do Lima que mais brando ali corria,
dizem que por ouvir suas doces maguas.
Sobre um curvo penedio que pendia
por cima da corrente vagarosa,
se me não lembra mal, assi dizia:
Silvia, nestes meus olhos mais formosa
que o sol de dia, que de noite a lua,
não digo lirio ja, não digo rosa,
que flor não cria o vale que da tua
formosura não tenha grande inveja:
se tam formosa es, como es tam crua?
Porque despresas, Silvia, quem deseja
mais o teu gosto só que a propria vida?
Porque t’ escondes onde te não veja?
Nem sempre no bosque espesso escondida
a mansa cerva está posta em seguro,
nem sempre em raso campo é ofendida.
Vem, Silvia, ja ver neste cristal puro
teu brando parecer d’ aqui de cima
deste penedo, menos que ti duro.
Porque fazes, cruel, tam pouca estima
desta fresca ribeira, destas flores
que mansamente rega o manso Lima?
Aqui as doces aves seus amores
de um ramo em outro ramo vão cantando,
aqui se veste o campo de mil cores,
d’ aqui donde por ti estou chamando
no fundo deste pego os negros peixes
e os brancos seixos estarás contando.
Ou te queixes de mim ou te não queixes,
ou branda ou sempre irosa me respondas,
este fresco lugar, Silvia, não deixes.
Uma sombria lapa em que te escondas
do sol te mostrarei, dormirás nela
ao som do murmurar das roucas ondas:
em tanto do teu gado serei vela
e juntamente te estarei tecendo
de branca madresilva uma capela.
D’ ali indo o sol ja menos ardendo,
ao longo deste rio nos iremos,
ora uma flor, ora outra flor colhendo.
Os olhos pelo campo estenderemos,
o saudoso melro de uma banda
e o doce rouxinol d’ outra ouviremos.
Silvia soando irá na lira branda,
soará Silvia na montanha dura,
que sua dureza com teu nome abranda.
Des que deixei de ver tua formosura
ja o sol tres vezes alumiou a terra
e outras tantas a deixou escura.
Qualquer lugar que em si te esconde e encerra
nunca o verei sem dor, nunca sem magua,
ou seja campo ou bosque ou vale ou serra.
Achei de duas rolas nesta fragua
os tenros filhos sobre um freixo antigo
que tem suas raizes dentro na agua.
Saltou a nossa Filis ja comigo
com dadivas e rogos que lh’ os desse:
Não trabalhes em vão, Filis, lhe digo.
Tam corrida se foi que se soubesse
onde eles ora estam, tenho por certo
que m’ os furtasse logo se podesse;
mas não os pode ver senam de perto,
que, alem do freixo estar de agua cercado,
de uma verde parreira está coberto.
Silvia, teus hão de ser, perde o cuidado,
eu os vigiarei até que venhas
milhor do que vigio este meu gado.
E qual fruta haverá que tu não tenhas,
que se crie em mimosa e culta planta
ou na dura que nace em duras brenhas?
Inda que tua crueza seja tanta,
descanso me será qualquer trabalho,
que tudo vence amor, tudo quebranta.
As douradas maçãs no mesmo galho,
doces e roxas uvas pela fria
colherei para ti cheas de orvalho.
Isto todo a seu tempo te daria
e outras cousas mais, com que t’espero
ha tantos dias ja, de dia em dia,
que não abranda amor teu peito fero,
bem fero e bem cruel mas bem formoso,
pois sabe quanto peno e quanto quero.
Mil vezes meu esprito saudoso
de mim se parte e deixa o corpo frio,
do que deseja mais mais duvidoso.
Mil vezes de mil lagrimas um rio
banhando vai a face descorada,
outras tantas se falo desvario.
De leves sombras fica salteada
esta alma que lá trazes não sei onde,
nos teus formosos olhos pendurada,
quando chamo por ti, que me responde
a mesma voz na vale onde em vão grito,
cuido que outrem te chama e que s’ esconde.
Ali com nova força, novo esprito,
com ira vou buscando quem nomea
teu doce nome no meu peito escrito.
Se com suave som brando menea
um leve e brando vento a folha leve,
se fere a onda crespa a branca area,
ouvir-te me parece. Ah gosto breve!
Eis este engano passa, eis n’ outro caio:
quem enganos de amor estranhar deve?
Quando em bosque escuro um claro raio
por entre a basta rama resplandece,
ali me enlevo todo, ali desmaio:
dos teus serenos olhos me parece
aquela viva luz que se me nega,
em cuja ausencia o sol se m’ escurece.
Envolto em laços d’ outro amor m’ entrega,
aquele imaginar sempre sobejo
ali vista me dá, ali me cega.
Que planta posso ver, que pedra vejo,
que lirio ou que rosa ou neve ou fogo
onde te não figure o meu desejo?
Amor anda de mim fazendo jogo;
tu, Silvia, muito mais, pois te não movem
tantas lagrimas tristes, tanto rogo.
Tuas frias entranhas inda provem,
porem mais brandamente, as chamas vivas
que nestas minhas de contino chovem.
Porque foges de mim, porque m’ esquivas?
que não ha cousa aqui que não te aguarde,
té aguas deste rio fugitivas?
Se tu viesses, Silvia, inda esta tarde
verias lá no mar nuves rosadas
por entre as quais o sol mais brando arde,
verias destas humidas moradas
sair as brancas ninfas saudosas
de mil alegres flores coroadas,
e qual de roxos lirios, qual de rosas
esmaltaria teu puro e crespo ouro,
tam ledas de te ver quanto invejosas.
E eu veria os olhos por que moiro,
veria esse coroado e alvo rosto,
da maior formosura o mor tesouro.
Se todo meu prazer, todo meu gosto
depende de ti só que vas fugindo,
não ves em qual estremo me tens posto?
Não ves que vai a magua consumindo
a vida em duvidosas esperanças?
Ah doudo Alcido! Silvia está-se rindo,
e tu de chamar Silvia inda não cansas!
FREI AGOSTINHO DA CRUZ
[Sidenote: 1540-1619]
_142. A Nosso Senhor_
Quando será, Senhor, que desatado
deste peso mortal convosco esteja,
e vendo esta alma em vos o que deseja
veja quanto de vos tem desejado?
Que inda que ser não pode coroado
quem valerosamente não peleja,
basta, por muito mais fraco que seja,
quererdes vos por mim ter pelejado.
Aqui se fortifica a confiança,
aqui se certifica meu desejo,
que quem muito deseja muito alcança;
e se pena me dá, se me faz pejo
o sentimento grave da tardança,
desejando acharei o que desejo.
_143. Descanso_
Tempo foi que pastava neste prado
bem fora de cuidar que poderia
tornar a ver-me nele inda algum dia
de tantos mil cuidados descuidado:
o Senhor que me trouxe a tal estado
quando castigos graves merecia,
dando-me muitos dias do que pedia,
para sempre jamais seja louvado!
Estas aguas correntes, estas flores,
estes bosques cobertos de verdura,
os passarinhos neles escondidos,
aqui lhe dem comigo mil louvores!
Sem fim o louve toda a criatura:
não sintam outra cousa meus sentidos!
FERNAM ALVAREZ DO ORIENTE
[Sidenote: 1540?-1595?]
_144. Amor e Morte_
Obrando amor, mas em meu dano forte,
só nele quis mostrar potencia rara,
em não querer que a mão do fado avara
um dia me outorgasse alegre sorte.
Da Parca dura assim temi que o corte
com a vida a fe da alma me acabara;
mas ah que é semrazão injusta e clara
que o que começa amor acaba a morte!
E como a pena que me traz cansado
tem feito na alma eterna eterno assento,
estou num triste mas seguro estado:
que se amor não der fim ao meu tormento,
nem fortuna remedio a meu cuidado,
nem morte mudará meu pensamento.
_145. Florimonte_
Armada de aspereza, minha estrela
a nova dor me leva e me encaminha,
mas se uma gloria vi perder-se asinha
foi por quem a perdi gloria perdê-la.
Sucede nova dor, nova querela
á liberdade que gosado tinha:
não sei remedio dar á magua minha,
e quem lh’ o pode dar não sabe dela.
Que alivio logo em tormento espero
se a que m’ o causa na alma não o sente
senam se o ve nos olhos com que o vejo?
Porem, ah doce amor, eu antes quero
passar convosco a vida descontente
que contente vivir sem meu desejo.
FRANCISCO GALVAM
[Sidenote: c. 1560-1635?]
_146. A Nosso Senhor_
Ó tu de puro amor, Deus, fonte pura,
Ó paternal bondade mais que humana,
Ó Deus, luz eterna e soberana,
Deus meu, nova e antiga formosura:
não pode haver sem ti cousa segura,
pois o seguro ser de ti só mana;
como está fora de si, como se engana
quem fora de ti bem algum procura!
Sem ti caminha vago o pensamento,
sem ti para mor mal é toda gloria,
sem ti coberto estou de escuridade;
mas em ti fixa está minha memoria,
em ti repousa meu entendimento,
em ti se satisfaz minha vontade.
ANONIMO
[Sidenote: 16th c.]
_147. Soneto em que cotejando o estado livre e namorado julga o segundo
por milhor._
Ponho-me a contemplar na fantasia
quando me vi em mais ditoso estado,
se agora que me vejo namorado,
se quando deste amor livre vivia:
entam destes cuidados só fugia,
tendo por riso a vida com cuidados,
agora pesaroso do passado
tenho por gloria aquilo que temia.
Bem vejo que era vida deleitosa
aquela que passava sem temores
quando os gostos de amor tinha por vento,
mas vendo agora Silvia tam formosa
julgo as cousas presentes por milhores
e as antigas por sombra de tormento.
_148. Ao Rio Tejo_
Formoso Tejo meu, quam diferente
te vejo e vi, me ves agora e viste:
turvo te vejo a ti, tu a mim triste,
claro te vi eu ja, tu a mim contente;
a ti foi-te trocando a grossa enchente
a quem teu largo campo não resiste,
a mim trocou-me a vista em que consiste
o meu vivir contente ou descontente.
Ja que somos no mal participantes,
sejamo-lo no bem. Ó quem me dera
que fossemos em tudo semelhantes!
La virá entam a fresca primavera:
tu tornarás a ser quem eras d’ antes,
eu não sei se serei quem d’ antes era.
FRANCISCO RODRIGUEZ LOBO
[Sidenote: c. 1580-1622]
_149. Vilancete_
Descalça vai para a fonte
Lianor pela verdura,
vai formosa e não segura.
A talha leva pedrada,
pucarinho de feição,
saia de cor de limão,
beatilha soqueixada.
Cantando de madrugada
pisa as flores na verdura,
vai formosa e não segura.
Leva na mão a rodilha
feita da sua toalha,
com uma sustenta a talha,
ergue com outra a fraldilha:
mostra os pes por maravilha
que a neve deixam escura,
vai formosa e não segura.
As flores por onde passa,
se o pe lhe acerta de pôr,
ficam de inveja sem cor
e de vergonha com graça:
qualquer pegada que faça
faz florecer a verdura,
vai formosa e não segura.
Não-na ver o sol lhe val
por não ter novo inimigo,
mas ela corre perigo
se na fonte se ve tal.
Descuidada deste mal
se vai ver na fonte pura,
vai formosa e não segura.
_150. Ja nace o belo dia_
Ja nace o belo dia,
principio do verão formoso e brando,
que com nova alegria
estam denunciando
as aves namoradas,
dos floridos raminhos penduradas,
Ja abre a bela Aurora
com nova luz as portas do Oriente
e mostra a linda Flora
o prado mais contente,
vestido de boninas
aljofradas de gotas cristalinas.
Ja o sol mais formoso
está ferindo as aguas prateadas,
e Zefiro queixoso
ora as mostra encrespadas
á vista dos penedos,
ora sobre elas move os arvoredos.
De reluzente area
se mostra mais formosa a rica praia,
cuja riba se arrea
do alamo e da faia,
do freixo e do salgueiro,
do ulmo, da aveleira e do loureiro.
Ja com rumor profundo
não soa o Lis nos montes seus vizinhos,
antes no claro fundo
mostra os alvos seixinhos
e os peixes que nas veas
deixam tremendo a sombra nas areas.
Ja sem nuvens medonhas
se mostra o ceo vestido de outras cores,
ja se ouvem as sanfonhas
e frautas dos pastores
que vão guiando o gado
pela fragosa serra e pelo prado.
Ja nas largas campinas
e nas verdes decidas dos outeiros
ao som das sanfoninas
cantam os ovelheiros,
em quanto os gados pacem
as mimosas ervinhas que renacem.
Sobre a tenra verdura
agora os cabritinhos vão saltando,
e sobre a fonte pura
passa a noite cantando
o rouxinol suave
com saudoso acento agudo e grave.
Diana mais formosa
sem ventos sobre as aguas aparece,
e faz que a noite airosa
tam clara resplandece
á vista das estrelas
que se envergonha o sol de inveja delas.
Tudo nesta mudança
tambem de novo cobra novo estado,
qual em sua esperança
e qual em seu cuidado
acha contentamento,
qual milhora na vida o pensamento.
_151. Endechas_
Sofrei, coração,
vosso sentimento,
vingai-vos dos olhos
que a culpa tiveram;
quanto milhor fora
enganar ao tempo
que buscar ventura
em gostos alheos!
Para que são bens
que acabam tam presto?
Para que é buscâ-los
quem sabe perdê-los?
Cuidados de longe
matam de mui perto,
que acorda a lembrança
contino o desejo;
amor tam constante
tam mal satisfeito,
fe tam mal pagada
ja agora quebremos:
seca a esperança
cansa o sofrimento,
fiz força atégora
mas ja não me atrevo.
Qualquer sombra van
engana o desejo,
e tudo são sombras,
porque amor é cego.
Ah quem nunca vira
por não ver tam cedo
quantos desenganos
vem sobre um receo.
Ai triste que canso
e não me arrependo
nem deixo meu mal
com quanto o pragueijo!
Gostos, alegrias,
glorias, passatempos,
se vos não possuo
tambem vos engeito:
mais quero meu mal
pelo bem que quero
que a vossos enganos
porque vos conheço;
quero de meus bens
o mal que me veio,
deixai-me sentî-lo
pois tambem vos deixo.
SOROR VIOLANTE DO CEO
[Sidenote: 1601-1693]
_152. Vilhancico_
Saudade minha,
quando vos veria?
Ides-me fugindo,
deixais-me penando,
vos partis triunfando,
eu fico sentindo.
Partis-me partindo
coração e vida;
saudade minha,
quando vos veria?
Quando meu cuidado
verei tam contente
que logre presente
quem choro apartado?
Ai que alegre estado
eu convosco tinha!
Saudade minha,
quando vos veria?
Quando minhas glorias
verei restauradas
sem as ter livradas
só nestas memorias?
Ai quantas vitorias
eu convosco tinha!
Saudade minha,
quando vos veria?
Quando o bem que aguardo
que vos segue amando
verei neste quando
que a ser logo tarda?
Mas se o ceo vos guarda
com tal companhia,
saudade minha
quando vos veria?
D. FRANCISCO MANUEL DE MELO
[Sidenote: 1608-1666]
_153. Soneto_
Quantas vezes conheço o meu cuidado
e contemplo na duvida que o espera,
tantas e muitas mais dele quisera
antes ser despedido que enganado.
Torno a cuidar depois que inda apartado
quem me assegura a mi que o estivera,
se para sempre amar sempre é uma era,
para sempre temer sempre um estado?
Ja propos de passar o mundo a esmo
pois no tempo, lugar, fe, gosto e morte
a fraude é certa e nunca conhecida.
Vos que sabeis de mi mais do que eu mesmo
ensinai-me a viver com minha sorte,
fareis de todo vossas sorte e vida.
_154. Responde a um amigo que mandava preguntar a vida que fazia na sua
prisão._
Casinha despresivel, mal forrada,
treva lá dentro mais que inferno escura,
porta só para entrar, logo fechada,
cama que é potro, mesa destroncada,
pulga que por picar faz matadura,
cão só para agourar, rato que fura,
candea nem com os dedos atiçada;
grilhão que vos asusta eternamente,
negro boçal e mais boçal ratinho,
que mais vos leva que vos traz da praça;
sem amor, sem amigo, sem parente;
quem mais se doi de vos diz: Coitadinho!
Tal vida levo: santo prol me faça!
SOROR MARIA DO CEO
[Sidenote: 1658-1753?]
_155. Dorotea a Teofilo_
D. Adonde vas, o Filo sem ventura,
dize, por este campo descuidado?
T. Vou por aí a zombar de teu cuidado
quando te vejo nessa prisão dura.
D. Ó praza a Deus te piques entre as flores
porque saibas quais são os meus amores.
Adonde vas, pastor sem mais sentido
que o de não ser amante nem amado?
T. A ser na liberdade bem ganhado
só por não ser nas flores bem perdido.
D. Ó praza a Deus que aches entre as rosas
flores ferinas, setas amorosas.
Adonde vas, me dize, e sabe antes
que te murmura aquela fonte pura.
T. Vou a não ter mais fe nesta verdura
que a que ensinam as rosas inconstantes.
D. Ó praza a Deus te digam as boninas
os misterios da fe por rosas trinas.
Adonde vas, pastor sem lealdade,
como quem seu delito não recea?
T. Ao som que me faz uma cadea
vou a cantar de minha liberdade.
D. Ó praza a Deus, pois ouço tal despreso,
que nas silvas das rosas fiques preso.
Adonde vas sem afeição de vida
quando um a vida quer para o que ama?
T. Vou por aí donde a sorte me chama,
a querer só a vida para a vida.
D. Ó praza a Deus te encontre o lobo forte,
dando-te á dura vida doce morte.
Adonde vas, se estrelas superiores
a amar te chamam pelas flores belas?
T. Vou só por desmentir essas estrelas
a pisar vingativo nessas flores.
D. Ó praza a Deus que aches nelas certo
não o aspid dormido, amor desperto!
DOMINGOS DOS REIS QUITA
[Sidenote: 1728-1770]
_156. Á destruição dos templos de Lisboa pelo terremoto_
Por castigar, Senhor, nossos insultos,
os gloriosos templos destruiste:
como a tam grande estrago reduziste
dos proprios santos os sagrados vultos?
Que é isto, imenso Deus, deixas sem cultos
a hostia em que teu puro corpo existe?
Mas o que em nossas culpas só consiste
a causa de segredos tam ocultos!
Para milhor ficarmos advertidos
de nossos atrocissimos pecados
deixaste teus altares destruidos,
pois quisestes, por ver-nos castigados
antes vê-los a cinzas reduzidos
que por nossas ofesas profanados.
ANTONIO DINIZ DA CRUZ E SILVA
[Sidenote: 1731-1799]
_157. Flores tam lindas_
Em seus cabelos
negras violas
tem o meu bem:
nas mãos pequenas
tem azucenas
e lirios cem.
Flores tam lindas
Abril não tem.
Em sua boca
vermelhos cravos
abrir se vem:
purpureas rosas
tem nas formosas
faces tambem.
Flores tam lindas
Abril não tem.
No niveo seo
ó que de flores
brotando vem!
Brancos jasmins,
mil mogorins,
lirios tambem.
Tam lindas flores
Abril não tem.
Flores tam frescas
ó quem colhera!
ó ceos, ó quem!
Mas mil amores
tam frescas flores
em guarda tem.
Quem as colhera!
ó ceos, ó quem!
JOÃO XAVIER DE MATTOS
[Sidenote: † 1789]
_158. Soneto_
Pos-se o sol: como ja na sombra fea
do dia pouco a pouco a luz desmaia!
E a parda mão da noite, antes que caia,
de grossas nuvens todo o ar semea.
Apenas ja diviso a minha aldea,
ja do cipreste não distingo a faia.
Tudo em silencio está: só la da praia
se ouvem quebrar as ondas pela area.
Com a mão na face a vista ao ceo levanto,
e cheo de mortal melancolia
nos tristes olhos mal sustento o pranto:
e se inda algum alivio ter podia
era ver esta noite durar tanto
que nunca mais amanhecesse o dia!
PEDRO ANTONIO CORRÊA GARÇÃO
[Sidenote: 1724-1772]
_159. Cantata_
Ja no roxo Oriente branqueando
as prenhes velas da troiana frota
entre as vagas azues do mar dourado
sobre as azas dos ventos se escondiam.
A miserrima Dido
pelos paços reais vaga ululando:
com os turvos olhos inda em vão procura
o fugitivo Eneas,
só ermas ruas, só desertas praças
a recente Cartago lhe apresenta;
com medonho fragor na praia nua
fremem de noite as solitarias ondas,
e nas douradas grimpas
das cupolas soberbas
piam nocturnas agoureiras aves.
Do marmoreo sepulcro
atonita imagina
que mil vezes ouviu as frias cinzas
do defunto Sicheo com debeis vozes
suspirando chamar: Elisa! Elisa!
D’ Orco aos tremendos numens
sacrificios prepara,
mas viu esmorecida
em torno dos thuricremos altares
negra escuma ferver nas ricas taças,
e o derramado vinho
em pelagos de sangue converter-se.
Frenetica delira,
palido o rosto lindo,
a madeixa sutil desentrançada;
ja com tremulo pe entra sem tino
no ditoso aposento
onde do infido amante
ouviu enternecida
maguados suspiros, brandas queixas.
Ali as crueis Parcas lhe mostraram
as iliacas roupas que pendentes
do talamo dourado descobriam
o lustroso pavez, a teucra espada.
Com a convulsa mão subito arranca
a lamina fulgente da bainha
e sobre o duro ferro penetrante
arroja o tenro cristalino peito;
e em borbotões de espuma murmurando
o quente sangue da ferida salta,
de roxas espadanas rociadas
tremem da sala as doricas colunas.
Tres vezes tenta erguer-se,
tres vezes desmaiada sobre o leito
o corpo revolvendo, ao ceo levanta
os macerados olhos.
Depois, atenta na lustrosa malha
do profugo dardanio,
estas ultimas vozes repetia,
e os lastimosos lugubres acentos
pelas aureas abobadas voando
longo tempo depois gemer se ouviram:
Doces despojos
tam bem logrados
dos olhos meus,
em quanto os fados,
em quanto Deus
o consentiam:
da triste Dido
a alma aceitai,
destes cuidados
me libertai!
Dido infelice
assaz viveu:
de alta Cartago
o muro ergueu.
Agora nua
ja de Caronte
a sombra sua
na barca fea
de Flegetonte
a negra vea
surcando vai!
NICOLAU TOLENTINO DE ALMEIDA
[Sidenote: 1741-1811]
_160. Os toucados altos_
Chaves na mão, melena desgrenhada,
batendo o pe na casa, a mãi ordena
que o furtado colchão, fofo e de pana,
a filha o ponha ali ou a criada.
Á filha, moça esbelta e aperaltada,
lhe diz com a doce voz que o ar serena:
Sumiu-se-lhe um colchão? É forte pena!
Olhe não fique a casa arruinada!
Tu respondes-me assim? Tu zombas de isto?
Tu cuidas que por ter pai embarcado
ja a mãi não tem mãos? E dizendo isto
arremete-lhe á cara e ao penteado;
eis senão quando, caso nunca visto,
sai-lhe o colchão de dentro do toucado!
_161. Deitando um cavalo á margem_
Vai, misero cavalo lazarento,
pastar longas campinas livremente!
Não percas tempo em quanto t’ o consente
de magros cães faminto ajuntamento.
Esta sela, teu unico ornamento,
para sinal de minha dor vehemente,
de torto prego ficará pendente,
despojo inutil do inconstante vento.
Morre em paz! Que em havendo algum dinheiro
hei de mandar em honra de teu nome
abrir em negra pedra este letreiro:
Aqui piedoso entulho os ossos come
do mais fiel, mais rapido sendeiro,
que fora eterno a não morrer de fome.
MANUEL MARIA DE BARBOSA DU BOCAGE
[Sidenote: 1765-1805]
_162. Á lamentavel catastrofe de D. Inés de Castro_
Da triste, bela Inés inda os clamores
andas, echo chorosa, repetindo;
inda aos piedosos ceos andas pedindo
justiça contra os impios matadores;
ouvem-se ainda na Fonte dos Amores
de quando em quando as naiades carpindo;
e o Mondego, no caso reflectindo,
rompe irado as barreiras, alaga as flores;
inda altos hinos o universo entoa
a Pedro, que da morta formosura
convosco, amores, ao sepulcro voa.
Milagre de beleza e de ternura!
Abre, dece, olha, geme, abraça e coroa
a malfadada Inés na sepultura.
_163. Despedidas ao Tejo_
Não mais, Ó Tejo meu formoso e brando,
á margem fertil de gentis verdores,
terás d’ alta Ulissea um dos cantores
suspiros no aureo metro modulando:
rindo não mais verá, não mais brincando
por entre as ninfas e por entre as flores
o coro divinal de nus amores,
dos zefiros azuis o afavel bando.
Com a frente ja sem mirto e ja sem louro
o arrebata de rojo a mão da sorte
ao clima salutar e á margem de ouro:
ei-lo em fraguas de horror, sem luz, sem norte;
soa de aqui, de ali piado agouro:
sois vos, desterro eterno, ermos da morte!
_164. Contraste entre a vida campestre e a das cidades_
Nos campos o vilão sem sustos passa,
inquieto na corte o nobre mora:
o que é ser infeliz aquele ignora,
este encontra nas pompas a desgraça;
aquele canta e ri, não se embaraça
com essas cousas vans que o mundo adora,
este, ó cega ambição, mil vezes chora
porque não acha bem que o satisfaça;
aquele dorme em paz no chão deitado,
este no eburneo leito precioso
nutre, exaspera velador cuidado,
triste, sai do palacio majestuoso:
se has de ser cortesão e desgraçado
antes ser camponez e venturoso!
_165. Á decadencia do imperio portugués na Asia_
Por terra jaz o emporio do Oriente
que do rigido Afonso o ferro, o raio
ao gram filho ganhou do gram sabaio,
envergonhando o deus armipotente;
Caiu Goa, terror antigamente
do naire vão, do perfido malaio,
de barbaras nações! Ah que desmaio
apaga o marcio ardor da lusa gente?
Ó seculos de herois! Dias de gloria!
Varões excelsos que a pesar da morte
viveis na tradição, viveis na historia!
Albuquerque terrivel, Castro forte,
Meneses, e outros mil, vossa memoria
vinga as injurias que nos faz a sorte.
_166. Contrição_
Meu ser evaporei na lide insana
do tropel das paixões que me arrastava:
Ah cego, eu cria; ah misero, eu sonhava
em mim quasi imortal a essencia humana!
De que inumeros sois a mente ufana
existencia falaz me não dourava!
Mas eis sucumbe natureza escrava
ao mal que a vida em sua orgia dana:
prazeres, socios meus e meus tiranos,
esta alma que sedenta em si não coube,
no abismo vos sumiu dos desenganos.
Deus! Ó Deus! Quando a morte á luz me roube,
ganhe um momento o que perderam anos:
saiba morrer o que viver não soube!
JOÃO BAPTISTA, VISCONDE DE ALMEIDA GARRETT
[Sidenote: 1799-1854]
_167. Não es tu_
Era assim: tinha esse olhar,
a mesma graça, o mesmo ar;
corava da mesma cor
aquela visão que eu vi
quando eu sonhava de amor,
quando em sonhos me perdi.
Toda assim: o porte altivo,
o semblante pensativo,
e uma suave tristeza
que por toda ela decia
como um veo que lhe envolvia,
que lhe adoçava a beleza.
Era assim: o seu falar,
ingenuo e quasi vulgar,
tinha o poder da razão
que penetra, não seduz;
não era fogo, era luz
que mandava ao coração.
Nos olhos tinha esse lume,
o seo o mesmo perfume,
um cheiro a rosas celestes,
rosas brancas, puras, finas,
viçosas como boninas,
singelas sem ser agrestes.
Mas não es tu, ai não es:
toda a ilusão se desfez.
Não es aquela visão que eu vi,
não es a mesma visão,
que essa tinha coração;
tinha, que eu bem lh’ o senti!
_168. Os cinco sentidos_
São belas, bem o sei, essas estrelas,
mil cores divinais tem essas flores:
mas eu não tenho, amor, olhos para elas;
em toda a natureza
não vejo outra beleza
senão a ti, a ti!
Divina, ai sim! será a voz que afina
saudosa na ramagem densa, umbrosa;
será: mas eu do rouxinol que trina
não ouço a melodia
nem sinto outra harmonia
senão a ti, a ti!
Respira na aura que entre as flores gira
celeste incenso de perfume agreste;
sei, não sinto: minha alma não aspira
não percebe, não toma
senão o doce aroma
que vem de ti, de ti!
Formosos são os pomos saborosos,
é um mimo de nectar o racimo;
c cu tenho fome e sede, sequiosos,
famintos meus desejos
estam, mas é de beijos
e só de ti, de ti!
Macia deve a relva luzidia
do leito ser por certo em que me deito:
mas quem ao pe de ti, quem poderia
sentir outras caricias,
tocar noutras delicias
senão em ti, em ti!
A ti, ai a ti só os meus sentidos,
todos num confundidos,
sentem, ouvem, respiram,
em ti, por ti deliram,
em ti a minha sorte,
a minha vida em ti,
e quando venha a morte
será morrer por ti!
_169. O Destino_
Quem disse á estrela o caminho
que ela ha de seguir no ceo?
A fabricar o seu ninho
como é que a ave aprendeu?
Quem diz á planta: Florece,
e ao mudo verme que tece
sua mortalha de seda
os fios quem lh’ os enreda?