Ensinou alguem á abelha

que no prado anda a zumbir

se á flor branca ou se á vermelha

o seu mel ha de ir pedir?

Que eras tu meu ser, querida,

teus olhos a minha vida,

teu amor todo o meu bem,

ai, não m’ o disse ninguem.

Como a abelha corre ao prado,

como no ceo gira a estrela,

como a todo o ente o seu fado

por instinto se revela,

eu no teu seo divino

vim cumprir meu destino;

vim, que em ti só sei viver,

só por ti posso morrer.

_170. Ignoto Deo_

Creio em ti, Deus, a fe viva

de minha alma a ti se eleva;

es—o que es não sei: deriva

meu ser do teu, luz e treva

em que indistintas se envolve

este espirito agitado,

de ti vem, a ti devolve.

O nada, a que foi roubado

pelo sopro criador,

tudo o mais o ha de tragar:

só vive de eterno ardor

o que está sempre a aspirar

ao infinito de onde veio.

Beleza es tu, luz es tu,

verdade es tu só. Não creio

senão em ti. O olho nu

do homem não ve na terra

mais que a duvida, a incerteza,

a forma que engana e erra:

essencia, a real beleza,

o puro amor, o prazer

que não fatiga e não gasta

só por ti os pode ver

o que inspirado se afasta,

ignoto Deus, das ronceiras

vulgares turbas, despidos

das cousas vans e grosseiras,

sua alma, razão, sentidos,

a ti se dão, em ti vida

e por ti vida tem. Eu consagrado

a teu altar me prostro e a combatida

existencia aqui ponho, aqui votado

fica este livro, confessão sincera

da alma que em ti voou e em ti só espera.

_171. Cascaes_

Acabava ali a terra

nos derradeiros rochedos,

a deserta, arida serra

por entre os negros penedos

só deixa viver mesquinha

triste pinheiro maninho.

E os ventos despregados

sopravam rijos na rama,

e os ceos turvios, anuviados,

o mar que incessante brama:

tudo ali era braveza

da selvagem natureza.

Aí na quebra do monte,

entre uns juncos mal medrados

seco o rio, seca a fonte,

ervas e matos queimados,

aí nessa bruta serra,

aí foi um ceo na terra.

Ali sós no mundo, sós,

santo Deus! como vivemos!

Como eramos tudo nos

e de nada mais soubemos!

Como nos folgava a vida,

de tudo o mais esquecida!

Que longos beijos sem fim!

Que falar dos olhos mudo!

Como ela vivia em mim!

Como eu tinha nela tudo,

minha alma em sua razão,

meu sangue em seu coração!

Os anjos aqueles dias

contaram na eternidade

que essas horas fugidias,

seculos na intensidade,

por milenios marca Deus

quando os dá aos que são seus.

Ai sim! foi a tragos largos,

longos, fundos que a bebi,

do prazer a taça: amargos,

depois, depois os senti,

os travos que ela deixou,

mas como eu ninguem gosou.

Ninguem, que é preciso amar

como eu amei, ser amado

como eu fui, dar e tomar

do outro ser a quem se ha dado

toda a razão, toda a vida

que em nos se anula perdida.

Ai, ai, que pesados anos

tardios depois vieram!

Ó que fatais desenganos

ramo a ramo a desfizeram,

a minha choça na serra,

lá onde se acaba a terra.

Se o visse—não quero vê-lo,

aquele sitio encantado:

certo estou não conhecê-lo,

tam outro estará mudado,

mudado como eu, como ela

que a vejo sem conhecê-la.

Inda ali acaba a terra,

mas ja o ceo não começa,

que aquela visão da serra

sumiu-se na treva espessa,

e deixou nua a tristeza

d’ essa agreste natureza.

ANTONIO FELICIANO DE CASTILHO

[Sidenote: 1800-1875]

_172. A Fonte dos Amores_

Fonte mais pura que o lustroso vidro,

mais que o vivo cristal que as rochas veste,

ó de inocentes miseros amores

outr’ ora testemunha,

Com que verso que iguale o que mereces

cantarei dignamente as aguas tuas

e a relva que te borda a fresca terra

e as flores que a matizam?

Em que verso milhor folgas que entoe

digno louvor ás arvores anosas

que te cercam beneficas, lançando

amiga sombra aos vates?

Se outras cordas minha lira ornasse

de Maia o filho, o aligero Mercurio,

se novos sons na minha voz creassem

as ondas de Aganippe,

entam celebraria os nobres seixos

onde o sangue de Inés o tempo adora,

onde o sangue de Inés inda hoje arranca

o pranto a amor e ás ninfas.

Os zefiros e as auras neste sitio,

sem que os ais da infeliz jamais esqueçam,

tristes movendo a tremula folhagem

saudade doce avivam.

As aguas tuas e as visinhas letras,

sobre as quais cada dia amor suspira,

o sangue inda recente, os velhos troncos,

tudo te faz formosa.

Corre, ó fonte das lagrimas, ah sempre

aos ternos corações de amantes tristes

corras grata e suave e tenhas d’ eles

os cultos que te sagro!

ALEXANDRE HERCULANO E ARAUJO

[Sidenote: 1810-1877]

_173. A Cruz Mutilada_

Amo-te, ó cruz, no vertice firmada

de esplendidas igrejas;

amo-te quando á noite, sobre o campo,

junto ao cipreste alvejas;

amo-te sobre o altar, onde entre incensos

as preces te rodeam;

amo-te quando em prestito festivo

as multidões te hasteam;

amo-te erguido no cruzeiro antigo,

no adro do presbiterio;

quando o morto, impressa no ataude,

guias ao cemiterio;

amo-te, ó cruz, até quando no vale

negrejas triste e só,

nuncia do crime a que deveu a terra

do assassinado o pó;

porem quando mais te amo,

ó cruz do meu Senhor,

é se te encontro á tarde

antes de o sol se pôr,

na clareira da serra

que o arvoredo assombra,

quando á luz que fenece

se estira a tua sombra,

e o dia ultimos raios

com o luar mistura,

e o seu hino da tarde

o pinheiral murmura.

E eu te encontrei num alcantil agreste

meo quebrada, ó cruz. Sósinha estavas,

ao pôr do sol e ao elevar-se a lua

detras do calvo serro. A soledade

não te póde valer contra a mão impia

que te feriu sem dó. As linhas puras

de teu perfil, falhadas, tortuosas,

ó mutilada cruz, falam de um crime,

sacrilegio brutal e ao impio inutil!

A tua sombra estampa-se no solo

como a sombra de antigo monumento

que o tempo quasi derrocou truncado.

No pedestal musgoso, em que te ergueram

nossos avós, eu me assentei. Ao longe

do presbiterio rustico mandava

o sino os simples sons pelas quebradas

da cordilheira, anunciando o instante

da _Ave Maria_, da oração singela

mas solene, mas santa, em que a voz do homem

se mistura nos canticos saudosos

que a natureza envia ao ceo no extremo

raio do sol, passando fugitivo

na tangente deste orbe, ao qual trouxeste

liberdade e progresso e que te paga

com a injuria e o desprezo e que te inveja

até na solidão o esquecimento!

Foi da ciencia incredula secterio

acaso, ó cruz da serra, o que na face

afrontas te gravou com mão profana?

Não! Foi o homem do povo, a quem consolo

na miseria e na dor constante has sido

por bem dezoito seculos: foi esse

por cujo amor surgias qual remorso

nos sonhos do abastado ou do tirano,

bradando esmola a um, piedade ao outro.

Ó cruz, se desde Golgota não foras

simbolo eterno de uma crença eterna,

se a nossa fe em ti fosse mentida,

dos opressos de outrora os livres netos

por sua ingratidão dignos de oprobrio,

se não te amassem, ainda assim seriam;

mas es nuncia do ceo: e eles te insultam,

esquecidos das lagrimas perenes

por trinta gerações, que guarda a campa,

vertidas aos teus pes nos dias torvos

do seu viver de escravidão! Deslumbram-se

de que, se a paz domestica, a pureza

do leito conjugal bruta violencia

não vai contaminar, se a filha virgem

do humilde camponés não é ludibrio

do opulento, do nobre, ó cruz, t’ o devem;

que por ti o cultor de ferteis campos

colhe tranquilo da fatiga o premio,

sem que a voz de um senhor, qual d’antes dura,

lhe diga: É meu, e es meu. A mim deleites,

liberdade, abundancia; a ti, escravo,

o trabalho, a miseria, unido á terra

que o suor dessa fronte fertilisa,

em quanto, em dia de furor ou tedio,

não me apraz com teus restos fecundâ-la.

Quando calada a humanidade ouvia

este atroz blasfemar, tu te elevaste

lá do Oriente, ó cruz, envolta em gloria,

e bradaste tremenda ao forte, ao rico:

Mentira! E o servo alevantou os olhos,

onde a esperança scintilava, a medo,

e viu as faces do senhor retintas

em palidez mortal e errar-lhe a vista

trepida, vaga: a cruz no ceo do Oriente

da liberdade anunciava a vinda.

Cansado, o ancião guerreiro, que a existencia

desgastou no volver de cem combates,

ao ver que enfim o seu pais querido

ja não ousam calcar os pes de estranhos,

vem assentar-se á luz meiga da tarde,

na tarde do viver, junto do teixo

da montanha natal. No fronte calvo

que o sol tostou e que enrugaram anos,

ha um como fulgor, sereno e santo.

Da aldea semi-deus, devem-lhe todos

o teito, a liberdade, e a honra e vida.

Ao perpassar do veterano os velhos

a mão que os protegeu apertam gratos;

com amorosa timidez os moços

saudam-no qual pai. Nas largas noites

de gelada estação sobre a lareira

nunca lhe falta o cepo incendiado;

sobre a mesa frugal nunca no estio

refrigerante pomo: assim do velho

pelejador os derradeiros dias

derivam para o tumulo suaves,

rodeados de afecto, e quando á terra

a mão do tempo gastador o guia,

sobre a lousa a saudade ainda lhe esparze

flores, lagrimas, bençãos que consolem

do defensor do fraco as cinzas frias.

Pobre cruz! Pelejaste mil combates,

os gigantes combates dos tiranos,

e venceste. No solo libertado

que pediste? Um retiro no deserto,

um pincaro granitico, açoutado

pelas asas do vento, e enegrecido

por chuvas e por sois. Para ameigar-te

este ar humido e gelido a segure

não foi ferir do bosque o rei; do estio

no ardor canicular nunca disseste:

Dai-me sequer do bravo medronheiro

o desprezado fruto; o teu vestido

era o musgo que tece a mão do inverno

e Deus creou para trajar as rochas.

Filha do ceo, o ceo era teu teito,

teu escabelo o dorso da montanha.

Tempo houve em que esses braços te adornava

coroa viçosa de gentis boninas

e o pedestal te rodeavam preces.

Ficaste em breve só e a voz humana

fez pouco a pouco junto a ti silencio.

Que te importa? As arvores da encosta

curvavam-se a saudar-te, e revoando

as aves vinham circundar-te de hinos.

Afagava-te o raio derradeiro

frouxo do sol ao mergulhar nos mares,

e esperavas o tumulo. O teu tumulo

devera ser o seo destas serras

quando em genesis novo á voz do Eterno

do orbe ao nucleo fervente que as gerara

elas nas fauces dos volcões decessem.

Entam para essa campa flores, bençãos,

ou de saudade lagrimas vertidas,

qual do velho soldado a lousa pede

não pediras á ingrata raça humana

ao pe de ti no seu sudario envolta.

Este longo esperar do dia extremo

no esquecimento do ermo abandonado

foi duro de sofrer aos teus remidos,

ó redentora cruz! Eras acaso

como um remorso e acusação perene

no teu rochedo alpestre onde te viam

pousar triste e só? Acaso á noite,

quando a procela no pinhal rugia,

criam ouvir-te a voz acusadora

sobrelevar a voz da tempestade?

Que lhes dizias tu? De Deus falavas

e do seu Cristo, do divino mártir,

que a ti, suplicio e afronta, a ti maldita

ergueu, purificou, clamando ao servo

no seu trance final: Ergue-te, escravo!

Es livre, como é pura a cruz da infamia:

ela vil e tu vil, santo, sublime

sereis ante meu Pai: ergue-te, escravo!

Abraça tua irman, segue-a sem susto

no caminho dos seculos; da terra

pertence-lhe o porvir, e o seu triunfo

trará de tua liberdade o dia.

Eis porque teus irmãos te arrojam pedras

ao perpassar, Ó cruz! Pensam ouvir-te

nos rumores da noite a antiga historia,

recontando do Golgota, lembrando-lhes

que só ao Cristo a liberdade devem

e que impio o povo ser é ser infame.

Mutilado por ele, a pouco e pouco,

tu em fragmentos tombarás do cerro,

simbolo sacrosanto: hão de os humanos

aos pes pisar-te, e esquecerás no mundo.

Da gratidão a divida não paga

ficará, ó tremenda acusadora,

sem que as faces lhes tinja a cor do pejo,

sem que o remorso os corações lhes rasgue.

Do Cristo o nome passará na terra.

Não! Quando em pó desfeita a cruz divina

deixar de ser perene testemunha

da avita crença, os montes, a espessura,

o mar, a lua, o murmurar da fonte,

da natureza as vagas harmonias

da cruz em nome falarão do Verbo.

Dela no pedestal entam deserto

do deserto no seo, ainda o poeta

virá talvez ao pôr do sol sentar-se,

e a voz da selva lhe dirá que é santo

este rochedo nu e um hino pio

a solidão lhe ensinará e a noite.

Do cantico futuro uma toada

não sintes vir, ó cruz, de alem dos tempos,

da brisa do crepusculo nas asas?

É o porvir que te proclama eterna,

é a voz do poeta a saudar-te.

Montanha do Oriente,

que sobre as nuvens elevando o cume,

divisas logo o sol, surgindo a aurora,

e que lá no Occidente

ultima ves seu radioso lume,

em ti minha alma a eterna cruz adora.

Rochedo que descansas

no promontorio nu e solitario,

como atalaia que o Oceano explora,

alheo ás mil mudanças

que o mundo agitam turbulento e vario,

em ti minha alma a eterna cruz adora.

Sobros, robles frondentes,

cuja sombra procura o viandante

fugindo ao sol a prumo que o devora,

nesses dias ardentes

em que o Leão nos ceos passa radiante,

em ti minha alma a eterna cruz adora.

Ó mato variado,

de rosmaninho e murta entretecido,

de cujas tenues flores se evapora

aroma delicado,

quando es por leve aragem sacudido,

em ti minha alma a eterna cruz adora.

Ó mar que vais quebrando

rolo apos rolo pela praia fria,

e fremes som de paz consoladora,

dormente murmurando

na caverna maritima sombria,

em ti minha alma a eterna cruz adora.

Ó lua silenciosa,

que em perpetuo volver seguindo a terra,

esparzes tua luz ameigadora

pela serra formosa

e pelos lagos que em seu seo encerra,

em ti minha alma a eterna cruz adora.

Surges, simbolo eterno

no ceo, na terra, no mar,

do forte no expirar,

e do viver no alvor!

_174. A Tempestade_

Sibila o vento, os torreões de nuvens

pesam nos densos ares;

ruge ao largo a procela e encurva as ondas

pola extensão dos mares:

a imensa vaga ao longe vem correndo

em seu terror envolta,

e de entre as sombras rapidas centelhas

a tempestade solta.

Do sol no ocaso um raio derradeiro

que, apenas fulge, morre,

escapa á nuvem que apressada e espessa

para apagâ-la corre.

Tal nos afaga em sonhos a esperança

ao despertar do dia,

mas no acordar lá vem a conciencia

dizer que ela mentia.

As ondas negro-azues se conglobaram,

serras tornadas são,

contra as quais outras serras que se arqueam

bater, partir-se vão.

Ó tempestade! eu te saudo, ó nume,

da natureza açoite!

Tu guias os vulcões, do mar princesa,

e é tu vestido a noite.

Quando pelos pinhais entre o granizo,

ao susurrar das ramas,

vibrando sustos pavorosa ruges

e assolação derramas,

quem porfiar contigo entam ousara

de gloria e poderio,

tu que fazes gemer pendido o cedro,

turbar-se o claro rio?

Quem me dera ser tu por balouçar-me

das nuvens nos castelos

e ver dos ferros meus enfim quebrados

os rebatidos elos!

Eu rodeara entam o globo inteiro,

eu sublevara as aguas,

eu dos vulcões com raios acendera

amortecidas fraguas;

do robusto carvalho e sobro antigo

acurvaria as frontes;

com furacões as areais da Libia

converteria em montes.

Pelo fulgor da lua, lá no Norte,

no polo me assentara

e vira prolongar-se o gelo eterno

que o tempo amontoara.

Ali eu solitario, eu rei da morte,

erguera meu clamor,

e dissera: Sou livre e tenho imperio,

aqui sou eu senhor!

Quem se podera erguer como estas vagas

em turbilhões incertos,

e correr e correr, troando ao longe

nos liquidos desertos!

Mas entre membros de lodoso barro

a mente presa está,

ergue-se em vão aos ceos, precipitada

rapida em baixo dá.

Ó morte, amiga morte! É sobre as vagas,

entre escarceos erguidos,

que eu te invoco, pedindo-te feneçam

meus dias aborridos:

quebra duras prisões que a natureza

lançou a esta alma ardente,

que ela possa voar por entre os orbes

aos pes do Omnipotente!

Sobre a nao que me estreita a prenhe nuvem

deça e estourando me esmague,

e a grossa proa dos tufões ludibrio

solta sem rumo vague!

Porem não! Dormir deixa os que me cercam

o sono do existir;

deixa-os, vãos sonhadores de esperanças

nas trevas do porvir.

Doce mãi do repouso, extremo abrigo

de um coração opresso,

que ao ligeiro prazer, á dor cansada

negas no seo acesso,

não despertes, ó não, os que abominam

teu amoroso aspeito,

febricitantes que se abraçam loucos

com seu dorido leito!

Tu que ao misero ris com rir tam meigo,

caluniada morte,

tu que entre os braços teus lhe dás asilo

contra o furor da sorte;

tu que esperas ás portas dos senhores,

do servo ao limiar,

e eterna corres, peregrina, a terra

e as solidões do mar,

deixa, deixa sonhar ventura os homens:

ja filhos teus naceram;

um dia acordarão d’ esses delirios

que tam gratos lhes eram.

E eu que velo na vida e ja não sonho

nem gloria nem ventura,

eu que esgotei tam cedo até as fezes

o calix da amargura;

eu vagabundo e pobre e aos pes calcado

de quanto ha vil no mundo,

santas inspirações morrer sentindo

do coração no fundo,

sem achar no desterro uma harmonia

de alma que a minha entenda,

porque seguir, curvado ante a desgraça,

esta espinhosa senda?

Torvo o oceano vai: qual dobre soa

fragor da tempestade,

psalmo de mortos que retumba ao longe

grito da eternidade!

Pensamento infernal! Fugir cobarde

ante o destino iroso?

Lançar-me envolto em maldições celestes

no abisso tormentoso?

Nunca! Deus pos-me aqui para apurar-me

nas lagrimas da terra:

guardarei minha estancia atribulada

com meu desejo em guerra.

O fiel guardador terá seu premio,

o seu repouso enfim,

e atalaiar o sol de um dia extremo

virá outro apos mim.

Herdarei o morrer: como é suave

bençam de pai querido,

será o despertar, ver meu cadaver,

ver o grilhão partido.

Um consolo entretanto resta ainda

ao pobre velador:

Deus lhe deixou nas trevas da existencia

doce amizade e amor.

Tudo o mais é sepulcro branqueado

por embusteira mão.

Tudo o mais vãos prazeres que só trazem

remorso ao coração.

Passarei minha noite a luz tam meiga

até o amanhecer,

até que suba á patria do repouso

onde não ha morrer.

ANTONIO AUGUSTO SOARES DE PASSOS

[Sidenote: 1826-1870]

_175. O Firmamento_

Gloria a Deus! Eis aberto o livro imenso,

o livro do infinito,

onde em mil letras de fulgor intenso

seu nome adoro escrito.

Eis do seu tabernaculo corrida

uma parte do veo misterioso:

desprende as asas, remontando á vida,

alma que ancias pelo eterno goso!

Estrelas que brilhais nessas moradas,

quais são vossos destinos?

Vos sois, vos sois as lampadas sagradas

de seus umbrais divinos;

pululando do seo omnipotente

e sumidas por fim na eternidade,

sois as faiscas do seu carro ardente

ao rolar através da imensidade;

e cada qual de vos um astro encerra,

um sol que apenas vejo,

monarca de outros mundos como a terra

que formam seu cortejo.

Ninguem pode contar-vos: quem podera

esses mundos contar a que dais vida,

escuros para nos, qual nossa esfera

vos é nas trevas da amplidão sumida.

Mas vos perto brilhais, no fundo acesas

do trono soberano:

quem vos ha de seguir nas profundesas

d’ esse infinito oceano?

E quem ha de contar-vos nessas plagas

que os ceos ostentam de brilhante alvura,

lá onde sua mão sostem as vagas

dos sois que um dia romperão na altura.

E tudo outrora na mudez jazia,

nos veos do frio nada;

reinava a noite escura, a luz do dia

era em Deus concentrada.

Ele falou! E as sombras num momento

se dissiparam na amplidão distante;

Ele falou! E o vasto firmamento

seu veo de mundos desfraldou ovante.

E tudo despertou, e tudo gira

imenso em seus fulgores;

e cada mundo é sonorosa lira

cantando os seus louvores.

Cantai, ó mundos que o seu braço impele,

harpas da creação, fachos do dia,

cantai louvor universal Áquele

que vos sustenta e nos espaços guia!

Terra, globo que geras nas entranhas

meu ser, o ser humano,

que es tu com teus vulcões, tuas montanhas

e com teu vasto oceano?

Tu es um grão de area arrebatado

por esse imenso turbilhão dos mundos

em volta do seu trono levantado

do universo nos seos mais profundos.

E tu, homem, que es tu, ente mesquinho

que soberbo te elevas,

buscando sem cessar abrir caminho

por tuas densas trevas?

Que es tu com teus imperios e colossos?

Um atomo sutil, um frouxo alento:

tu vives um instante, e de teus ossos

só restam cinzas que sacode o vento.

Mas ah, tu pensas, e o girar dos orbes

á razão encadeas:

tu pensas, e inspirado em Deus te absorves

na chama das ideas.

Alegra-te, imortal, que esse alto lume

não morre em trevas de um jazigo escasso:

Gloria a Deus que num atomo resume

o pensamento que transcende o espaço!

Caminha, ó rei da terra; se inda es pobre,

conquista aureo destino,

e de seculo em seculo mais nobre

eleva a Deus teu hino!

E tu, ó terra, nos floridos mantos

abriga os filhos que em teu seo geras

e teu canto de amor reune aos cantos

que a Deus se elevam de milhões de esferas.

Dizem que ja sem forças, moribunda,

tu vergas decadente

Ó não! De tanto sol que te circunda

teu sol inda é fulgente:

tu es jovem ainda, a cada passo

tu assistes de um mundo ás agonias

e rolas entretanto nesse espaço

coberta de perfumes e harmonias.

Mas ai, tu findarás! Alem scintila

hoje um astro brilhante:

amanhã ei-lo treme, ei-lo vacila

e fenece arquejante.

Quem foi? Quem o apagou? Foi seu alento

que extinguiu essa luz ja fatigada,

foram seculos mil, foi um momento

que a eternidade fez volver ao nada.

Um dia, quem o sabe? Um dia, ao peso

dos anos e ruinas,

tu cairás nesse vulcão aceso

que teu sol denominas;

e teus irmãos tambem, esses planetas

que a mesma vida, a mesma luz inflama,

atraidos enfim, quais borboletas,

cairão como tu na mesma chama.

Entam, ó sol, entam nesse aureo trono

que farás tu ainda,

monarca solitario e em abandono,

com tua gloria finda?

Tu findarás tambem, a fria morte

alcançará teu carro chamejante:

ela te segue e profetisa a sorte

nessas manchas que toldam teu semblante.

Que são elas? Talvez os restos frios

de algum antigo mundo

que inda referve em borbotões sombrios

no teu seo profundo;

talvez; e envolta pouco a pouco a frente

nas cinzas sepulcrais de cada filho,

debaixo deles todos de repente

apagarás teu vacilante brilho.

E as sombras pousarão no vasto imperio

que teu facho alumia;

mas que vale de menos um psalterio

dos orbes na harmonia?

Outro sol como tu, outras esferas

virão no espaço descantar seu hino,

renovando nos sitios onde imperas

do sol dos sois o resplendor divino.

Gloria a seu nome! Um dia meditando

outro ceo mais perfeito,

o ceo de agora a seu altivo mando

talvez caia desfeito.

Entam mundos, estrelas, sois brilhantes,

qual bando de aguias na amplidão disperso,

chocando-se em destroços fumegantes,

desabará no fundo do universo.

Entam a vida, refluindo ao seo

do foco soberano,

parará, concentrando-se no meo

d’ esse infinito oceano;

e acabando enfim quanto fulgura,

apenas restarão na imensidade

o silencio, aguardando a voz futura,

o trono de Jehova e a eternidade!

JOÃO DE DEUS RAMOS NOGUEIRA

[Sidenote: 1830-1896]

_176. A Vida_

Foi-se-me pouco a pouco amortecendo

a luz que nesta vida me guiava,

olhos fitos na qual até contava

ir aos degraos do tumulo decendo.

Em se ela anuviando, em a não vendo,

ja se me a luz de tudo anuviava:

despontava ela apenas, despontava

logo em minha alma a luz que ia perdendo.

Alma gemea da minha e ingenua e pura

como os anjos do ceo, se o não sonharam,

quis mostrar-me que o bem bem pouco dura.

Não sei se me voou, se me a levaram,

nem saiba eu nunca a minha desventura

contar aos que inda em vida não choraram.

Ah, quando no seu colo reclinado,

colo mais puro e candido que arminho,

como abelha na flor do rosmaninho,

osculava seu labio perfumado;

quando á luz dos seus olhos, que era vê-los

e enfeitiçar-se a alma em graça tanta,

lia na sua boca a biblia santa

escrita em letra cor dos seus cabelos;

quando a sua mãosinha, pondo um dedo

em seus labios de rosa pouco aberta,

como timida pomba sempre alerta,

me impunha ora silencio, ora segredo;

quando como a alveola, delicada

e linda como a flor que haja mais linda,

passava como o cisne ou como ainda,

antes do sol raiar, nuvem dourada;

quando em balsamo de alma piedosa

ungia as mãos da suplice indigencia,

como a nuvem nas mãos da Providencia

uma lagrima estila em flor sequiosa;

quando a cruz do colar do seu pescoço

estendendo-me os braços, como estende

o simbolo de amor que as almas prende

me dizia—o que ás mais dizer não ouço;

quando, se negra nuvem me espalhava

por sobre o coração algum desgosto,

conchegando-me ao seu candido rosto

no perfume de um riso a dissipava;

quando o ouro da trança ao vento dando

e a neve do seu colo e seu vestido,

pomba que do seu par se ia perdido,

ja de longe lhe ouvia o peito arfando;

quando o anel da boca luzidia,

vermelha como a rosa chea de agua,

em beijos á saudade abrindo a magua,

mil rosas pela face me esparzia;

tinha o ceo da minha alma as sete cores,

valia-me este mundo um paraiso,

distilava-me a alma um doce riso,

debaixo dos meus pes naciam flores!

Deus era inda meu pai; e em quanto pude

li o seu nome em tudo quanto existe,

no campo em flor, na praia arida e triste,

no ceo, no mar, na terra e na virtude.

Virtude! Que é mais que um nome

essa voz que em ar se esvai

se um riso que ao labio assome

numa lagrima vos cai!

Que es, virtude, se de luto

nos vestes o coração?

Es a blasfemia de Bruto,

não es mais que um nome vão.

Abre a flor á luz que a enleva

seu calix cheo de amor,

e o sol nace, passa e leva

consigo perfume e flor.

The Oxford book of Portuguese verse · 第 10 / 13 段