CAPITULO I.

Era nos primeiros annos do reinado do S^{r} D. Pedro 2º.

No fertil e opulento municipio de Campos de Goitacases, á margem do

Parahyba, a pouca distancia da villa de Campos, havia uma linda e

magnifica fazenda.

Era um edificio de harmoniosas proporções, vasto e luxuoso, situado

em aprazivel vargedo ao sopé de elevadas collinas cobertas de mata em

parte devastada pelo machado do lavrador. Longe em derredor a natureza

ostentava-se ainda em toda a sua primitiva e selvatica rudeza; mas por

perto, em torno da deliciosa vivenda, a mão do homem tinha convertido

a bronca selva, que cobria o solo, em jardins e pomares deleitosos,

em viçosos gramáes e pingues pastagens, sombreados aqui e acolá por

gameleiras gigantescas, peróbas, cedros e copahybas, que attestavão

o vigor da antiga floresta. Quasi não se via ahi muro, cerca, nem

vallado; jardim, horta, pomar, pastagens, e plantios circumvisinhos

erão divididos por viçosas e verdejantes sebes de bambús, piteiras,

espinheiros e gravatás, que davão ao todo o aspecto do mais aprazivel e

delicioso vergél.

A casa apresentava a frente ás collinas. Entrava-se nella por um lindo

alpendre todo enredado de flores trepadeiras, ao qual subia-se por uma

escada de cantaria de seis a sete degráos. Os fundos erão occupados por

outros edificios accessorios, senzalas, pateos, curraes e celeiros, por

trás dos quaes se estendia o jardim, a horta, e um immenso pomar, que

ia perder-se na barranca do grande rio.

Era por uma linda e calmosa tarde de outubro. O sol não era ainda

posto, e parecia boiar no horizonte suspenso sobre rolos de espuma

de cores cambiantes orlados de fevras de ouro. A viração saturada

de balsamicos effluvios se espreguiçava ao longo das ribanceiras

accordando apenas frouxos rumores pela copa dos arvoredos, e fazendo

farfalhar de leve o tope dos coqueiros, que miravão-se garbosos nas

lucidas e tranquillas agoas da ribeira.

Corria um bello tempo; a vegetação reanimada por moderadas chuvas

ostentava-se fresca, viçosa e luxuriante; a agoa do rio ainda não

turvada pelas grandes inchentes, rolando com magestosa lentidão,

reflectia em toda a pureza os esplendidos coloridos do horizonte, e o

nitido verdor das selvosas ribanceiras. As aves, dando repouso ás azas

fatigadas do continuo voejar pelos pomares, prados e balsedos visinhos,

começavão a preludiar seos cantos vespertinos.

O clarão do sol poente por tal sorte abraseava as vidraças do edificio,

que este parecia estar sendo devorado pelas chammas de um incendio

interior. Entretanto quer no interior quer em derredor reinava fundo

silencio, e perfeita tranquillidade. Bois truculentos, e nedias

novilhas deitadas pelo gramal, ruminavão tranquillamente á sombra de

altos troncos. As aves domesticas grasinavão em torno da casa, balavão

as ovelhas, e mugião algumas vacas, que vinhão por si mesmas procurando

os curraes; mas não se ouvia, nem se divisava voz nem figura humana.

Parecia que ali não se achava morador algum. Sómente as vidraças

arregaçadas de um grande salão da frente e os batentes da porta da

entrada abertos de par em par denunciavão, que nem todos os habitantes

daquella sumptuosa propriedade se achavão ausentes.

A favor desse quasi silencio harmonioso da natureza ouvia-se

distinctamente o harpejo de um piano casando-se a uma voz de mulher,

voz melodiosa, suave, apaixonada, e do timbre o mais puro e fresco que

se pode imaginar.

Posto que um tanto abafado, o canto tinha uma vibração sonora, ampla e

volumosa, que revelava excellente e vigorosa organisação vocal. O tom

velado e melancolico da cantiga, parecia gemido suffocado de uma alma

solitaria e soffredora.

Era essa a unica voz, que quebrava o silencio da vasta e tranquilla

vivenda. Por fora tudo parecia escutal-a em mistico e profundo

recolhimento.

As coplas, que cantava, dizião assim?

Desd’o berço respirando

Os ares da escravidão,

Como semente lançada

Em terra de maldição,

A vida passo chorando

Minha triste condição.

Os meos braços estão presos,

A ninguem posso abraçar,

Nem meos labios, nem meos olhos

Não podem de amor fallar;

Deo-me Deus um coração

Sómente para penar.

Ao ar livre das campinas

Seo perfume exhala a flor;

Canta a aura em liberdade

Do bosque o alado cantor;

Só para a pobre captiva

Não ha canções, nem amor.

Cala-te, pobre captiva;

Teos queixumes crimes são;

É uma affronta esse canto,

Que exprime tua afflicção.

A vida não te pertence,

Não é teo teo coração.

As notas sentidas e maviosas daquelle cantar escapando pelas janellas

abertas e echoando ao longe em derredor, dão vontade de conhecer a

sereia, que tão lindamente canta. Se não é sereia, sómente um anjo pode

cantar assim.

Subamos os degráos, que conduzem ao alpendre, todo engrinaldado de

viçosos festões e lindas flores, que serve de vestibulo ao edificio.

Entremos sem cerimonia. Logo á direita do corredor encontramos

aberta uma larga porta, que dá entrada á sala de recepção, vasta

e luxuosamente mobiliada. Acha-se ali sósinha e sentada ao piano

uma bella e nobre figura de moça. As linhas do perfil desenhão-se

distinctamente entre o ébano da caixa do piano, e as bastas madeixas

ainda mais negras do que elle. São tão puras e suaves essas linhas,

que fascinão os olhos, enlevão a mente, e paralisão toda analyse. A

tez é como o marfim do teclado, alva que não deslumbra, embaçada por

uma nuança delicada, que não saberieis dizer se é leve palidez ou côr

de rosa desmaiada. O collo donoso e do mais puro lavor sustenta com

graça ineffavel o busto maravilhoso. Os cabellos soltos e fortemente

ondulados se despenhão caracolando pelos hombros em espessos e luzidios

rolos, e como franjas negras escondião quasi completamente o dorso da

cadeira, a que se achava recostada. Na fronte calma e lisa como marmore

polido, a luz do occaso esbatia um roseo e suave reflexo; dil-a-hieis

mysteriosa lampada de alabastro guardando no seio diaphano o fogo

celeste da inspiração. Tinha a face voltada para as janellas, e o olhar

vago pairava-lhe pelo espaço.

Os encantos da gentil cantora erão ainda realçados pela singeleza, e

diremos quasi pobreza do modesto trajar. Um vestido de chita ordinaria

azul-clara desenhava-lhe perfeitamente com encantadora simplicidade

o porte esbelto e a cintura delicada, e desdobrando-se-lhe em roda

em amplas ondulações parecia uma nuvem, do seio da qual se erguia a

cantora como Venus nascendo da espuma do mar, ou como um anjo surgindo

d’entre brumas vaporosas. Uma pequena cruz de azeviche presa ao pescoço

por uma fita preta constituia o seu unico ornamento.

Apenas terminado o canto, a moça ficou um momento a cismar com os dedos

sobre o teclado como escutando os derradeiros echos da sua canção.

Entretanto abre-se subtilmente a cortina de cassa de uma das portas

interiores, e uma nova personagem penetra no salão. Era tambem uma

formosa dama ainda no viço da mocidade, bonita, bem feita e elegante.

A riqueza e o primoroso esmero do trajar, o porte altivo e senhoril,

certo balanceio affectado e languoroso dos movimentos davão-lhe esse

ar pretencioso, que acompanha toda a moça bonita e rica, ainda mesmo

quando está sozinha. Mas com todo esse luxo e donaire de grande senhora

nem por isso sua grande belleza deixava de ficar algum tanto eclypsada

em presença das formas puras e correctas, da nobre singeleza, e dos tão

naturaes e modestos ademanes da cantora. Todavia Malvina era linda,

encantadora mesmo, e posto que vaidosa de sua formosura e alta posição,

transluzia-lhe nos grandes e meigos olhos azues toda a nativa bondade

de seo coração.

Malvina approximou-se de manso e sem ser presentida para junto da

cantora, collocando-se por detrás della esperou que terminasse a ultima

copla.

--Isaura!... disse ella pousando de leve a delicada mãosinha sobre o

hombro da cantora.

--Ah! é a senhora?!--respondeo Isaura voltando-se sobressaltada.--Não

sabia, que estava ahi me escutando.

--Pois que tem isso?... continúa a cantar;... tens a voz tão bonita!...

mas eu antes quizéra que cantasses outra cousa; por que é, que você

gosta tanto dessa cantiga tão triste, que você aprendeo não sei onde?...

--Gosto della, porque acho-a bonita, e porque ... ah! não devo fallar...

--Falla, Isaura. Já não te disse, que nada me deves esconder, e nada

recear de mim?...

--Porque me faz lembrar de minha mãe, que eu não conheci, coitada!...

Mas se a senhora não gosta dessa cantiga, não a cantarei mais.

--Não gosto que a cantes, não, Isaura. Hão de pensar que és maltratada,

que és uma escrava infeliz, victima de senhores barbaros e crueis.

Entretanto passas aqui uma vida, que faria inveja a muita gente livre.

Gozas da estima de teos senhores. Derão-te uma educação, como não

tiverão muitas ricas e illustres damas, que eu conheço. És formosa, e

tens uma côr tão linda, que ninguem dirá que gyra em tuas veias uma só

gota de sangue africano. Bem sabes, quanto minha boa sogra antes de

expirar te recommendava a mim e a meo marido. Hei-de respeitar sempre

as recommendações daquella santa mulher, e tu bem vês, sou mais tua

amiga, do que tua senhora. Oh! não; não cabe em tua boca essa cantiga

lastimosa, que tanto gostas de cantar.--Não quero,--continuou em tom de

branda reprehensão,--não quero que a cantes mais, ouviste, Isaura? ...

senão, fecho-te o meo piano.

--Mas, senhora, apezar de tudo isso que sou eu mais do que uma simples

escrava? Essa educação, que me derão, e essa belleza, que tanto me

gabão, de que me servem? ... são trastes de luxo collocados na senzala

do africano. A senzala nem por isso deixa de ser o que é; uma senzala.

--Queixas-te da tua sorte, Isaura?...

--Eu, não senhora; não tenho motivo;... o que quero dizer com isto é

que apezar de todos esses dotes e vantagens, que me attribuem, sei

conhecer o meo lugar.

--Anda lá; já sei o que te amofina; a tua cantiga bem o diz. Bonita

como és, não podes deixar de ter algum namorado.

--Eu, senhora!... por quem é, não pense nisso.

--Tu mesma; pois que tem isso?... não te vexes; pois é alguma cousa

do outro mundo? Vamos já, confessa; tens um amante, e é por isso,

que lamentas não teres nascido livre para poder amar aquelle que te

agradou, e a quem cahiste em graça, não é assim?...

--Perdôe-me, sinhá Malvina;--replicou a escrava com um candido

sorriso.--Está muito enganada; estou tão longe de pensar nisso!

--Qual longe!... não me enganas, minha rapariguinha!... tu amas, e és

mui linda e bem prendada para te inclinares a um escravo; só se fosse

um escravo, como tu és, o que duvido que haja no mundo. Uma menina como

tu, bem pode conquistar o amor de algum guapo mocetão, e eis ahi a

causa da choradeira de tua canção. Mas não te afflijas, minha Isaura;

eu te protesto, que ámanhã mesmo terás a tua liberdade; deixa Leoncio

chegar; é uma vergonha, que uma rapariga como tu se veja ainda na

condição de escrava.

--Deixe-se disso, senhora; eu não penso em amores e muito menos em

liberdade; ás vezes fico triste á toa, sem motivo nenhum...

--Não importa. Sou eu, quem quero que sejas livre, e has-de sel-o.

Neste ponto a conversação foi cortada por um tropel de cavalleiros, que

chegavão e apeavão-se á porta da fazenda.

Malvina e Isaura correrão á janella a ver quem erão.

Capitulo II.

Os cavalleiros, que acabavão de apear-se, erão dous bellos e elegantes

mancebos, que chegavão da villa de Campos. Do modo familiar, por que

forão entrando, logo se deprehendia que era gente de casa.

De feito um era Leoncio, marido de Malvina; e outro Henrique, irmão da

mesma.

Antes de irmos adiante forçoso nos é travar conhecimento mais intimo

com os dous jovens cavalheiros.

Leoncio era filho unico do rico e magnifico commendador Almeida,

proprietario da bella e sumptuosa fazenda, em que nos achamos. O

commendador já bastante idoso e cheio de enfermidades depois do

casamento de seo filho, que tivera lugar um anno antes da época, em que

começa esta historia, havia-lhe abandonado a administração e uso-fructo

da fazenda, e vivia na côrte, onde procurava allivio ou distracção aos

achaques, que o atormentavão.

Leoncio achára desde a infancia nas larguezas e facilidades de seos

paes amplos meios de corromper o coração e extraviar a intelligencia.

Máo alumno e creança incorrigivel, turbulento e insubordinado, andou

de collegio em collegio, e passou como gato por brasas por cima de

todos os preparatorios, cujos exames todavia sempre salvára á sombra

do patronato. Os mestres não se atrevião a dar ao nobre e munifico

commendador o desgosto de ver seo filho reprovado. Matriculado na

escola de medicina logo no primeiro anno enjoou-se daquella disciplina,

e como seos paes não sabião contrarial-o, foi-se para Olinda afim de

frequentar o curso juridico. Ali depois de ter dissipado não pequena

porção da fortuna paterna na satisfação de todos os seos vicios e

loucas fantasias, tomou tedio tambem aos estudos juridicos, e ficou

entendendo, que só na Europa poderia desenvolver dignamente a sua

intelligencia, e saciar a sua sêde de saber, em puros e abundantes

mananciaes. Assim escreveo ao pae, que deo-lhe credito e o enviou a

Paris, donde esperava vel-o voltar feito um novo Humboldt. Installado

naquelle vasto pandemonium do luxo e dos prazeres, Leoncio raras

vezes, e só por desfastio, ia ouvir as eloquentes prelecções dos

eximios professores da época, e nem tão pouco era visto nos museos,

institutos e bibliothecas. Em compensação era assiduo frequentador do

Jardim Mabile, assim como de todos os cafés e theatros mais em voga,

e tornára-se um dos mais afamados e elegantes leões dos boulevards.

No fim de alguns annos, ora de residencia em Paris, ora de gyros

recreativos pelas agoas e pelas principaes capitaes da Europa, tinha

elle tão copiosa e desapiedadamente sangrado a bolsa paterna, que o

commendador, a despeito de toda a sua condescendencia e ternura para

com seo unico e querido filho, vio-se na necessidade de revocal-o á

sombra dos patrios lares a fim de evitar uma completa ruina. Mas mesmo

assim para não magoal-o colhendo-lhe subita e rudemente as redeas na

carreira dos desvarios e dissipações, assentou de attrahil-o suavemente

acenando-lhe com a perspectiva de um rico e vantajosissimo casamento.

Leoncio pegou na isca e voltou á pátria um perfeito dandy, gentil e

elegante como ninguem, trazendo de suas viagens em vez de conhecimentos

e experiencia, enorme dose de fatuidade e petulancia, e um tão perfeito

traquejo da alta sociedade, que o tomarieis por um principe. Mas o peor

era, que se trazia o cerebro vazio, voltava com a alma corrompida e o

coração estragado por habitos de devassidão e libertinagem. Alguns bons

e generosos instinctos, de que o dotára a natureza, havião-se apagado

em seo coração ao roçar de pessimas doutrinas confirmadas por exemplos

ainda peores.

De volta da Europa, Leoncio contava vinte e cinco annos. O pae

advertio-lhe com palavras insinuantes e geitosas, que já era tempo

de empregar-se em alguma cousa, de abraçar alguma carreira; que já

se tinha aproveitado da bolsa paterna mais do que era preciso para

sua educação, e que era mister ir aprendendo senão a augmentar, ao

menos a conservar uma fortuna, á testa da qual teria de achar-se mais

tarde ou mais cedo. Depois de muita hesitação, Leoncio optou emfim

pela carreira do commercio, que lhe pareceo ser a mais independente e

segura de todas; mas as suas idéas largas e audaciosas a este respeito

aterrárão o bom do commendador. O commercio de importação e exportação

de generos, mesmo em larga escala, o proprio trafego de africanos, lhe

parecião especulações degradantes e improprias de sua alta posição e

esmerada educação. O negocio de balcão e a retalho, esse inspirava-lhe

asco e compaixão. Só lhe convinhão as altas especulações cambiaes,

as operações bancarias, e transacções, em que jogasse com avultados

capitaes. Só assim poderia duplicar, triplicar em pouco tempo a fortuna

paterna. Com o que tinha observado na Bolsa de Paris e em outras

praças europeas, presumia-se com habilitação bastante para dirigir

as operações do mais importante estabelecimento bancario, ou as mais

grandiosas emprezas industriaes.

O pae porém não se animou a confiar sua fortuna aos azares

especulativos daquelle financeiro em botão, e que até ali só tinha dado

provas de grande talento para consumir, em pouco tempo e em pura perda,

sommas consideraveis. Resolveo portanto a não tocar-lhe mais naquelle

assumpto, esperando que o mancebo creasse mais algum juizo.

Vendo que seo pae esquecia-se completamente dos planos de crear-lhe

um peculio proprio, Leoncio olhou para o casamento como o meio suave

e natural de adquirir fortuna, como a unica carreira, que se lhe

offerecia para ter dinheiro a esbanjar a seo bel-prazer.

Malvina, a formosa filha de um riquissimo negociante da côrte, amigo

do commendador, já estava destinada a Leoncio por commum accordo e

acquiescencia dos paes de ambos. A familia do commendador foi á côrte;

os moços virão-se amárão-se e casárão; foi cousa de poucos dias. Pouco

tempo depois de seo casamento Leoncio passou pelo desgosto de perder

sua mãe por um golpe inesperado. Esta boa e respeitavel senhora não

tinha sido muito feliz nas relações da vida intima com seo marido,

que como homem de coração arido e frio, desconhecia as santas e puras

delicias da affeição conjugal, e com suas libertinagens e devassidões

dilacerava quotidianamente o coração de sua esposa. Para cumulo de

males tinha ella perdido ainda na infancia todos os seos filhos,

ficando-lhe só Leoncio. Lastimava-se principalmente por não ter-lhe

deixado o céo ao menos uma filha, que lhe servisse de companhia e

consolação em sua desolada velhice. Quiz entretanto a sorte deparar-lhe

em sua propria casa uma tal ou qual compensação a seos infortunios

em uma fragil creatura, que veio de alguma sorte encher o vacuo,

que sentia em seo bondoso e terno coração, e tornar menos triste e

solitario o lar, em que passava os dias tão monotonos e enfadonhos.

Havia nascido em casa uma escravinha, que desde o berço attrahio por

sua graça, gentileza e vivacidade toda a attenção e sollicitude da boa

velha.

Isaura era filha de uma linda mulata, que fora por muito tempo a mucama

favorita e a creada fiel da esposa do commendador. Este, que como

homem libidinoso e sem escrupulos olhava as escravas como um serralho

á sua disposição, lançou olhos cobiçosos e ardentes de lascivia

sobre a gentil mucama. Por muito tempo resistio ella ás suas brutaes

sollicitações; mas por fim teve de ceder ás ameaças e violencias. Tão

torpe e barbaro procedimento não pôde por muito tempo ficar occulto aos

olhos de sua virtuosa esposa, que com isso concebeo mortal desgosto.

Acabrunhado por ella das mais violentas e amargas exprobrações,

o commendador não ousou mais empregar a violencia contra a pobre

escrava, e nem tão pouco conseguio jámais por outro qualquer meio

superar a invencivel repugnancia, que lhe inspirava. Enfureceo-se

com tanta resistencia, e deliberou em seo coração perverso vingar-se

da maneira a mais barbara e ignobil, acabrunhando-a de trabalhos

e castigos. Exilou-a da sala, onde apenas desempenhava levianos e

delicados serviços, para a senzala e os fragueiros trabalhos da roça,

recommendando bem ao feitor, que não lhe poupasse serviço nem castigo.

O feitor porém, que era um bom portuguez ainda no vigor dos annos, e

que não tinha as entranhas tão empedernidas como o seo patrão, seduzido

pelos encantos da mulata, em vez de trabalho e surras, só lhe dava

caricias e presentes, de maneira que dahi a algum tempo a mulata deo

á luz da vida a gentil escravinha, de que fallámos. Este facto veio

exacerbar ainda mais a sanha do commendador contra a misera escrava.

Expellio com improperios e ameaças o bom e fiel feitor, e sujeitou a

mulata a tão rudes trabalhos e tão cruel tratamento, que em breve a

precipitou no tumulo, antes que pudesse acabar de crear sua tenra e

mimosa filhinha.

Eis ahi debaixo de que tristes auspicios nasceo a linda e infeliz

Isaura. Todavia como para indemnisal-a de tamanha desventura, uma santa

mulher, um anjo de bondade, curvou-se sobre o berço da pobre creança e

veio amparal-a á sombra de suas azas caridosas. A mulher do commendador

considerou aquella tenra e formosa cria como um mimo, que o céo lhe

enviava para consolal-a das angustias e dissabores, que tragava em

consequencia dos torpes desmandos de seo devasso marido. Levantou ao

céo os olhos banhados em lagrimas, e jurou pela alma da infeliz mulata

encarregar-se do futuro de Isaura, creal-a e educal-a, como se fosse

uma filha.

Assim o cumprio com o mais religioso escrupulo. Á medida, que a menina

foi crescendo e entrando em idade de aprender, foi-lhe ella mesma

ensinando a ler e escrever, a coser e a rezar. Mais tarde procurou-lhe

tambem mestres de musica, de dança, de italiano, de francez, de

desenho, comprou-lhe livros, e empenhou-se emfim em dar á menina a mais

esmerada e fina educação, como o faria para com uma filha querida.

Isaura por sua parte, não só pelo desenvolvimento de suas graças e

attractivos corporaes, como pelos rapidos progressos de sua viva e

robusta intelligencia, foi muito além das mais exageradas esperanças

da excellente velha, a qual em vista de tão felizes e brilhantes

resultados, cada vez mais se comprazia em lapidar e polir aquella joia,

que ella dizia ser a pérola entrançada em seos cabellos brancos.--O

céo não quiz dar-me uma filha de minhas entranhas,--costumava ella

dizer,--mas em compensação deo-me uma filha de minha alma.

O que porém mais era de admirar na interessante menina, é que aquella

predilecção e extremosa sollicitude de que era objecto, não a tornava

impertinente, vaidosa ou arrogante nem mesmo para com seos parceiros de

captiveiro. O mimo, com que era tratada, em nada lhe alterava a natural

bondade e candura do coração. Era sempre alegre e boa com os escravos,

docil e submissa com os senhores.

O commendador não gostava nada do singular capricho de sua esposa para

com a mulatinha, capricho, que qualificava de caduquice.

--Forte loucura!--costumava exclamar com accento de commiseração.--Está

ahi se esmerando em crear uma formidavel tafulona, que lá pelo tempo

adiante ha-de-lhe dar agoa pela barba. As velhas umas dão para rezar,

outras para ralhar desde a manhã até á noite, outras para lavar

cachorrinhos ou para crear pintos; esta deo para criar mulatinhas

princezas. É um divertimento um pouco mais dispendioso na verdade; mas

... que lhe faça bom proveito; ao menos emquanto se entretêm por lá com

o seo embelego, poupa-me uma boa duzia de impertinentes e rabugentos

sermões... Lá se avenha!...

Poucos dias depois do casamento de Leoncio, o commendador, com toda a

familia, inclusive os dous novos desposados, transportou-se de novo

para a sua fazenda de Campos. Foi então, que o commendador entregou a

seo filho toda a administração e uso-fructo daquella propriedade, com

toda a escravatura e mais acessorios nella existentes, declarando-lhe

que achando-se já bastante velho, enfermo e cansado queria passar

tranquilamente o resto de seos dias, livre de afazeres e preoccupações,

para o que bastavão-lhe com sobegidão as rendas, que para si reservava.

Feita em vida esta magnifica dotação a seo filho, retirou-se para a

côrte. Sua esposa porém preferio ficar em companhia do filho, o que foi

muito do gosto e approvação do marido.

Malvina, que apezar da sua vaidade aristocratica tinha alma candida e

boa, e um coração bem formado, não pôde deixar de conceber logo desde o

principio o mais vivo interesse e terna affeição pela captiva Isaura.

Era esta com effeito de indole tão bondosa e fagueira, tão docil,

modesta e submissa, que apezar de sua grande belleza e incontestaveis

dotes de espirito, conquistava logo ao primeiro encontro a benevolencia

de todos.

Isaura tornou-se immediatamente não direi a mucama favorita, mas a fiel

companheira, a amiga de Malvina, que affeita aos prazeres e passatempos

da côrte, muito folgou de encontrar tão boa e amavel companhia na

solidão, que ia habitar.

--Por que razão não libertão esta menina?--dizia ella um dia á sua

sogra.--Uma tão boa e interessante creatura não nasceo para ser escrava.

--Tem razão, minha filha,--respondeo bondosamente a velha;--mas que

quer você?... não tenho animo de soltar este passarinho, que o céo me

deo para me consolar e tornar mais supportaveis as pesadas e compridas

horas da velhice.

E tambem libertal-a para que? Ella aqui é livre, mais livre do que

eu mesma, coitada de mim, que já não tenho gostos na vida nem forças

para gozar da liberdade. Quer que eu solte a minha patativa? e se ella

transviar-se por ahi, e nunca mais acertar com a porta da gaiola?...

Não, não, minha filha; emquanto eu for viva, quero têl-a sempre bem

pertinho de mim, quero que seja minha, e minha só. Você ha-de estar

dizendo lá comsigo--forte egoismo de velha!--mas tambem eu já poucos

dias terei de vida; o sacrificio não será grande. Por minha morte

ficará livre, e eu terei o cuidado de deixar-lhe um bom legado.

De feito a boa velha tentou por diversas vezes escrever seo testamento

a fim de garantir o futuro de sua escravinha, de sua querida pupilla;

mas o commendador, auxiliado por seo filho com delongas e futeis

pretextos, conseguia ir sempre adiando a satisfação do louvavel e

santo desejo de sua esposa, até o dia, em que fulminada por um ataque

de paralysia geral, ella succumbio em poucas horas sem ter tido um só

momento de lucidez e reanimação para expressar sua ultima vontade.

Malvina jurou sobre o cadaver de sua sogra continuar para com a

infeliz escrava a mesma protecção e sollicitude, que a defunta lhe

havia prodigalizado. Isaura pranteou por muito tempo a morte daquella,

que havia sido para ella mãe desvelada e carinhosa; e continuou a

ser escrava não já de uma boa e virtuosa senhora, mas de senhores

caprichosos, devassos e crueis.

Capitulo III.

Falta-nos ainda conhecer mais de perto a Henrique, o cunhado de

Leoncio. Era elle um elegante e bonito rapaz de vinte annos, frivolo,

estouvado e vaidoso, como são quasi todos os jovens, mórmente quando

lhes coube a ventura de terem nascido de um pae rico. Não obstante

esses ligeiros senões, tinha bom coração e bastante dignidade e nobreza

de alma. Era estudante de medicina, e como estava-se em ferias, Leoncio

o convidara a vir visitar a irmã e passar alguns dias em sua fazenda.

Os dous mancebos chegavam de Campos, onde Leoncio desde a vespera tinha

ido ao encontro do cunhado.

Só depois de casado Leoncio, que antes disso poucas e breves estadas

fizera na casa paterna, começou a restar attenção á extrema belleza

e ás graças incomparaveis de Isaura. Posto que lhe coubesse em sorte

uma linda e excellente mulher, elle não se havia casado por amor,

sentimento esse, a que seo coração até ali parecia absolutamente

estranho. Casára-se por especulação, e como sua mulher era moça e

bonita, sentira apenas por ella essa paixão, que se ceva no gozo dos

prazeres sensuaes, e com elles se extingue. Estava reservado á infeliz

Isaura fazer vibrar profunda e violentamente naquelle coração libertino

as fibras, que ainda não estavão de todo estragadas pelo attrito da

devassidão. Concebeo por ella o mais cego e violento amor, que de dia

em dia ia crescendo na razão directa dos serios e poderosos obstaculos,

que encontrava, obstaculos, a que não estava affeito, e que em vão se

esforçava para superar. Mas nem por isso desistia de sua tresloucada

empreza, por que em fim de contas,--pensava elle,--Isaura era

propriedade sua, e quando nenhum outro meio fosse efficaz, restava-lhe

o emprego da violencia. Leoncio era um digno herdeiro de todos os máos

instinctos e da brutal devassidão do commendador.

Pelo caminho, como sua mente andava sempre cheia da imagem de Isaura,

Leoncio conversára longamente com seo cunhado a respeito della,

exaltando-lhe a belleza, e deixando transluzir com revoltante cynismo

as lascivas intenções, que abrigava no coração. Esta conversação não

agradava muito a Henrique, que ás vezes córava de pejo e de indignação

por sua irmã, mas não deixou de excitar-lhe viva curiosidade de

conhecer uma escrava de tão extraordinaria belleza.

No dia seguinte ao da chegada dos mancebos ás oito horas da manhã,

Isaura, que acabava de espanejar os moveis e arranjar o salão,

achava-se sentada junto a uma janella e entretinha-se a bordar á

espera, que seos senhores se levantassem para servir-lhes o café.

Leoncio e Henrique não tardárão em apparecer, e parando á porta do

salão puzerão-se a contemplar Isaura, que sem se aperceber da presença

delles continuava a bordar distrahidamente.

--Então, que te parece? segredava Leoncio a seo cunhado.--Uma escrava

desta ordem não é um thesouro inapreciavel? Quem não diria, que é uma

andaluza de Cadix, ou uma napolitana?...

--Não é nada disso; mas é cousa melhor, respondeo Henrique maravilhado;

é uma perfeita brazileira.

--Qual brazileira! é superior a tudo quanto ha. Aquelles encantos e

aquellas dezesete primaveras em uma moça livre, terião feito virar o

juizo a muita gente boa. Tua irmã pretende com instancia, que eu a

liberte allegando que essa era a vontade de minha defunta mãe; mas nem

tão tolo sou eu, que me desfaça assim sem mais nem menos de uma joia

tão preciosa. Se minha mãe teve o capricho de creal-a com todo o mimo

e de dar-lhe uma primorosa educação, não foi de certo para abandonal-a

ao mundo, não achas?... Tambem meo pae parece, que cedeo ás instancias

do pae della, que é um pobre gallego, que por ahi anda, e que pretende

libertal-a; mas o velho pede por ella tão exorbitante somma, que julgo

nada dever recear por esse lado. Vê lá, Henrique, se ha nada que pague

uma escrava assim?...

--É com effeito encantadora; replicou o moço,--se estivesse no

serralho do sultão, seria sua odalisca favorita. Mas devo notar-te,

Leoncio,--continuou, cravando no cunhado um olhar cheio de maliciosa

penetração,--como teo amigo e como irmão de tua mulher, que o teres

em tua sala e ao lado de minha irmã uma escrava tão linda e tão bem

tratada não deixa de ser inconveniente e talvez perigoso para a

tranquillidade domestica...

--Bravo!--atalhou Leoncio galhofando, para a idade que tens, já estás

um moralista de polpa!... mas não te dê isso cuidado, meo menino; tua

irmã não tem dessas velleidades, e é ella mesma quem mais gosta de que

Isaura seja vista e admirada por todos. E tem razão; Isaura é como um

traste de luxo, que deve estar sempre exposto no salão. Querias, que eu

mandasse para a cosinha os meos espelhos de Veneza?...

Malvina, que vinha do interior da casa, risonha, fresca e alegre como

uma manhã de abril, veio interromper-lhes a conversação.

--Bom dia, senhores preguiçosos!--disse ella com voz argentina e

festiva como o trino da andorinha.--Até que em fim sempre se levantárão!

--Estás hoje muito alegre, minha querida,--retorquio-lhe sorrindo o

marido;--viste algum passarinho verde de bico dourado?...

--Não vi, mas hei-de ver; estou alegre mesmo, e quero que hoje aqui em

casa seja um dia de festa para todos. Isto depende de ti, Leoncio, e

estava afflicta por te ver de pé; quero dizer-te uma cousa; já devia

tel-a dito hontem, mas o prazer de ver este ingrato de irmão, que ha

tanto tempo não vejo, me fez esquecer...

--Mas o que é?... falla, Malvina.

--Não te lembras de uma promessa, que sempre me fazes, promessa

sagrada, que ha muito tempo devia ter sido cumprida?... hoje quero

absolutamente, exijo, o seo cumprimento.

--Devéras!?... mas que promessa?... não me lembro.

--Ah! como te fazes de esquecido!... não te lembras, que me prometteste

dar liberdade a....

--Ah! já sei, já sei;--atalhou Leoncio com impaciencia.--Mas tratar

disso aqui agora? em presença della?... que necessidade ha de que nos

ouça?--

--E que mal faz isso? mas seja como quizeres,--replicou a moça tomando

a mão de Leoncio e levando-o para o interior da casa;--vamos cá para

dentro. Henrique, espera ahi um momento, emquanto eu vou mandar

preparar-nos o café.

Só depois da chegada de Malvina Isaura deo pela presença dos dous

mancebos, que a certa distancia a contemplavão cochichando a respeito

della. Tambem pouco ouvio ella e nada comprehendeo do rapido dialogo,

que tivera lugar entre Malvina e seo marido. Apenas estes se retirárão,

ella tambem se levantou e ia sahir, mas Henrique, que ficara só, a

deteve com um gesto.

--Que me quer, senhor?--disse ella baixando os olhos com humildade.

--Espera ahi, menina; tenho alguma cousa a dizer-te,--replicou o moço,

e sem dizer mais nada collocou-se diante della devorando-a com os

olhos, e como estatico contemplando-lhe a maravilhosa belleza. Henrique

sentia-se acanhado diante daquella nobre figura radiante de belleza, e

de angelica serenidade. Por seo lado Isaura tambem olhava para o moço,

atonita e tolhida, esperando em vão, que lhe dissesse o que queria. Por

fim Henrique, affouto, e estouvado como era, lembrando-se que Isaura, a

despeito de toda a sua formosura, não passava de uma escrava, entendeo

que fazia um ridiculo papel, deixando-se ali ficar diante della em muda

e estatica contemplação, e chegando-se a ella com todo o desembaraço e

petulancia travou-lhe da mão, e.

--Mulatinha, disse,--tu não fazes idéa de quanto és feiticeira. Minha

irmã tem razão; é pena que uma menina assim tão linda não seja mais que

uma escrava. Se tivesses nascido livre, serias incontestavelmente a

rainha dos salões.

--Está bem, senhor, está bem! replicou Isaura soltando-se da mão de

Henrique; se é só isso o que tinha a dizer-me, deixe-me ir embora.

--Espera ainda um pouco; não sejas assim má; eu não te quero fazer mal

algum. Oh! quanto eu daria para obter a tua liberdade, se com ella

pudesse obter tambem o teo amor!... És muito mimosa e muito linda para

ficares por muito tempo no captiveiro; alguem impreterivelmente virá

arrancar-te delle, e se has-de cahir nas mãos de algum desconhecido,

que não saberá dar-te o devido apreço, seja eu, minha Isaura, seja o

irmã de tua senhora, que de escrava te haja de fazer uma princeza...

--Ah! senhor Henrique! retorquio a menina com enfado;--o senhor não se

peja de dirigir esses galanteios a uma escrava de sua irmã? isso não

lhe fica bem; há por ahi tanta moça bonita, a quem o senhor pode fazer

a côrte...

--Não; ainda não vi nenhuma, que te iguale, Isaura, eu te juro. Olha,

Isaura; ninguem mais do que eu está nas circumstancias de conseguir a

tua liberdade; sou capaz de obrigar Leoncio a te libertar, por que, se

me não engano, já lhe adivinhei os planos e as intenções, e protesto-te

que hei-de burlal-os todos; é uma infamia, em que não posso consentir.

Além da liberdade terás tudo o que desejares, sedas, joias, carros,

escravos para te servirem, e acharás em mim um amante extremoso, que

sempre te ha-de querer, e nunca te trocará por quanta moça ha por esse

mundo, por bonita e rica que seja, porque tu só vales mais que todas

ellas juntas.

--Meu Deos!--exclamou Isaura com um ligeiro tom de mofa;--tanta

grandeza me attérra; isso faria virar-me o juizo. Nada, meo senhor;

guarde suas grandezas para quem melhor as merecer; eu por ora estou

contente com a minha sorte.

--Isaura!... para que tanta crueldade!... escuta,--disse o moço

lançando o braço ao pescoço de Isaura.

--Senhor Henrique!--gritou ella esquivando-se ao abraço,--por quem é,

deixe-me em paz!

--Por piedade, Isaura!--insistio o rapaz continuando a querer

abraçal-a;--oh!... não falles tão alto!... um beijo ... um beijo só, e

já te deixo...

--Se o senhor continúa, eu grito mais alto. Não posso aqui trabalhar

um momento, que não me venhão perturbar com declarações, que não devo

escutar...

--Oh! como está altaneira!--exclamou Henrique, já um tanto agastado com

tanta resistencia.--Não lhe falta nada!... tem até os ares desdenhosos

de uma grande senhora!... não te arrufes assim, minha princeza...

--Arre lá, senhor!--bradou a escrava já no auge da impaciencia.--Já não

bastava o senhor Leoncio!... agora vem o senhor tambem....

--Como?... que estás dizendo?... tambem Leoncio?... oh!... oh! bem o

coração me estava adivinhando!... que infamia!... mas de certo tu o

escutas com menos impaciencia, não é assim?

--Tanto, como escuto ao senhor.

--Não duvido, Isaura; a lealdade, que deves á tua senhora, que tanto te

estima, não te permitte que dês ouvidos áquelle perverso. Mas commigo o

caso é differente; que motivo ha para seres cruel assim.

--Eu cruel para com meos senhores!!! Ora, senhor, pelo amor de Deos!...

Não esteja assim a escarnecer de uma pobre captiva.

--Não! não escarneço;... Isaura!... escuta,--exclamava Henrique

forcejando para abraçal-a e furtar-lhe um beijo.

--Bravo!... bravissimo!--retumbou pelo salão uma voz acompanhada de

sardonica e estrepitosa gargalhada.

Henrique voltou-se sobressaltado. Toda a sua amorosa exaltação

tinha-se-lhe gelado de subito no amago do coração.

Leoncio estava em pé no meio da porta, de braços cruzados e olhando

para elle com sorriso do mais insultante escarneo.

--Bravo! muito bem, senhor meo cunhado!--continuou Leoncio no mesmo

tom de mofa.--Está pondo em pratica bellissimamente as suas lições

de moral!... requestando-me as escravas!... está galante!... sabe

respeitar divinamente a casa de sua irmã!...

--Ah! maldito importuno! murmurou Henrique, trincando os dentes

de cólera, e seo primeiro impulso foi investir de punho fechado,

e responder com cachações aos insolentes sarcasmos do cunhado.

Reflectindo porém um momento, sentio que lhe seria mais vantajoso

empregar contra o seo aggressor a mesma arma, de que se servira contra

elle, o sarcasmo, que as circumstancias lhe permittião vibrar de modo

victorioso e decisivo. Acalmou-se pois, e com sorriso de soberano

desdem:

--Ah! perdão, meo cunhado!--disse elle--não sabia que a peregrina joia

do seo salão lhe merecesse tanto cuidado, que o levasse a ponto de

andal-a espionando; creio, que tem mais zelo por ella, do que mesmo

pelo respeito, que se deve á sua casa e a sua mulher. Pobre de minha

irmã!... é bem simples, e admira, que ha mais tempo não tenha conhecido

o bello marido, que possue!...

--O que estás dizendo, rapaz?--bradou Leoncio com gesto

ameaçador;--repete; que estás dizendo?

--O mesmo, que o senhor acaba de ouvir,--redarguio Henrique com

firmeza,--e fique certo, que o seo indigno procedimento não ha-de ficar

por muito tempo occulto a minha irmã.

--Qual procedimento!? tu deliras, Henrique?...

--Faça-se de esquerdo!... pensa que não sei tudo?... emfim, adeos,

senhor Leoncio; eu me retiro, por que seria altamente inconveniente,

indigno e ridiculo da minha parte estar a disputar com o senhor por

amor de uma escrava.

--Espera, Henrique ... escuta...

--Não, não; não tenho negocio nenhum com o senhor. Adeos!--disse e

retirou-se precipitadamente.

Leoncio sentio-se esmagado, e arrependeo-se mil e uma vezes de ter

provocado tão imprudentemente aquelle leviano e estouvado rapaz.

Ignorava, que seo cunhado estivesse ao facto da paixão, que sentia

por Isaura, e dos esforços, que empregava para vencer-lhe a isenção e

lograr seos favores. É verdade que lhe havia fallado sem muito rebuço

a esse respeito; mas algumas palavras ditas entre rapazes, em tom de

mera chocarrice, não constituião base sufficiente, para que sobre ella

Henrique podesse articular uma accusação séria contra elle em face de

sua mulher. De certo a rapariga lhe havia revelado alguma cousa, e

isto o fazia espumar de despeito e raiva contra um e outra. Bem pouco

lhe importava a perturbação da paz domestica, o que o enfurecia era o

perigo, em que se collocára de ver desconcertados os seos perversos

designios sobre a gentil escrava.

--Maldição!--rugia elle lá comsigo.--Aquelle maluco é bem capaz de

desconcertar todos os meos planos. Se sabe alguma cousa, como parece,

não porá duvida em levar tudo aos ouvidos de Malvina...

Leoncio ficou por alguns momentos em pé, immovel, sombrio, carrancudo,

com o espirito entregue á cruel inquietação, que o fustigava. Depois,

pairando as vistas em derredor, deo com os olhos em Isaura, a qual,

desde que Leoncio se apresentára, corrida, trémula e anhelante, fôra

sumir-se em um canto da sala; dali presenciára em silenciosa anciedade

a altercação dos dous moços, como corsa mal ferida escutando o rugir de

dous tigres, que disputão entre si o direito de devoral-a. Por seo lado

tambem se arrependia do intimo d’alma, e raivava contra si mesma pela

indiscreta e louca revelação, que em um assomo de impaciencia deixára

escapar de seos labios. Sua imprudencia ia ser causa da mais deploravel

discordia no seio daquella familia, discordia, de que por fim de

contas ella viria a ser a principal victima. A desavença entre os dous

mancebos era como o choque de duas nuvens, que se encontrão e continuão

a pairar tranquillamente no céo; mas o raio desprendido de seo seio

teria de vir cahir certeiro sobre a fronte da infeliz captiva.

Capitulo IV.

--Ah! estás ainda ahi?... fizeste bem,--disse Leoncio mal avistou

Isaura, que trémula e confusa não ousára sahir do cantinho, a que se

abrigára, e onde fazia mil votos ao céo, para que seo senhor não a

visse, nem se lembrasse della naquelle momento.--Isaura, continuou

elle,--pelo que vejo, andas bem adiantada em amores!... estavas a ouvir

finezas daquelle rapazóla...

--Tanto como ouço as suas, meo senhor; por não ter outro remedio. Uma

escrava, que ousasse olhar com amor para seos senhores, merecia ser

severamente castigada.

--Mas tu disseste alguma cousa áquelle estouvado, Isaura?...

--Eu!?--respondeo a escrava perturbando-se;--eu nada, que possa

offender nem ao senhor, nem a elle...

--Pesa bem as tuas palavras, Isaura; olha não procures enganar-me. Nada

lhe disseste a meo respeito?

--Nada.

--Juras?

--Juro,--balbuciou Isaura.

--Ah! Isaura, Isaura!... tem cuidado. Se até aqui tenho soffrido com

paciencia as tuas repulsas e desdens, não estou disposto a supportar,

que em minha casa, e quasi em minha presença, estejas a escutar

galanteios, de quem quer que seja, e muito menos revelar o que aqui se

passa. Se não queres o meo amor, evita ao menos de incorrer no meo odio.

--Perdão, senhor, que culpa tenho eu de andarem a perseguir-me?

--Tens alguma razão; estou vendo, que me verei forçado a desterrar-te

desta casa, e a esconder-te em algum canto, onde não sejas tão vista e

cobiçada...

--Para que, senhor....

--Basta; não te posso ouvir agora, Isaura. Não convem que nos encontrem

aqui conversando a sós. Em outra occasião te escutarei.--É preciso

estorvar, que aquelle estonteado vá intrigar-me com Malvina,--murmurava

Leoncio retirando-se.--Ah! cão! maldita a hora, em que te trouxe a

minha casa!

--Permitta Deos que tal occasião nunca chegue--exclamou tristemente

dentro da alma a rapariga, vendo seo senhor retirar-se. Ella via com

angustia e mortal desassocego as continuas e cada vez mais encarniçadas

sollicitações de Leoncio, e não atinava com um meio de oppor-lhes um

paradeiro. Resolvida a resistir até á morte, lembrava-se da sorte

de sua infeliz mãe, cuja triste historia bem conhecia, pois a tinha

ouvido, segredada a medo e mysteriosamente, da boca de alguns velhos

escravos da casa, e o futuro se lhe antolhava carregado das mais negras

e sinistras cores.

Revelar tudo a Malvina era o unico meio, que se lhe apresentava ao

espirito para pôr termo ás ousadias do seo marido, e atalhar futuras

desgraças. Mas Isaura amava muito sua jovem senhora para ousar dar

semelhante passo, que iria derramar-lhe no seio um pégo de desgostos e

amarguras, quebrando-lhe para sempre a risonha e doce illusão, em que

vivia?

Preferia antes morrer como sua mãe, victima das mais crueis sevicias,

do que ir por suas mãos lançar uma nuvem sinistra no céo até ali tão

sereno e bonançoso de sua querida senhora.

O pae de Isaura, o unico ente no mundo, que á excepção de Malvina se

interessava por ella, pobre e simples jornaleiro não se achava em

estado de poder protegel-a contra as perseguições e violencias, de que

se achava ameaçada. Em tão cruel situação Isaura não sabia senão chorar

em segredo a sua desventura, e implorar o céo, do qual sómente podia

esperar remedio a seos males.

Bem se comprehende pois agora aquelle accento tão dorido, tão repassado

de angustia, com que cantava a sua canção favorita. Malvina enganava-se

attribuindo sua tristeza a alguma paixão amorosa. Isaura conservava

ainda o coração no mais puro estado de isenção. Com quanto mais dó não

a teria lastimado sua boa e sensivel senhora, se podesse adivinhar a

verdadeira causa dos pezares, que a ralavão.

Capitulo V.

Isaura despertando de suas pungentes e amargas preoccupações, tomou

seo balainho de costura e ia deixar o salão, resolvida a sumir-se no

mais escondido recanto da casa, ou amoitar-se em algum escondrijo do

pomar. Esperava assim esquivar-se á repetição de scenas indecentes

e vergonhosas, como essas por que acabava de passar. Apenas déra os

primeiros passos foi detida por uma extravagante e grotesca figura, que

penetrando no salão veio postar-se diante de seos olhos.

Era um monstrengo affectando formas humanas, um homunculo em tudo

mal construido, de cabeça enorme, tronco rachitico, pernas curtas e

arqueadas para fora, cabelludo como um urso, e feio como um mono. Era

como um desses truões disformes, que formavão parte indispensavel do

sequito de um grande rei da media idade, para divertimento delle e

de seos cortezãos. A natureza esquecera de lhe formar o pescoço, e a

cabeça disforme nascia-lhe de dentro de uma formidavel corcova, que a

resguardava quasi como um capuz. Bem reparado todavia o rosto não era

muito irregular, nem repugnante, e exprimia muita cordura, submissão e

bonhomia.

Isaura teria soltado um grito de pavor, se ha muito não estivesse

familiarizada com aquella estranha figura, pois era elle, sem mais nem

menos, o senhor Belchior, fiel e excellente ilhéo, que ha muitos annos

exercia naquella fazenda mui digna e conscienciosamente, apezar de sua

deformidade e idiotismo, o cargo de jardineiro. Parece que as flores,

que são o symbolo natural de tudo quanto é bello, puro e delicado,

devião ter um cultor menos disforme e repulsivo. Mas quiz a sorte ou

o capricho do dono da casa estabelecer aquelle contraste, talvez para

fazer sobresahir a belleza de umas á custa da fealdade do outro.

Belchior tinha em uma das mãos o vasto chapéo de palha, que arrastava

pelo chão, e com a outra empunhava, não um ramalhete, mas um enorme

feixe de flores de todas as qualidades, á sombra das quaes procurava

eclipsar sua disgraciosa e extravagante figura. Parecia um desses vasos

de louça, de formas phantasticas e grotescas, que se enchem de flores

para enfeitar bufetes e aparadores.

--Valha-me Deus!--pensou Isaura ao dar com os olhos no jardineiro.--Que

sorte é a minha! ainda mais este!... este ao menos é de todos o mais

supportavel: os outros me amofinão, e atormentão; este ás vezes me faz

rir.

--Muito bem apparecido, senhor Belchior! então, o que deseja?

--Senhora Isaura, eu... eu... vinha...--resmungou embaraçado o

jardineiro.

--Senhora!... eu senhora!... tambem o senhor pretende caçoar commigo,

senhor Belchior?...

--Eu caçoar com a senhora!... não sou capaz ... minha lingoa seja

comida de bichos, se eu faltar com o respeito devido á senhora... Vinha

trazer-lhe estas _froles_, se bem que a senhora mesma é uma

_frol_...

--Arre lá, senhor Belchior!... sempre a dar-me de senhora!...

se continúa por essa forma, ficamos mal, e não acceito as suas

_froles_... Eu sou Isaura, escrava da senhora D. Malvina; ouvio,

senhor Belchior!

--Embora lá isso; é sóverana cá deste coração, e eu, menina, dou-me por

feliz se puder beijar-te os pés. Olha, Isaura...

--Ainda bem! Agora sim; trate-me desse modo.

--Olha, Isaura, eu sou um pobre jardineiro, lá isso é verdade; mas sei

trabalhar, e não has-de achar vazio o meo mealheiro, onde já tenho mais

de meio mil cruzados. Se me quizeres, como eu te quero, arranjo-te a

liberdade, e caso-me contigo, que tambem não és para andar ahi assim

como escrava de ninguem.

--Muito obrigada pelos seus bons desejos; mas perde seu tempo, senhor

Belchior. Meos senhores não me libertão por dinheiro nenhum.

--Ah! devéras!... que malbados!... ter assim no catibeiro a rainha da

fermosura!... mas não importa, Isaura; terei mais gosto em ser escravo

de uma escrava como tu, do que em ser senhor dos senhores de cem mil

captivos. Isaura!... não fazes idéa de como te quero. Quando vou molhar

as minhas _froles_, estou a lembrar-me de ti com uma soidade!...

--Devéras! ora vio-se que amor!...

--Isaura!--continuou Belchior, curvando os joelhos,--tem piedade deste

teo infeliz captivo...

--Levante-se, levante-se,--interrompeo Isaura com impaciencia.--Seria

bonito que meos senhores viessem aqui encontral-o fazendo esses

papeis!... que estou-lhe dizendo?... eil-os ahi!... ah! senhor Belchior!

De feito, de um lado Leoncio, e de outro Henrique e Malvina, os estavão

observando.

Henrique, tendo-se retirado do salão, despeitado e furioso contra seo

cunhado, assomado e leviano como era, foi encontrar a irmã na sala de

jantar, onde se achava preparando o café e ali em presença della não

hesitou em desabafar sua cólera, soltando palavras imprudentes, que

lançárão no espirito da moça o germen da desconfiança e da inquietação.

--Este teo marido, Malvina, não passa de um miseravel patife,--disse

bufando de raiva.

--Que estás dizendo, Henrique?!... que te fez elle?...--perguntou a

moça, espantada com aquelle rompante.

--Tenho pena de ti, minha irmã ... se soubesses ... que infamia!...

--Estás doudo, Henrique!... o que ha então?

--Permitta Deos que nunca o saibas!... que vilania!...

--O que houve então, Henrique?... falla, explica-te por quem

és,--exclamou Malvina, palida e offegante no cumulo da afflicção.

--Oh! que tens?... não te afflijas assim, minha irmã,--respondeu

Henrique, já arrependido das loucas palavras que havia soltado. Tarde

comprehendeo que fazia um triste e deploravel papel, servindo de

mensageiro da discordia e da desconfiança entre dois esposos, que até

ali vivião na mais perfeita harmonia e tranquillidade. Tarde e em vão

procurou attenuar o terrivel effeito de sua fatal indiscrição.

--Não te inquietes, Malvina, continuou elle procurando sorrir-se;--teo

marido é um formidavel turrão, eis ahi tudo; não vás pensar, que nos

queremos bater em duello...

--Não; mas vieste espumando de raiva, com os olhos em fogo, e com um

ar...

--Qual!... pois não me conheces?... sempre fui assim; por--dá cá

aquella palha--pego fogo, mas tambem é fogo de palha.

--Mas pregaste-me um susto!...

--Coitada!... toma isto,--disse-lhe Henrique, offerecendo-lhe uma

chicara de café,--é a melhor cousa que ha para aplacar sustos e ataques

de nervos.

Malvina procurou acalmar-se, mas as palavras do irmão tinham-lhe

penetrado no amago do coração, como a dentada de uma vibora, ahi

deixando o veneno da desconfiança.

O apparecimento de Leoncio, que vinha do salão, pôz termo a este

incidente. Os tres tomárão café á pressa e sem trocarem palavras;

estavão já resabiados uns com outros, olhavão-se com desconfiança, e de

um momento para outro a discordia insinuára-se no seio daquella pequena

familia, ainda ha pouco tão feliz, unanime e tranquilla. Tomado o café

retirárão-se, mas todos por um impulso instinctivo, dirigirão seos

passos para o salão, Henrique e Malvina de braços dados pelo grande

corredor da entrada, e Leoncio sósinho por compartimentos interiores,

que comunicavão com o salão. Era ali com effeito, que se achava o pomo

fatal, mas innocente, que devia servir de instrumento da desunião e

descalabro daquella nascente familia.

Chegárão ainda a tempo de presenciar o final da scena ridicula, que

Belchior representava aos pés de Isaura. Leoncio porém, que os espiava

através das sanéfas entre-abertas de uma alcôva, não avistava Henrique

e Malvina, que havião parado no corredor junto á porta da entrada.

--Oh! oh!--exclamou elle no momento em que Belchior prostrava-se aos

pés de Isaura. Creio que tenho dentro de casa um idolo, diante do qual

todos vem ajoelhar-se e render adorações!... até o meo jardineiro!...

O’lá, senhor Belchior, está bonito!... Continue com a farça, que não

está má ... mas para tratar dessa flor não precisamos de seos cuidados,

não; tem entendido, senhor Belchior!...

--Perdão, senhor meo,--balbuciou o jardineiro erguendo-se trémulo e

confuso;--eu vinha trazer estas froles para os basos da sala...

--E apresentál-as de joelhos!... essa é galante!... Se continúa nesse

papel de galant, declaro-lhe que o ponho pela porta fora com dous

pontapés nessa corcova.

Corrido, confuso e azoinado, Belchior, cambaleando e esbarrando pelas

cadeiras, lá se foi ás cegas em busca da porta da rua.

--Isaura! ó minha Isaura!--exclamou Leoncio sahindo da alcôva,

avançando com os braços abertos para a rapariga, e dando á voz até ali

aspera a rude, a mais suave e terna inflexão.

Um ai agudo e pungente, que echoou pelo salão, o fez parar mudo, gelido

e petrificado. Tinha avistado no meio da porta Malvina, que palida e

desfallecida occultava a fronte no hombro de seo irmão, que a amparava

nos braços.

--Ah! meo irmão!--exclamou ella voltando de seo deliquio,--agora

comprehendo tudo que ainda ha pouco me dizias.

E com uma das mãos comprimindo o coração, que parecia querer-lhe

estalar de dor, e com a outra escondendo no lenço as lagrimas, que dos

formosos olhos lhe brotavão aos paser, correo a encerrar-se em seo

aposento.

Leoncio desconcertado pelo terrivel contratempo, de que acabava de

ser victima, ficou largo tempo a passear, frenetico e agitado, de

um a outro lado ao longo do salão, furioso contra o cunhado, a cuja

impertinente leviandade attribuía as fataes occurrencias daquella

manhã, que ameaçavão burlar todos os seos planos sobre Isaura, e

excogitando meios de safar-se das difficuldades em que se via empenhado.

Isaura, tendo resistido em menos de uma hora a tres abordagens

consecutivas, dirigidas contra o seo pudor e isenção, aturdida,

cheia de susto, confusão e vergonha, correo a esconder-se entre os

laranjaes como lebre medrosa, que ouve ladrarem pelos prados os galgos

encarniçados a seguirem-lhe a pista.

Henrique altamente indignado contra o cunhado, não lhe queria ver a

cara; tomou sua espingarda e sahio disposto a passar o dia inteiro

passarinhando pelos matos, e a retirar-se impreterivelmente para a

côrte ao romper do dia seguinte.

Os escravos ficárão pasmos, quando á hora do almoço Leoncio achou-se

sósinho á mesa. Leoncio mandou chamar Malvina, mas esta, pretextando

uma indisposição, não quiz sahir de seo quarto. Seo primeiro movimento

foi um impeto de cólera brutal; esteve a ponto de atirar toalha,

pratos, talheres e tudo pelos ares, e ir esbofetear o desassisado

e insolente rapaz, que em má hora viera á sua casa para perturbar

a tranquillidade do seo viver domestico. Mas conteve-se a tempo, e

acalmando-se entendeo, que melhor era não se dar por achado, e encarar

com ares da maior indiferença e mesmo de desdem, os arrufos da esposa,

e o máo humor do cunhado. Estava bem persuadido que lhe seria difficil

se não impossivel dissimular mais aos olhos da esposa o seo torpe

procedimento; incapaz porém de retratar-se e implorar perdão, resolveo

amparar-se da tempestade, que ia despenhar-se sobre sua cabeça, com

o escudo da mais cynica indifferença. Inspiravão-lhe este alvitre o

orgulho, e o máo conceito em que tinha todas as mulheres, nas quaes não

reconhecia pundonor nem dignidade.

Depois do almoço Leoncio montou a cavallo, percorreo as roças e

cafesaes, cousa que bem raras vezes fazia, e ao descambar do sol voltou

para casa, jantou com o maior socego e appetite, e depois foi para o

salão, onde repoltreando-se em macio e fresco sofá, pôz-se a fumar

tranquillamente o seo havana.

Nesse comenos chega Henrique de suas excursões venatorias, e depois

de procurar em vão a irmã por todos os cantos da casa, vae em fim

encontral-a encerrada em seo quarto de dormir desfigurada, palida, e

com os olhos vermelhos e inchados de tanto chorar.

--Por onde andaste, Henrique?... estava afflicta por te ver,--exclamou

a moça ao avistar o irmão.--Que má moda é essa de deixar a gente assim

sósinha!...

--Sósinha?!... pois até aqui não vivias sem mim na companhia de teo

belo marido?...

--Não me falles nesse homem ... eu andava illudida; agora vejo que

andava peor do que sósinha, na companhia de um perverso.

--Ainda bem, que presenciaste com teos proprios olhos o que eu não

tinha animo de dizer-te. Mas, vamos! que pretendes fazer?...

--O que pretendo?... vás ver neste mesmo instante... Onde está elle?...

viste-o por ahi?...

--Se me não engano, vi-o no salão; havia lá um vulto sobre um sofá.

--Pois bem, Henrique; acompanha-me até lá.

--Por que razão não vás só? poupa-me o desgosto de encarar aquelle

homem...

--Não, não; é preciso, que vás commigo; estava á tua espera mesmo para

esse fim. Preciso de uma pessoa, que me ampare e me alente. Agora até

tenho medo delle.

--Ah! comprehendo; queres que eu seja teo guarda-costa, para poderes

descompor a teo geito aquelle birbante. Pois bem; presto-me de boa

vontade, e veremos se o patife tem o atrevimento de te desrespeitar.

Vamos!--

Capitulo VI.

--Senhor Leoncio,--disse Malvina com voz alterada approximando-se do

sofá, em que se achava o marido,--desejo dizer-lhe duas palavras, se

isso não o incommoda.

--Estou sempre ás tuas ordens, querida Malvina,--respondeo

levantando-se lesto e risonho, e como quem nenhum repáro fizera no tom

ceremonioso, com que Malvina o tratava.--Que me queres?...

--Quero dizer-lhe,--exclamou a moça em tom severo, e fazendo vãos

esforços para dar ao seo lindo e mavioso semblante um ar feroz,--quero

dizer-lhe, que o senhor me insulta e me atraiçoa em sua casa, da

maneira a mais indigna e desleal...

--Santo Deos!... que estás ahi a dizer, minha querida?... explica-te

melhor, que não comprehendo nem uma palavra do que dizes...

--É debalde, que o senhor se finge sorprehendido; bem sabe a causa

do meo desgosto. Eu já devia ter presentido esse seo vergonhoso

procedimento; ha muito que o senhor não é o mesmo para commigo, e me

trata com tal frieza e indifferença...

--Oh! meo coração, pois querias que durasse eternamente a lua de

mel?... isso seria horrivelmente monotono e prosaico.

--Ainda escarneces, infame!--bradou a moça, e desta vez as faces se lhe

afogueárão de extraordinario rubor, e fuzilárão-lhe nos olhos lampejos

de cólera terrivel.

--Oh! não te exasperes assim, Malvina; estou gracejando,--disse Leoncio

procurando tomar-lhe a mão.

--Boa occasião para gracejos!... deixe-me, senhor!... que infamia!...

que vergonha para nós ambos?...

--Mas emfim não te explicarás?

--Não tenho que explicar; o senhor bem me entende. Só tenho que

exigir...

--Pois exige, Malvina.

--Dê um destino qualquer a essa escrava, a cujos pés o senhor costuma

vilmente prostrar-se: liberte-a, venda-a, faça o que quizer. Ou eu ou

ella havemos de abandonar para sempre esta casa; e isto hoje mesmo.

Escolha entre nos.

--Hoje!?

--E já!

--És muito exigente e injusta para commigo, Malvina,--disse Leoncio

depois de um momento de pasmo e hesitação.--Bem sabes que é meo desejo

libertar Isaura; mas acaso depende isso de mim sómente? É a meo pae,

que compete fazer o que de mim exiges.

--Que miseravel desculpa, senhor! seo pae já lhe entregou escravos e

fazenda, e dará por bem feito tudo quanto o senhor fizer. Mas se acaso

o senhor a prefere a mim....

--Malvina!... não digas tal blasphemia!...

--Blasphemia!... quem sabe!... mas em fim dê um destino qualquer a essa

rapariga, se não quer expellir-me para sempre de sua casa. Quanto a mim

não a quero mais nem um momento em meo serviço; é bonita demais para

mucama.

--O que lhe dizia eu, senhor Leoncio? acudio Henrique, que já cançado

e envergonhado do papel de mudo guarda-costas, entendeu que devia

intervir tambem na querella.--Está vendo?... eis-ahi o fructo que se

colhe d’esses belos trastes de luxo, que quer por força ter em seo

salão...

--Esses trastes não seriam tão perigosos, se não existissem vis

mexeriqueiros, que não hesitam em perturbar o socego da casa dos outros

para conseguir seos fins perversos...

--Alto lá, senhor!... para impedir, que o senhor não transportasse o

seu traste de luxo do salão para a alcova, percebe?... o escandalo

cedo ou tarde seria notorio, e nenhum dever tenho eu de ver de braços

cruzados minha irmã indignamente ultrajada.

--Senhor Henrique! bradou Leoncio avançando para elle, hirto de cólera

e com gesto ameaçador.

--Basta, senhores!--gritou Malvina interpondo-se aos dois

mancebos.--Toda a disputa por tal motivo é inutil e vergonhosa para nós

todos. Eu já disse a Leoncio o que tinha de dizer; elle que se decida;

faça o que entender. Se quizer ser homem de brio e pundonor, ainda é

tempo. Se não, deixe-me, que eu o entregarei ao desprezo, que merece.

--Oh! Malvina! estou prompto a fazer todo o possivel para te

tranquillizar e contentar; mas deves saber que não posso satisfazer o

teo desejo sem primeiro entender-me com meo pae, que está na côrte. É

preciso mais que saibas, que meo pae nenhuma vontade tem de libertar

Isaura, tanto assim, que para se ver livre das importunações do pae

della, que tambem quer a todo custo libertal-a; exigio uma somma por

tal forma exorbitante, que é quase impossivel o pobre homem arranjal-a.

--Ó de casa!... dá licença?--bradou neste momento com voz forte e

sonora uma pessoa, que vinha subindo a escada do alpendre.

--Quem quer que é, pode entrar,--gritou Leoncio dando graças ao céo,

que tão a proposito mandava-lhe uma visita para interromper aquella

importuna e detestavel questão e livral-o dos apuros, em que se via

entalado.

Entretanto, como se verá, não tinha muito de que congratular-se. O

visitante era Miguel, o antigo feitor da fazenda, o pae de Isaura, que

havia sido outróra grosseiramente despedido pelo pae de Leoncio.

Este, que ainda o não conhecia, recebeo-o com affabilidade.

--Queira sentar-se,--disse-lhe,--e dizer-nos o motivo por que nos faz a

honra de procurar.

--Obrigado!--disse o recemchegado, depois de cumprimentar

respeitosamente Henrique e Malvina.--Vª. Sª. sem duvida é o senhor

Leoncio?...

--Para o servir.

--Muito bem!... é com Vª. S.ª, que tenho de tratar na falta do senhor

seo pae. O meo negocio é simples, e julgo que o posso declarar em

presença aqui do senhor e da senhora, que me parecem ser pessoas de

casa.

--Sem duvida! entre nós não há segredo, nem reservas.

--Eis aqui ao que vim, senhor meo,--disse Miguel, tirando da algibeira

de seo largo sobretudo uma carteira, que apresentou a Leoncio;--faça o

favor de abrir esta carteira; aqui encontrará Vª. Sª. a quantia exigida

pelo senhor seo pae, para a liberdade de uma escrava desta casa por

nome Isaura.

Leoncio enfiou, e tomando machinalmente a carteira, ficou alguns

instantes com os olhos pregados no teto.

--Pelo que vejo,--disse por fim,--o senhor deve ser o pae.... aquelle

que dizem ser o pae da dita escrava;...--é o senhor....--não me lembra

o nome....

--Miguel, um criado de Vª. Sª.

--É verdade; o senhor Miguel. Folgo muito que tenha arranjado meios de

libertar a menina; ella bem merece esse sacrificio.

Enquanto Leoncio abre a carteira, e conta e reconta mui pausadamente

nota por nota o dinheiro, mais para ganhar tempo a reflectir sobre o

que deveria fazer naquellas conjuncturas, do que para verificar se

estava exacta a somma, aproveitemo-nos do ensejo para contemplar a

figura do bom e honrado portuguez, pae da nossa heroina, de quem ainda

não nos occupámos senão de passagem.

Era um homem de mais de cincoenta annos; em sua physionomia nobre e

aberta transpirava a franqueza, a bonhomia, e a lealdade.

Trajava pobremente, mas com muito alinho e limpeza, e por suas

maneiras e conversação conhecia-se, que aquelle homem não viera ao

Brazil, como quasi todos os seos patricios, dominado pela ganancia de

riquezas. Tinha o trato e a linguagem de um homem polido, e de accurada

educação. De feito Miguel era filho de uma nobre e honrada familia de

Miguelistas, que havia emigrado para o Brazil. Seos paes, victimas

de perseguições politicas, morrerão sem ter nada que legar ao filho,

que deixárão na idade de dezoito a vinte annos. Sósinho, sem meios

e sem protecção, vio-se forçado a viver do trabalho de seos braços,

mettendo-se a jardineiro e horticultor, mister este, que como filho de

lavrador, robusto, activo e intelligente desempenhava com summa pericia

e perfeição.

O pae de Leoncio, tendo tido occasião de conhecel-o, e apreciando o

seo merecimento, o engajou para feitor de sua fazenda com vantajosas

condições. Ali servio muitos annos sempre mui respeitado e querido de

todos, até que aconteceo-lhe a fatal, mas muito desculpavel fraqueza,

que sabemos, e em consequencia da qual foi grosseiramente despedido por

seo patrão. Miguel concebeo amargo resentimento e magoa profunda, não

tanto por si, como por amor das duas infelizes creaturas, que não podia

proteger contra a sanha de um senhor perverso e brutal. Mas forçoso

lhe foi resignar-se. Não lhe faltava serviço nem acolhimento pelas

fazendas vizinhas. Conhecedores de seo merito, os lavradores em redór o

aceitarião de braços abertos; a difficuldade estava na escolha. Optou

pelo mais vizinho, para ficar o mais perto possivel de sua querida

filhinha.

Como o commendador quase sempre achava-se na côrte ou em Campos,

Miguel tinha muita occasião e facilidade de ir ver a menina, á qual

cada vez ia criando mais entranhado affecto. A esposa do commendador,

na ausencia deste, dava ao portuguez franca entrada em sua casa, e

facilitava-lhe os meios de ver e affagar a filhinha, com o que vivia

elle mui consolado e contente. De feito o céo tinha dado á sua filha

na pessoa de sua senhora uma segunda mãe tão boa e desvelada, como

poderia ser a primeira, e que mais do que esta lhe podia servir de

amparo e protecção. A morte inesperada daquella virtuosa senhora veio

despedaçar-lhe o coração, quebrando-lhe todas as suas lisonjeiras

esperanças.

Muito pode o amor paterno em uma alma nobre e sensivel!... Miguel

sobrepujando todo o odio, repugnancia e asco, que lhe inspirava a

pessoa do commendador, não hesitou em ir humilhar-se diante delle,

importunal-o com suas supplicas, rogar-lhe com as lagrimas nos olhos,

que abrisse preço á liberdade de Isaura.

--Não ha dinheiro que a pague; ha-de ser sempre minha,--respondia com

orgulhoso cynismo o inexoravel senhor ao infeliz e afflicto pae.

Um dia enfim para se ver livre das importunações e supplicas de Miguel,

disse-lhe com máo modo.

--Homem de Deos, traga-me dentro de um anno dez contos de réis, e lhe

entrego livre a sua filha e ... deixe-me por caridade. Se não vier

nesse prazo, perca as esperanças.

--Dez contos de réis! é somma demasiado forte para mim;...--mas não

importa!... ella vale muito mais do que isso. Senhor commendador, vou

fazer o impossivel para trazer-lhe essa somma dentro do prazo marcado.

Espero em Deos, que me ha-de ajudar.

O pobre homem, á força de trabalho e economia, impondo-se privações,

vendendo todo o superfluo, e limitando-se ao que era estrictamente

necessario, no fim do anno apenas tinha arranjado metade da quantia

exigida. Foi-lhe mister recorrer á generosidade de seo novo patrão, o

qual, sabendo do santo e nobre fim a que se propunha seo feitor, e do

vexame e extorsão, de que era victima, não hesitou em fornecer-lhe a

somma necessaria, a titulo de emprestimo ou adiantamento de salarios.

Leoncio, que como seo pae julgava impossivel que Miguel em um anno

pudesse arranjar tão consideravel somma, ficou atonito e altamente

contrariado, quando este se apresentou para lh’a metter nas mãos.

--Dez contos,--disse por fim Leoncio acabando de contar o dinheiro.--É

justamente a somma exigida por meo pae.--Bem estólido e avaro é este

meo pae, murmurou elle comsigo,--eu nem por cem contos a daria.--Senhor

Miguel,--continuou em voz alta, entregando-lhe a carteira,--guarde

por ora o seo dinheiro; Isaura não me pertence ainda; só meo pae póde

dispor della. Meo pae acha-se na côrte, e não deixou-me autorisação

alguma para tratar de semelhante negocio. Arranje-se com elle.

--Mas Vª. Sª. é seo filho e herdeiro unico, e bem podia por si mesmo...

--Alto lá, senhor Miguel! meo pae felizmente é vivo ainda, e não me é

permitido desde já dispor de seos bens, como minha herança.

--Embora, senhor; tenha a bondade de guardar esse dinheiro e envial-o

ao senhor seo pae, rogando-lhe da minha parte o favor de cumprir a

promessa, que me fez de dar liberdade a Isaura mediante essa quantia.

--Ainda pões duvida, Leoncio?!--exclamou Malvina impaciente e indignada

com as tergiversações do marido.--Escreve, escreve quanto antes a teo

pae; não te podes esquivar sem desonra a cooperar para a liberdade

dessa rapariga.

Leoncio, subjugado pelo olhar imperioso da mulher, e pela força das

circumstancias, que contra elle conspiravão, não poude mais escusar-se.

Palido, sombrio e pensativo, foi sentar-se junto a uma mesa, onde

havia papel e tinta, e de penna em punho pôz-se a meditar em attitude,

de quem ia escrever. Malvina e Henrique, debruçados a uma janella,

conversavão entre si em voz baixa. Miguel, sentado a um canto na outra

extremidade da sala, esperava pacientemente, quando Isaura, que do

quintal, onde se achava escondida, o tinha visto chegar, entrando no

salão sem ser sentida, se lhe apresentou diante dos olhos. Entre pai e

filha travou-se a meia voz o seguinte dialogo:

--Meo pae!... que novidade o traz por aqui?... a modo que lhe estou

vendo um ar mais alegre que de costume.

--Caludo!--murmurou Miguel, levando o dedo á boca e apontando para

Leoncio.--Trata-se da tua liberdade.

--Devéras meo pae!... mas como poude arranjar isso?

--Ora como?!... a peso de ouro. Comprei-te, minha filha, e em breve vás

ser minha.

--Ah! meo querido pae!... como vm^{ce}. é bom para sua filha!... se

soubesse, quantos hoje já me vieram offerecer a liberdade!... mas

por que preço! meo Deos!... nem me atrevo a lhe contar. Meo coração

adivinhava, continuou beijando com terna efusão as mãos de Miguel;--eu

não devia receber a liberdade senão das mãos daquelle, que me deo a

vida!...

--Sim, querida Isaura!--disse o velho apertando-a contra o coração.--O

céo nos favoreceo, e em breve vás ser minha, minha só, minha para

sempre!...

--Mas elle consente?... perguntou Isaura apontando para Leoncio.

--O negocio não é com elle, é com seo pae, a quem agora escreve.

--Nesse caso tenho alguma esperança; mas se minha sorte depender

sómente daquelle homem, serei para sempre escrava.

--Arre! com mil diabos!... resmungou comsigo Leoncio levantando-se, e

dando sobre a mesa um furioso murro com o punho fechado.--Não sei que

volta hei-de dar para desmanchar esta inqualificavel loucura de meo pae!

--Já escreveste, Leoncio?--perguntou Malvina voltando-se para dentro.

Antes que Leoncio pudesse responder a esta pergunta, um pajem, entrando

rapidamente pela sala, entrega-lhe uma carta tarjada de preto.

--De luto!... meo Deos!... que será!--exclamou Leoncio, palido e

trémulo, abrindo a carta, e depois de a ter percorrido rapidamente com

os olhos lançou-se sobre uma cadeira, soluçando e levando o lenço aos

olhos.

--Leoncio! Leoncio!... que tem?... exclamou Malvina palida de susto; e

tomando a carta que Leoncio atirára sobre a mesa, começou a ler com voz

entre-cortada:

«Leoncio, tenho a dar-te uma dolorosa noticia, para a qual teo coração

não podia estar preparado. É um golpe, pelo qual todos nós temos de

passar inevitavelmente, e que deves suportar com resignação. Teo pae já

não existe; sucumbio ante-hontem subitamente, victima de uma congestão

cerebral...»

Malvina não poude continuar; e nesse momento esquecendo-se das injurias

e de tudo que lhe havia acontecido naquelle nefasto dia, lançou-se

sobre seo marido, e abraçando-se com elle estreitamente, misturáva suas

lagrimas com as delle.

--Ah! meo pae! meo pae!... tudo está perdido!--exclamou Isaura,

pendendo a linda e pura fronte sobre o peito de Miguel.--Já nenhuma

esperança nos resta!...

--Quem sabe, minha filha!--replicou gravemente o pae.--Não desanimemos;

grande é o poder de Deus!...

Capitulo VII.

Na fazenda de Leoncio havia um grande salão toscamente construido, sem

forro nem soalho, destinado ao trabalho das escravas, que se occupavão

em fiar e tecer lã e algodão.

Os moveis deste lugar consistião em tripeças, tamboretes, bancos, rodas

de fiar, dobadouras, e um grande tear collocado a um canto.

Ao longo do salão defronte de largas janellas guarnecidas de

balaústres, que davão para um vasto pateo interior, via-se postada uma

fila de fiandeiras. Erão de vinte a trinta negras, creoulas e mulatas,

com suas tenras crias ao collo ou pelo chão a brincarem em derredor

dellas. Umas conversavão, outras cantarolavão para encurtarem as longas

horas de seo fastidioso trabalho. Vião-se ali caras de todas as idades,

cores e feitios, desde a velha africana, trombuda e macilenta, até á

roliça e luzidia crioula, desde a negra brunida como azeviche até á

mulata quasi branca.

Entre estas ultimas distinguia-se uma rapariguinha a mais faceira

e gentil que se pode imaginar nesse genero. Esbelta e flexivel de

corpo, tinha o rostinho mimoso, labios um tanto grossos, mas bem

modelados, voluptuosos, humidos, e vermelhos como boninas, que acabão

de desabrochar em manhã de abril. Os olhos negros não erão muito

grandes, mas tinhão uma viveza e travessura encantadora. Os cabellos

negros e annelados, podião estar bem na cabeça da mais branca fidalga

de além-mar. Ella porém os trazia curtos e mui bem frisados á maneira

dos homens. Isto longe de tirar-lhe a graça, dava á sua physionomia

zombeteira e espevitada um chiste original e encantador. Se não fossem

os brinquinhos de ouro, que lhe tremião nas pequenas e bem molduradas

orelhas, e os turgidos e offegantes seios que como dois trêfegos

cabritinhos lhe pulavão por baixo de transparente camisa, tomal-a-hieis

por um rapazete maroto e petulante. Veremos em breve de que ralé era

esta creança, que tinha o bonito nome de Rosa.

No meio do sussurro das rodas, que giravão, das monotonas cantarólas

das fiandeiras, do compassado estrepito do tear, que trabalhava

incessantemente, dos guinchos e alaridos das creanças, quem prestasse

attento ouvido, escutaria a seguinte conversação, travada timidamente e

a meia voz em um grupo de fiandeiras, entre as quaes se achava Rosa.

--Minhas camaradas,--dizia a suas vizinhas uma creoula idosa, matreira

e sabida em todos os mysterios da casa desde os tempos dos senhores

velhos,--agora que sinhô velho morreo, e que sinhá Malvina foi-se

embora para a casa de seo pae della, é que nós vamos ver o que é rigor

de captiveiro.

--Como assim, tia Joaquina!?...

--Como assim!... vocês verão. Vocês bem sabem, que sinhô velho não era

de brinquedo; pois sim; lá diz o ditado = atrás de mim virá quem bom me

fará =. Este sinhô moço Leoncio ... hum!... Deos queira que me engane

... quer-me parecer que vae-nos fazer ficar com saudade do tempo de

sinhô velho...

--Cruz! ave Maria!... não falla assim, tia Joaquina!... então é melhor

matar a gente uma vez...

--Este não quer saber de fiados nem de tecidos, não; e daqui a pouco

nós tudo vae p’ra roça puxar enxada de sol a sol, ou p’ra o cafesal

apanhar café, e o pirahy do feitor ahi rente atrás de nós. Vocês verão.

Elle o que quer é café, e mais café, que é o que dá dinheiro.

--Tambem a dizer a verdade, não sei o que será melhor,--observou outra

escrava,--se estar na roça trabalhando de enxada, ou aqui pregada na

roda, desde que amanhece até nove, dez horas da noite. Quer-me parecer,

que lá ao menos a gente fica mais á vontade.

--Mais á vontade?!... que esperança!--exclamou uma terceira--Antes aqui

mil vezes! aqui ao menos a gente sempre está livre do maldito feitor.

--Qual, minha gente!--ponderou a velha creoula,--tudo é captiveiro.

Quem teve a desgraça de nascer captivo de um máo senhor, dê por aqui,

dê por acolá, ha-de penar sempre. Captiveiro é má sina; não foi Deos

que botou no mundo semelhante cousa, não; foi invenção do diabo. Não vê

o que aconteceo co’a pobre Juliana, mãe de Isaura?...

--Por fallar nisso,--atalhou uma das fiandeiras,--o que fica fazendo

agora a Isaura?... em quanto sinhá Malvina estava ahi, ella andava de

estadão na sala, agora...

--Agora fica fazendo as vezes de sinhá Malvina,--acudio Rosa com seo

sorriso maligno e zombeteiro.

--Cala a boca, menina!--bradou com voz severa a velha creoula.--Deixa

dessas fallas. Coitada da Isaura! Deos te livre a você de estar na

pelle daquella pobresinha! se vocês soubessem, quanto penou a pobre da

mãe della! ah! aquelle sinhô velho foi um homem judeo mesmo, Deos te

perdoe. Agora com Isaura e sinhô Leoncio a cousa vai tomando o mesmo

rumo. Juliana era uma mulata bonita e sacudida; era da côr desta Rosa,

mas inda mais bonita e mais bem feita....

Rosa deo um muchocho, e fez um momo desdenhoso.

--Mas isso mesmo foi a perdição dela, coitada!--continuou a creoula

velha.--O ponto foi sinhô velho gostar della ... eu já contei a vocês

o que é que aconteceo. Juliana era uma rapariga de brio, e por isso

teve de penar, até morrer. Nesse tempo o feitor era esse siô Miguel,

que anda ahi, e que é pai de Isaura. Isso é que era feitor bom!... todo

mundo queria elle bem, e tudo andava direito. Mas esse siô Francisco,

que ahi anda agora, cruz nelle!... é a peor peste que tem botado os

pés nesta casa. Mas, como ia dizendo, o siô Miguel gostava muito de

Juliana, e trabalhou, trabalhou até ajuntar dinheiro para forrar ella.

Mas nhonhô não esteve por isso, ficou muito zangado, e tocou o feitor

para fora.

Tambem Juliana pouco durou; perahy e serviço deo co’ela na cova em

pouco tempo. Ficou ahi a pobre menina ainda de mama, e se não fosse

sinhá velha, que era uma santa mulher, Deos sabe o que seria della!...

tambem, coitada!... antes Deos a tivesse levado!...

--Por que, tia Joaquina?...

--Por que está-me parecendo, que ella vae ter a mesma sina da mãe...

--E o que mais merece aquella impostora?--murmurou a invejosa e

malevola Rosa.--Pensa, que por estar servindo na sala é melhor do que

as outras, e não faz caso de ninguem. Deo agora em namorar os moços

brancos, e como o pae diz que ha-de forrar ella, pensa que e uma grande

senhora. Pobre do senhor Miguel!... não tem onde cahir morto, e ha-de

ter para forrar a filha!

--Que má lingua é esta Rosa!--murmurou enfadada a velha creoula,

relanceando um olhar de reprehensão sobre a mulata.--Que mal te fez

a pobre Isaura, aquella pomba sem fel, que com ser o que é, bonita e

civilisada como qualquer moça branca, não é capaz de fazer pouco caso

de ninguem?... Se você se pilhasse no lugar della, pachóla e atrevida

como és, havias de ser mil vezes peór.

Rosa mordeo os beiços de despeito, e ia responder com todo o

atrevimento e desgarre, que lhe era proprio, quando uma voz aspera e

atroadora, que partindo da porta do salão retumbou por todo elle, veio

pôr termo á conversação das fiandeiras.

--Silencio!--bradava aquella voz.--Arre! que tagarelice!... parece que

aqui só se trabalha de lingua!...

Um homem espadaúdo e quadrado, de barba espessa e negra, de physionomia

dura e repulsiva, apresenta-se á porta do salão, e vae entrando. Era

o feitor. Acompanhava-o um mulato ainda novo, esbelto e aperaltado,

trajando uma bonita libré de pajem, e conduzindo uma roda de fiar. Logo

após elles entrou Isaura.

As escravas todas levantárão-se e tomárão a benção ao feitor. Este

mandou collocar a roda em um espaço desoccupado, que infelizmente para

Isaura ficava ao pé de Rosa.

--Anda cá, rapariga;--disse o feitor voltando-se para Isaura.--De hoje

em diante é aqui o teo lugar; esta roda te pertence, e tuas parceiras

que te dêm tarefa para hoje. Bem vejo, que te não ha-de agradar muito

a mudança; mas que volta se lhe ha-de dar?... teo senhor assim o quer.

Anda lá; olha, que isto não é piano, não; é acabar depressa com a

tarefa para pegar em outra. Pouca conversa e muito trabalhar...

Sem se mostrar contrariada nem humilhada com a nova occupação, que

lhe davão, Isaura foi sentar-se junto á roda, e pôz-se a preparal-a

para dar começo ao trabalho. Posto que creada na sala, e empregada

quasi sempre em trabalhos delicados, todavia era ella habil em todo

o genero de serviço domestico: sabia fiar, tecer, lavar, engomar, e

cosinhar tão bem ou melhor do que qualquer outra. Foi pois collocar-se

com toda a satisfação e desembaraço entre as suas parceiras; apenas

notava-se no sorriso, que lhe adejava nos labios, certa expressão de

melancolica resignação; mas isso era o reflexo das inquietações e

angustias, que lhe opprimião o coração, que não desgosto por se ver

degradada do posto que occupára toda sua vida junto de suas senhoras.

Conscia de sua condição Isaura procurava ser humilde como qualquer

outra escrava, por que a despeito de sua rara belleza e dos dotes de

seo espirito, os fumos da vaidade não lhe entumecião o coração, nem

turvavão-lhe a luz de seo natural bom senso. Não obstante porém toda

essa modestia e humildade transluzia-lhe, mesmo a despeito della, no

olhar, na linguagem e nas maneiras, certa dignidade e orgulho nativo,

proveniente talvez da consciencia de sua superioridade, e ella sem o

querer sobresahia entre as outras, bella e donosa, pela correcção e

nobreza dos traços physionomicos e por certa distincção nos gestos e

ademanes. Ninguem diria que era uma escrava, que trabalhava entre as

companheiras, e a tomaria antes por uma senhora moça, que por desenfado

fiava entre as escravas. Parecia a garça real, alçando o collo garboso

e altaneiro, entre uma chusma de passaros vulgares.

As outras escravas a contemplavão todas com certo interesse e

comiseração, por que de todas era querida, menos de Rosa, que lhe tinha

inveja e aversão mortal. Em duas palavras o leitor ficará inteirado

do motivo desta malevolencia de Rosa. Não era só pura inveja; havia

ahi alguma cousa de mais positivo, que convertia essa inveja em odio

mortal. Rosa havia sido de ha muito a amasia de Leoncio, para quem

fôra facil conquista, que não lhe custou nem rogos nem ameaças. Desde

que porém inclinou-se a Isaura, Rosa ficou inteiramente abandonada

e esquecida. A gentil mulatinha sentio-se cruelmente ferida em seo

coração com esse desdem, e como era maligna e vingativa, não podendo

vingar-se de seo senhor, jurou descarregar todo o peso de seo rancor

sobre a pessoa de sua infeliz rival.

* * * * *

--Um raio que te parta, maldito!--Má lepra te consuma, cousa ruim!--Uma

cascavel que te morda a lingoa, cão danado?--Estas e outras pragas

vomitavão as escravas resmungando entre si contra o feitor, apenas

este voltou-lhes as costas. O feitor é o ente mais detestado entre

os escravos; um carrasco não carrega com tantos odios. É abominado

mais do que o senhor cruel, que o munio do azorrague desapiedado para

açoital-os e acabrunhal-os de trabalhos. É assim, que o paciente se

esquece do juiz, que lavrou a sentença para revoltar-se contra o algôz,

que a executa.

Como já dissemos, coube em sorte a Isaura sentar-se perto de Rosa. Esta

assestou logo contra sua infeliz companheira a sua bateria de dicterios

e remoques sarcasticos e irritantes.

--Tenho bastante pena de você, Isaura, disse Rosa para dar começo ás

operações.

--Devéras!--respondeo Isaura, disposta a oppor ás provocações de Rosa

toda a sua natural brandura e paciencia.--Pois por que, Rosa?...

--Pois não é duro mudar-se da sala para a senzala, trocar o sofá de

damasco por esse cepo, o piano e a almofada de cetim por essa roda? Por

que te enxotárão de lá Isaura?

--Ninguem me enxotou, Rosa; você bem sabe. Sinhá Malvina foi-se embora

em companhia de seo irmão para a casa do pae della. Portanto nada tenho

que fazer na sala, e é por isso que venho aqui trabalhar com vocês.

--E por que é, que ella não te levou, você, que era o ai! Jesus

della?... Ah! Isaura, você cuida que me embaça, mas está muito

enganada; eu sei de tudo. Você estava ficando muito aperaltada, e por

isso veio aqui para conhecer o seo lugar.

--Como és maliciosa!--replicou Isaura sorrindo tristemente, mas sem se

alterar;--pensas então que eu andava muito contente e cheia de mim por

estar lá na sala no meio dos brancos?... como te enganas!... se me não

perseguires com a tua má lingua, como principias a fazer, creio que

hei-de ficar mais satisfeita e socegada aqui.

--Nessa não creio eu; como é que você pode ficar satisfeita aqui, se

não acha moços para namorar?

--Rosa, que mal te fiz eu, para estares assim a amofinar-me com essas

fallas?...

--Olhe a sinhá não se zangue!... perdão, dona Isaura; eu pensei, que a

senhora tinha esquecido os seos melindres lá no salão.

--Podes dizer o que quiseres, Rosa; mas eu bem sei, que na sala ou na

cosinha eu não sou mais do que uma escrava como tu. Tambem deves-te

lembrar, que se hoje te achas aqui, ámanhã sabe Deos onde estarás.

Trabalhemos, que é nossa obrigação, e deixemos dessas conversas que não

tem graça nenhuma.

Neste momento ouvem-se as badaladas de uma sineta; erão tres para

quatro horas da tarde; a sineta chamava os escravos a jantar. As

escravas suspendem seos trabalhos, e levantão-se; Isaura porém não se

move, e continúa a fiar.

--Então?--diz-lhe Rosa com o seo ar escarninho,--você não ouve, Isaura?

são horas; vamos ao feijão.

--Não, Rosa; deixem-me ficar aqui; não tenho fome nenhuma. Fico

adiantando minha tarefa, que principiei muito tarde.

--Tem razão; tambem uma rapariga civilisadona e mimosa como você não

deve comer do caldeirão dos escravos. Quer que te mande um caldinho, um

chocolate?...

--Cala essa boca, tagarella!--bradou a creoula velha, que parecia ser

a priora daquelle rancho de fiandeiras.--Forte linguinha de vibora!...

deixa a outra socegar. Vamos, minha gente.

As escravas retirárão-se todas do salão, ficando só Isaura, entregue

ao seo trabalho e mais ainda ás suas tristes e inquietadoras

reflexões. O fio se estendia como que machinalmente entre seos dedos

mimosos, emquanto o pésinho nu e delicado, abandonando o tamanquinho

de marroquim, pousava sobre o pedal da roda, a que dava automatico

impulso. A fronte lhe pendia para um lado como assucena esmorecida, e

as palpebras meio cerradas eram como véos melancolicos, que encobrião

um pégo insondavel de tristura e desconforto. Estava deslumbrante de

belleza naquella encantadora e singela attitude.

--Ah! meo Deos!--pensava ella; nem aqui posso achar um pouco de

socego!... em toda parte jurárão martyrizar-me!... Na sala os brancos

me perseguem, e armão mil intrigas e enredos para me atormentarem.

Aqui, onde entre minhas parceiras, que parecem me querer bem, esperava

ficar mais tranquilla, ha uma, que por inveja ou seja lá pelo que

fôr, me olha de revés e só trata de achincalhar-me. Meo Deos! meo

Deos!... já que tive a desgraça de nascer captiva, não era melhor que

tivesse nascido bruta e disforme, como a mais vil das negras, do que

ter recebido do céo estes dotes, que só servem para amargurar-me a

existencia?

Isaura não teve muito tempo para dar larga expansão ás suas angustiosas

reflexões. Ouvio rumor na porta, e levantando os olhos vio que alguem

se encaminhava para ella.

--Ai! meo Deos!--murmurou comsigo.--Ahi temos nova importunação! nem ao

menos me deixão ficar sósinha um instante.

Quem entrava, era sem mais nem menos, o pajem André, que já vimos em

companhia do feitor, e que mui ancho, empertigado e petulante se foi

collocar defronte de Isaura.

--Boa tarde, linda Isaura. Então, como vae essa flor?--saudou o pachola

do pajem com toda a faceirice.

--Bem, respondeo secamente Isaura.

--Estás amuada?... tens razão, mas é preciso ir-se accomodando com este

novo modo de vida. Devéras que para quem estava acostumada lá na sala,

no meio de sedas e flores e agoas de cheiro, ha-de ser bem triste ficar

aqui mettida entre estas paredes enfumaçadas que só tresandão a sarro

de pito e murrão de candeia.

--Tambem tu, André, vens por tua vez aproveitar-te da occasião para me

atirar lama na cara?...

--Não, não, Isaura; Deos me livre de te offender; pelo contrario,

dóe-me devéras dentro do coração ver aqui misturada com esta corja de

negras beiçudas e catinguentas uma rapariga como tu, que só merece

pisar em tapetes e deitar em colchões de damasco. Este senhor Leoncio

tem mesmo um coração de fera.

--E que te importa isso? eu estou bem satisfeita aqui.

--Qual!... não acredito; não é aqui teo lugar. Mas tambem por outra

banda estimo bem isso.

--Por que?

--Por que, emfim, Isaura, a fallar-te a verdade gosto muito de você, e

aqui ao menos podemos conversar mais em liberdade...

--Devéras!... declaro-te desde já, que não estou disposta a ouvir tuas

liberdades.

--Ah! é assim!--exclamou André todo enfunado com este brusco

desengano.--Então a senhora quer só ouvir as finezas dos moços bonitos

lá na sala!... pois olha, minha camarada, isso nem sempre pode ser,

e cá da nossa laia não és capaz de encontrar rapaz de melhor figura,

do que este seo criado. Ando sempre engravatado, enluvado, calçado,

engomado, agaloado, perfumado, e o que mais é,--acrescentou batendo

com a mão na algibeira,--com as algibeiras sempre a tinir. A Rosa,

que tambem é uma rapariguinha bem bonita, bebe os ares por mim; mas

coitada!... o que é ella ao pé de você?... Enfim, Isaura, se você

soubesse quanto bem te quero, não havias de fazer tão pouco caso de

mim. Se tu quizesses, olha ... escuta.

E dizendo isto o maroto do pajem, avisinhando-se de Isaura, foi-lhe

lançando desembaraçadamente o braço em torno do collo, como quem queria

fallar-lhe em segredo, ou talvez furtar-lhe um beijo.

--Alto lá!--exclamou Isaura repellindo-o com enfado.--Está ficando

bastante adiantado e atrevido. Retire-se daqui, senão irei dizer tudo

ao senhor Leoncio.

--Oh! perdoa, Isaura; não ha motivo para você se arrufar assim. És

muito má, para quem nunca te offendeo, e te quer tanto bem. Mas deixa

estar, que o tempo ha-de-te amaciar esse coraçãosinho de pedra. Adeos;

eu já me vou embora; mas olha lá, Isaura; pelo amor de Deos, não vá

dizer nada a ninguem. Deos me livre que sinhô moço saiba do que aqui se

passou; era capaz de me enforcar. O que vale,--continuou André comsigo

e retirando-se,--o que vale é que neste negocio parece-me que elle anda

tão adiantado como eu.

Pobre Isaura! sempre e em toda parte esta continúa importunação de

senhores e de escravos, que não a deixão socegar um só momento! Como

não devia viver afflicto e attribulado aquelle coração! Dentro de casa

contava ella quatro inimigos, cada qual mais porfiado em roubar-lhe a

paz da alma, e torturar-lhe o coração: tres amantes, Leoncio, Belchior,

e André, e uma emula terrivel e desapiedada, Rosa. Facil lhe fôra

repellir as importunações e insolencias dos escravos e creados; mas que

seria della, quando viesse o senhor!?...

De feito, poucos instantes depois Leoncio, acompanhado pelo feitor,

entrava no salão das fiandeiras. Isaura, que um momento suspendera o

seo trabalho, e com o rosto escondido entre as mãos se embevecia em

amargas reflexões, não se apercebera da presença delles.

--Onde estão as raparigas que aqui costumão trabalhar?... perguntou

Leoncio ao feitor, ao entrar no salão.

--Forão jantar, senhor; mas não tardarão a voltar.

--Mas uma cá se deixou ficar ... ah! é a Isaura ... Ainda

bem!--reflectio comsigo Leoncio,--a occasião não pode ser mais

favoravel; tentemos os ultimos esforços para reduzir aquella

empedernida creatura. Logo que acabem de comer,--continuou elle

dirigindo-se ao feitor,--leve-as para a colheita do café. Ha muito que

eu pretendia recomendar-lhe isto e tenho-me esquecido. Não as quero

aqui mais nem um instante; isto é um lugar de vadiação, em que perdem

o tempo sem proveito algum, em continuas palestras. Não falta por ahi

tecidos de algodão para se comprar.

Mal o feitor se retirou, Leoncio dirigio-se para junto de Isaura.

--Isaura! murmurou com voz meiga e commovida.

--Senhor!--respondeo a escrava erguendo-se sobresaltada; depois

murmurou tristemente dentro d’alma:--meo Deos! é elle!... é chegada a

hora do supplicio.

Capitulo VIII.

Agora nos é indispensavel abandonar por alguns instantes Isaura em

sua penivel situação diante de seo dissoluto e barbaro senhor para

informarmos o leitor sobre o que occorrera no seio daquella pequena

familia, e em que pé ficárão os negocios da casa, depois que a noticia

da morte do commendador, estalando como uma bomba no meio das intrigas

domesticas, veio dar-lhes dolorosa diversão no momento, em que ellas

refervendo no mais alto gráo de ebullição, reclamavão forçosamente um

desenlace qualquer.

Aquella morte não podia senão prolongar tão melindrosa e deploravel

situação, pondo nas mãos de Leoncio toda a fortuna paterna, e desatando

as ultimas peias, que ainda o tolhião na expansão de seos abominaveis

instinctos.

Leoncio e Malvina estivérão de nojo encerrados em casa por alguns dias,

durante os quaes parece que derão tregoas aos arrufos e despeitos

reciprocos. Henrique, que queria absolutamente partir no dia seguinte,

cedendo emfim aos rogos e instancias de Malvina, consentio em ficar-lhe

fazendo companhia durante os dias de nojo.

--Conforme fôr o procedimento de meo marido, disse-lhe ella,--iremos

juntos. Se por estes dias não der liberdade e um destino qualquer a

Isaura, não ficarei mais nem um momento em sua casa.

Leoncio encerrado em seo quarto a ninguem falou, nem apareceo durante

alguns dias, e parecia mergulhado no mais inconsolavel e profundo

pesar. Entretanto, não era assim. É verdade que Leoncio não deixou

de soffrer certo choque, certa sorpresa, que não golpe doloroso, com

a noticia do fallecimento de seo pae; mas no fundo d’alma,--força é

dizel-o,--passado o primeiro momento de abalo e consternação chegou

até a estimar aquelle acontecimento, que tanto a proposito vinha

livral-o dos apuros, em que se achava enleado em face de Malvina e de

Miguel. Portanto durante a sua reclusão em vez de entregar-se á dor

que lhe deveria causar tão sensivel golpe, Leoncio, que por maneira

nenhuma podia resignar-se a desfazer-se de Isaura, só meditava os meios

de safar-se das difficuldades, em que se achava envolvido, e urdia

planos para assegurar-se a posse da gentil captiva. As difficuldades

erão grandes, e constituião um nó, que poderia ser cortado, mas nunca

desatado. Leoncio havia reconhecido a promessa que seo pae fizera

a Miguel, de alforriar Isaura mediante a soma enorme de dez contos

de réis. Miguel tinha pronta essa quantia, e lh’a tinha vindo meter

nas mãos, reclamando a liberdade de sua filha. Leoncio reconhecia

tambem, e nem podia contestar, que sempre fôra voto de sua fallecida

mãe deixar livre Isaura por sua morte. Por outro lado Malvina,

sabedora de sua paixão e de seos sinistros intentos sobre a captiva,

justamente irritada, exigia com imperio a immediata alforria da mesma.

Não restava ao mancebo meio algum de se tirar decentemente de tantas

difficuldades senão libertando Isaura. Mas Leoncio não podia se

conformar com semelhante idéa. O violento e cego amor, que Isaura lhe

havia inspirado, o incitava a saltar por cima de todos os obstaculos,

a arrostar todas as leis do decoro e da honestidade, a esmagar sem

piedade o coração de sua meiga e carinhosa esposa, para obter a

satisfação de seos freneticos desejos. Resolveo pois cortar o nó,

usando de sua prepotencia, e protelando indefinidamente o cumprimento

de seo dever, assentou de afrontar com cynica indifferença e brutal

sobranceria as justas exigencias e exprobrações de Malvina.

Quando esta, depois de deixar passar alguns dias em respeito á dor

de que julgava seo marido acabrunhado, lhe tocou naquelle melindroso

negocio:

--Temos tempo, Malvina,--respondeo-lhe o marido com toda a calma.--É-me

preciso em primeiro lugar dar balanço e fazer o inventario da casa

de meo pae. Tenho de ir á côrte arrecadar os seos papeis e tomar

conhecimento do estado de seos negocios. Na volta e com mais vagar

trataremos de Isaura.

Ao ouvir esta resposta o rosto de Malvina cobrio-se de palidez mortal;

ella sentio esfriar-lhe o coração apertado entre as mãos geladas do

mais pungente dissabor, como se ali se esmoronasse de repente todo o

sonhado castello de suas venturas conjugaes. Ella esperava que o marido

fulminado por tão doloroso golpe naquelles dias de amarga meditação e

abatimento, retrahindo-se no santuario da consciencia, reconhecesse

seos erros e desvarios, implorasse o perdão delles, e se propuzesse

a entrar nas sendas do dever e da honestidade. As frias desculpas e

futeis evasivas do marido vierão submergil-a de chofre no mais amargo e

profundo desalento.

--Como?!--exclamou ella com um accento que exprimia a um tempo altiva

indignação e o mais entranhado desgosto.--Pois ainda hesitas em cumprir

tão sagrado dever?... se tivesses alma, Leoncio, terias considerado

Isaura como tua irmã, pois bem sabes que tua mãe a amava e idolatrava

como a uma filha querida, e que era seo mais ardente desejo libertal-a

por sua morte e deixar-lhe um legado consideravel, que lhe assegurasse

o futuro. Sabes tambem, que teo pae havia feito promessa solemne ao

pae de Isaura de dar-lhe alforria pela quantia de dez contos de réis,

e Miguel já te veio pôr nas mãos essa exorbitante quantia. Sabes tudo

isto, e ainda vens com duvidas e demoras!... Oh! isto é muito!... não

vejo motivo nenhum para demorar o cumprimento de um dever, de que ha

muito tempo já devias ter-te desempenhado.

--Mas para que, semelhante pressa?... não me dirás, Malvina?--replicou

Leoncio com a maior brandura e tranquillidade.--De que proveito pode

ser agora a liberdade para Isaura? por ventura não está ella aqui

bem? é maltratada?... soffre alguma privação?... não continúa a ser

considerada antes como uma filha da familia, do que como uma escrava?

queres que desde já a soltemos á toa por esse mundo?... assim de

certo não cumpriremos o desejo de minha mãe, que tão sollicita se

mostrava pela sorte futura de Isaura. Não, minha Malvina; não devemos

por ora entregar Isaura a si mesma. É preciso primeiro assegurar-lhe

uma posição decente, honesta e digna de sua belleza e educação,

procurando-lhe um bom marido, e isso não se arranja assim de um dia

para outro.

--Que miseravel desculpa, meo amigo!... Isaura por ora não precisa de

marido para protegel-a; tem o pae, que é homem muito de bem, e acaba de

dar provas de quanto adora sua filha. Entreguemol-a ao senhor Miguel,

que ficará em muito boas mãos, e debaixo de muito boa sombra.

--Pobre do senhor Miguel!--replicou Leoncio com sorriso

desdenhoso.--Terá bons desejos, não duvido; mas onde estão os meios, de

que dispõe, para fazer a felicidade de Isaura, principalmente agora em

que de certo empenhou os cabellos da cabeça para arranjar a alforria da

filha, se é que isso não proveio de esmolas, que lhe fizerão, como me

parece mais certo.

Por unica resposta Malvina abanou tristemente a cabeça e suspirou.

Todavia quiz ainda acreditar na sinceridade das palavras de seo marido,

fingio-se satisfeita e retirou-se sem dar mostras de agastamento. Não

podia porém prolongar por mais tempo aquella situação para ella tão

humilhante, tão cheia de anciedade e desgosto, e no outro dia insistio

ainda com mais força sobre o mesmo objecto. Teve em resposta as mesmas

evasivas e moratorias. Leoncio affectava mesmo tratar desse negocio

com certa indifferença desdenhosa, como quem estava definitivamente

resolvido a fazer o que quizesse. Malvina desta vez não pôde conter-se,

e rompeo com seo marido. Este, como já friamente havia deliberado,

aparou os raios da cólera feminina no escudo de uma imprudencia cynica

e galhofeira, o que levou ao ultimo gráo de exacerbação a cólera e o

despeito de Malvina.

No outro dia Malvina, sem dar satisfação alguma a quem quer que fosse,

deixava precipitadamente a casa de Leoncio, e partia em companhia

de seo irmão Henrique caminho do Rio de Janeiro, jurando no auge da

indignação nunca mais pôr os pés naquella casa, onde era tão vilmente

ultrajada, e varrer para sempre da lembrança a imagem de seo desleal

e devasso marido. No assomo do despeito não calculava se teria forças

bastantes para levar a effeito aquelles freneticos juramentos,

inspirados pela febre do ciume e da indignação; ignorava, que nas almas

ternas e bondosas como a sua o odio se desvanece muito mais depressa

do que o amor; e o amor, que Malvina consagrava a Leoncio, a despeito

de seos desmandos e devassidões, era muito mais forte do que o seo

resentimento, por mais justo que este fosse.

Leoncio por seo lado, levando por diante o seo plano de oppôr aos

assomos da esposa a mais inerte e cynica indifferença, vio de braços

cruzados e sem fazer a minima observação, os preparativos daquella

rapida viagem, e recostado ao alpendre, fumando indolentemente o

seo charuto, assistio á partida de sua mulher, como se fôra o mais

indifferente dos hospedes.

Entretanto essa indifferença de Leoncio nada tinha de natural e

sincera; não que elle sentisse pezar algum pela brusca partida de

sua mulher; pelo contrario era jubilo, que sentia com a realização

daquella caprichosa resolução de Malvina, que assim lhe abandonava o

campo inteiramente livre de embaraços, para proseguir em seos nefandos

projetos sobre a infeliz Isaura. Com aquelle fingido pouco caso,

conseguia disfarçar o prazer e satisfação, em que lhe transbordava

o coração; e como era aphorismo adoptado e sempre posto em pratica

por elle, posto que em circumstancias menos graves,--que contra as

cóleras e caprichos femininos não ha arma mais poderosa do que muito

sangue frio e pouco caso, Malvina não pôde descobrir no fundo daquella

affectada indifferença o jubilo intenso, em que nadava a alma de seo

marido.

O que era feito porém da nobre e infeliz Isaura durante esses longos

dias de lucto, de consternação, de anciedades e dissabores?

Desde que ouviu a leitura da carta, em que se noticiava a morte do

commendador, Isaura perdeo todas as lisongeiras esperanças, que um

momento antes Miguel fizera desabrochar em seo coração. Transida de

horror comprehendeo, que um destino implacavel a entregava victima

indefesa entre as mãos de seo tenaz e desalmado perseguidor. Sabedora

da miseranda sorte de sua mãe, não encontrava em sua imaginação abalada

outro remedio a tão cruel situação senão resignar-se e preparar-se

para o mais atroz dos martyrios. Um cruel desalento, um pavor mortal

apoderou-se de seo espirito, e a infeliz, palida, desfeita, e como que

hallucinada, ora vagava á toa pelos campos, ora escondida nas mais

espessas moitas do pomar, ou nos mais sombrios recantos das alcovas,

passava horas e horas entre sustos e angustias, como a timida lebre,

que vê pairando no céo a aza sinistra do gavião de garras sangrentas.

Quem poderia amparal-a? Onde poderia encontrar protecção contra as

tyrannicas vontades de seo libertino e execravel senhor? Só duas

pessoas poderião ter por ella commiseração e interesse; seo pae e

Malvina. Seo pae, obscuro e pobre feitor, não tendo ingresso em casa de

Leoncio, e só podendo communicar-se com ella a custo e furtivamente,

em pouco ou nada podia valer-lhe. Malvina, que sempre a havia tratado

com tanta bondade e carinho, ai! A propria Malvina, depois da scena

escandalosa em que colhera seo marido, dirigindo a Isaura palavras

enternecidas, começou a olhal-a com certa desconfiança e afastamento,

terrivel effeito do ciume, que torna injustas e rancorosas as almas

ainda as mais candidas e benevolentes. A senhora, com o correr dos

dias, tornava-se cada vez menos tratavel e benigna para com a escrava,

que antes havia tratado com carinho e intimidade quasi fraternal.

Malvina era boa e confiante, e nunca teria duvidado da innocencia de

Isaura, se não fosse Rosa, sua terrivel emula e figadal inimiga. Depois

do desaguisado, de que Isaura foi causa innocente, Rosa ficou sendo a

mucama ou criada da camara de Malvina, e esta ás vezes desabafava em

presença da maligna mulata os ciumes e desgostos, que lhe fervião e

transvasavão do coração.

--Sinhá está-se fiando muito naquella sonsa...--dizia-lhe a maliciosa

rapariga.--Pois fique certa, que não são de hoje esses namoricos; ha

muito tempo, que eu estou vendo essa impostora, que diante da sinhá

se faz toda simploria, andar-se derretendo diante de sinhô moço. Ella

mesmo é que tem a culpa d’elle andar assim com a cabeça virada.

Estes e outros muitos quejandos enredos, que Rosa sabia habilmente

insinuar nos ouvidos de sua senhora, erão bastantes para desvairar

o espirito de uma candida e inexperiente moça como Malvina, e forão

produzindo o resultado, que desejava a perversa mulatinha.

Acabrunhada com aquelle novo infortunio, Isaura fez algumas tentativas

para achegar-se de sua senhora, e saber o motivo por que lhe retirava

a affeição e confiança, que sempre lhe mostrára, e a fim de poder

manifestar sua innocencia. Mas era recebida com tal frieza e altivez,

que a infeliz recuava espavorida para de novo ir mergulhar-se mais

fundo ainda no pégo de suas angustias e desalentos.

Todavia emquanto Malvina se conservava em casa, era sempre uma

salva-guarda, uma sombra protectora, que amparava Isaura contra as

importunações e brutaes tentativas de Leoncio. Por menor que fosse o

respeito, que lhe tinha o marido, ella não deixava de ser um poderoso

estorvo ao menos contra os actos de violencia, que quizesse pôr em

pratica para conseguir seos execrandos fins. Isaura ponderava isso

tudo, e é custoso fazer-se idéa do estado de terror e desfallecimento

em que ficou aquella pobre alma quando vio partir sua senhora,

deixando-a inteiramente ao desamparo, entregue sem defesa aos insanos

e barbaros caprichos daquelle, que era seo senhor, amante e algôz ao

mesmo tempo.

A escrava Isaura · 第 4 / 7 题