
--Quem Leoncio?
--Ora quem!... o Belchior.
--O Belchior!... exclamou Malvina rindo-se muito.--Estás cassoando;
falla serio, quem é?...
--É o Belchior, senhora; fallo serio.
--Mas esperas acaso, que Isaura queira casar-se com aquelle monstrengo?
--Se não quizer peor para ella; não lhe dou a liberdade, e ha-de passar
a vida enclausurada e em ferros.
--Oh!... mas isso é demasiada crueldade, Leoncio. De que serve dar-lhe
a liberdade em tudo, se não lhe deixas a de escolher um marido?...
Dá-lhe a liberdade, Leoncio, e deixa ella casar-se com quem quizer.
--Ella não se casará com ninguem: irá voando direitinho para
Pernambuco, e lá ficará muito lampeira nos braços de seo insolente
taful, escarnecendo de mim...
--E que te importa isso, Leoncio?--perguntou Malvina com certo ar
desconfiado.
--Que tenho!...--replicou Leoncio um pouco perturbado com a
pergunta.--Ora que tenho!... é o mesmo que perguntar-me se tenho brio
nas faces. Se soubesses como aquelle papalvo provocou-me atirando-me
insultos atrozes!... como desafiou-me com mil bravatas e ameaças,
protestando que havia de arrancar Isaura ao meo poder. Se não fosse
por tua causa, e tambem por satisfazer os votos de minha mãe, eu nunca
daria a liberdade a essa escrava, embora nenhum serviço me prestasse,
e tivesse de tratal-a como uma princeza, só para quebrar a prôa e
castigar a audacia e petulancia desse impudente rufião.
--Pois bem, Leoncio; mas eu entendo que Isaura mais facilmente se
deixará queimar viva, do que casar-se com Belchior.
--Não te dê isso cuidado, minha querida; havemos de catechizal-a
convenientemente. Tenho cá forjado o meo plano, com o qual espero
reduzil-a a casar-se com elle de muito boa vontade.
--Se ella consentir, não tenho motivo para me oppor a esse arranjo.
Leoncio de feito havia habilmente preparado o seo plano atroz. Tendo
trazido do Recife a Miguel debaixo de prisão, juntamente com Isaura, ao
chegar em Campos fêl-o encerrar na cadeia, e condenar a pagar todas as
despezas e prejuizos que tivera com a fuga de Isaura, as quaes fizera
orçar em uma somma exorbitante. Ficou portanto o pobre homem exausto
dos ultimos recursos que lhe restavão, e ainda por sobre-carga devendo
uma somma enorme, que só longos annos de trabalho poderião pagar. Como
Leoncio era rico, amigo dos ministros, e tinha grande influencia no
lugar, as autoridades locaes prestárão-se de boa mente a todas estas
perseguições.
Depois que Leoncio, desanimado de poder vencer a obstinada reluctancia
de Isaura, mudou o seo plano de vingança, foi elle em pessoa procurar a
Miguel.
--Senhor Miguel,--disse-lhe em tom formalizado,--tenho commiseração
do senhor e de sua filha, apesar dos incommodos e prejuizos que me
tem dado, e venho propor-lhe um meio de acabarmos de uma vez para
sempre com as desordens, intrigas e transtornos, com que sua filha tem
perturbado minha casa e o soсego de minha vida.
--Estou prompto para qualquer arranjo, senhor Leoncio,--respondeo
respeitosamente Miguel,--uma vez que seja justo e honesto.
--Nada mais honesto, nem mais justo. Quero casar sua filha com um homem
de bem, e dar-lhe a liberdade; porém para esse fim preciso muito de sua
coadjuvação.
--Pois diga em que lhe posso servir.
--Sei que Isaura ha-de sentir alguma repugnancia em casar-se com
a pessoa que lhe destino, em razão de tola e extravagante paixão,
que parece ainda ter por aquelle infame peralvilho de Pernambuco,
que metteo-lhe mil caraminholas na cabeça, e encheo-a de idéas
extravagantes e loucas esperanças.
--Creio que ella não deve lembrar-se desse moço senão por gratidão....
--Qual gratidão!... pensa vm.^{ce} que elle está fazendo muito caso
della?... tanto como do primeiro sapato que calçou. Aquillo foi um
capricho de cabeça estonteada, uma phantasia de fidalgote endinheirado,
e a prova aqui está; leia esta carta... O patife tem a sem cerimonia
de escrever-me, como se entre nós nada houvesse, assim com ares de
amigo velho, participando-me que se acha casado!... que tal lhe parece
esta?... que tenho eu com seo casamento!... Mas isto ainda não é tudo;
aproveitando a occasião, pede-me com todo o desfaçamento que em todo e
qualquer tempo, que eu me resolva a dispor de Isaura, nunca o faça sem
participar-lhe, porque muito deseja têl-a para mucama de sua senhora! É
até onde pode chegar o cynismo e a impudencia!...
--Com effeito, senhor!... isto da parte do senhor Alvaro é custoso de
acreditar!
--Pois capacite-se com seos proprios olhos; leia; não conhece esta
letra?...
E dizendo isto Leoncio apresentava a Miguel uma carta, cuja letra
imitava perfeitamente a de Alvaro.
--A letra é delle; não resta duvida,--disse Miguel pasmado do que
acabava de ler.--Ha neste mundo infamias, que custa-se a comprehender.
--E tambem lições crueis, que é preciso não desprezar, não é assim,
senhor Miguel?... Pois bem; guarde essa carta para mostrar á sua filha;
é bom que ella saiba de tudo para não contar mais com esse homem,
e varrer do espirito as fumaças que por ventura ainda lhe toldão o
juizo. Faça tambem vm.^{ce} o que estiver em seo possivel a fim de
predispôr sua filha para esse casamento, que é de muita vantagem, e eu
não só lhe perdoarei tudo quanto me fica devendo, como lhe restituo o
que já me deo, para vm.^{ce} abrir um negocio aqui em Campos e viver
tranquillamente o resto de seos dias, em companhia de sua filha e de
seo genro.
--Mas quem é esse genro? Vª. Sª. me não disse ainda.
--É verdade;... esquecia-me. É o Belchior, o meo jardineiro; não
conhece?...
--Muito!... oh! senhor!... com que miseravel figura quer casar minha
filha!... pobre Isaura!... duvido muito que ella queira.
--Que importa a figura, se tem uma boa alma, e é honesto e
trabalhador?...
--Lá isso é verdade; o ponto é ella querer.
--Estou certo que aconselhada e bem catechisada por vm.^{ce} ha-de se
resolver.
--Farei o que puder; mas tenho poucas esperanças.
--E se não quizer, peor para ella e para vm.^{ce}: o dito por não dito;
fica tudo como estava,--disse terminantemente Leoncio.
Miguel não era homem de tempera a luctar contra a adversidade. O
captiveiro e reclusão perenne de sua filha, a miseria que se lhe
antolhava acompanhada de mil angustias, erão para elle phantasmas
hediondos, cujo aspecto não podia encarar sem sentir mortal pavor e
abatimento. Não achou muito oneroso o preço pelo qual o deshumano
senhor, livrando-o da miseria, concedia liberdade á sua filha, e
acceitou o convenio.
Capitulo XX.
Emquanto Rosa e André espanejavão os moveis do salão, tagarellando
alegremente, uma scena bem triste e compungente se passava em um escuro
aposento attinente ás senzalas, onde Isaura sentada sobre um cepo,
com um dos alvos e mimosos artelhos preso por uma corrente cravada á
parede, ha dous mezes se achava encarcerada.
Miguel ahi tinha sido introduzido por ordem de Leoncio, para dar parte
á filha do projecto de seo senhor, e exortal-a a acceitar o partido
que lhes propunha. Era pungente e desolador o quadro que apresentavão
aquellas duas miseras creaturas, palidas, extenuadas e abatidas pelo
infortunio, encerrados em uma estreita e lobrega espelunca. Ao se
encontrarem depois de dous longos mezes, mais opprimidos e desgraçados
que nunca, a primeira linguagem com que se saudárão, não foi mais do
que um chôro de lagrimas e soluços de indizivel angustia, que abraçados
por largo tempo estivérão entornando no seio um do outro.
* * * * *
--Sim, minha filha; é preciso que te resignes a esse sacrificio, que é
desgraçadamente o unico recurso que nos deixão. É com esta condição,
que venho abrir-te as portas desta triste prisão, em que ha dous mezes
vives encerrada. É sem duvida um cruel sacrificio para teo coração; mas
é sem comparação mais supportavel do que esse duro captiveiro, com que
pretendem matar-te.
--É verdade, meo pae; o meo carrasco dá-me a escolha entre dous jugos;
mas eu ainda não sei qual dos dous será mais odioso e insupportavel.
Eu sou linda, dizem; fui educada como uma rica herdeira; inspirárão-me
uma alta estima de mim mesma com o sentimento do pudor e da dignidade
da mulher; sou uma escrava, que faz muita moça formosa morder-se de
inveja; tenho dotes incomparaveis do corpo e do espirito; e tudo isto
para que, meo Deos!?... para ser dada de mimo a um misero idiota!...
Pode-se dar mais cruel e pungente escarneo?!...
E uma risada convulsiva e sinistra desprendeo-se dos labios descorados
de Isaura, e reboou pelo lugubre aposento, como o estridulo ulular do
mocho entre os sepulchros.
--Não é tanto como se te afigura na imaginação abalada pelos
soffrimentos. O tempo pode muito, e com paciencia e resignação has-de
te acostumar a esse novo viver, sem duvida muito mais suave do que este
inferno de martyrios, e poderemos ainda gozar dias senão felizes, ao
menos mais tranquillos e serenos.
--Para mim a tranquillidade não pode existir senão na sepultura, meo
pae. Entre os dous supplicios que me deixão a escolher, eu vejo ainda
alguma cousa, que me sorri como uma idéa consoladora, um recurso
extremo, que Deos reserva para os desgraçados, cujos males são sem
remedio.
--É da resignação sem duvida, que queres fallar, não é, minha filha?...
--Ah! meo pae, quando a resignação não é possivel, só a morte...
--Cala-te, filha!... não digas blasphemias e palavras loucas. Eu quero,
eu preciso, que tu vivas. Terás animo de deixar teo pae neste mundo
sósinho, velho e entregue á miseria e ao desamparo? Se me faltares, o
que será de mim nas tristes conjuncturas em que me deixas?...
--Perdoe-me, meo bom, meo querido pae; só em um caso extremo eu me
lembraria de morrer. Eu sei que devo viver para meo pae, e é isso que
eu quero; mas para isso será preciso que eu me case com um disforme?...
oh! isto é escarneo e opprobrio demais! Tenhão-me debaixo do mais
rigoroso captiveiro, ponhão-me na roça de enxada na mão, descalça e
vestida de algodão, castiguem-me, tratem-me em fim como a mais vil das
escravas, mas por caridade poupem-me este ignominioso sacrificio!...
--Belchior não é tão disforme como te parece; e demais o tempo e o
costume te farão familiarisar com elle. Ha muito tempo não o vês; com
a idade elle vae-se endireitando, que é elle ainda muito creança.
Agora o desconhecerás; já não tem aquelle exterior tão grosseiro e
desagradavel, e tem tomado outras maneiras menos toscas. Toma animo,
minha filha; quando sahires deste triste calabouço, o ar da liberdade
te restituirá a alegria e a tranquillidade, e mesmo com o marido que te
dão poderás viver feliz....
--Feliz!--exclamou Isaura com amargo sorriso;--não me falle em
felicidade, meo pae. Se ao menos eu tivesse o coração livre como
outróra ... se não amasse a ninguem. Oh!... não era preciso que elle
me amasse, não; bastava que me quizesse para escrava, aquelle anjo de
bondade, que em vão empregou seos generosos esforços para arrancar-me
deste abysmo. Quanto eu seria mais feliz do que sendo mulher desse
pobre homem, com quem me querem casar! Mas ai de mim! devo eu pensar
mais nelle? pode elle, nobre e rico cavalheiro, lembrar-se ainda da
pobre e infeliz captiva!...
--Sim, minha filha, não penses mais nesse homem; varre da tua idéa esse
amor tresloucado; sou eu quem te peço e te aconselho.
--Por que, meo pae?... como poderei ser ingrata a esse moço?...
--Mas não deves contar mais com elle, e muito menos com o seo amor.
--Por que motivo? por ventura se terá elle esquecido de mim?...
--Tua humilde condição não permitte que olhes com amor para tão alto
personagem; um abysmo te separa delle. O amor que lhe inspiraste, não
passou de um capricho de momento, de uma fantasia de fidalgo. Bem me
peza dizer-te isto, Isaura; mas é a pura verdade.
--Ah! meo pae! que está dizendo!... se soubesse que mal me fazem essas
terriveis palavras!... deixe-me ao menos a consolação de acreditar que
elle me amava, que me ama ainda. Que interesse tinha elle em illudir
uma pobre escrava?...
--Eu bem quizéra poupar-te ainda este desgosto; mas é preciso que
saibas tudo. Esse moço ... ah! minha filha, prepara teo coração para
mais um golpe bem cruel.
--Que tem esse moço?... perguntou Isaura trémula e agitada. Falle, meo
pae; acaso morreo?...
--Não, minha filha, mas ... está casado.
--Casado!... Alvaro casado!... oh! não; não é possivel!... quem lhe
disse, meo pae?...
--Elle mesmo, Isaura; lê esta carta.
Isaura tomou a carta com mão trémula e convulsa, e a percorreo com
olhos desvairados. Lida a carta não articulou uma queixa, não soltou
um soluço, não derramou uma lagrima, e ella palida como um cadaver, os
olhos estatelados, a boca entre-aberta, muda, immovel, hirta, ali ficou
por largo tempo na mesma posição; dir-se-hia que fôra petrificada como
a mulher de Loth, ao encarar as chammas em que ardia a cidade maldita.
Emfim por um movimento rapido e convulso atirou-se ao seio de seo pae,
e inundou-o de uma torrente de lagrimas.
Este pranto copioso alliviou-a; ergueo a cabeça, enxugou as lagrimas, e
pareceo ter recobrado a tranquillidade, mas uma tranquillidade gelida,
sinistra, sepulchral. Parecia que sua alma se tinha anniquilado sob
a violencia daquelle golpe esmagador, e que de Isaura só restava o
phantasma.
--Estou morta, meo pae!... não sou mais que um cadaver;... fação de mim
o que quiserem....
Forão estas as ultimas palavras, que com voz funebre e sumida proferio
naquelle lobrego recinto.
--Vamos, minha filha, disse Miguel beijando-a na fronte.--Não te
entregues assim ao desalento; tenho esperança, de que has-de viver e
ser feliz.
Miguel, espirito acanhado e rasteiro, coração bom e sensivel, mas
inteiramente estranho ás grandes paixões, não podia comprehender
todo o alcance do sacrificio que impunha á sua filha. Encarando a
felicidade mais pelo lado dos interesses da vida positiva e material,
que não pelos gozos e exigencias do coração, ousava conceber sinceras
esperanças de mais felizes e tranquillos dias para sua filha, e não
via que, sujeitando-a a semelhante opprobrio, aviltando-lhe a alma, ia
esmagar-lhe o coração. Queria que ella vivesse, e não via que aquelle
ignominioso consorcio, depois de tantas e tão acerbas torturas por que
passára, era o golpe de compaixão, que terminando-lhe a existencia,
vinha abreviar-lhe os soffrimentos.
Malvina achava-se no salão, e ali esperava o resultado da conferencia,
que Miguel fôra ter com sua filha. Rosa e André de braços cruzados
junto á porta da entrada, tambem ali se achavão ás suas ordens.
Malvina sentio um doloroso aperto de coração ao ver assomar na porta o
vulto de Isaura, arrimada ao braço de Miguel, livida e desfigurada como
enferma em agonia, os cabellos em desalinho, e com passos mal seguros
penetrar, como um duende evocado do sepulchro, naquelle salão, onde
não ha muito tempo a vira tão radiante de belleza e mocidade; naquelle
salão, que parecia ainda repetir os ultimos accentos de sua voz suave e
melodiosa.
Mesmo assim ainda era bella a misera captiva. A magreza fazendo
sobresahirem os contornos e angulos faciaes, realçava a pureza ideal e
a severa energia daquelle typo antigo.
Os grandes olhos pretos cobertos de luz baça e melancolica, erão
como cirios funereos sob a arcada sombria de uma capella tumular. Os
cabellos entornados em desordem em volta do collo, fazião ondular por
elle leves sombras de maravilhoso effeito, como festões de hera a se
debruçarem pelo marmore vetusto de estatua empallidecida pelo tempo.
Naquella miseranda situação, Isaura offerecia ao esculptor um formoso
modelo da Niobe antiga.
--Aquella é Isaura!... oh! meo Deos! coitada!--murmurou Malvina
ao vel-a, e foi-lhe mister enxugar duas lagrimas, que a seo pezar
humedecerão-lhe as palpebras. Esteve a ponto de ir implorar clemencia
a seo esposo em favor da pobresinha, mas lembrou-se das perversas
inclinações e máo comportamento, que Leoncio aleivosamente attribuira
a Isaura, e assentou de revestir-se de toda a impassibilidade, que lhe
fosse possivel.
--Então, Isaura,--disse Malvina com brandura,--já tomaste a tua
resolução?... estás decidida a casar com o marido que te queremos dar?
Isaura por unica resposta abaixou a cabeça e fitou os olhos no chão.
--Sim, senhora,--respondeo Miguel por ella;--Isaura está resolvida a se
conformar com a vontade de V^{as}. S^{as}.
--Faz muito bem. Não é possivel, que ella esteja a soffrer por mais
tempo esse cruel tratamento, em que não posso consentir emquanto
estiver nesta casa. Não foi para esse fim, que sua defunta senhora
creou-a com tanto mimo, e deo-lhe tão boa educação.
Isaura, apezar de tua descahida, quero-te bem ainda, e não tolerarei
mais semelhante escandalo. Vamos dar-te ao mesmo tempo a liberdade e um
excellente marido.
--Excellente!... meo Deos! Que escarneo!--reflectio Isaura.
--Belchior é muito bom moço, inoffensivo, pacifico e trabalhador; creio
que has-de dar-te optimamente com elle. Demais para obter a liberdade
nenhum sacrificio é grande, não é assim, Isaura?
--Sem duvida, minha senhora; já que assim o quer, sujeito-me
humildemente ao meo destino. Arrancão-me da marmorra--(continuou Isaura
em seo pensamento)--para levarem-me ao supplicio.
--Muito bem, Isaura; mostras que és uma rapariga docil e de juizo.
André, vae chamar aqui o senhor Belchior. Quero eu mesma ter o gosto de
annunciar-lhe, que vae emfim realizar-se o seo sonho querido de tantos
annos.
Creio que o senhor Miguel tambem não ficará mal satisfeito com
o arranjo que damos a sua filha; sempre é alguma cousa sahir do
captiveiro e casar-se com um homem branco e livre. Antes assim do que
fugir, e andar foragida por esse mundo. Isaura, para prova de quanto
desejo o teo bem, quero ser madrinha neste casamento, que vae pôr termo
a teos soffrimentos, e restabelecer nesta casa a paz e o contentamento,
que ha muito tempo della andavão arredados.
Ditas estas palavras, Malvina abrio um cofre de joias, que estava sobre
uma mesa, e delle tirou um rico collar de ouro, que foi collocar no
pescoço de Isaura.
--Acceita isto Isaura,--disse ella,--é o meo presente de noivado.
--Agradecida, minha boa senhora,--disse Isaura, e acrescentou em seo
coração;--é a corda, que o carrasco vem lançar ao pescoço da victima.
Neste momento vem entrando Belchior acompanhado por André.
--Eis-me aqui, senhora minha,--diz elle,--o que deseja deste seo menor
creado?
--Dar-lhe os parabens, senhor Belchior,--respondeo Malvina.
--Parabens!... mas eu não sei por que!...
--Pois eu lhe digo; fique sabendo que Isaura vae ser livre, e ...
adivinhe o resto.
--E vae-se embora de certo ... oh!... é uma desgraça!
--Já vejo, que não é bom adivinhador. Isaura está resolvida a casar-se
com o senhor.
--Que me diz, patrôa!... perdão, não posso acreditar. Vm.^{ce} está
zombando commigo.
--Digo-lhe a verdade; ahi está ella, que não me deixará mentir.
Aprompte-se, senhor Belchior, e quanto antes, que ámanhã mesmo ha-de-se
fazer o casamento aqui mesmo em casa.
--Oh! senhora minha! divindade da terra!--exclamou Belchior indo-se
atirar aos pés de Malvina e procurando beijal-os,--deixe-me beijar
esses péis....
--Levante-se dahi, senhor Belchior; não é a mim, é a Isaura que deve
agradecer.
Belchior levanta-se e corre a prostrar-se aos pés de Isaura.
--Oh! princeza de meo coração!--exclamou elle atracando-se ás pernas
da pobre escrava, que fraca como estava, quasi foi a terra com a força
daquella furiosa e enthusiastica atracação. Era para fazer rebentar de
riso, a quem não soubesse quanto havia de tragico e doloroso no fundo
daquella impia e ignobil farça.
--Isaura!... não olhas para mim? aqui tens a teos péis este teo menor
captivo Belchior!... olha para elle, para este teo adorador, que hoje
é mais do que um principe ... dá cá essa mãosinha, deixa-me comel-a de
beijos...
--Meo Deos! que farça hedionda obrigão-me a representar!--murmurou
Isaura comsigo, e voltando a face abandonou a mão a Belchior, que
collando a ella a boca no transporte do enthusiasmo, desatou a chorar
como uma creança.
--Olha que palerma!--disse André para Rosa, que observavão de parte
aquella scena tragi-comica.--E venhão cá dizer-me, que não é o mel para
a boca do asno!
--Eu antes queria que me casassem com um jacaré.
--Este meo sinhô moço tem idéas do diabo! quem havia de lembrar-se de
casar uma sereia com um bôto.
--Invejoso!... você é que queria ser o bôto, por isso está ahi a torcer
o nariz. Toma!... bem feito!... agora o que faltava era que o nhonhô te
désse de dote á Isaura.
--Isso queria eu!... aposto que Isaura não vae casar de livre vontade!
e depois ... nós cá nos arranjariamos ... havia de enfiar o bôto pelo
fundo de uma agulha.
--Sahe dahi, tolo!... pensa que Isaura faz caso de você?...
--Não te arrebites, minha Rosa; já agora não ha remedio senão
contentar-me comtigo, que em fim de contas tambem és bem bonitinha, e
... tudo que cahe no jequy, é peixe.
--É baixo!... aguente a sua taboa, e vá consolar-se com quem quizer,
menos commigo.
Capitulo XXI.
--Então, Leoncio,--dizia Malvina a seo esposo no outro dia pela
manhã,--déste as providencias necessarias para arranjar-se esse negocio
hoje mesmo?
--Creio que é a centesima vez que me fazes essa pergunta,
Malvina,--respondeo Leoncio sorrindo-se;--todavia pela centesima
vez te responderei tambem, que as providencias que estão da minha
parte, já forão todas dadas. Hontem mesmo mandei um proprio a Campos,
e não tardarão a chegar por ahi o tabellião para passar escriptura
de liberdade a Isaura com toda a solemnidade, e tambem o padre para
celebrar o casamento. Bem vês que de nada me esqueci. Tratem de
estar todos promptos; e tu, Malvina, manda já preparar a capella
para se effectuar esse casamento, que pareces desejar com mais
ardor,--accrescentou sorrindo,--do que desejaste o teo proprio.
Malvina sahio do salão, deixando Leoncio em companhia de um terceiro
personagem, que tambem ali se achava, por nome Jorge, a quem o leitor
ainda não conhece. Dizendo que era um parasita, ainda não temos dito
tudo.
Este genero contém muitas variedades, e mesmo cada individuo tem sua
côr e feição particular. Era um homem bem apessoado, espirituoso,
serviçal, cheio de cortezia e amabilidade, condições indispensaveis a
um bom parasita. Jorge não vivia da seiva e da sombra de uma só arvore;
saltava de uma a outra, e assim peregrinava por longas distancias, o
que era da sua parte um excellente calculo, pois proporcionava-lhe
uma vida mais variada e recreativa, ao mesmo tempo que tornava sua
companhia menos incommoda e fatigante aos seos numerosos amigos.
Conhecia e entretinha relações de amizade com todos os fazendeiros
das margens do Parahyba desde S. João da Barra até S. Fidelis. A crer
no que dizia, andava sempre cheio de afazeres e dando andamento a mil
negocios importantes, mas estava sempre prompto a prescindir delles a
convite de qualquer desses amigos para passar uns oito ou quinze dias
em sua companhia.
Na solidão em que Leoncio se achou depois de seo rompimento com
Malvina, Jorge foi para elle um excellente recurso quando se achava
na fazenda. Servia-lhe de companheiro não só á mesa, como ao jogo e á
caça; entretinha-o a contar-lhe anecdotas divertidas e escandalosas,
applaudia-lhe os desvarios e extravagancias, e lisonjeava-lhe as
ruins paixões, emquanto Leoncio, que o acreditava realmente um amigo,
fazia delle o seo confidente, e communicava-lhe os seos mais intimos
pensamentos, os seos planos de perversidade, e os mais secretos
negocios de familia.
Para melhor entrarmos no mysterio dos planos atrozes e ignobeis, das
satanicas maquinações de Leoncio, ouçamos a conversação intima, que vão
travar estes dous entes dignos um do outro.
--Até que por fim, Jorge, achei um meio engenhoso e seguro de aplanar
todas as difficuldades. Desta maneira espero que tudo se vae arranjar
ás mil maravilhas.
--Seguramente, e já de antemão te dou os parabens pelos teos triumphos,
e applaudo-te pela feliz combinação de teos planos.
--Mas escuta ainda para melhor poderes comprehendel-os. Com este
casamento ficão satisfeitos os desejos de minha mulher, sem que Isaura
escape de todo ao meo poder. Como o pae della está debaixo de minha
restricta dependencia, eu saberei reter junto de mim esse estupido
jardineiro com quem caso-a, e depois ... tu bem sabes, o tempo e a
perseverança amansão as feras mais bravias. Entretanto a atrevida
escrava receberá o castigo, que merece sua inqualificavel rebeldia.
Era-me absolutamente necessario dar este passo, por que minha mulher
recusa-se obstinadamente a reconciliar-se commigo, emquanto eu
conservar Isaura captiva em meo poder, capricho de mulher, com que bem
pouco me importaria, se não fosse...--isto aqui entre nós, meo amigo;
confio em tua discrição.
--Pode fallar sem susto, que meo coração é como um tumulo para o
segredo da amisade.
--Bem; dizia-te eu, que bem pouco me importaria com os arrufos e
caprichos de minha mulher, se não fosse o completo desarranjo em que
desgraçadamente vão os meos negocios. Em consequencia de uma infinidade
de circunstancias, que é escusado agora explicar-te, a minha fortuna
está ameaçada de levar um baque horrendo, do qual não sei se me será
possivel levantal-a sem auxilio estranho. Ora meo sogro é o unico, que
com o auxilio de seo dinheiro ou de seo credito pode ainda escórar o
edificio de minha fortuna prestes a desabar.
--Em verdade procedes com tino e prudencia consummada. Oh! teo
sogro!... conheço-o muito; é uma fortuna solida, e uma das casas mais
fortes do Rio de Janeiro; teo sogro não te deixará ficar mal. Quer
extremosamente á filha, e não quererá ver arruinado o marido della.
--Disso estou eu certo. Mas isto ainda não é tudo; escuta ainda,
Jorge. O meo rival, esse tal senhor Alvaro, que tanto cobiçou a minha
Isaura para sua amasia, que não teve pejo de seduzil-a, acoutal-a e
protegel-a publica e escandalosamente no Recife, esse grotesco campeão
da liberdade das escravas alheias, que protestou me disputar Isaura a
todo o risco, ficará de uma vez para sempre desenganado de sua estulta
pretensão. Vê pois, Jorge, quantos interesses e vantagens se concilião
no simples facto desse casamento.
--Plano admiravel na verdade, Leoncio!--exclamou Jorge
emphaticamente.--Tens um tino superior, e uma inteligencia subtil e
fertil em recursos!... se te desses á politica, asseguro-te que farias
um papel eminente; serias um estadista consummado. Esse D. Quixote de
nova especie, amparo da liberdade das escravas alheias, quando são
bonitas, não achará senão moinhos de vento a combater. Muito havemos
de nos rir de seo desapontamento, se lhe der na cabeça continuar sua
burlesca aventura.
--Creio que nessa não cahirá elle; mas se por cá apparecesse, muito
tinhamos que debical-o.
--Meo senhor,--disse André entrando na sala,--ahi estão na porta uns
cavalheiros, que pedem licença para apear e entrar.
--Ah! já sei,--disse Leoncio,--são elles, são as pessoas que mandei
chamar; o vigario, o tabellião e mais outros ... bom! já não nos falta
tudo. Vierão mais depressa do que eu esperava. Manda-os apear e entrar,
André.
André sahe, Leoncio toca uma campainha, e apparece Rosa.
--Rosa,--diz-lhe elle,--vae já chamar sinhá Malvina, e Isaura, e o
senhor Miguel e Belchior. Já devem estar promptos; precisa-se aqui já
da presença de todos elles.
--Estou afflicto por ver o fim a esta farça,--disse Leoncio a seo
amigo,--mas quero que ella se represente com certo apparato e
solemnidade, para inculcar que tenho grande prazer em satisfazer o
capricho de Malvina e melhor illudir a sua credulidade; mas,--fique
isto aqui entre nós,--este casamento não passa de uma burla. Tenho
toda a certeza, de que Isaura despreza do fundo d’alma esse miseravel
idiota, que só em nome será seo marido. Entretanto ficarei me
aguardando para melhores tempos, e espero que o meo plano surtirá o
desejado effeito.
--Cá por mim não tenho a menor duvida a respeito do resultado de um
plano tão maravilhosamente combinado.
Mal Jorge acabava de pronunciar estas palavras, appareceo á porta do
salão um bello e joven cavalheiro, em elegantes trajos de viagem,
acompanhado de mais tres ou quatro pessoas. Leoncio, que já ia
pressuroso recebel-os e comprimental-os, estacou de repente.
--Oh!... não são quem eu esperava!... murmurou comsigo.--Se me não
engano... é Alvaro!....
--Senhor Leoncio!--disse o cavalheiro comprimentando-o.
--Senhor Alvaro,--respondeo Leoncio,--pois creio que é a esse senhor,
que tenho a honra de receber em minha casa.
--É elle mesmo, senhor; um seo criado.
--Ah! muito estimo ... não o esperava ... queira sentar-se ... quiz
então vir dar um passeio cá pelas nossas provincias do sul?...
Estas e outras phrases banaes dizia Leoncio, procurando refazer-se da
perturbação em que o lançára a subita e inesperada apparição de Alvaro
naquelle momento critico e solemne.
No mesmo momento entravão no salão por uma porta interior Malvina,
Isaura, Miguel e Belchior. Vinhão já preparados com os competentes
trajos para a ceremonia do casamento.
--Meo Deos!... o que estou vendo!...--murmurou Isaura, sacudindo
vivamente o braço de Miguel;--estarei enganada?... não;... é elle.
--É elle mesmo. Deos!... como é possivel.
--Oh!--exclamou Isaura; e nesta simples interjeição, que exhalou como
um suspiro, expressava o desafogo de um pégo de angustias, que lhe
pesava sobre o coração. Quem de perto a olhasse com attenção veria um
leve rubor naquelle rosto, que a dor e os soffrimentos parecião ter
condenado a uma eterna e marmorea palidez; era a aurora da esperança,
cujo primeiro e timido arrebol assomava nas faces daquella, cuja
existencia naquelle momento ia sepultar-se nas sombras de um lugubre
occaso.
--Não esperava pela honra de recebel-o hoje nesta sua casa,--continuou
Leoncio recobrando gradualmente o seo sangue frio e seo ar
arrogante.--Entretanto ha-de permittir que me felicite a mim e ao
senhor por tão opportuna visita. A chegada de Vª. Sª. hoje nesta casa
parece um acontecimento auspicioso, e até providencial.
--Sim!?... muito folgo com isso ... mas não terá Vª. Sª. a bondade de
dizer por que?...
--Com muito gosto. Saiba que aquella sua protegida, aquella escrava,
por quem fez tantos extremos em Pernambuco, vae ser hoje mesmo
libertada e casada com um homem de bem. Chegou Vª. Sª. mesmo a ponto de
presenciar com os seos proprios olhos a realização dos philantropicos
desejos, que tinha a respeito da dita escrava, e eu da minha parte
muito folgarei, se Vª. Sª. quizer assistir a esse acto, que ainda mais
solemne se tornará com a sua presença.
--E quem a liberta?--perguntou Alvaro sorrindo-se sardonicamente.
--Quem mais senão eu, que sou seo legitimo senhor,--respondeo Leoncio
com altiva seguridade.
--Pois declaro-lhe, que o não pode fazer, senhor;--disse Alvaro com
firmeza.--Essa escrava não lhe pertence mais.
--Não me pertence!...--bradou Leoncio levantando-se de um salto,--o
senhor delira ou está escarnecendo?...
--Nem uma, nem outra cousa,--respondeo Alvaro com toda a
calma;--repito-lhe; essa escrava não lhe pertence mais.
--E quem se atreve a esbulhar-me do direito que tenho sobre ella?
--Os seos credores, senhor,--replicou Alvaro, sempre com a mesma
firmeza e sangue frio.--Esta fazenda com todos os escravos; esta
casa com seos ricos moveis, e sua baixella, nada disto lhe pertence
mais; de hoje em diante o senhor não pode dispor aqui nem do mais
insignificante objecto. Veja,--continuou mostrando-lhe um maço de
papeis,--aqui tenho em minhas mãos toda a sua fortuna. O seo passivo
excede extraordinariamente a todos os seos haveres; sua ruina é
completa e irremediavel, e a execução de todos os seos bens vae lhe ser
immediatamente intimada.
A um aceno de Alvaro, o escrivão que o acompanhava, apresentou a
Leoncio o mandado de sequestro e execução de seos bens. Leoncio
arrebatando o papel com mão trémula, passeou rapidamente por elle os
olhos faiscantes de cólera.
--Pois que!--exclamou elle,--é assim violenta e atropelladamente, que
se fazem estas cousas! por ventura não posso obter alguma moratoria, e
salvar minha honra e meos bens por outro qualquer meio?...
--Seos credores já usárão para com o senhor de todas as
condescendencias e contemporisações possiveis. Saiba ainda demais,
que hoje sou eu o principal, se não o unico credor seo; pertencem-me,
e estão em minhas mãos quasi todos os seos titulos de divida, e eu
não estou de animo a admittir transacções nem protelações de natureza
alguma. Dar seos bens a inventario eis o que lhe cumpre fazer; toda e
qualquer evasiva que tentar será inutil.
--Maldição!--bradou Leoncio, batendo com o pé no chão e arrancando os
cabellos.
--Meo Deos!... meo Deos!... que desgraça!... e que ... vergonha!...
exclamou Malvina soluçando.
Capitulo XXII.
Deixemos por um momento suspensa a scena do capitulo antecedente, e
interrompido o dialogo entre os dous mancebos. Elles ahi ficão em
face um do outro, como o leão altivo e magnanimo tendo subjugado o
tigre daninho e traiçoeiro, que rosna em vão debaixo das possantes
garras de seo antagonista. É-nos preciso explicar, por que serie de
circumstancias Alvaro veio apparecer em casa do senhor de Isaura, a
ponto de vir burlar os seos planos atrozes, mesmo no momento em que ião
ter final execução.
Depois que Isaura lhe fôra arrebatada, Alvaro cahio na mais acerba
prostração de animo.
Ferido em seo orgulho, esbulhado do objecto de seo amor, escarnecido e
vilipendiado pela arrogancia de um insolente escravocrata, entregou-se
ao mais sombrio desespero. Mal soube o seo revez, o D^{r}. Geraldo
correo em soccorro daquella nobre alma tão cruelmente golpeada pelo
destino. Graças aos cuidados e conselhos daquelle tão sollicito quão
intelligente amigo, a dor de Alvaro foi-se tornando mais calma e
resignada. Por suas exhortações Alvaro chegou mesmo a convencer-se, que
o melhor partido que lhe ficava a tomar nas difficeis conjuncturas em
que se achava, era procurar esquecer-se de Isaura.
--Todo o esforço que fizeres,--dizia-lhe o amigo,--em favor da
liberdade de Isaura, será rematada loucura, que não terá outro
resultado senão envolver-te em novas difficuldades, cobrindo-te de
ridiculo e de humilhação. Já passaste por duas decepções bem crueis,
a do baile, e esta ultima ainda mais triste e humilhante. Quasi te
fizeste reo de policia, querendo disputar uma escrava a seo legitimo
senhor. Pois bem; as seguintes serão ainda piores, eu te asseguro, e te
farão ir rolando de abysmo em abysmo até á tua completa perdição.
Attendendo a estas e mil outras considerações de Geraldo, Alvaro
procurou firmar o espirito e a vontade no proposito de renunciar ao seo
amor, e a todas as suas pretensões philantropicas sobre Isaura. Foi
debalde. Depois de um mez de lucta comsigo mesmo, de sempre frustradas
velleidades de revolta contra os impulsos do coração, Alvaro sentio-se
fraco, e comprehendeo que semelhante tentativa era uma lucta insensata
contra a força omnipotente do destino. Embalde procurou, já nas graves
occupações do espirito, já nas distracções frivolas da sociedade,
um meio de apagar da lembrança a imagem da gentil captiva. Ella lhe
estava sempre presente em todos os sonhos d’alma, ora resplendente de
belleza e graça, donosa e seductora como na noite do baile, ora palida
e abatida, vergada ao peso de seo infortunio, com os pulsos algemados,
cravando nelle os olhos supplicantes como que a dizer-lhe:
--Vem, não me abandones; só tu podes quebrar estes ferros, que me
opprimem.
O espirito de Alvaro firmou-se por fim na intima e inabalavel
convicção de que o céo, pondo em contacto o seo destino com o daquella
encantadora e infeliz escrava, tivera um designio providencial, e o
escolhera para instrumento da nobre e generosa missão de arrebatal-a á
escravidão, e dar-lhe na sociedade o elevado lugar que por sua belleza,
virtudes e talentos, lhe competia.
Resolveo-se portanto, fosse qual fosse o resultado, a proseguir
nessa generosa tentativa, com a cegueira do fanatismo, senão com o
arrastamento de uma inspiração providencial.
Alvaro partio para o Rio de Janeiro. Já ao acaso, sem plano nenhum
formado, sem bem saber o que devia fazer para chegar aos seos fins;
mas tinha como uma intuição vaga de que o céo lhe depararia occasião
e meios de levar a cabo a sua empreza. O que queria em primeiro lugar
era collocar-se nas visinhanças de Leoncio, a fim de poder colher
informações e investigar se por ventura algum recurso haveria, para
obrigar o senhor de Isaura a manumittil-a.
Desembarcou na côrte com o fim de dirigir-se brevemente para Campos.
Antes porém de partir para seo destino, procurou colher entre as
pessoas do commercio algumas informações a respeito de Leoncio.
--Oh! conheço muito esse sujeito,--disse logo o primeiro negociante, a
quem Alvaro se dirigio.--Esse moço está fallido, e em completa ruina.
Se Vª. Sª. tambem é credor delle, pode pôr as suas barbas de molho, por
que as dos visinhos estão a arder. Essa casa bem liquida, mal dará para
um rateio, em que toque cincoenta por cento a cada credor.
Esta revelação foi para Alvaro como um relampago que se abre aos olhos
do viandante extraviado em noite tormentosa, mostrando-lhe de repente e
bem ao perto o albergue hospitaleiro que demanda.
--E Vª. Sª. por ventura é tambem credor desse fazendeiro?--perguntou
Alvaro.
--Infelizmente, e um dos principaes...
--E a quanto montará a fortuna do tal Leoncio?
--A menos de nada presentemente, pois como já lhe disse, o seo passivo
excede talvez em mais do dobro a todos os seus bens.
--Mas esse passivo mesmo, em que somma é calculado pouco mais ou menos?
--Calcula-se approximadamente em quatrocentos e tantos a quinhentos
contos, em quanto que a fazenda de Campos, com escravos e todos os
mais accessorios, não excederá talvez a duzentos. Já temos tido com
esse fazendeiro todas as attenções possiveis, e lhe temos dado mais
moratorias do que a lei concede; não somos obrigados a mais, e agora
estamos resolvidos a cahir-lhe em cima com a execução.
--E quaes são os outros credores? Vª. Sª. quererá indicar-m’os.
--E por que não?--respondeo o negociante, e passou a indicar a Alvaro
os nomes e moradas dos demais credores.
De feito a casa de Leoncio já desde os ultimos annos da vida de seo
pae, ia em continuo regresso e desmantelamento. O velho commendador,
entregando-se no ultimo quartel da vida a excessos e devassidões, que
nem na mocidade são desculpaveis, vivendo quasi sempre na côrte, e
deixando quasi em completo abandono a administração da fazenda, havia
já esbanjado não pequena porção de sua fortuna. Por effeito da má
administração não só as safras começárão a escassear consideravelmente,
como tambem o numero de escravos foi-se reduzindo, pela morte e pelas
frequentes fugas, sem que tanto o commendador como seo filho deixassem
de substituil-os por outros novos, que ião comprando a prazo, tornando
cada vez mais pesado o onus das dividas.
Depois da morte do commendador, as cousas forão de mal a peor. Leoncio,
com a educação e a indole que lhe conhecemos, era o homem menos proprio
possivel para dirigir e explorar um grande estabelecimento agricola.
Seos desvarios e extravagancias, e por ultimo sua nefasta e insensata
paixão por Isaura, fizerão-no perder de todo a cabeça, arrojando-o
em um plano inclinado de despezas ruinosas, sem calculo nem previsão
alguma. Com os enormes dispendios que teve de fazer em consequencia da
fuga de Isaura, mandando procural-a por todos os cantos do imperio,
acabou de cavar o abysmo de sua ruina. Em pouco tempo o joven
fazendeiro estava de todo insolvavel, sem um real em caixa, e com uma
multidão de letras protestadas na carteira de seos credores. Quando
estes acordárão, e se lembrárão de lhe abrir fallencia e executar os
seos bens, comprehendêrão que mal poderião embolsar-se da metade do que
lhes era devido, e portanto tratárão com soffreguidão de promover os
meios executivos, antes que o mal fosse a mais.
Depois de conferenciar com os credores de Leoncio, propoz-lhes a
compra de todos os seos creditos pela metade do seo valor. Para evitar
qualquer odiosidade, que semelhante procedimento pudesse acarretar
sobre sua pessoa, declarou-lhes que nenhuma intenção tinha de vexar
nem opprimir o infeliz fazendeiro, que pelo contrario era seo intuito
protegel-o e livral-o do vexame de uma rigorosa execução judicial, e
deixal-o ao abrigo da miseria. E realmente, a despeito da aversão e
desprezo que Leoncio lhe merecia, Alvaro não pretendia levar ao ultimo
extremo os meios de vingança, que por um acaso as circumstancias
tinhão posto em suas mãos. Era elle dez vezes mais rico do que o seo
adversario, e de muito bom grado, se não houvesse outro recurso, por um
contracto amigavel daria uma somma igual a toda a fortuna deste, pela
liberdade de Isaura.
Agora, que o destino vinha pôr em suas mãos toda a fortuna desse
adversario caprichoso, arrogante e desalmado, Alvaro, sempre generoso,
nem por isso desejava vel-o reduzido á miseria.
Os credores não hesitárão um momento em acceitar a proposta. Com razão
preferirão saldar suas contas por um modo facil e expedito, em dinheiro
de contado, recebendo a metade, do que sujeitando-se ás despezas,
delongas e difficuldades de uma execução em escravos e bens de raiz,
quando nenhuma probabilidade havia, de que no rateio pudessem obter
mais de metade.
Senhor de todos os titulos de divida de Leoncio, isto é, de toda a sua
fortuna, Alvaro partio para Campos a fim de promover por sua conta a
execução dos bens do mesmo, e munido de todos os papeis e documentos,
acompanhado de um escrivão e dous officiaes de justiça, apresentou-se
em pessoa em casa de Leoncio para intimar-lhe em pessoa a sentença de
sua perdição.
--Oh! maldição!--exclamára Leoncio, arrancando os cabellos em
desespero, depois que ouvira dos labios de Alvaro aquelle arrésto
esmagador. Atordoado e quasi louco com a violencia do golpe, ia sahir
correndo pela porta a fora.
--Espere ainda, senhor,--disse Alvaro detendo-o pelo braço.--Agora
quanto á escrava de que ha pouco se fallava, o que pretendia fazer
della?
--Libertal-a, já lhe disse,--respondeo Leoncio com rudeza.
--E mais alguma cousa; creio que tambem me disse que ia casal-a: e,
desculpe-me a pergunta, haveria para isso consentimento da parte della?
--Oh! não! não!... eu era arrastada, senhor!--exclamou Isaura
resolutamente.
--É verdade, senhor Alvaro, atalhou Miguel, ella ia casar-se por assim
dizer forçada. O senhor Leoncio, como condição da liberdade della
obrigava-a a casar-se com aquelle pobre homem que Vª. Sª. ali vê.
--Com aquelle homem?!--exclamou Alvaro cheio de pasmo e indignação,
olhando para o homunculo que Miguel lhe indicava com o dedo.
--Sim, senhor,--continuou Miguel,--e se ella não se sujeitasse a esse
casamento, teria de passar o resto da vida presa em um quarto escuro,
incommunicavel, com o pé enfiado em uma grossa corrente, como tem
vivido desde que veio do Recife até o dia de hoje...
--Verdugo!--bradou Alvaro, não podendo mais sopear sua indignação.--A
mão da justiça divina pesa enfim sobre ti para punir tuas monstruosas
atrocidades!
--Ó que vergonha!... que opprobrio, meo Deos!--exclamou Malvina,
debruçando-se a uma mesa, e escondendo o rosto entre as mãos.
--Pobre Isaura!--disse Leoncio com voz commovida, estendendo os braços
á captiva.--Chega-te a mim... Eu protestei no fundo de minha alma e
por minha honra desaffrontar-te do jugo opressor e aviltante, que te
esmagava, por que via em ti a pureza de um anjo, e a nobre e altiva
resignação da martyr. Foi uma missão santa, que julgo ter recebido do
céo, e que hoje vejo coroada do mais feliz e completo resultado. Deos
em fim, por minhas mãos vinga a innocencia e a virtude opprimida, e
esmaga o algôz.
--Deixe-se de blasonar, senhor!--gritou Leoncio agitando-se em
gesticulações de furor;--isto não passa de uma infamia, uma traição, e
ladroeira....
--Isaura!--continuou Alvaro com voz sempre firme e grave;--se esse
algôz ainda ha pouco tinha em suas mãos a tua liberdade e a tua vida,
e não t’as cedia senão com a condição de desposares um ente disforme e
desprezivel, agora tens nas tuas a sua propriedade; sim, que as tenho
nas minhas, e as passo para as tuas. Isaura, tu és hoje a senhora, e
elle o escravo; se não quizer mendigar o pão, ha-de recorrer á nossa
generosidade.
--Senhor!--exclamou Isaura correndo a lançar-se aos pés de Alvaro;--oh!
quanto sois bom e generoso para com esta infeliz escrava!... mas em
nome dessa mesma generosidade, de joelhos eu vos peço, perdão! perdão
para elles...
--Levanta-te, mulher generosa e sublime!--disse Alvaro estendo-lhe as
mãos para levantar-se.--Levanta-te, Isaura; não é a meos pés, mas sim
em meos braços, aqui bem perto do meo coração, que te deves lançar,
pois a despeito de todos os preconceitos do mundo, eu me julgo o mais
feliz dos mortaes em poder offerecer-te a mão de esposo!...
--Senhor,--bradou Leoncio com os labios espumantes e os olhos
desvairados,--ahi tendes tudo quanto possuo; pode saciar sua vingança,
mas eu lhe juro, nunca ha-de ter o prazer de ver-me implorar a sua
generosidade.
E dizendo isto entrou arrebatadamente em uma alcova contigua á sala.
--Leoncio! Leoncio!... onde vaes! exclamou Malvina precipitando-se
para elle; mal porém havia ella chegado á porta, ouvio-se a explosão
atroadora de um tiro.
--Ai!...--gritou Malvina, e cahio redondamente em terra.
Leoncio tinha-se rebentado o craneo com um tiro de pistola.