do mais subido quilate,
d’ esses labios escarlate,
meu tesouro!
Que é d’ esse halito que ainda
o coração me perfuma;
que é do teu colo de espuma,
pomba linda!
Que é de uma flor da guirnalda
de teus dourados cabelos;
d’ esses olhos: quero vê-los,
esmeralda!
Que é d’ essa franja comprida
d’ aquele chaile mais leve
do que a nuvem cor de neve,
Margarida!
Que é d’ essa alma que me deste,
de um sorriso, um só que fosse,
da tua boca tam doce,
flor celeste!
Tua cabeça, que é d’ ela,
a tua cabeça de ouro,
minha pomba, meu tesouro,
minha estrela!
De dia a estrela da alva empalidece;
e a luz do dia eterno te ha ferido!
Em teu languido olhar adormecido
nunca me um dia em rida amanhecesse!
Foste a concha da praia: a flor parece
mais ditosa que tu. Quem te ha partido,
meu calix de cristal onde hei bebido
os nectares do ceo, se um ceo houvesse!
Fonte pura das lagrimas que choro,
quem tam menina e moça desmanchado
te ha pelas nuvens os cabelos de ouro?
Some-te, vela de baixel quebrado,
some-te, voa, apaga-te, meteoro!
É só mais neste mundo um desgraçado.
E as desgraças podia prevê-las
quem a terra sustenta no ar,
quem sustenta no ar as estrelas,
quem levanta ás estrelas o mar.
Deus podia prever a desgraça,
Deus podia prever e não quis!
E não quis, não; se a nuvem que passa
tambem pode chamar-se infeliz.
A vida é o dia de hoje,
a vida é ai que mal soa,
a vida é sombra que foge,
a vida é nuvem que voa;
a vida é sonho tam leve
que se desfaz como a neve
e como o fumo se esvai:
a vida dura um momento,
mais leve que o pensamento,
a vida leva-a o vento,
a vida é folha que cai!
A vida é flor na corrente,
a vida é sopro suave,
a vida é estrela cadente,
voa mais leve que a ave;
nuvem que o vento nos ares,
onda que o vento nos mares
uma apos outra lançou:
a vida, pena caida
da asa de ave ferida,
de vale em vale impelida,
a vida o vento a levou!
Como em sonhos o anjo que me afaga
leva nas tranças os lirios que lhe pus,
e a luz quando se apaga
leva aos olhos a luz!
Levou, sim, como a folha que se desprende
de uma flor delicada o vento sul,
e a estrela que se estende
nessa abobada azul.
Como os avidos olhos de um amante
levam consigo a luz de um doce olhar,
e o vento do levante
leva a onda do mar;
como o tenro filhinho quando expira
leva o beijo dos labios maternais,
e á alma que suspira
o vento leva os ais;
ou como leva ao colo a mãi seu filho
e as asas leva a pomba que voou,
e o sol leva o seu brilho,
o vento m’ a levou!
E Deus, tu es piedoso
Senhor! Es Deus e Pai!
E ao filho desditoso
não ouves pois um ai!
Estrelas deste aos ares,
dás perolas aos mares,
ao campo deste a flor,
frescura dás ás fontes,
o lirio dás aos montes,
e tiras-m’ a, Senhor!
Ah, quando numa vista o mundo abranjo,
estendo os braços e palpando o mundo
o ceo, a terra e o mar vejo aos meus pes;
buscando em vão a imagem do meu anjo,
soletro á frouxa luz de um moribundo
em tudo só: talvez!
Talvez: é hoje a biblia, o livro aberto
que eu só ponho ante mim nas rochas quando
vou pelo mundo ver se a posso ver;
e onde, como a palmeira do deserto,
apenas vejo aos pes inquieta ondeando
a sombra do meu ser!
Meu ser voou na asa da aguia negra,
que levando-a só não levou consigo
de esta alma aquele amor!
E quando a luz do sol o mundo alegra,
crisalida nocturna a sós comigo
abraço a minha dor.
Dor inutil! Se a flor que ao ceo envia
seus balsamos se esfolha, e tu no espaço
achas depois seus atomos sutis,
inda has de ouvir a voz que ouviste um dia,
como a sua Leonor inda ouve o Tasso,
Dante a sua Beatriz.
Nunca! responde a folha que o outono,
da haste que a sustinha a mão abrindo,
ao vento confiou;
Nunca! responde a campa onde do sono
e quem talvez sonhava um sonho lindo
um dia despertou.
Nunca! responde o ai que o labio vibra,
Nunca! responde a rosa que na face
um dia emurcheceu;
e a onda que um momento se equilibra
em quanto diz ás mais: deixai que eu passe,
e passou, e morreu!
_177. Na campa de Anthero de Quental_
Aqui jaz pó, eu não; eu sou quem fui:
raio animado de uma luz celeste,
á qual a morte as almas restitui,
restituindo á terra o pó que as veste.
THOMAZ RIBEIRO
[Sidenote: 1831-1901]
_178. A Portugal_
Meu Portugal, meu berço de inocente,
lisa estrada que andei debil infante,
variado jardim do adolecente:
meu laranjal em flor sempre odorante,
minha tarde de amor, meu dia ardente,
minha noite de estrelas rutilante,
meu vergado pomar de um rico outono,
sê meu braço final no ultimo sono!
Costumei-me a saber os teus segredos
desde que soube amar, e amei-os tanto!
Sonhava ás noites de teus dias ledos
afogado de enlevo, em riso e em pranto.
Quis dar-te hinos de amor, debeis os dedos
não sabiam soltar da lira o canto,
mas amar-te do esplendor do imenso brilho:
eu tinha um coração e era teu filho!
Jardim da Europa á beira-mar plantado
de louros e de acacias olorosas,
de fontes e de rios serpeado,
rasgado por torrentes alterosas;
onde num cerro erguido e requeimado
se casam em festões jasmins e rosas:
balsa virente de eternal magia
onde as aves gorgeiam noite e dia.
O que te desdenhar mente sem brio,
ou nunca viu teus prados e teus montes,
ou nunca ao pôr do sol de ameno estio
viu franjas de ouro e rosa os horisontes,
ondas de prata e azul em cada rio,
as perolas e rubis de teus fontes,
nem de teus anjos, tenro paraiso,
sentiu o magnetismo num sorriso.
Patria, filha do sol das primaveras,
rica dona de messes e pomares,
recorda ao mundo ingrato as priscas eras
em que lhe ensinaste a erguer altares!
Mostra-lhe os esqueletos das galeras
que foram descobrir mundos e mares:
se alguem despresar teu manto pobre,
ri-te do fatuo que se julgar nobre!
Porque te miras triste sobre as aguas,
pobre—de aquem e de alem mar senhora,
e te consomes nas candentes fraguas
das saudades crueis que tens de outrora?
Por tantos louros que te deram? Maguas?
Foste mal paga e mal julgada? Embora!
Has de cingir o teu diadema augusto:
são teus filhos leais e Deus é justo!
Tres testemunhas tens que ao mundo inteiro
grandes hão de levar-te a ingente gloria:
Camões, o sol, o oceano; que o primeiro
ergueu-te em alto canto a nobre historia.
Com prantos e com sangue, audaz guerreiro,
o seu livro escreveu de alta memoria:
lede os cantos divinos do poeta
entoados em harpa de profeta.
O mar, na eterna lide porfiosa,
cansado de correr largos desvios,
vem apagar a sede angustiosa
no saboroso nectar dos teus rios;
e quando em outra idade mais ditosa
tu mandaste alongar teus senhorios,
conhecendo o roçar das tuas sondas
cavou as penhas e aplanou as ondas.
Bramir ouviste o genio das tormentas,
algoz de tanto nauta aventureiro,
vestido de neblinas pardacentas,
assoprando golfadas de aguaceiro;
mas quando viu nas quilhas tam atentas
içado teu pendão tam altaneiro,
acendendo o Santelmo resplandecente
iluminou-te as portas do Oriente.
Fiel, sempre fiel á tua gloria,
conduziu-te o evangelho a longas terras;
acompanhou-te os cantos de vitoria,
saudou-te os brios em longinquas guerras:
rasguem embora, ó patria, a tua historia,
em quanto o mar bramir, quebrando serras,
ou brincar na area em bonança,
ha de falar de ti, patria, descansa.
Qual no deserto o lasso viajante
vai no oasis sentar-se ao fim do dia,
achando, atenuado e arquejante,
verdor, fontes, aromas e harmonias,
e naquela atmosfera inebriante
se alimenta, se farta, se extasia,
tal es do sol oasis reservado,
jardim da Europa á beira-mar plantado!
Aqui apura os raios da luz pura
nos bosques, nos rosais e nas campinas,
de um iris coroa a nuvem mais esquiva
nem tem coroa real pedras mais finas;
faz prisma cada fonte que deriva
por encosta suave entre boninas,
dá luz suave á relva que verdeja;
e o sol de Portugal o mundo inveja.
Mas não é de hoje só que o passageiro
que te ve ledo banhar em cada fonte,
ou entre a branda relva do valeiro
ou sobre as neves do jaspeado monte;
ja não é de hoje só que o mundo inteiro
fala do brilho teu nesto horisonte:
ja Celtiberos, Mouros e Romanos
choraram pelo sol dos Lusitanos.
Lua do meu pais, não me esqueceste,
que eu sempre soube amar tua lindeza,
bem sei que é este o solio que escolheste,
bem sei que tens aqui a maior pureza;
mas tanto os meus segredos entendeste,
era tam minha só tua tristeza,
que se não te invoquei, saudosa lua,
foi pelos zelos da terra, minha e tua!
Por ti canto meu berço de inocente,
lisa estrada que andei debil infante,
meu viçoso jardim de adolecente,
meu laranjal em flor sempre odorante;
minha tarde de amor, meu dia ardente,
minha noite de estrelas rutilante:
tu dá-me, ao cerrar noite o meu inverno,
um leito funeral ao sono eterno!
JULIO DINIZ
[Sidenote: 1839-1871]
_179. Meteoro_
Não a viram passar? Era no outono,
quando languece a flor, quando na selva
se cala o rouxinol e ao abandono
jazem as folhas na crestada relva.
Não a viram passar? As altas neves
revestiam das serras as cumiadas
e cm vez das brisas perpassando leves
assopravam violentas as rajadas.
No meo da tristeza destas scenas
ela só, muda e palida, sorria,
o seo a anuviar-se-lhe de penas,
o rosto a iluminar-se de alegria.
Não a viram? Passou. A natureza
é outra vez de galas revestida:
mas minha alma é coberta de tristeza
como naquele instante da partida.
ANTHERO DE QUENTAL
[Sidenote: 1842-1891]
_180. Nocturno_
Espirito que passas quando o vento
adormece no mar e surge a lua,
filho esquivo da noite que flutua,
tu só entendes bem o meu tormento.
Como um canto longinquo, triste e lento,
que voga e sutilmente se insinua,
sobre o meu coração que tumultua
tu vestes pouco a pouco o esquecimento.
A ti confio o sonho que me leva
um instinto de luz, rompendo a treva,
buscando entre visões o eterno bem.
E tu entendes o meu mal sem nome,
a febre de ideal que me consome,
tu só, genio da noite, e mais ninguem.
_181. Sollemnia verba_
Disse ao meu coração: Olha por quantos
caminhos vãos andamos! Considera
agora, de esta altura fria e austera,
os ermos que regaram nossos prantos:
pó e cinzas onde houve flor e encantos,
e noite onde foi luz de primavera!
Olha a teus pes o mundo e desespera,
semeador de sombras e quebrantos!
Porem o coração, feito valente
na escola da tortura repetida,
e no uso do penar tomado crente,
respondeu: Desta altura vejo o amor!
Viver não foi em vão se é isto a vida,
nem foi de mais o desengano e a dor.
_182. O Palacio da Ventura_
Sonho que sou um cavaleiro andante,
por desertos, por sois, por noite escura,
paladino do amor, busco anhelante
o palacio encantado da Ventura.
Mas ja desmaio, exhausto e vacilante,
quebrada a espada ja, rota a armadura;
e eis que subito o avisto, fulgurante
na sua pompa e aerea formosura!
Com grandes golpes bato á porta e brado:
Eu sou o vagamundo, o desherdado,
abri-vos, portas de ouro, ante meus ais!
Abrem-se as portas de ouro com fragor,
mas dentro encontro só, cheo de dor,
silencio e escuridão, e nada mais!
_183. Acordando_
Em sonho ás vezes, se o sonho quebranta
este meu vão sofrer, esta agonia,
como sobe cantando a cotovia,
para o ceo a minha alma sobe e canta.
Canta a luz, a alvorada, a estrela santa
que ao mundo traz piedosa mais um dia;
canta o enlevo das cousas, a alegria
que as penetra de amor e as alevanta.
Mas de repente um vento humido e frio
sopra sobre o meu sonho: um calafrio
me acorda. A noite é negra e muda, a dor
lá vela como d’ antes ao meu lado:
os meus cantos de luz, anjo adorado,
são sonho só e sonho o meu amor!
_184. Transcendentalismo_
Ja sossega depois de tanta luta,
ja me descansa em paz o coração;
caí na conta enfim de quanto é vão
o bem que ao mundo e á sorte se disputa
Penetrando com fronte não enxuta
no sacrario do templo da ilusão,
só encontrei com dor e confusão
trevas e pó, uma materia bruta.
Não é no vasto mundo, por imenso
que ele pareça á nossa mocidade,
que a alma sacia o seu desejo intenso
na esfera do invisivel, do intangivel:
sobre desertos, vacuo, soledade,
voa a paira o espirito impassivel.
_185. Na mão de Deus_
Na mão de Deus, na sua mão direita
descansou afinal meu coração:
do palacio encantado da ilusão
deci passo a passo a escada estreita.
Como as flores mortais com que se enfeita
a ignorancia infantil, despojo vão,
depus do ideal e da paixão
a forma transitoria e imperfeita;
como criança em lobrega jornada
que a mãi leva ao colo agasalhada,
e atravessa, sorrindo vagamente,
selvas, mares, areas do deserto,
dorme o teu sono, coração liberto,
dorme na mão de Deus eternamente!
_186. Redenção_
Vozes do mar, das arvores, do vento,
quando ás vezes, num sonho doloroso
me embala o vosso canto poderoso,
eu julgo igual ao meu vosso tormento;
verbo crepuscular e intimo alento
das cousas mudas, psalmo misterioso,
não serás tu queixume vaporoso
o suspiro do mundo e o seu lamento?
Um espirito habita a imensidade,
uma ancia cruel de liberdade
agita e abala as formas fugitivas;
e eu comprendo a vossa lingua estranha,
vozes do mar, da selva, da montanha,
almas irmans da minha, almas captivas.
_187. Entre sombras_
Vem ás vezes sentar-se ao pe de mim
(A noite dece, desfolhando as rosas)
vem ter comigo, ás horas duvidosas,
uma visão, com asas de setim.
Pousa de leve a delicada mão
(Recende aroma a noite sossegada)
pousa a mão compassiva e perfumada
sobre o meu dolorido coração.
E diz-me essa visão compadecida
(Ha suspiros no espaço vaporoso)
diz-me: Porque é que choras silencioso?
Porque é tam erma e triste a tua vida?
Vem comigo, embalado nos meus braços
(Na noite funda ha um silencio santo)
num sonho feito só de luz e encanto
transporás a dormir esses espaços.
Porque eu habito a região distante
(A noite exhala uma doçura infinda)
onde ainda se cre e se ama ainda,
onde uma aurora igual brilha constante.
Habito alí, e tu virás comigo
(Palpita a noite num clarão que ofusca)
porque eu venho de longe em tua busca,
trazer-te paz e alivio, pobre amigo.
Assim me fala essa visão nocturna
(No vago espaço ha vozes dolorosas)
São as suas palavras carinhosas
agua correndo em cristalina urna.
Mas eu escuto-a imovel, sonolento,
(A noite verte um desconsolo imenso)
sinto nos membros como um chumbo denso,
e mudo e tenebroso o pensamento.
Fito-a, num pasmo doloroso absorto,
(A noite é erma como campo enorme)
fito-a com olhos turvos de quem dorme
e respondo: Bem sabes que estou morto!
ANTONIO CANDIDO GONÇALVES CRESPO
[Sidenote: 1846-1883]
_188. Alguem_
Para alguem sou o lirio entre os abrolhos
e tenho as formas ideais do Cristo,
para alguem sou a vida e a luz dos olhos,
e se na terra existe é porque existo.
Esse alguem que prefere ao namorado
cantar das aves minha rude voz
não es tu, anjo meu idolatrado,
nem, meus amigos, é nenhum de vos.
Quando alta noite me reclino e deito
melancolico, triste e fatigado,
esse alguem abre as asas no meu leito
e o meu sono deslisa perfumado.
Chovam bençãos de Deus sobre a que chora
por mim alem dos mares! Esse alguem
é de meus dias a esplendente aurora,
es tu, doce velhinha, ó minha mãi!
_189. Na aldea_
Duas horas da tarde. Um sol ardente
nos colmos dardejante e nos eirados;
sobreleva aos gritos abafados
o grito das bigornas estridente.
A taberna é vacia: mansamente
treme o loureiro nos umbrais pintados,
zumbem á porta insectos variegados,
envolvidos do sol na luz tremente.
Fia á soleira uma velhinha: o filho,
no ceo mal acordou da aurora o brilho,
saiu para os cançaços da lavoura;
a nora lava na ribeira, os netos
ao longe correm semi-nus, inquietos,
no mar ondeante da seara loura.
_190. Mater dolorosa_
Quando se fez ao longe a nave escura,
na praia essa molher ficou chorando,
no doloroso aspecto figurando
a lacrimosa estatua da amargura.
Dos ceos a curva era tranquila e pura:
dos gementes alciones o bando
via-se ao longe em circulo voando
dos mares sobre a cerula planura.
Nas ondas se abafara o sol radioso
e a lua sucedera, astro mavioso,
de alvor banhando os alcantis das fragas.
E aquela pobre mãi, não dando conta
que o sol morrera e que o luar desponta,
a vista embebe na amplidão das vagas.
ANTONIO DUARTE GOMES LEAL
[Sidenote: 1849-1921]
_191. De noite_
Ele vinha da neve, dos trabalhos
violentos, custosos da enxada,
cantando a mea voz pelos atalhos.
A molher loura, infeliz, resignada,
cosia junto á luz. O rijo vento
batia contra a porta mal fechada.
Ao pe havia um Cristo, um ramo bento,
e uma estampa da Virgem, colorida,
chea de magua olhando o firmamento;
Uma banca de pinho, mal sustida,
vacilante nos pes, um candieiro,
companheiros de aquela negra vida.
O homem, alto, palido, trigueiro,
entrou; tinha as feições queimadas, duras,
dos que andam com a enxada o dia inteiro.
A molher abraçou-o. As linhas puras
do seu rosto contavam ja tristezas
de grandes e secretas amarguras.
Tinha chorado muito as estreitezas
de aquela vida assim, talvez sonhado
um dia com palacios e riquezas.
Ele deitou-se a um canto, fatigado
d’ erguer-se alta manhã, todos os dias,
mal voavam as pombas no telhado.
Lá fora nuvens grossas e sombrias
no pesado horisonte. Ele assim esteve.
As noites eram asperas e frias.
Ela cobriu-o de uma manta leve,
esburacada, velha. No telhado
ouvia-se cair sonora a neve.
E ela entam meditou no seu passado:
no seu primeiro beijo, nas lembranças,
talvez, do seu vestido de noivado;
e nas tardes das eiras e das danças
ás estrelas, e aquela vez primeira
que a rosa lhe furtou das longas tranças.
E aquela tarde junto da amoreira
que trocaram as mãos, e na janela
e quando olhavam juntos a ribeira.
E quando era timida e singela...
Lá fora dava o vento nos caixilhos,
não brilhava no ceo nem uma estrela.
E áquela hora da noite por que trilhos
andariam no mundo, ela scismava,
nas miserias, talvez sem rumo, os filhos.
Ele na manta velha resonava.
ABILIO MANUEL GUERRA JUNQUEIRO
[Sidenote: 1850-1923]
_192. A caminho_
_Abril, ao raiar d’ alva, por uma encosta de sementeiras,
pastos, olivedos e amendoais em flor, vai um louro peregrinante
adolescente d’ olhos ingenuos e extasiados no alvor da estrela da
manhã._
_Um lavrador (de noventa anos, em mangas de camisa)._
O senhor tam novo d’ olhos cor de esperança,
ides de caminho para algum lugar?
_O peregrino_
Vou dar volta ao mundo...
_O lavrador_
Sem arnez ou lança?
Ó senhor tam novo d’ olhos cor de esperança,
penas e miserias é o que ireis achar.
_Uma velhinha (mais adiante)_
Ó senhor tam novo d’ olhos inocentes,
Ides com cuidados para um tal andar?
_O peregrino_
Vou a prender monstros, combater serpentes...
_A velhinha_
Ó senhor tam novo d’ olhos inocentes,
Ós dragões ferozes vão-no espostejar!
_Uma jovem camponesa_
Ó senhor tam novo d’ olhos encantados,
ides pela fresca para algum pomar?
_O peregrino_
Vou-me a ler destinos, descobrir os fados.
_A camponesa_
Ó senhor tam novo d’ olhos encantados,
Feiticeiros negros vão-no enfeitiçar!
_Uma pastorinha (mais adiante)_
Ó senhor tam novo d’ olhos tam brilhantes,
vossos olhos dizem que ides para casar...
_O peregrino_
Vou fazer tesouros, fabricar diamantes...
_A pastorinha_
Ó senhor tam novo d’ olhos tam brilhantes,
ha ladrões nos bosques, vão-no assassinar!
_Um mendigo_
Ó senhor tam novo d’ olhos cor de chama,
vossos olhos ardem como a luz solar.
_O peregrino_
Vou descobrir mundos, quero gloria e fama.
_O mendigo_
Ó senhor tam novo d’ olhos cor de chama,
sobe o pó mais alto que os trovões do mar.
_A estrela d’ alva_
O criança d’ olhos cor de flor de linhos,
por infernos deixas teu paz, teu lar.
_O peregrino (desaparecendo ao longe)_
Florirei as pedras pelos maos caminhos!
Levo a luz dos astros e as canções dos ninhos
a sorrir nos beiços e a tremer no olhar!
_193. O Cavador_
Dezembro, noite: canta o galo,
rouco na treva canta o galo;
(Ó dor! Ó dor!)
Aldeão, não durmas, vai chamâ-lo;
miseria negra, vai chamâ-lo!
(Ó dor! Ó dor!)
Bate-lhe á porta, é teu vasalo,
que traga a enxada, é teu vasalo,
miseria negra, o cavador!
O vento ulula; tremem ninhos,
na noite aziaga tremem ninhos;
(Ó dor! Ó dor!)
A neve cai, fria de arminhos,
na escuridão fria de arminhos
(Ó dor! Ó dor!)
passa maldito nos caminhos,
d’ enxada ao hombro nos caminhos,
fantasma negro, o cavador.
Vem roxa a estrela de alvorada,
vem morta a estrela de alvorada;
(Ó dor! Ó dor!)
montanhas nuas sob a geada,
hirtas, de bronze sob a geada!
(Ó dor! Ó dor!)
Torvo, inclinado sobre a enxada,
rasga as montanhas com a enxada,
fantasma negro, o cavador.
Cavou, cavou desde que é dia,
cavou, cavou: bateu meo dia,
(Ó dor! Ó dor!)
de pe na encosta erma e bravia,
triste na encosta erma e bravia
(Ó dor! Ó dor!)
largando a enxada «Ave Maria»,
resa em silencio «Ave Maria»,
fantasma negro, o cavador.
Cavou, cavou na serra agreste,
de alva á noitinha, em serra agreste,
(Ó dor! Ó dor!)
e um caldo em premio tu lhe déste,
meu Deus, seis filhos tu lhe déste!
(Ó dor! Ó dor!)
Batem trindades: Pai celeste!
Bendito sejas, Pai celeste!
resa, fantasma, o cavador.
Cavou cem montes. Que é do trigo?
Gerou seis bocas. Que é do trigo?
(Ó dor! Ó dor!)
Bateu a fome ao seu postigo,
bateu a morte ao seu postigo:
(Ó dor! Ó dor!)
Que a paz de Deus seja comigo!
Que a paz de Deus seja comigo!
disse, expirando, o cavador.
_194. Canção perdida_
Halitos de lilaz, de violeta e de opala,
roxas macerações de dor e de agonia
o campo anoitecendo e adormecendo exhala.
Triste canta uma voz na sincope do dia:
Alguem de mim se não lembra
nas terras de alem mar;
ó morte, dava-te a vida
se tu lh’ a fosses levar!
ó morte, dava-te a vida
se tu lh’ a fosses levar!
Com o beijo do sol na face cadaverica,
beijo que a morte esvai em palidez algente,
eis a lua a boiar sonambula e chimerica.
Doce canta uma voz melancolicamente:
O meu amor escondi-o
numa cova ao pe do mar;
morre o amor, vive a saudade,
morre o sol, olha o luar!
Morre o amor, vive a saudade,
morre o sol, olha o luar!
Latecente a neblina opalica flutua
diluindo, evaporando os montes de granito
em colossos de sonho, extasiados de lua.
Flebil chora uma voz no letargo infinito:
Quem dá ais, ó rouxinol,
lá para as bandas do mar?
E o meu amor que na cova
leva as noites a chorar!
E o meu amor que na cova
leva as noites a chorar!
A lua enorme, a lua argentea, a lua calma
imponderalisou a natureza inteira,
descondensou-a em fluido e embebeu-a em alma.
Triste expira uma voz na canção derradeira:
Meu amor, dorme, dorme
na area fina do mar,
que eu antes da estrela de alva
contigo me irei deitar!
Que eu antes da estrela de alva
contigo me irei deitar!
OLAVO BILAC
[Sidenote: 1865-1918]
_195. Sahara Vitae_
Lá vão! O ceo se arquea
como um teito de bronze infindo e quente,
e o sol fusila e fusilando ardente
criva de flechas de aço o mar de area.
La vão, com os olhos onde a sede atea
um fogo estranho, procurando em frente
esse oasis do amor que claramente
alem belo e falaz se delinea.
Mas o simun da morte sopra, a tromba
convulsa envolve-os, prostra-os, e aplacada
sobre si mesmo roda e exhausta tomba;
e o sol de novo no igneo ceo fusila,
e sobre a geração exterminada
a area dorme placida e tranquila.
ANTONIO NOBRE
[Sidenote: 1867-1900]
_196. Ao cair das folhas_
Podessem suas mãos cobrir meu rosto,
fechar-me os olhos e compor-me o leito
quando sequinho, as mãos em cruz no peito,
cu me for viajar para o sol posto!
De modo que me faça bom encosto,
o travesseiro comporá com geito.
E eu tam feliz! Por não estar afeito,
hei de sorrir, Senhor, quasi com gosto.
Até com gosto, sim! Que faz quem vive
orfão de mimos, viuvo de esperanças,
solteiro de venturas que não tive?
Assim irei dormir com as crianças,
quasi como elas, quasi sem pecados,
e acabarão enfim os meus cuidados.
EUGENIO DE CASTRO
[Sidenote: 1867-]
_197. Madrigal_
Deus fabricou o grande ceo ... Depois,
para alegrar a escuridão terrestre,
com pericia divina e mão de mestre
Deus fabricou tres sois.
Um deles anda a vaguear nos ceos,
e os outros dous, ó flor estremecida,
são para mim a luz da minha vida,
e são ... os olhos teus!
_198. Canção do velho relogio inglés_
Naci em Londres, que é terra
de gaiteiros e neblina,
no tempo em que um rei de França
acabou na guilhotina.
Quem me fez, um homem louro,
sendo inglés o relojoeiro,
quis fazer-me mais que tudo
pautado, justo e certeiro.
E asim, posto a trabalhar,
medi com a mesma certeza
horas de luz e de sombra,
horas de amor e tristeza.
Sendo o meu pai homem rude,
da beleza tinha o anhelo:
depois de me fazer exacto
quis tambem fazer-me belo.
Deu-me um mostrador dourado,
com um delfim a cada canto,
e uma caixa com ferragens
a fulgir sobre pau santo.
Rendeu-me pacientemente
os ponteiros de aço leve,
finos dedos com que o tempo
suas sentenças escreve.
E não contente com dar-me
esses trajos tam garridos,
deu-me ainda um carrilhão
que regalava os ouvidos.
Sempre que eu dizia a hora
com vozinha de falsete,
tocava o meu carrilhão
em lento passo um minuete.
Fazendo esquecer as maguas
deste mortal sorvedouro
com sons aureos que eram perolas
gotejando em taças de ouro.